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26/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):


Heidegger

A verdade é que Heidegger não explica nem como nem porquê acontece o ser. Por outro lado, pergunta-se Alfaro, se é pensável um mero acontecer no que não acontece senão o mero acontecer. O ser de Heidegger ausenta-se e descobre-se, mas isto é liberdade ou é destino? É pessoal o impessoal? Finito o infinito? É transcendência plena e fundadora dos entes ou meramente pensada? Estas são as perguntas de Alfaro. O ser de Heidegger é absolutamente indeterminado, esse é o problema, e haverá que perguntar-se se, tal indeterminação, não é um mero correlato da consciência humana. Noutros termos, haverá que perguntar-se se com Heidegger seguimos todavia na fenomenologia sem chegar ao em si.

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

25/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

Heidegger
Mas, qual é esse ser de Heidegger? O ser, enquanto tal, não depende do homem nem é um produto ou projecto do homem. Diz Alfaro interpretando Heidegger: «melhor, é o homem que existe como projecto do ser, como fundamentalmente aberto ao ser e interpelado por ele a guardar a verdade do ser. Este é o sentido da frase de Heidegger "o homem é o pastor do ser».
No seu intento por «mostrar» a noção de ser, Heidegger parte da diferença ontológica entre o ser e os entes. O ser não é nem um ente, nem um constitutivo dos entes, nem a totalidade dos entes; não é nem Deus nem um fundamento último do mundo. Os entes provêem do ser, não mediante uma causalidade eficiente, mas enquanto são tais, graças à iluminação (Lichtung) do ser; quer dizer, o ser é a luz que tira os entes do seu anonimato e se torna assim presente a eles como seu fundamento transcendente. Esta relação do ser com os entes pertence internamente ao mesmo ser.
O ser esconde-se e descobre-se nos entes; é algo que acontece por pura iniciativa enquanto se descobre e encobre. O ser não pode ser pensado senão como mero acontecer. O homem não pode provocar por si mesmo a vinda do ser enquanto tal, mas unicamente aguardar a sua vinda e estar atento à sua voz. A interpretação do ser está ainda por fazer-se e é um enigma.

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

24/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

D) Heidegger

Em Heidegger o fenomenológico remonta à experiencia e ao sentido do ser. Se Heidegger estuda as dimensões existenciais do homem (Sein und Zeit) e a linguagem (Unterwegs zur Sprache) é porque nestas se revela o ser. Heidegger, queixando-se de que a metafísica se tivesse dedicado ao estudo dos entes, propugna superar o esquecimento do ser e abrir-se ao sentido do ser. Há uma diferença ontológica entre os entes e o ser. A questão heideggeriana versa sobre o ser dos entes. Os entes são-no graças ao ser. Se se parte do homem, é porque este é o único ser capaz de se interrogar pelo seu próprio ser e pelo ser dos entes. O homem é precisamente Dasein, porque nele se revela o Sein.
A questão do nada é o contraponto do ser: a experiencia do nada provem de que os entes não são o ser. O nada é o véu do ser, e é, por si mesmo, o caminho que abre o homem à experiencia do ser. O homem transcende os entes enquanto está aberto ao mundo e, através do mundo, ao ser. O homem transcende os entes e supera-os conferindo-lhes inteligibilidade, projectando sobre eles a luz do ser.

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

23/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância

Husserl

Evidentemente, pensamos nos outros que é claro que o homem pode carregar de significado as coisas, mas o significado acrescenta-se ao ser objectivo que as coisas têm. O relógio que possuo sobre a mesa pode ter um significado muito pessoal para mim porque é uma recordação do meu pai, mas não deixa de ser um relógio. O significado que o sujeito da não pode substituir a realidade objectiva das coisas. O objecto não é puro correlato da minha consciência. Quando capto que há algo, quero dizer que face a mim há uma realidade que se diferencia do meu eu como subjectividade. Dizer que há algo significa que há uma excepção ao nada, algo que existe e que está aí, um ser subsistente, uma substancia em virtude da qual sei que existia antes que eu o conhecesse. Tenho a certeza de que aí há algo temporalmente anterior ao meu conhecer, porque a capto como subsistente, como uma substancia. Há que voltar ao realismo puro, para constatar: aí há uma realidade. O ser em geral não existe.
Mais adiante veremos que Zubiri não chega à substância, fica-se na fenomenologia.
josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.



22/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância

Husserl

Sem a intencionalidade cognoscitiva não se pode falar de objecto ou de essência de um objecto. O objecto, portanto, não é um objecto em si, senão o objecto percebido. O que Husserl pede é a suspensão da crença na realidade em si com a sua famosa colocação entre parêntesis. O mundo não tem sentido senão em relação a mim. Diz assim Dartigues:
«Esta afirmação do mundo como fenómeno, quer dizer, como não tendo sentido senão na sua manifestação na vivência, condiz com a atitude de Descartes. Tanto para Husserl como para Descartes o "eu penso" é a primeira certeza a partir da qual é preciso obter as restantes certezas».
É verdade que em Descartes o ponto de partida é o ego cogito e em Husserl o «ego cogito cogitatum; mas em todo caso não saímos do idealismo. Esta foi a chave da decepção da discípula de Husserl, Edith Stein. Segundo esta filosofia a árvore percebida só existe enquanto percebida. A fenomenologia, em todo caso, o que faz é substituir a substancia, o em si, pelo sentido e o significado.

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

21/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância

Husserl

O método descritivo exigia o seu próprio fundamento radical. Para chegar ao princípio epistemológico capaz de salvar a filosofia de todo o naturalismo, era necessário por entre parêntesis a vida natural, sustentada por uma proto-crença na realidade natural das coisas. Este colocar entre parêntesis inclui o meu próprio eu, tornando possível a experiencia da realidade como fenómeno. O mundo fica assim reduzido a não ser senão o que aparece à minha consciência, fica reduzido a correlato da mesma. O fáctico foi reduzido assim ao eidético, ao essencial, e com isso conseguiu-se a medida universal de todo o conhecimento verdadeiro, a possibilidade de ulteriores conhecimentos verdadeiros e fundados. Assim, o mundo não é negado mas recuperado numa perspectiva transcendental. O sujeito não cria o mundo, fá-lo existir como fenómeno. O sujeito faz com que o objecto se me manifeste a mim no que é. Só desde mim e enquanto manifestado a mim, tem validade ao que chamamos o ser das coisas. A função da fenomenologia não é explicar o mundo pelas suas causas mas compreender o que é. E o que é só pode ter sentido numa correlação ao sujeito cognoscitivo.
Isto poderia, em todo caso, ser chamado idealismo transcendental no sentido de que o que a consciência faz é fundar a possibilidade da manifestação do objecto intencional, tal como este é em si mesmo. A consciência funda desde si mesma a manifestação do objecto, é um acto que desde si mesmo abre o área de sentido do objecto. Que o objecto seja sentido noemático depende da consciência que é um acto significante. O ser das coisas não é a sua existência ou sua realidade mas o seu sentido, e este sentido é ser um correlato da consciência fundacional.

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

20/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância

C) Husserl

O defeito que por seu lado teve a fenomenologia de Husserl foi o de converter a realidade em puro correlato de meu conhecer. A intencionalidade em Husserl aponta ao objecto, à intenção da essência; mas o objecto não pode ser definido senão em relação com a consciência: é mero correlato do sujeito cognoscitivo. Só tem sentido de objecto para uma consciência. A essência é sempre termo de um objectivo de significado.
Esta consciência ou pólo subjectivo (noesis) não se soma numericamente ao pólo objectivo. É uma operação constituinte do sentido do dado, é doação de sentido (Sinngebutig) ao dado, constituindo este num significado ideal (noema) e tirando-o do seu ingénuo realismo.
Com isto chega-se ao momento mais importante da fenomenologia husserliana. Trata-se de algo já presente de modo inicial nas primeiras obras de Husserl e que constitui o valor metafísico da sua filosofia, algo que possibilita todas as pretensões da mesma: trata-se da redução fenomenológica (epoché). Aparecerá como uma volta ao idealismo nalguns dos seus discípulos (E. Stein, A. Reinach) que mostravam inclinação pelo realismo da «contemplação das essências».

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

19/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância
Kant
Ora bem, Kant não pode montar o seu sistema sem cair em contínuas contradições. Uma de duas: ou os fenómenos são existentes e então têm uma subsistência própria o noumeno, o não o são, e então são nada. De facto, apesar de que Kant diz constantemente que não podemos conhecer o noumeno, às vezes supõe-no. Mas como diz Vemeaux, «se não se sabe nada das coisas, é melhor calar». Kant chega inclusive a afirmar que o noumeno é causa dos fenómenos, admitindo assim um tipo de causa objectiva que contradiz a categoria formal a priori da causa. Acudir, por outro lado, aos esquemas transcendentais como mecanismo de aplicação exacta das formas a priori à informação sensível que recebemos de fora é um recurso que fica inexplicado e que soa a ciência-ficção. Como diz Vemeaux, «quando as formas são actualizadas, a sua aplicação aos fenómenos é estritamente arbitrária, já que os dados sensíveis são amorfos por hipótese».
Às vezes pergunta-se com Gilson se os seguidores e admiradores de Kant crêem de verdade na sua teoria do conhecimento e das formas a priori. Gilson pergunta-se: Quantos professores de filosofia poderíamos encontrar hoje que aceitem como válida a tabela de categorias de Kant? Então, porque se segue tanto Kant? E responde o próprio Gilson: pelo que Kant representa, porque em Kant é o eu o que toma o lugar de Deus criador'"'.
josé antonio sayés, [i] trad ama,



[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

18/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância
Kant
Como diz Verneaux, «a unidade e a necessidade do conhecimento, segundo Kant, não podem provir da experiencia: portanto estes caracteres derivam da razão que a priori possui a forma do conhecimento. Kant admite como evidente que os conceitos são a priori» ' O meu conhecimento não pode regular-se pela natureza dos objectos, logo há-de de reger-se pelas categorias a priori. Kant desconhecia a teoria tomista da abstracção. Como diz Verneaux, que face a Kant apresenta o realismo do conhecimento, «a negação de toda intuição intelectual em Kant parece-nos o ponto decisivo de toda discussão do kantismo».
É aí onde se joga o destino da metafísica. E continua Verneaux: «porque o conceito, como todo o acto de conhecimento, é intencional. Não é uma coisa arbitrária, pintura, símbolo de outra coisa, senão o meio de conhecer a coisa, uma intenção para com o objecto. É o que poderíamos chamar um conceito aberto ou transparente. Pelo seu conceito, pois, a inteligência visualiza um objecto. O conceito tomado como sujeito de um juízo representa essa coisa segundo um dos seus aspectos. O juízo consiste em completar um sujeito referindo-lhe outro carácter que se percebe no objecto, já imediatamente por intuição, já por meio de raciocínio».
josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

17/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância

B) Kant

O problema de Kant é, nem mais nem menos, que a pretensão de fazer filosofia sem contar com o noumeno, com o em si, de modo que a metafísica se converte em epistemologia.
Das coisas não conhecemos mais que a manifestação sensível que captamos pelos sentidos, mas não o noumeno, não o em si. Kant diz assim: «da coisa só conhecemos os fenómenos, deixando-nos sem conhecer a coisa em si, por mais que para si mesma seja real».
Os nossos conceitos não os formamos, em consequência, a partir do em si das coisas, senão aplicando as categorias à priori à informação sensível e caótica que recebemos pelos sentidos. Com efeito, Kant, que queria dar à filosofia um rigor científico como o que possuía a ciência física de Newton, colocou-se o problema de fundamentar os juízos sintéticos à priori que são os que fazem avançar o conhecimento, posto que neles se torna a síntese do universal e do particular.
Ora bem, posto que o universal não pode proceder do particular, haverá que alojá-lo no a priori das categorias da consciência. Diz assim Kant: «os conceitos empíricos e o seu fundamento, o seja a intuição empírica, nunca podem fornecer-nos mais proposições sintéticas que as puramente empíricas, quer dizer, experimentais e que por conseguinte não podem nunca conter necessidade e absoluta universalidade». Não se pode sacar da experiência uma proposição universal ".

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

16/10/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Filósofo
Rembrandt

Princípio da substância (II):

O esquecimento da substância

A) Analítica da linguagem

A analítica da linguagem, por exemplo, exclui a metafísica enquanto rejeita que seja uma ciência que se ocupa da realidade enquanto realidade. A metafísica não tem uma parcela própria, antes consiste na análise do sentido da linguagem falada. O chamado círculo de Viena (C. M. Schlick, R. Camap, O. Neurath, V. Kraft, etc.) não aceitava em princípio como frases significantes senão aquelas que tivessem um conteúdo empiricamente verificável, como são as frases das ciências experimentais, ou um conteúdo tautológico como é próprio da linguagem formal das matemáticas. O caso é que o princípio de que só faz sentido o que é empiricamente verificável é um princípio que, em si mesmo, não é empiricamente verificável; dito de outro modo, é um princípio metafísico de valor absoluto, porque está fundado sobre a afirmação do ser em si. É curioso que, para negar a metafísica, é preciso ser metafísico.
Com efeito, não faremos uma afirmação absoluta senão afirmando ou negando o ser em si: «isto é ou não é real», «tem ou não tem entidade», «é ou não é em si significativo». Abandonemos a referência ao real e já não poderemos falar.
É certo que, numa segunda fase e sob a influência do segundo Witgenstein, os analistas abriram o campo do significado das palavras. As palavras estão agora legitimadas pelo uso. Há diferentes jogos de linguagem que são como âmbitos de linguagem (linguagem das mate­máticas, do futebol) nos quais cada palavra tem um significado concreto legitimada pelo uso. É o uso o que legitima o significado das palavras. Cabe por isso falar de Deus, pois é um termo que está legitimado pelo uso em determinados jugos de linguagem. São muitos os analistas que trataram de legitimar a linguagem religiosa com este procedimento.
Ora bem, isto não significa nada sobre a existência objectiva de Deus; significa simplesmente que se fala de Deus, que falar de Deus tem sentido. Este é o drama de uma filosofia que não pode estabelecer a existência objectiva de Deus e nem sequer a transcendência espiritual do homem, pois é uma filosofia que carece de metafísica.

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

18/09/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Caminho e Luz

Princípio de substância (I)

A substância
Com efeito, o grande equívoco de Descartes consistiu não por como fundamento o «cogito», pois esqueceu que não poderia ter dito «eu penso», se previamente não se tivesse captado como realidade pensante. Já São Tomás o tinha dito. O que captamos primeiro é isto: «aí há uma realidade» ou «eu sou uma realidade»; O que conhecemos primeiro é sempre que há uma realidade (a própria ou a alheia, é indiferente).
Não há conhecimento se não se nos torna patente o real como real. O conhecimento, antes de mais, é conhecimento de algo, enquanto conhecer o conhecimento é uma reflexão posterior, que vem, em todo o caso, depois. Primeiramente o homem capta a realidade; logo, os adjectivos que a especificam.
O facto de que há coisas e o facto de que eu mesmo sou uma realidade resulta tão evidente, que seria absurdo querer demonstrá-lo. Gilson escreveu acertadamente: «as dificuldades só começam quando o filósofo se empenha em transformar esta certeza numa certeza de natureza demonstrativa, que seria a obra do intelecto».

josé antonio sayés, [i] trad ama,



[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

17/09/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Caminho e Luz

Princípio da substância (II):



O esquecimento da substância


Vimos que realmente não se pode demonstrar que há realidades. Isto é uma evidência. O que cabe fazer é comprovar as consequências que no campo da filosofia tem o esquecimento da substancia e, com isso, advertir as incongruências em que se cai.




josé antonio sayés, [i]  trad ama,



[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

16/09/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Caminho e Luz

Princípio de substância (I)

A estrutura do juízo


Ser algo comporta uma identidade consigo mesmo dentro dos limites próprios e por isso uma diferenciação do que está fora dos ditos limites, quer dizer, das outras realidades. A mesma etimologia de algo (aliguid = alud quid) implica um quid (identidade) e um aliud (diferenciação dos outros).
Se diferencia de tudo, incluindo o sujeito preceptor. É portanto uma realidade objectiva (obiectum).
Por o facto de ser algo, uma realidade, não é outras realidades. Outros entes poderão ter a mesma essência, mas ao ser outras realidades já são diferentes. Simplesmente, tudo aquilo que é uma realidade, algo, revela identidade entitativa dentro dos limites próprios e portanto se diferencia de todos os outros seres. Ser algo é uma possessão parcial do ser e portanto se diferencia de todas as outras partes do ser que existem. A limitação e a absolutez que implica são dos aspectos da realidade que conhecemos. Mas não dos co-princípios na composição real.

josé antonio sayés, [i] trad ama,


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

15/09/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Caminho e Luz

Princípio de substância (I)

A estrutura do juízo

Por sua vez, a noção de algo é, como tal, noção abstracta, válida para todas as coisas. Todavia, na sua condição de noção abstracta, não desfigura a realidade concreta. Quer dizer, a noção de algo não diz só absolutez do ser, numa abstracção que já não representa as coisas concretas, mas que diz absolutez e parcialidade do ser, e por ele designa perfeitamente a realidade concreta que está à minha frente, porque é uma realidade que, na sua singularidade concreta, se opõe ao nada absoluta e parcialmente.
A noção de algo, na sua abstracção, reflecte a realidade concreta que temos frente a nós, porque reflecte tanto a absolutez como a limitação entitativas que encerram as coisas singulares que encontramos. Numa palavra, com este conceito capto a realidade que há à minha frente na sua entidade singular, na sua concreção entitativa, porque capto ao mesmo tempo a absolutez e a limitação do seu ser. Capto que, à minha frente, há uma realidade que, na sua singularidade concreta, rejeita o nada absoluta e parcialmente. Isso é o que quero dizer quando digo: aí há algo.
Esta delimitação que temos de facto a respeito da noção de ser há que fazê-la também a respeito dos outros transcendentais: verum, bonum, etc., dizendo que a metafísica atende também a tudo aquilo que na sua concreção é bom e verdadeiro.

josé antonio sayés, [i] trad ama,



[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

14/09/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Caminho e Luz

Princípio de substância (I)

A estrutura do juízo
Vejamos agora o juízo existencial. Comecemos por este juízo: «o homem existe». O que é o que fazemos neste juízo? O que há que dizer em primeiro lugar é que o juízo «o homem existe» é absolutamente equivalente ao juízo «o homem é uma realidade». Este último juízo tem perfeito sentido, o mesmo sentido que o primeiro. A prova é que na conversação normal serve para recalcar a existência dalgo. Se eu digo: «os extraterrestres existem» e provoco perplexidade ou incerteza nos que me escutam, posso recalcar a ideia dizendo: «sim, os extraterrestres são uma realidade».
Ora bem, dizer de uma coisa determinada que é uma realidade, é cometer uma tautologia? Não absolutamente. Quando no juizo existencial afirmo «o homem existe», tomo o sujeito «homem» não como uma realidade mas como uma essência. Sei perfeitamente o que é ser homem: animal racional; mas não sei se existe, não sei se é uma realidade. Então, o que faço no juízo «o homem existe» ou «o homem é uma realidade» é atribuir a realidade a uma essência. Quer dizer, o que faço aqui é o contrário ao que fazia no juízo essencial. No juízo essencial «Pedro é homem» atribuía a essência de homem à realidade de Pedro conhecida só como realidade. Agora, o que faço no juízo existencial é atribuir a realidade a uma essência conhecida como essência. O juízo existencial predica, portanto, a realidade de uma essência. No juízo existencial dá-se também a verdade, no quanto no que nele se adequa à realidade a uma essência.

josé antonio sayés, [i] trad ama,



[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.

13/09/2011

Princípios filosóficos do Cristianismo

Caminho e Luz

Princípio de substância (I)

A estrutura do juízo
O juízo pode ser certamente essencial e existencial. Juízo essencial é este: «Pedro é um homem». Juízo existencial é aquele que se limita a dizer de um sujeito que existe: «Pedro existe». Analisemos, pois, estes dois juízos com o fim de ver se o verbo ser como existência pode ser ou não predicado. Comecemos pela análise do juízo essencial.
No juízo essencial «Pedro é homem», atribuirmos a essência de «homem» a um sujeito conhecido já como realidade, conhecido como algo. Este juízo implica que conhecemos já a realidade de Pedro como tal realidade. Já sabemos que Pedro é algo, uma realidade, uma substância. Com efeito, se à pergunta O que é Pedro?, respondo dizendo que Pedro é algo, uma realidade, cometo uma tautologia. Já sabíamos que Pedro era uma realidade, que Pedro era algo. O que quero saber neste juízo é que tipo de realidade é. Assim pois, o sujeito deste juízo é «a realidade de Pedro» (Pedro enquanto realidade) e o predicado é a essência de homem. Neste juízo, por consequência, prega-se uma essência de uma realidade, conhecida previamente como realidade. Nele se estabelece a verdade essencial: é verdade que Pedro é homem. Há adequação de uma essência a uma realidade, a uma substância.
Uma variedade do juízo essencial é aquele juízo no qual se fala de uma realidade já conhecida como realidade, ou melhor, uma propriedade essencial, ou antes uma nota acidental. Se eu digo «Pedro é de cor branca», estou dizendo na realidade: «Pedro é um homem branco». Trata-se de uma determinação ulterior da essência de homem que atribuímos à realidade de Pedro.

.josé antonio sayés, [i] trad ama, 20011.07.30


[i] Sacerdote, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia fundamental na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha.
Escreveu mais de quarenta obras de teologia e filosofia e é um dos Teólogos vivos mais importantes da Igreja Católica. Destacou-se pelas suas prolíferas conferências, a publicação de livros quase anualmente e pelos seus artigos incisivos em defesa da fé verdadeira.