22/09/2021

NUNC COEPI Publicações em Setembro 22

  



Quarta-Feira 

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

 

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

Propósito: Simplicidade e modéstia.

Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.

Lembrar-me: Do meu Anjo da Guarda.

Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de corres-pondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos. 

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?

 


LEITURA ESPIRITUAL

 

Evangelho

 

Jo XV, 1-27

 

A videira e as varas

1 «Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. 2 Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. 3 Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado. 4 Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. 5 Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. 7 Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. 8 Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos.» 9 «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor. 10 Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor. 11 Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa.

 

Caridade fraterna

12 É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. 13 Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos. 14 Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15 Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai. 16 Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. 17 É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros.»

 

Ódio do mundo

18 «Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a mim. 19 Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. 20 Lembrai-vos da palavra que vos disse: o servo não é mais que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também vos hão-de perseguir a vós. Se cumpriram a minha palavra, também hão-de cumprir a vossa. 21 Mas tudo isto vos farão por causa de mim, porque não reconhecem aquele que me enviou. 22 Se Eu não tivesse vindo e não lhes tivesse dirigido a palavra, não teriam culpa, mas, agora, não têm escusa do seu pecado. 23Quem me odeia a mim odeia também o meu Pai. 24 Se, diante deles, Eu não tivesse realizado obras que ninguém mais realizou, não teriam culpa; mas agora, apesar de as verem, continuam a odiar-me a mim e ao meu Pai. 25 Tinha, porém, de se cumprir a palavra que ficou escrita na sua Lei: Odiaram-me sem razão.» 26 «Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai, Ele dará testemunho a meu favor. 27 E vós também haveis de dar testemunho, porque estais comigo desde o princípio.»

 

Comentário

 

Todos compreendem estas imagens usadas por Cristo. Não é necessário ser agricultor para saber que um ramo qualquer separado do tronco não serve para nada e acaba por secar. E, a razão porque tal acontece é compreendida por todos: o ramo vive enquanto recebe a seiva que corre no tronco. Separados de Cristo, a Sua Palavra, que é a seiva que alimenta a vida, deixa de correr em nós, alimentar a nossa alma e, o resultado é o mesmo, mortos espiritualmente, não servimos para nada. O que se pode concluir, sem esforço, é que a nossa união com Deus é vital para a nossa própria sobrevivência. Unidos a Ele, viveremos uma vida com sentido e com proveito donde que, o contrário, isto é, separados d’Ele, acabamos por morrer por não ter qualquer préstimo.

Pela segunda vez este ano a Liturgia apresenta este trecho de São João e, parece-me que a razão se compreende com facilidade: A Igreja quer chamar-nos a atenção para a necessidade de uma constante revisão de vida, para um exame cuidado e sério do nosso comportamento como cristãos. O que temos que conservar e desenvolver e o que não interessa e convém deixar.

É bem de ver que podar as videiras é uma tarefa absolutamente necessária para não só manter a saúde e o vigor das plantas, como para garantir frutos abundantes e de bom calibre. Abandonada, a videira continuará a dar frutos mas, em pouco tempo, este tornam-se enfezados e sem qualquer préstimo e a própria videira crescerá sem forma, num emaranhado de ramos e folhas que acabarão por abafar as outras plantas que estiverem próximo. Assim connosco, os cristãos, temos de "podar" quanto não presta ou está a mais na nossa vida, mantendo o vigor e a saúde da nossa alma para que as obras sejam boas, dêem os frutos que O Senhor legitimamente espera colher. Por vezes pode custar esse corte, essa "limpeza" desses inúmeros "ramos" que são os desejos de ter, os atilhos que nos prendem a coisas supérfluas, o lastro que vamos acumulando que nos pesa e tolhe. Mas vale a pena! As importantes declarações de Jesus unem indissoluvelmente o amor e a alegria. Não é possível existir uma sem o outro e compreende-se bem porquê: A alegria que o amor – verdadeiro, sincero, total – produz no ser humano, é de tal forma visível, palpável, que não há quem se atreva a negá-lo. O inverso, infelizmente, é bem verdadeiro, sem amor o homem vive mergulhado na tristeza e não é, de modo nenhum, e um ser completo porque Deus criou-nos para amar. Há quem aduza que todos os amores humanos por honestos, verdadeiros, puros, que possam existir não se podem comparar com o Amor de Deus porque Ele É O Amor! Mas Cristo diz o contrário, que o amor é só um, o que vale, o que interessa: O Amor do Pai pelo Filho e, sendo assim, é este Amor que devemos perseguir com afinco para atingirmos aquela alegria de Cristo, sumo bem e consolação. Por isso mesmo nos diz categoricamente: «o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». Amar como Jesus pede é possível? Temos de convir que sim ou ele não o teria pedido. Aliás, faz mais que um pedido, dá uma instrução, uma regra. Sem amor, que interessa a vida? Como são possíveis as boas obras? Quem ama está por natureza definitivamente empenhado no que ama. É o que mais quer, o que mais entranhadamente deseja porque o tem como um autêntico bem que não pode desperdiçar. Não tenhamos medo do amor e de o demonstrar com palavras e com obras.

Alegria, alegria... É principal característica dos filhos de Deus porque a alegria nasce do amor e os filhos de Deus são reconhecidos exactamente pelo amor que os une entre si, a todos os homens, a Deus. Tudo começa na extraordinária noite do nascimento de Cristo em que os Anjos do Céu anunciam aos pastores de Belém «uma grande alegria». Esta alegria incomensurável perdurará para sempre até ao final dos tempos e, depois, continua no Céu no gozo da presença de Deus. Qual é o “motor” da alegria? O amor! Alguém que ama – verdadeiramente ama – tem de ser uma pessoa alegre porque não há forma de se poder amar como convém – isto é, totalmente – sem essa alegria que vem de dentro, do mais fundo do coração. E isto - perdoe-se-me – não é poesia, mas uma realidade. Jesus Cristo declara-se alegre, totalmente alegre, o que é natural porque o Seu Amor é total, não tem nem condições nem limites.

O Senhor confirma aos Seus Apóstolos, para que não lhes restem quaisquer dúvidas, que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade dará testemunho, confirmará por assim dizer, quanto Ele lhes disse e ensinou. E o mesmo Espírito Santo lhes dará as luzes que possam necessitar para compreender o que ouviram. Só agora, o Senhor lhes diz isto porque, como disse e é absolutamente lógico, tudo ouviram directamente da Sua boca enquanto esteve com eles Talvez que o maior bem que nos foi alcançado por Jesus Cristo seja o ter-nos retirado do mundo, isto é, pertencendo ao mundo sem ser mundanos. Isto significa que a podemos viver perfeitamente a nossa vida espiritual que é, no fim e ao cabo, a nossa íntima relação com Deus, vivendo onde temos de viver nos ambientes e circunstâncias que cabem a cada um. Não precisamos retirar-nos para viver uma intensa vida de piedade, de amorosa " ligação " com a prática da nossa fé, ser santos. Santos no meio do mundo! Esta maravilhosa realidade foi-nos dada por Jesus que, sem qualquer mérito da nossa parte, nos proporciona quanto precisamos para a atingir.

Jesus Cristo que É a VERDADE, não podia enganar-nos, com promessas, “futuros cor-de-rosa”, vidas cheias de bons momentos e futuros risonhos. Bem ao contrário, diz sem rebuços tudo quanto irá acontecer aos que decidirem segui-Lo e espalhar o Reino de Deus pela terra. Não só no futuro imediato, mas ao longo de todos os tempos, como bem vemos agora. Não parece apelativo este convite a segui-Lo, mas, a verdade, é que não faltaram – nem faltarão nunca – quem se decida por esse caminho e, o que parece ser um contra-senso é na verdade, uma escolha de extraordinária eficácia. Ninguém gosta de sofrer, mas, se for preciso passar dificuldades, amarguras, maus tratos e, até sacrificar a própria vida pela “causa” Divina haverá sempre quem escolha esse caminho porque sabe que, o prémio vale bem tudo isso. O que o Senhor tem reservado para quem O segue é um bem incomensuravelmente maior que qualquer contratempo, dificuldade ou obstáculo. E, com Ele, depositando n’Ele inteira confiança que nunca nos faltará com o Seu auxílio, vale bem a pena percorrer esse caminho.

Na verdade, quando Deus "decidiu" salvar a humanidade, recuperando os filhos perdidos pelo pecado de Adão, fá-lo para sempre. Não admira, o homem está feito para a eternidade. Primeiro Deus Pai envia os profetas e estabelece alianças com o povo escolhido; logo Deus Filho toma a forma humana gerado no seio puríssimo da Santíssima Virgem e vive entre os homens, fisicamente, durante trinta e três anos, entregando o penhor dessa vida eterna, ensinando os meios para a conquistar, depositando nas mãos de Pedro à chaves do Reino de Deus e, depois, já legitimados como autênticos filhos de Deus, vem Deus Espírito Santo para confirmar na fé, consolidar a esperança e fortalecer o amor e, finalmente, ficar connosco até ao final dos tempos assistindo-nos com os Seus Dons inefáveis. Temos forçosamente de concluir que Deus não nos abandona nunca e que o Seu gozo e alegria é que vivamos esta vida terrena de tal forma que possamos merecer gozar a Sua presença por toda a eternidade.

Jesus sublinha uma vez mais que sem Ele nada podemos fazer. E como proceder? Estando unidos a Ele. Não há outro processo ou alternativa. Unidos a Cristo como os ramos à videira podemos tudo mesmo o que aparentemente é impossível. Jesus dá este exemplo muito gráfico da videira e dos sarmentos para ”reforçar” a absoluta necessidade que temos de estar unidos a Ele, o que temos a ganhar e o que perderemos se o não estivermos. O que andam a fazer no monte as ovelhas sem pastor? Andam perdidas e sem rumo em busca das melhores pastagens que, sem a ajuda do pastor, serão muito difíceis de encontrar. Andarão perdidas e sem rumo podendo precipitar-se num barranco que não adivinham ou entrar no território perigoso do lobo que está sempre à espreita. Sim! Unidos a Cristo com firmeza e determinação e, sobretudo, com toda a confiança na Sua pronta e eficaz assistência em caso de necessidade. Todos entendemos bem estas imagens de que o Senhor se serve para nossa doutrina. Podemos não ser “agricultores experimentados”, mas sabemos o suficiente para compreender que um ramo só pode produzir frutos se estiver ligado ao tronco. O nosso “tronco” é Jesus Cristo, que mergulhado na nossa humanidade por vontade própria – por Amor – nos garante a seiva, o alimento necessário para que não só vivamos, mas, sobretudo, para que frutifiquemos. E… que frutos são esses? Nada mais que as boas obras que praticamos e, estas, não são outra coisa que o cumprimento da Vontade de Deus. São João, com o estilo que lhe é próprio, reproduz as palavras de Jesus Cristo que nos parece estar a ouvir o Senhor a explicar-nos com singela simplicidade o que significa ser cristão: [1] ESTAR UNIDO A CRISTO! Evidentemente que sabemos muito bem que somos cristãos pela força da graça infundida no Baptismo mas, do que falamos é viver como cristãos e tal não é possível sem essa união íntima, sólida, constante como os sarmentos em relação à vide. Então, compreendemos bem, que tal como a vide só está “completa” com os sarmentos a ela unidos, também nós só estaremos “completos” se unidos a Cristo.Sem esta união somos incapazes de dar qualquer fruto aproveitável porque, de facto, Quem os produz é o Próprio Cristo por nosso intermédio, como instrumentos Seus para espalhar por toda a parte o Seu Reino de Paz e Amor.

As palavras de Cristo segundo Ele próprio são «espírito e vida» e, segundo o príncipe dos Apóstolos são «palavras de vida eterna». As duas afirmações completam-se admiravelmente não sendo necessárias mais explicações. Ouvindo Cristo, guardando as suas palavras temos quanto precisamos para viver esta vida de forma a ganhar a vida eterna. Há algo neste trecho de São João: «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós» que é tão sério e importante que não podemos deixar de reflectir detidamente. O amor que Cristo nos tem é igual ao amor que Deus Pai tem por Deus Filho?! Então… é um amor imenso, sem medida nem comparação possível. Vemos as “consequências” desse amor: dar a vida por nós! O Senhor quase que resume todas as Suas recomendações numa única: «É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». Esforçar-se por cumprir este mandato é, pois, o segredo da nossa salvação.

 

(AMA, 1998)      

             


 

FAMÍLIA

 

2. Significado e extensão do quarto mandamento

 

4. Deveres dos pais

 

São importantes, mas não absolutos, os laços familiares. Quanto mais a criança cresce para a maturidade e autonomia humanas e espirituais, tanto mais a sua vocação individual, que vem de Deus, se afirma com nitidez e força. Os pais devem respeitar este chamamento e apoiar a resposta dos filhos para o seguir. Hão-de convencer-se de que a primeira vocação do cristão é seguir Jesus (cf. Mt 16,25): “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim” (Mt 10, 37) (Catecismo, 2232). A vocação divina de um filho para realizar uma peculiar missão apostólica, supõe uma dávida de Deus para a família. Os pais hão-de aprender a respeitar o mistério do chamamento, embora possa acontecer que não o entendam. A abertura às possibilidades que abre a transcendência e o respeito pela liberdade fortalecem-se na oração. Assim, evita-se a excessiva protecção ou o controlo indevido dos filhos: um modo possessivo de actuar que não ajuda o crescimento humano e espiritual

 


REFLEXÃO

 

Dons do Espírito Santo


Como viver sem eles?

1


Não tenho uma resposta porque na realidade não sei.

Considero-me credor de imensos dons que ao longo da minha vida fui recebendo, mas, na verdade, sinto que nos últimos tempos têm sido abundantes e de tal forma sensíveis que, também não tenho dúvidas, se tem operado uma notória transformação em mim, na minha vida. Julgo sinceramente que para melhor.

Como tenho a certeza que como tal não se deve a qualquer mérito da minha parte só posso concluir que o Senhor me tem reservado algo que não sei o que possa ser.

Espero pela santidade, quero definitivamente ser santo!

Parece-me viver uma outra vida, não uma vida dupla, mas única, uma só.

Estou a tornar-me num "místico? Talvez, mas não me assusta.

Deveria? Rezo não mais que antes, mas talvez reze melhor, sinto-me cada vez mais íntimo do Senhor.

Quanto devo? Sim, assusta-me um pouco a dimensão da dívida.

Como pagar? Não me parece que deva ser uma preocupação porque não me ocorre sequer que o Senhor dá com o objectivo de receber. Não!

Dá para que os Seus filhos possam cumprir melhor a Sua Vontade por­que sabe muito bem que por nós próprios não conseguiríamos. Mas saber que no fundo não existe dívida a pagar não exime que não se agradeça bem pelo contrário quanto mais se recebe mais se deve agradecer.

A gratidão é um sentimento de grande beleza e dignidade e ser grato traz uma satisfação íntima muito real e concreta.

 

(AMA, 2020)

 


SÃO JOSEMARIA – textos

 

Devemos também contar com quedas e derrotas

Se fores fiel, poderás chamar-te vencedor. Na tua vida, mesmo que percas alguns combates, não conhecerás derrotas. Não existem fracassos – convence-te –, se actuares com rectidão de intenção e com desejo de cumprir a Vontade de Deus. Nesse caso, com êxito ou sem ele, triunfarás sempre, porque terás feito o trabalho com Amor. (Forja, 199)

Somos criaturas e estamos repletos de defeitos. Eu diria até que tem de os haver sempre, pois são a sombra que faz com que se destaquem mais, por contraste, na nossa alma, a graça de Deus e o esforço por correspondermos ao favor divino. E esse claro-escuro tornar-nos-á humanos, humildes, compreensivos, generosos. Não nos enganemos: na nossa vida, se contamos com brio e com vitórias, devemos também contar com quedas e derrotas. Essa foi sempre a peregrinação terrena do cristão, incluindo a daqueles que veneramos nos altares. Recordais-vos de Pedro, de Agostinho, de Francisco? Nunca me agradaram as biografias dos santos em que, com ingenuidade, mas também com falta de doutrina, nos apresentam as façanhas desses homens, como se estivessem confirmados na graça desde o seio materno. Não. As verdadeiras biografias dos heróis cristãos são como as nossas vidas: lutavam e ganhavam, lutavam e perdiam. E então, contritos, voltavam à luta. Não nos cause estranheza o facto de sermos derrotados com relativa frequência, habitualmente ou até talvez sempre, em matérias de pouca importância, que nos ferem como se tivessem muita. Se há amor de Deus, se há humildade, se há perseverança e tenacidade na nossa milícia, essas derrotas não terão demasiada importância, porque virão as vitórias a seu tempo, que serão glórias aos olhos de Deus. Não existem os fracassos, se agimos com rectidão de intenção e queremos cumprir a vontade de saber vencer-se todos os dias. Não é espírito de penitência fazer uns dias grandes mortificações e abandoná-las noutros. Espírito de penitência significa saber vencer-se todos os dias, oferecendo coisas – grandes e pequenas – por amor e sem espectáculo. (Forja, 784)

Mas ronda à nossa volta um potente inimigo, que se opõe ao nosso desejo de encarnar dum modo acabado a doutrina de Cristo: o orgulho que cresce quando não procuramos descobrir, depois dos fracassos e das derrotas, a mão benfeitora e misericordiosa do Senhor. Então a alma enche-se de penumbra – de triste obscuridade – crendo-se perdida. E a imaginação inventa obstáculos que não são reais, que desapareceriam se os encarássemos com um pouco de humildade. Com o orgulho e a imaginação, a alma mete-se por vezes em tortuosos calvários; mas nesses calvários não está Cristo, porque onde está o Senhor goza-se de paz e de alegria, mesmo que a alma esteja em carne viva e rodeada de trevas. Outro inimigo hipócrita da nossa santificação: pensar que esta batalha interior tem de dirigir-se contra obstáculos extraordinários, contra dragões que respiram fogo. É outra manifestação de orgulho. Queremos lutar, mas estrondosamente, com clamores de trombetas e tremular de estandartes. Temos de nos convencer de que o maior inimigo da pedra não é o picão ou o machado, nem o golpe de qualquer outro instrumento, por mais contundente que seja: é essa água miúda, que se mete, gota a gota, entre as gretas da fraga, até arruinar a sua estrutura. (Cristo que passa, 77)

 

 

        

 

 

 

 



[1] São João é o único Evangelista que relata esta parábola da videira.

21/09/2021

NUNC COEPI Publicações em Setembro 21

                      


                             Quarta-Feira 

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

 

Propósito: Simplicidade e modéstia.

Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.

 

Lembrar-me: Do meu Anjo da Guarda.

Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?

 


LEITURA ESPIRITUAL

 

Evangelho

 

Jo XIV, 1-31

 

Jesus, caminho para o Pai

1 Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim. 2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar? 3 E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também. 4 E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho.» 5 Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?» 6 Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. 7 Se ficastes a conhecer-me, conhecereis também o meu Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo.» 8 Disse-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» 9 Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, 'mostra-nos o Pai'? 10 Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim? As coisas que Eu vos digo não as manifesto por mim mesmo: é o Pai, que, estando em mim, realiza as suas obras. 11 Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim; crede, ao menos, por causa dessas mesmas obras. 12 Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai, 13 e o que pedirdes em meu nome Eu o farei, de modo que, no Filho, se manifeste a glória do Pai. 14 Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, Eu o farei.»

 

Primeira promessa do Espírito

15 «Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos, 16 e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco, 17 o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós.»

 

Jesus promete voltar

18 «Não vos deixarei órfãos; Eu voltarei a vós! 19 Ainda um pouco e o mundo já não me verá; vós é que me vereis, pois Eu vivo e vós também haveis de viver. 20 Nesse dia, compreendereis que Eu estou no meu Pai, e vós em mim, e Eu em vós. 21 Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que me tem amor; e quem me tiver amor será amado por meu Pai, e Eu o amarei e hei-de manifestar-me a ele.» 22 Perguntou-lhe Judas, não o Iscariotes: «Porque te hás-de manifestar a nós e não te manifestarás ao mundo?» 23 Respondeu-lhe Jesus: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. 24 Quem não me tem amor não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas é do Pai, que me enviou.»

 

Segunda promessa do Espírito

25 «Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; 26 mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.»

 

Jesus deixa a sua paz

27 «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde. 28 Ouvistes o que Eu vos disse: 'Eu vou, mas voltarei a vós.' Se me tivésseis amor, havíeis de alegrar-vos por Eu ir para o Pai, pois o Pai é mais do que Eu. 29 Digo-vo-lo agora, antes que aconteça, para crerdes quando isso acontecer. 30 Já não falarei muito convosco, pois está a chegar o dominador deste mundo; ele nada pode contra mim, 31 mas o mundo tem de saber que Eu amo o Pai e actuo como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui!»

 

Comentário

 

O Senhor voltou para o Céu para, como diz, preparar uma morada para cada um de nós. E que morada será? Preparada pelo próprio Jesus Cristo, Deus e Irmão nosso, deve ser tão excelente e extraordinária que não pudemos sequer imaginar. Como não fazer quanto estiver ao nosso alcance para conquistar o direito habitá-la? Pelo que Jesus nos diz, podemos inferir que, na Vida Eterna, ocuparemos um lugar determinado. Tal é difícil de entender já que os espíritos, ou Corpos Gloriosos, não ocupam nem lugar nem espaço e, a Vida eterna não é de facto um espaço, um lugar, mas uma “situação”, um “estado” que consiste na contemplação – e gozo – da Face de Deus. Mas – e sempre pensando humanamente, única forma possível – não custa entender que haverá santos – e todos na vida eterna são santos – diferentes não na importância, mas na categoria específica que não gozarão nem mais nem menos que os outros, mas que, de alguma forma se destacam. Parece-me muitíssimo justo! Por exemplo, São José, que na terra fez as vezes de Pai de Cristo, não “merecerá” esse destaque de que falei? Como explicar? Não eu, decerto, mas haverá um momento – pelo qual mal - posso esperar, em que tudo se tornará claro e cristalino e ficaremos abismados com a simplicidade da grandeza e glória eternas. Sabemos, evidentemente, que a vida eterna é um mistério para nós, enquanto neste mundo, impenetrável. Mas nada nos coíbe – eu diria até que nos convém muito – pensar não com o objectivo de decifrar ou compreender totalmente mas sim de nos aproximar-nos cada vez mais de algo que, também cada vez mais, estará próximo. Jesus Cristo fala-nos da vida eterna, fala-nos das moradas que terá preparadas para cada um, do lugar específico que nos tem reservado. Eu, pessoalmente, entendo isto, como uma definição suprema da Ordem divina. Ou seja, que a vida eterna não é algo informe e amálgamo onde estarão mais ou menos amontoados, como num “depósito”, os santos que alcançam o Céu. Não faria qualquer sentido pensar o que O Senhor que nos conhece pelo nosso nome desde o princípio de tudo o criado e que oferece a Sua Vida por cada um em particular, nos deixasse como que abandonados – felizes, embora – uma vez alcançado o que nos prometeu como prémio. O Amor que se viverá na vida eterna será de tal forma absorvente, total, esmagador… que não deixará espaço para nada mais, a nenhum sentimento, a nenhum desejo, a nenhuma vontade. O Gozo do Amor de Deus completará totalmente a nossa vida na eternidade.

Comove-nos a simplicidade dos apóstolos: quando não entendem perguntam e não se importam que tal conste nos Evangelhos. Quão diferente seria a nossa fé, a nossa relação com Deus sem estes exemplos extraordinários! Deveríamos estar constantemente a perguntar porque, de facto, o que sabemos é muito pouco, quase nada comparado com a grandeza de Deus a Quem temos de conhecer cada vez melhor e mais intimamente. Filipe é o discípulo que faz as perguntas cruciais… quando não entende pergunta. E os outros? Entenderiam tudo? Não teriam dúvidas? Seguramente que sim embora não confessem a sua necessidade de esclarecimento. Filipe demonstra, além disso, que de facto ouve quanto o Mestre diz com extrema atenção não perdendo, por assim dizer, nada dos discursos - por vezes longos - de Jesus. Tem a intuição que quanto ouve lhe será necessário, sobretudo no futuro, quando tiver de transmitir a outros ã palavras de Cristo. É no fim e ao cabo, aprender a Doutrina de modo consciente e seguro. Faz perguntas repetidamente sem qualquer receio de "desiludir" o Mestre com a sua ignorância ou dúvidas. Dá-nos duas grandes lições: perguntar quando não se sabe; ser humilde para repetir as perguntas até saber. Nós, cristãos de hoje, bem podemos agradecer a Filipe, não só o exemplo mas as perguntas que fez que nos permitem, pelas respostas de Jesus, saber e compreender o que então, para ele, não era nem claro nem compreensível. O Espírito Santo, com o Seu Dom de Ciência, infunde em nós esses conhecimentos básicos para a nossa fé porque, na verdade, esta fortalece-se quando compreende e assim, também, o nosso Amor a Deus. Bem-aventurados Apóstolos que nos deixaram um legado tão precioso.

Quem, de “vistas curtas” considera que Jesus Cristo deveria ter uma linguagem menos “enigmática”, clara e objectiva, não conhece, seguramente, este trecho do Evangelho escrito por São João. Pode ser-se mais claro e objectivo? Jesus Cristo, uma vez mais, revela tudo sobre Si mesmo e sobre a Sua missão. Não deixa que fique a pairar qualquer dúvida ou incompreensão. Temos, nós, homens de hoje, a felicidade de conhecer pelo testemunho dos Apóstolos, Quem de facto é o Senhor. Aprofundemos o nosso conhecimento, peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine de forma a não existir em nós a menor dúvida. Aconselhemo-nos na direcção espiritual que livros ler, que informação nos falta. Então, sim! Poderemos dizer que seguimos Cristo porque O conhecemos e sabemos que Ele é, de facto O Caminho que nos interessa andar, A Verdade que nos convém conhecer, A Vida a que devemos aspirar.

Não tenho qualquer dúvida em considerar o Evangelho escrito por São João como o Evangelho do amor! Ele próprio, que foi amado por Jesus tão intensamente que lhe confiou a Sua própria Mãe, sabe que o amor “move montanhas”, transforma os homens, se na raiz da sociedade humana, trará a paz, a concórdia o bem comum. Sabe muito bem que ao retribuir o amor que Deus nos tem, estamos a fazer, não só um acto de justiça, “amor com amor se paga”, mas a assegurar a nossa vida em Deus e para Deus.

A parábola – conhecida como a dos “talentos”, tem merecido comentários e meditações por grandes vultos da Igreja, Teólogos e Santos. É de tal forma “complicada) – à primeira leitura, claro – que podemos ter a visão como que toldada para nos apercebermos da simplicidade e lógica de todo o texto. Eu penso que a “chave” está aqui:  Distribuiu os talentos «a cada qual conforme a sua capacidade». O Senhor, sabemo-lo muito bem – não faz acepção de pessoas e, para Ele, todos os homens – absolutamente – têm o mesmo valor, a mesma dignidade, independentemente das suas capacidades pessoais. Mas nunca pedirá contas por igual, exigindo uniformemente e sem critério o mesmo retorno. Não! Pedirá contas – muito certas – conforme o que cada um fez, como fez, ou, o que não fez e deveria ter feito.

Esta afirmação de Jesus: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida», é o lema, o motivo, a essência da nossa vida de cristãos. De facto, não há outro caminho porque, só este é o verdadeiro já que é a Verdade - que é Cristo – que o indica; Bem como a vida verdadeira é a que Ele próprio nos outorgou com a Sua Morte e Paixão na Cruz, redimindo-nos para sempre, e com a Sua Ressurreição gloriosa convertendo-nos em filhos de Deus. Que outra vida terá tal grandeza?

Talvez que nos ocorra, também a nós, fazer a mesma pergunta que Judas. Parece que o Senhor não dá uma resposta concreta, mas, de facto fá-lo iniludivelmente. A Sua Missão é muito clara e definida: Trazer a salvação, resgatar a humanidade, instaurar o Reino de Deus no mundo. Explicar a Fé e difundi-la competirá aos Seus seguidores que, devidamente assistidos pelo Espírito Santo, levarão a toda a parte a Palavra de Deus. Portanto, este tempo que vivemos depois da Ascensão ao Céu pelo Senhor, é o “Tempo do Espírito Santo” cujos Sete Dons devemos pedir com insistência perseverante para sermos capazes de levar por diante a tarefa que nos cabe levar a cabo.

A vida cristã que é seguir Cristo, pode resumir-se numa palavra: AMOR! É o amor incomensurável de Deus pelos homens que os salva; É o amor sem limites de Cristo que O leva a dar a Sua vida em resgate da humanidade inteira; É o amor que leva o homem a conseguir a paz para si e para os outros; Só o amor, autêntico – como é o Amor de Deus - torna a pessoa humana digna de participar na vida eterna. Amar a Deus e amar os outros como a si mesmo, eis, como bem sabemos, o primeiro Mandamento. Sem cumprir este, os outros nove, não poderão cumprir-se.

Uma vez mais o Evangelista insiste no tema do amor. O amor de Deus, o amor a Deus, o amor entre os homens.
E tem muita razão porque nunca será demais considerar que o amor conduz e guia o homem para Deus e assegura uma sã convivência. Como viver sem amor? Felizmente a maior parte de nós não imaginamos sequer o que possa ser mas, na verdade, há épocas, circunstâncias e sociedades onde parece não existir. O resultado, as consequências são bem evidentes: as guerras e lutas sem tréguas ou limites, os genocídios e violências de toda a ordem que grassam num crescendo imparável.

O mundo não pode conhecer nem receber o Espírito Santo, segundo as próprias palavras do Senhor, porque não O vê! Nós também não O vimos mas não precisamos para acreditar porque temos Fé. O Dom mais precioso que Deus outorga aos homens e o grande triunfo do Reino de Deus, a Fé concede-nos, permite-nos o que por nós próprios nunca conseguiríamos: Amar Deus, conhecer o Seu Amor por nós e gozarmos já nesta vida terrena dos Frutos e dos Dons que o Espírito Santo nos concede.

Continua o discurso da despedida. As palavras de Jesus devem ter pesado de maneira particular no espírito dos que O seguiam. Não entendiam nem o verdadeiro alcance das mesmas, mas sentiram no seu íntimo que a situação era delicada… senão grave.

O que quer o Senhor dizer com “dominador deste mundo”'? Refere-se ao momento em que o demónio alcança uma vitória, para ele, inesperada: a morte de Cristo na Cruz. Inesperada porque, de facto, só nos derradeiros momentos saberá que Quem pende do madeiro é o Filho de Deus, até então nunca o Senhor permitiu que tivesse absoluta certeza de Quem era e nem sequer permitia que falasse. Por várias vezes tinha sido expulso e relegado para fora do domínio dos homens e, naturalmente que teria - falando humanamente - suspeitas, que aliás terão começado nas tentações no deserto quando Cristo o despede: «está escrito não tentarás o Senhor teu Deus», mas nunca Jesus lhe disse Eu Sou Cristo. No mistério da salvação dá-se esta luta por um domínio, ou melhor, pela conservação de um domínio, que até então exercia, aliás não há propriamente luta porque Jesus Cristo não combate o demónio, mas antes salva a humanidade do seu domínio, ao instaurar o Reino de Deus, dá aos homens os meios necessários e suficientes para negarem o demónio e as suas obras e optarem definitivamente pela Salvação Eterna.

 

(AMA, 199)

 

 


 

SANTÍSSIMA VIRGEM

 

CARTA ENCÍCLICA

REDEMPTORIS MATER

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

SOBRE A BEM-AVENTURADA

VIRGEM MARIA

NA VIDA DA IGREJA

QUE ESTÁ A CAMINHO

 

 

Veneráveis Irmãos, caríssimos Filhos e Filhas: saúde e Bênção Apostólica!

 

INTRODUÇÃO

 

 

PRIMEIRA PARTE

MARIA NO MISTÉRIO DE CRISTO

 

8. Maria é introduzida no mistério de Cristo definitivamente mediante aquele acontecimento que foi a Anunciação do Anjo. Esta deu-se em Nazaré, em circunstâncias bem precisas da história de Israel, o povo que foi o primeiro destinatário das promessas de Deus. O mensageiro divino diz à Virgem: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor é contigo» (Lc 1, 28). Maria «perturbou-se e interrogava-se a si própria sobre o que significaria aquela saudação» (Lc 1, 29): que sentido teriam todas aquelas palavras extraordinárias, em particular, a expressão «cheia de graça» (kecharitoméne).

Se quisermos meditar juntamente com Maria em tais palavras e, especialmente, na expressão «cheia de graça», podemos encontrar uma significativa correspondência precisamente na passagem acima citada da Carta aos Efésios. E se, depois do anúncio do mensageiro celeste, a Virgem de Nazaré é chamada também a «bendita entre as mulheres» (cf. Lc 1, 42), isso explica-se por causa daquela bênção com que “Deus Pai” nos cumulou “«no alto dos céus, em Cristo”. É uma bênção espiritual, que se refere a todos os homens e traz em si mesma a plenitude e a universalidade (“toda a sorte de bênçãos”), tal como brota do amor que, no Espírito Santo, une ao Pai o Filho consubstancial. Ao mesmo tempo, trata-se de uma bênção derramada por obra de Jesus Cristo na história humana até ao fim: sobre todos os homens. Mas esta bênção refere-se a Maria em medida especial e excepcional: ela, de facto, foi saudada por Isabel como «a bendita entre as mulheres.

O motivo desta dupla saudação, portanto, está no facto de se ter manifestado na alma desta “filha de Sião”, em certo sentido, toda a “magnificência da graça”, daquela graça com que “o Pai ... nos tornou agradáveis em seu amado Filho”. O mensageiro, efectivamente, saúda Maria como «cheia de graça»; e chama-lhe assim, como se este fosse o seu verdadeiro nome. Não chama a sua interlocutora com o nome que lhe é próprio segundo o registo terreno: «Miryam» ( = Maria); mas sim com este nome novo: «cheia de graça». E o que significa este nome? Por que é que o Arcanjo chama desse modo à Virgem de Nazaré?

Na linguagem da Bíblia «graça» significa um dom especial, que, segundo o Novo Testamento, tem a sua fonte na vida trinitária do próprio Deus, de Deus que é amor (cf. 1 Jo 4, 8). É fruto deste amor a “eleição” ― aquela eleição de que fala a Carta aos Efésios. Da parte de Deus esta “escolha” é a eterna vontade de salvar o homem, mediante a participação na sua própria vida divina (cf. 2 Pdr 1, 4) em Cristo: é a salvação pela participação na vida sobrenatural. O efeito deste dom eterno, desta graça de eleição do homem por parte de Deus, é como que um gérmen de santidade, ou como que uma nascente a jorrar na alma do homem, qual dom do próprio Deus que, mediante a graça, vivifica e santifica os eleitos. Desta forma se verifica, isto é, se torna realidade aquela “bênção” do homem “com toda a sorte de bênçãos espirituais”, aquele «ser seus filhos adoptivos ... em Cristo”, ou seja, n'Aquele que é desde toda a eternidade o «Filho muito amado» do Pai.

Quando lemos que o mensageiro diz a Maria «cheia de graça», o contexto evangélico, no qual confluem revelações e promessas antigas, permite-nos entender que aqui se trata de uma “bênção” singular entre todas as “bênçãos espirituais em Cristo”. No mistério de Cristo, Maria está presente já «antes da criação do mundo», como aquela a quem o Pai “escolheu” para Mãe do seu Filho na Incarnação ― e, conjuntamente ao Pai, escolheu-a também o Filho, confiando-a eternamente ao Espírito de santidade. Maria está unida a Cristo, de um modo absolutamente especial e excepcional; e é amada neste «Filho muito amado» desde toda a eternidade, neste Filho consubstancial ao Pai, no qual se concentra toda “a magnificência da graça”. Ao mesmo tempo, porém, ela é e permanece perfeitamente aberta para este “dom do Alto” (cf. Tg 1, 17) Como ensina o Concílio, Maria “é a primeira entre os humildes e os pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem d'Ele a salvação”.

 

 

S. MATEUS, Apóstolo e Evangelista

 



FILOSOFIA

 

Doutrina sobre o mal

 

RESPONDO.

Deve dizer-se que, como o branco, também o mal se diz de dois modos. Pois, de um modo, quando se diz branco, pode entender-se o que é sujeito da brancura; por outro modo, branco diz-se do que é branco enquanto branco, ou seja, do acidente mesmo. E, semelhantemente, o mal pode entender-se, de um modo, como o que é sujeito do mal, e neste sentido é algo; de outro modo, pode-se entender como o próprio mal, e neste sentido não é algo, mas sim a privação mesma de algum bem particular.

Para maior compreensão disto, é preciso saber que propriamente o bem é algo enquanto é apetecível, pois, segundo o Filósofo no livro I da Ética, definiram correctamente o bem os que disseram ser o bem o que todas as coisas apetecem; mas o mal diz-se do que se opõe ao bem, donde ser conveniente que o mal seja o que se opõe ao apetecível enquanto tal. É impossível, todavia, que este seja algo, o que se manifesta por três razões.

Em primeiro lugar, certamente, porque o apetecível tem razão de fim; mas a ordem dos fins é, por assim dizer, também a ordem dos agentes. Com efeito, na medida em que algum agente é mais elevado e mais universal, nesta mesma medida também o fim por que atua é um bem mais universal, pois todo e qualquer agente atua por um fim e por algum bem; e isto se mostra, patentemente, nas coisas humanas. Sim, porque o governante de uma cidade tende a um bem particular, que é o bem da cidade. Mas o rei, que é superior a ele, tende a um bem universal, a saber: a paz do reino todo. Logo, não sendo próprio das causas agentes proceder ao infinito, sendo porém necessário chegar a uma primeira coisa que seja causa universal do ser, é necessário, além disso, que seja um bem universal a que se reduzam todos os bens; e este não pode ser outro senão aquele mesmo que é agente primeiro e universal; porque todas as vezes que o apetecível move o apetite, sendo necessário, por outro lado, que o primeiro motor não seja movido, é necessário que o apetecível primeiro e universal seja o bem primeiro e universal, que se ocupa de todas as coisas por causa do seu próprio apetite. Logo, assim como é necessário que tudo quanto há nas coisas proceda de uma causa primeira e universal de ser, assim também é necessário que tudo quanto há nas coisas proceda de um bem primeiro e universal. Ora, o que procede do bem primeiro e universal não pode ser senão, unicamente, um bem particular, assim como o que procede da causa primeira e universal de ser é algum ente particular. Logo, é necessário que tudo quanto é algo nas coisas seja algum bem particular, donde não poder, pelo fato mesmo de ser, opor-se ao bem. Razão por que não cabe afirmar senão que o mal enquanto mal não é algo nas coisas, mas é privação de algum bem particular, que inere a algum bem particular.

Em segundo lugar, também isto é evidente, porque tudo quanto há nas coisas possui alguma tendência para aquilo que lhe convém e o desejo natural dele. Ora, o que tem razão de apetecível tem razão de bem. Logo, tudo quanto há nas coisas convém com algum bem. O mal enquanto tal, todavia, não convém com o bem, mas opõe-se a ele. Logo, o mal não é algo nas coisas. Além do mais, se o mal fosse algo, não apeteceria nem seria apetecido por nada mais, e, por conseguinte, não teria nenhuma ação nem movimento, dado que nada actua nem se move senão por causa do apetite do fim.

Em terceiro lugar, patenteia-se a mesma coisa pelo facto de que o próprio ser tem, sobretudo, razão de apetecível; donde constatarmos que a cada coisa apetece naturalmente conservar o seu ser: por um lado, afasta-se das coisas destrutivas do seu ser, e, por outro, resiste a elas na medida das suas possibilidades. Assim, o próprio ser, enquanto apetecível, é bom. Logo, é necessário que o mal, que se opõe universalmente ao bem, se oponha, ademais, ao que é ser. O que porém é oposto ao que é ser não pode ser algo

Digo, por conseguinte, que o mal não é algo, embora aquilo a que suceda ser mau seja algo, uma vez que o mal não priva senão de um bem particular; assim como o ser cego não é algo, ao passo que aquele a que sucede o ser cego á algo.

 

(São Tomás de Aquino, De Malo, Q 1, Art 1)

 


REFLEXÃO

 

Espírito Santo

Há quem chame ao Divino Espírito Santo "O Grande Desconhecido", penso que tal se deve à falta de, por exemplo, homilias sobre a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pessoalmente não me recordo de alguma vez ter ouvido alguma. Quantos verdadeiros cristãos conhecem os Dons e as Virtudes que o Espírito Santo quer insinuar na nossa alma? E quantos Lhe pedem para receber essas insinuações? Dos Dons... quantos sabem o significado do TEMOR DE DEUS? Urge fazer apostolado sobre o tema, esclarecendo quanto possível o que de facto representa a acção do Divino Espírito Santo nas nossas almas.

(AMA, 2021)



SÃO JOSEMARIA textos

 

Um querer sem querer é o teu

Um querer sem querer é o teu, enquanto não afastares decididamente a ocasião. – Não te queiras iludir dizendo-me que és fraco. És... cobarde, o que não é o mesmo. (Caminho, 714)

O mundo, o Demónio e a carne são uns aventureiros que, aproveitando-se da fraqueza do selvagem que trazes dentro de ti, querem que, em troca do fictício brilho dum prazer – que nada vale – lhes entregues o ouro fino e as pérolas e os brilhantes e os rubis embebidos no Sangue vivo e redentor do teu Deus, que são o preço e o tesouro da tua eternidade. (Caminho, 708)

Outra queda..., e que queda!... Desesperar-te? Não; humilhar-te e recorrer, por Maria, tua Mãe, ao Amor Misericordioso de Jesus. – Um "miserere" e, coração ao alto! – A começar de novo. (Caminho, 711)

Bem fundo caíste. – Começa os alicerces a partir daí. – Sê humilde. – "Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies". – Não desprezará Deus um coração contrito e humilhado. (Caminho, 712)

Tu não vais contra Deus. – As tuas quedas são de fragilidade. – Concordo. Mas são tão frequentes essas fragilidades (não sabes evitá-las), que, se não queres que te tenha por mau, hei-de ter-te por mau e tolo. (Caminho, 713)