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06/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


CONCEITO CRISTÃO DE DEMOCRACIA

  Parte do princípio de que o homem é uma realidade espiritual e material,dotado de liberdade e de inteligência, com capacidade para comandar o seu próprio destino transcendente a si mesmo e ao mundo, à busca de uma realização temporal e eterna. Inserido na comunidade de todos os homens, com os quais se sente solidário, integra-se nela através de grupos naturais e electivos, que vão da família ao estado, passando pelas formas da escola, campos de trabalho, diversão e cultura, mediante associações livres, como a Igreja, sindicatos, empresas, comunidades cívicas, etc.

  Nesta concepção, o estado não tem apenas a função de “polícia” que vela pela ordem pública, como na mentalidade liberal, nem é o senhor omnipotente da ideologia marxista. Desempenha um verdadeiro papel na vida dos homens, promovendo o bem comum, o respeito pelos organismos intermédios, suprindo as suas carências, num verdadeiro princípio de subsidiariedade. O estado da verdadeira democracia estabelece orgãos de diálogo e participação entre os quais são de assinalar os meios de comunicação social, os partidos políticos, os sindicatos, através dos quais se torna possível a todos e a cada um ter parte activa e responsável nos diversos escalões davida social.

 

(A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, BROTÈRIA, Vol. 99, 1974)

04/01/2021

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 

A alma

 

O homem não se engana quando se reconhece superior às coisas materiais e se considera algo mais do que simples parcela da natureza ou anónimo elemento da cidade dos homens; Pela sua interioridade, transcende o universo das coisa; Tal é o conhecimento profundo que alcança quando reentra no seu interior, onde Deus, que perscruta os corações, o espera e onde ele, sob o olhar do Senhor, decide a sua própria sorte.

Ao reconhecer, pois, em si uma alma espiritual e imortal, não se ilude com uma enganosa criação imaginária, mero resultado de condições físicas e sociais; atinge, pelo contrário, a verdade profunda das coisas.

 

(Enc. Gaudium et Spes, 14)

02/01/2021

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 

Emoções

 

Uma das fases mais significativas da pessoa no tempo é a fase emocional. A emoção é um sentimento em força ou mesmo em violência. As emoções não devem determinar resoluções. As mudanças de orientação resolvidas emocionalmente estão sujeitas a fracassar. O mesmo se diga das ordens, avisos ou repreensões. Porque a emoção cria um clima de irrealidade. A emoção despista reacções de agressividade, autodefesa, desalento que podem apossar-se dos comandos da vida, absolutizando certos aspectos impressionantes das pessoas e dos factos. A emoção é como um farol de máximos na noite: encandeia. Tudo o mais desaparece no negro.

Há emoções positivas e negativas. As primeiras têm por objecto uma qualidade, uma obra, um facto, de conteúdo estimulante e agradável para a pessoa, As emoções negativas têm por objecto defeitos, fracassos, as pirações não satisfeitas. A paixão é a fixação permanente da emoção em certo objecto.

 

(E. de Vasconcelos, Pessoa e Circunstância, Brotéria, Julho 1969, pg. 31)

28/11/2020

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 


Emoções

 

Sem emoções não podemos fazer brotar no nosso íntimo a capacidade de fecundar a realidade criando novas formas de existência e de vida. A forçada repressão e da expansão,da assimilação e da eliminação, a autocrítica e o autopreço devem desenvolver-se em nós de um modo harmónico. O nosso equilíbrio emocional é um estado dinâmico que é preciso vigiar diariamente e sujeitar com a devida ferequência a um controlo geral.

Esses momentos mais fortes da afectividade quais são os estados emotivos, devem ser descarregados a seu tempo. Esta descarga dá-seem actividades satisfatórias ou em outras almas acolhedoras, sintónicas. Se isto não sucede, a energia emotiva recolhe dentro, recalca-se e quando as emoções são frequentes, como sucede com temperamentos juvenis, ou fortemente afectivos,  donde provêm os mais variados sintomas de anormalidade: fúrias, agressividade, solidão, cansaço da vida, revolta. As relações sociais e profissionais são muito prejudicadas. As pessoas tornam-se duras, intratáveis, e por vezes reagem mal quando vêm diante de si afeições normais e positivas. Os estados emotivos mais vulgares são provocados: pela injustiça (má interpretação das nossas nossas intenções, reprovação ou classificação injusta); compaixão (solidariedade afectiva, ressonância em cadeia dum grupo social); desilusão, fracasso (o não ter conseguido certo objectivo a que se tinha dado alma e sangue); inferioridade (julgar-se uma carga para os outros, objecto de vilipêndio, de ironia); etc.

 

(E. de Vasconcelos, Pessoa e Circunstância, Brotéria, Julho 1969, pg. 31)

21/11/2020

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 


Religião

 

A religião não é uma simples forma de expressão cultural entre outras e o “sagrado” não é tanto um quarto valor que se acrescenta ao Bem, ao Verdadeiro e ao Belo quanto a matriz donde nascem estes valores, a sua foram e origem comuns.

A religião não é um ramo, mas o tronco da árvore.

 

(J. Wach, Sociologie da la Religion, Payot, Paris,, 1955, pg 19)

14/11/2020

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 


Emoções

 

Sensibilidade afectiva

 

Muitos perigos reais vêm da má formação ou mutilação da sensibilidade. Se não é alimentada, a fome de afecto vai-se acumulando e recalcando, e a sensibilidade torna-se vulnerável. E assim, pretendendo resguardá-la e defendê-la, estamos a prepará-la para graves desordens.

A afectividade só amadurece convenientemente quando desde a infância  cresce normalmente num ambiente que lhe fornece os objectos de que vai precisando e a rodeia um clima caloroso e pacificante. A pessoa que sobe para a vida, vai ganhando amor à vida ao sentir-se amada, isto é, ao sentir que a sua existência é desejada por  alguém: desejada, útil, necessária, imprescindível mesmo. O amor e o apreço por nós, a consciência do nosso valor – sentimentos-base de toda a personalidade – procedem em primeiro lugar daq uelesque nos rodeiam nos primeiros anos de vida e até certo ponto em todo o decurso da vida.

A afectividade não amadurecida fica atrasada com características infantis ou adolescente, ou, então, bloqueia-se na dureza reduzindo ao mínimo as suas funções. Sente-se então desamparada perante objectos tentadores e a sua inexperiência leva-a a fazer construções fantásticas sobre indícios banais.

 

(E. de Vasconcelos, Pessoa e Circunstância, Brotéria, Julho 1969, pg. 31)

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 


Sabedoria

 

A natureza espiritual da pessoa humana encontra e deve encontrar a sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito do homem à busca e amor da verdade e do bem, e graças à qual é levado por meio das coisas visíveis até às invisíveis.

Mais que os séculos passados, o nosso tempo precisa de uma tal sabedoria, para que se humanizem as novas descobertas dos homens.

 

(Enc Gaudium et Spes, 15)

07/11/2020

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA

 


Pessoa e circunstância

 

Emoções - Idealismo e ralismo psicológico

 

A fonte principal das nossa angústias são os nossos desejos fracassados que ficam dentro de nós como cadáveres apodrecidos. Os nossos desejos são maus porque não se regulam pela realidade. Desejamos dos outros o que eles não podem dar, porque não têm capacidade natural para tanto e quando nós pretendemos alguma coisa de alguém, mais projectamos nesse outros a nossa ânsia pessoal de que o ajudamos a fecundar a sua própria potencialidade.

O realismo psicológico deve ser abase das relações. Hás pessoas que quando dizem o que sentem, não  dizem o que pensam. Só desabafam emoções, não expõem convicções, relações reflectidas e motivadas. Por vezes essas confidências ou expansões voltam-se contra elas na ocasião menos esperada. Ficam então desiludidas da confiança que depositaram no grupo amigo. Desta forma esvai-se a alegria da companhia, e crescem as barreiras inter-pessoais. Por vezes o melhor acto de amizade que podemos ter para com  as pessoas que escutamos, é esquecer o que elas nos disseram.

(E. de Vasconcelos, Pessoa e Circunstância, Brotéria, Julho 1969, pg. 31)

31/10/2020

Filosofia, Religião, Vida Humana.

 Filosofia, Religião, Vida Humana, CV II, Liturgia,





A esperança cristã 1

A esperança cristã nasce da presença dinâmica do Espírito no coração dos crentes que, pela fé, vivem em comunhão com Cristo ressuscitado, no exercício da intimidade filial com o Pai. São vários, mas em estreita relação, os aspectos do acto da presença cristã: a espera (expectativa) da salvação futura na definitiva revelação de Cristo glorificado; a confiança na promessa de Deus; a paciência e perseverança, ou, em linguagem grega upomoné, que não cede ao desalento nas tribulações, mas se apoia na fidelidade divina; por fim, a atitude de liberdade e audácia do espírito, a parresta do cristão perante todas as instância humanas.

(A . Morão, Perspectivas teológicas sobre a libertação, BROTÈRIA, Out 1973, pg 305)

14/08/2020

Filosofia, Religião, Vida Humana.

Teologia do Sacrosanctum Concilium 5 

l. O sacerdócio de Jesus Cristo

Jesus Cristo praticou em sua vida e preconizou o culto em espírito e verdade, o culto que Deus tinha prescrito a seu povo ao selar a aliança no Monte Sinai. A carta aos hebreus, descrevendo o sacerdócio novo, único e definitivo de Jesus Cristo, diz: “Ao entrar no mundo, Ele (Jesus Cristo) afirmou: ‘Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram do teu agrado. Por isso eu digo: Eis-me aqui, – no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade". Assim, Ele declara, primeiramente: "Sacrifícios, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado, tu não quiseste, e não te agradaram’. Trata-se, notemo-lo bem, de oferendas prescritas pela Lei. Depois ele assegura: ‘Eis que eu vim para fazer a tua vontade’. Portanto, ele suprime o primeiro para estabelecer o segundo. E graças a esta vontade é que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb: 10, 5-10). É o culto da vida de Jesus que ele completou pela sua morte na cruz e cuja aceitação o Pai manifestou ressuscitando seu Filho da morte. Como Jesus entrou pela sua morte no santuário verdadeiro, o céu, assim ele está agora e eternamente diante do Pai, entregando-se em eterno amor obediente, e associa a si aqueles que na terra estão em comunhão com ele, sobretudo aqueles que pelo baptismo se tornaram com ele e nele sacerdotes, os membros do seu corpo místico. Em sua vida e especialmente quando eles celebram a liturgia, Jesus está presente e agindo, como diz a constituição sobre a liturgia, ”no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, ‘pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz’ (Concílio de Trento), quanto sobretudo sob as espécies eucarísticas". Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém baptiza é Cristo, mesmo que baptiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se lêem as sagradas escrituras na igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: ‘Onde dois ou três estiverem reunido em meu nome, aí estarei no meio deles’ (Mt 18,20) (SC 7). Evidentemente, os membros do seu corpo que participam do seu sacerdócio, devem celebrar como ele, quer dizer, celebrar aquilo que vivem, sua obediência ao Pai e entrega pelos irmãos, exactamente como Jesus na última ceia celebrou ritualmente seu sacrifício vivido desde a sua encarnação até a morte na cruz.


(P. Gregório Lutz, CSSp)

Filosofia, Religião, Vida Humana, CV II, Sacerdócio,

11/08/2020

Filosofia, Religião, Vida Humana.


Teologia do Sacrosanctum Concilium 4-a 11 Ago

A liturgia, exercício do sacerdócio

Conforme acabamos de ver, o Concílio Vaticano II explica a liturgia em primeiro lugar como momento da história da salvação. Mas este não é o único aspecto a ser considerado por quem quer conhecer a natureza da liturgia. Sobretudo quando o Vaticano II faz aquela descrição da liturgia que geralmente é considerada como definição, várias outras dimensões são mencionadas, entre as quais se destaca aquela de a liturgia ser o exercício do sacerdócio de Cristo e dos cristãos. Aprofundaremos primeiro esta dimensão e em seguida duas outras que são também essenciais para um conhecimento da natureza da liturgia: sua dimensão simbólica e as duas vertentes da acção litúrgica. Outro aspecto importante da liturgia é que nela participamos da liturgia celeste.

Antes de entrarmos no estudo das diferentes dimensões, vejamos o texto conciliar em questão. Embora não seja uma definição em sentido estrito, porque o Concílio julgou que definir fosse tarefa da ciência litúrgica e não do magistério, ele é de suma importância: “Com razão (…) a liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem; e é exercido o culto público integral pelo corpo místico de Cristo, cabeça e membros” (SC 7).


(P. Gregório Lutz, CSSp)

Filosofia, Religião, Vida Humana, CV II, Liturgia, Sacerdócio,



07/08/2020

Filosofia, Religião, Vida Humana


Teologia do Sacrosanctum Concilium 4 
4 – A liturgia, momento da história da salvação

Depois de ter apresentado no Artigo 5 a história da salvação que culmina na morte e ressurreição de Jesus, assim como o nascimento da Igreja e com ela da liturgia, a “Sacrosanctum Concilium” passa a tratar, no artigo 6, da liturgia como celebração desta história, particularmente da obra salvífica de Jesus Cristo, na liturgia.

Lemos no início deste artigo: “Assim como Cristo foi enviado pelo Pai , assim também ele enviou os apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para pregarem o evangelho (…) mas ainda para levarem a efeito o que anunciavam: a obra da salvação através do sacrifício e dos sacramentos, sobre os quais gira toda a vida litúrgica”. A afirmação principal deste texto é retomada no início do artigo 7 de constituição: “Para levar a efeito obra tão importante Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo na acções litúrgicas”. Assim se coloca para nós a questão: Se Jesus nos salvou, o que a liturgia acrescenta a esta obra? O que significa que ela deve ser levada a efeito?

Não se trata de completar ou continuar a obra de Cristo, como se ela não tivesse sido perfeita. Deus fez através de Jesus tudo para a nossa salvação. Mas ele nos quer salvar como seres livres. Livremente nos colocamos contra Deus pelo pecado, livremente devemos também aceitar a salvação que Deus operou para nós. Precisamente assim a salvação pode ter efeito, se nós nos voltamos para Deus, se ouvimos sua palavra e a pomos em prática e se acolhemos o presente de uma nova vida, de uma nova história, do Reino que Jesus veio anunciar. Esta acolhida e aceitação acontecem por uma vida em obediência a Deus, mas de modo especialmente consciente e intenso na liturgia. É como também a constituição sobre a liturgia diz: “Para levar a efeito obra tão importante (a obra da salvação) Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas acções litúrgicas” (SC 7). Portanto, dizendo “sim” a Deus, sua vontade e sua obra, e sobretudo celebrando na liturgia este nosso sim vivido, é que se leva a efeito a salvação. Assim a liturgia cristã, ela mesma um fato histórico, se torna momento privilegiado da história da salvação.
       
Seria bem compreensível que alguém pergunte: Como é que na liturgia pode acontecer salvação? Acabamos de ver que a liturgia não é uma acção meramente humana. Cristo está presente na celebração litúrgica como agente principal. Devemos igualmente lembrar que toda acção litúrgica acontece, como nos diz o Vaticano II, na força do Espírito Santo (SC 6). Mas é bom recorrer ainda ao conceito de memória, se queremos entender a eficácia salvífica da liturgia. Memória litúrgica não é um simples lembrar. Lembramos, sim, a páscoa histórica de Cristo e do seu povo, mas a lembramos na presença de Cristo e na força do Espírito Santo. Lembrando a pessoa e a obra de Cristo nos abrimos para ele. Como ele diz no livro do Apocalipse, ele está à porta e bate. Se abrimos a porta, ele entra para cear connosco (cf. Ap 3,20). Isso quer dizer que ele entra em comunhão íntima connosco, e esta comunhão de vida entre Deus e nós é salvação.

Ninguém pode duvidar que tal liturgia seja um culto agradável a Deus, suposto que celebramos ritualmente aquilo que vivemos. Não é apenas um fazer externo, mas a expressão de uma atitude interna e da nossa vida do dia-a-dia. O que assim vale de cada um de nós, vale das nossas famílias, das nossas comunidades eclesiais, vale da Igreja e de certo modo de toda a humanidade e da sua história. Todas as pessoas de boa vontade que vivem o amor e a solidariedade, que lutam pela justiça e a paz, estão fazendo a vontade de Deus. Embora muitos não tenham consciência de sua vida pascal em união com Jesus Cristo e não a celebrem na liturgia cristã ou talvez de maneira alguma, também neles é levada a efeito a obra salvífica de Cristo. Toda a história da humanidade é história da salvação, porque nela se leva a efeito a obra redentora de Cristo até o fim dos tempos. A liturgia é um momento privilegiado desta história.

Sendo assim, não poderíamos dispensar toda a liturgia e apenas viver um culto espiritual? Não, porque desde Caim e Abel a humanidade, de modo particular – para não falar em outras religiões – o povo da antiga aliança, celebrava sua vida e história. Assim fez também Jesus, e ele nos mandou fazer o mesmo em sua memória. Celebrar é uma dimensão essencial e indispensável de uma vida verdadeira e plenamente humana. Na festa, celebrando a vida, vivemos mesmo. Por isso, não há nada mais humano do que celebrar na liturgia a verdadeira vida de cada um de nós e de toda a humanidade que Jesus nos mereceu por sua morte e ressurreição.


(P. Gregório Lutz, CSSp)


04/04/2012

Cristo morreu por obediência?

Lázaro Losano
Matriz de Monte Real

Parece que Cristo não morreu por obediência:

1. Com efeito, a obediência se refere a uma ordem. Ora, não se lê que houvesse ordens para Cristo sofrer. Logo, não sofreu por obediência.

2. Além disso, diz-se que é feito por obediência o que alguém faz por necessidade de uma ordem. Ora, Cristo sofreu não por necessidade, mas por vontade própria. Logo, não sofreu por obediência.

3. Ademais, o amor é uma virtude de maior excelência que a obediência. Ora, diz a Carta aos Efésios que Cristo sofreu por amor: “Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós” (5,2). Logo, deve-se atribuir a paixão de Cristo mais ao amor que à obediência.
EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a Carta aos Filipenses: “Ele se fez obediente ao Pai até a morte” (2,8).



Foi muito conveniente ter Cristo sofrido por obediência. Primeiro, porque isso era conveniente para a justificação humana, como diz a Carta aos Romanos: “Assim como, pela desobediência de um só homem, a multidão se tornou pecadora, assim também, pela obediência de um só, a multidão se tornará justa” (5,19).
Segundo, isso foi conveniente para reconciliar o homem com Deus, como diz a Carta aos Romanos: “Fomos reconciliados com ele pela morte de seu Filho” (5,10), porquanto a própria morte de Cristo foi um sacrifício muito agradável a Deus, conforme a Carta aos Efésios: “E se entregou a si mesmo a Deus por nós em oblação e vítima, como perfume de agradável odor” (5,2). Ora, a obediência é preferível a todos os sacrifícios, como diz o livro dos Reis: “É melhor a obediência que os sacrifícios” (1Re 15,22). Portanto, foi conveniente que o sacrifício da paixão e morte de Cristo procedesse da obediência.
Terceiro, foi conveniente à vitória pela qual Cristo triunfou sobre a morte e o autor dela, pois o soldado não pode vencer se não obedecer ao capitão. Assim o homem Cristo garantiu a vitória pelo fato de ter sido obediente a Deus, conforme o que diz o livro dos Provérbios: “O homem obediente cantará vitórias” (21,28).
Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:
1. Cristo recebeu do Pai a ordem de sofrer. É o que diz o Evangelho de João: “Eu tenho o poder de entregar a vida e tenho o poder de a retomar: este é o mandamento que recebi do meu Pai” (10,18), ou seja, o poder de entregar a vida e de a retomar. Conclui-se, como diz Crisóstomo, que não se deve entender que “primeiro, ele esperou receber ordens e que as tivesse de entender, mas demonstrou que suas atitudes eram voluntárias, destruindo as suspeitas de contradição” com o Pai. E porque a antiga lei se encerrou com a morte de Cristo, conforme o que ele próprio disse ao morrer: “Tudo está consumado” (Jo 19,30), pode-se entender que, ao sofrer, cumpriu todos os preceitos da antiga lei. Cumpriu os preceitos morais, que se fundam nos mandamentos do amor, porquanto sofreu pelo amor do Pai, segundo João: “A fim de que o mundo saiba que amo o meu Pai e ajo conforme o Pai me prescreveu. Levantai-vos, partamos daqui” (14,31), ou seja, para o lugar da paixão; e pelo amor do próximo, segundo o que diz a Carta aos Gálatas: “Me amou e se entregou por mim” (2,20). Cumpriu com sua paixão os preceitos cerimoniais da lei, que se destinam especialmente aos sacrifícios e oblações, porquanto todos os sacrifícios da antiga lei foram figuras do verdadeiro sacrifício que, ao morrer, Cristo ofereceu por nós. Por isso, diz a Carta aos Colossenses: “Ninguém vos condene por questões de comida e bebida, a respeito de uma festa, de uma lua nova. Tudo isso não passa de sombra do que devia vir, mas o corpo é de Cristo” (2, 16-17), pois Cristo está para tudo isso como o corpo para a sombra. Com sua paixão, Cristo cumpriu os preceitos jurídicos da lei, que se relacionam especialmente com a satisfação aos que sofreram injúria, pois, como diz o Salmo 68: “Então pagarei o que não roubei” (v.5), permitindo ele mesmo ser pregado no madeiro por causa do fruto que o homem, contra a ordem de Deus, tirara da árvore.
2. A obediência, embora seja necessária com relação ao que se manda, contudo implica vontade de cumprir o preceito. E foi essa a obediência de Cristo, pois, embora sua própria paixão e morte, em si consideradas, fossem repugnantes à vontade natural, Cristo queria cumprir a vontade de Deus a respeito, segundo o que diz o Salmo 39: “Meu Deus, quero fazer a tua vontade” (v. 9). Por isso, dizia: “Se esta taça não pode passar sem que eu a beba, faça-se a tua vontade” (Mt 26, 42).
3. Pela mesma razão Cristo sofreu por amor e por obediência, pois só por obediência cumpriu os preceitos do amor e, por amor, foi obediente às ordens do Pai.

Suma Teológica III, q.47, a.2

15/11/2011

Os actos da lei (ordenar, proibir, permitir e punir) são convenientemente enumerados?


Monólito com o Código de Hamurabi
(aprox. 1700 a.C.), Museu do Louvre.
Hamurabi é mostrado em frente ao trono
do rei Sol Shamash, recebendo dele as leis.
Parece que os actos da lei não foram convenientemente enumerados enquanto se diz que o ato da lei é “ordenar, proibir, permitir e punir”:

1. “Com efeito, toda lei é preceito comum”, como diz o Jurisconsulto (título dado por Santo Tomás à colecção de extractos dos jurisconsultos romanos compilada por ordem de Justiniano). Ora, o mesmo é ordenar e preceituar. Logo, os outros três são supérfluos.
2. Além disso, é efeito da lei que induza os súditos ao bem, como foi dito acima (art. precedente). Ora, o conselho é sobre bem melhor que o preceito. Logo, pertence mais à lei o aconselhar que o preceituar.
3. Ademais, assim como um homem é incitado ao bem pelas penas, assim também o é pelos prémios. Logo, como o punir é posto como efeito da lei, assim também o premiar.
4. Ademais, a intenção do legislador é de tornar os homens bons, como foi dito acima. Ora, aquele que só por medo das penas obedece à lei não é bom; com efeito, “mesmo que alguém, pelo temor servil, que é o temor das penas, faça o bem, não o faz bem”, como diz Agostinho. Logo, punir não parece ser próprio da lei.
EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz Isidoro: “Toda lei, ou permite algo, como: O homem forte peça um prémio. Ou proíbe, como: A ninguém é lícito pedir em casamento uma virgem consagrada. Ou pune, como: Quem cometeu uma morte, seja decapitado”.
Como a enunciação é o ditame da razão segundo o modo de enunciar, assim também a lei segundo o modo de preceituar. Ora, é próprio da razão que induza de algo a algo. Donde, como nas ciências demonstrativas, a razão induz a admitir a conclusão por alguns princípios, assim também induz a admitir o preceito da lei por algo.
Os preceitos da lei dizem respeito aos atos humanos, os quais a lei dirige, como foi dito acima (q.90 a.1, 2; q.91 a.4). São, contudo, três as diferenças dos actos humanos. Como acima foi dito, alguns atos são bons pelo género, que são os actos das virtudes, e a respeito desses, é posto o ato da lei de preceituar ou ordenar; “ordena”, pois, “a lei todos os actos das virtudes”, como se diz no livro V da Ética. Alguns, porém são actos maus pelo género, como os actos viciosos, e a respeito desses cabe à lei o proibir. Alguns, contudo, pelo seu género, são actos indiferentes, e a respeito desses, cabe à lei o permitir. E podem ser ditos indiferentes todos aqueles actos que são ou pouco bons ou pouco maus. Aquilo pelo qual a lei induz a que se lhe obedeça, é o temor da pena, e quanto a isso, é posto o punir como efeito da lei. [i]
Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:
1. Como cessar de fazer o mal tem alguma razão de bem, assim também a proibição tem alguma razão de preceito. E de acordo com isso, tomando-se o preceito em sentido largo, universalmente se diz lei, o preceito.
2. Aconselhar não é acto próprio da lei, mas pode pertencer também à pessoa privada à qual não compete fazer a lei. Donde também o Apóstolo, na primeira carta aos Coríntios, ao dar um conselho, disse: “Eu digo, não ao Senhor”. E assim não é posto entre os efeitos da lei.
3. Premiar pode caber a qualquer um, mas punir só pertence ao ministro da lei, por cuja autoridade a pena é cominada. E assim o premiar não é posto como acta da lei, mas só o punir.
4. Pelo fato de alguém começar a habituar-se a evitar o mal e a realizar o bem por causa do medo da pena, às vezes é levado a fazê-lo de modo prazenteiro e por vontade própria. E de acordo com isso, a lei também, ao punir, leva a que os homens sejam bons.

Suma Teológica I-II, q.92 a.2)



[i] [Nota: As categorias do “preceituado”, “proibido” ou simplesmente “permitido” são com frequência contestadas em nossa época, em nome de uma moral personalista subjectivista, na qual o sujeito seria o único senhor de suas escolhas. Baseando a sua moral sobre a racionalidade do agir, S. Tomás mantém a necessidade de referências objectivas, permitindo dizer que tal ato deve ser realizado, proibido ou permitido. Como todo o funcionamento da razão teórica, o da razão prática se estrutura a partir da possibilidade de um conhecimento do ser das coisas, da realidade que é o homem inserido em um ambiente de relações ligadas a seu ser ou impondo-se a ele.]

13/11/2011

Qualquer um pode fazer leis?

O imperador Justiniano,
mosaico na Basílica de San Vitale, Ravena
Parece que a razão de qualquer um pode fazer leis:


1. Com efeito, diz o Apóstolo nas Carta aos Romanos que “os gentios, que não têm a lei, naturalmente fazem o que é da lei e são lei para si mesmos” (2, 14). Ora, diz isto comummente de todos. Logo, qualquer um pode fazer-se a lei.
2. Além disso, como diz o Filósofo, “a intenção do legislador é de induzir o homem à virtude” (livro II da Ética). Ora, qualquer homem pode induzir à virtude. Logo, a razão de qualquer homem pode fazer leis.
3. Ademais, como o príncipe da cidade é dela o governante, assim qualquer pai de família é o governante da casa. Ora, o príncipe da cidade pode fazer a lei na cidade. Logo, qualquer pai de família pode fazer a lei em sua casa.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz Isidoro e está nas Decretais: “A lei é a constituição do povo, segundo a qual os que são maiores por nascimento, juntamente com as plebes, sancionaram algo”. Não é, portanto, de qualquer um fazer a lei.
A lei propriamente, por primeiro e principalmente, visa a ordenação ao bem comum. Ordenar, porém, algo para o bem comum é ou de toda a multidão ou de alguém que faz as vezes de toda a multidão. E assim constituir a lei ou pertence a toda a multidão, ou pertence à pessoa pública que tem o cuidado de toda a multidão. Porque em todas as coisas ordenar para o fim é daquele de quem este fim é próprio.
Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:
1. Como foi afirmado acima (a.1), que a lei está em algo não só como em quem regula, mas também, participativamente, como em quem é regulado. E desse modo cada um é lei para si mesmo, enquanto participa da ordem de alguém que regula. Por isso, aí mesmo se acrescenta: “Aqueles que mostram a obra da lei, escrita em seus corações”.
2. A pessoa privada não pode induzir eficazmente à virtude. Pode, com efeito, somente admoestar, mas, se sua admoestação não é recebida, não tem força coactiva, que a lei deve ter, para que eficazmente induza à virtude, como diz o Filósofo. Tal virtude coactiva tem a multidão ou a pessoa pública à qual pertence infligir penas, como se dirá abaixo (q.92, a.2). E assim é apenas dela o fazer leis.
3. Como o homem é parte da casa, assim a casa é parte da cidade; e a cidade é a comunidade perfeita, como se diz no livro I da Política. E assim, como o bem de um só homem não é o fim último, mas ordena-se ao bem comum, assim também o bem de uma só casa ordena-se ao bem de uma cidade, que é a comunidade perfeita. Portanto, aquele que governa uma família, pode certamente fazer alguns preceitos ou estatutos; não porém, aqueles que têm propriamente razão de lei.

ST 1ª 2ae, q.90. a.


11/11/2011

Qual é a melhor forma de governo?

Duas coisas devem ser consideradas acerca da boa ordenação dos príncipes numa cidade ou povo. Uma das quais é que todos tenham alguma parte no principado. Com efeito, por meio disso conserva-se a paz do povo e todos amam e guardam tal ordenação, como se diz no livro II da Política. Outra coisa é o que se considera segundo a espécie de regime ou de ordenação dos príncipes. Como há diversas espécies de regime, como diz o Filósofo, as principais são o reino, no qual um só governa com poder; e a aristocracia, isto é, o poder dos melhores, na qual alguns poucos governam com poder. Donde a melhor ordenação dos 
príncipes numa cidade ou reino é aquela na qual um é posto como chefe com poder, o qual a todos preside; e sob o mesmo estão todos os que governam com poder; e assim tal principado pertence a todos, quer porque podem ser escolhidos dentre todos, quer porque também são escolhidos por todos. Tal é, com efeito, o melhor governo, bem combinado: de reino, enquanto um só preside; de aristocracia, enquanto muitos governam com poder; e de democracia, isto é, com o poder do povo, enquanto os príncipes podem ser eleitos dentre as pessoas do povo, e ao povo pertence a eleição dos príncipes.
Moisés
Miguel Ângelo
E isto foi instituído segundo a lei divina. Moisés, com efeito, e seus sucessores governam o povo como governando singularmente a todos, o que é uma espécie de reino. Eram escolhidos setenta e dois anciãos segundo a virtude: diz-se no livro do Deuteronómio (1, 15): “Tirei de vossas tribos homens sábios e nobres e os constituí príncipes”; e isso era aristocrático. Entretanto, era democrático que esses tivessem sido escolhidos dentre todo o povo; diz-se no livro do Êxodo (18, 21): “Providencie de todo o povo homens sábios” etc.; e também que o povo os escolhia; donde se diz no livro do Deuteronómio (1, 13): “Daí dentre vós homens sábios” etc. Portanto, fica claro que foi a melhor ordenação dos príncipes que a lei instituiu.

(Do artigo “A lei antiga ordenou convenientemente a respeito dos príncipes?” da Suma Teológica – 1ª 2ae, q.105 a.1)

09/11/2011

A ignorância é um pecado?

A ignorância difere da nesciência em que significa a simples negação da ciência. Por isso, pode-se dizer daquele a quem falta a ciência de alguma coisa, que não a conhece. Desse modo Dionísio afirma haver nesciência nos anjos. A ignorância implica uma privação de ciência, a saber, quando a alguém falta a ciência daquelas coisas que naturalmente deveria saber. Entre essas coisas há as que se é obrigado a saber, isto é, aquelas sem o conhecimento das quais não se pode fazer correctamente o que é devido. Assim, todos são obrigados a saber, em geral, as verdades da fé e os preceitos universais da lei. E cada um em particular, o que diz respeito ao seu estado e sua função. Ao contrário, há coisas que não se é obrigado a saber, se bem que seja natural sabe-las, por exemplo, os teoremas da geometria, e excepto em certos casos, os acontecimentos contingentes.
Evidentemente todo aquele que negligencia ter ou fazer o que é obrigado ter ou fazer, peca por omissão. Portanto, por causa de uma negligência, a ignorância das coisas que se devia saber é um pecado. Mas não se pode imputar a alguém como negligência o não saber o que não se pode saber. Por isso, essa ignorância é chamada invencível, porque nenhum estudo a pode vencer. Como tal ignorância não é voluntária, porque não está em nosso poder rechaçá-la, por isso ela não é um pecado. Por aí se vê que a ignorância invencível nunca é um pecado. Mas a ignorância vencível é, se ela se refere ao que se deve saber. Mas, ela não o é, se se refere ao que não se é obrigado a saber.

Suma Teológica I-II, q.76, a.2

07/11/2011

Devem ser adoradas de algum modo as relíquias dos santos?

Ampola com sangue  do Btº João Paulo II

Parece que não devem ser adoradas de modo algum as relíquias dos santos:

1. Com efeito, não devemos fazer nada que possa ser ocasião de erro. Ora, adorar as relíquias dos mortos parece cair no erro dos pagãos, que rendiam culto aos mortos. Logo, não devem ser honradas as relíquias dos santos.

2. Além disso, parece uma tolice venerar um objeto insensível. Ora, as relíquias dos santos são insensíveis. Logo, é tolice venerá-las.

3. Ademais, um corpo morto não é da mesma espécie do que um corpo vivo; e, por conseguinte não parece ser numericamente o mesmo. Parece, pois, que depois da morte de um santo, o seu corpo não deve ser adorado.


EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o livro dos Dogmas eclesiásticos: “Cremos que devem ser adorados com sinceridade os corpos dos santos, e principalmente as relíquias dos bem-aventurados mártires, como se fossem os membros de Cristo”. E acrescenta logo depois: “Se alguém for contra esta doutrina, não é cristão, mas seguidor de Eunômio e de Vigilâncio”.
Agostinho afirma: “Se a roupa e a aliança de um pai, ou outras coisas parecidas, são tanto mais apreciadas pelos filhos quanto maior é o seu amor pelos pais, de modo algum devem ser desprezados os corpos que, sem dúvida, são para nós muito mais familiares e intimamente unidos do que qualquer roupa que vistamos; pois os corpos pertencem à natureza mesma do homem”. É evidente que quem ama uma pessoa, depois de sua morte, venera tudo o que fica dela; não só o corpo ou as partes dele, mas também objectos exteriores, por exemplo, as roupas ou coisas semelhantes. É, pois, evidente que devemos ter veneração pelos santos de Deus como membros de Cristo, filhos e amigos de Deus e intercessores nossos. E, portanto, em memória deles, devemos venerar dignamente qualquer relíquia deles, principalmente os seus corpos, que foram templos e órgãos do Espírito Santo, que habitou e agiu neles, e que devem ser configurados ao corpo de Cristo pela glória da ressurreição. Por isso, o próprio Deus honra como convém as suas relíquias, pelos milagres que faz na presença deles.
Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:
1. Esta era a razão apresentada por Vigilâncio, cujas palavras são citadas por Jerónimo no livro que escreveu contra ele: “É um rito quase pagão que acaba sendo introduzido sob pretexto de religião: eles adoram, beijando-o, não sei que tipo de pó, depositado numa pequena vasilha, envolvida num pano precioso”. Contra ele escreve Jerônimo: “Nós não adoramos, a saber, com adoração de latria as relíquias dos mártires; nem o sol, nem a lua, nem os anjos. Mas honramos as relíquias dos mártires para honrar aquele de quem são mártires; honramos os servos para que a honra prestada aos servos redunde ao Senhor”. Assim, pois, honrando as relíquias dos santos não caímos no erro dos pagãos que rendiam culto de latria aos mortos.
2. Não adoramos o corpo insensível por si mesmo, mas pela alma com a qual esteve unido e que agora frui de Deus; e por causa de Deus, a cujo serviço estiveram.
3. O corpo morto de um santo não é idêntico numericamente ao seu corpo vivo, que tinha uma forma diferente, ou seja a alma; mas é o mesmo pela identidade da matéria, que deverá unir-se de novo à sua forma que é a alma.

Suma Teológica III, q.25, a.6


05/11/2011

É o sacramento da penitência necessário para a salvação?

Jesus e Zaqueu,
mosaico na Basílica de São Marcos, Veneza

Parece que este sacramento não é necessário para a salvação:

1. Com efeito, sobre estas palavras do salmista: “Quem semeou nas lágrimas etc.” (Sl 125, 5), comenta a Glosa: “Não fiques triste, se tens boa vontade, porque então se colhe a paz”. Ora, a tristeza pertence à natureza da penitência, conforme o dito de Paulo: “Pois a tristeza segundo Deus produz um arrependimento que conduz à salvação”. Logo, a boa vontade, sem a penitência, é suficiente para a salvação.

2. Além disso, lê-se no livro dos Provérbios: “O amor encobre todas as faltas” (10, 12) e mais abaixo: “A misericórdia e a fé apagam os pecados” (15, 27). Ora, este sacramento só existe para apagar os pecados. Logo, tendo caridade, fé e misericórdia, qualquer um pode alcançar a salvação, mesmo sem o sacramento da Penitência.

3. Ademais, os sacramentos da Igreja foram instituídos por Cristo. Ora, lê-se que Cristo perdoou a mulher adúltera sem penitência. Logo, parece que a penitência não é necessária para a salvação.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Senhor diz: “Se vós não fizerdes penitência, vós todos perecereis igualmente” (Lc 13, 5).
Algo é necessário para a salvação de duas maneiras: de maneira absoluta e de maneira condicional. É absolutamente necessário para a salvação aquilo sem o que ninguém pode alcançar a salvação, como a graça de Cristo, o sacramento do Baptismo, pelo qual se renasce em Cristo. O sacramento da Penitência é necessário sob condição, já que não é necessário para todos, mas somente para os que estão sob o jugo do pecado. Pois, lê-se no livro dos Paralipómenos: “Tu, Senhor, Deus dos justos, tu não instituíste a penitência para os justos Abraão, Isaac e Jacob, para estes que não te ofenderam”.
Mas “o pecado, tendo sido consumado, gera a morte”, diz a Carta de Tiago. Por isso, é necessário para a salvação do pecador que ele seja libertado do pecado. Isto não pode ser feito sem o sacramento da penitência, no qual actua o poder da paixão de Cristo por meio da absolvição do sacerdote juntamente com o ato do penitente, que coopera com a graça para a destruição do pecado, como, aliás, ensina Agostinho: “Quem te criou sem ti, não te justificará sem ti”. Daí se segue com evidência que o sacramento da penitência é necessário para a salvação depois do pecado, assim como o remédio corporal para o homem que caiu em uma doença grave.
Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:
1. Esta glosa deve ser entendida daqueles que têm boa vontade não interrompida pelo pecado. Com efeito, estes não têm motivo de tristeza. Mas, caso a boa vontade seja suprimida pelo pecado, ela não pode ser restituída sem tristeza, pela qual alguém se dói do pecado passado. Isso faz parte da penitência.
2. Desde que alguém incorra em pecado, a caridade, a fé e a misericórdia não o livram do pecado sem a penitência. Com efeito, requer a caridade que o homem sinta a dor de ter ofendido a um amigo e que se empenhe em reconciliar-se com ele. Requer também a própria fé que ele, pelo poder da paixão de Cristo, que actua nos sacramentos da Igreja, procure justificar-se dos pecados. Requer também a misericórdia que o homem, fazendo penitência, remedeie a miséria, em que caiu pelo pecado, conforme o dito dos Provérbios: “O pecado é a vergonha das nações” (14, 34). Por isso, consta no livro do Eclesiástico: “Tem compaixão de tua alma agradando a Deus” (30, 34).
3. Pertenceu ao poder superior, que só Cristo teve, como se disse acima (q.64 a>4), conceder o efeito do sacramento da penitência, que é a remissão dos pecados, à mulher adúltera sem o sacramento da penitência, ainda que não sem a penitência interior, que ele operou nela pela graça.

Suma Teológica III, q.84, a.5