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27/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Virtudes

Prudência

 

A virtude moral pode existir sem certas virtudes intelectuais, como a sabedoria, a ciência e a arte. Não porém sem o intelecto e a prudência. Sem a prudência, não pode haver realmente virtude moral, já que esta é um habitus “electivo” (electivus), isto é, que faz escolhas certas. Ora, para uma boa escolha, duas coisas exigem-se: primeiro, que haja a devida intenção do fim, o que se faz pela virtude moral, que inclina a potência apetitiva para o bem conveniente com a razão, que é o fim devido. Segundo, que se usem correctamente os meios, e isso só se alcança por uma razão que saiba aconselhar, julgar e decidir bem, o que é próprio da prudência e de virtudes a ela conexas. Logo, a virtude moral não pode existir sem a prudência.

Por conseqüência, também não poderá haver virtude moral sem o intelecto, pois é por ele que são conhecidos os princípios naturalmente evidentes, seja na ordem especulativa, seja na prática. Assim, da mesma forma que a razão recta, na ordem especulativa, enquanto procede de princípios naturalmente conhecidos, pressupõe o intelecto deles, assim também a prudência, que é a razão recta do agir (recta ratio agibilium).

 

São Tomás de Aquino, Suma Teológica P I-II, q. 58, a. 4.

20/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Ideais

Homem vazio e perplexo

  Se os grandes ideais deixam de motivar e polarizar a actividade do homem, tornado indiferente, cínico e “qualquer”, pela atomização social e pela socialização por homogeneização, não é de estranhar que ele se sinta interiormente vazio e radicalmente perplexo.

  A crise não é só de ideais religiosos, mas mesmo de ideais humanos profundos, reais e permanentes, substituídos - pela poderosa máquina da massificação ao serviço de todas as ideologias – por ideais  superficiais, fictícios e cambiantes (Isidoro Ribeiro, Totalitarismo e participação, BROTÈRIA, Vol I, 1, Janeiro 1973).

Os ídolos, as estrelas, as modas e as propagandas entretêm o sentimento de deriva à superfície de um mundo fascinante de perpétua novidade mas não colhem o homem em profundidade

 

(M. F. Manzanedo, Breve autocrítica del hombre de hoy, Studium, vol. XII, fasc, 2, 1972)

13/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Democracia

Condições e bases da democracia

  Condição fundamental para a autêntica democracia é certo grau de maturidade cultural e cívica. A experiência prova que nas sociedades subdesenvolvidas a democracia se torna uma utopia. A própria inclusão extemporânea dos processos demecráticosegenera facilmente em anarquia, que por sua vez abrirá caminho necessário a qualquer das formas de ditadura. A maturidade de que se fala revela-se por uma certa capacidade de discernimento, opinião justa e equilibrada, expressão dos próprios sentimentos, objectividade, harmonia e conveniência com o bem comum.

  A verdadeira democracia respeita os direitos da família, da educação, livre opinião, opção e responsabilidade nos próprios destinos. Reclama um alto sentido de serviço tanto para governantes como para governados.

  A liberdade religiosa é um direito que o homem tem, a partir da sua condição de criatura. Mesmo os agnósticos e ateus têm a obrigação, pelo menos, de respeitar a liberdade de consciência e as convicções de cada um.

   Por direito natural é à família que compete educar.A educação é o prolongamento e o exercício continuado daquele amor inicial que deu origem ao acto da vida.A própria natureza dotou os pais daquela força de inclinação e instinto que os capacita para tão alta tarefa. Por isso,é à família que compete o direito de escolher as escolas dos seus filhos

(A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, BROTÈRIA, Vol. 99, 1974)

27/02/2021

Marxismo

 

         Filosofia e Religião, Vida Humana

O marxismo

  O segundo conceito erróneo de democracia é o que nos vem do sistema marxista. Concedendo igualmente, como o faz o capitalismo, o primado ao factor económico, apregoa a socialização dos bens como único processo de libertação de todas as “alienações”. A sociedade, segundo os seus princípios, está dividida em duas classes: os exploradores e os explorados. A daqueles constituem-na s detentores dos bens de produção; a destes, as classes trabalhadoras.

 O falso pressuposto baseia-se na teoria da “mais valia” de Marx. Segundo Carlos Marx, o trabalhador produz mais do que gasta. Pagando o empresário apenas o que o trabalhador gasta, apropria-se indevidamente da mais valia do trabalho “não pago”. Segundo ele, assim se formaa o “capital”. Logicamente a partir deste princípio, o marxismo nega a legitimidade da propriedade privada, pois ela não viria a ser mais do que um roubo praticado contra os trabalhadores.

  Para realizar os seus intentos, propõe-se o marxismo a conquista revolucionária do poder e a instauração da ditadura do proletariado. Dentro da sua lógica, o sistema marxista levaria ao desaparecimento das restantes alienações, entre as quais se contam a do estado e da religião.

  Neste conceito de democracia, afirma-se realmente que o poder vem do povo, mas entende-se por povo apenas as massas trabalhadoras. Delas emergem os militantes e os quadros do partido. Conscientes do sentido fatal da história, estão dispostos a realizá-lo integralmente empenhando-se para isso na activação da luta de classes. O marxismo torna-se assim uma verdadeira ditadura de pertido único que é fonte e aparelho de todo o poder. A estruturação faz-se principalmente, a partir da células de base. Por um processo selectivo ascendente, vão-ze promovendo os mais representativos e que são tidos como os que melhor encarnam a ideologia.. Segundo tal princípio, os que se encontram em níveis superiores são os que melhor servem a pressuposta causa do povo. A eles se deve, pois, uma obediência incondicional.

  Mais opressor que o primeiro, tal sistema merece um juízo mais rigoroso. Como escreve Paulo VI, o materialismo ateu, a maneira como absorve a liberdade individual na sociedade, despersonalizando o homem, negando toda e qualquer transcedência a si mesmo e às leis da história fazem com que o sistemaseja uma tomada de posição que se opões radicalmente, ou pelo menos contradiz os ponstos fundamentais da fé dos cristãos e da concepção filosófica do homem. (cf. O. A. 26)

  Quanto aos socialismos, porém, que hoje nos podem bater à porta, nem todos estão dominados por estas ideologias inaceitáveis. Um discernimento se torna necessário em cada caso concreto. Só então será possível ver o grau de adesão e compromisso permitido aos cristãos. Sê-lo-á, na medida em que se encontrarem salvaguardados os valores da liberdade, responsabilidades pessoasi e abertura espiritual, que permitam o desabrochar integral do homem (cf. O. A. 31).

 

(A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, BROTÈRIA, Vol. 99, 1974)

20/02/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 

O liberalismo


Inspirado nas ideias igualitárias da revolução francesa, tem as suas raízes em movimentos filosóficos e religiosos anteriores. Defende, por princípio, a liberdade absoluta individual. Cada qual é o único senhor responsável dos seus direitos e iniciativas. A função do estado será a penas garantir a ordem pública necessária para a defesa dessas liberdades. Tal concepção levar-nos-ia necessariamente à lei fatal  da “luta pela vida”, em que necessariamente terá de morrer o mais fraco. Aplicado ao mundo da economia, tal príncipio reduziria o trabalho a simples mercadoria, sujeito à lei da oferta e da procura. Favoreceria o capitalismo desenfreado em que, segundo o princípio de que a matéria atrai a matéria na razão directa das massas e na inversa do quadrado das distâncias, os ricos seriam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, afastados de toda a capacidade de participação. Entrando em contradição consigo mesmo, o liberalismo acaba pois por fazer das liberdades individuais um mito e acentuar cada vez mais os desiquilíbrios sociais.

A ideologia liberal que tem servido um capitalismo infrene, lesivo dos direitos das classes trabalhadoras e da dignidadede um público manipulado pelas propagandas de consumo, constitui ainda hoje uma verdadeira ameaça. Como acentua o documento papal Octogesima Adveniens [1], fazendo reviver o capitalismo com novas expressões, através de empresas multinacionais, dada a concentração e flexibilidade dos seus meios, pode levar por diante estratégias autónomas em boa parte independentes dos poderes públicos nacionais, pô-las fora de controlo sob o ponto de vista do bem comum, criando assim uma nova forma abusiva de dominação económica nos campos social, cultural e político.

 

A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, in BROTÈRIA, vol 99, 1974



[1] São Paulo VI, Carta Apostólica, 14Maio1971.

13/02/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 

É necessária outra doutrina, além das disciplinas filosóficas?

QUANTO AO PRIMEIRO ARTIGO, ASSIM SE PROCEDE: Parece desnecessária outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

1. – Pois não se deve esforçar o homem por alcançar objetos que ultrapassem a razão, segundo a Escritura (Ecle. 3, 22): Não procures saber coisas mais dificultosas do que as que cabem na tua capacidade. Ora, o que é da alçada racional ensina-se, com suficiência, nas disciplinas filosóficas; logo, parece escusada outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

2. – Ademais, não há doutrina senão do ente, pois nada se sabe, senão o verdadeiro, que no ente se converte. Ora, de todas as partes do ser trata a filosofia, inclusive de Deus; por onde, um ramo filosófico se chama teologia ou ciência divina, como está no Filósofo. Logo, não é preciso que haja outra doutrina além das filosóficas.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a segunda Carta a Timóteo (II Tm. 3, 16): Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça. Porém, a Escritura, divinamente revelada, não pertence às disciplinas filosóficas, adquiridas pela razão humana; por onde, é útil haver outra ciência, divinamente revelada, além das filosóficas.

RESPONDO.

Para a salvação do homem, é necessária uma doutrina conforme à revelação divina, além das filosóficas, pesquisadas pela razão humana. Porque, primeiramente, o homem é por Deus ordenado a um fim que lhe excede a compreensão racional, segundo a Escritura (Is 64, 4): O olho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que te esperam. Ora, o fim deve ser previamente conhecido pelos homens, que para ele têm de ordenar as intenções e atos. De sorte que, para a salvação do homem, foi preciso, por divina revelação, tornarem-se-lhe conhecidas certas verdades superiores à razão.

Mas também naquilo que de Deus pode ser investigado pela razão humana, foi necessário ser o homem instruído pela revelação divina. Porque a verdade sobre Deus, exarada pela razão, chegaria aos homens por meio de poucos, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros; se bem do conhecer essa verdade depende toda a salvação humana, que em Deus consiste. Logo, para que mais conveniente e segura adviesse aos homens a salvação, cumpria fossem, por divina revelação, ensinados nas coisas divinas. Donde foi necessária uma doutrina sagrada e revelada, além das filosóficas, racionalmente adquiridas.

QUANTO AO 1º, portanto, deve dizer-seque embora se não possa inquirir pela razão o que sobrepuja a ciência humana, pode-se entretanto recebê-lo por fé divinamente revelada. Por isso, no lugar citado (Ecle. 3, 25), se acrescenta: Muitas coisas te têm sido patenteadas que excedem o entendimento dos homens. E nisto consiste a sagrada doutrina.

QUANTO AO 2º, deve dizer-seque o meio de conhecer diverso induz a diversidade das ciências. Assim, o astrônomo e o físico demonstram a mesma conclusão, p. ex., que a terra é redonda; se bem o astrônomo, por meio matemático, abstrato da matéria; e o físico, considerando a mesma. Portanto, nada impede que os mesmos assuntos, tratados nas disciplinas filosóficas, enquanto cognoscíveis pela razão natural, também sejam objeto de outra ciência, enquanto conhecidos pela revelação divina. Donde a teologia, atinente à sagrada doutrina, difere genericamente daquela teologia que faz parte da filosofia.

 

São Tomás de Aquino, Summa Theológica

25/01/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 

A Doutrina Sagrada é uma ciência?



Existem dois tipos de ciência:

Algumas procedem de princípios que são conhecidos à luz natural do intelecto (aritmética, geometria); Outras procedem de princípios conhecidos à luz de uma ciência superior (por ex.: perspectiva: princípios tomados à geometria; música: princípios tomados à aritmética).

26/12/2020

Filosofia e Religião

 


Anjos

A acção dos anjos sobre os homens (IV)

  

         O anjo pode agir sobre os sentidos humanos?

    Parece que o anjo não pode agir sobre os sentidos humanos:

   1. Com efeito, a operação dos sentidos é vital, e tal operação não provém de um princípio extrínseco. Logo, não pode ser causada por um anjo.

   2. Além disso, a potência sensitiva é mais nobre que a nutritiva. Ora, parece que o anjo não pode agir sobre a potência nutritiva, nem sobre outras formas naturais. Logo, nem pode agir sobre a potência sensitiva.

   3. Ademais, os sentidos movem-se naturalmente pelas coisas sensíveis. Ora, o anjo não pode agir sobre a ordem da natureza, como acima foi dito (q. 110, a. 4). Logo, não pode agir sobre os sentidos, pois é o sensível que sempre age sobre os sentidos.

   EM SENTIDO CONTRÁRIO, os anjos que destruíram Sodoma “infligiram cegueira aos sodomitas (ou trevas) de modo que não pudessem achar a entrada da casa” (Gn 19, 11). Algo parecido se lê no livro dos Reis a respeito dos sírios conduzidos por Eliseu a Samaria (II Re 6, 18).

  


De duas maneiras se age sobre os sentidos: ou pelo exterior, como quando as coisas sensíveis agem sobre eles; ou pelo interior. Vemos de fato neste último caso que, espíritos e humores perturbados agem sobre os sentidos. Assim a língua do doente, cheia de bílis, tudo sente como amargo, e o mesmo acontece com os outros sentidos. O anjo pode agir sobre os sentidos do homem dessas duas maneiras, por sua potência natural. Com efeito, pode ele apresentar aos sentidos desde o exterior um objeto sensível já constituído pela natureza ou formando-o de novo, como quando assume um corpo, como acima foi dito (q. 51, a. 2). Pode também mover interiormente os espíritos e humores, como acima foi dito, provocando assim de diferentes maneiras alterações nos sentidos.

   Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

   1. O princípio da operação dos sentidos não pode ser sem o princípio interior que é a potência sensitiva. Contudo, esse princípio interior pode ser movido de diferentes maneiras pelo exterior, como se disse.

   2. Movendo interiormente os espíritos e humores, o anjo pode operar alguma coisa para agir sobre o ato da potência nutritiva e, igualmente, da potência apetitiva e sensitiva, e de qualquer outra potência corporal que se serve de um órgão.

   3. O anjo nada pode fazer fora da ordem total das criaturas, mas pode fazer fora da ordem de uma natureza particular, pois não está sujeito a essa ordem. E assim, pode ele, de maneira peculiar, agir sobre os sentidos fora do modo ordinário.

 

(São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I, 111, 4)

19/12/2020

Filosofia e Religião

 


Anjos

A acção dos anjos sobre os homens (II)

   Os anjos podem agir sobre a vontade do homem?

   Parece que os anjos podem agir sobre a vontade do homem:

   1. Com efeito, a propósito da passagem da Carta aos Hebreus: “Aquele que faz de seus anjos espíritos e de seus ministros chama de fogo” (1, 7), diz a Glosa: “São fogo porque têm o espírito ardente e queimam nossos vícios”. Ora, isso só é possível se podem agir sobre a vontade. Logo, os anjos podem agir sobre a vontade.

   2. Além disso, Beda diz que “o diabo não inspira os maus pensamentos, mas os excita”. Já Damasceno vai mais longe, dizendo que também eles os inspiram, e acrescenta: toda malícia e as paixões imundas foram imaginadas pelos demónios e lhes foi concedido inspirá-las aos homens. Pela mesma razão, os anjos bons também inspiram bons pensamentos e os excitam. Ora, isso é possível se agirem sobre a vontade. Logo, agem sobre a vontade.

   3. Ademais, já foi dito que o anjo ilumina o intelecto do homem por meio de representações imaginárias. Ora, assim como o anjo pode agir sobre a imaginação, que está a serviço do intelecto, semelhantemente sobre o apetite sensível que está a serviço da vontade, pois é ele mesmo uma potência ligada a um órgão corporal. Logo, se o anjo ilumina o intelecto, pode também agir sobre a vontade.

   EM SENTIDO CONTRÁRIO, é próprio de Deus agir sobre a vontade, conforme diz o  livro dos Provérbios: “O coração do rei nas mãos do Senhor; ele o dirige para tudo o que quer” (21, 1).

  


Pode-se agir sobre a vontade de duas maneiras. Primeiro, desde o interior. Como o movimento da vontade nada mais é que sua inclinação à coisa querida, pertence só a Deus agir sobre a vontade, ele que dá à natureza intelectual a potência de tal inclinação. Assim como a inclinação natural só pode provir de Deus como criador da natureza, assim também a inclinação da vontade só pode provir de Deus, que é causa da vontade.

   Segundo, desde o exterior. No anjo isso acontece apenas de um modo, a saber, pelo bem que o intelecto apreende. Ora, na medida em que alguém é causa de que algo é apreendido como um bem desejável, nessa medida move a vontade. Somente Deus pode mover assim eficazmente uma vontade; o homem e o anjo, pela persuasão, como acima foi dito. Mas há ainda outro modo de mover a vontade humana desde o exterior, ou seja, por uma paixão existente no apetite sensível. Por exemplo, pela concupiscência ou ira, a vontade é inclinada a querer alguma coisa. Os anjos, na medida em que são capazes de excitar tais paixões, podem mover a vontade. Entretanto, não necessariamente, pois a vontade sempre permanece livre para consentir ou resistir à paixão.

   Nota: São Tomás pensa aqui na acção dos anjos maus, que não é iluminação, mas incitação jamais absolutamente coercitiva.

   Portanto, quanto às objeções iniciais, deve-se dizer que:

   1. Os ministros de Deus, homens ou anjos, consomem os vícios e inflamam para a virtude por meio da persuasão.

   2. Os demónios não podem insinuar pensamentos causando-os no interior, uma vez que o uso da potência cogitativa depende da vontade. Entretanto, diz-se que o diabo excita os pensamentos porque incita a pensar ou a desejar o que foi pensado, mediante persuasão, ou despertando uma paixão. E essa maneira de excitar, Damasceno chama inspirar, dado que essa ação se dá no interior. Contudo, os bons pensamentos são atribuídos a um princípio mais elevado, a Deus, embora se sirva do serviço dos anjos.

  3. O intelecto humano, no presente estado, não pode conhecer a não ser voltando-se para as representações imaginárias, mas a vontade humana pode querer alguma coisa segundo o juízo da razão e sem seguir uma paixão do apetite sensível. Portanto, não há semelhança entre eles.

(São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I, 111, 2)

12/12/2020

Filosofia e Religião

 


 

Anjos

A ação dos anjos sobre os homens (I)

   O anjo pode iluminar o homem?

   Parece que o anjo não pode iluminar o homem:

   1. Com efeito, o homem é iluminado pela fé, tanto que Dionísio atribui a iluminação ao batismo, o sacramento da fé. Ora, a fé vem diretamente de Deus, como se diz na Carta aos Efésios: “É pela graça que vós sois salvos por meio da fé; e isso não depende de vós, é dom de Deus” (2, 8). Logo, o homem não é iluminado pelo anjo, mas imediatamente por Deus.

   2. Além disso, a passagem da Carta aos Romanos que diz: “Deus lhes manifestou” (1, 19), a Glosa diz: “Não somente a razão natural foi útil manifestando aos homens as coisas divinas, mas ainda o próprio Deus lhes revelou por meio de sua obra”, ou seja, por meio das criaturas. Ora, tanto a razão natural como as criaturas, vêm imediatamente de Deus. Logo, Deus ilumina o homem de modo imediato.

   3. Ademais, o que é iluminado conhece sua iluminação. Ora, os homens não percebem que são iluminados pelos anjos. Logo, não o são.

   EM SENTIDO CONTRÁRIO, Dionísio prova que as revelações das coisas divinas chegam aos homens mediante os anjos. Essas revelações são iluminações. Portanto, os homens são iluminados pelos anjos.

Pela ordem da divina providência os inferiores se submetem às ações dos superiores. Assim como os anjos inferiores são iluminados pelos superiores, assim os homens, inferiores aos anjos, são por eles iluminados.

   Contudo, o modo de uma e outra iluminação às vezes é semelhante e às vezes diferente. Acima se disse [em outro artigo] que a iluminação que é a manifestação da verdade divina pode ser considerada segundo dois aspectos: enquanto o intelecto inferior é reforçado pela ação do intelecto superior, e enquanto o superior propõe ao inferior as espécies inteligíveis que possui, a fim de que ele possa captá-las. Assim se passa com os anjos, quando um anjo superior partilha uma verdade universal concebida segundo a capacidade de um anjo inferior. Todavia, o intelecto humano não pode receber uma verdade inteligível pura, posto que sua natureza exige que conheça voltando-se para as representações imaginárias [tema interessantíssimo que espero também postar aqui]. Por isso os anjos comunicam aos homens a verdade inteligível por intermédio das imagens sensíveis. Como diz Dionísio: “É impossível que brilhe para nós um raio divino a não ser envolto por diversos véus sagrados”. Por outro lado, o intelecto humano, enquanto inferior, é fortalecido pela ação do intelecto angélico. Portanto, por essas duas maneiras se considera a iluminação pela qual o homem é iluminado pelo anjo.

   Quanto às objeções iniciais, deve-se dizer, portanto, que:

   1. São dois os requisitos para a fé. Primeiro, um habitus [ver Vocabulário dos termos utilizados por Sto. Tomás na Suma Teológica] do intelecto pelo qual se dispõe a obedecer à vontade que se inclina para a verdade divina. Com efeito, o intelecto dá seu assentimento à verdade da fé não por ser convencido pela razão, mas por ser obrigado pela vontade. Como diz Agostinho: “Ninguém crê a não ser porque quer”. Com respeito a isso, a fé vem exclusivamente de Deus. Segundo, que as verdades a serem cridas sejam propostas ao crente. E isso se faz pelo homem, pois “a fé vem pelo ouvido”, como diz a Carta aos Romanos (10, 17), mas principalmente pelos anjos, por meio de quem são reveladas aos homens as coisas de Deus. Portanto, os anjos realizam algo na iluminação da fé. Ademais, os homens são iluminados pelos anjos não somente a respeito do que crer, mas também do que agir.

   2. A razão natural, que vem imediatamente de Deus, pode ser fortalecida pelo anjo, como foi dito. E igualmente, a verdade inteligível que resulta das espécies recebidas das criaturas é tanto mais elevada quanto mais forte for o intelecto humano. Desse modo o homem é ajudado pelo anjo para alcançar um conhecimento mais perfeito de Deus por meio das criaturas.

   3. A operação intelectual e a iluminação podem ser consideradas de duas maneiras. Primeiro, da parte da coisa conhecida. Sob esse aspecto, aquele que conhece ou é iluminado, conhece que conhece ou que é iluminado, porque conhece que a coisa lhe é manifestada. Segundo, da parte do princípio: neste caso, nem todo o que conhece alguma verdade conhece o que é o intelecto, princípio da atividade intelectual. De modo semelhante, nem todo o que é iluminado por um anjo conhece que é iluminado pelo anjo (Nota: Explicação que não vale apenas para o papel dos anjos na Revelação, mas para todas as “iluminações” que podem deles provir, sem que o saibamos de modo algum).

 

(São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 113, a. 8)

 

05/12/2020

Filosofia e Religião

 


Anjos da Guarda

Tratado dos Anjos Art. 7 –

 

Se os anjos se condoem com os males dos que guardam.

(II Sent., dist., XI, part. I, a. 5).

O sétimo discute-se assim.

   Parece que os anjos se contristam com os males dos que guardam.

   1. — Pois, diz a Escritura: Os anjos da paz chorarão amargamente. Ora, o pranto é sinal de dor e de tristeza. Logo, os anjos condoem -se com os males dos homens que guardam.

   2. Demais. — Como diz Agostinho, a tristeza provém do que nos acontece contra a nossa vontade. Ora, a perdição de um homem é contra a vontade do seu anjo da guarda. Logo, os anjos condoem-se com a perdição dos homens.

   3. Demais. — Como a tristeza é contrária à alegria, assim o pecado, à penitência. Ora, os anjos se alegram com o pecador penitente, como se lê no Evangelho. Logo, condoem-se quando o justo cai em pecado.

   4. Demais. — Ao passo da Escritura — E tudo o que oferecem como primícias, diz a Glossa de Orígenes: Os anjos são levados a juízo, porque caíram, quer por negligência deles, quer por ignávia dos homens.

   Mas é racional que a gente sofra por causa dos males pelos quais é levado a juízo. Logo, os anjos condoem-se com os pecados dos homens.

   Mas, em contrário. — Onde há tristeza e dor não há perfeita felicidade; por isso, diz o Apocalipse: E não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais dor. Ora, os anjos são perfeitamente felizes. Logo, de nada se condoem.

   SOLUÇÃO. — Os anjos não se condoem com os pecados nem com as penas dos homens, pois, a tristeza e a dor procedem, como diz Agostinho, do que contraria a vontade. Ora, nada acontece no mundo contrário à vontade dos anjos e dos outros bem-aventurados, porque a vontade deles adere totalmente à ordem da divina justiça, e nada há no mundo que não seja feito ou permitido por essa justiça. Donde, absolutamente falando, nada acontece no mundo, contra a vontade dos bem-aventurados. Pois, como diz o Filósofo, chama-se voluntário absolutamente, ao que alguém quer, em particular, quando age, i. é, consideradas todas as circunstâncias, embora considerado em universal, não fosse voluntário. Assim, o nauta não quer que as mercadorias sejam atiradas ao mar, absoluta e universalmente falando, mas o quer, estando em risco eminente de perder-se; e por isso há aqui, antes, um voluntário do que um involuntário, como no mesmo passo se diz. Donde, os anjos, universal e absolutamente falando, não querem os pecados e as penas dos homens; querem contudo que, por elas, se conserve a ordem da divina justiça, que submete certos a penas e permite que pequem.

   DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — As palavras citadas de Isaías podem entender-se como referentes aos anjos anunciadores de Ezequías, que choraram, conforme o sentido literal, por causa das palavras de Rapsaco, de que se trata no mesmo livro. Pelo sentido alegórico porém, os anjos são apóstolos e pregadores da paz, que choram sobre os pecados dos homens. Se porém, pelo sentido anagógico, o passo se refere aos anjos bons, então o modo de falar é metafórico, para significar que eles querem, em universal, a salvação dos homens. Pois, é assim que tais paixões se atribuem a Deus e aos anjos.

   RESPOSTA À SEGUNDA. — Resulta clara a SOLUÇÃO. do que acaba de ser dito.

   RESPOSTA À TERCEIRA. — Tanto na penitência como no pecado dos homens, há razão para alegria dos anjos, que é o implemento da ordem da divina providência.

   RESPOSTA À QUARTA. — Os anjos são levados a juízo, por causa dos pecados dos homens, não como réus, mas como testemunhas, para convencer os homens da ignávia própria.

 

(São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 113, a. 7)

21/07/2020

Filosofia e religião


Teologia do Sacrosanctum Concilium 2 

2 – A origem da Igreja e da liturgia

Ao dizer que “do lado de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja”, repetindo assim palavras de santo Agostinho, o Concílio refere-se evidentemente ao relato do evangelista São João sobre a morte de Jesus.
Para dizer que Jesus morreu escreveu: “Entregou o espírito” [i].

Muitos dos santos padres viam nisso uma segunda afirmação do evangelista, a saber que Jesus entregou, na hora da sua morte, o Espírito Santo.
Esta interpretação certamente baseia-se no contexto do quarto Evangelho.

Como lemos no sétimo capítulo do Evangelho de São João, na festa do templo Jesus anunciou água viva.
O evangelho explica que Jesus estava falando do Espírito, que ainda não havia, porque Jesus ainda não foi glorificado [ii] .
A glorificação de Jesus, no entanto, coincide para São João com a exaltação do Filho do Homem na cruz [iii].
Na base desta interpretação compreende-se bem que o Ressuscitado na tarde do dia da ressurreição soprou sobre os apóstolos e lhes disse:
«Recebei o Espírito Santo» [iv].

Mas devemos dar um passo a mais.
Em antigas e recentes representações iconográficas da morte de Jesus ilustra-se a abertura do lado aberto pela lança e uma figura feminina que está debaixo da cruz com um cálice nas mãos. Para dentro deste cálice jorram o sangue e a água.
Os padres da Igreja interpretam também a abertura do lado de Jesus como derramamento do Espírito Santo, vendo na mulher com o cálice a Igreja e na água e no sangue os sacramentos do baptismo e da eucaristia.
Como lemos na “Sacrosanctum Concilium”, em santo Agostinho e em muitos outros padres da Igreja, este derramamento do Espírito é o nascimento da Igreja como sacramento universal de salvação, do qual os sete sacramentos, também os sacramentais e as outras celebrações litúrgicas, são como que um desdobramento.

A Igreja e a liturgia nasceram do coração de Jesus.

Já que estamos falando em nascimento da Igreja, parece-me bem completar esta visão a partir do Evangelho de São Mateus, onde se pode ver como ela foi concebida.
Lemos neste Evangelho, no fim do capítulo 9, que Jesus, percorrendo as cidades e os povoados, ensinando o Evangelho do Reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades, “ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor”. Então pediu aos discípulos que rezassem, para que o Senhor enviasse operários para a messe; mas também e sobretudo chamou os doze e “deu-lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar toda sorte de males e enfermidades” [v].
Estes doze são, evidentemente, o núcleo da futura Igreja.
Não será permitido entender este texto no sentido de que a Igreja foi concebida pela compaixão de Jesus, no seu coração compassivo? Podemos assim agora concluir que São João e São Mateus têm, no fundo, a mesma visão da origem da Igreja. E São Lucas no fundo não discorda de São João e São Mateus sobre a origem da Igreja pelo derramamento do Espírito Santo, embora a descreva de modo diferente.

Parece-me que a “Sacrosanctum Concilium” confirma esta visão da origem da Igreja e com ela da Liturgia, dizendo no artigo 6 que a Igreja, que, como vimos no artigo 5, nasceu na cruz, “no dia de Pentecostes apareceu ao mundo”.
Para a interpretação do texto citado de são Mateus, que apresentei, vendo ai a concepção da Igreja no coração de Jesus, não posso indicar referências, mas penso que esteja em harmonia com o contexto que citei.


(P. Gregório Lutz, CSSp)




[i] Jo 19,30
[ii] Cf. Jo 7,37-39
[iii] Cf. Jo 3, 14s
[iv] Jo 20,22
[v] Mt 9,35- 10,1

15/07/2020

Filosofia e religião


Teologia do Sacrosanctum Concilium 2 

A liturgia – momento da história da salvação

1 – A história da salvação

A SC começa a tratar da natureza da liturgia, no seu artigo 5, lembrando em grandes linhas a história da salvação.
No início data história está a vontade de Deus de “salvar e fazer chegar ao conhecimento da verdade todas as pessoas humanas”.
Para o conseguir, Deus acompanha toda a história, particularmente do seu povo eleito, comunicando-se com ele sobretudo pelos profetas, mas finalmente por seu próprio Filho.
Ele completou a obra da redenção da humanidade e da glorificação de Deus principalmente pela sua morte e ressurreição.
Já neste primeiro artigo debaixo do titulo “A natureza da liturgia”, o Concílio como que prolonga esta história de Deus com a humanidade dizendo que por Jesus Cristo “nos foi comunicada a plenitude do culto divino” e que “do lado de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja”.

Nesta exposição do Vaticano II sobre a história da salvação podemos destacar várias afirmações, em vista da própria liturgia:

A vontade de Deus de salvar a humanidade, seu eterno plano de salvação, que é a fonte de toda a história que chega a seu ponto culminante na páscoa do seu Filho, revelando assim que é um Deus de amor.
Este é o grande mistério da fé que celebramos na liturgia.

A santificação das pessoas humanas e a glorificação de Deus são a finalidade da história da salvação, como também da liturgia.

Do lado aberto de Cristo na cruz nasceu a Igreja.

Nesta última afirmacção vou deter-me primeiro, em seguida no mistério pascal.


(P. Gregório Lutz, CSSp)

07/07/2020

Filosofia e religião

Teologia do Sacrosanctum Concilium

Prólogo

A liturgia é uma realidade tão rica que deve ser contemplada de vários e diferentes pontos de vista, de fora e de dentro.
Uma abordagem só de fora não é suficiente, embora a liturgia seja essencialmente uma realidade acessível aos nossos sentidos.
Mas este é apenas um lado da medalha.
As palavras e os ritos, os gestos e os símbolos, tudo que fala aos nossos sentidos, expressa aquilo que é acessível aos olhos da fé: a acção divino-humana que se realiza quando celebramos o mistério de Cristo.
A teologia litúrgica é o estudo da liturgia em sua totalidade.
Através dela conhecemos sobretudo a natureza da liturgia que, por sua vez, tem também diversos aspectos e dimensões.

A nossa tarefa é estudar a teologia da liturgia da constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia, a “Sacrosanctum Concilium”.
Também este documento conciliar contempla a liturgia na sua integridade e nas suas diferentes dimensões.
Basicamente faz isso logo no primeiro item da primeira parte do seu primeiro capítulo, nos artigos 5 a 8, aos quais o Compêndio do Vaticano II organizado por Boaventura Kloppenburg deu o titulo: “A natureza da liturgia”.
Podemos sem problema considerar estes artigos como a teologia litúrgica do Concílio Vaticano II.
Iremos deter-nos quase exclusivamente nestes artigos da SC, já por causa do limite de tempo que nos é dado, mas sobretudo porque aqui encontramos todo o essencial da compreensão teológica da liturgia da “Sacrosanctum Concilium”.

Realizaremos este estudo em duas grandes partes, seguindo a própria “Sacrosanctum Concilium”: “A liturgia como momento da história da salvação” e “a liturgia como exercício do sacerdócio de Jesus Cristo”.

Estarão integrados e serão acrescentados itens menores que também têm grande importância num estudo da teologia da liturgia, tanto para o documento conciliar quanto para nós.



(P. Gregório Lutz, CSSp)