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20/02/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 

O liberalismo


Inspirado nas ideias igualitárias da revolução francesa, tem as suas raízes em movimentos filosóficos e religiosos anteriores. Defende, por princípio, a liberdade absoluta individual. Cada qual é o único senhor responsável dos seus direitos e iniciativas. A função do estado será a penas garantir a ordem pública necessária para a defesa dessas liberdades. Tal concepção levar-nos-ia necessariamente à lei fatal  da “luta pela vida”, em que necessariamente terá de morrer o mais fraco. Aplicado ao mundo da economia, tal príncipio reduziria o trabalho a simples mercadoria, sujeito à lei da oferta e da procura. Favoreceria o capitalismo desenfreado em que, segundo o princípio de que a matéria atrai a matéria na razão directa das massas e na inversa do quadrado das distâncias, os ricos seriam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, afastados de toda a capacidade de participação. Entrando em contradição consigo mesmo, o liberalismo acaba pois por fazer das liberdades individuais um mito e acentuar cada vez mais os desiquilíbrios sociais.

A ideologia liberal que tem servido um capitalismo infrene, lesivo dos direitos das classes trabalhadoras e da dignidadede um público manipulado pelas propagandas de consumo, constitui ainda hoje uma verdadeira ameaça. Como acentua o documento papal Octogesima Adveniens [1], fazendo reviver o capitalismo com novas expressões, através de empresas multinacionais, dada a concentração e flexibilidade dos seus meios, pode levar por diante estratégias autónomas em boa parte independentes dos poderes públicos nacionais, pô-las fora de controlo sob o ponto de vista do bem comum, criando assim uma nova forma abusiva de dominação económica nos campos social, cultural e político.

 

A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, in BROTÈRIA, vol 99, 1974



[1] São Paulo VI, Carta Apostólica, 14Maio1971.

10/01/2012

Livres para construir o futuro 8

Uma fórmula de São Josemaria expressa com eficácia esta ideia: não há dogmas nas coisas temporais [i]. Com isto não pretendia defender uma espécie de «liberalismo cristão», no sentido de separar as actividades seculares – política, ciências, artes... – da fé, que ficaria relegada para a vida de piedade e para a teologia. Nada seria mais contrário ao seu pensamento.

Com grande vigor defendeu sempre, como parte da sua mensagem sobre a santificação do trabalho e das estruturas seculares, que a fé cristã deve iluminar todos os problemas temporais e que o cristão não pode deixar de o ser quando é deputado, médico, arquitecto ou dona de casa, pois tem que santificar a família, o trabalho e o mundo, para os levar para Cristo (entra aqui em jogo o seu conceito fundamental de unidade de vida). Mas isto há-de fazer-se não de um modo fundamentalista, mas em liberdade, sem que as soluções e opções pessoais – iluminadas pela fé – por muito nobres e acertadas que sejam, vinculem de algum modo ou comprometam a Igreja.

© 2011, Gabinete de Informação do Opus Dei na Internet 2011.07.06


[i] Artigo Las riquezas de la fe, publicado no ABC, Madrid, 2-XI-1969.