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31/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 19

4 – O perdão como cura

…/3

Pode parecer estranho, mas realmente podemos perdoar os outros, podemos pedir perdão aos outros, e ainda assim continuarmos a viver sentimentos de culpa, de falta de perdão a nós próprios, envergonhados do que fizemos, considerando-nos maus, julgando-nos indignos, por exemplo, do amor, do perdão de Deus, apesar da confissão.

E essas situações, que não são assim tão raras, vivem em nós, muitas vezes no mais fundo do nosso ser, mas afectando-nos continuamente nos mais diversos momentos, muito especialmente quando por qualquer razão ficamos perante situações idênticas.
E mais uma vez, esse viver condicionado pela nossa consciência, pelas nossas recordações, interfere na harmonia do nosso bem estar provocando em nós alterações de humor, e muitas vezes alterações físicas como aquelas que vimos anteriormente, insónias, dores de cabeça, depressões, etc.

Uma boa confissão, com tempo, muito tempo, explicando ao sacerdote que precisamos fazer uma revisão de vida porque algo nos anda a afectar, ou então, para aqueles que não vivem a fé, uma conversa de aconselhamento com alguém experiente, para se poder ir buscar a raiz do problema e que no fundo é essa falta de perdão a nós próprios.


Quando se vive a fé, a graça de Deus, toca-nos e ajuda-nos a descobrir as razões e muito especialmente a conseguirmos esse perdão para nós próprios.

Então o perdoar e o pedir perdão é sem dúvida muito importante para a harmonia da nossa vida e como tal uma cura para muitos problemas que vivemos no dia-a-dia.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

29/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 17

4 – O perdão como cura

Ao falarmos do perdão e do pedir perdão como uma cura para a nossa vida, falamos essencialmente mais no facto de não perdoarmos a quem nos ofendeu, ou de não pedirmos perdão a quem nós ofendemos.

Por tudo o que vimos anteriormente, percebemos que se não perdoamos, deixamos que vivam em nós sentimentos negativos, de rancor, de ressentimento, de vingança, sentimentos que vêm do mal e portanto afastam o bem.
Este tipo de sentimentos, como o ciúme, por exemplo, são puro veneno para a nossa vida, para o nosso coração, transformando-o cada vez mais num centro trevas, onde não entra a luz do amor.
E nós fomos criados para amar!
Assim, se não vivemos essa condição de amar imprescindível à vida, mas nos deixamos levar por esses sentimentos negativos, a nossa vida torna-se triste, revoltada, insatisfeita, e quando assim vivemos, acabamos doentes, por causas, obviamente, psicossomáticas, ou seja, o espírito influencia o físico.

E também é assim se não pedimos perdão pelas ofensas que cometemos, porque como vimos anteriormente a nossa relação com alguém como nós foi cortada e ao cortarmos essa relação, também de alguma forma cortamos a nossa relação com Deus, e então somos inundados de remorsos, de sentimentos de culpa, de indignidade, que nos atormentam o dia-a-dia, e todo o nosso viver, levando mais uma vez o nosso físico a ser influenciado pelo nosso espírito inquieto e amargurado.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

28/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 16

3 – O perdão e os outros

…/4


Mais uma vez temos que sair de nós próprios, temos que nos deixar tocar pelo amor, pelo amor de Deus, pois só Ele nos pode levar a perdoar tais actos e sobretudo a rezar intercedendo, não só pelas vítimas, mas também pelos que praticaram tais actos.
É que a nossa vontade, para além de querermos perdoar como sabemos ser nosso dever de amor, deve ser também o desejo que tais actos tenham um fim e isso só acontecerá se os corações daqueles que os praticam, mudar, for transformado.
Ora o ódio não se combate com o ódio, porque apenas pode gerar mais ódio.
O ódio combate-se com o amor, e amar é perdoar, e este amar é também sem dúvida pedir insistentemente a Deus que toque os corações daqueles que andam dominados pelo mal, para que encontrem o bem e sobretudo para que vejam nos outros, pessoas como eles.
Quer isto dizer que, para perdoarmos a este tido de ofensores, não os podemos desumanizar, mas sim vê-los como pessoas como nós, mas que andam erradas, que andam tocadas pelo mal e por isso mesmo precisam das nossas orações para a transformação das suas vidas.

Quando os outros que nos ofendem ou nós ofendemos são a nossa família, então ainda mais premente se torna a capacidade de perdoar e pedir perdão, porque o testemunho dado em família sobretudo aos mais novos, vai ser a referência que irão ter para as suas vidas.
E tantas vezes que as ofensas em família são por causa das coisas mais fúteis, como heranças, bens materiais, ou até uma vontade de ser mais que os outros, ou seja, de mandar sem ouvir ninguém.

Se o amor é os alicerces e o cimento que unem uma casa, uma família, o perdão será, sem dúvida, o reboco das paredes, que deve ser constantemente tratado e limpo, para que as mesmas se mantenham sempre isentas de sujidades e bolores, ou seja, de coisas que incomodam, dividem e dão mal-estar.
Se nas nossas casas, nas nossas famílias, não vivemos o amor, não vivemos o perdão, como podemos nós vivê-lo fora das nossas casas no nosso dia-a-dia.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

27/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 15

3 – O perdão e os outros

…/3


Outro aspecto do perdão aos outros é também o facto de muitas vezes a ofensa não nos ser dirigida a nós especificamente, mas a um grupo de pessoas em que nos incluímos ou não, mas que de qualquer modo nos ofende na nossa humanidade, na nossa condição de filhos de Deus.

Temos visto recentemente os cruéis atentados e execuções públicas por parte dos auto-proclamados islâmicos e outros grupos que infelizmente por este mundo fora existem.
Aliás, podemos juntar a estes, as atitudes extremistas de racismo, de ofensas às mulheres e crianças, etc., etc., e até, nestes últimos dias, um qualquer dito artista espanhol que profanou hóstias consagradas, expondo-as no chão com a palavra pedofilia, numa atitude que nos causa a nós católicos uma indignação e revolta profundas.

Em todos estes casos e de uma forma geral, também nós somos ofendidos na nossa sensibilidade, na nossa humanidade, na nossa relação com os inocentes e desprotegidos, mesmo que não seja ao pé da nossa porta, como se costuma dizer.
E como tal, e perante esses factos, também nós desenvolvemos sentimentos de raiva impotente, até mesmo desejos de vingança, ou que algo de mal aconteça àqueles que tais actos praticam, esperando quase que Deus os castigue de forma inabalável.
E para que seja possível essa nossa indignação, essa nossa revolta, (que não deixa de ser legitima), desumanizamos esses ofensores, tornamo-los para nós como animais irracionais que, portanto, não merecem o nosso perdão, nem a nossa compaixão.
E assim torna-se difícil, muito difícil o perdoar, até mesmo essas ofensas que não nos foram dirigidas pessoalmente, e os ofensores, mas que afectam o nosso viver comum, o nosso viver moral, e até, o nosso viver a fé.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

26/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 14

3 – O perdão e os outros

…/2

O que seria de nós se realmente o sacerdote na Confissão nos perguntasse se por acaso tínhamos perdoado algo a alguém que nos tivesse ofendido?
E se a nossa resposta fosse não, ou melhor, que realmente ainda não tínhamos perdoado ao nosso ofensor, e pior ainda, não tínhamos intenção nenhuma de lhe perdoar?
Poderia o sacerdote dar-nos a absolvição?

Realmente e em tudo percebemos bem o que Cristo nos ensina quando nos diz «amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.»

Se não perdoamos, realmente não amamos, e se não amamos o próximo, mesmo o nosso ofensor, não estamos a viver na totalidade do amor de Deus.
É que este não perdoar ao nosso ofensor, ou não pedir perdão ao que ofendemos, corta também a nossa relação pessoal e intima com Deus, e isso reflecte-se na nossa vida, sobretudo na nossa vida de fé.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

24/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 12

2 – O perdão e Deus

…/6


Diz-nos mais uma vez o Catecismo da Igreja Católica no número 2844:
«A oração cristã vai até ao perdão dos inimigos. Transfigura o discípulo, configurando-o com o seu Mestre. O perdão é o cume da oração cristã; o dom da oração só pode ser recebido num coração em sintonia com a compaixão divina. O perdão testemunha também que, no nosso mundo, o amor é mais forte que o pecado. Os mártires de ontem e de hoje dão este testemunho de Jesus. O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com o seu Pai e dos homens entre si.»

Não podemos deixar de nos deixarmos extasiar por esta verdade: «transfigura o discípulo, configurando-o com o seu Mestre», o que nos leva de imediato a uma outra frase tão bem conhecida e que devia ser a meta a atingir por todo e qualquer cristão: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.» Gl 2, 20

Amar como Jesus amou, ama! Perdoar como Jesus perdoou, perdoa!


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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

23/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 11

2 – O perdão e Deus

…/5

Diz-nos o Catecismo da Igreja Católica no seu número 2843:
«Não está no nosso poder deixar de sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo muda a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão.»

E um dos maravilhosos “segredos” para alcançarmos essa paz interior de recordar a ofensa sem nos magoarmos novamente, está nessa oração de intercessão que podemos e devemos fazer perseverantemente por aqueles que nos ofenderam ou que nós ofendemos.
Nem sempre essa oração nos parece sincera da nossa parte, (sobretudo nos primeiros tempos), mas depois o Espírito Santo vai-se encarregando de nos ir transformando de tal modo, que essa oração passa a ser um efectivo desejo da nossa parte.


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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

22/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 10

2 – O perdão e Deus

…/4

Voltemos ao perdão para percebermos então, como é imprescindível para um católico o Sacramento da Reconciliação, para que, na sua vida do dia-a-dia, possa perdoar e pedir perdão, das ofensas contra si cometidas e das ofensas que ele próprio comete contra os outros.

Obviamente, como disse no início, o perdão, o acto de perdoar, não é um “exclusivo”, permitam-me a expressão, dos cristãos, das pessoas religiosas, mas de todo o homem em geral.
Mas aqueles que acreditam no Deus Uno e Trino, se têm uma responsabilidade acrescida quanto ao amor e por isso mesmo, ao perdoar e ao pedir perdão, têm também o benefício da graça de Deus, que lhes dá forças para perdoar, pedir perdão e, sem dúvida importantíssimo, reconciliar a memória, purificando-a dos sentimentos negativos do rancor, do ressentimento, da vingança, obtendo assim para si e para os outros a paz de espírito que dá sentido e consolo à vida.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

21/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 9

2 – O perdão e Deus

…/3


O sacerdote usa a fórmula da absolvição que é a seguinte:
«Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. E Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo»
Ao utilizar este Eu maiúsculo na fórmula da absolvição, “Eu te absolvo”, o sacerdote não está ele próprio, não está a sua pessoa, a absolver os pecados, mas sim a “Pessoa de Cristo”, que se serve, digamos assim, da voz do sacerdote.
Por isso quando nos confessamos, não nos confessamos ao sacerdote, mas sim a Cristo, verdadeiramente a Cristo, visto que o sacerdote ali está “in persona Christi”, ou seja, é Cristo quem age, o homem é apenas um instrumento. Quem absolve é Cristo, quem consagra é Cristo, por meio do sacerdote. O sujeito da acção é Cristo, a divina pessoa na qual céu e terra estão unidos. Este é o significado da expressão "in persona Christi".

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

20/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 8

2 – O perdão e Deus

…/2

O perdão de Deus é uma constante que apenas precisa do nosso arrependimento e propósito de emenda para ser alcançado, para ser efectivo.
E o perdão de Deus é sim uma reconciliação, ou seja, a relação com Deus é restabelecida exactamente como antes, porque Deus nos ama com amor infinito.

Algumas pessoas dizem que se confessam directamente a Deus, ou seja, não precisam de uma sacerdote para se confessarem.
Realmente ninguém pede perdão a quem ofende servindo-se de um intermediário, ou seja, ninguém manda outra pessoa pedir perdão por uma ofensa que fizemos àquele que ofendemos.
O perdão e o pedir perdão é algo que é feito cara a cara, não pode ter intermediários.
Pode quando muito haver alguém que prepare o caminho para se chegar ao ofendido e pedir perdão, mas esse pedido de perdão é sempre pessoal, intimo e presencial.

Ora, as pessoas que afirmam confessar-se directamente a Deus, pretendem ver no sacerdote um intermediário entre nós e Deus e tal não corresponde de modo nenhum à realidade do Sacramento, à realidade do que Jesus Cristo quis e instituiu.
Se o sacerdote fosse um simples intermediário entre nós e Deus, então, depois de ouvir os nossos pecados e o nosso pedido de perdão, teria que ir “consultar” em oração, digamos assim, o que Deus tinha para lhe dizer sobre o nosso pedido de perdão e se Deus estaria disposto a perdoar os nossos pecados.
Mas não é isso que o sacerdote faz!


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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

19/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 7

2 – O perdão e Deus

Ao falarmos de perdão, falamos forçosamente de ofensa.

Ora a ofensa da nossa parte em relação a Deus, chama-se pecado, embora hoje em dia a sociedade quase queira banir essa palavra, atribuindo-lhe uma carga de castigo, de condenação, digamos assim, que ela afinal não deve ter porque a misericórdia de Deus é infinita e está sempre ao nosso alcance.

Quando ofendemos alguém, cortamos a nossa relação com essa pessoa e mais do que isso essa pessoa corta a sua relação connosco.

Quando ofendemos Deus pelo pecado, Deus não corta a sua relação connosco, pois ama-nos para além das nossas fraquezas, mas nós cortamos a nossa relação com Deus.
Ora a nossa verdadeira relação com Deus baseia-se sempre no amor, amor que nos é dado e ensinado por Deus, que nos amou primeiro.
Se pela ofensa/pecado cortamos a nossa relação com Deus, e a nossa relação com Ele é sempre baseada no amor, significa também que cortamos a nossa relação com o amor, pois o amor vem-nos de Deus.
Mas assim, se cortamos a nossa relação com Deus, com o amor, também nos tornamos incapazes de amar o outro verdadeiramente, porque estamos afastados da fonte do amor: Deus.

Por isso, e por todas as razões que quisermos, Jesus Cristo insiste sem cessar no discurso do perdão, de como devemos perdoar constantemente, setenta vezes sete vezes, bem como pedir perdão, para restabelecer a relação com Deus, com o amor, com os outros.
Por isso também, Jesus Cristo instituiu tão claramente o Sacramento da Confissão, da Reconciliação, como lemos em Jo 20, 19-23 –
«Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»


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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

18/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 6

1 – O que é o perdão?

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Explicando melhor, sirvo-me da definição do meu amigo Filipe Stilwell D’Avillez, (que era quem aqui devia estar mas por dificuldades de agenda não lhe foi possível), da sua tese de Mestrado em Ciências Religiosas, na Universidade Católica Portuguesa:
«O perdão é uma acção voluntária na qual a vítima de uma agressão injusta recorre a sentimentos positivos como o amor, a generosidade e a compaixão, para reconhecer a humanidade do seu agressor ao mesmo tempo que abdica de sentimentos negativos que legitimamente sentia ou podia sentir. Para dar fruto, esta acção depende unicamente da vontade da vítima, que por ela se liberta de um ciclo de violência, se não física, pelo menos emocional.»


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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

17/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 5

1 – O que é o perdão?

…/4

Outra ideia errada sobre o perdão é que para a ofensa e o ofensor ser perdoado, o mesmo tem que se arrepender e pedir o perdão.
Se assim fosse muitas ofensas e muitos ofensores nunca seriam perdoados, com prejuízo sempre para o ofendido, pois normalmente este sofre pela ofensa, mas ainda sofre mais se essa ofensa e esse ofensor se tornam razão de pensamentos quase obsessivos de rancor, de ressentimento, até de desejos de vingança, (e nós sabemos bem que esse tipo de sentimentos nos envenenam e infernizam a nossa vida), pelo que podemos perdoar a ofensa e o ofensor, mesmo que o mesmo não se arrependa nem peça perdão.

Teríamos com certeza muito mais noções sobre o perdão e o acto de perdoar, que não são verdadeiramente nem uma coisa nem outra, mas para hoje, fiquemos apenas com estes, que serão os mais comuns.

Podemos então dizer que o perdão, o perdoar, é um acto da nossa vontade, que envolve sempre sentimentos positivos de amor, que irão contrabalançar toda a carga negativa que a ofensa produziu, levando-nos a olhar para o ofensor com compaixão, não desejando para ele nenhum mal, seja ele qual for.


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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

16/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 4

1 – O que é o perdão?

…/3

Vejamos um exemplo:
Eu conheço alguém que é meu amigo, em quem tenho toda a confiança, e essa pessoa causa-me um grande mal, como por exemplo, deliberadamente causa a morte de um filho meu ou de alguém muito perto de mim.
Eu posso perdoar verdadeiramente aquela acção, aquele acto de matar, mas a minha relação com essa pessoa não volta a ser o que era, (pelo menos durante muito tempo), e perante algum perigo eminente até posso afastar-me provisoriamente dessa pessoa.
Factos que podem ser comuns nos casos de violência doméstica, por exemplo. Perdoa-se a ofensa mas não se reata a relação.
Eu posso não querer mais uma relação com aquela pessoa, embora tenha perdoado a ofensa e ao ofensor, mas esse perdão ao ofensor reveste a forma, digamos assim, de não lhe querer mal e até indo mais longe, de o ajudar se um dia precisar verdadeiramente de mim.
E esse perdão que eu dou àquele que me ofendeu, não significa também que, se a ofensa configurou um crime público, ele tenha que pagar segundo as leis em vigor e o que um tribunal decidir.


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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grand

15/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 3

1 – O que é o perdão?

…/2

Depois desta frase, “perdoar é esquecer”, vem ao nosso pensamento inevitavelmente uma outra, que é: “perdoar, perdoo, mas não esqueço!”
Se esta frase fosse aplicada segundo o contexto anteriormente abordado, até teria todo o sentido, mas a verdade é que esta frase tem implícita a “falta de perdão”, ou seja, a tentativa de perdoar a ofensa, mas não perdoar o ofensor.
Porque ela quase poderia ser acrescentada por uma outra frase carregada de ironia mordaz, do tipo, “se eu lhe puder ser bom”, ou seja, se eu tiver oportunidade de fazer o ofensor pagar pela ofensa, não hesitarei em fazê-lo, o que no fundo significa que se exerce uma espécie de desejo de vingança e como tal, não houve perdão.

Depois temos também outra forma de ver o perdão, o perdoar, e que significa uma reconciliação com o ofensor, mas uma reconciliação do tipo de voltar tudo a ser exactamente igual ao que era antes.
Ora o perdão pode existir, o acto de perdoar pode ser verdadeiro, mas não haver uma reconciliação e muito menos uma reconciliação ao nível do que era antes.
Claro que este perdão e este ser perdoado, “recuperando”, digamos assim, a anterior condição da relação entre ofendido e ofensor, é sempre possível com Deus, como mais uma vez veremos adiante.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

14/01/2016

SOBRE O PERDÃO – 2

1 – O que é o perdão?

Existirá uma definição firme, especifica daquilo que é o perdão?
Quase que apetece dizer com toda a simplicidade que o perdão é perdoar uma ofensa (seja ela de que tipo for), ao ofensor, e está tudo dito!
Pois, mas depois teríamos que nos perguntar então o que é perdoar?

Começarei então por tentar definir o perdão, definindo primeiro o que o perdão não é, ou seja, o que vulgarmente se confunde com perdão e que afinal não abarca tudo aquilo que é o perdão.

E a primeira frase que logo nos vem à cabeça é aquela muito vulgarmente utilizada de que o perdão, ou seja, perdoar é esquecer.
Ora nem o perdão e consequentemente nem o perdoar é esquecer.
Estamos num ambiente cristão católico e por isso servir-me-ei do Nome de Deus, (espero que nunca em vão), embora o perdão seja algo que toca ou deve tocar toda a sociedade, religiosa ou não.
O perdão o acto de perdoar não é esquecer, pois se Deus nos deu uma memória foi para nos lembrarmos do que nos vai acontecendo e não está nas nossas mãos apagar essa memória.
Podemos “atirar” a recordação da ofensa para o mais profundo da nossa memória, mas mesmo assim não a esqueceremos e esse “escondimento”, digamos assim, tem sempre reflexos na nossa vida como veremos mais adiante.
Então se perdoar não é esquecer, isso significa que no perdão não se esquece a ofensa, mas sim, que pelo facto de querermos perdoar, a recordação dessa ofensa já não nos incomoda, ou melhor, já não desperta em nós mal-estar, sentimentos de rancor ou ressentimento, ou até, indo mais longe, de vingança.
Mas toda essa transformação de lembrar a ofensa sem sentimentos e reacções negativas também não está inteira e totalmente nas nossas mãos, mas também na graça de Deus à nossa vida, como veremos.
Isto não significa que aqueles que não acreditam em Deus não possam perdoar, obviamente, mas como o fazem terão que ser eles a explicar, porque eu para tal não tenho conhecimento, nem experiência.

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)

13/01/2016

SOBRE O PERDÃO -1

Uma graça de Deus para a vida - 1

O tema é tão vasto e toca tantas sensibilidades, tantos sentimentos, tantas formas de o ver e viver, que daria para um largo espaço de tempo, falando sobre o mesmo e certamente a cada momento novos pensamentos, novas ideias iriam surgindo para falar e debater o perdão.

Como não temos todo esse tempo e sobretudo porque me falta engenho e arte para abordar de forma tão exaustiva o tema que me foi dado, irei tentar falar do perdão em cinco perspectivas maiores, digamos assim.

1 – O que é o perdão?
2 – O perdão e Deus
3 – O perdão e os outros
4 – O perdão como cura
5 – Em jeito de conclusão: O PERDÂO graça de Deus para a vida

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(joaquim mexia alves, Conferência sobre o perdão na Vigararia da Marinha Grande)