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26/08/2015

Temas para meditar - 492

Harmonia da Criação



Era tão grande o vigor da primeiríssima harmonia do homem, que nem as paixões se podiam desordenar, nem o corpo separar-se da alma e experimentar a corrupção.



(i. celaya, Unidad de vida y plenitud cristiana, em Vivir como hijos de Dios, nr. 96-97, trad ama)

30/07/2015

Temas para meditar - 477

Criação


Darwin e Lamarck quiseram explicar a ascensão das espécies inferiores às superiores pela variabilidade, pela hereditariedade ou pela selecção natural, e isto em virtude de processos puramente mecânicos. Note-se, porém, que, tanto um como outro, admitiam que impostas por Deus à natureza. ("To my mind it accords better with what we know of the laws impressed on the matter by the Creator…")
Quase no fim da sua vida, Darwin podia escrever: "Por maiores que fossem as crises por que passei, não cheguei nunca a negar a existência de Deus". (La Vie et la Correspondence de Charles Darwin, Reinwald, Paris, 1888, vol. I, nr. 354) "A impossibilidade de conceber este grande e maravilhoso universo com os nossos 'eus' conscientes, como obra do acaso, é a meu ver o argumento principal a favor da existência de Deus". (La Vie et la Correspondence de Charles Darwin, Reinwald, Paris, 1888, vol. I, nr. 356)
"Outro motivo da minha crença na existência de Deus (...) é a impossibilidade radical de conceber o universo, prodigioso e imenso, incluindo o homem, com a faculdade de se reportar ao passado e de prover o futuro, como resultado de um destino casual ou de uma neces­sidade cega. Reflectindo nisto, sou forçado a admitir uma Causa Primeira, um Espírito inteligente, sob certos aspectos análogo ao do homem e mereço por isso, que me acreditem, quando eu digo que creio em Deus. Esta conclusão estava fortemente radicada no meu espírito ao escrever a Origem das espécies." 


(charlles darwin, On the Origin of Species, J. Murray, London, 1859, nr. 363, trad ama)

28/02/2013

Resumos da Fé Cristã 52


A Criação 2


1. O acto criador 2


1.1. «A criação é obra comum da Santíssima Trindade» (Catecismo, 292) 3


«Criador do céu e da terra»


«”No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Três coisas são afirmadas nestas primeiras palavras da Escritura: Deus eterno deu um princípio a tudo quanto existe fora d’Ele. Só Ele é criador (o verbo “criar” – em hebreu bara – tem sempre Deus por sujeito). E tudo quanto existe (expresso pela fórmula “o céu e a terra”) depende d’Aquele que lhe deu o ser» (Catecismo, 290).

Só Deus pode criar em sentido próprio 4, o que implica originar as coisas a partir do nada – ex nihilo – e não a partir de algo preexistente; para isso requer-se uma potência activa infinita, que só a Deus corresponde (cf. Catecismo, 296-298). É congruente, portanto, apropriar a omnipotência criadora ao Pai, já que Ele é na Trindade (segundo uma clássica expressão) fons et origo, quer dizer, a Pessoa de quem procedem as outras duas, princípio sem princípio.

A fé cristã afirma que a distinção fundamental na realidade é a que se dá entre Deus e as Suas criaturas. Isto supôs uma novidade nos primeiros séculos, nos quais, polaridade entre matéria e espírito motivava visões inconciliáveis entre si (materialismo e espiritualismo, dualismo e monismo). O cristianismo quebrou estes moldes, sobretudo com a sua afirmação de que também a matéria, como o espírito, é criação do único Deus transcendente. Mais tarde, São Tomás desenvolveu uma metafísica da criação que descreve Deus como o próprio Ser subsistente – Ipsum Esse Subsistens. Como causa primeira, é absolutamente transcendente ao mundo e, ao mesmo tempo, em virtude da participação do Seu ser nas criaturas, está presente intimamente nelas, as quais dependem, em tudo, d’Aquele a que pertence a fonte do ser. Deus é superior summo meo e ao mesmo tempo, intimior intimo meo (Santo Agostinho, Confissões, 3,6,11; cf. Catecismo, 300).

A literatura sapiencial do Antigo Testamento apresenta o mundo como fruto da sabedoria de Deus (cf. Sb 9,9). «O mundo não é fruto duma qualquer necessidade, dum destino cego ou do acaso» (Catecismo, 295), mas tem uma inteligibilidade que a razão humana, participando na luz do Entendimento divino, pode captar, não sem esforço e num espírito de humildade e de respeito perante o Criador e a Sua obra (cf. Jb 42,3; cf. Catecismo, 299). Este desenvolvimento chega à sua expressão plena no Novo Testamento; ao identificar o Filho, Jesus Cristo, com o Logos (cf. Jo 1,1 ss), afirma que a sabedoria de Deus é uma Pessoa, o Verbo encarnado, por quem tudo foi feito (Jo 1,3). São Paulo formula esta relação do criado com Cristo, esclarecendo que todas as coisas foram criadas n’Ele, por Ele e para Ele (Col 1,16-17).

Há, pois, uma razão criadora na origem do cosmos (cf. Catecismo, 284) 5. O cristianismo tem desde o início uma grande confiança na capacidade da razão humana para conhecer e uma enorme segurança em que jamais a razão – científica, filosófica, etc. – poderá chegar a conclusões contrárias à fé, pois ambas provêm de uma mesma origem.

Não é infrequente encontrarem-se pessoas que colocam falsas disjuntivas, como por exemplo, entre criação e evolução. Na realidade, uma adequada epistemologia não só distingue os âmbitos próprios das ciências naturais e da fé, mas, além disso, reconhece na filosofia um elemento necessário de mediação, pois as ciências, com o seu método e objecto próprios, não cobrem a totalidade do âmbito da razão humana e a fé, que se refere ao próprio mundo de que falam as ciências; necessita de categorias filosóficas 6 para se formular e entrar em diálogo com a racionalidade humana.

É, pois, lógico que desde o início, a Igreja procurasse o diálogo com a razão, uma razão consciente do seu carácter criado, pois não se deu a si própria a existência, nem dispõe, completamente, do seu futuro; uma razão aberta ao que a transcende, ou seja, à Razão originária. Paradoxalmente, uma razão fechada sobre si, que crê poder encontrar dentro de si a resposta às suas questões mais profundas, acaba por afirmar o sem-sentido da existência e por não reconhecer a inteligibilidade do real (niilismo, irracionalismo, etc.).

santiago sanz

Bibliografia básica

Catecismo da Igreja Católica, 279-374.
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 51-72.
DS, n. 125, 150, 800, 806, 1333, 3000-3007, 3021-3026, 4319, 4336, 4341.
Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 10-18, 19-21, 36-39.
João Paulo II, Creo en Dios Padre. Catequesis sobre el Credo (I), Palabra, Madrid 1996, 181-218.

Leituras recomendadas:

Santo Agostinho, Confissões, livro XII.
São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, qq. 44-46.
São Josemaria, Homilia «Amar o mundo apaixonadamente» em Temas Actuais do Cristianismo, 113-123.
Joseph Ratzinger, Creación y pecado, Eunsa, Pamplona 1992.
João Paulo II, Memória e Identidade, Bertrand Editora, Lisboa 2005.

(Resumos da Fé cristã: © 2013, Gabinete de Informação do Opus Dei na Internet)

_______________________
Notas:
4 Por isso se diz que Deus não necessita de instrumentos para criar, já que nenhum instrumento possui a potência infinita necessária para criar. Daí também que, quando se fala, por exemplo, do homem como criador ou inclusive como capaz de participar no poder criador de Deus, o emprego do adjectivo “criador” não é analógico mas metafórico.
5 Este ponto aparece com frequência nos ensinamentos de Bento XVI, por exemplo, Homilia em Regensburg, 12-IX-2006; Discurso em Verona, 19-X-2006; Encontro com o clero da diocese de Roma, 22-II-2007; etc.
6 Tanto o racionalismo cientificista como o fideísmo acientífico necessitam de uma correcção da filosofia. Além disso, há-de evitar-se também a falsa apologética de quem vê forçadas concordâncias, procurando nos dados que a ciência traz uma verificação empírica ou uma demonstração das verdades de fé, quando, na realidade, como dissemos, se trata de dados que pertencem a métodos e disciplinas distintas. 

27/02/2013

Resumos da Fé Cristã 51


A Criação


1. O acto criador


1.1. «A criação é obra comum da Santíssima Trindade» (Catecismo, 292)


A Revelação apresenta a acção criadora de Deus como fruto da Sua omnipotência, da Sua sabedoria e do Seu amor. Costuma atribuir-se a criação, particularmente, ao Pai (cf. Compêndio, 52), assim como a redenção ao Filho e a santificação ao Espírito Santo. Do mesmo modo, as obras “ad extra” da Trindade – a primeira delas, a criação – são comuns a todas as Pessoas e, por isso, é lógico perguntar qual o papel específico de cada Pessoa na criação, pois «cada pessoa divina realiza a obra comum segundo a Sua propriedade pessoal» (Catecismo, 258). É este o sentido da, igualmente, tradicional apropriação dos atributos essenciais – omnipotência, sabedoria, amor – respectivamente, ao operar criador do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

No Símbolo niceno-constantinopolitano confessamos a nossa fé «num só Deus, Pai omnipotente, criador do céu e da terra»; «num só Senhor Jesus Cristo ... por quem tudo foi feito»; e no Espírito Santo «Senhor que dá a vida» (DS 150). A fé cristã fala, portanto, não somente de uma criação ex nihilo, do nada, que indica a omnipotência de Deus Pai; mas também de uma criação feita com inteligência, com a sabedoria de Deus – o Logos por meio do qual tudo foi feito (Jo 1,3); e de uma criação ex amore (GS 19), fruto da liberdade e do amor que é o próprio Deus, o Espírito que procede do Pai e do Filho. Em consequência, as processões eternas das Pessoas estão na base do Seu operar criador 3.

Assim, como não há contradição entre a unicidade de Deus e ser três pessoas, de modo análogo não se contrapõe a unicidade do princípio criador com a diversidade dos modos de operar de cada uma das Pessoas.

santiago sanz

Bibliografia básica

Catecismo da Igreja Católica, 279-374.
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 51-72.
DS, n. 125, 150, 800, 806, 1333, 3000-3007, 3021-3026, 4319, 4336, 4341.
Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 10-18, 19-21, 36-39.
João Paulo II, Creo en Dios Padre. Catequesis sobre el Credo (I), Palabra, Madrid 1996, 181-218.

Leituras recomendadas:

Santo Agostinho, Confissões, livro XII.
São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, qq. 44-46.
São Josemaria, Homilia «Amar o mundo apaixonadamente» em Temas Actuais do Cristianismo, 113-123.
Joseph Ratzinger, Creación y pecado, Eunsa, Pamplona 1992.
João Paulo II, Memória e Identidade, Bertrand Editora, Lisboa 2005.

(Resumos da Fé cristã: © 2013, Gabinete de Informação do Opus Dei na Internet)

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Notas:
3 Cf. São Tomás, Super Sent., lib. 1, d. 14, q. 1, a. 1, co.: «são a causa e a razão da processão das criaturas».

30/12/2011

Criação

      Reflectindo
Criaste-nos, Senhor, para Vós, e o nosso coração está inquieto enquanto em Vós não repousa.

(stº. agostinho, Confissões, 1, 1, 1) 

12/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

Introdução 5


Filósofo
Rembrandt
Pretendemos nesta obra, oferecer uma selecção de princípios filosóficos que nos parecem imprescindíveis no âmbito do cristianismo. São apresentados com uma metodologia filosófica. Propomos também uma serie de pontos teológicos (conhecimento de Deus, pessoa de Cristo, presença real de Cristo na eucaristia, escatologia e ressurreição de Cristo, problema teológico da hermenêutica) nos quais teve uma forte incidência a filosofia.
Estudamos todos estes temas numa selecção de autores significativos de nosso tempo.  Não se trata de combater certas teorias, mas de realizar um discernimento sobre as mesmas; discernimento que se há tornou necessário, pois, em torno destes pontos, ficou na consciência de muitos uma capa de dúvida e incerteza. Trata-se de iluminar, de repensar, de sopesar as razões de um e outro lado.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

11/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

Introdução 4

Filósofo
Rembrandt
Não é claro que também a Igreja necessita de um discernimento filosófico no momento actual? Que filosofia se ensina nos centros eclesiásticos de formação? e, com que resultados? Que certeza sobre Deus e sobre o homem possuem hoje em dia os sacerdotes jovens que formamos nos nossos centros? São além disso vários os âmbitos da teologia actual que se encontram afectados pela influencia de filosofias que comprometem os dados da fé.
A tarefa se mostra, por o tanto, difícil e complicada. Todavia,  é uma tarefa necessária, a tarefa do discernimento filosófico. Pode ser um atrevimento o empreende-a, mas alguém tem que ser ousado nela. Depois de tudo, a luz já está aí, não se trata de partir do zero; antes se trata de discernir, de melhorar, de sintetizar. Diz Yepes que no fundo a filosofia clássica era sintética, quer dizer, partia-se do facto de que já havia verdades conseguidas e o filósofo tratava de completar e melhorar a síntese. Hoje em dia, a filosofia é sistemática, quer dizer, cada filósofo pretende por si mesmo descobrir tudo de novo inventando um sistema original.  Antes, a filosofia era sintética porque se partia da realidade como fundamento de tudo. Hoje em dia, desde Descartes, se parte da razão, do sujeito e cada qual monta o sistema peculiar que lhe agrada.
É claro que nossa intenção é sintética mais que sistemática e é também nossa intenção evitar tudo prurido de neologismos (e como encanta hoje em dia a muitos!); mas, como costuma dizer Julián Marías, o prurido da linguagem críptica e esotérica quase nunca responde à profundidade ou dificuldade real do pensamento, mas ao intento de fazer pensar aos demais que se está falando de algo que nunca ninguém conseguiu decifrar. Procura-se a complacência na escuridão e a simulação do misterioso ali donde se requer a clareza e a simplicidade.  A vontade filosófica é uma vontade de luz e de clareza, e a síntese, se está bem lograda, é mais fruto do discernimento que da simplificação.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

10/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

Introdução 3

Filósofo
Rembrandt
Confessa R. Yepes, falando do mundo filosófico, que a atitude espiritual mais corrente hoje em dia é o desengano. O moderno está acabado e a pós-modernidade é a última pirueta do pensamento ocidental para não reconhecer o vazio que leva dentro. Talvez se tenha chegado a tal pelo convencimento de que, fora do significado do discurso, a linguagem já não transmite nada, pelo menos nada transcendente. É crise de conteúdos, como o foi a crise do nominalismo quando se defendia que os nomes são puros «flatus vocis» que não representam a realidade. Tudo se afunda quando se perdeu a metafísica e tudo se converte em linguagem vazia pelo seu desaparecimento.
Por isso, talvez seja este o momento de procurar verdadeiras saídas para a crise. E pode ser que nada melhor para isso que voltar a iluminar a razão a partir da fé, voltar à fé, para encontrar vigor e energia para a razão. Se em épocas passadas foi a fé a que vitalizou a razão, por que hoje em dia não voltar à fé para procurar nela a energia que a razão necessita? Que ninguém se espante. Que ninguém pense que deste modo postulamos sair pelo fideísmo, pela saída fácil do subterfúgio. O que pretendemos é simplesmente repensar aqueles princípios que na tradição filosófica cristã são imprescindíveis, porque pode ocorrer que, numa nova síntese, nos ofereçam a luz que procuramos. Tal deveria fazer-se naturalmente, com uma metodologia estritamente filosófica, pois a fé não priva a filosofia da autonomia do seu método. Simplesmente seria proveitoso voltar a ser o filósofo que se deixa iluminar pela fé sem deixar em nenhum momento de ser filósofo.
A coisa tem interesse não só para a filosofia mas também para a própria teologia, pois aconteceu nestes anos que a Igreja padeceu na sua própria carne as sacudidelas do mundo, e isso em parte, porque também a Igreja há passou e está passando pelo desconcerto filosófico. É o caso da filosofia que até às portas do Vaticano II tinha servido a fé católica como instrumento de reflexão, quer dizer o tomismo, foi abandonada nos nossos centros de estudo sem que se tenha feito o necessário discernimento de que o tomismo é de valor permanente e o que, pelo contrário, é obsoleto e caduco. O teólogo abriu, por outro lado, à filosofia moderna, em muitos casos carregada de subjectivismo, e terminou assim por comprometer a própria fé.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

09/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

Introdução 2

Filósofo
Rembrandt
Mas acontece também hoje em dia que a filosofia se encontra num período de esgotamento. Não só caiu o marxismo, mas também caiu a filosofia ocidental, a qual entrou numa situação de cepticismo, incapaz não só de chegar à transcendência de Deus como também à transcendência do próprio homem. É impotente também para fundamentar objectivamente uma moral verdadeiramente humana. A razão, que desde a Ilustração do século XVIII pretendeu poder explicar tudo, encontra-se hoje em dia numa situação de prostração e cepticismo.
Perdeu-se já a esperança da totalidade e da universalidade. Encontramo-nos numa época de transição, caracterizada pela queda da modernidade e pelo início de uma pós-modernidade que não é outra coisa que o epílogo de uma época acabada. Na verdade, a pós-modernidade não nos oferece outra coisa que um niilismo comprazido. Um filósofo de nosso tempo revelou que nunca se teve consciência do fim de uma época como hoje em dia: «é a geração actual a que há-de sair da situação de impasse e esgotamento cultural que assoma por todos os lados. Há uma consciência de fim de época mais aguda que nunca».
Vivemos, com efeito, num estado de insegurança e de incapacidade de síntese, até ao ponto de que um homem como Kolakowski, desenganado do marxismo, tenha constatado a falta de luz e de horizonte para as nossas vidas e sintetizou a situação actual do ocidente nestes termos:
«Tenho a impressão de que na filosofia actual há muitos homens dotados intelectualmente, muito eruditos, mas ao mesmo tempo não há um grande filósofo vivo. Quer dizer, não há homens em quem se possa confiar, que sejam considerados como mestres espirituais e não só como homens muito inteligentes que sabem discutir com habilidade e escrever de modo interessante…
Por um lado, publicam-se excelentes obras filosóficas e históricas. Temos um grande número de centros, muitos homens destacados trabalham em diversas disciplinas humanísticas… E, apesar de tudo isto, vivemos num estado de insegurança e sentimos a falta de mestres da humanidade»

(jose ramón ayllón, trad. ama)

08/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

Introdução

Filósofo
Rembrandt
O cristianismo não é uma filosofia. Não se apresenta como uma filosofia mais no mercado do pensamento. O cristianismo é, antes de mais, a intervenção histórica de Deus Pai no seu Filho Cristo, por meio do Espírito Santo, para salvar ao homem da escravidão do pecado e da morte e elevá-lo à condição de filho de Deus. Mais que uma doutrina, é um facto salvador que se perpetua em o seio da Igreja.
Todavia, por múltiplas razões,  implica uma filosofia, e não só a implica, como que a depura e lhe abre horizontes insuspeitados, de tal modo que isso que se chama filosofia cristã, ou melhor, filosofia de inspiração cristã, deve mais ao calor e à luz da fé que a qualquer outra fonte de inspiração.
Quando o cristianismo apareceu no teatro da vida humana, encontrou-se com uma filosofia helénica, já decaída, a qual purificou e elevou salvando-a de uma decadência inevitável. Outro tanto fez a mente de São Tomás quando, a partir da fé, descobriu as virtualidades que a filosofia de Aristóteles encerrava e as sobe aproveitar purificando-as e elevando-as a um horizonte novo.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

07/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
Pois bem, esta harmonia entre a fé e a razão foi historicamente rompida pelo protestantismo. Foi a experiência pessoal de Lutero que procurava ansiosamente libertar-se da angústia pela certeza da sua salvação, que o conduziu à confissão de que o homem está totalmente corrompido pelo pecado original. Sendo isto assim, o que está também na razão humana e por isso arremete contar a mesma, não aceitando praticamente outro meio de conhecer a verdade da Sagrada Escritura. Diz assim: «a razão é a grande meretriz do diabo. Pela sua essência e o seu modo de revelar-se é uma rameira nociva. Uma prostituta. A poltrona oficial do diabo, uma meretriz corrida pela sarna e pela lepra que há-de ser espezinhada e morta. Cobri-a de esterco para a tornar mais repugnante. Está e deveria estar relegada para a parte mais suja da casa, a latrina».
Da teologia natural (Theologia Gloriae) diz Lutero que não serviu para nada; só a Theologia Crucis, a teologia fundada na fé em Cristo crucificado no conduziu à verdade.
Exposta, pois, a relação entre fé e razão, passamos a expor aqueles princípios filosóficos que nos parecem constituir o conteúdo do chamamos filosofia de inspiração cristã.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

06/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
Mas se a fé necessita da razão, esta recebe boa ajuda da fé, a qual recebe boa ajuda da fé, a qual contribui para a purificar das suas imperfeições e limites, que se devem no homem às consequências do pecado original, e elevação a horizontes insuspeitados. Que mudança experimentou a filosofia de Aristóteles que conhecia Deus como mero motor que se limita a impelir as outras substâncias, mas que desconhecia Deus como criador! Em Aristóteles o ser é a essência que, como forma, sela e define a matéria-prima.
São Tomás supera radicalmente esse esencialismo da forma numa concepção do ser que se baseia fundamentalmente no conceito de participação: o ser da criatura é um ser recebido de deus e em permanente comunhão com Ele. Quando a fé, fiz Mondin, anuncia à razão onde está a verdade, então o filósofo sebe em que direcção há-se mover-se. E é então quando corresponde à filosofia demonstrar a verdade conhecida com a sua metodologia autónoma. A filosofia deveria justificar por si mesma o que conheceu a partir da fá. Seguramente, o tema da alma espiritual e imortal, desde o ponto de vista histórico, deve mais à luz da fé que à luz da razão, se bem que seja uma verdade que há-de demonstrar-se também no campo da razão.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

05/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
Finalmente, a salvação cristã conduz-nos à visão beatífica de Deus, a um desfrute de Deus, verdade e bondade infinitas que fariam que o homem seja plenamente feliz. Isto supõe que no homem hajam uma capacidade de infinito, não para o produzir, mas sim para o receber; uma sede, uma insatisfação, um vazio, que só se pode encher face a face com Deus. É o que a teologia chamou «potência obediêncial» e que não é mera indiferença, mas sim, como ousava dizer São Tomás, um apetite natural da visão, uma tendência para ela. Santo Agostinho tinha-o expressado na sua conhecida fórmula: «Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração está inquieto até que descanse em Ti»

(jose ramón ayllón, trad. ama)

04/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
Se esta Igreja na qual estamos é a que Cristo fundou, ou para usar uma expressão do Vaticano II /LG8), «a Igreja que Cristo fundou subsiste na Igreja Católica», esta tem que apresentar umas credenciais ou sinais que a tornem identificável e reconhecível como a Igreja que Cristo fundou.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

03/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
Se o cristianismo aparece e se apresenta como um facto histórico, como a revelação do Filho de Deus feito homem e história, logicamente tem de apresentar as credenciais dessa revelação. Poderíamos perguntar a Cristo: que sinais nos dás para que acreditemos em ti? E responde Cristo: «se não faço as obras de meu Pai não me acrediteis; mas se as faço, se não me acreditais pelo que vos digo, acreditai-me pelas obras que faço para que saibais e reconheçais que o pai está em mim e eu no Pai» (Jn 10, 38).

(jose ramón ayllón, trad. ama)

02/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo


Princípios filosóficos do cristianismo
A Fé e a Razão
Filósofo
Rembrandt


O cardeal Lustiger, interrogado sobre a possibilidade de conhecer a Deus com a razão, respondia com simplicidade e convicção que a dita possibilidade é uma verdade que se deduz de dois factos indiscutíveis: se o homem vem de Deus, pode ascender a Ele com a luz da razão. Por outro lado, é inegável que a Bíblia apresenta o homem como um ser responsável perante Deus. Ora bem, somente podemos ser responsáveis perante Deus se o podemos conhecer de certeza.
Por outro lado, é claro que se o homem não tivesse capacidade natural de conhecer Deus, não O poderia reconhecer como tal na revelação. A revelação viria a ser como uma chamada a um homem surdo e insensível. É o caso de Karl Barth que, com a negação da analogia do ser compromete a própria possibilidade da revelação, pois se os nossos conceitos são incapazes de veicular a palavra de Deus, não poderão ser tornados capazes por decreto divino. Assim, pois, a analogia do ser é uma implicação da própria revelação.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

01/10/2011

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
A fé cristã, a católica pelo menos, tem convivido bem com a razão. A filosofia nasceu no seio da fé cristã com espontaneidade. A fé é a chuva que fecunda o solo da razão e o torna rico de frutos.
A relação entre razão e fé foi e deve ser uma relação de mútua veneração e ajuda no respeito da respectiva autonomia. Em primeiro lugar, são várias as razões pelas quais a fé implica a razão:
O cristianismo implica a distinção entre Deus criador e homem criado; homem criado capaz de ser interpelado pela palavra de Deus, dotado por isso de uma alma espiritual, imortal directamente criada por Deus.
Logicamente, os animais não podem ser interpelados por Deus, nem estão dotados de uma dignidade espiritaul que fundamente a moral. A moral nasce ali onde há uma dignidade humana espiritual que há-de ser respeitada em todos os momentos e nunca utilizada como meio.
Juntamente com isto, a Igreja Católica manteve que o homem pode conhecer com certeza a Deus com a luz natural da razão humana, princípio e fim de todas as coisas, partindo das coisas criadas.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

19/09/2011

Evolucionismo

Do Céu à Terra
A evolução do evolucionismo

Como valorar a adaptação ao meio?

Tal e como observou Darwin nos pinzones [i] das ilhas Galápagos, a adaptação provoca pequenas alterações de tamanho, forma ou cor. Não passa, portanto, de uma maquilhagem. Mas nenhuma maquilhagem produz uma mudança de espécie. Nietzsche expressou perfeitamente esta objecção quando escreveu que "Darwin sobrestima de modo absurdo a influencia do meio ambiente, porque o factor essencial do processo vital é precisamente o tremendo poder de criar e construir formas a partir de dentro". Esta certeira intuição foi plenamente confirmada pela genética e a biologia molecular.

Mas o evolucionismo foi formulado no século XIX, quando não se tinha inventado o microscópio electrónico e a célula se definia como um pequeno grumo de matéria orgânica com membrana e núcleo. Assim, o primeiro evolucionismo só teve acesso à morfologia. Mas estudar um ser vivo na sua forma externa é como valorizar um vinho pela sua garrafa.

De facto, enquanto o primeiro evolucionismo sabia tudo sobre a anatomia e a morfologia, se escapava-lhe o próprio ser vivo.

jose ramón ayllón, trad. ama




[i] Pássaros de bico robusto típicos das Galápagos

18/09/2011

Evolucionismo

Do Céu à Terra
O que é o darwinismo oficial propõe?



Os darwinistas costumam ser contrários a Darwin neste ponto, pois o autor da Origem das espécies conclui no seu célebre livro afirmando que "a vida, com as suas diferentes faculdades, foi originariamente animada pelo Criador numas quantas formas ou numa só".
Ao darwinismo oficial, todavia, faltou-lhe tempo para converter a hipótese evolucionista na grande alternativa à origem criada do Universo e da vida. Como um novo giro coperniciano, a exclusão da causalidade divina teve uma imensa importância cultural, que justifica o empenho de milhares de investigadores especializados e de profissionais capazes de conectar com o grande público: professores e mestres, autores de livros de texto e programas televisivos, artistas de ilustrações verosímeis e atractivas, reconstruções brilhantes em museus…
Em 1959 celebrou-se em Chicago o centenário da Origem das espécies. Julian Huxley, o orador mais aplaudido, declarou que "a Terra não foi criada: evoluiu. E o mesmo fizeram os animais e as plantas, tal como o corpo do ser humano, a mente, o alma e o cérebro". Algo muito parecido sustenta Richard Dawkins, zoólogo de Oxford, um dos evolucionistas mais mediáticos. Ninguém repara em que falar de evolução criadora é uma contradição nos termos, e que a realidade nos mostra o contrário: uma criação evolutiva.
Francisco Ayala, Premio Templeton 2010, explica-o assim: "Que uma pessoa seja uma criatura divina não é incompatível com o facto de ter sido concebida no seio da sua mãe e manter-se e crescer por meio de alimentos. A evolução também pode ser considerada como um processo natural através do qual Deus traz as espécies viventes à existência de acordo com o seu plano".

jose ramón ayllón, trad. ama


17/09/2011

Evolucionismo

Do Céu à Terra
A evolução do evolucionismo

Como abordou este ponto Santo Agostinho?

Santo Agostinho, há 1.600 anos, escreveu o que segue: "As sementes do vegetais e do animais são visíveis, mas há outras sementes invisíveis e misteriosas mediante as quais, por mandato do Criador, a água produziu os primeiros peixes e as primeiras aves, e a terra os primeiros rebentos e animais, segundo a sua espécie. Sem dúvida alguma, todas as coisas que vemos já estavam previstas originariamente, mas para sair à luz teve que se produzir uma ocasião favorável. Igual que as mães grávidas, o mundo está fecundado por as causas dos seres. Mas estas causas não forma criadas pelo mundo mas pelo Ser Supremo, sem o qual nada nasce e nada morre".

jose ramón ayllón, trad. ama