Mostrar mensagens com a etiqueta D. Javier Echevarria - Carta Ano da Fé. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta D. Javier Echevarria - Carta Ano da Fé. Mostrar todas as mensagens

13/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 24


A instituição familiar

24. Na Obra, devemos mover-nos sempre com optimismo e visão sobrenatural, que estão ligados à filiação divina, mas não podemos ignorar que, nestes momentos, um dos âmbitos mais ameaçados pela onda do hedonismo é a família. Entre os graves danos que esta situação produz, saltam à vista o aumento das infidelidades conjugais e a crescente dificuldade para que a gente jovem se encontre em condições de ouvir e de seguir a chamada de Deus, sobretudo ao celibato apostólico. Por isso, hoje é especialmente urgente e necessária uma «cruzada de virilidade e de pureza» [41], nos diferentes níveis da sociedade.

Nesta batalha de limpeza, como em todas as outras virtudes, reveste-se de grande importância a delicadeza para praticar pessoalmente esta afirmação gozosa que é a santa pureza, de acordo com estado de cada um, e também para não descuidar a influência que se pode exercer mediante o apostolado de amizade e de confidência. Além disso, são sempre úteis os estudos interdisciplinares sobre a forma de ajudar que muitas pessoas e instituições, em todo o mundo, fomentem, seguindo o exemplo dos primeiros cristãos, uma nova cultura, uma nova legislação, uma nova moda, a que me referia anteriormente.

Será necessário rezar perseverantemente, será necessário trabalhar muito para alcançar um objectivo tão ambicioso. Mas é assim que os cristãos estabelecem as metas: magnânimas nos desejos e adaptadas à realidade daquilo que se está em condições de conseguir individualmente. Temos de nos convencer que cada um está capacitado para chegar a mais, a bastante mais do que pensamos, à base de coisas pequenas no próprio ambiente: afirmações, exemplos, santa intransigência. Vem-me à memória uma imagem que S. Josemaria empregava a propósito do problema ecológico. Copio-a aqui, porque me parece muito elucidativa do que estou a comentar.

«Recentemente dizia aos vossos irmãos mais velhos, lembrando-me de que falámos tantas vezes de barcas e de redes, que agora se fala e se escreve muito em todos os sítios de ecologia. E dedicam-se, nos rios e nos lagos, e em todos os mares, a tomar amostras de água, a analisá-la... Quase sempre o resultado é que aquilo está em más condições: os peixes não dispõem dum ambiente sadio, habitável.

Quando falámos de barcos e de redes, vós e eu referíamo-nos sempre às redes de Cristo, à barca de Pedro e às almas. Por algo disse o Senhor: Vinde após mim, que eu farei de vós pescadores de homens (Mt 4, 19). Pois bem, pode acontecer que alguns desses peixes, desses homens, vendo o que está a suceder em todo o mundo e dentro da Igreja de Deus, ante esse mar, que parece coberto de imundície, e ante esses rios que estão cheios como de babas repugnantes, onde não encontram alimento nem oxigénio; se estes peixes pensassem e estamos a falar de uns peixes que pensam, porque têm alma, poderia vir-lhes à cabeça a decisão de dizer: basta, eu dou um salto, e fora! Não vale a pena viver assim. Vou refugiar-me na margem, e ali darei umas arfadas, e respirarei um pouquinho de oxigénio. Basta!

Não, meus filhos; nós temos de continuar no meio deste mundo podre, no meio deste mar de águas turvas; no meio desses rios que passam pelas grandes cidades e pelas aldeias, e que não têm nas suas águas a virtude de fortalecer o corpo, de saciar a sede, porque envenenam. Meus filhos, havemos de estar sempre no meio da rua, no meio do mundo a tratar de criar à nossa volta um remanso de águas limpas, para que venham outros peixes e, entre todos, vamos ampliando o remanso, purificando o rio, devolvendo a sua qualidade às águas do mar» [42].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[41] S. Josemaria, Caminho, n. 121.
[42] S. Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 20-V-1973.

12/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 23


23. Bento XVI enfatizou recentemente a importância de recorrer habitualmente ao sacramento da Penitência. Falando a sacerdotes e candidatos ao sacerdócio, no contexto do Ano da Fé, afirmava que «a celebração do Sacramento da Reconciliação é, ela mesma, anúncio e por isso caminho a percorrer para a obra da nova evangelização (…).
Em que sentido a Confissão sacramental é “caminho” para a nova evangelização? Antes de tudo porque a nova evangelização haure linfa vital da santidade dos filhos da Igreja, do caminho quotidiano de conversão pessoal e comunitária, para se conformar cada vez mais profundamente com Cristo. E existe um vínculo estreito entre santidade e Sacramento da Reconciliação, testemunhado por todos os Santos da história. A conversão real dos corações, que significa abrir-se à acção transformadora e renovadora de Deus, é o “motor” de qualquer reforma e traduz-se numa verdadeira força evangelizadora. Na Confissão, o pecador arrependido, por obra gratuita da Misericórdia divina, é justificado, perdoado e santificado, abandona o homem velho para se revestir do homem novo. Só quem se deixou renovar profundamente pela Graça divina, pode trazer em si mesmo, e portanto anunciar, a novidade do Evangelho» [40].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[40] Bento XVI, Discurso aos participantes de um curso sobre o foro interno, 9-III-2012.

11/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 22


22. Aqui centra-se, centrar-se-á sempre, um ponto de exame diário para os próximos meses. Como é a nossa luta pela santidade? Descemos a detalhes concretos, em sintonia com o que nos sugerem na direcção espiritual pessoal? Recorremos com frequência ao Senhor, implorando uma fina delicadeza de consciência, que nada tem a ver com os escrúpulos, para descobrir pequenas fissuras nos muros da alma, pelas quais o inimigo tenta introduzir-se, tirando também eficácia ao nosso trabalho apostólico? Enche-nos de alegria a possibilidade de encontrar novos pontos de luta, para enfrentá-los decididamente, desportivamente, sustentados pela graça de Deus?
Non enim vocávit nos Deus in immundítiam sed in sanctificatiónem (1 Ts 4, 7). Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Ainda que alguns meios de comunicação ou desvios de qualquer natureza pretendam incutir outra coisa, em primeiro lugar com a cumplicidade das nossas tendências desordenadas, a luta pela limpeza de conduta mostra-se sempre atraente, sempre possível; portanto em qualquer circunstância pode-se e deve-se propor este ideal a cada pessoa, mesmo que pareça que se encontra longe deste objectivo. Não existe criatura humana que não procure um refúgio onde proteger-se, neste mar de ondas e tempestades que a nossa época atravessa, e que realmente não é uma situação nova. Os cristãos contamos com a grande ventura e capacidade de transmitir essa segurança, que muitos anseiam talvez sem se darem conta. Sigamos em frente, lutando com alegria nas batalhas do Senhor (cfr. 1 Mac 3, 2), in hoc pulchérrimo caritátis bello, nesta formosíssima luta de caridade, cujo feliz resultado está plenamente assegurado, com a vitória do Senhor, para os que se mantêm fiéis ao seu Amor.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

10/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 21


21. Idêntico raciocínio, pelo mesmo motivo, deve fazer-se sobre os pontos essenciais da doutrina cristã que sofrem, nos nossos dias, um ataque intolerante por parte de grupos de pessoas cegamente obstinadas em eliminar o sentido religioso da sociedade civil. Infelizmente, existem muitos exemplos; desde ataques grosseiros a Jesus Cristo, a quem tentam ridicularizar, até acusações caluniosas contra a Igreja, os seus ministros, as suas instituições.

A tarefa do cristão, que deseja ser coerente com a sua vocação consiste em mostrar Cristo aos outros, saber-se alto-falante, primeiro com o exemplo, mas também com a palavra oportuna, dos ensinamentos da Igreja, especialmente nos temas mais debatidas na opinião pública. Vem-me à memória o que tão claramente expôs D. Álvaro: «Como é necessário varrer primeiro a própria casa (...), cada um deve examinar como se preocupa com esta obrigação particularmente cristã» [36]. Palavras que soam como um eco da pregação do Apóstolo aos primeiros fiéis: esta é a vontade de Deus: a vossa santificação (…) que cada um de vós saiba possuir o seu corpo santa e honestamente, sem se deixar levar pelas paixões desregradas, como os pagãos que não conhecem Deus; e que ninguém, nesta matéria, oprima nem defraude o seu irmão (…). Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade.(1 Ts 4, 3-7).

A recomendação de S. Paulo adquire singular relevo nas circunstâncias presentes. É impossível, de facto, lutar eficazmente contra essa onda viscosa e suja que procura envolver tudo, se no nosso interior se admite alguma cumplicidade, mesmo que pareça pequena, com essas «coisas perversas, que sobem e sobem, fervendo dentro de ti, até quererem sufocar, com a sua podridão bem cheirosa, os grandes ideais, os mandamentos sublimes que o próprio Cristo pôs no teu coração» [37].

Com o mesmo relevo ressalta o texto de S. Gregório Nazianzeno, que o beato João Paulo II citava na sua exortação apostólica sobre a missão dos Bispos. Assim se expressava esse Padre e Doutor da Igreja: «Temos de começar por nos purificar, antes de purificarmos os outros; temos de ser instruídos, para podermos instruir; temos de nos tornar luz para iluminar, de nos aproximar de Deus para podermos aproximar d’Ele os outros, ser santos para santificar» [38].

Porque não nos consideramos melhores que os outros – e não nos enganamos nesta apreciação –, convém-nos voltar uma e outra vez a tratar de adequar o mais perfeitamente possível a nossa situação pessoal com a doutrina de Jesus Cristo. Temos de nos persuadir de que, primeiro, havemos de lutar no nosso interior, decididos de verdade a conformar com a vontade de Deus os nossos pensamentos, projetos, palavras e ações, mesmo nas coisas mais pequenas: «a luta tem uma frente dentro de nós mesmos, a frente das nossas paixões. Vigia quem luta interiormente, para se afastar decididamente da ocasião de pecado, do que pode debilitar a fé, desvanecer a esperança ou prejudicar o Amor» [39].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[36] Venerável Álvaro del Portillo, Carta, 1-I-1994.
[37] S. Josemaria, Caminho, n. 493.
[38] S. Gregório Nazianzeno, Oração II, 71 (PG 35, 479); cit. em Beato João Paulo II, Exort. Apost. Pastores gregis, 16-X-2003, n. 12.
[39] S. Josemaria, Carta 28-III-1973, n. 10.

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 21


21. Idêntico raciocínio, pelo mesmo motivo, deve fazer-se sobre os pontos essenciais da doutrina cristã que sofrem, nos nossos dias, um ataque intolerante por parte de grupos de pessoas cegamente obstinadas em eliminar o sentido religioso da sociedade civil. Infelizmente, existem muitos exemplos; desde ataques grosseiros a Jesus Cristo, a quem tentam ridicularizar, até acusações caluniosas contra a Igreja, os seus ministros, as suas instituições.
A tarefa do cristão, que deseja ser coerente com a sua vocação consiste em mostrar Cristo aos outros, saber-se alto-falante, primeiro com o exemplo, mas também com a palavra oportuna, dos ensinamentos da Igreja, especialmente nos temas mais debatidas na opinião pública. Vem-me à memória o que tão claramente expôs D. Álvaro: «Como é necessário varrer primeiro a própria casa (...), cada um deve examinar como se preocupa com esta obrigação particularmente cristã» [36]. Palavras que soam como um eco da pregação do Apóstolo aos primeiros fiéis: esta é a vontade de Deus: a vossa santificação (…) que cada um de vós saiba possuir o seu corpo santa e honestamente, sem se deixar levar pelas paixões desregradas, como os pagãos que não conhecem Deus; e que ninguém, nesta matéria, oprima nem defraude o seu irmão (…). Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade.(1 Ts 4, 3-7).

A recomendação de S. Paulo adquire singular relevo nas circunstâncias presentes. É impossível, de facto, lutar eficazmente contra essa onda viscosa e suja que procura envolver tudo, se no nosso interior se admite alguma cumplicidade, mesmo que pareça pequena, com essas «coisas perversas, que sobem e sobem, fervendo dentro de ti, até quererem sufocar, com a sua podridão bem cheirosa, os grandes ideais, os mandamentos sublimes que o próprio Cristo pôs no teu coração» [37].

Com o mesmo relevo ressalta o texto de S. Gregório Nazianzeno, que o beato João Paulo II citava na sua exortação apostólica sobre a missão dos Bispos. Assim se expressava esse Padre e Doutor da Igreja: «Temos de começar por nos purificar, antes de purificarmos os outros; temos de ser instruídos, para podermos instruir; temos de nos tornar luz para iluminar, de nos aproximar de Deus para podermos aproximar d’Ele os outros, ser santos para santificar» [38].

Porque não nos consideramos melhores que os outros – e não nos enganamos nesta apreciação –, convém-nos voltar uma e outra vez a tratar de adequar o mais perfeitamente possível a nossa situação pessoal com a doutrina de Jesus Cristo. Temos de nos persuadir de que, primeiro, havemos de lutar no nosso interior, decididos de verdade a conformar com a vontade de Deus os nossos pensamentos, projectos, palavras e acções, mesmo nas coisas mais pequenas: «a luta tem uma frente dentro de nós mesmos, a frente das nossas paixões. Vigia quem luta interiormente, para se afastar decididamente da ocasião de pecado, do que pode debilitar a fé, desvanecer a esperança ou prejudicar o Amor» [39].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[36] Venerável Álvaro del Portillo, Carta, 1-I-1994.
[37] S. Josemaria, Caminho, n. 493.
[38] S. Gregório Nazianzeno, Oração II, 71 (PG 35, 479); cit. em Beato João Paulo II, Exort. Apost. Pastores gregis, 16-X-2003, n. 12.
[39] S. Josemaria, Carta 28-III-1973, n. 10.

09/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 20


A moralidade pública

20. Outro desafio prioritário da evangelização é o da moralidade pública. Um dos obstáculos que com mais iniquidade se opõe ao reinado de Cristo, nas almas e na sociedade, como um todo, é a onda de sensualidade que invade os costumes, leis, modas, meios de comunicação, expressões artísticas. Para deter esse ataque venenoso, além de rezar e convidar a rezar, de reparar e de levar à reparação, movidos por uma responsabilidade cristã e também humana, havemos de mobilizar muitas pessoas, católicas ou não, mas homens e mulheres de boa vontade, instando-os a que sintam a urgência de fazer algo. Sobram os lamentos estéreis, e muito mais qualquer atitude de indiferença, de se conformar com não fazer pessoalmente o mal. Pelo contrário, a toda a hora se apresenta o momento propício de se lançar com mais brio a um apostolado capilar, a uma mudança radical, começando pela própria vida, o próprio lar, o próprio ambiente profissional.

Escutemos o Apóstolo dos gentios, que nos exorta: a que não recebais a graça de Deus em vão. Pois ele diz: “Eu te ouvi no tempo favorável e te ajudei no dia da salvação”. Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação (2Cor6, 1-2). Os cristãos devemos proceder com a segurança da fé, precisamente para refazer tudo o que à nossa volta está em desacordo com a lei de Deus, sem respeitos humanos, sem medo de que se note a nossa condição de pessoas convictas da nossa fé. Há valores que não são negociáveis, como repetidamente tem manifestado Bento XVI: «tutela da vida em todas as suas fases, desde o primeiro momento da conceção até à morte natural; reconhecimento e promoção da estrutura natural da família, como união entre um homem e uma mulher baseada no matrimónio, e a sua defesa das tentativas de a tornar juridicamente equivalente a formas de uniões que, na realidade, a danificam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu caráter particular e o seu papel social insubstituível; tutela do direito dos pais de educar os próprios filhos» [34].

O Papa esclarecia que «estes princípios não são verdades de fé mesmo se recebem ulterior luz e confirmação da fé. Eles estão inscritos na natureza humana e, portanto, são comuns a toda a humanidade. A ação da Igreja de os promover não assume, por conseguinte, um caráter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, prescindindo da sua filiação religiosa. Ao contrário, esta ação é tanto mais necessária quanto mais estes princípios forem negados ou mal compreendidos porque isto constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma grave ferida infligida à própria justiça» [35].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[34] Bento XVI, Discurso a um grupo de parlamentares da União Europeia, 30-III-2006.
[35] Bento XVI, Discurso a um grupo de parlamentares da União Europeia, 30-III-2006.

08/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 19



Harmonia entre fé e razão

19. Os que nos sabemos filhos de Deus, havemos de propagar que «não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de realização. (…) Deus e o homem estão colocados, cada um no seu respectivo mundo, numa relação única. Em Deus reside a origem de tudo, n’Ele se encerra a plenitude do mistério e isto constitui a sua glória; ao homem, pelo contrário, compete o dever de investigar a verdade com a razão, e nisto está a sua nobreza» [31].

Mantém plena actualidade o horizonte que S. Josemaria descrevia: «sobre a base firme dum profundo conhecimento científico, havemos de mostrar que não há oposição alguma entre a fé e a razão» [32]; antes, pelo contrário, deve existir uma plena sintonia, porque os dois âmbitos do conhecimento procedem de Deus, do Logos criador que, além disso, se fez homem.

Na Carta Apostólica Novo Millénnio ineúnte, João Paulo II escreveu: «Para a eficácia do testemunho cristão, especialmente nestes âmbitos delicados e controversos, é importante fazer um grande esforço para explicar adequadamente os motivos da posição da Igreja, sublinhando sobretudo que não se trata de impor aos não crentes uma perspectiva de fé, mas de interpretar e defender valores radicados na própria natureza do ser humano. A caridade tomará então necessariamente a forma de serviço à cultura, à política, à economia, à família, para que em toda a parte sejam respeitados os princípios fundamentais de que depende o destino do ser humano e o futuro da civilização» [33]. Para esta tarefa, necessita-se do dom de línguas, que se alcança quando se invoca com fé o Espírito Santo e se empregam os meios humanos.

De todos é conhecida a plena liberdade, que dentro da doutrina católica, a Igreja reconhece aos seus filhos na própria actuação profissional e enquanto cidadãos iguais aos outros cidadãos. A sensibilidade para os problemas humanos, o sentido sobrenatural para julgá-los e resolvê-los cristãmente, de acordo com a reta consciência bem formada, deve estimular a responsabilidade apostólica pessoal para trazer para o debate científico uma visão mais humana e sempre cristã. Por isso, convém abordar com rectidão e seriedade os trabalhos que têm especial relevância doutrinal e ética, nas áreas científicas e humanistas próprias de cada um. A crise moral pela qual passa a sociedade, e a necessidade perene de evangelizar, tornam ainda mais urgente que os investigadores cristãos não abandonem este trabalho e desenvolvam com constância e profundidade esses temas, para ajudar a resolver correctamente os problemas atuais.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[31] Beato João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, 14-IX-1998, n. 17.
[32] S. Josemaria, Carta 9-I-1951, n. 12.
[33] Beato João Paulo II, Carta Apost. Novo millénnio ineúnte, 6-I-2001, n. 51.

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 19


Harmonia entre fé e razão

19. Os que nos sabemos filhos de Deus, havemos de propagar que «não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de realização. (…) Deus e o homem estão colocados, cada um no seu respectivo mundo, numa relação única. Em Deus reside a origem de tudo, n’Ele se encerra a plenitude do mistério e isto constitui a sua glória; ao homem, pelo contrário, compete o dever de investigar a verdade com a razão, e nisto está a sua nobreza» [31].

Mantém plena actualidade o horizonte que S. Josemaria descrevia: «sobre a base firme dum profundo conhecimento científico, havemos de mostrar que não há oposição alguma entre a fé e a razão» [32]; antes, pelo contrário, deve existir uma plena sintonia, porque os dois âmbitos do conhecimento procedem de Deus, do Logos criador que, além disso, se fez homem.

Na Carta Apostólica Novo Millénnio ineúnte, João Paulo II escreveu: «Para a eficácia do testemunho cristão, especialmente nestes âmbitos delicados e controversos, é importante fazer um grande esforço para explicar adequadamente os motivos da posição da Igreja, sublinhando sobretudo que não se trata de impor aos não crentes uma perspectiva de fé, mas de interpretar e defender valores radicados na própria natureza do ser humano. A caridade tomará então necessariamente a forma de serviço à cultura, à política, à economia, à família, para que em toda a parte sejam respeitados os princípios fundamentais de que depende o destino do ser humano e o futuro da civilização» [33]. Para esta tarefa, necessita-se do dom de línguas, que se alcança quando se invoca com fé o Espírito Santo e se empregam os meios humanos.

De todos é conhecida a plena liberdade, que dentro da doutrina católica, a Igreja reconhece aos seus filhos na própria actuação profissional e enquanto cidadãos iguais aos outros cidadãos. A sensibilidade para os problemas humanos, o sentido sobrenatural para julgá-los e resolvê-los cristãmente, de acordo com a recta consciência bem formada, deve estimular a responsabilidade apostólica pessoal para trazer para o debate científico uma visão mais humana e sempre cristã. Por isso, convém abordar com rectidão e seriedade os trabalhos que têm especial relevância doutrinal e ética, nas áreas científicas e humanistas próprias de cada um. A crise moral pela qual passa a sociedade, e a necessidade perene de evangelizar, tornam ainda mais urgente que os investigadores cristãos não abandonem este trabalho e desenvolvam com constância e profundidade esses temas, para ajudar a resolver correctamente os problemas actuais.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[31] Beato João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, 14-IX-1998, n. 17.
[32] S. Josemaria, Carta 9-I-1951, n. 12.
[33] Beato João Paulo II, Carta Apost. Novo millénnio ineúnte, 6-I-2001, n. 51.

06/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 17


A investigação e o ensino

17. Embora devamos estar sempre abertos a todos, é evidente que é muito importante dar a conhecer o Evangelho às pessoas que se movem em ambientes intelectuais. Concretamente, os que trabalham em instituições universitárias hão de recordar umas palavras do Senhor, dirigidas a todos, mas que convém considerar que se adaptam especialmente a eles: vos estis lux mundi (Mt 5, 14), deveis ser luz do mundo. Na verdade, o seu trabalho profissional coloca-os na vanguarda da nova evangelização. S. Josemaria, que tanto impulsionou, mesmo antes de 1928, o apostolado com intelectuais, escrevia: «a Universidade tem como mais alta missão o serviço aos homens, ser fermento da sociedade em que vive» [28].

Palavras que exprimem muito bem qual há de ser a direção apostólica que hão de seguir os que atuam nesses ambientes: ser fermento, dar luz e calor, a luz e o calor do Evangelho, para que os seus amigos e colegas, os seus alunos, impregnem a alma e a atuação com a Boa Nova de Cristo, em plena fidelidade ao Magistério da Igreja. Desse modo contribuirão para a evangelização da cultura. De perene atualidade é aquele ponto de Caminho: «tens de comunicar a outros Amor de Deus e zelo pelas almas, para que esses, por sua vez, peguem fogo a muitos mais que estão num terceiro plano, e cada um destes últimos aos seus companheiros de profissão.

De quantas calorias espirituais não precisas! – E que responsabilidade tão grande, se arrefeces! E (nem o quero pensar) que crime tão horroroso, se dás um mau exemplo!» [29]

Não permitamos que caia no vazio o desafio saudável de animar que muitas pessoas e instituições, em todo o mundo, promovam, estimulados pelo exemplo dos primeiros cristãos, uma nova cultura, uma nova legislação, uma nova moda, coerentes com a dignidade da pessoa humana e o seu destino para a glória dos filhos de Deus em Jesus Cristo (cfr. 2 Cor 3, 18). Se todos temos de rezar e colaborar com generosidade completa para o conseguir, é aos professores universitários e aos investigadores que incumbe a responsabilidade dum empenho profundo e perseverante, para aproveitar cada uma das ocasiões que o exercício da profissão lhes proporciona. A fé configura-se, neste contexto, como apoio para avançar para a verdade, ao mesmo tempo que nos esforçamos, pela própria força da virtude, a levá-la para todos as âmbitos, e ajudar os que nos rodeiam a que a recebam ou nela cresçam.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[28] S. Josemaria, Discurso no ato de investidura de doutores “honoris causa” pela Universidade de Navarra, 7-X-1967.
[29] S. Josemaria, Caminho, n. 944.

05/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 16


16. Este trabalho não está reservado a pessoas que trabalhem em áreas especialmente qualificadas. De grande eficácia será sempre o apostolado pessoal de cada cristão, no âmbito em que habitualmente decorre a sua existência normal. Por isso, sugiro que nos detenhamos, num exame muito pessoal, sobre como procuramos ajudar as almas para que se aproximem de Deus: que oração, que sacrifícios, quantas horas de trabalho bem acabado oferecemos; que conversas tivemos – oralmente, por escrito – com amigos, parentes, colegas, conhecidos. Contagiemos esta santa preocupação a quem convive connosco, porque a fé na eficácia dos ensinamentos de Cristo nos há de estimular a servir e a querer mais os nossos irmãos e irmãs: ninguém nos pode deixar indiferentes.
O apostolado da inteligência, como digo, é tarefa de todos. Mas, sem perder de vista os numerosos campos em que é urgente uma nova evangelização, hoje é prioritário impregnar com a doutrina de Cristo alguns âmbitos particulares. Basta considerar as tarefas dos governantes, cientistas e investigadores, dos profissionais da opinião pública, etc.; sem esquecer que todos os homens e mulheres experimentam, experimentamos, a necessidade de escutar a voz do Senhor e de segui-la.

«A luta pela alma do mundo contemporâneo é máxima, aí mesmo onde o espírito deste mundo parece mais forte», escreveu o beato João Paulo II, a propósito da existência «de “modernos areópagos”, isto é, de novos púlpitos. Estes areópagos são hoje o mundo da ciência, da cultura, dos meios de comunicação; são os ambientes em que se criam as elites intelectuais, os ambientes dos escritores e dos artistas» [27].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[27] Beato João Paulo II, Atravessar o Limiar da Esperança, p. 107.

04/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 15


ALGUNS CAMPOS PRIORITÁRIOS

15. Em todo o mundo e sempre, é necessário realizar um profundo apostolado da inteligência. “Comunicar” sobre verdade para “comunicar” a Verdade. Esta é a síntese de toda a tarefa apostólica. Não podemos cansar-nos na petição a Deus, com humildade, com insistência, com confiança, para que as inteligências e os corações se abram à sua luz. Muitas pessoas repetem, como os Magos: vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-Lo (Mt 2, 2). Hão-de manifestar-nos isso, se os que acreditamos em Cristo nos aproximarmos de todos com amizade sincera, impregnada de caridade e compreensão, de simpatia também humana, valorizada pela vida de piedade; e também com agradecimento pelo bem que não poucos realizam em tantas áreas.

O que maravilha na atitude dos Magos, comenta Bento XVI, «é que eles se prostraram em adoração diante dum simples menino nos braços da sua mãe, não no quadro dum palácio real, mas na pobreza duma cabana em Belém (cfr. Mt 2, 11). Como foi possível? Que convenceu os Magos que aquele menino era “o rei dos Judeus” e o rei dos povos? Certamente persuadiu-os o sinal da estrela, que eles tinham visto “surgir” e que tinha parado precisamente ali onde se encontrava o Menino (cfr. Mt 2, 9)

Mas a estrela também não teria sido suficiente, se os Magos não fossem pessoas intimamente abertas à verdade. Ao contrário do rei Herodes, tomado pelos seus interesses de poder e de riquezas, os Magos propendiam para a meta da sua busca, e quando a encontraram, mesmo sendo homens cultos, comportaram-se como os pastores de Belém: reconheceram o sinal e adoraram o Menino, oferecendo-lhe os dons preciosos e simbólicos que tinham levado consigo» [25].

Não esqueçamos que «Nosso Senhor dirige-se a todos os homens, para que venham ao seu encontro, para que sejam santos. Não chama só os Reis Magos, que eram sábios e poderosos; antes disso tinha enviado aos pastores de Belém, não simplesmente uma estrela, mas um dos seus anjos. Mas tanto uns como outros – os pobres e os ricos, os sábios e os menos sábios – têm de fomentar na sua alma a disposição de humildade que permite ouvir a voz de Deus» [26].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[25] Bento XVI, Homilia na Solenidade da Epifania do Senhor, 6-I-2007.
[26] S. Josemaria, Cristo que passa, n. 33.

02/01/2013

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 13


Um firme ponto de apoio

13. O Santo Padre Bento XVI, em várias ocasiões, fez notar as contradições do tempo em que vivemos. «Em vastas partes do mundo existe hoje um estranho esquecimento de Deus. Parece que tudo caminha igualmente sem Ele. Mas existe, ao mesmo tempo, também um sentimento de frustração, de insatisfação de tudo e de todos. É espontâneo exclamar: não é possível que esta seja a vida! Deveras, não. E assim, juntamente com o esquecimento de Deus existe um “boom” do religioso. Não quero desacreditar tudo o que existe neste contexto. Pode existir nisto também a alegria sincera da descoberta. Mas para dizer a verdade, não raramente a religião se torna quase um produto de consumo. Escolhe-se aquilo de que se gosta, e alguns sabem até tirar dela um proveito. Mas a religião procurada a seu “bel-prazer” no fim não nos ajuda. É cómoda, mas no momento da crise abandona-nos a nós próprios» [21]. E o Papa conclui com o seguinte convite: «Ajudai os homens a descobrir a verdadeira estrela que nos indica o caminho: Jesus Cristo!» [22].

Apesar do clima de relativismo e permissividade dominante em amplos setores da sociedade, muitas pessoas estão sedentas de eternidade, talvez depois de terem tentado, em vão, saciá-la em coisas perecíveis. Que grande verdade se encerra naquelas conhecidas palavras de Santo Agostinho!: «Fizeste-nos Senhor para ti e o nosso coração está inquieto até que descanse em ti» [23]. Só Deus, com efeito, satisfaz completamente os anseios do espírito humano. Por isso, sejamos mulheres e homens de piedade firme, que recorrem aos diversos modos de orar, o autêntico consolo, com sinceros desejos de ser mais rezadores. Aproximemo-nos da Santa Missa com profunda fé, persuadidos de que nela se faz sacramentalmente presente o Sacrifício do Calvário, o Sacrifício que nos trouxe a salvação e nos revitaliza para a batalha de cada dia para a santidade.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[21] Bento XVI, Homilia, 21-VIII-2005.
[22] Bento XVI, Homilia, 21-VIII-2005.
[23] S. Agostinho, Confissões, I, 1, 3 (CCL 27, 1).

31/12/2012

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 11


Exemplo dos primeiros cristãos

11. Insisto em que, com frequência, devemos voltar a considerar a conduta dos Apóstolos e dos nossos primeiros irmãos na fé. Eram poucos, careciam de meios humanos, não contavam nas suas fileiras, assim sucedeu pelo menos durante muito tempo, com grandes pensadores ou pessoas de prestígio público. Viviam num ambiente social de indiferentismo, de carência de valores, semelhante, em muitos aspetos, ao que agora temos de enfrentar. No entanto, não se amedrontaram. «Tiveram uma conversa maravilhosa com todas as pessoas que encontraram, que procuraram, nas suas viagens e peregrinações. Não haveria Igreja, se os Apóstolos não tivessem mantido esse diálogo sobrenatural com todas aquelas almas» [16]. Mulheres e homens, seus contemporâneos, experimentaram uma profunda transformação ao ser tocados pela graça divina. Não aderiram simplesmente a uma nova religião, mais perfeita do que a que eles já conheciam, mas, pela fé, descobriram Jesus Cristo e enamoraram-se d’Ele, do Deus-Homem, que se tinha oferecido em sacrifício por eles e tinha ressuscitado para lhes abrir as portas do Céu. Este facto inaudito penetrou com enorme força nas almas daqueles primeiros, conferindo-lhes uma fortaleza à prova de qualquer sofrimento. «Ninguém acreditou em Sócrates até morrer pela sua doutrina», escrevia com simplicidade S. Justino em meados do século II, «mas por Cristo, até os artesãos e os ignorantes desprezaram não só a opinião do mundo, mas também o medo da morte» [17].

Num mundo que desejava ardentemente a salvação, sem saber onde encontrá-la, a doutrina cristã irrompeu como uma luz acesa no meio da escuridão. Aqueles primeiros souberam, com o seu comportamento, fazer brilhar diante dos seus concidadãos essa claridade salvadora e converteram-se em mensageiros de Cristo, simplesmente, com naturalidade, sem ostentações estridentes, com a coerência entre a sua fé e as suas obras. «Nós não dizemos coisas grandes, mas fazemo-las» [18], escreveu um deles. E mudaram o mundo pagão.

Na Carta apostólica que dirigiu a toda a Igreja, na preparação para o grande jubileu do ano 2000, o beato João Paulo II explicava que «em Cristo a religião já não é um “buscar Deus às apalpadelas” (cfr. Act 17, 27), mas uma resposta de fé a Deus, que se revela: resposta em que o homem fala a Deus como o seu Criador e Pai; resposta tornada possível por aquele único Homem, que é ao mesmo tempo o Verbo consubstancial com o Pai, e por quem Deus fala a cada homem e cada homem é capaz de responder a Deus» [19].

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[19] Beato João Paulo II, Carta Apost. Tértio Millénnio adveniénte, 10-XI-1994, n. 6.

30/12/2012

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 10


VOLTAR ÀS ORIGENS DO EVANGELHO

10. Muitas vezes, no passado, a Europa teve de enfrentar difíceis períodos de transformação e de crise, mas «sempre os superou, conseguindo seiva nova inesgotável reserva de energia vital do Evangelho» [15]. Estas palavras do beato João Paulo II, pronunciadas em 1995, confirmam-nos no caminho que é preciso seguir. Não há outro: recorrer às raízes da nossa fé para nos impregnarmos da seiva vivificante que nos transmitem (a tal se dirige a formação doutrinal que nos dá a Obra) e, a partir daí, pôr os homens e as mulheres em contacto vital com Cristo, em todos os lugares.

S. Josemaria afirmava que «viver a fé é também transmiti-la aos outros». Para consegui-lo, é preciso caminhar com eles. E no caminho devemos ouvir as dificuldades que têm ante a mensagem cristã, entendê-las e demonstrar-lhes que os entendemos, de modo que se sintam compreendidos e esclarecidos com a nossa conversa orientadora; e assim, caminhando com elas ou com eles, comunicar-lhes com afeto e amabilidade o Evangelho, a palavra viva do Senhor, isto é, mostrar a maravilha do espírito cristão, que harmoniza razão e fé e oferece respostas a todas as perguntas e aquieta as preocupações dos corações humanos; e, deste modo, vamo-los preparando para desejarem os sacra­mentos e para se disporem a recebê-los.

Em muitos casos, a graça divina terá de construir nas almas o edifício sobrenatural desde os alicerces. Aproveitemos a oportunidade desses desejos de fazer o bem e de solidariedade, que se advertem nas novas gerações, e não apenas nestas, para que descubram o Salvador, anunciando-lhes a doutrina com dom de línguas e lançando as bases, pouco a pouco, por um plano inclinado, até adquirirem uma vida cristã firme.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[15] Beato João Paulo II, Discurso, 9-IX-1995.

29/12/2012

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 9


9. Que grande tarefa temos pela frente! Com humildade, com o desejo pessoal de santidade, havemos de chegar às pessoas, acima de tudo, com o nosso exemplo. Estejamos cientes de que o esforço por nos comportarmos como cristãos autênticos, apesar das nossas misérias pessoais, faz parte da luz que o Senhor deseja acender no mundo. Não tenhamos medo de chocar com o ambiente, nos pontos incompatíveis com a fé católica, mesmo que essa atitude possa trazer-nos até prejuízos materiais ou sociais: «convencei-vos, e suscitai nos outros a convicção de que os cristãos havemos de navegar contra a corrente. Não vos deixeis levar por falsas ilusões. Pensai bem nisto: contra a corrente andou Jesus, contra a corrente foram Pedro e os outros primeiros e quantos, ao longo dos séculos, quiseram ser discípulos fiéis do Mestre. Tende, pois, a firme convicção de que não é a doutrina de Jesus que tem de se adaptar aos tempos, mas são os tempos que se hão de abrir à luz do Salvador» [12].
Por isso, voltando os olhos para o Redentor, pedindo-lhe que nos conceda a sua paz e a capacidade de perdoar e amar os que promovem essas incompreensões, rezemos com obstinação pelos que obstinadamente pretendem pôr no pelorinho a Igreja, a Hierarquia, os católicos. Conscientes da nossa debilidade pessoal, procuremos incansavelmente retribuir o bem pelo mal; e, como consequência da união com Deus, amemos aqueles que tentam perseguir ou reduzir a religião à sacristia, à exclusiva esfera privada.

Por outro lado, se os respeitos humanos não hão-de travar o zelo apostólico, menos ainda o deterá o pensamento real da debilidade pessoal ou da falta de meios, porque não confiamos nas nossas forças, mas na graça do Céu: ómnia possum in eo, qui me confórtat (Fl 4, 13). A este respeito, o Fundador do Opus Dei comentava: «permanecer todos unidos na oração: esta é (...) a origem da nossa alegria, da nossa paz, da nossa serenidade e, portanto, da nossa eficácia sobrenatural» [13]. E noutro momento, acrescentava: «que outros conselhos hei-de dar? Usar os procedimentos que sempre usaram os cristãos que pretendiam, de verdade, seguir Cristo. Os mesmos que os primeiros a escutar o apelo de Jesus seguiram: o encontro assíduo com o Senhor na Eucaristia, a invocação filial da Santíssima Virgem, a humildade, a temperança, a mortificação dos sentidos (…) e a penitência» [14], uma fé forte, bem fundada no Senhor Omnipotente. Difícil de explicar é o optimismo e a firmeza de S. Josemaria, a quem, entre muitos outros textos, sempre estimularam as palavras do Salmo: et in lúmine tuo vidébimus lumen (Sl 35/36, 10), porque, com Ele, todas as trevas se dissipam.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[12] S. Josemaria, Carta 28-III-1973, n. 4.
[13] S. Josemaria, Carta 19-III-1954, n. 27.
[14] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 186.

28/12/2012

Carta do Prelado do Opus Dei por ocasião do Ano da Fé. 8


8. A realidade do «ser missionário – com missão – e não te chamares missionário», a que S. Josemaria se refere no ponto 848 de Caminho, situa-se no momento radical e originário da missão – como o Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós (Jo 20, 21) – que configura as formas históricas de que a missão de Cristo se virá a revestir na vida da Igreja: desde o cuidado da vida de fé dos católicos (pastoral, fraternidade), ao anúncio de Cristo Salvador aos pagãos (primeiro anúncio, evange­lização); do convívio fraterno com os cristãos não católicos para estimulá-los à plena comunhão (ecumenismo), ao novo anúncio de Cristo e da sua doutrina aos batizados que O deixaram e rejeitaram a Sua doutrina (nova evangelização). Os fiéis do Opus Dei, a partir da sua plena secularidade, estão chamados a assumir essas diferentes dimensões da única missão da Igreja.
S. Josemaria repetia insistentemente: «Somos missionários com missão, sem nos chamarmos missionários. Missionários, tanto nas ruas asfaltadas de Roma, Nova York, Paris, México, Tóquio, Buenos Aires, Lisboa ou Madrid, Dublin ou Sydney, como no coração da África» [10]. A necessidade de comunicar o primeiro anúncio da fé não se limita aos países tradicionalmente conhecidos como terras de missão, mas, infelizmente, afeta o mundo inteiro, e a esta grande tarefa havemos de dedicar-nos.

Mas essa responsabilidade não pode ficar-se em meras considerações; cada uma e cada um há-de pensar: eu, como contribuo? E ainda antes, havemos de ponderar como influi a fé no nosso atuar e também se sabemos agradecer diariamente este dom e, como consequência, se procuramos transmitir aos outros tão grande tesouro. Levantemos a nossa alma ao Senhor, implorando: adáuge nobis fidem (Lc 17, 5) para todos rezarmos melhor; adáuge mihi fidempara trabalhar santificando-me e santificando os outros; para dar à minha amizade um contínuo sentido cristão. Não esqueçamos o ditado de que o exemplo é o melhor pregador, seguindo os passos de Jesus Cristo, que cœpit fácere et docére (cfr. Act 1, 1), começou a fazer e ensinar.

Persuadamo-nos de que, nos mais diferentes lugares, «há necessidade dum renovado anúncio, mesmo para quem já está batizado. Muitos (…) contemporâneos pensam que sabem o que é o cristianismo, mas realmente não o conhecem. Frequentemente ignoram os próprios rudimentos da fé» [11], e devemos enfrentar este desafio com a nossa vida e a nossa formação doutrinal. Sem pessimismo, consideremos que a missão apostólica, a que o Senhor urge os cristãos, os que nos sabemos filhos de Deus, adquire no nosso tempo tonalidades diversas, dependendo das circunstâncias do ambiente, do lugar, das pessoas que cada uma ou cada um encontra. Em qualquer caso, havemos de pôr as pessoas que nos rodeiam ou com quem convivemos em contacto com Cristo, ajudando-as a conhecer ou reconhecer o rosto do nosso Redentor, e ajudá‑las a caminhar na sua companhia, mesmo que tenham de ir contra a corrente.

Copyright © Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei
Nota: Publicação devidamente autorizada

____________________
Notas:

[10] S. Josemaria, Instrução, maio-1935/14-IX-1950, nota 231.
[11] Beato João Paulo II, Exort. Apost. Ecclésia in Europa, 28-VI-2003, n. 47.