17/10/2018

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?









Temas para reflectir e meditar


Formação humana e cristã – 82

Uma pequena história:

«Uma mulher que se encontrava grávida solicitou a um médico que a ajudasse a abortar.
O médico perguntou qual a razão e ela disse-lhe que já tinha três filhos e não tinha meios para sustentar mais um.
O médico perguntou  que idade tinha o filho mais velho ficando a saber que tinha treze anos.

Posto isto disse à mulher: 
´Vou fazer-lhe uma proposta: atendendo ao que me diz que ter um quarto filho é incomportável economicamente, traga-me o mais velho e eu dou-lhe uma injecção letal. A este deixamo-lo nascer.' E, antes que a mulher voltasse a si do espanto que tal proposta lhe provocara, explicou:
'Bem vê, quem provoca maior despesa na sua família é o seu filho mais velho, come mais, gasta mais roupa, os estudos, etc. etc.
Este pequenino, ao contrário, levará muitos anos a, digamos "gastos mínimos" porque, durante uns anos, comerá pouco, vestir-se-á com roupas já usadas pelos irmãos, etc. Não lhe parece lógico?'»

Pois... deveria parecer lógico e absolutamente correcto que, como neste caso, para evitar despesas deveria começar-se por eliminar quem mais contribui para elas.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR

(Vida de São Francisco de Assis)


CAPITULO l

Conversão definitiva e restauração de três igrejas

6. Chegou então a um mosteiro próximo onde pediu uma esmola.
Recebeu-a, mas ninguém o reconheceu nem lhe deu a mínima atenção. Em seguida dirigiu-se a Gúbio onde foi reconhecido e hospedado por um dos seus antigos amigos de quem aceitou uma de suas túnicas bem baratas, digna de um pobrezinho do Senhor.
Depois disso, no seu amor à verdadeira humildade, dedicou-se aos leprosos vivendo com eles, a todos servindo por amor a Deus.
Lavava-lhes os pés, tratava-lhes as feridas, retirava-lhes os pedaços de carne podre, fazia parar o pus; na sua extraordinária devoção, chegava mesmo a beijar-lhes as chagas purulentas: começo já bem significativo para o médico que seria ele mais tarde!
Por isso Deus lhe outorgou o poder de curar as doenças da alma e do corpo.
Entre muitas outras curas, por exemplo, merece referido este facto que se passou um pouco mais tarde, numa época em que o seu nome já era bem mais conhecido:
um homem do condado de Espoleto  tinha a boca e o maxilar corroídos por uma doença horrível, diante da qual toda a medicina nada podia fazer.
De volta de uma peregrinação ao túmulo dos Apóstolos aonde tinha ido pedir o socorro de Deus, encontrou Francisco e, por devoção, quis beijar-lhe os pés.
Mas o humilde homem de Deus não o permitiu e beijou na face, aquele que lhe queria beijar os pés.
Mal o servo dos leprosos, admirável no seu amor, tocou com seus lábios santos aquela chaga horrível, a doença desapareceu e o enfermo encontrou a saúde tanto tempo almejada.

Não sei o que mereça mais a nossa admiração: a humildade capaz de um beijo tão caridoso ou o poder que se patenteia num milagre tão espantoso.

Lançado pois este fundamento sólido da humildade desejada por Cristo, Francisco lembrou-se da ordem que recebera do Crucificado de restaurar a igreja de São Damião.
Como filho autêntico da obediência, voltou a Assis para atender à vontade divina ou ao menos mendigar o material necessário.
Por amor de Cristo pobre e crucificado, ele vai pedindo esmola sem qualquer vergonha junto àqueles mesmos que o haviam conhecido como grande senhor.
E apesar de fraco e extenuado pelos jejuns, carregava nas costas pesados fardos de pedras.
Com a ajuda de Deus e a cooperação do povo, conseguiu enfim chegar a termo com a restauração da igreja de São Damião.
E para não ficar de braços cruzados, encetou a reconstrução de outra igreja delicada a São Pedro, situada a boa distância da cidade.

Na autenticidade e pureza de sua fé, tinha Francisco grande devoção ao Príncipe dos Apóstolos.

8. Terminado esse trabalho, chegou a um lugar chamado Porciúncula, onde existia uma velha igreja dedicada à Virgem Mãe de Deus, abandonada e sem ninguém que dela cuidasse.
Francisco era grande devoto de Maria Senhora do Mundo, e quando viu a igreja naquele desamparo, começou a morar aí permanentemente a fim de poder restaurá-la.
Foi agraciado com a visita frequente dos santos anjos (o que aliás não estranho, uma vez que a igreja se chamava Santa Maria dos Anjos) e fixou-se neste local por causa de seu respeito pelos anjos e do seu amor à Mãe de Cristo.
Sempre amou esse lugar acima de qualquer outro no mundo, pois foi ai que ele principiou humildemente, progrediu na virtude e atingiu a culminância da felicidade.
Foi esse lugar que ele confiou aos irmãos ao morrer como particularmente caro à Santíssima Virgem.

Cabe aqui referir a visão que teve um irmão a esse respeito antes de se converter.
Viu ele em volta dessa igreja uma multidão incalculável de pobres cegos, de joelhos, braços erguidos e semblantes voltados para o céu; com gritos e lágrimas, todos imploravam misericórdia e a luz dos olhos.
E eis que uma luz brilhante desceu do céu e os envolveu a todos restituindo-lhes a visão e a saúde que almejavam.
Este é o lugar em que Francisco fundou a Ordem dos Frades Menores por inspiração de Deus e foi a divina Providência que o fez restaurar três igrejas antes de fundar a Ordem e começar a pregar o Evangelho.
Isto significa que ele progrediu desde as coisas materiais em direcção às realizações mais espirituais, das coisas menores às maiores, na devida ordem, tudo sinal profético daquilo que ele haveria de realizar mais tarde.
E analogamente aos três edifícios que ele reconstruíra, a Igreja de Cristo se renovaria de três modos diferentes sob a orientação de Francisco e segundo sua Regra e doutrina, e o tríplice exército daqueles que devem ser salvos alcançaria vitória. Hoje podemos verificar que essa profecia se cumpriu.

CAPÍTULO 3
Fundação da Ordem e aprovação da Regra

1. Francisco permaneceu ainda algum tempo na igreja da Virgem Mãe de Deus, suplicando-lhe em instantes e contínuas preces que se tornasse sua advogada.
E pelos méritos da Mãe de misericórdia e junto daquela que concebera o Verbo cheio de graça e de verdade, ele também concebeu e deu à luz o espírito da verdade evangélica.

E foi assim que sucedeu:
Assistia ele à missa dos Apóstolos devotamente; o Evangelho falava da missão dos discípulos que Cristo envia a pregar ensinando-lhes a maneira evangélica de viver: não levar ouro nem prata, nem dinheiro no cinto, nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastão.
Compreendeu imediatamente o sentido da passagem e, no seu amor pela pobreza apostólica, reteve essas palavras firmemente na memória e- cheio de indizível alegria, exclamou:
“É isso o que desejo ardentemente; é a isso que aspiro com todas as veras da alma”.
E sem mais delongas, arroja para longe os sapatos, abandona o bastão que levava, despreza bolsa e dinheiro e contente com vestir uma pobre túnica, se desfaz do cinto em que pendia a espada, cinge-se com uma corda áspera e nodosa, repele do coração toda a preocupação terrena e já não pensa em nada mais senão na maneira como haveria de pôr em execução aquela celestial doutrina para se conformar perfeitamente ao género de vida observado pelos apóstolos.

2. Movido assim pelo Espírito de Deus, começou Francisco a desejar vivamente a prática da perfeição evangélica e a convidar os outros a que abraçassem os salutares rigores da penitência.
E as palavras que para esse fim lhes dirigia não eram vãs nem ridículas, mas cheias de virtude celeste, e penetravam até o íntimo do coração, suscitando admirável compunção dos ouvintes.
Em todas as pregações anunciava a paz, saudando o povo no início dos sermões com estas palavras: “O Senhor vos dê a paz”. Porque, como ele atestou mais tarde, o Senhor mesmo lhe revelou esta forma de saudação.
Poderíamos dizer, aplicando a palavra do verso de Isaías: “Anunciou a paz, pregou a salvação e. por suas oportunas intervenções, reconciliou com a verdadeira paz aqueles que, longe de Cristo, estavam longe da salvação” (Is 52,7).

3. Dessa forma, muitos começaram a reconhecer a verdade da doutrina que o homem de Deus com simplicidade pregava e de sua vida.
Alguns sentiram-se impulsionados à penitência pelo seu exemplo e a associar-se a ele vestindo o mesmo hábito, levando a mesma vida e abandonando suas posses.
O primeiro deles foi o venerável Bernardo que, feito participante da vocação divina, mereceu ser o primogénito do santo Pai Francisco, primeiro no tempo e primeiro na santidade.
Depois de verificar pessoalmente a santidade do servo de Cristo, Bernardo decidiu seguir o seu exemplo, abandonando completamente o mundo.
Por fim o procurou para saber como realizar seu propósito.
Ao ouvi-lo, o servo de Deus sentiu um grande conforto espiritual, porque havia concebido seu primeiro filho, e exclamou:
“É a Deus que devemos pedir conselho”.
No dia seguinte de manhã, foram à igreja de São Nicolau, e depois de orar, Francisco, devoto adorador da Santíssima Trindade, por três vezes abriu o Evangelho, pedindo a Deus que por três vezes confirmasse o propósito de Bernardo.
À primeira abertura do livro dos Evangelhos, encontraram a passagem que diz: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres(Mt 19,21). A segunda: “Nada leveis pelo caminho(Lc 9,3). A terceira: “Quem quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me(Mt 16,24).
“Esta é nossa vida e nossa regra - disse Francisco - e de todos aqueles que quiserem unir-se à nossa companhia.
Se quiseres ser perfeito, vai, e põe em prática o que acabaste de ouvir”.

São Boaventura

(cont)

(revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?









O trabalho, um sinal do amor de Deus


Está a ajudar-te muito, dizes-me, este pensamento: desde os primeiros cristãos, quantos comerciantes terão sido santos? E queres demonstrar que também agora isso é possível... O Senhor não te abandonará nesse empenho. (Sulco, 490)

O que sempre ensinei – desde há quarenta anos – é que todo o trabalho humano honesto, tanto intelectual como manual, deve ser realizado pelo cristão com a maior perfeição possível: com perfeição humana (competência profissional) e com perfeição cristã (por amor à vontade de Deus e em serviço dos homens). Porque, feito assim, esse trabalho humano, por humilde e insignificante que pareça, contribui para a ordenação cristã das realidades temporais – a manifestação da sua dimensão divina – e é assumido e integrado na obra prodigiosa da Criação e da Redenção do mundo: eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santifica-se, converte-se em obra de Deus, operatio Dei, opus Dei.

Ao recordar aos cristãos as palavras maravilhosas do Génesis – que Deus criou o homem para que trabalhasse –, fixámo-nos no exemplo de Cristo, que passou a quase totalidade da sua vida terrena trabalhando numa aldeia como artesão. Amamos esse trabalho humano que Ele abraçou como condição de vida, e cultivou e santificou. Vemos no trabalho – na nobre e criadora fadiga dos homens – não só um dos mais altos valores humanos, meio imprescindível para o progresso da sociedade e o ordenamento cada vez mais justo das relações entre os homens, mas também um sinal do amor de Deus para com as suas criaturas e do amor-dos-homens entre si e para com Deus: um meio de perfeição, um caminho de santificação. (Temas Actuais do Cristianismo, 10)

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Lc 11, 42-46

42 Mas ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as plantas e descurais a justiça e o amor de Deus! Estas eram as coisas que devíeis praticar, sem omitir aquelas. 43 Ai de vós, fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas e de ser cumprimentados nas praças! 44 Ai de vós, porque sois como os túmulos, que não se vêem e sobre os quais as pessoas passam sem se aperceberem!» 45 Um doutor da Lei tomou a palavra e disse-lhe: «Mestre, falando assim, também nos insultas a nós.» 46 Mas Ele respondeu: «Ai de vós, também, doutores da Lei, porque carregais os homens com fardos insuportáveis e nem sequer com um dedo tocais nesses fardos!

Comentário:

Este é sem dúvida um dos momentos mais marcantes do “confronto” entre Jesus e os chefes do povo.

Sem rebuço o Senhor aponta com clareza os defeitos e as más práticas daqueles que deveriam dar o exemplo.

Quem O escuta dá-se conta de que as palavras que Jesus profere vão ao encontro do que realmente o povo anónimo pensa e como não obtém resposta - porque ela não existe – este mesmo povo apercebe-se de Quem deve seguir, onde está a verdadeira doutrina e, sobretudo, a honestidade de procedimento.

(AMA, comentário sobre Lc 11, 42-46, 10.07.2018)




16/10/2018

Temas para reflectir e meditar


Formação humana e cristã – 81 

Talvez cheguemos à conclusão que poderíamos ter aproveitado aquela ocasião que resolvemos ignorar para fazer algo de bom para essa pessoa e para nós próprios porque o bem ou o mal que fazemos aos outros tem sempre consequências para quem o prática.

Hoje em dia, se alguém que não conhecemos nos cumprimenta, por exemplo dizendo "bom-dia" ficamos admirados, o que não acontecia há anos atrás principalmente na província.

Isto tem importância?

Claro que tem. Revela pelo menos o crescendo da indiferença entre as pessoas.

E esta indiferença está a destruir a sociedade de tal forma que, por exemplo, já não somos considerados "pessoas" mas "indivíduos".

Como é possível que, por exemplo, numa família não sejamos tratados como pessoas pertencendo a um agregado consistente, real, com sentimentos que são comuns como, por exemplo, a defesa do bom-nome, das memórias, da unidade, mas como indivíduos agindo adrede sem qualquer preocupação por mínima que seja a respeito do núcleo familiar?

Ou seja, onde deveria existir amor, sincero, verdadeiro, em que a pessoa é amada por aquilo que é e não pelo que tem, passa a haver indiferença e uma ausência de sentimentos de solidariedade, respeito, amizade, amor.

E, evidentemente, isto reflecte-se inexoravelmente na vida social.

Depois, claro, esse individualismo atinge níveis de autêntico desprezo pela dignidade da pessoa humana e advoga-se, defende-se, propõe-se que a sua utilidade está na relação directa da sua capacidade física de contribuir para o todo e não traga custos nem despesas em que todos, de uma forma ou outra, terão de participar.
Daí a eutanásia, o aborto, o abandono dos mais débeis e incapacitados.
Considera-se que se pode legislar, decidir, se alguém deve morrer ou não, se será conveniente dar vida a uma criança não "programada".

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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Vida de São Francisco de Assis

CAPITULO 2

Conversão definitiva e restauração de três igrejas

1- O próprio Cristo era o único guia de Francisco em todo esse tempo.
Na sua bondade, interveio mais uma vez com a suave influência de sua graça.

Francisco saiu um dia da cidade para meditar.
Ao passar pela igreja de São Damião, que estava prestes a ruir de tão velha, sentiu-se atraído a entrar e rezar.
De joelhos diante do Crucificado, sentiu-se confortado imensamente no seu espírito e os seus olhos encheram-se de lágrimas ao contemplar a cruz.
Subitamente, ouviu uma voz que vinha da cruz e lhe falou por três vezes:
“Francisco, vai e restaura a minha casa. Vês que ela está em ruínas”.
Francisco encontrava-se sozinho na igreja e ficou amedrontado ao ouvir aquela voz, mas a força da sua mensagem penetrou profundamente no seu coração e ele, delirando, caiu em êxtase.
Por fim voltou a si e tratou de pôr em execução a ordem recebida.
Concentrou todas as forças na restauração daquela igreja material. Mas a igreja a que a visão se referia era aquela que “Cristo resgatara com o próprio sangue” (At 20,28).
O Espírito Santo mais tarde lho revelou e ele ensinou-o aos seus irmãos.
Levanta-se então, faz o sinal-da-cruz para ter coragem, pega na loja do pai alguns fardos de tecido, vai a galope até Foligno, vende a sua mercadoria juntamente com o cavalo que lhe servira de montaria. Volta a Assis, entra na igreja que se propusera restaurar. Encontra aí o pobre sacerdote capelão e saúda-o respeitosamente, oferece seu dinheiro para restaurar a igreja e distribuir aos pobres, pede-lhe enfim humildemente a permissão de viver algum tempo ao seu lado.
O capelão concorda em dar-lhe pousada, mas temendo a família recusa aceitar o dinheiro.
Com o seu total desinteresse pelo dinheiro, Francisco atira-o a um canto da janela com tanto desprezo como se fosse poeira.

2. Mas a permanência do servo de Deus junto ao capelão se prolongava-se; o seu pai acabou compreendendo o que estava a acontecer e correu furioso até a igreja.
Ao ouvir as ameaças daqueles que o procuravam e ao perceber que se estavam aproximando, Francisco escondeu-se numa caverna secreta; sendo ainda novo no serviço de Cristo, não quis enfrentar as iras do pai.
Permaneceu no esconderijo durante vários dias, implorando continuamente a Deus com muitas lágrimas que o livrasse das mãos dos seus perseguidores e lhe permitisse, na sua bondade, realizar os desejos que ele mesmo havia inspirado.
Enfim, sentiu-se inundado de alegria, começou a acusar-se de medroso e cobarde, saiu da sua gruta e dirigiu-se corajosamente a Assis.
Os seus concidadãos ao verem o seu rosto macilento e o espírito transformado, disseram que estava louco, perseguiram-no atirando-lhe pedras e lama, cobrindo-o de insultos, como um alienado, um lunático.
Mas o servo de Deus, insensível e inabalável, passava por cima de todas as injúrias como se nada houvesse escutado.
Ao ouvir aquele tumulto, o pai correu imediatamente até ele a fim de oprimi-lo ainda mais, não para protegê-lo.

Sem nenhuma compaixão, arrastou-o para casa, censurou-o o mais que pôde, bateu-lhe e por fim colocou-o na prisão.
Tudo isso, porém, fez com que ele se tornasse mais resoluto e decidido a levar a cabo os seus planos, repetindo a frase do Evangelho: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus(Mt 5,10).

3. Pouco depois, no entanto, aproveitando uma viagem que o pai fizera, a mãe, que não aprovava o procedimento do seu marido e não esperava mais poder dobrar a coragem a toda prova do seu filho, livrou-o da prisão e permitiu que ele se fosse embora; Francisco deu graças a Deus e voltou à solidão.

Mas ao regressar o pai e não o encontrando em casa, destratou a mulher e em seguida foi à procura do filho, cheio de cólera, disposto a traze-lo, se possível, para casa, ou ao menos a expulsá-lo da sua terra.
Francisco, a quem Deus dava toda a coragem, indo ao encontro do pai furioso, disse-lhe com firmeza que lhe eram indiferentes a prisão e as pancadas e acrescentou solenemente que por amor de Cristo estava disposto a enfrentar alegremente todas as provações.
Vendo que não conseguia traze-lo de volta à casa paterna, tentou recuperar o dinheiro.
E quando, enfim, o encontrou atirado num canto da janela da igreja, satisfez a sua cobiça e acalmou-se um pouco.


4. Não contente com ter recuperado o seu dinheiro, tratou de fazer com que Francisco fosse levado até ao bispo da diocese, onde ele deveria renunciar a toda a sua herança e devolver-lhe tudo que tinha.
No seu autêntico amor à pobreza, Francisco nada opunha a essa cerimónia e apresenta-se de boa mente diante do bispo e sem esperar um minuto nem hesitar de qualquer forma, sem aguardar qualquer ordem nem pedir qualquer explicação, tira imediatamente todas as suas vestes e entrega-as ao pai.
Todos viram então que, sob as vestes finas, o homem de Deus levava um cilício.
Despiu mesmo os calções, em seu fervor e entusiasmo, e ficou nu diante de todos.
Então disse ao pai: “Até agora chamei-te meu pai, mas de agora em diante posso dizer sem qualquer reserva: ‘Pai nosso que estais no céu’, pois foi a ele que confiei meu tesouro e nele depositei minha fé”.
O bispo, que era um homem santo e muito digno, chorava de admiração ao ver os excessos a que o levava seu amor a Deus; levantou-se, abraçou-o e envolveu-o no seu manto, ordenando que trouxessem alguma roupa para cobri-lo.
Deram-lhe um pobre manto que pertencia a um dos camponeses a serviço do bispo; Francisco recebeu-o agradecido e, depois, tendo encontrado um pedaço de giz no caminho, traçou uma cruz sobre o manto.
Muito expressiva era semelhante veste neste homem crucificado, neste pobre seminu.
Dessa forma, o servo do Grande Rei foi deixado nu para seguir as pegadas do seu Senhor atado nu à cruz e foi assim também que ele adoptou essa cruz como emblema, a fim de confiar a sua alma ao madeiro que nos salvou e por meio dele escapar são e salvo do naufrágio do mundo.

5. Estando agora livre dos laços que o prendiam aos desejos terrenos, em seu desprezo pelo mundo, Francisco abandonou a cidade natal e procurou fora um lugar onde pudesse ficar a sós, alegre e despreocupado.
Aí na solidão e no silêncio poderia ouvir as revelações secretas de Deus.
Ia dessa forma pela floresta, alegre e cantando em francês os louvores do Senhor, quando dois ladrões surgiram do cerrado e caíram sobre ele. Ameaçaram-no e perguntaram quem ele era, mas ele respondeu corajosamente com as palavras proféticas:
“Sou o arauto do Grande Rei”.
Bateram-lhe e e lançaram-no numa fossa cheia de neve, dizendo-lhe: “Fica por aí, miserável arauto de Deus”.
Francisco esperou que se fossem embora, saiu da fossa, alegre, recomeçando com mais ânimo ainda sua canção em honra do Senhor.

São Boaventura

(cont)


(revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Que a tua vida não seja uma vida estéril


S. Josemaria proclamou que a santidade está ao alcance de todo o cristão. Publicamos alguns textos nos que fala dessa chamada divina à qual ele respondeu.
Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina, com o resplendor da tua fé e do teu amor.
Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. – E incendeia todos os caminhos da Terra com o fogo de Cristo que levas no coração. (Caminho, 1)

Todos os que aqui estamos fazemos parte da família de Cristo, porque Ele mesmo nos escolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante dele, o qual nos predestinou para sermos seus filhos adoptivos por meio de Jesus Cristo para sua glória, por sua livre vontade. Esta escolha gratuita de que Nosso Senhor nos fez objecto, marca-nos um fim bem determinado: a santidade pessoal, como S. Paulo nos repete insistentemente: haec est voluntas Dei: sanctificatio vestra, esta é a vontade de Deus: a vossa santificação. Portanto, não nos esqueçamos: estamos no redil do Mestre, para alcançar esse fim. (Amigos de Deus, 2)

A meta que proponho – ou melhor, a que Deus indica a todos – não é uma miragem ou um ideal inatingível: podia contar-vos tantos exemplos concretos de mulheres e de homens correntes, como vocês e como eu, que encontraram Jesus que passa quasi in occulto pelas encruzilhadas aparentemente mais vulgares e decidiram segui-lo, abraçando com amor a cruz de cada dia. Nesta época de desmoronamento geral, de concessões e de desânimos, ou de libertinagem e de anarquia, parece-me ainda mais actual aquela convicção simples e profunda que, no princípio da minha actividade sacerdotal e sempre, me consumiu em desejos de comunicar à humanidade inteira: estas crises mundiais são crises de santos. (Amigos de Deus, 4)

Estamos decididos a procurar que a nossa vida sirva de modelo e de ensinamento aos nossos irmãos, aos nossos iguais, os homens? Estamos decididos a ser outros Cristos? Não basta dizê-lo com a boca. Tu – pergunto-o a cada um de vós e pergunto-o a mim mesmo – tu, que por seres cristão estás chamado a ser outro Cristo, mereces que se repita de ti que vieste facere et docere, fazer tudo como um filho de Deus, atento à vontade de seu Pai, para que deste modo possas levar todas as almas a participar das coisas boas, nobres, divinas e humanas, da Redenção? Estás a viver a vida de Cristo na tua vida de cada dia no meio do mundo?
Fazer as obras de Deus não é um bonito jogo de palavras, mas um convite a gastar-se por Amor. Temos de morrer para nós mesmos a fim de renascermos para uma vida nova. Porque assim obedeceu Jesus, até à morte de Cruz, mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum. Por isso Deus O exaltou. Se obedecermos à vontade de Deus, a Cruz será também Ressurreição, exaltação. Cumprir-se-á em nós, passo a passo, a vida de Cristo; poder-se-á afirmar que vivemos procurando ser bons filhos de Deus, que passamos fazendo o bem, apesar da nossa fraqueza e dos nossos erros pessoais, por mais numerosos que sejam. (Cristo que passa, 21)

Asseguro-vos, meus filhos, que, quando um cristão realiza com amor a mais intranscendente das acções diárias, ela transborda da transcendência de Deus. Por isso vos tenho repetido, com insistente martelar, que a vocação cristã consiste em fazer poesia heróica da prosa de cada dia. Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não; onde se juntam deveras é nos vossos corações, quando viveis santamente a vida de cada dia... (Temas actuais do cristianismo, 116)

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Lc 11, 37-41

37 Mal Jesus tinha acabado de falar, um fariseu convidou-o para almoçar na sua casa; Ele entrou e pôs-se à mesa. 38 O fariseu admirou-se de que Ele não se tivesse lavado antes da refeição. 39 O Senhor disse-lhe: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade. 40 Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? 41 Antes, dai esmola do que possuís, e para vós tudo ficará limpo

Comentário:

Talvez nunca nos tenhamos dado conta da importância da esmola.

Segundo o Senhor, a esmola purifica!

Quem de nós não precisa de purificação?


(AMA, comentário sobre Lc 11, 37-41, 13.10,2015)



15/10/2018

Temas para reflectir e meditar

Formação humana e cristã – 81

Amor aos outros

No amor aos outros empregamos as nossas capacidades de altruísmo e solidariedade.
Não ficamos indiferentes como se não nos dissesse respeito. 
Claro que, por princípio e respeito não nos imiscuímos na vida privada de cada um nem é disso que se trata, prestamos atenção aos possíveis sinais que essa pessoa pode emitir. 

Sinais que identificamos sem grande dificuldade.

Percebemos, por exemplo, quando alguém se sente só e deseja uma companhia que, a maior parte das vezes será uma simples troca de palavras que pode muito bem continuar numa conversa.

Por norma fugimos destas situações, temos mais que fazer, não conhecemos a pessoa, não queremos incómodos.

E pensando bem é tão simples e fácil.

Examinemos se isto não se passou connosco alguma vez.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR

(Vida de São Francisco de Assis)


CAPITULO l

A sua vida no mundo

1. Vivia na cidade de Assis um homem chamado Francisco, de abençoada memória, a quem Deus na sua bondade e misericórdia antecipara a abundância da sua graça, salvando-o dos perigos da vida presente e derramando sobre ele os dons da sua graça celestial. Na sua juventude, viveu Francisco no meio dos filhos deste mundo e como eles foi educado.
Depois de aprender a ler e a escrever, recebeu um emprego rendoso no comércio. Mas, com o auxílio divino, jamais se deixou levar pelo ardor das paixões que dominavam os jovens da sua companhia. Embora fosse inclinado à vida dissipada, nunca cedeu à tentação.
Vivia num ambiente marcado pela cobiça desenfreada dos comerciantes, mas ele mesmo, embora gostasse de obter os seus lucros, jamais se prendeu desesperadamente ao dinheiro e às riquezas.

O Senhor incutia no seu coração um sentimento de piedade que o tornava generoso com os pobres. Este sentimento foi crescendo no seu coração e impregnou-o de tanta bondade que ele decidiu, como ouvinte atento que era do Evangelho, ser generoso com quem lhe pedisse esmola, sobretudo a quem pedisse por amor de Deus. No entanto, um dia, estando muito ocupado em negócios, despediu de mãos vazias, um pobre que lhe pedia uma esmola por amor de Deus. Caindo em si, correu atrás do homem, deu-lhe uma rica esmola e prometeu ao Senhor nunca mais recusar, sendo-lhe possível, o que quer que lhe pedissem por amor de Deus.
Observou esse propósito até a morte com uma caridade incansável e que lhe granjeou sempre mais a graça e o amor de Deus.
Mais tarde, já como perfeito imitador de Cristo, dizia que durante sua vida mundana ele não podia ouvir estas palavras: “amor de Deus” sem ficar comovido.

Mansidão, gentileza, paciência, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassava os seus recursos eram sinais de sua natureza privilegiada que anunciavam já uma efusão mais abundante ainda da graça divina nele.
De facto um cidadão de Assis, homem simples do povo, que parecia inspirado por Deus, tirou o manto ao encontrar Francisco em Assis e estendeu-o sob os pés do jovem afirmando que um dia ele seria digno do maior respeito, que em breve realizaria grandes feitos e mereceria dessa forma a veneração de todos os fiéis.

2. Por essa época, Francisco ainda ignorava os planos de Deus a seu respeito, pois não havia aprendido a contemplação das coisas do alto, levado que era sempre em direcção às coisas externas por ordem de seu pai, nem havia adquirido ainda o gosto pelas coisas de Deus, atraído para as coisas inferiores pela corrupção que todos nós temos desde o berço.
Mas “o sofrimento permite a uma alma compreender muitas coisas; a mão do Senhor pesou sobre ele, e a direita do Altíssimo o transformou” (Is 28,19; Ez 1,3; Sl 76,11), sujeitando-lhe o corpo a uma longa enfermidade para preparar sua alma a receber o Espírito Santo.
Havendo recuperado as suas energias, já se vestia de novo com elegância.
Certo dia encontrou um cavaleiro, nobre de nascimento mas pobre e mal vestido; ficou com pena daquele homem, desfez-se imediatamente das suas vestes e deu-lhas, poupando assim, num duplo gesto de caridade, ao cavaleiro a vergonha e ao pobre a miséria.

3. Naquela noite, enquanto dormia, Deus na sua bondade mostrou-lhe em visão magnífica um grande palácio de armas que levavam a cruz de Cristo marcada nos brasões.
Mostrava-lhe assim que a gentileza que ele praticara com o pobre cavaleiro por amor ao Grande Rei seria recompensada de modo incomparável. Perguntou Francisco para quem era tudo aquilo. E uma voz do céu respondeu-lhe: “Para ti e os teus soldados”.
Ainda não tinha experiência em interpretar os divinos mistérios e ignorava a arte de ir além das aparências visíveis até as realidades invisíveis. Por isso estava convencido, ao acordar, que essa estranha visão lhe garantia um imenso sucesso para o futuro.
Entregue a essa ilusão, decide alistar-se no exército de um conde, grande senhor da Apúlia, na esperança de conquistar, sob as suas ordens, essa glória militar que lhe prometia aquela visão.
Põe-se a caminho e chega à cidade seguinte.
Durante a noite ouve o Senhor dizer-lhe em tom familiar: “Francisco, quem pode fazer mais por ti: o senhor ou o servo, o rico ou o pobre?” Francisco responde que é o senhor e o rico, evidentemente.

E o Senhor responde-lhe: “Por que então deixas o Senhor para te dedicares ao servo? Por que escolhes um pobre em vez de Deus que é infinitamente rico?”
“Senhor, responde Francisco, que quereis que eu faça?”
E Deus disse-lhe: “Volta para tua terra, pois a visão que tiveste prefigura um acontecimento totalmente espiritual que se realizará não da maneira como o homem propõe, mas assim como Deus dispõe”.
De manhã, Francisco tratou de voltar para Assis.
Estava sobremodo alegre e o futuro não lhe dava preocupação; era já um modelo de obediência e aguardou a vontade de Deus.

4. Desde esse instante afastou-se da vida agitada dos seus negócios e rogou à divina misericórdia que o iluminasse a respeito de sua vocação.
Perseverando na oração, chegou a um desejo do céu tão intenso e a um desprezo tão grande das coisas da terra por amor à pátria celeste, que começou a sentir o valor da descoberta que fizera do tesouro escondido e como um comerciante prudente, pensava em liquidar todos os seus bens para comprar a pedra preciosa.
Como fazer, ele ainda não sabia. Tinha apenas esta certeza, pelas luzes recebidas: que o intercâmbio espiritual começa pelo desprezo do mundo e que para alguém ser soldado de Cristo é preciso já ter conseguido a vitória sobre si mesmo.

5. Certo dia, andando a cavalo na planície que se estende junto de Assis, encontrou um leproso.
Foi um encontro inesperado e Francisco ficou muito horrorizado diante daquele triste quadro. Mas lembrou-se do propósito de perfeição que abraçara e da necessidade de vencer-se a si mesmo primeiro, se quisesse ser cavaleiro de Cristo.

Imediatamente desceu do cavalo e correu a beijar o pobre homem.
O leproso estendeu a mão para receber uma esmola.
Francisco deu-lhe um dinheiro e um beijo. Montou novamente a cavalo, olhou em frente e em toda a volta, e, nada havendo que lhe impedisse a vista, todavia não viu mais o leproso.
Cheio de admiração e alegria, começou a cantar os louvores do Senhor e prometeu fazer coisas melhores ainda no futuro.

A partir desse momento, frequentava os lugares solitários, propícios às lágrimas, aos gemidos inefáveis, de tal forma que suas instantes preces foram ouvidas pelo Senhor.

Um dia, ao rezar assim na solidão e totalmente absorto em Deus, apareceu-lhe Cristo crucificado.
Diante dessa visão, “derreteu-se-lhe a alma” (Ct 5,6) e a recordação da paixão de Cristo gravou-se-lhe tão profundamente no coração, que a partir desse instante dificilmente podia conter o pranto e deixar de suspirar quando pensava no Crucificado.

Ele mesmo confessou esse facto pouco antes de morrer. Logo compreendeu que se dirigiam a ele aquelas palavras do Evangelho: “Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me(Mt 16,24).

6. Imbuiu-se desde então do espírito de pobreza, com um profundo sentimento de humildade e uma atitude de profunda compaixão.
Jamais suportara a vista dos leprosos, mesmo à distância, e sempre evitara encontrar-se com eles, mas agora, desejando alcançar o total desprezo de si mesmo, servia-os com devoção, humildade e benevolência, pois diz o profeta Isaías que Cristo crucificado foi considerado um homem leproso e desprezado. Visitava constantemente as suas casas e distribuía entre eles, esmolas generosas, beijando-lhes as mãos e os lábios com profunda compaixão.

Ao aproximar-se dos pobres, não se contentava em lhes dar o que possuía.
Desejava dar-se a si mesmo e quando já não tinha mais dinheiro, entregava as suas vestes, descosendo-as ou rasgando-as às vezes para as distribuir.
Aos sacerdotes pobres, que ele respeitava e venerava, ajudava-os oferecendo-lhes sobretudo paramentos para o altar: queria assim ter a sua parte no culto divino e aliviar a miséria aos ministros do altar.

Por essa época realizou uma peregrinação ao túmulo de São Pedro.
Ao reparar o grande número de mendigos reunidos em frente da igreja, levado de compaixão e seduzido pelo amor à pobreza, escolheu um dos mais miseráveis, propôs trocar com ele as roupas, vestindo os farrapos do pobre.
Passou todo o dia na companhia dos pobres, cheio de uma alegria que ele ainda não experimentara.
Queria assim desprezar aquelas coisas às quais o mundo empresta tanto valor e chegar progressivamente à perfeição evangélica. Também cuidava de trazer no seu corpo, pela mortificação da carne, a cruz de Cristo que já levava no seu coração.

Tudo isso se deu quando Francisco ainda vivia e se vestia como um leigo no mundo.

São Boaventura

(cont)

(revisão da versão portuguesa por AMA)