27/10/2014

Luta contra essa frouxidão

És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou "manha" o modo de diminuir os teus deveres; se não pensas senão em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos. (Caminho, 331)

Luta contra essa frouxidão que te faz preguiçoso e desleixado na tua vida espiritual. – Olha que pode ser o princípio da tibieza..., e, na frase da Escritura, os tíbios, Deus os vomitará. (Caminho, 325)

Que pouco Amor de Deus tens quando cedes sem luta porque não é pecado grave! (Caminho, 328)


Como hás-de sair tu desse estado de tibieza, de lamentável languidez, se não empregas os meios? Lutas muito pouco e, quando te esforças, faze-lo como que zangado e com falta de gosto, quase com o desejo de que os teus fracos esforços não produzam efeito, para te justificares: para não te exigires e para que não te exijam mais. (Sulco, 146)

Abandono



Abandona-te cheio de confiança no seu seio materno, pede-Lhe que te alcance esta virtude (humildade) que Ela tanto apreciou; não tenhas medo de não ser atendido. Maria pedi-la-á para ti a esse Deus que eleva os humildes e reduz a nada os soberbos; e como Maria é omnipotente perto do seu Filho, será com toda a segurança ouvida.


(leão xiii Prática da humildade 56)

Tratado do verbo encarnado 12

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 6 — Se a natureza humana se uniu ao Verbo de Deus acidentalmente.

O sexto discute-se assim. — Parece que a natureza humana se uniu ao Verbo de Deus acidentalmente.

1. — Pois, diz o Apóstolo, do Filho de Deus, que foi reconhecido no hábito isto é, na condição como homem. Ora, o hábito acrescenta-se acidentalmente ao seu sujeito, quer consideremos o hábito como um dos dez predicamentos, quer como espécie de qualidade. Logo, a natureza humana se uniu acidentalmente ao Filho de Deus.

2. Demais. — Tudo o que se acrescenta a um ser completo, acidentalmente se lhe acrescenta, pois, chamamos acidente ao que pode existir ou não num sujeito sem que este por isso se corrompa. Ora, a natureza humana acrescenta-se temporalmente ao Filho de Deus, cujo ser é abete no perfeito. Logo, acidentalmente acrescenta-se-lhe.

3. Demais. — Tudo o que não pertence à natureza ou à essência de um ser lhe é acidente, porque tudo o que existe é substância ou acidente. Ora, a natureza humana não pertence à essência ou à natureza divina do Filho de Deus, porque não foi feita a união na natureza, como se disse. Logo, à natureza humana necessariamente o Filho de Deus se uniu por acidente.

4. Demais. — O instrumento une-se acidentalmente ao agente. Ora, a natureza humana em Cristo foi instrumento da divindade, pois, como diz Damasceno, a carne de Cristo foi o instrumento da sua divindade. Logo, parece que a natureza humana se uniu ao Filho de Deus acidentalmente.

Mas, em contrário, o que é predicado acidentalmente não predica a quididade, mas a quantidade ou a qualidade ou a existência modal. Se, pois, à natureza humana se uniu Cristo acidentalmente, quando se dissesse Cristo é homem, não se predicaria uma unidade, mas uma qualidade, uma quantidade ou uma existência modal. O que é contra um decreto de Alexandre Papa, que diz: Sendo Cristo Deus perfeito e homem perfeito, qual não é a temeridade de alguns que ousam dizer que Cristo não tem nenhuma quididade, enquanto homem?

Para responder com clareza à questão proposta, devemos saber que, sobre o mistério da união das duas naturezas em Cristo, apareceram duas heresias — Uma, a dos que confundem as naturezas, tal a de Eutíquio e de Diáscoro, ensinando que das duas naturezas se constituiu uma só natureza. E assim confessavam que Cristo tem duas naturezas, quase distintas antes da união, mas não existia em duas naturezas, quase cessada a distinção depois da união das naturezas. — Outra foi a heresia de Nestório e de Teodoro de Mopsueste, que separavam as pessoas. Assim, ensinavam ser uma a pessoa do Filho de Deus e outra, a do filho do homem, e essas as consideravam como entre si unidas, primeiro, segundo a habitação de uma na outra, isto é, enquanto o Verbo de Deus habitava nesse homem como templo. Segundo, quando à unidade de desejo isto é, enquanto a vontade do referido homem é sempre conforme à vontade do Verbo de Deus. Terceiro, pela operação, isto é, enquanto diziam ser esse homem o instrumento do Verbo de Deus. Quarto, pela dignidade da honra, enquanto toda honra prestada ao Filho de Deus o é ao mesmo tempo ao filho do homem, por causa da sua união com o Filho de Deus. Quinto, pela equivocação, isto é, pela comunicação dos nomes, isto é, enquanto dizemos que esse homem é Deus e Filho de Deus. Ora, como é manifesto, todos esses modos importam numa união acidental.

Porém, alguns mestres posteriores, pensando evitar essas heresias, nelas incidiram por ignorância. — Assim, uns deles concediam a unidade da pessoa de Cristo, mas admitiam duas hipóstases ou dois supostos, dizendo que o Verbo de Deus assumiu um homem composto de corpo e alma desde o princípio da sua concepção. E esta é a primeira opinião enumerada pelo Mestre das Sentenças. — Mas outros querendo salvar a unidade da pessoa, ensinavam que a alma de Cristo não estava unida ao corpo, mas que ambos separados um do outro, estavam unidos ao Verbo acidentalmente, de modo que assim não aumentava o número das pessoas, e esta é a terceira opinião enumerada no mesmo lugar pelo Mestre das Sentenças.

Ora, ambas opiniões incidem na heresia de Nestório. — A primeira, porque o mesmo é atribuir duas hipóstases ou dois supostos a Cristo e lhe atribuir duas pessoas, como dissemos acima. E se se apoiarem na expressão — pessoa — devemos notar que também Nestório admitia a unidade de pessoa por causa da unidade da dignidade da honra. Por isso o Quinto Sínodo determinou como anátema quem disse ser uma só pessoa pela dignidade, pela honra e pela do ração, como, na sua insânia, escreveu Teodoro juntamente com Nestório. — Quanto à outra opinião, ela incide no erro de Nestório quanto à admissão da união acidental. Pois, não há diferença entre dizer que o Verbo de Deus se unia a Cristo homem, por habitar neste como num templo, segundo ensinava Nestório, e dizer que o Verbo se uniu ao homem por se ter dele revestido como de uma roupagem, como o ensina a terceira opinião. A qual professa mesmo uma doutrina pior que a de Nestório, a saber, que a alma e o corpo não estão unidos.

Mas a fé católica, tomando uma posição média entre as referidas, não diz que a união de Deus e do homem foi feita segundo a essência ou a natureza, nem de modo acidental, mas, de um modo médio, segundo a subsistência ou a hipóstase. Por isso lemos no Quinto Sínodo: Sendo a unidade susceptível de muitas acepções, os sequazes da impiedade de Apolinário e de Eutiquio, operando a destruição de coisas que estavam unidas, isto é, suprimindo uma e outra natureza, concebiam a união como confusão, ao passo que os sequazes de Teodoro e de Nestório, comprazendo-se na divisão introduzem a unidade de afeição. Mas a santa Igreja de Deus, rejeitando a impiedade de uma e outra perfídia, confessa a união do Verba de Deus com a carne segundo a composição, que se funda na subsistência. Por onde é claro que a segunda das três opiniões enumeradas pelo Mestre das Sentenças, que afirma a unidade da hipóstase de Deus e do homem, não se há de considerar opinião, mas sentença da fé Católica. Também semelhantemente, a primeira opinião, que admite duas hipóstases, e a terceira, que admite a união acidental, não se devem considerar opiniões, mas heresias condenadas nos concílios pela Igreja.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Como diz Damasceno, uma semelhança não implica igualdade completa e total, pois, o que é em tudo semelhante, é igual, não é semelhante, e sobretudo na ordem divina, assim, é impossível encontrar igualdade na Teologia, isto é, na divindade das pessoas, e na Dispensação, isto é, no mistério da Encarnação. Donde, a natureza humana de Cristo é comparável a um hábito, isto é, a um vestido, não pela união acidental, mas porque o Verbo é visível pela natureza humana como o homem pelo seu vestido. E também porque o vestido se muda, por ser feito segundo a figura de quem o veste, mas que nem por isso muda a sua forma por causa da roupa que veste, e semelhantemente, a natureza humana assumida pelo Verbo de Deus melhorou, sem que o Verbo de Deus se tenha mudado, como expõe Agostinho.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O que se une a um ser completo, acidentalmente se lhe une a menos que não seja levado à comunhão com esse ser completo. Assim, na ressurreição o corpo se une à alma preexistente, mas não, acidentalmente, pois, é assumida numa identidade de assistência, de modo que o corpo recebe da alma o seu ser vital. Mal, tal não se dá com a brancura, pois, uma coisa é o ser da brancura, e outra o do homem a que se ela acrescenta. Ora, o Verbo de Deus já tinha abeterno o seu ser completo, segundo a hipóstase ou pessoa, mas, temporalmente se uniu à natureza humana, não que esta fosse assumida numa unidade de ser, quanto à natureza, como o corpo está unido à alma, mas, numa unidade de ser quanto à hipóstase ou pessoa. Donde, a natureza humana não está unida acidentalmente ao Filho de Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O acidente divide-se por contrariedade, da substância. Ora, a substância, como diz Aristóteles, é susceptível de dupla acepção: numa, é tomada como essência ou natureza, noutra, como suposto ou hipóstase. Por onde, basta para a união não ser acidental, que ela se faça segundo a hipóstase, embora não se tenha feito segundo a natureza.

RESPOSTA À QUARTA. — Nem todo o assumido como instrumento pertence à hipóstase do que assume, como o demonstra o machado e a espada. Mas, nada impede que o assumido na unidade da hipóstase se comporte como instrumento, como o corpo do homem ou os seus membros. Ora, Nestório ensinava que a natureza humana foi assumida pelo Verbo, só a modo de instrumento, mas não, na unidade da hipóstase. Donde, não concedia que Cristo homem fosse verdadeiramente Filho de Deus, mas, instrumento seu. Por isso ensina Cirilo: A Escritura diz que este Emanuel, isto é, Cristo, foi assumido não para exercer a função de instrumento, mas como Deus verdadeiramente humanado, isto é feito homem. - Quanto a Damasceno, ensinou que a natureza humana em Cristo era um como instrumento pertencente à unidade da hipóstase.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Lc 3 10-17

10 As multidões interrogavam-no, dizendo: «Que devemos, pois, nós fazer?». 11 Respondendo, dizia-lhes: «Quem tem duas túnicas, dê uma ao que não tem; e quem tem que comer, faça o mesmo». 12 Foram também publicanos, para serem baptizados, e disseram-lhe: «Mestre, que devemos nós fazer?». 13 Ele respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos está fixado». 14 Interrogavam-no também os soldados: «E nós, que faremos?». Respondeu-lhes: «Não façais violência a ninguém, nem denuncieis falsamente, e contentai-vos com o vosso soldo». 15 Estando o povo na expectativa e pensando todos nos seus corações que talvez João fosse o Cristo, 16 João respondeu, dizendo a todos: «Eu, na verdade, baptizo-vos em água, mas virá um mais forte do que eu, a Quem não sou digno de desatar as correias das sandálias; Ele vos baptizará no Espírito Santo e no fogo; 17 tomará na Sua mão a pá, limpará a Sua eira e recolherá o trigo no Seu celeiro, mas a palha queimá-la-á num fogo inextinguível».

Comentário:
 
Por aqui se pode ver que João é considerado como alguém a quem recorrer pelas pessoas desejosas de levar uma vida correcta, fazer o que está certo e, com isso, alcançarem as graças de Deus.

Pessoas de todas as condições sociais e com os mais variados misteres que, mais tarde, Jesus há-de considerar como «ovelhas perdidas e sem pastor», encontram em João as respostas às suas dúvidas e incertezas.

A Lei de Deus tal como era conduzida e imposta pelos chefes do povo, os Príncipes dos Sacerdotes e os anciãos que se consideravam a eles próprios como os legítimos detentores da verdade de Lei, tinha chegado a um ponto tal de exageros e prescrições que se tornara uma «carga insuportável» para os judeus de boa cepa.

E, o Baptista, não deixa a ninguém sem resposta, uma orientação, um conselho e, também, um aviso a levar muito a sério: preparar o caminho, as almas, os corações para a vinda eminente do Salvador arrependendo-se e mudando de vida.

(ama, comentário sobre Lc 3, 10-18, 2012.12.16)


Leitura espiritual


HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte I

…/3

Aconteceu-me, mais uma vez, outra peripécia com Vitória, mas não tive nenhum arrependimento, pois conservei perfeitamente minha serenidade. - Desejava ter um tinteiro que se encontrava em cima da chaminé da cozinha. Sendo muito pequena para o tomar, pedi à Vitória muito delicadamente mo entregasse, mas ela o recusou e mandou-me subir numa cadeira. Sem dizer nada, tomei, a cadeira, mas a pensar que não era atenciosa. Querendo fazer que o sentisse, busquei em minha cabecinha o que mais me ofendia. Quando se aborrecia comigo, ela chamava-me de "pirralhinho", o que muito me humilhava. Então, antes de pular da minha cadeira abaixo, virei-me com dignidade e disse-lhe: "Vitória, sois um pirralho!" Depois escapei dali, deixando que meditasse a profunda declaração que eu acabava de fazer-lhe... A reação não se fez esperar. Logo a escutei, que esbravejava: "Senhorita Maria... a Teresa acaba de dizer-me que não passo de um pirralho!" Veio Maria e obrigou-me a pedir perdão, o que, porém, fiz sem contrição, por achar merecido o título de pirralho, uma vez que não quis estender seu grande braço para me prestar um pequeno serviço... Entanto, ela me queria muito, e também eu gostava muito dela. Um dia, tirou-me de grande risco em que caíra por culpa minha. Estava Vitória a passar roupa, e tinha ao lado um balde com água dentro. Eu, porém, olhava para ela a balouçar-me numa cadeira (e era hábito meu), e de repente me escapa a cadeira e caio, não no chão, mas no fundo o balde!... Os pés tocavam na cabeça, e eu abarrotava o balde como o pintinho abarrota o ovo!... A pobre da Vitória contemplava-me com um extremo de surpresa, pois nunca tinha visto situação igual. Tinha todo o empenho de safar-me quanto antes do meu balde, cousa que resultava impossível. Minha prisão era tão ajustada que eu não lograva fazer nenhum movimento. Com um pouco de dificuldade, ela salvou-me do meu grande perigo, mas não salvou minha roupa e tudo o mais, de sorte que tive de trocar a roupa, pois estava molhada que nem um pinto.

Outra ocasião caí dentro da lareira. Felizmente o fogo não estava aceso. Vitória não teve senão o incômodo de levantar-me e sacudir a cinza de que ficara coberta. Foi numa quarta-feira, quando estáveis no ensaio de canto com Maria, que todos esses reveses me aconteceram. Foi também numa quarta-feira que o Pe. Ducellier veio visitar-nos. Como Vitória lhe dissesse que não havia ninguém em casa senão Teresinha, ele entrou na cozinha para me visitar e olhou minhas lições. Muito desvanecida fiquei em receber meu confessor, porque pouco tempo antes me tinha confessado pela primeira vez. Que suave lembrança para mim!...

Ó minha Mãe querida! com que solicitude me preparastes, quando me explicastes que não era a um homem, mas ao Bom Deus que iria contar meus pecados. Disto estava tão convicta, que fiz minha confissão com grande espírito de fé, e cheguei até a perguntar-vos, se não seria mister referir ao Padre Ducellier que o amava de todo o meu coração, pois que em sua pessoa era ao Bom Deus que ia falar...

Bem instruída a respeito de tudo quanto devia fazer e dizer, entrei no confessionário e pus-me de joelhos. Quando, porém, abriu o postigo, Padre Ducellier não enxergou ninguém. Era tão pequena, que a cabeça não alcançava o parapeito, onde se apóiam as mãos. Então mandou-me ficar de pé. Obedecendo imediatamente, levantei-me e postei-me bem na frente dele para o ver melhor. Fiz minha confissão como se fosse uma menina grande e recebi sua bênção com grande devoção, porque me havíeis explicado que, nesse momento, as lágrimas do Menino Jesus purificariam minha alma. Lembro-me de que a primeira exortação que me foi feita, incitava-me principalmente a ter devoção à Santíssima Virgem, e prometi a mim mesma redobrar minha ternura para com ela. Ao sair do confessionário estava tão contente e lépida, como jamais sentira tamanha alegria na alma. Depois, tornava a confessar-me em todas as grandes festas litúrgicas, e para mim era cada vez um verdadeiro gozo, quando o fazia.

Os dias santos!... Ah! quantas recordações não desperta esta palavra! Os dias santos, como os amava!... Vós, minha querida Mãe, sabíeis explicar-me tão bem todos os mistérios ocultos em cada um deles, que para mim eram verdadeiramente dias do Céu. Gostava mormente das procissões do Santíssimo Sacramento. Que alegria espalhar flores aos pés do Bom Deus!... Antes, porém, de deixá-las cair, atirava-as o mais alto que podia, e nunca me dava por tão feliz como na ocasião que via minhas rosas desfolhadas tocarem no sagrado Ostensório...

Os dias santos! Ah! se os grandes eram raros, cada semana trazia de novo um muito chegado ao meu coração: "o Domingo!" Que dia grande, o Domingo!...

Era o dia santo do Bom Deus, o dia santo do repouso. Primeiro ficava nanando mais tempo do que nos outros dias, e depois mamãe Paulina mimava sua filhinha, quando lhe servia o chocolate em sua dormida, e ato contínuo a vestia como uma rainhazinha... Vinha a madrinha fazer o penteado da afilhada. Esta nem sempre ficava quietinha, quando lhe assentavam o cabelo, mas depois tinha toda a satisfação de ir pegar a mão de seu Rei que, em tal dia, lhe dava um abraço mais afectuoso do que de ordinário, pois toda a família se movimentava para a Missa. Em todo o trajeto do caminho, e mesmo dentro da igreja, a "Rainhazinha do Papai" dava-lhe a mão. Tomava lugar ao lado dele, e quando nos víamos obrigados a chegar mais adiante para o sermão, era preciso ainda encontrar dois assentos, um ao lado do outro. Não se tornava muito difícil. Toda a gente parecia achar tão amorável ver um ancião tão imponente com uma filha tão pequenina, que as pessoas não se incomodavam em ceder seus lugares. Meu tio que ficava nos bancos dos fabriqueiros, alegrava-se quando nos via chegar. Dizia ser eu seu mimoso raio de Sol... Por mim, não me inquietava de ser alvo de olhares. Ouvia muito atenta os sermões, dos quais, aliás, não alcançava muita cousa. O primeiro que entendi, e que me comoveu profundamente foi um sermão sobre a Paixão, pregado pelo Padre Ducellier. Dali por diante entendi todos os outros sermões. Quando o pregador falava de Santa Teresa, papai curvava-se para me dizer baixinho: "Escuta bem, minha rainhazinha, ele fala de tua Santa Padroeira". Realmente, estava escutando bem, mas olhava mais vezes para o papai do que para o pregador. Seu belo semblante dizia-me tantas coisas!... Por vezes, seus olhos marejavam-se de lágrimas. Em vão procurava sopitá-las. Parecia estar já desligado da terra, tanto sua alma gostava de imergir nas verdades eternas... Sua carreira, porém, estava longe do termo final. Longos anos deviam passar, antes que o belo Céu se abrisse a seus olhos embevecidos, e o Senhor enxugasse as lágrimas do seu bom e fiel servidor!...

Mas, novamente torno ao meu dia de Domingo. Esse dia de gozo que passava tão depressa, tinha seu toque de melancolia. Lembra-me que, até a hora de Completas, minha felicidade era sem travo algum. Durante essa hora canónica, vinha-me o pensamento de que o dia de repouso ia terminar... que no dia seguinte seria necessário recomeçar a vida, trabalhando, aprendendo lições, e o coração sentia o exílio da terra... Suspirava pelo eterno repouso do Céu, pelo Domingo sem ocaso da Pátria!...

(cont.) 




Bento VXI – Pensamentos espirituais 22

Quasi Deus daretur


Os valores morais deixaram de ser evidentes. Eles apenas se tornam evidentes se Deus existir… Devemos viver quasi Deus daretur, ainda que não tenhamos a força da fé, devemos com base nesta hipótese, porque senão o mundo não funciona.

(Encontro com o clero da Diocese de Aóstia. (25.Jul.05)

(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)


26/10/2014

Quem ama a Deus dá-se a si mesmo

O tempo é o nosso tesouro, o "dinheiro" para comprarmos a eternidade. (Sulco 882)

Que pena viver tendo como ocupação matar o tempo, que é um tesouro de Deus! Não há desculpas para justificar essa actuação. Que ninguém diga: só tenho um talento, não posso ganhar nada. Também com um só talento podes agir de modo meritório. Que tristeza não tirar partido, autêntico rendimento de todas as faculdades, poucas ou muitas, que Deus concede ao homem para que se dedique a servir as almas e a sociedade!


Quando o cristão mata o seu tempo na Terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu, se, pelo seu egoísmo, se retrai, se esconde, se despreocupa. Quem ama a Deus, não entrega só o que tem, o que é, ao serviço de Deus: dá-se a si mesmo. Não vê – em perspectiva rasteira – o seu eu na saúde, no nome, na carreira. (Amigos de Deus, 46)

Salvador



A chamada à salvação traz-no-la Cristo. Ele tem para o homem palavras de vida eterna (Jo 6,68); e dirige-se ao homem concreto que vive na terra. Dirige-se particularmente ao homem que sofre, no corpo ou na alma.


(São joão paulo ii, Homília em Lisboa 1982.05.14)

Tratado do verbo encarnado 11

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 5 — Se em Cristo houve união de alma e de corpo.

O quinto discute-se assim — Parece que em Cristo não houve união de alma e de corpo.

1. — Pois, a união da nossa alma como o nosso corpo causa a pessoa ou a hipóstase do homem. Se pois, em Cristo, a alma estava unida ao corpo, resulta que constitui-se alguma hipóstase, da união de ambos. Ora, não a hipóstase do Verbo de Deus, que é eterna. Logo, haverá em Cristo alguma pessoa ou hipóstase, além da hipóstase do Verbo. O que vai contra o dito antes.

2. Demais. — Da união da alma e do corpo constitui-se a natureza da espécie humana. Ora, Damasceno diz, que em Nosso Senhor Jesus Cristo não podemos admitir unia espécie comum, Logo, nele não houve composição de alma e de corpo.

3. Demais. — A alma não se une ao corpo senão para vivificá-lo. Ora, o corpo de Cristo por dia ser vivificado pelo Verbo mesmo de Deus fonte e princípio da vida. Logo, em Cristo não houve união da alma e do corpo.

Mas, em contrário, o corpo não se chama animado senão pela sua união com a alma. Ora, dizemos que o corpo de Cristo é animado, segundo o canta a Igreja: Assumindo um corpo animado, dignou-se nascer de uma Virgem. Logo, em Cristo houve união da alma e do corpo.

Cristo é chamado homem univocamente com os outros homens, como sendo da mesma espécie que eles, segundo aquilo do Apóstolo: Fazendo-se semelhante aos homens. Ora, é da essência da espécie humana que a alma seja unida ao corpo, pois a forma não especifica senão por ser o acto da matéria, sendo este o termo da geração, pelo qual a natureza tende a realizar a espécie. Donde, é necessário admitir-se que em Cristo a alma estava unida ao corpo, sendo o contrário herético porque contraria a verdade da humanidade de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Foram levados por essa razão os que negaram a união da alma como o corpo, em Cristo, para não serem, assim, obrigados a admitir uma nova pessoa ou hipóstase em Cristo, pois, viam que no homem puro e simples a união da alma e do corpo constitui a pessoa. Mas isto dá-se no homem, que pura e simplesmente o é, porque nele a alma e o corpo estão unidos de modo a existirem por si. Mas em Cristo está um unido à outra corno adjuntos a um mais principal subsistente na natureza deles composta. E por isso, a união da alma e do corpo, em Cristo não constitui nova hipóstase ou pessoa, mas, esse conjunto advém à pessoa ou hipóstase preexistente. - Mas nem por isso daí se segue seja de menor eficácia a união da alma e do corpo em Cristo, do que em nós. Pois, em si mesma a união com o que é mais nobre não destrói a virtude ou a dignidade, mas as aumenta. Assim, a alma sensitiva, nos animais, constitui uma espécie, porque é considerada como forma última, não porém nos homens, embora em nós ela seja de maior poder e mais nobre, por causa da adjunção da ulterior e mais nobre perfeição da alma racional, como dissemos acima.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As palavras de Damasceno podem entender-se em sentido duplo. — Num, como referentes à natureza humana. A qual não tem a essência de espécie comum, segundo existe num só indivíduo, mas enquanto abstracta de todos os indivíduos, quando objecto de uma pura contemplação do espírito, ou enquanto existente em todos os indivíduos. Ora, o Filho de Deus não assumiu a natureza humana, enquanto objecto da pura contemplação do intelecto, porque, assim, não teria assumido a natureza humana em a sua realidade. A menos que se não dissesse que a natureza humana é uma das ideias separadas, como os Platónicos concebiam o homem sem a matéria. Mas então o Filho de Deus não teria assumido a carne, contra as palavras do Evangelho, um espírito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho. Semelhantemente, também não se pode dizer que o Filho de Deus assumiu a natureza humana como ela existe em todos os indivíduos de uma mesma espécie, porque então teria assumido todos os homens. Resta, pois, como Damasceno diz em seguida, no mesmo livro, que assumiu a natureza humana em a sua indivisibilidade (in átomo), isto é, na sua individualidade, mas não em outro indivíduo — que seja o suposto ou a hipóstase da referida natureza — diferente da pessoa do Filho de Deus. — Noutro sentido pode entender-se o dito de Damasceno, não como referente à natureza humana, de modo que da união da alma e do corpo não resulte uma natureza comum, que é a humana, mas deve referir-se à união das duas naturezas — a divina e a humana — das quais não resulta nenhuma terceira composição, que seria uma determinada natureza comum, porque então esse terceiro composto seria naturalmente predicado de muitos indivíduos. E tal é o que Damasceno pretende dizer, sendo por isso que acrescenta, Pois, nunca foi gerado, nem nunca o será, outro Cristo, ao mesmo tempo sujeito da divindade e da humanidade, na divindade e na humanidade, Deus perfeito e simultaneamente homem perfeito.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O princípio da vida corporal é duplo. — Um, efectivo e, deste modo, o Verbo de Deus é o princípio de toda vida. De outro modo, um princípio de vida o é normalmente. Pois, sendo a vida a essência dos viventes, como diz o Filósofo, assim como cada ser é formalmente o que é pela sua forma, assim o corpo vive pela alma. E, deste modo, não é possível o corpo viver pelo Verbo, que não pode ser forma do corpo.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Mt 22 34-40

34 Os fariseus, tendo sabido que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se. 35 E um deles, doutor da Lei, querendo pô-l'O à prova, perguntou-Lhe: 36 «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». 37 Jesus disse-lhe: «”Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento”. 38 Este é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 40 Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas».
Comentário

O amor a Deus tem a ver com o Dom da Piedade.
O Espírito Santo inspira na nossa alma, no nosso coração essa necessidade, esse desejo de retribuir ao Senhor um pouco do amor que nos tem.

Que é imenso!
Pois é, deu a própria vida por nós!

Que não conseguiremos retribuir totalmente!
Pois não, mas, se nos empenharmos a sério Ele, na Sua Bondade Infinita, ficará tão agradecido que nos pagará com juros altíssimos e desproporcionados.

(ama, comentário sobre Mt 22, 34-40, 2013.08.23)


Leitura espiritual


 HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte I

…/3

Eis aí mais uma passagem que deparo nas cartas de mamãe. Minha pobre Mãezinha já pressentia o fim do seu desterro: "As duas meninas não me preocupam, estão tão bem todas as duas, são temperamentos primorosos, serão por certo boas criaturas. Maria e tu estareis em perfeitas condições de educá-las. Celina não comete jamais a mínima falta voluntária. A pequerrucha será boa também. Por todo o ouro do mundo não diria uma mentira; é de uma finura de espírito como jamais a observei em nenhuma de vós".

"Estava ela outro dia na mercearia com Celina e Luísa. Falava de suas práticas e discutia fortemente com Celina. A senhora disse à Luísa: "Mas então o que quer ela dizer? Quando brinca no jardim não se ouve falar senão de práticas. A Sra. Gaucherin mete a cabeça para fora da janela num esforço de entender o que significa essa altercação sobre práticas..." A coitada da pequena faz a nossa felicidade, vai ser boa, já se vê pelo indício. Só fala do Bom Deus, por nada no mundo deixaria de fazer suas orações. Gostaria que a visses recitar pequenas fábulas, nunca presenciei algo de tão gentil. Encontra por si mesma a interpretação e a tonalidade que é preciso dar, mas isto é sobretudo quando diz: - "Criancinha de cabeça loura, onde imaginas que está o Bom Deus?" Quando ela chega às palavras: - "Ele está lá no alto do Céu azul", volve o olhar para 'cima com uma expressão angélica. Tão belo é que a gente não se cansa de fazê-la recitar. Há em seu olhar algo de tão celestial que nos deixa encantados!..."

Ó minha Mãe! Quão feliz era eu nessa idade! Já começava a desfrutar a vida. A virtude tinha encantos para mim, e eu estava, parece-me, nas mesmas disposições em que me acho agora, já dispondo de grande domínio sobre meus atos. - Ah! como se foram rapidamente os ensolarados dias de minha meninice, mas que doce impressão me deixaram na alma! Com prazer recordo os dias em que Papai nos levava consigo ao Pavilhão. As mínimas particularidades gravaram-se em meu coração... Lembra-me, antes de tudo, os passeios de Domingo, nos quais Mamãe sempre nos acompanhava. Sinto ainda as profundas e poéticas impressões 'que me nasciam na alma à vista dos trigais esmaltados de centáureas e flores campestres. Já era aficionada pelos longes. O espaço e os agigantados abetos, cuja ramagem chegava até ao chão, deixavam-me na alma impressão semelhante à que ainda hoje sinto quando contemplo a natureza... Muitas vezes nestes longos passeios encontrávamos com pobres e era sempre a Teresinha incumbida de dar-lhes a esmola, o que a deixava toda venturosa. Mas, também outras vezes, achando Papai que a caminhada ficava longa demais para sua rainhazinha, levava-a mais cedo de volta para casa (com grande desgosto dela). Para a consolar Celma enchia então de margaridas seu lindo cestinho e dava-lho, quando chegava em casa. A boa da vovó-", ainda mal, achava que a netinha tinha flores demais, tomava-lhe grande parte para sua imagem da Santa Virgem... Isso não agradava à Teresinha, mas ela muito se precavia para que nada dissesse. Tinha adquirido o bom hábito de nunca se queixar, mesmo quando lhe tiravam o que era seu, ou então quando era acusada injustamente. Preferia calar e não escusar-se. Não era mérito seu, mas virtude natural... Que pena que esta boa disposição se tenha desvanecido!

Oh! realmente, tudo me sorria na terra. Deparava com flores a cada passo que desse, e minha boa índole contribuía também para me tornar a vida agradável. Ia, porém, começar um novo período para minha alma. Devia passar pelo cadinho da provação e sofrer desde a minha infância, a fim de que pudesse ser oferecida mais cedo a Jesus. Assim como as flores da primavera começam a germinar debaixo da neve e desabrocham nos primeiros raios do Sol, assim também a florzinha, cujas reminiscências estou a escrever, teve que passar pelo inverno da provação...

Todos os pormenores da doença de nossa querida Mãe estão ainda vivos em meu coração. Lembro-me, principalmente, das últimas semanas que passou na terra. Celina e eu vivíamos como pequeninas exiladas. Todas as manhãs, a Sra. Leriche vinha buscar-nos, e passávamos o dia em casa dela. Um dia não tivemos tempo de fazer nossa oração antes de sair, e no caminho disse-me Celina bem baixinho: "Convém dizer-lhe que não fizemos nossa oração?..." - "Oh! sim", respondi-lhe. Então, com bastante timidez, disse-o à Sra. Leriche. Respondeu-nos ela: - "Está certo, minhas filhinhas, ireis fazê-la". E depois, largando-nos ambas num quarto grande, foi-se embora... Então Celina olhou para mim, e dissemos: "Ah! não é como a Mamãe... Sempre nos fazia recitar nossa oração!" ... Quando brincávamos com as crianças, o pensamento de nossa querida Mãe sempre nos acompanhava. Certa vez, tendo ganhado um lindo damasco, Celina abaixou-se e cochichou-me: "Não vamos comê-lo, dá-lo-ei à Mamãe". Que lástima! a coitada de nossa Mãezinha já estava doente demais para comer as frutas da terra. Já não se saciaria senão no Céu com a glória de Deus e não beberia senão com Jesus o misterioso vinho, do qual Ele falara em sua última Ceia, quando disse que o tomaria connosco no reino de seu Pai'.

A comovente cerimónia da Extrema-Unção também me ficou gravada na alma. Vejo ainda o lugar onde me achava ao lado de Celina. Todas as cinco estávamos pela ordem de idade, e nosso pobre Paizinho estava ali também e soluçava...

No próprio dia ou no dia imediato à partida da Mamãe, tomou-me nos braços, dizendo-me: "Vem beijar pela última vez tua pobre Mãezinha". E sem dizer nada cheguei os lábios à fronte de minha Mãe querida... Não me lembra ter chorado muito. Não dizia a ninguém os profundos sentimentos que experimentava... Olhava e escutava em silêncio... Ninguém tinha tempo de ocupar-se comigo. Por causa disso via muitas cousas que teriam a intenção de ocultar-me. Primeiramente, dei comigo diante da tampa do esquife... Fiquei longo tempo parada a contemplá-lo. Nunca tinha visto nenhum, e, no entanto, compreendia... Era tão pequena que, apesar de estar pouco alto o corpo da Mamãe, precisava erguer a cabeça para o avistar de cima, e parecia-me muito grande... muito triste... Quinze anos mais tarde, estive diante de outro esquife, o da Madre Genoveva 4. Tinha a mesma medida que o da Mamãe, e julguei estar ainda nos dias de minha infância!... Todas ás minhas reminiscências retornaram a tropel. Era por certo a mesma Teresinha que estava a olhar, mas havia crescido e o esquife parecia-lhe pequeno. Já não precisava erguer a cabeça para o enxergar. Já não a erguia senão para contemplar o Céu que lhe parecia bem alegre, pois todas as suas provações tinham tomado um fim e o inverno de sua alma passara para sempre...

No dia que a Igreja lançou a bênção sobre os despojos mortais de nossa Mãezinha do Céu, nosso Deus quis dar-me outra na terra, e quis que a escolhesse livremente. Está vamos juntas, todas as cinco, a olhar umas às outras, Luísa também estava ali. Quando viu Celina e a mim disse: "Pobres pequenas, já não tendes Mãe!..." Então Celina lançou-se aos braços de Maria e disse: "Pois bem! Mamãe serás tu". Eu, habituada a fazer igual a ela, voltei-me, no entanto, para vós, minha Mãe, e como se o porvir já tivesse rompido seu véu, atirei-me aos vossos braços, exclamando "Pois, sim, para mim Paulina será Mamãe!"

Como o disse mais acima, foi a partir dessa época de minha vida que tive de iniciar o segundo período de minha existência, o mais doloroso dos três, mormente desde a entrada no Carmelo daquela que tinha escolhido como minha segunda "Mamãe". Este período vai da idade de quatro anos e meio até a data de catorze anos, época em que recuperei minha índole de criança, bem justamente quando entrava no lado sério da vida.

Devo dizer-vos, minha Mãe, que depois da morte da Mamãe minha boa índole mudou por completo. Tão viva; tão expansiva, que era, fiquei tímida e frouxa, sensível a mais não poder. Bastava um olhar para me desfazer em lágrimas. Era preciso que ninguém me desse maior atenção para me sentir contente. Não podia tolerar a companhia de pessoas estranhas, e só recuperava minha alegre disposição na intimidade da família... Continuava, entretanto, a ser cercada do mais sensível carinho. Ao amor que já possuía, o tão meigo coração do Papai teve por acréscimo um amor verdadeiramente maternal! Minha Mãe, vós e Maria não éreis para mim as mais carinhosas e mais abnegadas das mães? Ah! se o Bom Deus não tivesse prodigalizado à sua florzinha seus raios benfazejos, ela nunca teria podido aclimar-se na terra. Era ainda débil demais para suportar chuvas e tempestades. Precisava de calor, de um orvalho suave, de um bafejo primaveril. Nunca careceu de todos estes benefícios. Jesus lhos fez encontrar até debaixo da neve da provação!

Não senti nenhum desgosto por deixar Alençon. Crianças gostam de mudança e com prazer vim para Lisieux. Tenho lembrança da viagem, da chegada pela tarde à casa de minha tia. Vejo ainda Joana e Maria que nos aguardavam à porta... Estava muito satisfeita de ter umas priminhas tão amáveis. Gostava tanto delas como de minha tia, e sobretudo de meu tio; somente que ele me fazia medo e não me sentia tão à vontade em sua casa como nos Buissonnets, onde minha vida era realmente feliz... Logo de manhã vínheis para junto de mim a perguntar-me se já entregara meu coração ao Bom Deus. Em seguida me púnheis a roupa, enquanto me faláveis Dele e depois ao vosso lado fazia minha oração. Depois, vinha a lição de leitura. A primeira palavra que consegui soletrar sozinha foi esta: "Céus". Minha querida madrinha encarregava-se das aulas de caligrafia, e vós, minha Mãe, de todas as outras. Não tinha muita facilidade de aprender, mas dispunha de bastante memória. O catecismo e antes de tudo a história sagrada eram as minhas preferências, estudava-os com alegria. Mas a gramática fazia-me às vezes derramar lágrimas... Estais lembrada do masculino e do feminino?

Logo que terminava a aula, subia ao mirante e levava a papai minha caderneta e minha classificação. Como ficava radiante, quando lhe podia dizer: "Tenho 5 com louvor, foi Paulina a primeira que o declarou!..." Pois, quando vos perguntava se tinha 5 com louvor e vós me dizíeis que sim, aos meus olhos era uma nota a menos. Vós também me dáveis bons pontos, e quando tinha alcançado certo número deles, ganhava um prêmio e uma folga. Lembro-me de 14 que os dias de folga se me afiguravam mais longos do que os demais, o que vos dava prazer, por demonstrar que não apreciava ficar sem nenhuma ocupação.

Todas as tardes ia a pequeno passeio com papai. Fazíamos juntos a nossa visita ao Santíssimo Sacramento, e cada dia visitávamos uma nova igreja. Assim entrei pela primeira vez na capela do Carmelo. Papai mostrou-me as grades do coro, dizendo-me que atrás delas havia religiosas. Muito longe estava de pensar que, nove anos mais adiante, me encontraria entre elas! ...

Depois do passeio (durante o qual papai me comprava sempre um presentinho de um ou dois soldos), recolhia-me em casa. Fazia então minhas lições. A seguir, ficava todo o resto do tempo a saltitar no jardim em volta do papai, pois não sabia brincar com boneca. Para mim era grande alegria preparar chás com grãozinhos e com cascas de árvores que encontrava pelo chão. Levava-os depois ao papai numa linda xícara pequena. O coitado do paizinho largava sua ocupação e depois sorridente fazia de conta que tomava. Antes de me devolver a xícara perguntava-me (como que em segredo) se era para jogar fora o conteúdo. As vezes, dizia que sim, mas o mais frequente era levar de volta meu precioso chá, com a intenção de tornar a servi-lo várias vezes... Gostava de cultivar minhas florzinhas no jardim que papai me tinha dado. Entretinha-me em armar altarzinhos no vão que havia ao centro do muro. Quando terminava a obra, corria a papai e, levando-o comigo, dizia-lhe que fechasse bem os olhos e só os abrisse no momento que lho mandasse. Fazia tudo o que eu queria, e deixava-se conduzir até a frente do meu jardinzinho. Então eu gritava: "Papai, abre os olhos!" Ele abria-os e extasiava-se para me dar prazer, admirando o que eu julgava ser uma obra-prima!... Seria um nunca acabar se quisera contar mil pequenos episódios desse género, que me acodem profusamente à memória... Ah! como poderia enumerar todos os carinhos que "Papai" prodigalizava à sua rainhazinha? Há cousas que o coração sente, mas que a palavra e a própria idéia não conseguem formular...

Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração... A terra parecia-me lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets, Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geleia de fruta que me tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem anuviamento.. .

A propósito de nuvens, lembro-me de que um dia o formoso Céu azul campestre se anuviou e logo começou a zunir a tempestade. Os coriscos sulcavam as nuvens carregadas, e vi cair um raio a pouca distância. Longe de ficar com medo, extasiava-me, tendo a impressão de que o Bom Deus estava tão perto de mim!...

Papai não estava, de modo algum, tão contente como sua rainhazinha. Não que a tempestade lhe incutisse medo, mas porque o capim e os malmequeres (mais altos do que eu) brilhavam como pedrarias preciosas, tendo nós de atravessar vários vergéis antes de chegar a um caminho. E meu querido paizinho, temeroso que os aljôfares molhassem sua filhinha, tomou-a às costas, apesar da carga dos apetrechos de pesca.

Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar a esmola aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se arrastava com dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um óbolo. Mas, não se julgando bastante pobre a ponto de aceitar esmola, ele olhou-me com triste sorriso e não quis pegar o que lhe oferecia. Não consigo descrever o que se passou em meu coração. Quisera consolá-lo e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que o tinha magoado. O pobre doente adivinhou por certo meu pensamento, pois que o vi virar-se para trás e envolver-me num sorriso. Papai acabava de comprar um doce para mim. Bem me veio a vontade de lho dar, mas não tive coragem. Ainda assim queria dar-lhe alguma cousa que não me pudesse refugar, pois sentia por ele uma simpatia muito grande. Ocorreu-me então ter ouvido falar que, no dia da primeira comunhão, a gente obteria tudo o que pedisse. Este pensamento foi um consolo para mim, e disse comigo mesma, embora só tivesse seis anos ainda: "Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão". Cumpri a promessa cinco anos mais tarde, e espero que o Bom Deus tenha atendido a oração que me inspirara a fazer-lhe por um de seus membros sofredores...

Tinha muito amor ao Bom Deus, e amiúde lhe oferecia meu coração, valendo-me da breve fórmula que mamãe me ensinara. No entanto, certo dia, ou melhor, certa noite do lindo mês de Maio, cometi uma falta que bem merece referência. Deu-me grande motivo de humilhar-me, e a respeito dela creio ter tido contrição perfeita. Sendo muito pequena para frequentar o mês de Maria, ficava com Vitória' e fazia com ela minhas devoções diante do meu altarzinho do mês de Maria, adornado de acordo com minha capacidade. -Tudo era tão miudinho: castiçais e vasos de flores, de sorte que dois fósforos, à guisa de velas, clareavam tudo perfeitamente. As vezes, Vitória fazia-me a surpresa de dar-me uns pedacinhos de torcida, mas era caso raro. Uma noite, estando tudo prestes para nos pormos em oração, digo-lhe: "Vitória, queres começar com o "Lembrai-vos", que vou acender". Ela fez menção de começar, mas não disse palavra, e olhava-me rindo. Eu que via meus preciosos fósforos consumirem-se rapidamente, supliquei-lhe fizesse a oração, e ela continuou calada. Levantei-me então e pus-me a dizer-lhe, com voz gritada, que era maldosa, e, abandonando minha habitual brandura batia o pé com toda a minha força... A pobre da Vitória já não tinha vontade de rir. Olhou para mim com estranheza, e mostrou-me as torcidas que me havia trazido... Depois de verter lágrimas coléricas, derramei lágrimas de sincero arrependimento, com o firme propósito de não tornar a fazê-lo!...

(cont.)





25/10/2014

Não nos deve sobrar o tempo. Nem um segundo.

Consolaste-te com a ideia de que a vida é gastar-se, é queimá-la no serviço de Deus. Assim, gastando-nos integralmente por Ele, virá a libertação da morte, que nos dará a posse da Vida. (Sulco, 883)

Não nos deve sobrar o tempo. Nem um segundo. E não exagero! Trabalho há sempre. O mundo é grande e são milhões as almas que não ouviram ainda falar claramente da doutrina de Cristo. Dirijo-me a cada um de vós. Se te sobra tempo, medita um pouco: é muito possível que vivas no meio da tibieza, ou que, sobrenaturalmente, sejas um paralítico. Não te mexes, estás parado, estéril, sem realizar todo o bem que deverias comunicar aos que se encontram a teu lado, no teu ambiente, no teu trabalho, na tua família.

Pensemos na nossa vida com valentia. Por que é que às vezes não conseguimos os minutos de que precisamos para terminar amorosamente o trabalho que nos diz respeito e que é o meio da nossa santificação? Por que descuidamos as obrigações familiares? Por que é que se nos mete a precipitação no momento de rezar ou de assistir ao Santo Sacrifício da Missa? Por que nos faltará a serenidade e a calma para cumprir os deveres do nosso estado e nos entretemos sem qualquer pressa nos caprichos pessoais? Podeis responder-me: são coisas pequenas. Sim, com efeito, mas essas coisas pequenas são o azeite, o nosso azeite, que mantém viva a chama e acesa a luz. (Amigos de Deus, 41–42)

Marca de Deus




As criaturas são como um rasto da passagem de Deus. Por estas marcas se rastreará a Sua grandeza, poder e sabedoria e todos os seus atributos.



(S. joão da cruz Cântico espiritual 5 3)

Tratado do verbo encarnado 10

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 4 — Se a pessoa de Cristo é composta.

O quarto discute-se assim. — Parece que a pessoa de Cristo não é composta.

1. — Pois a pessoa de Cristo não difere da pessoa ou hipóstase do Verbo, como se demonstrou. Ora, no Verbo não é uma coisa a pessoa e outra, a natureza, como resulta do que foi dito na Primeira Parte. Sendo, pois, a natureza do Verbo simples, segundo se demonstrou na Primeira Parte, é impossível que a pessoa de Cristo seja composta.

2. Demais. — Toda composição se compõe de partes. Ora, a natureza divina não pode incluir a noção de parte, porque toda parte é, por natureza, imperfeita. Logo, é impossível a pessoa de Cristo ser composta de duas naturezas.

3. Demais. — O que é composto de partes há-de ser homogéneo com elas, assim de corpos não há-de compor-se senão o corpo. Se, pois, há em Cristo uma composição de duas naturezas, essa não será, por consequência, pessoa, mas, natureza. E assim, a união em Cristo ter-se-á sido feita em a natureza. O que é contra o dito antes.

Mas, em contrário, diz Damasceno: Em Nosso Senhor Jesus Cristo conhecemos duas naturezas mas, uma só hipóstase, composta de ambas.

A pessoa ou a hipóstase de Cristo pode ser considerada a dupla luz. — Primeiro, quanto ao que essencialmente é. E então, é absolutamente simples, como o é a natureza do Verbo. — De outro modo, segundo a essência da pessoa ou da hipóstase, à qual é próprio subsistir em alguma natureza. E, então, a pessoa de Cristo subsiste em duas naturezas. Por onde embora seja um só ser subsistente tem contudo vários fundamentos o seu subsistir. E assim, a pessoa é chamada composta, enquanto subsiste em duas coisas distintas·

Donde se deduz clara a RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Essa composição da pessoa, de naturezas, não se diz que é em razão de partes, mas antes, em razão de número, como tudo aquilo, em que duas coisas convêm, pode ser considerado composto delas.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Nem em toda a composição se verifica que o composto é homogéneo com os componentes, mas só quando se trata de partes do contínuo, pois, o contínuo não se compõe senão de contínuos. Mas, o animal compõe-se de alma e de corpo, não sendo nenhum deles o animal.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.