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19/08/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Mt 22, 34-40

34 Os fariseus, tendo sabido que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se. 35 E um deles, doutor da Lei, querendo pô-l'O à prova, perguntou-Lhe: 36 «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». 37 Jesus disse-lhe: «”Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento”. 38 Este é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 40 Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas».

Comentário:

O nosso amor a Deus não é um “favor” que Lhe fazemos mas uma obrigação.

Ele amou-nos primeiro mesmo antes da criação do mundo e ama-nos sempre mesmo quando não correspondemos.

Se “amor com amor se paga” ficaremos sempre muito aquém de cumprir essa obrigação.

À Mãe do Amor Formoso, Santa Maria, peçamos que nos ensine a amar mais e melhor o seu Divino Filho.

(ama, comentário sobre Mt 22, 34-40, 2015.08.21)


21/08/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual


Tempo comum XX Semana


Evangelho: Mt 22, 34-40

34 Os fariseus, tendo sabido que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se. 35 E um deles, doutor da Lei, querendo pô-l'O à prova, perguntou-Lhe: 36 «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». 37 Jesus disse-lhe: «”Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento”. 38 Este é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 40 Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas».

Comentário:

Dizias-me: será que amo a Deus deveras, com todo o meu coração, com todas as minhas capacidades e potências?
Não me ficarei por um "amor conveniente", isto é, calculado, pesado e medido com um rigor que não ponho nas minhas outras afeições?
Mas eu não quero amar assim!
Desejo que seja um amor completo, total, sem reservas nem calculismos.
Amor livre, sadio, sem eufemismos.
Amor de irmão e amor de filho.
É este o amor que Te quero entregar, meu Senhor e meu Deus.

Disseste tudo, não tive de acrescentar nada.

(ama, meditação sobre Mt 22, 34-40, 2010.08.20)


Leitura espiritual



CRISTO QUE PASSA

23 
          
Para o cristão o matrimónio não é uma simples instituição social e menos ainda um remédio para as fraquezas humanas: é uma autêntica vocação sobrenatural.
Sacramento grande em Cristo e na Igreja, como diz S. Paulo, é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, contrato que um homem e uma mulher fazem para sempre, pois, quer queiramos quer não, o matrimónio instituído por Jesus Cristo é indissolúvel, sinal sagrado que santifica, acção de Jesus, que invade a alma dos que se casam e os convida a segui-Lo, transformando toda a vida matrimonial num caminhar divino pela Terra.

Os casados estão chamados a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união: cometeriam, por isso, um grave erro. se edificassem a sua vida espiritual à margem do lar.
A vida familiar, as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço por sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social, tudo isso são situações humanas e correntes que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar.

A fé e a esperança hão-de manifestar-se na serenidade com que se focam os grandes ou pequenos problemas que surgem em todos os lares, no empenho com que se persevera no cumprimento do dever. A caridade há-de encher tudo e levará: a partilhar as alegrias e os possíveis dissabores; a saber sorrir, esquecendo-se das preocupações pessoais para atender os outros; a escutar o outro cônjuge ou os filhos, mostrando-lhes que são amados e compreendidos deveras; a passar por alto pequenos atritos sem importância, que o egoísmo poderia transformar em montanhas; a fazer com grande amor os pequenos serviços de que se compõe a convivência diária.

Santificar o lar no dia-a-dia, criar, com carinho, um autêntico ambiente de família: é disso precisamente que se trata.
Para santificar cada um dos dias, é necessário exercitar muitas virtudes cristãs; em primeiro lugar, as teologais e, depois, todas as outras: a prudência, a lealdade, a sinceridade, a humildade, o trabalho, a alegria...

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Santidade do amor humano

Ao falar do matrimónio, da vida matrimonial, é necessário começar por referir-nos claramente ao amor dos cônjuges.

O amor puro e limpo dos esposos é uma realidade santa, que eu, como sacerdote, abençoo com ambas as mãos.
A tradição cristã viu frequentemente na presença de Jesus nas bodas de Caná uma confirmação do valor divino do matrimónio: O nosso Salvador foi às bodas - escreve S. Cirilo de Alexandria - para santificar o princípio da geração humana.

O matrimónio é um sacramento que faz de dois corpos uma só carne: como diz com expressão forte a teologia, são os próprios corpos dos contraentes que constituem a sua matéria.
O Senhor santifica e abençoa o amor do marido à mulher e o da mulher ao marido; e ordenou não só a fusão das suas almas, mas também a dos seus corpos.
Nenhum cristão, esteja ou não chamado à vida matrimonial, pode deixar de a estimar.

O Criador deu-nos a inteligência, centelha do entendimento divino, que nos permite - com vontade livre, outro dom de Deus - conhecer e amar; e deu ao nosso corpo a possibilidade de gerar, que é como uma participação do seu poder criador.
Deus quis servir-se do amor conjugal para trazer novas criaturas ao mundo e aumentar o corpo da Igreja.
O sexo não é uma realidade vergonhosa; é uma dádiva divina que se orienta limpamente para a vida, para o amor, para a fecundidade.

Esse é o contexto, o pano de fundo, em que se situa a doutrina cristã sobre a sexualidade.
A nossa fé não desconhece nada do que de belo, de generoso, de genuinamente humano há neste mundo.
Ensina-nos que a regra do nosso viver não deve ser a procura egoísta do prazer, porque só a renúncia e o sacrifício levam ao verdadeiro amor; Deus amou-nos e convida-nos a amá-Lo e a amar os outros com a verdade e a autenticidade com que Ele nos ama.
Quem conserva a sua vida, perdê-la-á; e quem perde a sua vida por meu amor voltará a encontrá-la, escreveu S. Mateus no seu Evangelho, com frase que parece paradoxal.

As pessoas que estão pendentes de si mesmas, que actuam procurando, antes de mais, a sua própria satisfação, põem em jogo a sua salvação eterna e, mesmo aqui na Terra, são inevitavelmente infelizes e desgraçadas.
Só quem se esquece de si e se entrega a Deus e aos outros - no matrimónio também - pode ser ditoso na Terra, com uma felicidade que é preparação e antecipação do Céu.

Durante o nosso caminhar terreno, a dor é pedra de toque do amor. No estado matrimonial, considerando as coisas de maneira descritiva, poderíamos afirmar que há anverso e reverso: por um lado, a alegria de se saber amado, o entusiasmo por edificar e sustentar um lar, o amor conjugal, a consolação de ver crescer os filhos; por outro, dores e contrariedades, o decurso do tempo que consome os corpos e ameaça azedar os caracteres, a monotonia dos dias, aparentemente sempre iguais.

Formaria um pobre conceito do matrimónio e do amor humano quem pensasse que ao tropeçar com essas dificuldades, o carinho e o contentamento se acabam.
É precisamente então que os sentimentos que animavam aquelas criaturas revelam a sua verdadeira natureza, que a doação e a ternura se enraízam e se manifestam com um afecto autêntico e profundo, mais poderoso que a morte.

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Essa autenticidade do amor requer fidelidade e rectidão em todas as relações matrimoniais. Deus, comenta S. Tomás de Aquino, uniu às diversas funções da vida humana um prazer, uma satisfação; esse prazer e essa satisfação são, por conseguinte, bons.
Mas se o homem, invertendo a ordem das coisas, busca essa emoção como valor último, desprezando o bem e o fim a que deve estar ligada e ordenada, perverte-a e desnaturaliza-a, convertendo-a em pecado ou em ocasião de pecado.

A castidade - não a simples continência, mas a afirmação decidida de uma vontade enamorada - é uma virtude que mantém a juventude do amor em qualquer estádio da vida.
Existe uma castidade dos que sentem despertar neles o desenvolvimento da puberdade, uma castidade dos que se preparam para se casarem, uma castidade dos que Deus chama ao celibato, uma castidade dos que foram escolhidos por Deus para viverem no matrimónio.

Como não recordar aqui as palavras fortes e claras que a Vulgata conserva, da recomendação que o Arcanjo Rafael fez a Tobias antes de desposar Sara?
O Anjo admoestou-o deste modo: Escuta-me e mostrar-te-ei quem são aqueles contra quem o Demónio pode prevalecer. São os que abraçam o matrimónio de tal modo que excluem Deus de si e da sua mente e se deixam arrastar pela paixão como o cavalo e o mulo que carecem de entendimento. Sobre esses, o Diabo tem poder.

Não há amor claro, franco e alegre no matrimónio, se não se vive essa virtude da castidade, que respeita o mistério da sexualidade e o ordena à fecundidade à entrega.
Nunca falei de impureza e evitei sempre descer a casuísticas mórbidas e sem sentido; mas de castidade e de pureza, da afirmação jubilosa do amor, falei muitíssimas vezes e devo continuar a falar.

Pelo que respeita à castidade conjugal, asseguro aos esposos que não devem ter medo de manifestar o seu carinho; pelo contrário, essa inclinação é a base da sua vida familiar.
O que o Senhor lhes pede é que se respeitem mutuamente e que sejam mutuamente leais, que actuem com delicadeza, com naturalidade, com modéstia.
Dir-lhes-ei também que as relações conjugais são dignas quando são prova de verdadeiro amor e, portanto, estão abertas à fecundidade, aos filhos.

Secar as fontes da vida é um crime contra os dons que Deus concedeu à humanidade e uma manifestação de que é o egoísmo e não o amor, o que inspira a conduta.
Então tudo se turva, porque os cônjuges acabam por se olharem como cúmplices; e produzem-se entre eles dissensões que, continuando nessa linha, são quase sempre insanáveis.

Quando a castidade conjugal está presente no amor, a vida matrimonial é expressão de uma conduta autêntica, marido e mulher compreendem-se e sentem-se unidos; quando o bem divino da sexualidade se perverte, destrói-se a intimidade e marido e mulher já não podem olhar-se nobremente, cara a cara.

Os esposos devem edificar a sua convivência sobre um carinho sincero e puro, e sobre a alegria de ter trazido ao mundo os filhos que Deus lhes tenha dado a possibilidade de ter, sabendo, se for necessário, renunciar a comodidades pessoais e tendo fé na Providência divina. Formar uma família numerosa, se tal for a vontade de Deus, é uma garantia de felicidade e de eficácia, embora afirmem outra coisa os defensores de um triste hedonismo.

26
           
Não vos esqueçais de que, em certas ocasiões, não é possível evitar as zangas entre os esposos.
Nunca discutais diante dos vossos filhos; fá-los-eis sofrer e eles tomarão o partido de uma das partes, contribuindo talvez para aumentar inconscientemente a vossa desunião.
Todavia, discutir, desde que não seja muito frequentemente, é também uma manifestação de amor, quase uma necessidade.
A ocasião, não o motivo, costuma ser o cansaço do marido, esgotado pelo seu trabalho profissional; a fadiga - oxalá não seja o aborrecimento - da mulher que teve de aturar os filhos e o serviço ou lutar com o seu próprio carácter, às vezes pouco firme; embora vós, as mulheres, sejais mais firmes que os homens se vos decidis a isso.

Evitai a soberba, que é o maior inimigo da vossa vida conjugal: nas vossas pequenas zangas, nenhum dos dois tem razão.
O que estiver mais sereno deve dizer uma palavra que guarde o mau humor até mais tarde. E mais tarde - a sós - discuti, que depois fareis as pazes.

Vós, mulheres, pensai que talvez vos descuideis um pouco no arranjo pessoal; recordai o provérbio que a mulher composta tira o homem de outra porta: é sempre actual o dever de aparecerdes amáveis como quando éreis noivas, dever de justiça porque pertenceis ao vosso marido; e ele também não se deve esquecer de que é vosso e de que tem a obrigação de ser, durante toda a vida, afectuoso como um noivo.
Mau sinal, se sorrirdes com ironia ao lerdes este parágrafo; seria uma demonstração evidente de que o afecto familiar se tinha convertido em gélida indiferença.

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Lares luminosos e alegres

Não se pode falar do matrimónio sem pensar ao mesmo tempo na família, que é o fruto e a continuação daquilo que se inicia com o matrimónio.
Uma família compõe-se, não apenas do marido e da mulher, mas também dos filhos e, num grau maior ou menor, dos avós, dos outros parentes, das empregadas domésticas.
A todos eles há-de chegar o calor íntimo, do qual depende o ambiente familiar.

É certo que há casais a quem o Senhor não concede filhos; é sinal de que, nesse caso lhes pede que continuem a amar-se com igual amor e que dediquem as suas energias - se puderem - a serviços e tarefas em benefício de outras almas.

O normal, porém, é que um casal tenha descendência.
Para estes esposos, a primeira preocupação têm de ser os seus filhos. A paternidade e a maternidade não terminam com o nascimento; essa participação no poder de Deus, que é a faculdade de gerar, há-de prolongar-se na cooperação com o Espírito Santo, para que culmine com a formação de autênticos homens cristãos e autênticas mulheres cristãs.

Os pais são os principais educadores dos seus filhos, tanto no aspecto humano como no sobrenatural, e hão-de sentir a responsabilidade dessa missão, que exige deles compreensão, prudência, saber ensinar e, sobretudo, saber amar; e devem preocupar-se por dar bom exemplo.
A imposição autoritária e violenta não é caminho acertado para a educação.
O ideal para os pais é chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável.

É necessário que os pais arranjem tempo para estar com os filhos e falar com eles.
Os filhos são o que há de mais importante; mais importante do que os negócios, do que o trabalho, do que o descanso.
Nessas conversas, convém escutá-los com atenção, esforçar-se por compreendê-los, saber reconhecer a parte de verdade - ou a verdade inteira - que possa haver em algumas das suas rebeldias.
E, ao mesmo tempo, apoiar as suas aspirações, ensiná-los a ponderar as coisas e a raciocinar; não lhes impor uma conduta, mas mostrar-lhes os motivos, sobrenaturais e humanos, que a aconselham.
Numa palavra, respeitar a sua liberdade, já que não há verdadeira educação sem responsabilidade pessoal, nem responsabilidade sem liberdade.

(cont)


26/10/2014

Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Mt 22 34-40

34 Os fariseus, tendo sabido que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se. 35 E um deles, doutor da Lei, querendo pô-l'O à prova, perguntou-Lhe: 36 «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». 37 Jesus disse-lhe: «”Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento”. 38 Este é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 40 Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas».
Comentário

O amor a Deus tem a ver com o Dom da Piedade.
O Espírito Santo inspira na nossa alma, no nosso coração essa necessidade, esse desejo de retribuir ao Senhor um pouco do amor que nos tem.

Que é imenso!
Pois é, deu a própria vida por nós!

Que não conseguiremos retribuir totalmente!
Pois não, mas, se nos empenharmos a sério Ele, na Sua Bondade Infinita, ficará tão agradecido que nos pagará com juros altíssimos e desproporcionados.

(ama, comentário sobre Mt 22, 34-40, 2013.08.23)


Leitura espiritual


 HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte I

…/3

Eis aí mais uma passagem que deparo nas cartas de mamãe. Minha pobre Mãezinha já pressentia o fim do seu desterro: "As duas meninas não me preocupam, estão tão bem todas as duas, são temperamentos primorosos, serão por certo boas criaturas. Maria e tu estareis em perfeitas condições de educá-las. Celina não comete jamais a mínima falta voluntária. A pequerrucha será boa também. Por todo o ouro do mundo não diria uma mentira; é de uma finura de espírito como jamais a observei em nenhuma de vós".

"Estava ela outro dia na mercearia com Celina e Luísa. Falava de suas práticas e discutia fortemente com Celina. A senhora disse à Luísa: "Mas então o que quer ela dizer? Quando brinca no jardim não se ouve falar senão de práticas. A Sra. Gaucherin mete a cabeça para fora da janela num esforço de entender o que significa essa altercação sobre práticas..." A coitada da pequena faz a nossa felicidade, vai ser boa, já se vê pelo indício. Só fala do Bom Deus, por nada no mundo deixaria de fazer suas orações. Gostaria que a visses recitar pequenas fábulas, nunca presenciei algo de tão gentil. Encontra por si mesma a interpretação e a tonalidade que é preciso dar, mas isto é sobretudo quando diz: - "Criancinha de cabeça loura, onde imaginas que está o Bom Deus?" Quando ela chega às palavras: - "Ele está lá no alto do Céu azul", volve o olhar para 'cima com uma expressão angélica. Tão belo é que a gente não se cansa de fazê-la recitar. Há em seu olhar algo de tão celestial que nos deixa encantados!..."

Ó minha Mãe! Quão feliz era eu nessa idade! Já começava a desfrutar a vida. A virtude tinha encantos para mim, e eu estava, parece-me, nas mesmas disposições em que me acho agora, já dispondo de grande domínio sobre meus atos. - Ah! como se foram rapidamente os ensolarados dias de minha meninice, mas que doce impressão me deixaram na alma! Com prazer recordo os dias em que Papai nos levava consigo ao Pavilhão. As mínimas particularidades gravaram-se em meu coração... Lembra-me, antes de tudo, os passeios de Domingo, nos quais Mamãe sempre nos acompanhava. Sinto ainda as profundas e poéticas impressões 'que me nasciam na alma à vista dos trigais esmaltados de centáureas e flores campestres. Já era aficionada pelos longes. O espaço e os agigantados abetos, cuja ramagem chegava até ao chão, deixavam-me na alma impressão semelhante à que ainda hoje sinto quando contemplo a natureza... Muitas vezes nestes longos passeios encontrávamos com pobres e era sempre a Teresinha incumbida de dar-lhes a esmola, o que a deixava toda venturosa. Mas, também outras vezes, achando Papai que a caminhada ficava longa demais para sua rainhazinha, levava-a mais cedo de volta para casa (com grande desgosto dela). Para a consolar Celma enchia então de margaridas seu lindo cestinho e dava-lho, quando chegava em casa. A boa da vovó-", ainda mal, achava que a netinha tinha flores demais, tomava-lhe grande parte para sua imagem da Santa Virgem... Isso não agradava à Teresinha, mas ela muito se precavia para que nada dissesse. Tinha adquirido o bom hábito de nunca se queixar, mesmo quando lhe tiravam o que era seu, ou então quando era acusada injustamente. Preferia calar e não escusar-se. Não era mérito seu, mas virtude natural... Que pena que esta boa disposição se tenha desvanecido!

Oh! realmente, tudo me sorria na terra. Deparava com flores a cada passo que desse, e minha boa índole contribuía também para me tornar a vida agradável. Ia, porém, começar um novo período para minha alma. Devia passar pelo cadinho da provação e sofrer desde a minha infância, a fim de que pudesse ser oferecida mais cedo a Jesus. Assim como as flores da primavera começam a germinar debaixo da neve e desabrocham nos primeiros raios do Sol, assim também a florzinha, cujas reminiscências estou a escrever, teve que passar pelo inverno da provação...

Todos os pormenores da doença de nossa querida Mãe estão ainda vivos em meu coração. Lembro-me, principalmente, das últimas semanas que passou na terra. Celina e eu vivíamos como pequeninas exiladas. Todas as manhãs, a Sra. Leriche vinha buscar-nos, e passávamos o dia em casa dela. Um dia não tivemos tempo de fazer nossa oração antes de sair, e no caminho disse-me Celina bem baixinho: "Convém dizer-lhe que não fizemos nossa oração?..." - "Oh! sim", respondi-lhe. Então, com bastante timidez, disse-o à Sra. Leriche. Respondeu-nos ela: - "Está certo, minhas filhinhas, ireis fazê-la". E depois, largando-nos ambas num quarto grande, foi-se embora... Então Celina olhou para mim, e dissemos: "Ah! não é como a Mamãe... Sempre nos fazia recitar nossa oração!" ... Quando brincávamos com as crianças, o pensamento de nossa querida Mãe sempre nos acompanhava. Certa vez, tendo ganhado um lindo damasco, Celina abaixou-se e cochichou-me: "Não vamos comê-lo, dá-lo-ei à Mamãe". Que lástima! a coitada de nossa Mãezinha já estava doente demais para comer as frutas da terra. Já não se saciaria senão no Céu com a glória de Deus e não beberia senão com Jesus o misterioso vinho, do qual Ele falara em sua última Ceia, quando disse que o tomaria connosco no reino de seu Pai'.

A comovente cerimónia da Extrema-Unção também me ficou gravada na alma. Vejo ainda o lugar onde me achava ao lado de Celina. Todas as cinco estávamos pela ordem de idade, e nosso pobre Paizinho estava ali também e soluçava...

No próprio dia ou no dia imediato à partida da Mamãe, tomou-me nos braços, dizendo-me: "Vem beijar pela última vez tua pobre Mãezinha". E sem dizer nada cheguei os lábios à fronte de minha Mãe querida... Não me lembra ter chorado muito. Não dizia a ninguém os profundos sentimentos que experimentava... Olhava e escutava em silêncio... Ninguém tinha tempo de ocupar-se comigo. Por causa disso via muitas cousas que teriam a intenção de ocultar-me. Primeiramente, dei comigo diante da tampa do esquife... Fiquei longo tempo parada a contemplá-lo. Nunca tinha visto nenhum, e, no entanto, compreendia... Era tão pequena que, apesar de estar pouco alto o corpo da Mamãe, precisava erguer a cabeça para o avistar de cima, e parecia-me muito grande... muito triste... Quinze anos mais tarde, estive diante de outro esquife, o da Madre Genoveva 4. Tinha a mesma medida que o da Mamãe, e julguei estar ainda nos dias de minha infância!... Todas ás minhas reminiscências retornaram a tropel. Era por certo a mesma Teresinha que estava a olhar, mas havia crescido e o esquife parecia-lhe pequeno. Já não precisava erguer a cabeça para o enxergar. Já não a erguia senão para contemplar o Céu que lhe parecia bem alegre, pois todas as suas provações tinham tomado um fim e o inverno de sua alma passara para sempre...

No dia que a Igreja lançou a bênção sobre os despojos mortais de nossa Mãezinha do Céu, nosso Deus quis dar-me outra na terra, e quis que a escolhesse livremente. Está vamos juntas, todas as cinco, a olhar umas às outras, Luísa também estava ali. Quando viu Celina e a mim disse: "Pobres pequenas, já não tendes Mãe!..." Então Celina lançou-se aos braços de Maria e disse: "Pois bem! Mamãe serás tu". Eu, habituada a fazer igual a ela, voltei-me, no entanto, para vós, minha Mãe, e como se o porvir já tivesse rompido seu véu, atirei-me aos vossos braços, exclamando "Pois, sim, para mim Paulina será Mamãe!"

Como o disse mais acima, foi a partir dessa época de minha vida que tive de iniciar o segundo período de minha existência, o mais doloroso dos três, mormente desde a entrada no Carmelo daquela que tinha escolhido como minha segunda "Mamãe". Este período vai da idade de quatro anos e meio até a data de catorze anos, época em que recuperei minha índole de criança, bem justamente quando entrava no lado sério da vida.

Devo dizer-vos, minha Mãe, que depois da morte da Mamãe minha boa índole mudou por completo. Tão viva; tão expansiva, que era, fiquei tímida e frouxa, sensível a mais não poder. Bastava um olhar para me desfazer em lágrimas. Era preciso que ninguém me desse maior atenção para me sentir contente. Não podia tolerar a companhia de pessoas estranhas, e só recuperava minha alegre disposição na intimidade da família... Continuava, entretanto, a ser cercada do mais sensível carinho. Ao amor que já possuía, o tão meigo coração do Papai teve por acréscimo um amor verdadeiramente maternal! Minha Mãe, vós e Maria não éreis para mim as mais carinhosas e mais abnegadas das mães? Ah! se o Bom Deus não tivesse prodigalizado à sua florzinha seus raios benfazejos, ela nunca teria podido aclimar-se na terra. Era ainda débil demais para suportar chuvas e tempestades. Precisava de calor, de um orvalho suave, de um bafejo primaveril. Nunca careceu de todos estes benefícios. Jesus lhos fez encontrar até debaixo da neve da provação!

Não senti nenhum desgosto por deixar Alençon. Crianças gostam de mudança e com prazer vim para Lisieux. Tenho lembrança da viagem, da chegada pela tarde à casa de minha tia. Vejo ainda Joana e Maria que nos aguardavam à porta... Estava muito satisfeita de ter umas priminhas tão amáveis. Gostava tanto delas como de minha tia, e sobretudo de meu tio; somente que ele me fazia medo e não me sentia tão à vontade em sua casa como nos Buissonnets, onde minha vida era realmente feliz... Logo de manhã vínheis para junto de mim a perguntar-me se já entregara meu coração ao Bom Deus. Em seguida me púnheis a roupa, enquanto me faláveis Dele e depois ao vosso lado fazia minha oração. Depois, vinha a lição de leitura. A primeira palavra que consegui soletrar sozinha foi esta: "Céus". Minha querida madrinha encarregava-se das aulas de caligrafia, e vós, minha Mãe, de todas as outras. Não tinha muita facilidade de aprender, mas dispunha de bastante memória. O catecismo e antes de tudo a história sagrada eram as minhas preferências, estudava-os com alegria. Mas a gramática fazia-me às vezes derramar lágrimas... Estais lembrada do masculino e do feminino?

Logo que terminava a aula, subia ao mirante e levava a papai minha caderneta e minha classificação. Como ficava radiante, quando lhe podia dizer: "Tenho 5 com louvor, foi Paulina a primeira que o declarou!..." Pois, quando vos perguntava se tinha 5 com louvor e vós me dizíeis que sim, aos meus olhos era uma nota a menos. Vós também me dáveis bons pontos, e quando tinha alcançado certo número deles, ganhava um prêmio e uma folga. Lembro-me de 14 que os dias de folga se me afiguravam mais longos do que os demais, o que vos dava prazer, por demonstrar que não apreciava ficar sem nenhuma ocupação.

Todas as tardes ia a pequeno passeio com papai. Fazíamos juntos a nossa visita ao Santíssimo Sacramento, e cada dia visitávamos uma nova igreja. Assim entrei pela primeira vez na capela do Carmelo. Papai mostrou-me as grades do coro, dizendo-me que atrás delas havia religiosas. Muito longe estava de pensar que, nove anos mais adiante, me encontraria entre elas! ...

Depois do passeio (durante o qual papai me comprava sempre um presentinho de um ou dois soldos), recolhia-me em casa. Fazia então minhas lições. A seguir, ficava todo o resto do tempo a saltitar no jardim em volta do papai, pois não sabia brincar com boneca. Para mim era grande alegria preparar chás com grãozinhos e com cascas de árvores que encontrava pelo chão. Levava-os depois ao papai numa linda xícara pequena. O coitado do paizinho largava sua ocupação e depois sorridente fazia de conta que tomava. Antes de me devolver a xícara perguntava-me (como que em segredo) se era para jogar fora o conteúdo. As vezes, dizia que sim, mas o mais frequente era levar de volta meu precioso chá, com a intenção de tornar a servi-lo várias vezes... Gostava de cultivar minhas florzinhas no jardim que papai me tinha dado. Entretinha-me em armar altarzinhos no vão que havia ao centro do muro. Quando terminava a obra, corria a papai e, levando-o comigo, dizia-lhe que fechasse bem os olhos e só os abrisse no momento que lho mandasse. Fazia tudo o que eu queria, e deixava-se conduzir até a frente do meu jardinzinho. Então eu gritava: "Papai, abre os olhos!" Ele abria-os e extasiava-se para me dar prazer, admirando o que eu julgava ser uma obra-prima!... Seria um nunca acabar se quisera contar mil pequenos episódios desse género, que me acodem profusamente à memória... Ah! como poderia enumerar todos os carinhos que "Papai" prodigalizava à sua rainhazinha? Há cousas que o coração sente, mas que a palavra e a própria idéia não conseguem formular...

Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração... A terra parecia-me lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets, Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geleia de fruta que me tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem anuviamento.. .

A propósito de nuvens, lembro-me de que um dia o formoso Céu azul campestre se anuviou e logo começou a zunir a tempestade. Os coriscos sulcavam as nuvens carregadas, e vi cair um raio a pouca distância. Longe de ficar com medo, extasiava-me, tendo a impressão de que o Bom Deus estava tão perto de mim!...

Papai não estava, de modo algum, tão contente como sua rainhazinha. Não que a tempestade lhe incutisse medo, mas porque o capim e os malmequeres (mais altos do que eu) brilhavam como pedrarias preciosas, tendo nós de atravessar vários vergéis antes de chegar a um caminho. E meu querido paizinho, temeroso que os aljôfares molhassem sua filhinha, tomou-a às costas, apesar da carga dos apetrechos de pesca.

Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar a esmola aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se arrastava com dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um óbolo. Mas, não se julgando bastante pobre a ponto de aceitar esmola, ele olhou-me com triste sorriso e não quis pegar o que lhe oferecia. Não consigo descrever o que se passou em meu coração. Quisera consolá-lo e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que o tinha magoado. O pobre doente adivinhou por certo meu pensamento, pois que o vi virar-se para trás e envolver-me num sorriso. Papai acabava de comprar um doce para mim. Bem me veio a vontade de lho dar, mas não tive coragem. Ainda assim queria dar-lhe alguma cousa que não me pudesse refugar, pois sentia por ele uma simpatia muito grande. Ocorreu-me então ter ouvido falar que, no dia da primeira comunhão, a gente obteria tudo o que pedisse. Este pensamento foi um consolo para mim, e disse comigo mesma, embora só tivesse seis anos ainda: "Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão". Cumpri a promessa cinco anos mais tarde, e espero que o Bom Deus tenha atendido a oração que me inspirara a fazer-lhe por um de seus membros sofredores...

Tinha muito amor ao Bom Deus, e amiúde lhe oferecia meu coração, valendo-me da breve fórmula que mamãe me ensinara. No entanto, certo dia, ou melhor, certa noite do lindo mês de Maio, cometi uma falta que bem merece referência. Deu-me grande motivo de humilhar-me, e a respeito dela creio ter tido contrição perfeita. Sendo muito pequena para frequentar o mês de Maria, ficava com Vitória' e fazia com ela minhas devoções diante do meu altarzinho do mês de Maria, adornado de acordo com minha capacidade. -Tudo era tão miudinho: castiçais e vasos de flores, de sorte que dois fósforos, à guisa de velas, clareavam tudo perfeitamente. As vezes, Vitória fazia-me a surpresa de dar-me uns pedacinhos de torcida, mas era caso raro. Uma noite, estando tudo prestes para nos pormos em oração, digo-lhe: "Vitória, queres começar com o "Lembrai-vos", que vou acender". Ela fez menção de começar, mas não disse palavra, e olhava-me rindo. Eu que via meus preciosos fósforos consumirem-se rapidamente, supliquei-lhe fizesse a oração, e ela continuou calada. Levantei-me então e pus-me a dizer-lhe, com voz gritada, que era maldosa, e, abandonando minha habitual brandura batia o pé com toda a minha força... A pobre da Vitória já não tinha vontade de rir. Olhou para mim com estranheza, e mostrou-me as torcidas que me havia trazido... Depois de verter lágrimas coléricas, derramei lágrimas de sincero arrependimento, com o firme propósito de não tornar a fazê-lo!...

(cont.)