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17/11/2015

Temas para meditar - 537

Justiça

Que doce alegria a de pensar que o Senhor é justo, isto é, que conta com as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza!

Por quê, pois, temer?

O bom Deus, infinitamente justo, que Se dignou perdoar com tanta misericórdia as culpas do filho pródigo, não será também justo comigo que estou sempre junto d'Ele.


(Stª teresinha do menino jesus, História de uma alma, cap. 8)

03/10/2015

Temas para meditar - 514

Santidade



Deus não vai inspirar desejos impossíveis de realizar: apesar da minha pequenez nada me impede de aspirar à santidade. 


(Stª teresinha do menino jesus, História de uma alma, LAI, 11ª ed., pg. 191)

09/08/2015

Temas para meditar - 482

Valentia de ser cobarde



A cada nova ocasião de combate, a cada nova provocação do inimigo, porto-me com valentia; sabendo que seria uma cobardia bater-me em duelo, viro costas ao adversário, sem nunca me defrontar com ele...


(Stª teresinha do menino jesus, História de uma alma, LAI, 11ª ed., pg. 199)

16/11/2014

Ev. diário, coment. L. esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXIII Semana
Evangelho: Mt 25 14-30

14 «Será também como um homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos, e lhes entregou os seus bens. 15 Deu a um cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade, e partiu. 16 O que tinha recebido cinco talentos, logo em seguida, foi, negociou com eles, e ganhou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que tinha recebido dois, ganhou outros dois. 18 Mas o que tinha recebido um só, foi fazer uma cova na terra, e nela escondeu o dinheiro do seu senhor. 19 «Muito tempo depois, voltou o senhor daqueles servos e chamou-os a contas. 20 Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: “Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis outros cinco que lucrei”. 21 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 22 Apresentou-se também o que tinha recebido dois talentos, e disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos, eis que lucrei outros dois”. 23 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 24 «Apresentando-se também o que tinha recebido um só talento, disse: “Senhor, sei que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25 Tive receio e fui esconder o teu talento na terra; eis o que é teu”. 26 Então, o seu senhor disse-lhe: “Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei, e que recolho onde não espalhei. 27 Devias pois dar o meu dinheiro aos banqueiros e, à minha volta, eu teria recebido certamente com juro o que era meu. 28 Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos, 29 porque ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que tem. 30 E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.
Comentário: 

A um mendigo que lhe tinha dado um simples copo de água, Alexandre o Grande mandou que lhe dessem o governo de quatro cidades.
Se um imperador da terra – mesmo sendo o maior de todos – paga desta forma um pequeno favor, como será o prémio do Rei dos Reis, o Dono e Senhor de tudo quanto existe?
Tenhamos esta certeza: O Senhor nunca se deixa vencer em generosidade!

(ama, comentário sobre Mt 25, 14-30, 2013.08.31)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA

…/4

Na hora em que tínhamos combinado ficar juntas, ao olhar para mim, a pobre irmãzinha percebeu logo que eu não era a mesma. Sentou-se ao meu lado enrubescendo e eu, apoiando sua cabeça no meu coração, disse-lhe com lágrimas na voz tudo o que pensava dela, mas com expressões de muita ternura, manifestando-lhe tão grande afecto que logo as lágrimas dela misturaram-se às minhas. Admitiu com muita humildade que tudo o que eu lhe dizia era verdade, prometeu iniciar vida nova e pediu como um favor avisá-la sempre das suas faltas. Enfim, no momento de nos separar, nosso afeto passara a ser totalmente espiritual, nada de humano'°' subsistia. Realizava-se em nós esta passagem da Escritura: "O irmão ajudado pelo seu irmão é mais do que uma cidade fortificada".

O que Jesus fez com seu pincelzinho teria sido logo apagado se não tivesse agido por meio de vós, Madre, para realizar sua obra na alma que Ele queria inteiramente para Si. A provação pareceu muito amarga à minha pobre companheira, mas vossa firmeza triunfou e pude então, tentando consolá-la, explicar àquela que me destes por irmã entre todas em que consiste o verdadeiro amor. Mostrei-lhe que era a ela própria que amava e não a vós; disse-lhe como eu vos amava e que sacrifícios fui obrigada a fazer, no início da minha vida religiosa, para não me apegar a vós de maneira totalmente material, como o cachorro se apega a seu dono. O amor alimenta-se de sacrifícios, mais a alma recusa para si satisfações naturais, mais sua ternura se torna forte e desinteressada.

Lembro-me de que, quando postulante, tinha tentações tão violentas de ir vos encontrar para minha satisfação, para achar algumas gotas de alegria, que tinha de passar rapidamente diante do depósito e agarrar-me ao corrimão da escada. Chegavam à minha mente uma porção de permissões a pedir; enfim, Madre querida, encontrava mil motivos para satisfazer a minha natureza... Como estou feliz agora por me ter privado, logo no início da minha vida religiosa. Já usufruo da recompensa prometida aos que combatem corajosamente. Não sinto mais necessidade de me recusar todas as consolações do coração, pois minha alma está consolidada pelo único que eu queria amar. Vejo com satisfação que, amando-o, o coração se dilata e pode dar incomparavelmente mais ternura aos que lhe são caros, do que se tivesse ficado concentrado num amor egoísta e infrutífero.

Madre querida, relatei o primeiro trabalho que Jesus e vós vos dignastes realizar por ruim; era apenas o prelúdio dos que me deviam ser encomendados. Quando me foi dado penetrar no santuário das almas, vi logo que a tarefa ultrapassava as minhas capacidades. Lancei-me, então, nos braços de Deus e, como uma criancinha, escondendo o rosto nos cabelos Dele, disse-Lhe: Senhor, sou pequena demais para alimentar vossas filhas, se quiserdes dar-lhes, por mim, o que convém a cada uma, enchei minha mãozinha e, sem deixar vosso colo, sem desviar a cabeça, darei vossos tesouros à alma que vier pedir alimento. Se ela gostar, saberei que não é de mim, mas de vós que a recebe; se reclamar, não ficarei perturbada, procurarei persuadi-la de que esse alimento vem de vós e evitarei procurar outro para ela.
Madre, desde que entendi ser impossível fazer alguma coisa por mim mesma, a tarefa que me impusestes deixou de me parecer difícil; senti que a única coisa necessária consistia em unir-me sempre mais a Jesus e que o restante me seria dado por acréscimo. De fato, nunca minha esperança me enganou, Deus encheu minha mãozinha todas as vezes que foi necessário para alimentar a alma das minhas irmãs. Confesso, Madre querida, que se me tivesse apoiado, o mínimo que fosse, nas minhas próprias forças teria capitulado... De longe, parece fácil fazer bem às almas, fazê-las amar sempre mais a Deus, modelá-las, enfim, segundo seus próprios pontos de vista e suas idéias pessoais. De perto, é o contrário... sente-se que fazer o bem, sem a ajuda de Deus, é tão impossível quanto fazer o sol brilhar no meio da noite... Sente-se que é absolutamente necessário esquecer as próprias preferências, as concepções pessoais e guiar as almas pelo caminho que Jesus delineou para elas, sem procurar fazê-las caminhar pela nossa via. Não é ainda o mais difícil; o que mais me custa é observar as faltas, as mais leves imperfeições e dar-lhes combate mortal. Ia dizer: infelizmente para mim, mas seria uma covardia, portanto digo: felizmente para minhas irmãs, desde que tornei lugar nos braços de Jesus, sou como o vigilante que, da mais alta torre de uma fortaleza, observa o inimigo. Nada escapa ao meu olhar; fico muitas vezes espantada por enxergar tão bem e acho o profeta Jonas muito desculpável por ter frigido em vez de ir anunciar a ruína de Nínive. Preferiria mil vezes receber recriminações a fazê-las, mas sinto que é necessário que seja um sofrimento, pois quando se age segundo a natureza é impossível que a alma à qual se quer apontar as faltas compreenda os próprios erros; só vê uma coisa: a irmã encarregada de me dirigir está zangada e tudo recai sobre mim, embora eu esteja cheia das melhores intenções.

Sei que vossos cordeirinhos me acham severa. Se lessem estas linhas, diriam que não me parece custar o mínimo correr atrás deles, falar-lhes num tom severo mostrando seu belo velocino sujo ou trazendo algum tufo de lã que deixaram nos espinhos do caminho. Podem dizer tudo o que quiserem, no fundo, sentem que os amo com amor verdadeiro, que nunca faria como o mercenário que, vendo o lobo chegar, abandona o rebanho e foge. Estou pronta a dar minha vida por eles, mas meu afeto é tão puro que não desejo que o conheçam. Com a graça de Jesus, nunca procurei conquistar o coração deles. Compreendi que minha missão consistia em levá-los a Deus e fazê-los compreender que, aqui, vós sois a minha Madre, o Jesus visível que devem amar e respeitar.

Disse, Madre querida, que instruindo os outros muito aprendi. Vi que todas as almas têm de travar, mais ou menos, os mesmos combates, mas são tão diferentes sob outros aspectos, que não tenho dificuldades em compreender o que dizia o padre Pichon: "Há muito mais diferenças entre as almas que entre os rostos". Por isso, é impossível agir da mesma maneira com todas. Com certas almas, sinto que devo fazer-me pequena, não recear diminuir-me, confessar meus combates, meus defeitos; vendo que tenho as mesmas fraquezas que elas, minhas irmãzinhas confessam por sua vez as faltas que pesam sobre elas e ficam satisfeitas por eu compreendê-las por experiência. Com outras, é preciso agir com muita firmeza e nunca voltar ao que foi determinado. Diminuir-se não seria humildade, mas fraqueza. Deus deu-me a graça de não temer a guerra"', preciso cumprir minha obrigação, custe o que custar. Mais de uma vez, ouvi dizer: "Se quiserdes obter alguma coisa de mim, tem de ser pela doçura; pela força, não conseguireis nada". Sei que ninguém é bom juiz em causa própria e que uma criança em quem o médico faz um curativo doloroso não deixará de gritar e dizer que o remédio é pior que o mal. Contudo, fica boa alguns dias depois, feliz por poder brincar e correr. É assim com as almas, reconhecem logo que um pouco de amargo é, às vezes, preferível ao doce e não receiam admitir. Em alguns casos, não deixo de sorrir interiormente vendo as transformações que se operam de um dia para outro. É fantástico... Dizem-me: "Tivestes razão, ontem, em mostrar severidade; no início, isso me revoltou, mas depois me lembrei de tudo e vi que fostes muito justa... Escutai: indo, pensava que estava tudo acabado, dizia para mim mesma: `Vou falar com nossa Madre e dizer a ela que não mais irei com minha Irmã Teresa do Menino Jesus'. Mas senti que era o demônio quem me inspirava aquilo e pareceu-me que estivestes rezando por mim, então, fiquei tranquila e a luz voltou a brilhar; mas agora é preciso que me esclareçais para valer, e é por isso que estou aqui". A conversação inicia logo; fico muito feliz em poder seguir a tendência do meu coração, deixando de servir alimento amargo. Sim, mas ... logo percebo que não é para ter pressa, uma palavra poderia fazer desmoronar o belo edifício construído nas lágrimas. Se eu tiver a infelicidade de dizer uma só palavra que pareça atenuar o que disse ontem, vejo minha irmãzinha tentar agarrar-se aos galhos, faço então uma pequena oração interior e a verdade triunfa sempre. Ah! é a oração, é o sacrifício que fazem toda a minha força, são as armas invisíveis que Jesus me deu. Elas têm muito mais poder que as palavras para sensibilizar as almas, experimentei-as mais de uma vez. Uma, entre todas, causou-me profunda e doce impressão.

Era durante a quaresma e ocupava-me da única noviça que havia aqui e da qual eu era o anjo da guarda. Certa manhã, vem procurar-me, radiante: "Ah! se soubésseis", disse-me, "o que sonhei esta noite. Eu estava perto da minha irmã e queria afastá-la de todas as vaidades de que tanto gosta e, para isso, explicava-lhe os versos: Viver de amor. / Amar-te Jesus, que perda fecunda / Todos os meus perfumes são teus, sem volta. Sentia que minhas palavras penetravam na alma dela e eu ficava extasiada de alegria. Nesta manhã, ao acordar, pensei que Deus, talvez, quisesse que eu lhe desse essa alma. Se lhe escrevesse, depois da quaresma, a fim de contar-lhe meu sonho e dizer-lhe que Jesus a quer só para Ele?"

Eu, sem pensar mais, disse-lhe que podia tentar, mas que antes era preciso pedir autorização à nossa Madre. Como a quaresma estava ainda longe do fim, ficastes, Madre querida, muito surpresa com semelhante pedido, que vos pareceu prematuro. Inspirada por Deus, certamente, respondestes que não é por cartas que as carmelitas devem salvar as almas, mas pela oração.

Ao saber da vossa decisão, compreendi logo que era a de Jesus e disse a Irmã Maria da Trindade: "Precisamos pôr mãos à obra, rezemos muito. Que alegria se, ao final da quaresma, formos atendidas!..." Oh! misericórdia infinita do Senhor, que escuta a oração das suas crianças... No final da quaresma, mais uma alma consagrava-se a Jesus. Era verdadeiro milagre da graça, milagre obtido pelo fervor de uma única noviça!

Como é grande o poder da oração! Parece uma rainha com acesso permanente ao rei e capaz de obter tudo o que pede. Para ser atendido, não é preciso ler uma bela fórmula de circunstância em algum livro; ai! se assim fosse, como eu haveria de lastimar!... Fora o Oficio Divino que sou muito indigna de rezar, falta-me coragem para procurar bonitas orações nos livros, causa-me dor de cabeça, são tantas!... e uma é mais bonita que a outra... Não poderia rezar todas e não saberia qual escolher. Faço como as crianças que não sabem ler, digo simplesmente a Deus o que quero dizer, sem frases bonitas. Ele me compreende sempre... Para mim, a oração e um impulso do coração, um simples olhar para o céu, um grito de gratidão e de amor no meio da provação como no meio da alegria, enfim, é alguma coisa de grande, de sobrenatural que dilata a minha alma e me une a Jesus.

Todavia, não quero, Madre querida, que penseis que eu faço sem devoção as orações em comum, no coro ou nos eremitérios. Pelo contrário, gosto muito das orações em comum, pois Jesus prometeu ficar no meio dos que se reúnem em nome Dele. Sinto, então, que o fervor das minhas irmãs supre o meu; sozinha (tenho vergonha de confessá-lo), a recitação do terço custa-me mais do que usar um instrumento de penitência... Sinto que o recito muito mal; mesmo fazendo esforço para meditar sobre os mistérios do rosário, não consigo fixar minha mente... Durante muito tempo, lastimei essa falta de devoção que me intrigava, pois amo tanto Nossa Senhora que deveria ser-me fácil recitar em honra dela orações que lhe agradam. Agora, lastimo menos, penso que, por ser a minha Mãe, a Rainha dos Céus deve perceber a minha boa vontade e se agrada com ela.

Vez por outra, quando minha mente está em tão grande aridez que me é impossível extrair um pensamento para me unir a Deus, recito muito lentamente um "Pai-nosso" e a saudação angélica; então, essas orações me encantam, alimentam minha alma muito mais do que se as tivesse recitado precipitadamente uma centena de vezes...

Nossa Senhora me mostra não estar zangada comigo, nunca deixa de me proteger quando a invoco. Se me vem uma inquietação, um problema, logo me dirijo a ela e sempre, como a mais terna das Mães, ela toma conta dos meus interesses... Quantas vezes, ao falar às noviças, invoco-a e sinto os favores da sua maternal proteção!...

Freqüentemente, as noviças me dizem: "Mas tendes resposta para tudo; desta vez, pensava embaraçar-vos... onde é que ides buscar o que dizeis?" Há umas tão ingênuas que pensam que leio nas almas delas, só porque me aconteceu preveni-las dizendo o que pensavam. Uma noite, uma das minhas companheiras"' resolve ocultar-me uma pena que a faz sofrer muito. Encontro-a pela manhã, ela me fala com semblante sorridente e eu, sem responder ao que ela me diz, digo-lhe num tom convicto: Estais sofrendo. Se tivesse feito a lua cair aos pés dela, creio que não teria olhado para mim com espanto maior. Seu pasmo foi tanto que me contagiou e, por um instante, fui tomada de um pavor sobrenatural. Tinha certeza de não ter o dom de ler nas almas e ter acertado assim, em cheio, me espantou. Sentia que Deus estava muito perto, que sem perceber dissera, como uma criança, palavras que não vinham de mim, mas Dele.

Madre querida, compreendeis que às noviças tudo é permitido, é necessário que possam dizer o que pensam sem restrição. O bem e o mal. Isso lhes é tanto mais fácil que não me devem o respeito que se dá a uma mestra. Não posso dizer que Jesus me faz caminhar exteriormente pela via das humilhações. Contenta-se em humilhar-me no fundo da minha alma"'. Aos olhos das criaturas, consigo bons resultados em tudo. Ando pelo caminho das honras, na medida em que é possível na vida religiosa. Compreendo que não é para mim, mas para os outros que devo andar por esse caminho que parece tão perigoso. De fato, se eu fosse considerada pela comunidade como uma religiosa cheia de defeitos, incapaz, sem juízo nem inteligência, seria impossível, Madre, fazer-vos ajudar por mim. Eis por que Deus lançou um véu sobre todos os meus defeitos interiores e exteriores. Às vezes, esse véu atrai elogios para mim por parte das noviças. Sinto que não o fazem por adulação, mas que é expressão dos seus ingênuos sentimentos; francamente, isso não poderia inspirar-me vaidade, pois tenho sempre presente à mente a lembrança do que sou. Vez por outra, sou tomada de um desejo muito grande de ouvir outra coisa que não seja elogios. Sabeis, Madre querida, que prefiro o vinagrete ao açúcar e Jesus permite, então, que se lhe sirva uma boa saladinha, bem avinagrada, bem apimentada, nada falta, a não ser o azeite, o que lhe dá um sabor suplementar... Essa boa saladinha me é servida pelas noviças quando menos espero. Deus levanta o véu que esconde as minhas imperfeições e então as minhas queridas irmãzinhas me veem tal como sou e não me acham totalmente do gosto delas. Com uma simplicidade que me encanta, falam-me dos combates em que as coloco, o que lhes desagrada em mim; enfim, não se constrangem mais do que se falassem de outra pessoa, sabendo que me agradam agindo dessa forma. Ah! francamente, é mais que um prazer, é um banquete delicioso"' que enche minha alma de alegria. Não consigo explicar como uma coisa que tanto desagrada à natureza possa causar tanta felicidade; se não a tivesse experimentado, não poderia acreditar... Num dia em que tinha desejado particularmente ser humilhada, uma noviça incumbiu-se tão bem de satisfazer-me que logo pensei em Semei amaldiçoando Davi, e pensava: Sim, é o Senhor que lhe ordena dizer-me essas coisas todas... E minha alma saboreava deliciosamente o alimento amargo que lhe era servido com tanta fartura.

Assim é que Deus se digna cuidar de mim. Nem sempre pode me dar o pão fortificante da humilhação exterior, mas de vez em quando permite que me alimente das migalhas que caem da mesa das crianças. Ah! como é grande a sua misericórdia, só poderei cantá-la no Céu...

Madre querida, sendo que, convosco, começo a cantar na terra essa misericórdia infinita, preciso contar-vos mais um grande favor obtido na missão que me confiastes. Outrora, quando via uma irmã fazer alguma coisa que me desagradava e me parecia irregular, dizia para mim mesma: Ah!, se eu pudesse dizer-lhe o que penso, mostrar-lhe o erro, isso me faria bem. Depois que comecei a praticar um pouco o ofício, asseguro-vos, Madre, que mudei totalmente de sentimento. Quando vejo uma irmã fazer alguma coisa que me parece imperfeita, solto um suspiro de alívio e penso: Que felicidade! Não é uma noviça, não tenho obrigação de repreendê-la. Logo procuro desculpar a irmã e atribuir-lhe umas boas intenções que, sem dúvida, tem para agir dessa forma.

Ah! Madre, depois que fiquei doente, os cuidados que me prodigalizais instruíram-me muito a respeito da caridade. Não há remédio que vos pareça caro demais e, se não dá os resultados esperados, não vos cansais de procurar outro. Quando ia ao recreio, quanta atenção em me colocar ao abrigo das correntezas de ar; enfim, se eu quisesse contar tudo, não acabaria nunca.

Pensando em todas essas coisas, disse para mim mesma que deveria ser tão compassiva com as enfermidades espirituais das minhas irmãs quanto vós o sois ao cuidar de mim com tanto amor.

Observei (e é bem natural) que as irmãs mais santas são as amadas, procura-se a conversação delas, prestam-se serviços a elas sem que tenham de pedi-los, enfim, essas almas capazes de suportar faltas de consideração, de delicadezas, vêem-se cercadas pelo afeto de todas. Pode-se aplicar a elas as seguintes palavras do nosso Pai, são João da Cruz: Todos os bens me foram dados quando não os procurei mais por amor-próprio.

Ao contrário, as almas imperfeitas não são procuradas. Permanece-se, sem dúvida, dentro dos limites da cortesia religiosa, mas receando, talvez, dizer-lhes algumas palavras pouco amáveis, evita-se a companhia delas. Ao mencionar almas imperfeitas não estou me referindo apenas às imperfeições espirituais, pois as mais santas só serão perfeitas no Céu, refiro-me à falta de juízo, de educação, à suscetibilidade de alguns temperamentos, todas coisas que não tornam a vida agradável. Sei que essas enfermidades morais são crônicas, sem esperança de cura, mas sei que minha Madre não deixaria de cuidar de mim, de procurar aliviar-me, se ficasse doente a vida toda. Eis a conclusão a que cheguei: devo procurar, no recreio, na licença, a companhia das irmãs que me são menos agradáveis, desempenhar junto a essas almas feridas o ofício de boa samaritana. Uma palavra, um sorriso amável são muitas vezes suficientes para alegrar uma alma triste. Mas não é absolutamente para alcançar essa meta que quero praticar a caridade, pois sei que logo desanimaria: uma palavra que eu teria proferido com a melhor das intenções seria, talvez, interpretada erroneamente. Por isso, a fim de não perder meu tempo, quero ser amável com todas (e particularmente com as irmãs menos amáveis) para alegrar Jesus e responder ao conselho que me dá no Evangelho, mais ou menos nos seguintes termos: "Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os ricos vizinhos; de outro modo eles também convidar-te-iam e terias uma retribuição. Mas, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos; è serás feliz, porque eles não terão como retribuir-te; mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos".

Que banquete poderia uma carmelita oferecer às suas irmãs, a não ser uma refeição espiritual composta de caridade amável e alegre? Pessoalmente, não conheço outro e quero imitar são Paulo, que se alegrava com quem estava alegre. Verdade que também chorava com os aflitos e as lágrimas devem aparecer, às vezes, no banquete que quero servir, mas sempre procurarei que essas lágrimas se transformem, no final, em alegria; pois o Senhor ama quem dá com alegria.

Recordo-me de um ato de caridade que Deus me inspirou fazer quando ainda era noviça. Era pouca coisa, mas nosso Pai, que vê o que é secreto, que olha mais para a intenção do que para o vulto da ação, já me recompensou sem esperar a outra vida. Era no tempo em que irmã São Pedro ainda ia ao coro e ao refeitório. Para a oração vespertina, estava acomodada à minha frente: às 15h50, uma irmã devia levá-la ao refeitório, pois as enfermeiras tinham então muitas doentes e não podiam levá-la. Custava-me muito oferecer-me para prestar esse pequeno serviço, pois sabia não ser fácil contentar essa pobre irmã São Pedro, que sofria tanto que não gostava de mudar de condutora. Mas eu não queria perder tão boa ocasião de praticar a caridade, lembrando-me de que Jesus disse: "Tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fareis". Ofereci-me, portanto, muito humildemente, para levá-la. Não foi sem dificuldade que consegui fazê-la aceitar meu serviço! Enfim, pus mãos à obra e tinha tão boa vontade que consegui perfeitamente.

Toda tarde, quando via irmã São Pedro sacudir sua ampulheta, sabia o que aquilo significava: partamos. É incrível como me era custoso dispor-me a levá-la, sobretudo no início. Assim mesmo, fazia-o imediatamente e começava todo um cerimonial. Era preciso mover e levar o banco de um jeito preestabelecido, sobretudo, não se apressar; depois, empreendia-se o passeio. Tratava-se de seguir a pobre enferma segurando-a pela cintura, o que eu fazia com a maior delicadeza possível; mas se, por infelicidade, ela dava um passo em falso parecia-lhe logo que não a segurava direito e que ela ia cair. "Ah!, meu Deus! andais depressa demais, vou me arrebentar." Se eu procurava andar mais devagar: "Mas me acompanhai, não sinto mais a vossa mão, ides largar-me, vou cair, ah! bem sabia que sois jovem demais para me levar". No final, chegávamos sem incidente ao refeitório. Aí surgiam novas dificuldades, pois era preciso fazê-la sentar e agir com jeito para não machucá-la. Depois, era preciso arregaçar suas mangas (ainda de uma maneira predeterminada). Depois, ficava livre para ir. Com mãos estropiadas, ela ajeitava, como podia, o pão em seu godê. Logo percebi e, toda noite, só a deixava após ter-lhe prestado mais esse servicinho. Como não me tinha pedido para fazê-lo, ficou muito comovida e foi por esse gesto, que eu não tinha planejado, que conquistei seu afeto e sobretudo (soube mais tarde) porque, depois de ter cortado o pão, despedia-me dela com meu mais lindo sorriso.

Madre querida, talvez estejais surpresa por eu relatar esse pequeno acto de caridade, acontecido há tanto tempo. Ah! o fiz porque sinto que preciso cantar, por causa dele, as misericórdias do Senhor. Dignou-se conservar a lembrança em mim, como um perfume que me incita a praticar a caridade. Recordo-me, às vezes, de certos pormenores que são para minha alma como uma brisa primaveril. Eis mais um que me vem à memória: numa tarde de inverno, cumpria, como de costume, meu pequeno ofício. Fazia frio, estava escuro... de repente, ouvi ao longe o som harmonioso de um instrumento musical. Imaginei, então, um salão bem iluminado, brilhante de ouro, moças elegantemente vestidas trocando gentilezas mundanas; meu olhar desviou-se para a pobre doente que eu sustentava. Em vez de melodia, ouvia, de vez em quando, seus gemidos plangentes, em vez de douração, via os tijolos do nosso claustro austero, iluminado por luz fraca. Não pude expressar o que se passou na minha alma, sei que o Senhor a iluminou com os raios da verdade, que superaram tanto o tenebroso brilho das festas da terra que não podia acreditar na minha felicidade... Ah! para gozar mil anos das festas mundanas, não teria dado os dez minutos empregados na execução do meu ofício de caridade... Se já no sofrimento, no meio da luta, pode-se gozar por um instante de uma felicidade que ultrapassa todas as felicidades da terra, pensando que Deus retirou-nos do mundo, como será no Céu, quando virmos, no seio da alegria e do repouso eterno, a graça incomparável que o Senhor nos fez escolhendo-nos para morar em sua casa, verdadeiro pórtico dos Céus?...
(cont)




09/11/2014

Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXII Semana

Evangelho: Jo 2 13-22

13 Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 14 Encontrou no templo vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados às suas mesas. 15 Tendo feito um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo, e com eles as ovelhas e os bois, deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou as suas mesas. 16 Aos que vendiam pombas disse: «Tirai isto daqui, não façais da casa de Meu Pai casa de comércio». 17 Então lembraram-se os Seus discípulos do que está escrito: “O zelo da Tua casa Me consome”. 18 Tomaram então a palavra os judeus e disseram-Lhe: Que sinal nos mostras para assim procederes?». 19 Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e o reedificarei em três dias». 20 Replicaram os judeus: «Este templo foi edificado em quarenta e seis anos, e Tu o reedificarás em três dias?». 21 Ora Ele falava do templo do Seu corpo. 22 Quando, pois, ressuscitou dos mortos os Seus discípulos lembraram-se do que Ele dissera e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus tinha dito.

Comentário: 

Na ‘densidade’ dos mistérios da humanidade, a sua existência terrena e, depois, a eterna, avulta esta questão que nos pomos: como será o nosso corpo ressuscitado?
Questão interessante mas cuja resposta não encontraremos com facilidade.
Que o nosso corpo ressuscitará para se unir à alma e assim, novamente unidos, viverem para todo o sempre é uma verdade fundamental da nossa fé e, por princípio, as verdades fundamentais não se questionam exactamente porque são o fundamento sem o qual a fé não existe.
Deixemos nas mãos de Deus Todo-Poderoso a ‘solução’ destas questões e, nós, limitemo-nos a dizer, como no Credo: eu creio!

(ama, comentário sobre Jo 2, 13-22, 2011.11.09)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte IV

…/6

Naturalmente, Celina pensou logo no dia da minha tomada de véu. Para não cansá-lo, dizia ela, não deixarei que assista à cerimónia inteira, só no final irei buscá-lo e o levarei devagar até a grade para que Teresa receba sua bênção. Ah! como vejo bem aí o coração da minha Celina querida... como é verdade que "o amor não vê impossibilidade porque pensa que tudo lhe é possível e permitido"... A prudência humana, ao contrário, treme a cada passo e não ousa, por assim dizer, dar um passo. Querendo provar-me, Deus serviu-se dela como de um instrumento dócil e, no dia das minhas núpcias, fiquei verdadeiramente órfã, não tendo mais Pai na terra, mas podendo olhar para o Céu confiante e dizer com toda a verdade: "Pai Nosso que estais no Céu".

Antes de falar-vos dessa provação, Madre querida, deveria ter-vos falado do retiro que antecedeu minha profissão; não me trouxe consolações, mas a mais absoluta aridez, quase o abandono. Jesus dormia como sempre no meu barquinho; ah! vejo que raramente as almas o deixam dormir sossegado nelas. Jesus fica tão cansado de sempre dar os primeiros passos e pagar as contas, que se apressa em aproveitar o descanso que eu lhe propicio. Provavelmente não acordará antes do meu grande retiro de eternidade, mas, em vez de causar-me tristeza, isso me alegra extremamente...

Verdadeiramente, estou longe de ser santa, só isso o prova bem; em vez de me regozijar com a minha aridez, deveria atribuí-la a minha falta de fervor e de fidelidade, deveria ficar aflita por dormir (há sete anos) durante minhas orações e minhas acções de graças, mas não, não me aflijo... penso que as criancinhas agradam tanto seus pais quando dormem como quando estão acordadas, penso que para fazer cirurgias os médicos adormecem seus pacientes. Enfim, penso que: "O Senhor vê nossa fragilidade, que Ele não perde de vista que só somos pó".

Meu retiro de profissão foi, portanto, igual a todos os que fiz depois, um retiro de grande aridez. Mas Deus mostrava-me, claramente, sem eu o perceber, o meio de Lhe agradar e de praticar as mais sublimes virtudes. Notei muitas vezes que Deus não quer dar-me provisões, alimenta-me a cada momento com alimento novo, encontro-o em mim, sem saber como chegou... Creio simplesmente que é o próprio Jesus, oculto no fundo do meu coraçãozinho que me faz a graça de agir em mim e me leva a pensar tudo o que Ele quer que eu faça no presente momento.

Alguns dias antes da minha profissão, tive a felicidade de obter a bênção do Soberano Pontífice; tinha-a solicitado por intermédio do bom irmão Simião para Papai e para mim. Foi um grande consolo poder propiciar a meu Paizinho querido a graça que ele me tinha dado levando-me a Roma.

Enfim, chegou o belo dia das minhas núpcias. Foi sem nuvem, mas na véspera levantou-se em minha alma uma tempestade como nunca tinha visto... Nenhuma dúvida quanto à minha vocação tinha surgido antes, precisava passar por essa provação. De noite, ao fazer minha via-sacra após matinas, minha vocação apareceu-me como um sonho, uma quimera... achava a vida do Carmelo muito bonita, mas o demónio me assegurava que não era para mim, que eu enganaria meus superiores prosseguindo num caminho que não era para mim... Minhas trevas eram tão grandes, que não via e só compreendia uma coisa: não tinha essa vocação!... Ah! como descrever a angústia da minha alma?... Tinha impressão (coisa absurda que mostra bem que essa tentação vinha do demônio) de que se falasse dos meus temores para minha mestra ela me impediria de fazer meus santos votos; mas eu queria fazer a vontade de Deus e voltar para o mundo de preferência a ficar no Carmelo fazendo a minha. Fiz minha mestra sair e, cheia de confusão, contei-lhe o estado da minha alma... Felizmente, ela enxergou melhor que eu e me tranquilizou completamente. Aliás, o ato de humildade que eu tinha feito acabava de afugentar o demónio, que talvez pensasse que eu não ia ousar confessar a minha tentação; logo que acabei de falar, minhas dúvidas se foram. Mas, para tornar meu acto de humildade mais completo, quis confiar minha estranha tentação à nossa Madre, que se contentou em rir de mim.

Na manhã de 8 de Setembro senti-me inundada por um rio de paz e foi nessa paz, "ultrapassando qualquer sentimento", que pronunciei meus santos votos... Minha união com Jesus fez-se, não em meio a trovões e relâmpagos, isto é, a graças extraordinárias, mas no meio de uma leve brisa parecida àquela que nosso Pai santo Elias ouviu na montanha... Quantas graças pedi naquele dia!... Sentia-me verdadeiramente Rainha, e aproveitei do meu título para liberar cativos, obter favores do meu Rei para com seus súditos ingratos, enfim, queria libertar todas as almas do purgatório e converter os pecadores... Rezei muito por minha Madre, minhas irmãs queridas... pela família toda, mas sobretudo por pneu paizinho tão provado e tão santo ... Ofereci-me a Jesus, a fim de que cumprisse perfeitamente em mim a sua vontade sem que nunca as criaturas impusessem obstáculos...

Esse belo dia, à semelhança dos mais tristes, passou, sendo que os mais radiantes também têm o dia seguinte. Mas foi sem tristeza que depositei minha coroa aos pés de Nossa Senhora, sentia que o tempo não levaria embora a minha felicidade... Que festa bonita foi a da Natividade de Maria para vir a ser a esposa de Jesus! Era a pequena Santíssima Virgem que apresentava sua pequena flor ao menino Jesus... Naquele dia, tudo era pequeno, fora as graças e a paz que recebi, fora a alegria calma que senti de noite ao olhar as estrelas brilharem no firmamento, pensando que em breve o belo Céu iria se abrir para meus olhos maravilhados e poderia unir-me a meu Esposo no seio de uma alegria eterna...

No dia 24, houve a cerimónia da minha tomada de véu. Foi inteiramente coberta de lágrimas... Papai não estava para abençoar sua rainha... O padre estava no Canadá... Sua Excelência, que devia vir e almoçar na casa do meu tio, ficou doente e não veio, enfim, tudo foi tristeza e amargura... Porém, a paz, sempre a paz encontrava-se no fundo do cálice ... Naquele dia, Jesus permitiu que eu não pudesse segurar as lágrimas, que não foram compreendidas... de facto, eu tinha suportado sem chorar provações muito maiores, mas então era ajudada por uma graça poderosa. No dia 24, pelo contrário, Jesus deixou-me entregue às minhas próprias forças e mostrei como eram pequenas.

Oito dias depois da minha tomada de véu, houve o casamento de Joana. Dizer-vos, querida Madre, como seu exemplo me instruiu a respeito das delicadezas que uma esposa deve prodigalizar ao esposo ser-me-ia impossível. Escutava ávida tudo o que eu podia aprender, pois não podia fazer menos por meu Jesus amador" do que Joana por Francis, criatura sem dúvida muito perfeita, mas criatura!...
Brinquei de compor um convite para compará-lo ao dela. Eis como era:


Convite para o Casamento de irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face


O Deus todo-poderoso, Criador do céu e da terra, soberano Dominador do mundo, e a Gloriosíssima Virgem Maria, Rainha da Corte Celeste, têm o prazer de vos participar o casamento do seu Augusto Filho Jesus, Reis dos Reis e Senhor dos Senhores, com a Senhorita Teresa Martin, agora Senhora Princesa dos reinos trazidos em dote pelo seu divino Esposo, a saber: a Infância de Jesus e sua Paixão, sendo seus títulos: do Menino Jesus e da Sagrada Face.
O senhor Louis Martin, Proprietário e Dono dos Senhorios do Sofrimento e da Humilhação, e a Senhora Martin, Princesa e Dama de Honra da Corte Celeste, querem vos anunciar o casamento de sua Filha, Teresa, com Jesus, o Verbo de Deus, segunda Pessoa da Adorável Trindade, que, por obra do Espírito Santo, se fez Homem e Filho de Maria, a Rainha dos Céus.


Não podendo ter-vos convidado para a bênção nupcial que lhe foi dada sobre a montanha do Carmelo, em 8 de Setembro de 189O (só a corte celeste foi admitida), estais convidados, porém, a participar da festa que será dada amanhã, Dia da Eternidade, Dia em que Jesus, Filho de Deus, virá sobre as nuvens do Céu no esplendor da sua Majestade, a fim de julgar os Vivos e os Mortos.


Devido à incerteza da hora, sois convidados a permanecer de prontidão e aguardar.

Agora, Madre querida, o que resta para vos dizer? Ah! pensava ter concluído, mas nada vos disse ainda da minha felicidade por ter conhecido nossa Santa Madre Genoveva... É uma graça sem preço essa; Deus, que me dera tantas graças, ainda quis que eu vivesse com uma santa, não inimitável, mas uma Santa santificada por virtudes ocultas e comuns... Mais de uma vez recebi dela grandes consolações, sobretudo num Domingo. Indo, como de costume, fazer-lhe uma pequena visita, encontrei duas irmãs com Madre Genoveva. Olhei sorrindo para ela e preparava-me para sair, por não podermos ficar três perto de uma doente, olhou-me com ar inspirado e me disse: "Aguardai, filhinha, vou dizer-vos apenas uma palavrinha. Cada vez que vindes, pedistes-me para vos dar um buquê espiritual, bem, hoje, vou dar-vos o seguinte: servi a Deus na paz e na alegria, lembrai-vos, boa filha, que nosso Deus é o Deus da Paz". Depois de simplesmente agradecer-lhe, saí emocionada até as lágrimas e, convicta de que Deus lhe revelara o fundo da minha alma, pois naquele dia eu estava extremamente provada, quase triste, numa noite tal que não sabia mais se eu era amada de Deus, mas a alegria e a consolação que sentia, as adivinhais, querida Madre!...

No domingo seguinte, quis saber que revelação Madre Genoveva tivera, assegurou-me não ter recebido nenhuma. Então, minha admiração foi ainda maior, vendo em que eminente grau Jesus vivia nela e a fazia agir e falar. Ah! essa santidade parece-me a mais verdadeira, a mais santa e é essa que eu desejo, pois nela não há ilusão ...

No dia da minha profissão, consolou-me saber dela que também passara pela mesma provação que eu antes de fazer seus votos... No momento das nossas grandes penas, recordai, Madre querida, as consolações que encontramos junto dela? Enfim, a lembrança de Madre Genoveva deixou em meu coração uma recordação perfumada... No dia da sua partida para o Céu, senti-me particularmente emocionada. Era a primeira vez que eu assistia a uma morte. Verdadeiramente, esse espectáculo era encantador... Fiquei ao pé da cama da santa moribunda, via perfeitamente seus mais leves movimentos. Pareceu-me, durante as duas horas que ali passei, que minha alma deveria ter sentido muito fervor. Pelo contrário, uma espécie de insensibilidade apoderara-se de mim. Mas no exacto momento do nascimento da nossa Santa Madre Genoveva no Céu, minha disposição interior mudou. Num piscar de olhos, senti-me repleta de uma alegria e de um fervor indizíveis, era como se Madre Genoveva me desse uma parte da felicidade que ela gozava, pois estou certa de que foi directamente para o Céu... Durante sua vida, disse a ela uma vez: "Oh -Madre! não passareis pelo purgatório!...'' "Também espero", respondeu-me com doçura... Ali! certamente Deus não ludibriou uma esperança tão cheia de humildade; todos os favores que recebemos são a prova... Cada irmã se apressou em pedir alguma relíquia; sabeis, querida Madre, a que tenho a felicidade de possuir... Durante a agonia de Madre Genoveva, vi uma lágrima brilhar na sua pálpebra, como um diamante, essa lágrima, a última de todas aquelas que derramou, não caiu, via-a brilhar ainda no coro, sem que ninguém pensasse em recolhê-la. Então, peguei um pequeno pano fino, atrevi-me em me aproximar, de noite, sem ser vista e para retirar uma relíquia, a última lágrima de uma Santa... Desde então, sempre a carrego no saquinho onde guardo meus votos.

Não dou importância aos meus sonhos, aliás, tenho poucos significativos e até me pergunto como é que, pensando em Deus o dia todo, não penso mais Nele durante meu sono... de costume, sonho com matas, flores, riachos, o mar e quase sempre vejo lindas criancinhas, pego borboletas e passarinhos tais como nunca vi. Estais vendo, Madre, que meus sonhos têm jeito poético, mas estão longe, de ser místicos...

Manuscrito "A" - Parte VI

Uma noite, após a morte de Madre Genoveva, tive um mais consolador. Sonhei que fazia seu testamento, dando a cada irmã uma coisa que lhe pertencera; quando chegou minha vez, pensava nada receber, pois não lhe sobrava nada, mas, erguendo-se, disse-me três vezes, num tom penetrante: "A vós, deixo meu coração".

Um mês depois da partida da nossa santa Madre, começou uma epidemia de gripe na comunidade. Só eu e mais duas irmãs ficamos de pé. Naquela época, eu estava sozinha para cuidar da sacristia, a primeira encarregada estava gravemente doente. Eu devia preparar os enterros, abrir as grades do coro durante as missas etc. Naquele momento, Deus me deu muitas graças de força; pergunto-me agora como pude fazer tudo o que fiz sem temor, a morte reinava em todo lugar, as mais doentes eram tratadas pelas que apenas conseguiam se arrastar. Logo que uma irmã soltava o último suspiro, éramos obrigadas a deixá-la sozinha. Numa manhã, ao me levantar, tive o pressentimento de que Irmã Madalena estava morta, o dormitório estava escuro, ninguém saía das celas. Por fim, decidi-me a entrar na de Irmã Madalena, cuja porta estava aberta; de fato, vendo-a vestida e deitada numa enxerga, não tive o menor medo. Vendo que ela não tinha vela, fui buscar uma e a coroa de rosas.

Na noite da morte da Madre Vice-Priora, eu estava sozinha com a enfermeira; é impossível imaginar o triste estado da comunidade naquele momento, só as que estavam de pé podem ter ideia, mas no meio daquele abandono sentia que Deus velava por nós. As moribundas passavam sem esforço para a eternidade. Logo depois da morte, uma expressão de alegria e de paz espalhava-se em seus traços, parecia um sono repousante. De facto o era, pois após o cenário deste mundo que passa acordarão para usufruir eternamente das delícias reservadas aos eleitos...

Durante todo o tempo em que a comunidade foi provada dessa forma, pude ter a inefável consolação de comungar todos os dias... Ah! como era bom!... Jesus me mimou muito tempo, mais tempo que suas fiéis esposas, pois permitiu que me fosse dado sem as outras terem a felicidade de recebê-Lo. Estava também muito feliz por poder tocar nos vasos sagrados, por preparar os paninhos destinados a receber Jesus. Sentia que precisava ser muito fervorosa e lembrava-me com frequência esta palavra dirigida a um santo diácono: "Sede santo, vós que levais os vasos do Senhor".

Não posso dizer que recebi frequentes consolações durante minhas ações de graças; talvez seja o momento em que tenho menos... Acho isso muito natural, pois ofereci-me a Jesus não como uma pessoa que deseja receber a visita Dele para a própria consolação mas, pelo contrário, para o prazer de Quem se dá a mim. Vejo minha alma como território livre e peço a Nossa Senhora que tire o entulho que poderia impedi-la de ser livre, depois suplico-lhe que erga uma ampla tenda digna do Céu, enfeite-a com seus próprios adornos e convido todos os santos e anjos para vir dar um concerto magnífico".

Quando Jesus desce ao meu coração, tenho a impressão de que Ele fica contente por ser tão bem recebido e eu também fico contente... Tudo isso não impede as distracções e o sono de vir visitar-me. Mas ao terminar a acção de graças, vendo que a fiz tão mal, tomo a resolução de passar o resto do dia em ação de graças... Estais vendo, Madre querida, que estou muito longe de ser levada pelo temor, sempre encontro o meio de ser feliz e tirar proveito das minhas misérias... Sem dúvida, isso não desagrada a Jesus, pois parece encorajar-me nessa via. Um dia, contrariamente a meu hábito, estava um pouco perturbada ao ir comungar, tinha impressão de que Deus não estava contente comigo e pensava: "Ah! se hoje eu receber só metade de uma hóstia, vou ficar muito aflita, vou crer que Jesus vem forçado ao meu coração". Aproximo-me... oh felicidade! pela primeira vez na minha vida, vejo o padre pegar duas hóstias, bem separadas, e dá-Ias a mim!... Compreendeis minha alegria e as doces lágrimas que derramei vendo tão grande misericórdia...

No ano seguinte à minha profissão, isto é, dois meses antes da morte de Madre Genoveva, recebi grandes graças durante o retiro.

Ordinariamente, os retiros pregados são-me mais dolorosos que os que faço sozinha, mas naquele ano foi diferente. Tinha feito uma novena preparatória com muito fervor, apesar do sentimento íntimo que me animava, pois tinha a impressão de que o pregador não saberia compreender-me, por ser destinado sobretudo aos grandes pecadores, mas não às almas religiosas. Querendo Deus mostrar-me que só Ele era o director da minha alma, serviu-se justamente desse padre que não foi apreciado por mim... Tinha então grandes provações interiores de diversos tipos (até me perguntar, às vezes, se o Céu existe). Sentia-me disposta a nada dizer sobre minhas disposições interiores, não sabendo como expressá-las; logo que entrei no confessionário, senti a minha alma dilatar-se. Depois de falar poucas palavras, fui compreendida de modo maravilhoso e até adivinhada... minha alma parecia um livro no qual o padre lia melhor do que eu mesma... Lançou-me de velas desfraldadas nas ondas da confiança e do amor que me atraíam com muita força, mas nas quais não ousava avançar... Disse-me que minhas faltas não entristeciam a Deus, que, estando no lugar Dele, me dizia em nome Dele que estava muito satisfeito comigo...

(cont.)




07/11/2014

Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 16 1-8

1 Disse também a Seus discípulos: «Um homem rico tinha um feitor, que foi acusado diante dele de ter dissipado os seus bens. 2 Chamou-o, e disse-lhe: Que é isto que eu oiço dizer de ti? Dá conta da tua administração; não mais poderás ser meu feitor. 3 Então o feitor disse consigo: Que farei, visto que o meu senhor me tira a administração? Cavar não posso, de mendigar tenho vergonha. 4 Já sei o que hei-de fazer, para que, quando for removido da administração, haja quem me receba em sua casa. 5 E, chamando cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? 6 Ele respondeu: Cem medidas de azeite. Então disse-lhe: Toma o teu recibo, senta-te e escreve depressa cinquenta. 7 Depois disse a outro: Tu quanto deves? Ele respondeu: Cem medidas de trigo. Disse-lhe o feitor: Toma o teu recibo e escreve oitenta. 8 E o senhor louvou o feitor desonesto, por ter procedido sagazmente. Porque os filhos deste mundo são mais hábeis no trato com os seus semelhantes que os filhos da luz».

Comentário: 

“Jesus diz: não ando com eles para ser como eles mas para os fazer iguais a Mim” (capelão das Irmãzinhas dos Pobres, homília sobre o ev. de hoje).

Dá-nos que pensar este trecho do Evangelho de São Lucas que, como sempre, é absolutamente claro no que escreve. A ‘chave’ está exactamente na última frase: não será por sermos discípulos e seguidores de Cristo que devemos deixar de cuidar das coisas terrenas no que a nós nos diz pessoalmente respeito e mais nos deve preocupar, a nossa salvação eterna.

(ama, comentário sobre Lc 16, 1-8, 2014.10.06)

Leitura espiritual




HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte IV

…/4

Minha alma estava mergulhada na tristeza mas, por fora, permanecia a mesma, pois pensava que não se sabia do pedido que eu tinha feito ao Santo Padre. Logo, porém, constatei o contrário. Tendo ficado no vagão, a sós com Celina (os outros romeiros tinham descido para um lanche durante os poucos minutos de parada), vi o padre Legoux, vigário-geral de Coutances, abrir a portinhola e, olhando-me sorridente, dizer: "Como vai nossa pequena carmelita?..." Soube então que todas as pessoas da romaria sabiam do meu segredo. Felizmente, ninguém comentou comigo, mas vi, pela maneira simpática de me olhar, que meu pedido não tinha produzido má impressão, pelo contrário... Na pequena cidade de Assis, tive oportunidade de subir no mesmo carro que o padre Révérony, favor que não foi concedido a nenhuma senhora durante a viagem toda. Eis como obtive esse privilégio.

Após ter visitado os lugares perfumados pelas virtudes de são Francisco e de santa Clara, terminamos pelo mosteiro de santa lnês, irmã de santa Clara. Tinha contemplado à vontade a cabeça da santa quando, uma das últimas a me retirar, percebi ter perdido meu cinto. Procurei-o no meio do povo, um padre teve pena de mim e me ajudou. Mas, depois de lê-lo achado, vi-o afastar-se e fiquei sozinha procurando, pois embora tivesse encontrado o cinto não podia colocá-lo, porque faltava a fivela... Enfim, vi-a brilhar num canto; não demorei em ajustá-la à fita. Mas o trabalho anterior havia demorado mais e percebi estar sozinha ao lado da igreja, todos os carros tinham ido embora, excepto o do padre Révérony. Que fazer? Devia correr atrás dos carros que não via mais, arriscar-me a perder o trem e colocar meu papai querido na inquietação, ou pedir boleia na caleche do padre Révérony? Optei pela última solução. Com a cara mais graciosa e menos constrangida possível, apesar do meu extremo embaraço, expus-lhe. minha situação crítica e o coloquei, por sua vez, em situação difícil, pois seu carro estava lotado com os mais distintos senhores da romaria, impossível encontrar um lugar; porém, um cavalheiro apressou-se em descer, fez-me subir no seu lugar e colocou-se modestamente perto do cocheiro. Parecia um esquilinho pego numa armadilha e estava longe de me sentir à vontade, cercada por todos esses personagens e, sobretudo, do mais temível, diante do qual assentei-me... Todavia, ele foi muito amável comigo, interrompendo, de vez em quando, sua conversação com os senhores para falar-me do Carmelo. Antes de chegar à estação, todos os grandes personagens sacaram suas grandes carteiras a fim de dar dinheiro ao cocheiro (já pago). Fiz como eles e tirei minha diminuta carteira, mas o padre Révérony não me deixou pegar bonitas moedinhas, preferiu dar uma grande por nós dois.

Numa outra ocasião, encontrei-me ao lado dele num ónibus. Foi ainda mais amável e prometeu fazer tudo o que pudesse para meu ingresso no Carmelo... Mesmo com esse bálsamo todo sobre minhas feridas, esses pequenos encontros não impediram que a volta fosse menos agradável que a ida, pois não tinha mais a esperança "do Santo Padre". Não encontrava ajuda nenhuma na terra, que me parecia ser um deserto árido e sem água. Toda a minha esperança estava unicamente em Deus... Acabava de experimentar que é melhor recorrer a Ele que a seus santos...

A tristeza da minha alma não me impedia de sentir grande interesse pelos santos lugares que visitávamos. Em Florença, fiquei feliz em contemplar santa Madalena de Pazzi no meio do coro das carmelitas, que abriram a grande grade para nós. Como não sabíamos que teríamos esse privilégio, muitas pessoas desejavam encostar seus terços no túmulo da santa. Só eu conseguia passar a mão pela grade que nos separava dele, portanto, todos me traziam seus terços e eu estava muito contente com meu ofício... Eu precisava sempre encontrar o meio de mexer em tudo. Assim também na igreja de Santa Cruz de Jerusalém (em Roma), onde pudemos venerar diversos pedaços da verdadeira Cruz, dois espinhos e um dos cravos sagrados mantidos num magnífico relicário em ouro lavrado, mas sem vidro; foi-me possível, ao venerar a preciosa relíquia, enfiar meu dedinho num dos orifícios do relicário e tocar o cravo que fora banhado com o sangue de Jesus... Francamente, era audaciosa demais!... Felizmente, Deus, que vê o fundo dos corações, sabe que minha intenção era pura e que por nada neste mundo teria querido desagradar-lhe. Comportava-me com Ele como uma criança que acredita que tudo lhe é permitido e olha os tesouros de seu pai como sendo dela. Ainda não consegui entender porque as mulheres são tão facilmente excomungadas na Itália. A cada instante, diziam-nos: "Não entrem aqui... Não entrem aí, seriam excomungadas!..." Ah! pobres mulheres, como são desprezadas!... Todavia, são muito mais numerosas em amar a Seus e, durante a Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem que os apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos soldados e atreveram-se a enxugar a Face adorável de Jesus... É sem dúvida por isso que Ele permite que o desprezo seja a herança delas na terra, sendo que Ele o escolheu para Si mesmo....

No Céu, saberá mostrar que as ideias Dele não se confundem com as dos homens, pois então as últimas serão as primeiras... Mais de uma vez, durante a viagem, não tive a paciência de esperar pelo Céu para ser a primeira... Num dia em que visitávamos um mosteiro de padres carmelitas, não estando satisfeita em acompanhar os romeiros nos corredores exteriores, adentrei os claustros internos... De repente, vi um bom velho carmelita que me fazia sinal, de longe, para me afastar. Em vez de voltar, aproximei-me dele mostrando os quadros do claustro e dizendo, por sinal, que eram bonitos. Ele percebeu, sem dúvida pelos meus cabelos soltos e meu ar jovem, que eu não passava de uma criança; sorriu-me com bondade e se afastou, ciente de que não tinha enfrentado uma inimiga. Se eu soubesse falar italiano, ter-lhe-ia dito ser uma futura carmelita, mas por causa dos construtores da torre de Babel isso não foi possível.

Depois de ter visitado Pisa e Génova, voltamos à França. No percurso, a vista era magnífica. Às vezes, íamos pela beira-mar e a ferrovia passava tão perto que dava a impressão de que as ondas iam nos alcançar. Esse espectáculo foi causado por uma tempestade. Era noite, o que tornava a cena ainda mais imponente. Outras vezes, planícies cobertas de laranjais com frutas maduras, verdes oliveiras com folhagem leve, palmeiras graciosas... no fim da tarde, víamos numerosos pequenos portos marítimos iluminar-se com milhares de luzes, enquanto no Céu brilhavam as primeiras estrelas... Ah! que poesia enchia minha alma vendo todas essas coisas pela primeira e última vez na minha vida!... Era sem pena que as via esvair-se, meu coração aspirava a outras maravilhas. Ele tinha contemplado suficientemente as belezas da terra, as do Céu eram objeto dos seus desejos e para dá-las às almas queria tornar-me prisioneira!... Antes de ver abrir-se diante de mim as portas da prisão abençoada com a qual sonhava, precisava lutar e sofrer ainda mais... sentia-o ao voltar à França. Todavia, minha confiança era tão grande que não cessava de esperar que me seria permitido ingressar em 25 de Dezembro... De volta a Lisieux, nossa primeira visita foi ao Carmelo. Que reencontro aquele!... Tínhamos tantas coisas para nos contar após um mês de separação, mês que me pareceu mais longo e durante o qual aprendi mais que durante muitos anos...

Oh, Madre querida! como foi doce para mim vos rever, abrir-vos minha pobre pequena alma ferida. A vós que tão bem sabíeis me compreender, a quem uma palavra, um olhar bastava para adivinhar tudo! Abandonei-me completamente, tinha feito tudo o que dependia de mim, tudo, até falar com o Santo Padre. Não sabia mais o que tinha de fazer. Dissestes-me para escrever a Sua Excelência e lembrar-lhe sua promessa; eu o fiz logo, o melhor que me foi possível, mas em termos que meu tio achou simples demais. Ele refez minha carta. No momento em que ia enviá-la, recebi uma de vós, dizendo-me para não escrever, para esperar alguns dias. Obedeci logo, pois estava certa de que era o melhor meio de não errar. Enfim, dez dias antes do Natal, minha carta partiu. Convicta de que a resposta não demoraria, ia todas as manhãs, depois da missa, com papai à agência dos correios, acreditando encontrar aí a permissão para levantar vôo. Cada manhã trazia nova decepção que, porém, não abalava minha fé... Pedia a Jesus para romper meus laços. Ele os rompeu, mas de maneira totalmente diferente do que esperava... A bela festa de Natal chegou e Jesus não acordou... Deixou no chão sua pequena bola sem ao menos olhar para ela...

Foi de coração partido que assisti à missa do galo; esperava tanto assistir atrás das grades do Carmelo!... Essa provação foi muito grande para minha fé... Mas Aquele cujo coração vigia durante o sono fez-me compreender que, para quem tem fé do tamanho de um grão de mostarda, Ele opera milagres e transporta as montanhas para firmar essa pequena fé, mas para seus íntimos, para sua Mãe, não opera milagres antes de provar sua fé. Não deixou Lázaro morrer, embora Marta e Maria o tivessem avisado que ele estava doente?... Nas bodas de Caná, quando Nossa Senhora lhe pediu para socorrer os anfitriões, não respondeu que sua hora não tinha chegado?... Mas, depois da provação, que recompensa: a água se transforma em vinho... Lázaro ressuscita... É assim que Jesus age com sua Teresinha; depois de a pôr à prova durante muito tempo, satisfez todos os desejos do seu coração...

Na tarde da radiosa festa que passei chorando, fui visitar as carmelitas; foi grande a surpresa quando, ao abrir-se a grade, vi um lindo menino Jesus segurando nas mãos uma bola com meu nome escrito nela. No lugar de Jesus, pequeno demais para poder falar, as carmelitas cantaram para mim um cântico composto pela minha querida Madre. Cada palavra derramava em minha alma um doce consolo. Nunca me esquecerei dessa delicadeza do coração materno que sempre me cumulou das mais finas ternuras... Após ter agradecido no meio de doces lágrimas, relatei a surpresa que minha Celina querida me fizera ao voltar da missa do galo. Encontrei no meu quarto, dentro de uma bela bacia, um barquinho carregando o menino Jesus dormindo com uma pequena bola ao lado Dele. Na vela branca, Celina escrevera as seguintes palavras: "Durmo, mas meu coração vela", e, sobre o barquinho, apenas essa palavra: "Abandono!" Ah! se Jesus ainda não falava com sua noivinha, se seus divinos olhos continuavam sempre fechados, pelo menos Ele se revelava a ela por meio de almas que compreendiam todas as delicadezas e o amor do seu coração...

No primeiro dia do ano de 1888, Jesus ainda me presenteou com sua cruz, mas dessa vez carreguei-a sozinha, pois era tanto mais dolorosa quanto incompreendida... Uma carta de Paulina veio me informar que a resposta de Sua Excelência tinha chegado dia 28, festa dos santos Inocentes, mas que não a comunicou para mim por ter decidido que meu ingresso só se daria depois da quaresma. Não pude segurar as lágrimas com a ideia de tão longa espera. Essa provação teve para mim um carácter muito peculiar: via meus laços com o mundo rompidos e a arca santa recusando a entrada para sua pobre pombinha... Quero acreditar que devo ter parecido manhosa por não aceitar alegremente meus três meses de exílio, mas creio também que, sem deixar transparecer, essa provação foi muito grande e me fez crescer muito no abandono e nas outras virtudes.

Como passaram esses três meses tão ricos de graças para minha alma?... Primeiro, ocorreu-me a idéia de não me constranger a levar uma vida tão bem regrada como de costume; mas logo compreendi o valor do tempo que me estava sendo oferecido e resolvi entregar-me, mais do que nunca, a uma vida séria e mortificada. Quando digo mortificada, não é para fazer crer que eu fazia penitências, ai! nunca fiz, longe de parecer com as belas almas que desde a infância praticavam toda espécie de mortificações, não sentia atrações por elas. Sem dúvida, isto decorria da minha covardia, pois podia, com Celina, encontrar mil pequenas invenções para me fazer sofrer; em vez disso, sempre me deixei mimar e cevar como um passarinho que não precisa fazer penitência... Minhas mortificações consistiam em refrear minha vontade, sempre prestes a se impor, em reprimir uma palavra de réplica, em prestar pequenos serviços sem retribuição, em não me encostar quando sentada etc. etc... Foi pela prática desses nadas que me preparei para ser a noiva de Jesus e não posso dizer o quanto essa espera deixou em mim doces lembranças... Três meses passam muito depressa e, enfim, chegou o momento tão desejado.

Escolheu-se para meu ingresso a segunda-feira, 9 de Abril, dia em que o Carmelo celebrava a festa da Anunciação, adiada por causa da quaresma. Na véspera, a família toda reuniu-se em volta da mesa a que me sentava pela última vez. Ah! como são dilacerantes essas reuniões íntimas!... quando o que se quer é ser esquecido, prodigalizam-se carícias, e as mais carinhosas palavras fazem sentir o sacrifício da separação... Meu Rei querido quase não falava, mas seu olhar fixava-se em mim com amor... Minha tia chorava de vez em quando e meu tio fazia-me mil elogios afetuosos. Joana e Maria também se esmeravam em delicadezas, sobretudo Maria, que puxando-me à parte, me pediu mil perdões pelas penas que pensava ter-me causado. Enfim, minha querida Leoninha, de volta da Visitação havia alguns meses, enchia-me de beijos e carícias. Só de Celina eu não falei, mas adivinhais, querida Madre, corno se passou a última noite em que dormimos juntas... Na manhã do grande dia, depois de lançar um último olhar aos Buissonnets, ninho gracioso da rainha infância que não devia nunca mais rever, parti de braços dados com meu Rei querido para subir a montanha do Carmelo... Como na véspera, a família toda se reuniu para assistir à missa e comungar. Logo após Jesus ter descido ao coração dos meus familiares queridos, só ouvi soluços ao meu redor. Só eu não chorava, mas senti meu coração bater com tanta violência que me pareceu impossível andar quando nos fizeram sinal para chegar até a porta do convento. Andei, embora me perguntando se não ia morrer devido à força das batidas do meu coração... Ah! que momento aquele. É preciso tê-lo vivido para saber como é...

Minha emoção não se expressava externamente. Depois de ter abraçado todos os membros da minha querida família, pus-me de joelhos diante do meu incomparável pai e pedi-lhe a bênção. Ele mesmo ajoelhou-se e me abençoou chorando... Era um espectáculo de fazer os anjos sorrir, esse de um ancião apresentando ao Senhor sua criança ainda na primavera da vida!... Alguns momentos depois, as portas da arca sagrada fechavam-se sobre mim e passava a receber os abraços das irmãs queridas que me haviam servido de mães e que ia, doravante, tomar por modelo das minhas acções... Enfim, meus desejos estavam realizados, minha alma gozava de uma paz tão suave e tão profunda que me seria impossível expressar e, há sete anos e meio, essa paz íntima continuou sendo meu quinhão. Não me abandonou em meio às maiores provações.

Como todas as postulantes, fui levada ao coro logo após minha entrada; estava escuro, por causa do Santíssimo exposto, e o que chamou minha atenção foram os olhos da nossa santa Madre Genoveva, que se fixaram sobre mim. Fiquei algum tempo de joelhos a seus pés, agradecendo a Deus pela graça que me concedia de conhecer uma santa, e acompanhei nossa Madre Maria de Gonzaga aos diversos recintos do convento. Tudo me parecia bonito, tinha impressão de ter sido transportada para o deserto. Nossa pequena cela me encantava especialmente, mas a alegria que sentia era calma, nem a menor aragem fazia ondular as águas tranquilas em que navegava meu barquinho, nenhuma nuvem escurecia meu céu azul... ah! estava plenamente recompensada por todas as minhas provações... Com que alegria profunda repetia estas palavras: "É para sempre, sempre, que estou aqui!..."

Não era uma felicidade efêmera; não iria embora com as ilusões dos primeiros dias. Deus concedeu-me a graça de não ter ilusões, nenhuma ilusão ao entrar para o Carmelo. Encontrei a vida religiosa tal como a imaginara, nenhum sacrifício me surpreendeu e, contudo, vós sabeis, Madre querida, meus primeiros passos encontraram mais espinhos do que rosas!... Sim, o sofrimento estendeu-me os braços e atirei-me a ele com amor... O que eu vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de Jesus-Hóstia, no exame que antecedeu minha profissão: "Vim para salvar as almas e sobretudo, rezar elos sacerdotes". Quando se quer atingir um fim, é preciso tomar os meios, Jesus fez-me compreender que era pela cruz que queria dar-me almas e minha atração pelo sofrimento crescia na medida em que o sofrimento aumentava. Durante cinco anos, esse caminho foi o meu mas, por fora, nada exteriorizava meu sofrimento, mais doloroso por ser eu a única a saber dele. Ah! quantas surpresas teremos no juízo final, quando conhecermos a história das almas!... haverá pessoas surpresas ao conhecer a via pela qual fui conduzida!...

Isso é tão verdadeiro que, dois meses após meu ingresso, estando aqui para a profissão de Irmã Maria do Sagrado Coração, o padre Pichon ficou espantado ao constatar o que Deus operava em minha alma e disse-me que, na véspera, tendo-me observado rezando no coro, pensou ser meu fervor totalmente infantil e meu caminho muito manso. Minha entrevista com o bom padre foi para mim um grande consolo, mas coberto de lágrimas diante da dificuldade que sentia em abrir minha alma. Fiz, porém, uma confissão geral tal como nunca tinha feito; no final, o padre me disse as mais consoladoras palavras que já ressoaram aos ouvidos da minha alma: "Na presença de Deus, da Santíssima Virgem e de todos os santos, declaro nunca terdes cometido um único pecado mortal". E acrescentou: deis graças a Deus pelo que Ele faz por vós, pois se Ele vos abandonasse, em vez de serdes um anjinho, seríeis um diabinho. Ah! não tinha dificuldade em acreditar, sentia o quanto era fraca e imperfeita, mas a gratidão enchia minha alma. Tinha tanto receio de ter maculado meu vestido de batismo, que tal certidão, oriunda da boca de um diretor conforme os desejos de Nossa Santa Madre Teresa, isto é, que une ciência e virtude, parecia-me ter saído da própria boca de Jesus... O bom padre disse-me ainda essas palavras que se gravaram em meu coração: "Minha filha, que Nosso Senhor seja sempre vosso Superior e vosso Mestre de noviças". De facto o foi, e foi também "o meu director". Não quero dizer com isso que minha alma estivesse fechada para minhas superioras, ah! longe disso, sempre procurei fazer dela um livro aberto; mas nossa Madre, frequentemente doente, tinha pouco tempo para cuidar de mim. Sei que me amava muito e dizia de mim todo o bem possível, todavia Deus permitia que, à sua revelia, ela fosse severíssima; não podia encontrá-la sem beijar a terra, era a mesma coisa por ocasião das escassas direcções espirituais que eu tinha com ela... Que graça inestimável!... Como Deus agia visivelmente naquela que o substituía!... Que teria sido de mim se, como pensavam as pessoas de fora, tivesse sido "o brinquedinho" da comunidade?... Quiçá, em vez de ver Nosso Senhor em minhas Superioras, não teria considerado apenas as pessoas e meu coração, tão bem preservado no mundo, ter-se-ia ligado humanamente no claustro... Felizmente, fui protegida contra essa desgraça. Sem dúvida, gostava muito da nossa Madre, mas de um afeto puro que me elevava para o Esposo da minha alma...

(cont.)