Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mt 25 14-30. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mt 25 14-30. Mostrar todas as mensagens

27/08/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Mt 25, 14-30

14 «Será também como um homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos, e lhes entregou os seus bens. 15 Deu a um cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade, e partiu. 16 O que tinha recebido cinco talentos, logo em seguida, foi, negociou com eles, e ganhou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que tinha recebido dois, ganhou outros dois. 18 Mas o que tinha recebido um só, foi fazer uma cova na terra, e nela escondeu o dinheiro do seu senhor. 19 «Muito tempo depois, voltou o senhor daqueles servos e chamou-os a contas. 20 Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: “Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis outros cinco que lucrei”. 21 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 22 Apresentou-se também o que tinha recebido dois talentos, e disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos, eis que lucrei outros dois”. 23 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 24 «Apresentando-se também o que tinha recebido um só talento, disse: “Senhor, sei que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25 Tive receio e fui esconder o teu talento na terra; eis o que é teu”. 26 Então, o seu senhor disse-lhe: “Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei, e que recolho onde não espalhei. 27 Devias pois dar o meu dinheiro aos banqueiros e, à minha volta, eu teria recebido certamente com juro o que era meu. 28 Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos, 29 porque ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que tem. 30 E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.

Comentário:

Cada ser humano recebe do Criador um conjunto de talentos que lhe são entregues em confiança, como um depósito.

Para quê? 
Para poder cumprir o mandato: ut operaretur, para trabalhar.

Muito ou pouco depende exclusivamente dele próprio daí que o resultado tenha  obviamente de corresponder ao esforço, perseverança e empenho que dedicou a esse trabalho.

(ama, comentário sobre Mt 25 14-30 2014.11.16)










16/11/2014

Ev. diário, coment. L. esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXIII Semana
Evangelho: Mt 25 14-30

14 «Será também como um homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos, e lhes entregou os seus bens. 15 Deu a um cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade, e partiu. 16 O que tinha recebido cinco talentos, logo em seguida, foi, negociou com eles, e ganhou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que tinha recebido dois, ganhou outros dois. 18 Mas o que tinha recebido um só, foi fazer uma cova na terra, e nela escondeu o dinheiro do seu senhor. 19 «Muito tempo depois, voltou o senhor daqueles servos e chamou-os a contas. 20 Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: “Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis outros cinco que lucrei”. 21 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 22 Apresentou-se também o que tinha recebido dois talentos, e disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos, eis que lucrei outros dois”. 23 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 24 «Apresentando-se também o que tinha recebido um só talento, disse: “Senhor, sei que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25 Tive receio e fui esconder o teu talento na terra; eis o que é teu”. 26 Então, o seu senhor disse-lhe: “Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei, e que recolho onde não espalhei. 27 Devias pois dar o meu dinheiro aos banqueiros e, à minha volta, eu teria recebido certamente com juro o que era meu. 28 Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos, 29 porque ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que tem. 30 E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.
Comentário

A um mendigo que lhe tinha dado um simples copo de água, Alexandre o Grande mandou que lhe dessem o governo de quatro cidades.
Se um imperador da terra – mesmo sendo o maior de todos – paga desta forma um pequeno favor, como será o prémio do Rei dos Reis, o Dono e Senhor de tudo quanto existe?
Tenhamos esta certeza: O Senhor nunca se deixa vencer em generosidade!

(ama, comentário sobre Mt 25, 14-30, 2013.08.31)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA

…/4

Na hora em que tínhamos combinado ficar juntas, ao olhar para mim, a pobre irmãzinha percebeu logo que eu não era a mesma. Sentou-se ao meu lado enrubescendo e eu, apoiando sua cabeça no meu coração, disse-lhe com lágrimas na voz tudo o que pensava dela, mas com expressões de muita ternura, manifestando-lhe tão grande afecto que logo as lágrimas dela misturaram-se às minhas. Admitiu com muita humildade que tudo o que eu lhe dizia era verdade, prometeu iniciar vida nova e pediu como um favor avisá-la sempre das suas faltas. Enfim, no momento de nos separar, nosso afeto passara a ser totalmente espiritual, nada de humano'°' subsistia. Realizava-se em nós esta passagem da Escritura: "O irmão ajudado pelo seu irmão é mais do que uma cidade fortificada".

O que Jesus fez com seu pincelzinho teria sido logo apagado se não tivesse agido por meio de vós, Madre, para realizar sua obra na alma que Ele queria inteiramente para Si. A provação pareceu muito amarga à minha pobre companheira, mas vossa firmeza triunfou e pude então, tentando consolá-la, explicar àquela que me destes por irmã entre todas em que consiste o verdadeiro amor. Mostrei-lhe que era a ela própria que amava e não a vós; disse-lhe como eu vos amava e que sacrifícios fui obrigada a fazer, no início da minha vida religiosa, para não me apegar a vós de maneira totalmente material, como o cachorro se apega a seu dono. O amor alimenta-se de sacrifícios, mais a alma recusa para si satisfações naturais, mais sua ternura se torna forte e desinteressada.

Lembro-me de que, quando postulante, tinha tentações tão violentas de ir vos encontrar para minha satisfação, para achar algumas gotas de alegria, que tinha de passar rapidamente diante do depósito e agarrar-me ao corrimão da escada. Chegavam à minha mente uma porção de permissões a pedir; enfim, Madre querida, encontrava mil motivos para satisfazer a minha natureza... Como estou feliz agora por me ter privado, logo no início da minha vida religiosa. Já usufruo da recompensa prometida aos que combatem corajosamente. Não sinto mais necessidade de me recusar todas as consolações do coração, pois minha alma está consolidada pelo único que eu queria amar. Vejo com satisfação que, amando-o, o coração se dilata e pode dar incomparavelmente mais ternura aos que lhe são caros, do que se tivesse ficado concentrado num amor egoísta e infrutífero.

Madre querida, relatei o primeiro trabalho que Jesus e vós vos dignastes realizar por ruim; era apenas o prelúdio dos que me deviam ser encomendados. Quando me foi dado penetrar no santuário das almas, vi logo que a tarefa ultrapassava as minhas capacidades. Lancei-me, então, nos braços de Deus e, como uma criancinha, escondendo o rosto nos cabelos Dele, disse-Lhe: Senhor, sou pequena demais para alimentar vossas filhas, se quiserdes dar-lhes, por mim, o que convém a cada uma, enchei minha mãozinha e, sem deixar vosso colo, sem desviar a cabeça, darei vossos tesouros à alma que vier pedir alimento. Se ela gostar, saberei que não é de mim, mas de vós que a recebe; se reclamar, não ficarei perturbada, procurarei persuadi-la de que esse alimento vem de vós e evitarei procurar outro para ela.
Madre, desde que entendi ser impossível fazer alguma coisa por mim mesma, a tarefa que me impusestes deixou de me parecer difícil; senti que a única coisa necessária consistia em unir-me sempre mais a Jesus e que o restante me seria dado por acréscimo. De fato, nunca minha esperança me enganou, Deus encheu minha mãozinha todas as vezes que foi necessário para alimentar a alma das minhas irmãs. Confesso, Madre querida, que se me tivesse apoiado, o mínimo que fosse, nas minhas próprias forças teria capitulado... De longe, parece fácil fazer bem às almas, fazê-las amar sempre mais a Deus, modelá-las, enfim, segundo seus próprios pontos de vista e suas idéias pessoais. De perto, é o contrário... sente-se que fazer o bem, sem a ajuda de Deus, é tão impossível quanto fazer o sol brilhar no meio da noite... Sente-se que é absolutamente necessário esquecer as próprias preferências, as concepções pessoais e guiar as almas pelo caminho que Jesus delineou para elas, sem procurar fazê-las caminhar pela nossa via. Não é ainda o mais difícil; o que mais me custa é observar as faltas, as mais leves imperfeições e dar-lhes combate mortal. Ia dizer: infelizmente para mim, mas seria uma covardia, portanto digo: felizmente para minhas irmãs, desde que tornei lugar nos braços de Jesus, sou como o vigilante que, da mais alta torre de uma fortaleza, observa o inimigo. Nada escapa ao meu olhar; fico muitas vezes espantada por enxergar tão bem e acho o profeta Jonas muito desculpável por ter frigido em vez de ir anunciar a ruína de Nínive. Preferiria mil vezes receber recriminações a fazê-las, mas sinto que é necessário que seja um sofrimento, pois quando se age segundo a natureza é impossível que a alma à qual se quer apontar as faltas compreenda os próprios erros; só vê uma coisa: a irmã encarregada de me dirigir está zangada e tudo recai sobre mim, embora eu esteja cheia das melhores intenções.

Sei que vossos cordeirinhos me acham severa. Se lessem estas linhas, diriam que não me parece custar o mínimo correr atrás deles, falar-lhes num tom severo mostrando seu belo velocino sujo ou trazendo algum tufo de lã que deixaram nos espinhos do caminho. Podem dizer tudo o que quiserem, no fundo, sentem que os amo com amor verdadeiro, que nunca faria como o mercenário que, vendo o lobo chegar, abandona o rebanho e foge. Estou pronta a dar minha vida por eles, mas meu afeto é tão puro que não desejo que o conheçam. Com a graça de Jesus, nunca procurei conquistar o coração deles. Compreendi que minha missão consistia em levá-los a Deus e fazê-los compreender que, aqui, vós sois a minha Madre, o Jesus visível que devem amar e respeitar.

Disse, Madre querida, que instruindo os outros muito aprendi. Vi que todas as almas têm de travar, mais ou menos, os mesmos combates, mas são tão diferentes sob outros aspectos, que não tenho dificuldades em compreender o que dizia o padre Pichon: "Há muito mais diferenças entre as almas que entre os rostos". Por isso, é impossível agir da mesma maneira com todas. Com certas almas, sinto que devo fazer-me pequena, não recear diminuir-me, confessar meus combates, meus defeitos; vendo que tenho as mesmas fraquezas que elas, minhas irmãzinhas confessam por sua vez as faltas que pesam sobre elas e ficam satisfeitas por eu compreendê-las por experiência. Com outras, é preciso agir com muita firmeza e nunca voltar ao que foi determinado. Diminuir-se não seria humildade, mas fraqueza. Deus deu-me a graça de não temer a guerra"', preciso cumprir minha obrigação, custe o que custar. Mais de uma vez, ouvi dizer: "Se quiserdes obter alguma coisa de mim, tem de ser pela doçura; pela força, não conseguireis nada". Sei que ninguém é bom juiz em causa própria e que uma criança em quem o médico faz um curativo doloroso não deixará de gritar e dizer que o remédio é pior que o mal. Contudo, fica boa alguns dias depois, feliz por poder brincar e correr. É assim com as almas, reconhecem logo que um pouco de amargo é, às vezes, preferível ao doce e não receiam admitir. Em alguns casos, não deixo de sorrir interiormente vendo as transformações que se operam de um dia para outro. É fantástico... Dizem-me: "Tivestes razão, ontem, em mostrar severidade; no início, isso me revoltou, mas depois me lembrei de tudo e vi que fostes muito justa... Escutai: indo, pensava que estava tudo acabado, dizia para mim mesma: `Vou falar com nossa Madre e dizer a ela que não mais irei com minha Irmã Teresa do Menino Jesus'. Mas senti que era o demônio quem me inspirava aquilo e pareceu-me que estivestes rezando por mim, então, fiquei tranquila e a luz voltou a brilhar; mas agora é preciso que me esclareçais para valer, e é por isso que estou aqui". A conversação inicia logo; fico muito feliz em poder seguir a tendência do meu coração, deixando de servir alimento amargo. Sim, mas ... logo percebo que não é para ter pressa, uma palavra poderia fazer desmoronar o belo edifício construído nas lágrimas. Se eu tiver a infelicidade de dizer uma só palavra que pareça atenuar o que disse ontem, vejo minha irmãzinha tentar agarrar-se aos galhos, faço então uma pequena oração interior e a verdade triunfa sempre. Ah! é a oração, é o sacrifício que fazem toda a minha força, são as armas invisíveis que Jesus me deu. Elas têm muito mais poder que as palavras para sensibilizar as almas, experimentei-as mais de uma vez. Uma, entre todas, causou-me profunda e doce impressão.

Era durante a quaresma e ocupava-me da única noviça que havia aqui e da qual eu era o anjo da guarda. Certa manhã, vem procurar-me, radiante: "Ah! se soubésseis", disse-me, "o que sonhei esta noite. Eu estava perto da minha irmã e queria afastá-la de todas as vaidades de que tanto gosta e, para isso, explicava-lhe os versos: Viver de amor. / Amar-te Jesus, que perda fecunda / Todos os meus perfumes são teus, sem volta. Sentia que minhas palavras penetravam na alma dela e eu ficava extasiada de alegria. Nesta manhã, ao acordar, pensei que Deus, talvez, quisesse que eu lhe desse essa alma. Se lhe escrevesse, depois da quaresma, a fim de contar-lhe meu sonho e dizer-lhe que Jesus a quer só para Ele?"

Eu, sem pensar mais, disse-lhe que podia tentar, mas que antes era preciso pedir autorização à nossa Madre. Como a quaresma estava ainda longe do fim, ficastes, Madre querida, muito surpresa com semelhante pedido, que vos pareceu prematuro. Inspirada por Deus, certamente, respondestes que não é por cartas que as carmelitas devem salvar as almas, mas pela oração.

Ao saber da vossa decisão, compreendi logo que era a de Jesus e disse a Irmã Maria da Trindade: "Precisamos pôr mãos à obra, rezemos muito. Que alegria se, ao final da quaresma, formos atendidas!..." Oh! misericórdia infinita do Senhor, que escuta a oração das suas crianças... No final da quaresma, mais uma alma consagrava-se a Jesus. Era verdadeiro milagre da graça, milagre obtido pelo fervor de uma única noviça!

Como é grande o poder da oração! Parece uma rainha com acesso permanente ao rei e capaz de obter tudo o que pede. Para ser atendido, não é preciso ler uma bela fórmula de circunstância em algum livro; ai! se assim fosse, como eu haveria de lastimar!... Fora o Oficio Divino que sou muito indigna de rezar, falta-me coragem para procurar bonitas orações nos livros, causa-me dor de cabeça, são tantas!... e uma é mais bonita que a outra... Não poderia rezar todas e não saberia qual escolher. Faço como as crianças que não sabem ler, digo simplesmente a Deus o que quero dizer, sem frases bonitas. Ele me compreende sempre... Para mim, a oração e um impulso do coração, um simples olhar para o céu, um grito de gratidão e de amor no meio da provação como no meio da alegria, enfim, é alguma coisa de grande, de sobrenatural que dilata a minha alma e me une a Jesus.

Todavia, não quero, Madre querida, que penseis que eu faço sem devoção as orações em comum, no coro ou nos eremitérios. Pelo contrário, gosto muito das orações em comum, pois Jesus prometeu ficar no meio dos que se reúnem em nome Dele. Sinto, então, que o fervor das minhas irmãs supre o meu; sozinha (tenho vergonha de confessá-lo), a recitação do terço custa-me mais do que usar um instrumento de penitência... Sinto que o recito muito mal; mesmo fazendo esforço para meditar sobre os mistérios do rosário, não consigo fixar minha mente... Durante muito tempo, lastimei essa falta de devoção que me intrigava, pois amo tanto Nossa Senhora que deveria ser-me fácil recitar em honra dela orações que lhe agradam. Agora, lastimo menos, penso que, por ser a minha Mãe, a Rainha dos Céus deve perceber a minha boa vontade e se agrada com ela.

Vez por outra, quando minha mente está em tão grande aridez que me é impossível extrair um pensamento para me unir a Deus, recito muito lentamente um "Pai-nosso" e a saudação angélica; então, essas orações me encantam, alimentam minha alma muito mais do que se as tivesse recitado precipitadamente uma centena de vezes...

Nossa Senhora me mostra não estar zangada comigo, nunca deixa de me proteger quando a invoco. Se me vem uma inquietação, um problema, logo me dirijo a ela e sempre, como a mais terna das Mães, ela toma conta dos meus interesses... Quantas vezes, ao falar às noviças, invoco-a e sinto os favores da sua maternal proteção!...

Freqüentemente, as noviças me dizem: "Mas tendes resposta para tudo; desta vez, pensava embaraçar-vos... onde é que ides buscar o que dizeis?" Há umas tão ingênuas que pensam que leio nas almas delas, só porque me aconteceu preveni-las dizendo o que pensavam. Uma noite, uma das minhas companheiras"' resolve ocultar-me uma pena que a faz sofrer muito. Encontro-a pela manhã, ela me fala com semblante sorridente e eu, sem responder ao que ela me diz, digo-lhe num tom convicto: Estais sofrendo. Se tivesse feito a lua cair aos pés dela, creio que não teria olhado para mim com espanto maior. Seu pasmo foi tanto que me contagiou e, por um instante, fui tomada de um pavor sobrenatural. Tinha certeza de não ter o dom de ler nas almas e ter acertado assim, em cheio, me espantou. Sentia que Deus estava muito perto, que sem perceber dissera, como uma criança, palavras que não vinham de mim, mas Dele.

Madre querida, compreendeis que às noviças tudo é permitido, é necessário que possam dizer o que pensam sem restrição. O bem e o mal. Isso lhes é tanto mais fácil que não me devem o respeito que se dá a uma mestra. Não posso dizer que Jesus me faz caminhar exteriormente pela via das humilhações. Contenta-se em humilhar-me no fundo da minha alma"'. Aos olhos das criaturas, consigo bons resultados em tudo. Ando pelo caminho das honras, na medida em que é possível na vida religiosa. Compreendo que não é para mim, mas para os outros que devo andar por esse caminho que parece tão perigoso. De fato, se eu fosse considerada pela comunidade como uma religiosa cheia de defeitos, incapaz, sem juízo nem inteligência, seria impossível, Madre, fazer-vos ajudar por mim. Eis por que Deus lançou um véu sobre todos os meus defeitos interiores e exteriores. Às vezes, esse véu atrai elogios para mim por parte das noviças. Sinto que não o fazem por adulação, mas que é expressão dos seus ingênuos sentimentos; francamente, isso não poderia inspirar-me vaidade, pois tenho sempre presente à mente a lembrança do que sou. Vez por outra, sou tomada de um desejo muito grande de ouvir outra coisa que não seja elogios. Sabeis, Madre querida, que prefiro o vinagrete ao açúcar e Jesus permite, então, que se lhe sirva uma boa saladinha, bem avinagrada, bem apimentada, nada falta, a não ser o azeite, o que lhe dá um sabor suplementar... Essa boa saladinha me é servida pelas noviças quando menos espero. Deus levanta o véu que esconde as minhas imperfeições e então as minhas queridas irmãzinhas me veem tal como sou e não me acham totalmente do gosto delas. Com uma simplicidade que me encanta, falam-me dos combates em que as coloco, o que lhes desagrada em mim; enfim, não se constrangem mais do que se falassem de outra pessoa, sabendo que me agradam agindo dessa forma. Ah! francamente, é mais que um prazer, é um banquete delicioso"' que enche minha alma de alegria. Não consigo explicar como uma coisa que tanto desagrada à natureza possa causar tanta felicidade; se não a tivesse experimentado, não poderia acreditar... Num dia em que tinha desejado particularmente ser humilhada, uma noviça incumbiu-se tão bem de satisfazer-me que logo pensei em Semei amaldiçoando Davi, e pensava: Sim, é o Senhor que lhe ordena dizer-me essas coisas todas... E minha alma saboreava deliciosamente o alimento amargo que lhe era servido com tanta fartura.

Assim é que Deus se digna cuidar de mim. Nem sempre pode me dar o pão fortificante da humilhação exterior, mas de vez em quando permite que me alimente das migalhas que caem da mesa das crianças. Ah! como é grande a sua misericórdia, só poderei cantá-la no Céu...

Madre querida, sendo que, convosco, começo a cantar na terra essa misericórdia infinita, preciso contar-vos mais um grande favor obtido na missão que me confiastes. Outrora, quando via uma irmã fazer alguma coisa que me desagradava e me parecia irregular, dizia para mim mesma: Ah!, se eu pudesse dizer-lhe o que penso, mostrar-lhe o erro, isso me faria bem. Depois que comecei a praticar um pouco o ofício, asseguro-vos, Madre, que mudei totalmente de sentimento. Quando vejo uma irmã fazer alguma coisa que me parece imperfeita, solto um suspiro de alívio e penso: Que felicidade! Não é uma noviça, não tenho obrigação de repreendê-la. Logo procuro desculpar a irmã e atribuir-lhe umas boas intenções que, sem dúvida, tem para agir dessa forma.

Ah! Madre, depois que fiquei doente, os cuidados que me prodigalizais instruíram-me muito a respeito da caridade. Não há remédio que vos pareça caro demais e, se não dá os resultados esperados, não vos cansais de procurar outro. Quando ia ao recreio, quanta atenção em me colocar ao abrigo das correntezas de ar; enfim, se eu quisesse contar tudo, não acabaria nunca.

Pensando em todas essas coisas, disse para mim mesma que deveria ser tão compassiva com as enfermidades espirituais das minhas irmãs quanto vós o sois ao cuidar de mim com tanto amor.

Observei (e é bem natural) que as irmãs mais santas são as amadas, procura-se a conversação delas, prestam-se serviços a elas sem que tenham de pedi-los, enfim, essas almas capazes de suportar faltas de consideração, de delicadezas, vêem-se cercadas pelo afeto de todas. Pode-se aplicar a elas as seguintes palavras do nosso Pai, são João da Cruz: Todos os bens me foram dados quando não os procurei mais por amor-próprio.

Ao contrário, as almas imperfeitas não são procuradas. Permanece-se, sem dúvida, dentro dos limites da cortesia religiosa, mas receando, talvez, dizer-lhes algumas palavras pouco amáveis, evita-se a companhia delas. Ao mencionar almas imperfeitas não estou me referindo apenas às imperfeições espirituais, pois as mais santas só serão perfeitas no Céu, refiro-me à falta de juízo, de educação, à suscetibilidade de alguns temperamentos, todas coisas que não tornam a vida agradável. Sei que essas enfermidades morais são crônicas, sem esperança de cura, mas sei que minha Madre não deixaria de cuidar de mim, de procurar aliviar-me, se ficasse doente a vida toda. Eis a conclusão a que cheguei: devo procurar, no recreio, na licença, a companhia das irmãs que me são menos agradáveis, desempenhar junto a essas almas feridas o ofício de boa samaritana. Uma palavra, um sorriso amável são muitas vezes suficientes para alegrar uma alma triste. Mas não é absolutamente para alcançar essa meta que quero praticar a caridade, pois sei que logo desanimaria: uma palavra que eu teria proferido com a melhor das intenções seria, talvez, interpretada erroneamente. Por isso, a fim de não perder meu tempo, quero ser amável com todas (e particularmente com as irmãs menos amáveis) para alegrar Jesus e responder ao conselho que me dá no Evangelho, mais ou menos nos seguintes termos: "Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os ricos vizinhos; de outro modo eles também convidar-te-iam e terias uma retribuição. Mas, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos; è serás feliz, porque eles não terão como retribuir-te; mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos".

Que banquete poderia uma carmelita oferecer às suas irmãs, a não ser uma refeição espiritual composta de caridade amável e alegre? Pessoalmente, não conheço outro e quero imitar são Paulo, que se alegrava com quem estava alegre. Verdade que também chorava com os aflitos e as lágrimas devem aparecer, às vezes, no banquete que quero servir, mas sempre procurarei que essas lágrimas se transformem, no final, em alegria; pois o Senhor ama quem dá com alegria.

Recordo-me de um ato de caridade que Deus me inspirou fazer quando ainda era noviça. Era pouca coisa, mas nosso Pai, que vê o que é secreto, que olha mais para a intenção do que para o vulto da ação, já me recompensou sem esperar a outra vida. Era no tempo em que irmã São Pedro ainda ia ao coro e ao refeitório. Para a oração vespertina, estava acomodada à minha frente: às 15h50, uma irmã devia levá-la ao refeitório, pois as enfermeiras tinham então muitas doentes e não podiam levá-la. Custava-me muito oferecer-me para prestar esse pequeno serviço, pois sabia não ser fácil contentar essa pobre irmã São Pedro, que sofria tanto que não gostava de mudar de condutora. Mas eu não queria perder tão boa ocasião de praticar a caridade, lembrando-me de que Jesus disse: "Tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fareis". Ofereci-me, portanto, muito humildemente, para levá-la. Não foi sem dificuldade que consegui fazê-la aceitar meu serviço! Enfim, pus mãos à obra e tinha tão boa vontade que consegui perfeitamente.

Toda tarde, quando via irmã São Pedro sacudir sua ampulheta, sabia o que aquilo significava: partamos. É incrível como me era custoso dispor-me a levá-la, sobretudo no início. Assim mesmo, fazia-o imediatamente e começava todo um cerimonial. Era preciso mover e levar o banco de um jeito preestabelecido, sobretudo, não se apressar; depois, empreendia-se o passeio. Tratava-se de seguir a pobre enferma segurando-a pela cintura, o que eu fazia com a maior delicadeza possível; mas se, por infelicidade, ela dava um passo em falso parecia-lhe logo que não a segurava direito e que ela ia cair. "Ah!, meu Deus! andais depressa demais, vou me arrebentar." Se eu procurava andar mais devagar: "Mas me acompanhai, não sinto mais a vossa mão, ides largar-me, vou cair, ah! bem sabia que sois jovem demais para me levar". No final, chegávamos sem incidente ao refeitório. Aí surgiam novas dificuldades, pois era preciso fazê-la sentar e agir com jeito para não machucá-la. Depois, era preciso arregaçar suas mangas (ainda de uma maneira predeterminada). Depois, ficava livre para ir. Com mãos estropiadas, ela ajeitava, como podia, o pão em seu godê. Logo percebi e, toda noite, só a deixava após ter-lhe prestado mais esse servicinho. Como não me tinha pedido para fazê-lo, ficou muito comovida e foi por esse gesto, que eu não tinha planejado, que conquistei seu afeto e sobretudo (soube mais tarde) porque, depois de ter cortado o pão, despedia-me dela com meu mais lindo sorriso.

Madre querida, talvez estejais surpresa por eu relatar esse pequeno acto de caridade, acontecido há tanto tempo. Ah! o fiz porque sinto que preciso cantar, por causa dele, as misericórdias do Senhor. Dignou-se conservar a lembrança em mim, como um perfume que me incita a praticar a caridade. Recordo-me, às vezes, de certos pormenores que são para minha alma como uma brisa primaveril. Eis mais um que me vem à memória: numa tarde de inverno, cumpria, como de costume, meu pequeno ofício. Fazia frio, estava escuro... de repente, ouvi ao longe o som harmonioso de um instrumento musical. Imaginei, então, um salão bem iluminado, brilhante de ouro, moças elegantemente vestidas trocando gentilezas mundanas; meu olhar desviou-se para a pobre doente que eu sustentava. Em vez de melodia, ouvia, de vez em quando, seus gemidos plangentes, em vez de douração, via os tijolos do nosso claustro austero, iluminado por luz fraca. Não pude expressar o que se passou na minha alma, sei que o Senhor a iluminou com os raios da verdade, que superaram tanto o tenebroso brilho das festas da terra que não podia acreditar na minha felicidade... Ah! para gozar mil anos das festas mundanas, não teria dado os dez minutos empregados na execução do meu ofício de caridade... Se já no sofrimento, no meio da luta, pode-se gozar por um instante de uma felicidade que ultrapassa todas as felicidades da terra, pensando que Deus retirou-nos do mundo, como será no Céu, quando virmos, no seio da alegria e do repouso eterno, a graça incomparável que o Senhor nos fez escolhendo-nos para morar em sua casa, verdadeiro pórtico dos Céus?...
(cont)




30/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Cong. Dout da Fé - Libertais conscientia)

Tempo comum XXI Semana

Evangelho: Mt 25, 14-30

14 «Será também como um homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos, e lhes entregou os seus bens. 15 Deu a um cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade, e partiu. 16 O que tinha recebido cinco talentos, logo em seguida, foi, negociou com eles, e ganhou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que tinha recebido dois, ganhou outros dois. 18 Mas o que tinha recebido um só, foi fazer uma cova na terra, e nela escondeu o dinheiro do seu senhor. 19 «Muito tempo depois, voltou o senhor daqueles servos e chamou-os a contas. 20 Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: “Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis outros cinco que lucrei”. 21 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 22 Apresentou-se também o que tinha recebido dois talentos, e disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos, eis que lucrei outros dois”. 23 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 24 «Apresentando-se também o que tinha recebido um só talento, disse: “Senhor, sei que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25 Tive receio e fui esconder o teu talento na terra; eis o que é teu”. 26 Então, o seu senhor disse-lhe: “Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei, e que recolho onde não espalhei. 27 Devias pois dar o meu dinheiro aos banqueiros e, à minha volta, eu teria recebido certamente com juro o que era meu. 28 Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos, 29 porque ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que tem. 30 E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.

Comentário:

A honestidade pessoal não se resume em devolver intacto o que se recebeu mas em cumprir o mandato que foi expresso.
O Senhor daqueles servos não lhes mandou só guardar os talentos mas em fazê-los render o que, os dois primeiros fizeram e o terceiro não.
Quando não pomos em obra o que temos ou sabemos o que interessa?
Seremos como pobre avarento que passa privações para conservar o que tem e, esta, é uma imagem que não pode deixar de repugnar.

(ama, comentário sobre Mt 25, 14-30, 2012.09.01)

Leitura espiritual



Documentos do Magistério

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO

CAPÍTULO II

VOCAÇÃO DO HOMEM
A LIBERDADE E DRAMA DO PECADO

II. Liberdade e libertação

O apelo do Criador

28. Ao criar o homem livre, Deus imprimiu nele a sua imagem e semelhança. 17 O homem ouve o apelo do seu Criador, na inclinação e aspiração da sua natureza para o Bem, e mais ainda na Palavra da Revelação, que foi pronunciada de uma maneira perfeita em Cristo. Recebe, dessa forma, a revelação de que Deus o criou livre, para que ele pudesse, por graça, entrar em amizade com Ele e comungar de sua vida.

Uma liberdade participada

29. O homem não tem a sua origem na sua própria acção individual ou colectiva, mas no dom de Deus que o criou. Tal é a primeira confissão da nossa fé, que vem confirmar as mais elevadas intuições do pensamento humano.

A liberdade do homem é uma liberdade participada. A sua capacidade de se realizar não é, de forma alguma, suprimida pela sua dependência de Deus. É próprio do ateísmo, justamente, crer numa posição irredutível entre a causalidade de uma liberdade divina e a da liberdade do homem, como se a afirmação de Deus significasse a negação do homem, ou como se a sua intervenção na história tornasse vãs as tentativas deste último. Na realidade, é de Deus e com relação a Ele, que a liberdade humana adquire sentido e consistência.

A opção livre do homem

30. A história do homem desenrola-se a partir da natureza que ele recebeu de Deus, na livre realização dos fins para os quais o orientam e o impelem as inclinações dessa natureza e da graça divina.

Mas a liberdade do homem é finita e falível. O seu desejo pode voltar-se para um bem aparente: optando por um falso bem, falta à vocação da sua liberdade. O homem, por seu livre arbítrio, dispõe de si mesmo, realizando, dessa forma, a sua vocação régia de filho de Deus. «Pelo serviço de Deus, ele reina». 18 A autêntica liberdade é «serviço da justiça», enquanto, ao contrário, a escolha da desobediência e do mal é «escravidão do pecado». 19

Libertação temporal e liberdade

31. A partir dessa noção de liberdade, torna-se mais clara a dimensão da noção de liberdade temporal: trata-se do conjunto dos processos quem têm o objectivo de proporcionar e garantir as condições exigidas pelo exercício de uma liberdade humana autêntica.

Portanto, não é a libertação que, por si mesma, produz a liberdade do homem. O senso comum, confirmado pelo sentido cristão, sabe que, mesmo submetida a condicionamentos, a liberdade nem por isso é completamente destruída. Homens que sofrem terríveis coacções conseguem manifestar a sua liberdade e movimentar-se pela própria libertação. Um processo de libertação que atingir o seu termo pode apenas criar condições melhores para o exercício efectivo da liberdade. Da mesma forma, uma libertação que não levar em consideração a liberdade pessoal daqueles que por ela combatem, está de antemão condenada ao fracasso.

III. A liberdade e a sociedade humana

Os Direitos do Homem e as «liberdades»

32. Deus não criou o homem como um «ser solitário», mas o quis «ser social». 20 A vida social, portanto, não é algo de exterior ao homem: este não pode crescer e realizar a sua vocação senão em relação com os outros. O homem pertence a diversas comunidades, familiar, profissional, política, e é no seio destas que deve exercer a sua liberdade responsável. Uma ordem social justa oferece ao homem uma ajuda insubstituível para a realização da sua personalidade livre. Ao contrário, uma ordem social injusta é uma ameaça e um obstáculo que podem comprometer o seu destino.

Na esfera social, a liberdade exprime-se e realiza-se em acções, estruturas e instituições, graças às quais os homens se comunicam entre si e organizam a sua vida comum. O desenvolvimento de uma personalidade livre, que é um direito e um dever de todos, deve ser ajudado e não obstaculizado pela sociedade.

Trata-se de uma exigência de natureza moral, que encontrou a sua expressão na formulação dos Direitos do Homem. Entre eles, alguns têm por objecto o que se convencionou chamar «as liberdades», isto é, maneiras de se reconhecer a cada ser humano o seu carácter de pessoa responsável por ela mesma e pelo seu destino transcendente, como também de reconhecer a inviolabilidade da sua consciência. 21

Dimensões sociais do homem e glória de Deus

33. A dimensão social do ser humano assume ainda um outro significado: somente a pluralidade e a rica diversidade dos homens podem exprimir algo da riqueza infinita de Deus.

Enfim, essa dimensão é chamada a encontrar a sua realização no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Por isso, a vida social, na variedade das suas formas e na medida em que é conforme à lei divina, constitui um reflexo da glória de Deus no mundo. 22

IV. Liberdade do homem e domínio da natureza

Vocação do homem: «dominar» a natureza

34. Juntamente com a sua dimensão corporal, o homem tem necessidade dos recursos do mundo material para a sua realização pessoal e social. Nesta vocação de dominar a terra, submetendo-a ao seu serviço pelo trabalho, pode-se reconhecer um traço da imagem de Deus. 23 Mas a intervenção humana não é «criadora»; depara-se com uma natureza material que, como ela, tem a sua origem em Deus Criador e da qual o homem foi constituído «nobre e sábio guardião». 24

O homem, senhor de suas actividades

35. As transformações técnicas e económicas repercutem sobre a organização da vida social; não deixam de influir, numa certa medida, sobre a vida cultural e sobre a própria vida religiosa.

No entanto, pela sua liberdade, o homem permanece senhor da sua actividade. As grandes e rápidas transformações da época contemporânea apresentam-lhe um dramático desafio: o do domínio e controle, mediante a razão e a liberdade, sobre as forças que ele desencadeia ao serviço das verdadeiras finalidades humanas.

Descobertas científicas e progresso moral

36, Compete, pois, à liberdade bem orientada fazer com que as conquistas científicas e técnicas, a procura de sua eficácia, os produtos do trabalho e as próprias estruturas da organização económica e social, não sejam submetidos a projectos que os privem de suas finalidades humanas, fazendo-os voltarem-se contra o próprio homem.

A atividade científica e a actividade técnica comportam, cada uma, exigências específicas. Entretanto, só alcançam o seu significado e o seu valor propriamente humanos, quando subordinadas aos valores morais. Essas exigências devem ser respeitadas; mas querer atribuir-lhes uma autonomia absoluta e obrigatória, não conforme à natureza das coisas, é entrar em um caminho que leva à ruína a autêntica liberdade do homem.

V. O pecado, fonte de divisão e de opressão

O pecado separação de Deus

37. Deus chama o homem para a liberdade. Em cada homem é viva a vontade de ser livre. E, no entanto, tal vontade leva quase sempre à escravidão e à opressão. Qualquer empenho pela libertação e pela liberdade supõe, pois, que se tenha enfrentado esse dramático paradoxo.

O pecado do homem, isto é, a sua ruptura com Deus, é a razão radical das tragédias que marcam a história da liberdade. Para compreendê-lo, muitos de nossos contemporâneos deverão, primeiramente, redescobrir o sentido do pecado.

No anseio de liberdade do homem esconde-se a tentação de renegar a sua própria natureza. Na medida em que deseja querer tudo e tudo poder, esquecendo-se, assim, de que é finito e criado, ele pretende ser um deus. «Sereis como Deus» (Gn 3, 5). Essa palavra da serpente manifesta a essência da tentação do homem; ela comporta a perversão do sentido da sua própria liberdade. Tal é a natureza profunda do pecado: o homem separa-se da verdade, impondo-lhe a sua vontade. Querendo libertar-se de Deus e ser, ele mesmo, um deus, engana-se e se destrói. Aliena-se de si mesmo.

Neste querer ser deus e tudo submeter a seu prazer pessoal esconde-se uma perversão da própria ideia de Deus. Deus é amor e verdade na plenitude do dom recíproco das Pessoas divinas. O homem é chamado a ser como Deus, é verdade. Entretanto, ele torna-se semelhante a Deus não no arbitrário do seu querer, mas na medida em que reconhece a verdade e o amor como o princípio e a finalidade da sua liberdade.

O pecado, raiz das alienações humanas

38. Ao pecar, o homem mente a si mesmo e separa-se da sua verdade. Buscando a total autonomia e a auto-suficiência, nega Deus e nega-se a si mesmo. A alienação com relação à verdade do seu ser de criatura amada por Deus é a raiz de todas as outras alienações.

Negando, ou tentando negar Deus, seu Princípio e seu Fim, o homem altera profundamente a sua ordem e o seu equilíbrio interior, os da sociedade e até mesmo os da criação visível. 25

É em conexão com o pecado que a Escritura considera o conjunto das calamidades que oprimem o homem em seu ser individual e social.

Ela mostra como todo o curso da história mantém uma ligação misteriosa como agir do homem que, desde a origem, abusou da sua liberdade erguendo-se contra Deus e procurando alcançar os seus fins fora d’Ele. 26 No carácter penoso do trabalho e da maternidade, no domínio do homem sobre a mulher e na morte, o livro do Génesis indica as consequências do pecado original. Os homens privados da graça divina herdaram, dessa forma, uma natureza comum mortal, incapaz de se fixar no bem, e inclinada à cobiça. 27

(cont)

Revisão da versão portuguesa por ama)

____________________________________
Notas:
17 Cfr. Gn 1, 26.
18 João Paulo II, Enc.  Redemptor Hominis, n. 21: AAS 71 (1979), 316.
19 Cfr. Rm 6, 6; 7, 23.
20 Cfr. Gn 2, 18. 23: «Não é bom que o homem esteja só»... «Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne»: essas palavras da Escritura não contêm apenas uma significação com relação ao homem e à mulher; pode-se reconhecer nelas uma dimensão mais universal. Cfr. Lv 19, 18.
21 Cfr. João XXIII, Enc. Pacem in Terris, nn. 5-15: AAS 55 (1963), 259-265; João Paulo II, Carta ao Sr. K. Waldheim, Secretário geral das Nações Unidas, por ocasião do 30º aniversário da «Declaração universal dos direitos do homem »: AAS 71 (1979), 122; Discurso pontifício à O.N.U., n. 9: AAS 71 (1979), 1149.
22 Cfr. S. Agostinho, Ad Macedonium, II, 7-17 (PL 33, 669-673; CSEL 44, 437-447),
23 Cfr. Gn 1, 27-28.
24 Cfr. João Paulo II, Enc.  Redemptor Hominis, n. 15: AAS 71 (1979), 286.
25 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 13, § 1.
26 Cfr. João Paulo II, Exort. apost. Reconciliatio et Poenitentia, n. 13: AAS 77 (1985), 208-211.
27 Cfr. Gn 3, 16-19; Rm 5, 12; 7, 14-24; Paulo VI, Sollemnis Professio Fidei, 30 de junho de 1968, n. 16: AAS 60 (1968), 439.