Mostrar mensagens com a etiqueta Leit. Espiritual (Cong para a Doutrina da Fé - Inst Libertatis conscientia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leit. Espiritual (Cong para a Doutrina da Fé - Inst Libertatis conscientia. Mostrar todas as mensagens

31/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Cong. Dout da Fé - Libertais conscientia)

Tempo comum XXII Semana

Evangelho: Mt 16, 21-27

21 Desde então começou Jesus a manifestar a Seus discípulos que devia ir a Jerusalém e padecer muitas coisas dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia. 22 Tomando-O Pedro à parte, começou a repreendê-l'O, dizendo: «Deus tal não permita, Senhor; não Te sucederá isto». 23 Ele, voltando-Se para Pedro, disse-lhe: «Retira-te de Mim, Satanás! Tu serves-Me de escândalo, porque não tens a sabedoria das coisas de Deus, mas dos homens». 24 Então, Jesus disse aos Seus discípulos: «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 25 Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de Mim, achá-la-á. 26 Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou que dará um homem em troca da sua alma? 27 Porque o Filho do Homem há-de vir na glória de Seu Pai com os Seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras.

Comentário:

A cruz talvez seja o símbolo mais usado e visto no mundo.

A Cruz de Cristo é o instrumento de Redenção da humanidade e, por isso mesmo, deve ser usado com reverência e autêntico amor.

Ela é, também, a “nossa cruz” porque nela estavam as faltas, os pecados de todos os homens de todos os tempos.

Comparar a nossa cruz pessoal, essa cruz que todos carregamos ao longo da vida, por pesada que seja é algo de bom e meritório porque, sabemo-lo muito bem por experiência própria, sozinhos dificilmente a suportamos.


(AMA, comentário sobre Mt 16, 24-28, 2014.05.26)

Leitura espiritual



Documentos do Magistério

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO

CAPÍTULO II

VOCAÇÃO DO HOMEM
A LIBERDADE E DRAMA DO PECADO

V. O pecado, fonte de divisão e de opressão

O pecado separação de Deus

Idolatria e desordem

39. A idolatria é uma forma extrema da desordem gerada pelo pecado. A substituição da adoração do Deus vivo pelo culto da criatura falseia as relações entre os homens e arrasta consigo diversas formas de opressão.

O desconhecimento culpável de Deus desencadeia as paixões, causas de desequilíbrio e de conflitos no íntimo do homem. Daí derivam inevitavelmente as desordens que afectam a esfera familiar e social: licenciosidade sexual, injustiça, homicídio. É assim que São Paulo descreve o mundo pagão, levado pela idolatria às piores aberrações que arruínam o indivíduo e a sociedade. 28

Já antes dele, os Profetas e os Sábios de Israel viam nas desgraças do povo um castigo do seu pecado de idolatria, e no «coração cheio de maldade» (Ec 9, 3),29 a fonte da escravidão radical do homem e das opressões que ele inflige aos seus semelhantes.

Desprezar Deus e voltar-se para as criaturas

40. A tradição cristã, nos Padres e Doutores da Igreja explicitou esta doutrina da Escritura acerca do pecado. Para ela, o pecado e desprezo de Deus (contemptus Dei). Ele comporta a vontade de fugir da relação de dependência do servidor para com seu senhor ou, mais ainda, do filho para com seu Pai. Pecando, o homem pretende livrar-se de Deus. Na realidade, torna-se escravo. Pois, ao recusar Deus, quebra o impulso da sua aspiração ao infinito e da sua vocação à participação da vida divina. É por isso que seu coração fica entregue à inquietação.

O homem pecador que recusa aderir a Deus, é conduzido, necessariamente, a ligar-se à criatura, de um modo falacioso e destruidor. Neste voltar-se para a criatura (conversio ad creaturam), ele concentra sobre essa o seu desejo insatisfeito de infinito. Mas os bens criados são limitados; por isso mesmo, o seu coração corre de um para outro, sempre em busca de uma paz impossível.

Na realidade, quando atribui às criaturas um peso de infinitude, o homem perde o sentido do seu ser criado. Pretende encontrar o seu centro e a sua unidade em si mesmo. O amor desordenado de si é a outra face do desprezo de Deus. O homem pretende, então, apoiar-se em si mesmo somente; quer realizar-se a si mesmo, bastando-se na sua própria imanência. 30

O ateísmo falsa emancipação da liberdade

41. Isto torna-se mais particularmente manifesto quando o pecador julga só poder afirmar a sua liberdade própria, quando explicitamente negar Deus. A dependência da criatura para com o Criador ou a da consciência moral com relação à lei divina seriam, para ele, intoleráveis servidões. O ateísmo é, pois, aos seus olhos, a verdadeira forma de emancipação e de libertação do homem, enquanto a religião ou mesmo o reconhecimento de uma lei moral seriam alienações. O homem quer, então, decidir soberanamente acerca do bem e do mal, ou acerca dos valores, e, com um mesmo movimento, rejeita ao mesmo tempo a ideia de Deus e a ideia de pecado. É através da audácia da transgressão que ele pretende tornar-se adulto e livre. Ele reivindica tal emancipação não apenas para si, mas para a humanidade inteira.

Pecado e estruturas de injustiça

42. Tornando-se seu próprio centro, o homem pecador tende a afirmar-se e a satisfazer seu desejo de infinito, servindo-se das coisas: riquezas, poderes e prazeres, em menosprezo dos outros homens que ele despoja injustamente e trata como objectos ou instrumentos. Assim, contribui, por sua parte, para a criação daquelas estruturas de exploração e de servidão que, por outro lado, ele pretende denunciar.

CAPÍTULO III

LIBERTAÇÃO E LIBERDADE CRISTÃ

Evangelho, liberdade e libertação

43. A história humana, marcada pela experiência do pecado, levar-nos-ia ao desespero, se Deus tivesse abandonado a sua criatura a ela própria. Mas as promessas divinas de libertação e o seu vitorioso cumprimento na morte e ressurreição de Cristo são o fundamento da «alegre esperança» na qual a comunidade cristã busca a força para agir resoluta e eficazmente ao serviço do amor, da justiça e da paz. O Evangelho é uma mensagem de liberdade e uma força de libertação  31 que realiza a esperança de Israel, fundada sobre a palavra dos Profetas. Esta apoiava-se na acção de Javé que, antes mesmo de intervir como «goél»,32 libertador, redentor, salvador do seu Povo, escolhera-o gratuitamente em Abraão. 33

I. A libertação no Antigo Testamento

O Êxodo e as intervenções libertadoras de Javé

44. No Antigo Testamento, a acção libertadora de Javé, que serve de modelo e referência a todas as outras, é o Êxodo do Egito, «casa de servidão». Se Deus arranca seu Povo de uma dura escravidão económica, política e cultural, é para fazer dele, através de Aliança do Sinai, «um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Ex 19, 6). Deus quer ser adorado por homens livres. Todas as libertações ulteriores do Povo de Israel tendem a conduzi-lo a essa liberdade em plenitude que ele só pode encontrar na comunhão com o seu Deus.

O acontecimento principal e fundacional do Êxodo tem, portanto, um significado ao mesmo tempo religioso e político. Deus liberta o seu Povo, dá-lhe uma descendência, uma terra, uma lei, mas dentro de uma Aliança e para uma Aliança. Não se poderia, portanto, isolar o aspecto político, atribuindo-lhe um valor por si mesmo; é necessário considerá-lo à luz do desígnio de natureza religiosa no qual ele se integra. 34

A Lei de Deus

45. Em seu desígnio de salvação, Deus deu a sua Lei a Israel. Juntamente com os preceitos morais universais do Decálogo, ela continha também normas cultuais e civis, que deviam regulamentar a vida do povo escolhido por Deus para ser sua testemunha entre as nações.

O amor de Deus acima de todas as coisas 35 e do próximo como a si mesmo 36 já constitui o centro desse conjunto de leis. Mas a justiça, que deve presidir as relações entre os homens, e o direito, que é a sua expressão jurídica, pertencem também à trama mais característica da Lei bíblica. Os Códigos e a pregação dos Profetas, como também os Salmos, referem-se constantemente a ambas, unindo-as frequentemente. 37 É em tal contexto que deve ser apreciado o cuidado da Lei bíblica pelos pobres, os desprovidos, a viúva e o órfão: a eles é devida a justiça, segundo o ordenamento jurídico do Povo de Deus. 38 Já existem, portanto, o ideal e o esboço de uma sociedade centralizada no culto do Senhor e fundada na justiça e no direito animados pelo amor.

O ensinamento dos Profetas

45. Os Profetas não cessam de lembrar a Israel as exigências da Lei da Aliança. Eles denunciam no coração endurecido do homem a fonte das repetidas transgressões e anunciam uma Nova Aliança, na qual Deus transformará os corações, gravando neles a Lei do seu Espírito. 39

Anunciando e preparando essa nova era, denunciam com vigor a injustiça perpetrada contra os pobres; em favor destes, fazem-se porta-vozes de Deus. Javé é o supremo recurso dos pequeninos e dos oprimidos. Será missão do Messias defendê-los. 40

A situação do pobre é uma situação de injustiça contrária à Aliança. Por isso a Lei da Aliança protege-o com preceitos que reflectem a própria atitude de Deus ao libertar Israel da servidão do Egito. 41 A injustiça para com os pequeninos e os pobres é um grave pecado, que quebra a comunhão com Javé.

Os «pobres de Javé»

47. A partir de todas as formas de pobreza, de injustiça sofrida e de aflição, os «justos» e os «pobres de Javé», nos Salmos, fazem subir até Ele as suas súplicas. 42 Eles sofrem em seus corações pela servidão â que foi reduzido, por causa de seus pecados, o povo «de dura cerviz». Suportam a perseguição, o martírio e a morte, mas vivem na esperança da libertação. Acima de tudo, põem a sua confiança em Javé, a quem recomendam a própria causa. 43

Os «pobres de Javé» sabem que a comunhão com Ele 44 é o bem mais precioso, no qual o homem encontra a sua verdadeira liberdade. 45 Para eles, o mal mais trágico é a perda dessa comunhão. É por isso que o seu combate contra a injustiça assume o sentido mais profundo e a sua eficácia na vontade de ser libertados da servidão do pecado.

No limiar do Novo Testamento

48. No limiar do Novo Testamento, os «pobres de Javé» constituem as primícias de um «povo humilde e pobre», que vive na esperança da libertação de Israel. 46

Personificando essa esperança, Maria ultrapassa o limiar do Antigo Testamento. Ela anuncia com alegria o acontecimento messiânico e louva o Senhor que se prepara para libertar o seu Povo. 47 No seu hino de louvor à divina misericórdia, a humilde Virgem, para quem o povo dos pobres se volta espontaneamente e com tanta confiança, canta o mistério da salvação e a sua força de transformação. O senso da fé, tão vivo nos pequeninos, sabe reconhecer imediatamente toda a riqueza do Magnificat, ao mesmo tempo soteriológica e ética. 48

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
____________________________________
Notas:
28 Cfr. Rm 1, 18-32.
29 Cfr. Jr 5, 23; 7,24; 17, 9; 18, 12.
30 Cfr. S. Agostinho, De civitate Dei, XIV, 28 (PL 41, 435; CSEL 40/2, 56-57; CCL 14/2, 451-452)
31 Cfr. Instr. Libertatis Nuntius, Premissas: AAS 76 (1984), 876.
32 Cfr. Is 41, 14; Jr 50, 34. «Goél»; essa palavra implica a ideia de um laço de parentesco entre aquele que liberta e aquele que é libertado; cfr. Lv 25, 25. 47-49; Rt 3, 12; 4, 1. «Padah» significa «adquirir para si»; cfr. Ex 3, 13; Dt 9, 26; 15, 15; Sl 130, 7-8.
33 Cfr. Gn 12, 1-3.
34 Cfr. Instr. Libertatis Nuntius, IV, 3: AAS 76 (1984), 882.
35 Cfr. Dt 6, 5.
36 Cfr. Lv 19, 18.
37 Cfr. Dt 1, 16-17; 16, 18-20; Jr 22, 3-15; 23, 5; Sl 33, 5; 72, 1; 99, 4.
38 Cfr. Ex 22, 20-23; Dt 24, 10-22.
39 Cfr. Jr 31, 31-34; Ez 36, 25-27.
40 Cfr. Is 11, 1-5; Sl 72, 4. 12-14; Instr. Libertatis Nuntius, IV, 6: AAS 76 (1984), 883.
41 Cfr. Ex 23, 9; Dt 24, 17-22.
42 Cfr. Sl 25; 31; 35; 55; Instr. Libertatis Nuntius, IV, 5: AAS 76 (1984), 883.
43 Cfr. Jr 11, 20; 20, 12.
44 Cfr. Sl 73, 26-28.
45 Cfr. Sl 16; 62; 84.
46 Cfr. Sf 3, 12-20; cfr. Instr. Libertatis Nuntius, IV, 5: AAS 76 (1984), 883.
47 Cfr. Lc 1, 46-55.
48 Cfr. Paulo VI, Exort. apost. Marialis Cultus, n. 37: AAS 66 (1974), 148-149.



30/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Cong. Dout da Fé - Libertais conscientia)

Tempo comum XXI Semana

Evangelho: Mt 25, 14-30

14 «Será também como um homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos, e lhes entregou os seus bens. 15 Deu a um cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade, e partiu. 16 O que tinha recebido cinco talentos, logo em seguida, foi, negociou com eles, e ganhou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que tinha recebido dois, ganhou outros dois. 18 Mas o que tinha recebido um só, foi fazer uma cova na terra, e nela escondeu o dinheiro do seu senhor. 19 «Muito tempo depois, voltou o senhor daqueles servos e chamou-os a contas. 20 Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: “Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis outros cinco que lucrei”. 21 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 22 Apresentou-se também o que tinha recebido dois talentos, e disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos, eis que lucrei outros dois”. 23 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 24 «Apresentando-se também o que tinha recebido um só talento, disse: “Senhor, sei que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25 Tive receio e fui esconder o teu talento na terra; eis o que é teu”. 26 Então, o seu senhor disse-lhe: “Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei, e que recolho onde não espalhei. 27 Devias pois dar o meu dinheiro aos banqueiros e, à minha volta, eu teria recebido certamente com juro o que era meu. 28 Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos, 29 porque ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que tem. 30 E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.

Comentário:

A honestidade pessoal não se resume em devolver intacto o que se recebeu mas em cumprir o mandato que foi expresso.
O Senhor daqueles servos não lhes mandou só guardar os talentos mas em fazê-los render o que, os dois primeiros fizeram e o terceiro não.
Quando não pomos em obra o que temos ou sabemos o que interessa?
Seremos como pobre avarento que passa privações para conservar o que tem e, esta, é uma imagem que não pode deixar de repugnar.

(ama, comentário sobre Mt 25, 14-30, 2012.09.01)

Leitura espiritual



Documentos do Magistério

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO

CAPÍTULO II

VOCAÇÃO DO HOMEM
A LIBERDADE E DRAMA DO PECADO

II. Liberdade e libertação

O apelo do Criador

28. Ao criar o homem livre, Deus imprimiu nele a sua imagem e semelhança. 17 O homem ouve o apelo do seu Criador, na inclinação e aspiração da sua natureza para o Bem, e mais ainda na Palavra da Revelação, que foi pronunciada de uma maneira perfeita em Cristo. Recebe, dessa forma, a revelação de que Deus o criou livre, para que ele pudesse, por graça, entrar em amizade com Ele e comungar de sua vida.

Uma liberdade participada

29. O homem não tem a sua origem na sua própria acção individual ou colectiva, mas no dom de Deus que o criou. Tal é a primeira confissão da nossa fé, que vem confirmar as mais elevadas intuições do pensamento humano.

A liberdade do homem é uma liberdade participada. A sua capacidade de se realizar não é, de forma alguma, suprimida pela sua dependência de Deus. É próprio do ateísmo, justamente, crer numa posição irredutível entre a causalidade de uma liberdade divina e a da liberdade do homem, como se a afirmação de Deus significasse a negação do homem, ou como se a sua intervenção na história tornasse vãs as tentativas deste último. Na realidade, é de Deus e com relação a Ele, que a liberdade humana adquire sentido e consistência.

A opção livre do homem

30. A história do homem desenrola-se a partir da natureza que ele recebeu de Deus, na livre realização dos fins para os quais o orientam e o impelem as inclinações dessa natureza e da graça divina.

Mas a liberdade do homem é finita e falível. O seu desejo pode voltar-se para um bem aparente: optando por um falso bem, falta à vocação da sua liberdade. O homem, por seu livre arbítrio, dispõe de si mesmo, realizando, dessa forma, a sua vocação régia de filho de Deus. «Pelo serviço de Deus, ele reina». 18 A autêntica liberdade é «serviço da justiça», enquanto, ao contrário, a escolha da desobediência e do mal é «escravidão do pecado». 19

Libertação temporal e liberdade

31. A partir dessa noção de liberdade, torna-se mais clara a dimensão da noção de liberdade temporal: trata-se do conjunto dos processos quem têm o objectivo de proporcionar e garantir as condições exigidas pelo exercício de uma liberdade humana autêntica.

Portanto, não é a libertação que, por si mesma, produz a liberdade do homem. O senso comum, confirmado pelo sentido cristão, sabe que, mesmo submetida a condicionamentos, a liberdade nem por isso é completamente destruída. Homens que sofrem terríveis coacções conseguem manifestar a sua liberdade e movimentar-se pela própria libertação. Um processo de libertação que atingir o seu termo pode apenas criar condições melhores para o exercício efectivo da liberdade. Da mesma forma, uma libertação que não levar em consideração a liberdade pessoal daqueles que por ela combatem, está de antemão condenada ao fracasso.

III. A liberdade e a sociedade humana

Os Direitos do Homem e as «liberdades»

32. Deus não criou o homem como um «ser solitário», mas o quis «ser social». 20 A vida social, portanto, não é algo de exterior ao homem: este não pode crescer e realizar a sua vocação senão em relação com os outros. O homem pertence a diversas comunidades, familiar, profissional, política, e é no seio destas que deve exercer a sua liberdade responsável. Uma ordem social justa oferece ao homem uma ajuda insubstituível para a realização da sua personalidade livre. Ao contrário, uma ordem social injusta é uma ameaça e um obstáculo que podem comprometer o seu destino.

Na esfera social, a liberdade exprime-se e realiza-se em acções, estruturas e instituições, graças às quais os homens se comunicam entre si e organizam a sua vida comum. O desenvolvimento de uma personalidade livre, que é um direito e um dever de todos, deve ser ajudado e não obstaculizado pela sociedade.

Trata-se de uma exigência de natureza moral, que encontrou a sua expressão na formulação dos Direitos do Homem. Entre eles, alguns têm por objecto o que se convencionou chamar «as liberdades», isto é, maneiras de se reconhecer a cada ser humano o seu carácter de pessoa responsável por ela mesma e pelo seu destino transcendente, como também de reconhecer a inviolabilidade da sua consciência. 21

Dimensões sociais do homem e glória de Deus

33. A dimensão social do ser humano assume ainda um outro significado: somente a pluralidade e a rica diversidade dos homens podem exprimir algo da riqueza infinita de Deus.

Enfim, essa dimensão é chamada a encontrar a sua realização no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Por isso, a vida social, na variedade das suas formas e na medida em que é conforme à lei divina, constitui um reflexo da glória de Deus no mundo. 22

IV. Liberdade do homem e domínio da natureza

Vocação do homem: «dominar» a natureza

34. Juntamente com a sua dimensão corporal, o homem tem necessidade dos recursos do mundo material para a sua realização pessoal e social. Nesta vocação de dominar a terra, submetendo-a ao seu serviço pelo trabalho, pode-se reconhecer um traço da imagem de Deus. 23 Mas a intervenção humana não é «criadora»; depara-se com uma natureza material que, como ela, tem a sua origem em Deus Criador e da qual o homem foi constituído «nobre e sábio guardião». 24

O homem, senhor de suas actividades

35. As transformações técnicas e económicas repercutem sobre a organização da vida social; não deixam de influir, numa certa medida, sobre a vida cultural e sobre a própria vida religiosa.

No entanto, pela sua liberdade, o homem permanece senhor da sua actividade. As grandes e rápidas transformações da época contemporânea apresentam-lhe um dramático desafio: o do domínio e controle, mediante a razão e a liberdade, sobre as forças que ele desencadeia ao serviço das verdadeiras finalidades humanas.

Descobertas científicas e progresso moral

36, Compete, pois, à liberdade bem orientada fazer com que as conquistas científicas e técnicas, a procura de sua eficácia, os produtos do trabalho e as próprias estruturas da organização económica e social, não sejam submetidos a projectos que os privem de suas finalidades humanas, fazendo-os voltarem-se contra o próprio homem.

A atividade científica e a actividade técnica comportam, cada uma, exigências específicas. Entretanto, só alcançam o seu significado e o seu valor propriamente humanos, quando subordinadas aos valores morais. Essas exigências devem ser respeitadas; mas querer atribuir-lhes uma autonomia absoluta e obrigatória, não conforme à natureza das coisas, é entrar em um caminho que leva à ruína a autêntica liberdade do homem.

V. O pecado, fonte de divisão e de opressão

O pecado separação de Deus

37. Deus chama o homem para a liberdade. Em cada homem é viva a vontade de ser livre. E, no entanto, tal vontade leva quase sempre à escravidão e à opressão. Qualquer empenho pela libertação e pela liberdade supõe, pois, que se tenha enfrentado esse dramático paradoxo.

O pecado do homem, isto é, a sua ruptura com Deus, é a razão radical das tragédias que marcam a história da liberdade. Para compreendê-lo, muitos de nossos contemporâneos deverão, primeiramente, redescobrir o sentido do pecado.

No anseio de liberdade do homem esconde-se a tentação de renegar a sua própria natureza. Na medida em que deseja querer tudo e tudo poder, esquecendo-se, assim, de que é finito e criado, ele pretende ser um deus. «Sereis como Deus» (Gn 3, 5). Essa palavra da serpente manifesta a essência da tentação do homem; ela comporta a perversão do sentido da sua própria liberdade. Tal é a natureza profunda do pecado: o homem separa-se da verdade, impondo-lhe a sua vontade. Querendo libertar-se de Deus e ser, ele mesmo, um deus, engana-se e se destrói. Aliena-se de si mesmo.

Neste querer ser deus e tudo submeter a seu prazer pessoal esconde-se uma perversão da própria ideia de Deus. Deus é amor e verdade na plenitude do dom recíproco das Pessoas divinas. O homem é chamado a ser como Deus, é verdade. Entretanto, ele torna-se semelhante a Deus não no arbitrário do seu querer, mas na medida em que reconhece a verdade e o amor como o princípio e a finalidade da sua liberdade.

O pecado, raiz das alienações humanas

38. Ao pecar, o homem mente a si mesmo e separa-se da sua verdade. Buscando a total autonomia e a auto-suficiência, nega Deus e nega-se a si mesmo. A alienação com relação à verdade do seu ser de criatura amada por Deus é a raiz de todas as outras alienações.

Negando, ou tentando negar Deus, seu Princípio e seu Fim, o homem altera profundamente a sua ordem e o seu equilíbrio interior, os da sociedade e até mesmo os da criação visível. 25

É em conexão com o pecado que a Escritura considera o conjunto das calamidades que oprimem o homem em seu ser individual e social.

Ela mostra como todo o curso da história mantém uma ligação misteriosa como agir do homem que, desde a origem, abusou da sua liberdade erguendo-se contra Deus e procurando alcançar os seus fins fora d’Ele. 26 No carácter penoso do trabalho e da maternidade, no domínio do homem sobre a mulher e na morte, o livro do Génesis indica as consequências do pecado original. Os homens privados da graça divina herdaram, dessa forma, uma natureza comum mortal, incapaz de se fixar no bem, e inclinada à cobiça. 27

(cont)

Revisão da versão portuguesa por ama)

____________________________________
Notas:
17 Cfr. Gn 1, 26.
18 João Paulo II, Enc.  Redemptor Hominis, n. 21: AAS 71 (1979), 316.
19 Cfr. Rm 6, 6; 7, 23.
20 Cfr. Gn 2, 18. 23: «Não é bom que o homem esteja só»... «Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne»: essas palavras da Escritura não contêm apenas uma significação com relação ao homem e à mulher; pode-se reconhecer nelas uma dimensão mais universal. Cfr. Lv 19, 18.
21 Cfr. João XXIII, Enc. Pacem in Terris, nn. 5-15: AAS 55 (1963), 259-265; João Paulo II, Carta ao Sr. K. Waldheim, Secretário geral das Nações Unidas, por ocasião do 30º aniversário da «Declaração universal dos direitos do homem »: AAS 71 (1979), 122; Discurso pontifício à O.N.U., n. 9: AAS 71 (1979), 1149.
22 Cfr. S. Agostinho, Ad Macedonium, II, 7-17 (PL 33, 669-673; CSEL 44, 437-447),
23 Cfr. Gn 1, 27-28.
24 Cfr. João Paulo II, Enc.  Redemptor Hominis, n. 15: AAS 71 (1979), 286.
25 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 13, § 1.
26 Cfr. João Paulo II, Exort. apost. Reconciliatio et Poenitentia, n. 13: AAS 77 (1985), 208-211.
27 Cfr. Gn 3, 16-19; Rm 5, 12; 7, 14-24; Paulo VI, Sollemnis Professio Fidei, 30 de junho de 1968, n. 16: AAS 60 (1968), 439.



29/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Cong. Dout da Fé - Libertais conscientia)

Tempo comum XXI Semana

Evangelho: Mc 6, 17-29

17 Porque Herodes tinha mandado prender João, e teve-o a ferros numa prisão por causa de Herodíades, mulher de Filipe, seu irmão, com a qual tinha casado. 18 Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter a mulher de teu irmão». 19 Herodíades odiava-o e queria fazê-lo morrer; porém, não podia, 20 porque Herodes, sabendo que João era varão justo e santo, olhava-o com respeito, protegia-o e quando o ouvia ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. 21 Chegou, porém, um dia oportuno, quando Herodes, no seu aniversário natalício, deu um banquete aos grandes da corte, aos tribunos e aos principais da Galileia. 22 Tendo entrado na sala a filha da mesma Herodíades, dançou e agradou a Herodes e aos seus convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei». 23 E jurou-lhe: «Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino». 24 Ela, tendo saído, perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?». Ela respondeu-lhe: «A cabeça de João Baptista». 25 Tornando logo a entrar apressadamente junto do rei, fez este pedido: «Quero que me dês imediatamente num prato a cabeça de João Baptista». 26 O rei entristeceu-se, mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis desgostá-la. 27 Imediatamente mandou um guarda com ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi degolá-lo no cárcere, 28 levou a sua cabeça num prato, deu-a à jovem, e esta deu-a à mãe. 29 Tendo sabido isto os seus discípulos, foram, tomaram o corpo e o depuseram num sepulcro.

Comentário:

O Percursor tem a sua vida intimamente ligada ao Salvador. Até na própria morte segue as Suas pegadas.
Pode o discípulo divergir, seja no que for, do seu Mestre?
Não!
Também Jesus Cristo há-de “agradar” a Herodes e deixá-lo perplexo.
No fim e ao cabo, - podemos concluir – a Verdade influi sempre nos corações dos homens por mais empedernidos ou mesquinhos que possam ser.

(ama, comentário sobre Mc 6, 17-29, 2013.08.29)

Leitura espiritual



Documentos do Magistério

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO
CAPÍTULO I

A SITUAÇÃO DA LIBERDADE NO MUNDO DE HOJE

II. A liberdade na experiência do Povo de Deus

Igreja e liberdade

20. Porque consciente dessa mortal ambiguidade, a Igreja, pelo seu Magistério, elevou a sua voz, ao longo dos últimos séculos, alertando para os desvios que ameaçam desvirtuar o élan libertador, transformando-o em amargas decepções. Naqueles momentos, muitas vezes, ela foi incompreendida. Com o recuo do tempo, torna-se possível reconhecer a exactidão do seu discernimento.

Foi em nome da verdade sobre o homem, criado à imagem de Deus, que a Igreja interveio.10 Entretanto, acusam-na de ser um obstáculo no caminho da libertação. Sua constituição hierárquica opor-se-ia à igualdade; seu Magistério iria contra a liberdade de pensamento. Certamente, houve erros de julgamento ou omissões graves, de que, ao longo dos séculos, os cristãos foram responsáveis. 11 Mas tais objecções desconhecem a verdadeira natureza das coisas. A diversidade dos carismas no povo de Deus, que são carismas de serviço, não é contrária à igual dignidade das pessoas e à sua vocação comum para a santidade.

A liberdade de pensamento, como condição de busca da verdade em todos os domínios do saber humano, não significa que a razão humana deva fechar-se às luzes da Revelação, cujo depósito Deus confiou à sua Igreja. Abrindo-se à verdade divina, a razão criada encontra um desabrochamento e uma perfeição que constituem uma forma eminente de liberdade. Por outro lado, o Concílio Vaticano II reconheceu plenamente a legítima autonomia das ciências, 12 como também das actividades de ordem política. 13

A liberdade dos pequeninos e dos pobres

21. Um dos principais erros que contaminou gravemente o processo de libertação, desde o Iluminismo, consiste na convicção largamente difundida de que os progressos realizados no campo das ciências, da técnica e da economia, deveriam servir de fundamento para a conquista da liberdade. Desconhecia-se, dessa forma, a profundidade da mesma liberdade e das suas exigências.

Essa realidade profunda da liberdade, a Igreja sempre a experimentou, sobretudo através da vida de uma multidão de fiéis, especialmente entre os pequeninos e os pobres. Na sua fé, eles sabem que são objecto do amor infinito de Deus. Cada um deles pode afirmar: «Vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gl 2, 20b). Tal é a sua dignidade, que nenhuma das potências lhes pode arrancar; tal é a alegria libertadora neles presente. Sabem que também a eles é dirigida a palavra de Jesus: «Não mais vos chamo servos, pois o servo não sabe o que seu amo faz; mas eu vos chamo amigos, pois tudo o que ouvi do Pai eu vos dei a conhecer» (Jo 15, 15). Essa participação no conhecimento de Deus é a sua emancipação com relação à pretensão de dominação por parte dos detentores do saber: «Todos possuís a ciência ... e não tendes necessidade de que alguém vos ensine» (1 Jo 2, 20b. 27b). Eles têm consciência também de participarem do conhecimento mais elevado a que a humanidade é chamada. 14 Sabem-se amados por Deus como todos os outros e mais que todos os outros. Vivem, assim, na liberdade que provém da verdade e do amor.

Recursos da religiosidade popular

22. O mesmo sentido da fé do povo de Deus, na sua devoção cheia de esperança à cruz de Jesus, percebe a força contida no mistério de Cristo redentor. Longe, pois, de desprezar ou querer suprimir as formas de religiosidade popular que essa devoção assume, é preciso, ao contrário, destacar e aprofundar todo o seu significado e todas as suas implicações. 15 Ela constitui um facto de dimensão teológica e pastoral fundamental: são os pobres, objecto da predilecção divina, que melhor compreendem – e como que por instinto – que a libertação mais radical, que é libertação do pecado e da morte, é aquela que foi realizada pela morte e ressurreição de Cristo.

Dimensão soteriológica e ética da libertação

23. A força dessa libertação penetra e transforma em profundidade o homem e sua história, em sua actualidade presente, e anima o seu élan escatológico. O sentido primário e fundamental da libertação que assim se manifesta é o sentido soteriológico: o homem é libertado da escravidão radical do mal e do pecado.

Nessa experiência da salvação, o homem descobre o verdadeiro sentido da sua liberdade, já que a libertação é restituição da liberdade. Ela é também educação da liberdade, isto é, educação para o recto uso da liberdade. Dessa forma, à dimensão soteriológica da libertação acrescenta-se a sua dimensão ética.

Uma nova fase da história da liberdade

24. Em graus diversos, o sentido da fé, que se encontra na origem de uma experiência radical de libertação e da liberdade, impregnou a cultura e os costumes dos povos cristãos.

Hoje, porém, de um modo totalmente novo, por causa dos terríveis desafios que a humanidade deve enfrentar, torna-se necessário e urgente que o amor de Deus e a liberdade na verdade e na justiça imprimam a sua marca nas, relações entre os homens e entre os povos e animem a vida das culturas.

Pois onde faltam a verdade e o amor, o processo de libertação leva à morte de uma liberdade que terá perdido qualquer base de apoio.

Abre-se diante de nós uma nova fase da história da liberdade. As capacidades libertadoras da ciência, da técnica, do trabalho, da economia e da acção política, só darão frutos se encontrarem sua inspiração e medida na verdade e no amor mais fortes do que o sofrimento, revelados aos homens por Jesus Cristo.

CAPÍTULO II

VOCAÇÃO DO HOMEM
A LIBERDADE E DRAMA DO PECADO

I. Primeiras abordagens da liberdade

Uma resposta espontânea

25. A resposta espontânea à pergunta: «O que é ser livre?», é a seguinte: é livre aquele que pode fazer unicamente o que quiser, sem ser impedido por coacção externa e que, por conseguinte, goza de plena independência. O contrário da liberdade seria, assim, a dependência de nossa vontade à uma vontade estranha.

Mas o homem sabe sempre o que quer? Pode tudo o que deseja? É conforme à natureza do homem limitar-se ao próprio eu, separando-se da vontade de outrem? Frequentemente, a vontade de um momento não é a vontade real. E no mesmo homem podem coexistir vontades contraditórias. Mas, sobretudo, o homem defronta-se com os limites da sua própria natureza: sempre quer mais do que pode. Dessa forma, o obstáculo que se opõe ao seu querer nem sempre provém de fora, mas dos limites do seu ser. Por isso, sob pena de se destruir, o homem deve aprender a conciliar a sua vontade com a sua natureza.

Verdade e justiça, regras da liberdade

26. Além disso, cada homem é orientado para os outros homens e tem necessidade da sua sociedade. Somente aprendendo a pôr de acordo a sua vontade com a dos outros, em vista de um bem verdadeiro, fará o aprendizado da rectidão do querer. É, pois, a harmonia com as exigências da natureza humana que torna humana a vontade. Com efeito, esta exige o critério da verdade e uma relação justa com a vontade dos outros. Verdade e justiça são, assim, a medida da verdadeira liberdade. Afastando-se desse fundamento, o homem, ao tomar-se por Deus, cai na mentira e, ao invés de se realizar, destrói-se.

Longe de cumprir-se numa total autonomia do eu e na ausência de relações, a liberdade só existe verdadeiramente quando laços recíprocos, regidos pela verdade e pela justiça, unem as pessoas. Mas para que tais laços sejam possíveis, cada um, pessoalmente, deve ser verdadeiro.

A liberdade não é liberdade de fazer não importa o quê; ela é liberdade para o Bem, o único em que reside a Felicidade. O Bem é também a sua finalidade. Por conseguinte, o homem torna-se livre na medida em que tem acesso ao conhecimento do verdadeiro e que este último conhecimento, e não qualquer outra força, guie a sua vontade. A libertação em vista de um conhecimento da verdade que – única – dirige a vontade é condição necessária para uma liberdade digna desse nome.

II. Liberdade e libertação

Uma liberdade de criatura

27. Em outras palavras, a liberdade que é controlo interno dos seus próprios astos e é auto-determinação, implica imediatamente uma relação com a ordem ética. Ela encontra seu verdadeiro sentido na escolha do bem moral. Manifesta-se, então, como um resgate em relação ao mal moral.

Pela sua acção livre, o homem deve tender para o Bem supremo, através dos bens conformes às exigências da sua natureza e de acordo com a sua vocação divina.

Exercendo a sua liberdade, decide sobre si mesmo e forma-se. Nesse sentido, o homem é causa de si mesmo. Mas ele o é a título de criatura e de imagem de Deus. Tal é a verdade do seu ser, que manifesta, por contraste, o que têm de profundamente erróneo as teorias que creem exaltar a liberdade do homem ou a sua «praxis histórica», fazendo dela o princípio absoluto do seu ser e do seu devir. Essas teorias são expressões do ateísmo, ou tendem ao ateísmo, pela sua própria lógica. O indiferentismo e o agnosticismo deliberado vão na mesma direcção. É a imagem de Deus, no homem, que fundamenta a liberdade e a dignidade da pessoa humana. 16

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)

____________________________________
Notas:
10 Cfr. Instr. Libertatis Nuntius, XI, 5: AAS 76 (1984), 904; João Paulo II, Discurso inaugural de Puebla: AAS 71 (1979), 189.
11 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 36.
12 Cfr. Ibid.
13 Cfr. Loc. cit., n. 41.
14 Cfr. Mt 11, 25; Lc 10, 21.
15 Cfr. Paulo VI, Exort. apost. Evangelii Nuntiandi, n. 48: AAS 68 (1976), 37-38.
16 Cfr. Instr. Libertatis Nuntius, VII, 9; VIII, 1-9: AAS 76 (1984), 892; 894-895.



28/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Cong. Dout da Fé - Libertais conscientia)

Tempo comum XXI Semana

Evangelho: Mt 24, 42-51

42 «Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora virá o vosso Senhor. 43 Sabei que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria, sem dúvida, e não deixaria arrombar a sua casa. 44 Por isso estai vós também preparados, porque virá o Filho do Homem na hora em que menos pensais. 45 «Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem o seu senhor colocou à frente da sua família para lhe distribuir de comer a seu tempo? 46 Bem-aventurado aquele servo, a quem o seu senhor, quando vier, achar a proceder assim. 47 Na verdade vos digo que lhe confiará o governo de todos os seus bens. 48 Mas, se aquele servo mau disser no seu coração: “O meu senhor tarda em vir”, 49 e começar a bater nos seus companheiros, a comer e beber com os ébrios, 50 virá o senhor daquele servo no dia em que não o espera, e na hora que não sabe, 51 e mandará açoitá-lo e dar-lhe-á a sorte dos hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes.

Comentário:

As pequenas incidências da vida humana – como as grandes – marcam sobretudo pelo nosso comportamento em relação a elas.
Temos de ter uma unidade de critério e reacção sejam quais forem as circunstâncias ou o que sucede.

O cristão não anda “ao sabor da corrente” sabe muito bem o que quer e, sobretudo, para onde vai e, assim, não deixa que interfira com o seu objectivo seja o que for que o distrai dele.


(ama, comentário sobre Mt 24, 42-51, 2014.05.26)

Leitura espiritual



Documentos do Magistério

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO
CAPÍTULO I

A SITUAÇÃO DA LIBERDADE NO MUNDO DE HOJE

I. Conquistas e ameaças do processo moderno de libertação

A herança do cristianismo

Liberdade de pensar e de querer

9. Enfim e sobretudo, o movimento moderno de libertação deveria trazer ao homem a liberdade interior, sob a forma de liberdade de pensar e liberdade de querer. Ele pretendia libertar o homem da superstição e dos medos ancestrais, percebidos como outros tantos obstáculos ao seu desenvolvimento. Era seu propósito dar ao homem a coragem e a audácia de se servir da sua razão, sem que o temor o detivesse diante das fronteiras do desconhecido. Dessa forma, especialmente nas ciências históricas e nas ciências humanas, desenvolveu-se um novo conhecimento do homem, destinado à ajudá-lo a se compreender melhor, no que diz respeito ao seu desenvolvimento pessoal ou às condições fundamentais da formação da comunidade.

Ambiguidades do processo moderno de libertação

10. Quer se trate da conquista da natureza, da vida social e política ou do domínio do homem sobre ele mesmo, em plano individual e colectivo, todos podem constatar que não somente os progressos realizados estão longe de corresponder às ambições iniciais, mas também que novas ameaças, novas servidões e novos terrores surgiram, à medida que se ampliava o movimento moderno de libertação. É um sinal de que graves ambiguidades acerca do próprio sentido da liberdade, já desde a sua origem, corroíam por dentro esse movimento.

O homem ameaçado pelo seu domínio da natureza

11. Foi assim que, na medida em que se libertava das ameaças da natureza, o homem passou a sentir um medo crescente diante de si mesmo. A técnica, subjugando sempre mais a natureza, corre o risco de destruir os fundamentos de nosso próprio futuro, de modo que a humanidade de hoje torna-se a inimiga das gerações futuras. Ao reduzir à servidão, com um poder cego, as forças da natureza, não se está destruindo a liberdade dos homens de amanhã? Que forças podem proteger o homem da escravidão do seu próprio domínio? Torna-se necessária uma capacidade de liberdade e de libertação totalmente nova e que exige um processo de libertação inteiramente renovado.

Riscos da potência tecnológica

12. A força libertadora do conhecimento científico concretiza-se nas grandes realizações tecnológicas. Quem dispõe das tecnologias, possui o poder sobre a terra e sobre os homens. Daí nascem formas de desigualdade, até então desconhecidas, entre os detentores do saber e aqueles que simplesmente utilizam a técnica. A nova potência tecnológica está ligada ao poder económico e leva à sua concentração. Dessa forma, no interior dos povos e entre os povos, formaram-se relações de dependência que, nos últimos vinte anos, deram ocasião a uma nova reivindicação de libertação. Como impedir que a potência tecnológica não se torne um poder de opressão de grupos humanos ou de povos inteiros?

Individualismo e colectivismo

13. Na área das conquistas sociais e políticas, uma das ambiguidades fundamentais da afirmação da liberdade, no século das Luzes, está ligada à concepção do sujeito dessa liberdade como indivíduo que se basta a si mesmo e tendo com fim a satisfação de seu interesse próprio no gozo dos bens terrestres. A ideologia individualista inspirada por tal concepção do homem favoreceu, nos inícios da era industrial, a desigual repartição das riquezas, a um ponto tal que os trabalhadores se viram excluídos do acesso aos bens essenciais, para cuja produção tinham contribuído e aos quais tinham direito. Daí nasceram pujantes movimentos de libertação da miséria mantida pela sociedade industrial.

Cristãos – leigos e pastores – não deixaram de lutar por um reconhecimento equitativo dos legítimos direitos dos trabalhadores. Em favor dessa causa, o Magistério da Igreja elevou a sua voz, em diversas ocasiões.

Muito frequentemente, porém, a justa reivindicação do movimento operário conduziu a novas servidões, por se inspirar em concepções que, ignorando a vocação transcendente da pessoa humana, atribuíam ao homem um fim meramente terrestre. Algumas vezes, voltou-se para projectos colectivistas, que gerariam injustiças tão graves quanto as que pretendiam pôr um fim.

Novas formas de opressão

14. Dessa forma, a nossa época viu nascer os sistemas totalitários e formas de tirania, que não teriam sido possíveis em épocas anteriores à expansão tecnológica. Por um lado, a perfeição tecnológica foi aplicada em genocídios. Por outro lado, praticando o terrorismo, que causa a morte de inúmeros inocentes, minorias pretendem derrotar nações inteiras.

O controlo, hoje, pode insinuar-se até no interior dos indivíduos; e mesmo as dependências criadas pelos sistemas de prevenção podem representar potenciais ameaças de opressão. Uma falsa libertação das coacções da sociedade é procurada no recurso à droga, que, no mundo todo, leva muitos jovens à auto-destruição, lançando famílias inteiras na angústia e na dor.

Riscos de destruição total

15. Torna-se cada vez mais débil o reconhecimento de uma ordem jurídica como garantia do relacionamento dentro da grande família dos povos. Quando a confiança no direito não parece mais oferecer uma protecção suficiente, busca-se a segurança e a paz numa ameaça recíproca, que se torna um risco para toda a humanidade. As forças que deveriam servir ao desenvolvimento da liberdade servem para aumentar as ameaças. Os instrumentos de morte que se opõem, hoje, são capazes de destruir toda a vida humana sobre a terra.

Novas relações de desigualdade

16. Entre as nações dotadas de poderio e as que dele são privadas instalaram-se novas relações de desigualdade e de opressão. A busca do interesse próprio parece ser a regra das relações internacionais, sem que se leve em consideração o bem comum da humanidade.

O equilíbrio interno das nações pobres é rompido pela importação das armas, introduzindo nelas um factor de divisão que conduz ao domínio de um grupo sobre outro. Que forças poderiam eliminar o recurso sistemático às armas, restituindo ao direito a sua autoridade?

Emancipação das nações jovens

17. É no contexto da desigualdade das relações de força que apareceram os movimentos de emancipação das nações jovens, geralmente nações pobres, ainda recentemente submetidas ao domínio colonial. Muito frequentemente, porém, o povo é privado de uma independência duramente conquistada, por regimes ou tiranias sem escrúpulos, que tripudiam impunemente sobre os direitos do homem. Dessa forma, o povo, reduzido à impotência, apenas mudou de dono.

Permanece, no entanto, como um dos maiores fenómenos do nosso tempo, em escala de continentes inteiros, o despertar da consciência do povo que, esmagado pelo peso da secular miséria, aspira a uma vida na dignidade e na justiça e está pronto a bater-se pela sua liberdade.

A moral e Deus obstáculos para a libertação?

18. Com relação ao movimento moderno de libertação interior do homem, deve constatar-se que o esforço para libertar dos seus limites o pensamento e a vontade chegou ao ponto de considerar que a moralidade como tal constituía um limite irracional que o homem, decidido a se tornar senhor de si mesmo, devia ultrapassar.

Mais ainda: para muitos, é o próprio Deus que seria a alienação específica do homem. Entre a afirmação de Deus e a liberdade humana haveria uma radical incompatibilidade. Rejeitando a fé em Deus, o homem, enfim, tornar-se-ia livre.

Questões angustiantes
19. Aqui se encontra a raiz das tragédias que acompanham a história moderna da liberdade. Porque essa história, apesar de grandes conquistas que, aliás, permanecem sempre frágeis, experimenta frequentes recaídas na alienação e vê surgir novas servidões? Porque movimentos de libertação, que suscitaram imensas esperanças, vão desaguar em regimes para os quais a liberdade dos cidadãos, 8 a começar pela primeira delas, que é a liberdade religiosa, 9 é o primeiro inimigo?

Quando o homem pretende libertar-se da lei moral e tornar-se independente de Deus, longe de conquistar a sua liberdade, ele destrói-a. Fugindo da medida da verdade, torna-se presa do arbitrário; entre os homens, as relações fraternas são abolidas, para dar lugar ao terror, ao ódio e ao medo.

O profundo movimento moderno de libertação permanece ambíguo, porque foi contaminado por erros mortais acerca da condição do homem e da sua liberdade. Ele carrega, simultaneamente, promessas de verdadeira liberdade e ameaças de mortais servidões.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)

____________________________________
Notas:
8 Cfr. Instr. Libertatis Nuntius, XI, 10: AAS 76 (1984), 905-906.
9 Cfr. João Paulo II, Enc. Redemptor Hominis, n. 17: AAS 71 (1979), 296-297; Decl. de 10 de março de 1984 ao 5o Colóquio dos Juristas: L’Osservatore Romano, 11 de março de 1984, 8.