13/06/2014

Com Maria, que fácil!

Antes, só, não podias... – Agora, recorreste à Senhora, e, com Ela, que fácil! (Caminho, 513)

Os filhos, especialmente quando são ainda pequenos, costumam pensar no que hão-de fazer por eles os seus pais, esquecendo-se das suas obrigações de piedade filial. Nós, os filhos, somos geralmente muito interesseiros, embora esta nossa conduta – já o fizemos notar – não pareça incomodar muito as mães, porque têm suficiente amor nos seus corações e querem com o melhor carinho: aquele que se dá sem esperar correspondência.

Assim acontece também com Santa Maria. (...) Hão-de doer-nos, se as encontrarmos, as nossas faltas de delicadeza com esta boa Mãe. Pergunto-vos e pergunto-me a mim mesmo: como a honramos?

Voltemos mais uma vez à experiência de cada dia, ao modo de tratar com as nossas mães na terra. Acima de tudo, que desejam dos seus filhos, que são carne da sua carne e sangue do seu sangue? O seu maior desejo é tê-los perto. Quando os filhos crescem e não é possível continuarem a seu lado, aguardam com impaciência as suas notícias, emocionam-se com tudo o que lhes acontece, desde uma ligeira doença até aos acontecimentos mais importantes.

Olhai: para a nossa Mãe, Santa Maria, jamais deixamos de ser pequenos, porque Ela nos abre o caminho até ao Reino dos Céus, que será dado aos que se tornam meninos. De Nossa Senhora nunca nos devemos afastar. Como a honraremos? Tendo intimidade com Ela, falando com Ela, manifestando-lhe o nosso carinho, ponderando no nosso coração os episódios da sua vida na terra, contando-lhes as nossas lutas, os nossos êxitos e os nossos fracassos. (Amigos de Deus, nn. 289–290)


Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira





(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Jesus Cristo e a Igreja 18

Pode negar-se a existência histórica de Jesus?

Na actualidade, as análises históricas mais rigorosas coincidem em afirmar com toda a certeza – inclusivamente prescindindo por completo da fé e do emprego das fontes históricas cristãs para evitar qualquer possível desconfiança – que Jesus de Nazaré existiu; viveu na primeira metade do século primeiro; era judeu; habitou a maior parte da sua vida na Galileia; formou um grupo de discípulos que o seguiram; suscitou fortes adesões e esperanças pelo que dizia e pelas acções admiráveis que realizava; esteve na Judeia e em Jerusalém pelo menos uma vez, por ocasião da festa da Páscoa; foi visto com receio por parte de alguns membros do Sinédrio e com cautela por parte da autoridade romana, pelo que no fim foi condenado à pena capital pelo procurador romano da Judeia, Pôncio Pilatos; e morreu cravado numa cruz. Depois de morto, o seu corpo foi colocado num sepulcro, mas ao fim de alguns dias, o cadáver já não estava aí.
O desenvolvimento contemporâneo da investigação histórica permite considerar como provados, pelo menos esses factos, o que não é pouco para um personagem de há vinte séculos. Não há evidências racionais que garantam com maior segurança a existência de personagens como Homero, Sócrates ou Péricles – citando apenas alguns muito conhecidos – do que a que outorgam as provas da existência de Jesus. E inclusivamente o número de dados objectivos, criticamente contrastáveis, que se têm sobre estas personagens é quase sempre muito menor.

Porém, o caso de Jesus é distinto, não apenas pela profunda marca que deixou, mas porque as informações que proporcionam as fontes históricas sobre Ele, traçam uma personalidade e apontam para acções que vão para além do imaginável e além daquilo que pode estar disposto a aceitar, quem pense que não há nada para além do visível e do comprovável experimentalmente. Os dados convidam a pensar que Ele era o Messias que haveria de vir reger o seu povo como um novo David, e mais ainda, que Jesus é o Filho de Deus feito homem.

Para acolher de verdade esse convite é necessário contar com um auxílio divino gratuito, que concede uma luz à inteligência e a capacita para perceber em toda a sua profundidade a realidade em que vive. Mas trata-se de uma luz que não desfigura essa realidade, mas que permite captá-la com todas os seus matizes reais, muitos dos quais escapam à observação ordinária. Essa é a luz da fé.

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Temas para meditar 144

Reino de Deus



O Reino de Deus não tem preço, e todavia custa exactamente o que tenhas (...). A Pedro e a André custou-lhes o abandono de uma barca e de umas redes; à viúva custou-Lhe duas moeditas de prata (cf. Lc 21, 2); a outro, um copo de água fresca (cf. Mt 10, 42).


(S. gregório magno, Hom. 5 sobre os evangelhos)

Tratado da lei 22

Questão 95: Da Lei humana

Art. 4 — Se Isidoro estabelece convenientemente a divisão das leis humanas ou do direito humano.

(V Ethic., lect. XII).

O quarto discute-se assim. — Parece que Isidoro estabelece inconvenientemente a divisão das leis humanas, ou do direito humano.

1. — Pois, neste direito compreende o direito das gentes, assim chamado, como ele próprio o diz, porque por eles se regem todos os povos. Ora, como diz ainda o mesmo, o direito natural é comum a todas as nações. Logo, o direito das gentes não está contido no direito positivo humano, mas antes, no direito natural.

2. Demais. — Causas que têm a mesma virtude não diferem formal, mas só, materialmente. Ora, as leis, os plebiscitos, os senatus-consultos e outras disposições legais, que o autor enumera, têm todos a mesma virtude. Logo, parece que só hão-de diferir materialmente. Ora, não se deve, na arte, levar em conta essa distinção que pode dividir-se ao infinito. Logo, é inconveniente estabelecer tal divisão das leis humanas.

3. Demais. — Como há, na cidade, príncipes, sacerdotes e soldados, há também muitos outros ofícios humanos. Logo, parece que, assim como se introduz de certo modo um direito militar e um direito público exercido pelos sacerdotes e pelos magistrados, assim também devem introduzir-se outros direitos e outros ofícios próprios da cidade.

4. Demais. — Deve-se preterir o acidental. Ora, uma lei pode, acidentalmente, ser feita por um ou outro indivíduo. Logo, é inconveniente estabelecer uma divisão das leis humanas fundada nos nomes dos legisladores, de modo que, p. ex., uma se chame Cornélia, outra, Falcídia, etc.

Mas, em contrário, basta a autoridade de Isidoro.

Uma divisão pode ser feita, essencialmente, pelo que constitui a essência do ente a ser dividido. Assim, a essência do animal compreende a alma, que pode ser racional ou irracional. Por onde, própria e essencialmente, o animal é dividido em racional e irracional, e não em branco e preto, totalmente estranhos à sua essência. Ora, há muitos elementos constitutivos da essência da lei humana, segundo os quais qualquer pode ser, própria e essencialmente, dividida.

Assim, primeiramente, é da sua essência ser derivada da lei natural, como do sobredito resulta (a. 2). E, a esta luz, o direito positivo divide-se em direito das gentes e direito civil, conforme aos dois modos porque se dá a derivação da lei natural, como já antes se disse (a. 2). Pois, ao direito das gentes pertence o que deriva da lei natural como as conclusões derivam dos princípios; tais as compras justas, vendas e outras transacções sem as quais os homens não podem ter convivência, que é de direito natural, porque o homem é um animal naturalmente social, como o prova Aristóteles. O que, porém, deriva da lei da natureza, por determinação particular, pertence ao direito civil, pelo qual cada Estado determina O que lhe é acomodado.

Em segundo lugar, da essência da lei humana é ordenar-se ao bem comum da cidade. E, a esta luz, a lei humana pode dividir-se conforme à diversidade dos que especialmente trabalham para o bem comum. Assim, os sacerdotes, orando a Deus pelo povo; os príncipes, governando o povo; e os soldados, pugnando pela salvação dele. Por onde, a estes homens se aplicam certos direitos especiais.

Em terceiro lugar, é da essência da lei humana ser instituída pelo governador da comunidade civil, como já dissemos. E assim sendo, as leis humanas distinguem-se conforme aos diversos regimes da cidade. — Dos quais um, segundo o Filósofo, se chama reino, i. é, quando a cidade é governada por um só chefe. Ao qual correspondem as constituições. Outro regime é o chamado aristocracia, que é o principado dos melhores ou optimatas. E a estes correspondem as respostas dos prudentes e também os senatus-consultos. — Outro é a oligarquia, i. é, o principado de poucos, ricos e poderosos ao qual corresponde o direito pretoriano, também chamado honorário. — Outro, ainda, é o regime do povo chamado democracia, ao qual correspondem os plebiscitos. — Outro por fim é o tirânico, absolutamente corrupto, e por isso nenhuma lei lhe corresponde. — Mas há também um regime composto de todos esses, que é o melhor. E a esse corresponde a lei, estabelecida simultaneamente pelos patrícios e pelos plebeus, como diz Isidoro.

Enfim, em quarto lugar, é da essência da lei humana ser directiva dos actos humanos. E a esta luz, conforme aos diferentes assuntos para os quais as leis foram estabelecidas, assim se distinguem as leis, às vezes denominadas pelos nomes dos seus autores. Tais são as distinções de lei Júlia, sobre os adultérios; lei Cornélia, sobre os sicários, e assim por diante, não por causa dos seus autores, mas por causa dos seus objectos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O direito das gentes, sendo racional, é, de certo modo, natural ao homem, enquanto derivado da lei natural, a, modo de conclusão não muito remota dos princípios; por isso os homens facilmente se põem de acordo relativamente a ele.

Distingue-se, contudo, do direito natural, sobretudo do que é comum a todos os animais.

Pelo que foi dito se deduzem claras as RESPOSTAS ÀS OUTRAS OBJECÇÕES.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A Paciência 3)


Tempo comum Semana X

Evangelho: Mt 5, 33-37

33 «Igualmente ouvistes que foi dito aos antigos: “Não perjurarás, mas guardarás para com o Senhor os teus juramentos”. 34 Eu, porém, digo-vos que não jureis de modo algum, nem pelo céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela terra, porque é o escabelo de Seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande rei. 36 Nem jurarás pela tua cabeça, pois não podes fazer branco ou preto um só dos teus cabelos. 37 Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que passa disto, procede do Maligno.

Comentário:

Quem diz a verdade não tem necessidade nem de testemunhas nem de juramentos. A verdade é só uma, inteira e completa não tem cambiantes nem meias palavras.

O exemplo que Jesus Cristo que é a Verdade dá aos cristãos é mais que elucidativo.

O cristão não tem de justificar o que diz ou afirma porque todos o hão-de conhecer como pessoa veraz e de inteira confiança.

(ama, comentário sobre Mt 5, 33-37, 2014.04.16)

Leitura espiritual



Temas


A PACIÊNCIA

…/3

O egoísta é monótono. Dirige-se a Deus e aos outros, dizendo sempre: “Dá-me!” É um homem que vive para pegar, para tomar, para armazenar, para desfrutar, em suma, para obter...

O egoísta parece ter, dentro do coração, um cachorrinho obsessivo, que dia e noite late sem parar, com voz esganiçada e estridente: Eu! Eu! Eu! E, quando a voz afina: Mim! Mim! Mim!

Só que o mundo está repleto de outros cachorros iguais e lhe responde com o eco das suas próprias palavras, de modo que por toda a parte se lança contra ele o mesmo ganido: Eu! Eu! Eu!

Certamente o mundo não costuma fazer-nos a toda a hora reverências orientais nem nos estende aos pés tapetes vermelhos.

NA CONTRAMÃO DOS HOMENS E DE DEUS

Desse entrechoque de egoísmos, logicamente, hão de sair faíscas. Um encontrão! Uma cotovelada! Um “chega pra lá!” Um “eu primeiro!” Um “espere um pouco e você vai ver!” A colisão de egoísmos é inevitável, pois o meu egoísmo sempre vai na contramão do outro, e é fisicamente impossível colocar dois centros diferentes no mesmo círculo ou dois umbigos do mundo exatamente no mesmo ponto.

Estamos vendo, e parece coisa clara, que a maior parte das nossas impaciências são apenas egoísmos contrariados. Se as fôssemos examinando uma após outra, numa espécie de microscópio espiritual, acabaríamos verificando que, nelas, nas impaciências, estão todas as cores de que o egoísmo humano se tinge, quer seja a cor orgulhosa, quer a comodista, a hedonista, a sensual ou a invejosa... Todas aquelas cores do espectro em que a luz triste do egoísmo se dispersa.

Alguém já disse – sem dúvida com exagerada dureza – que o mundo é um chiqueiro de egoísmos, onde estes, em recinto fechado, se mordem e dilaceram. Algo parecido com isso é o que não tardará a descobrir, por experiência própria, quem adotar como filosofia de conduta “gozar a vida”, “passar o melhor possível”, “conseguir o máximo”, “levar vantagem em tudo”.

O pior, porém, não é que isso tudo não passe de uma ilusão trágica, decepcionante, num mundo que não nos abre alas como ao seu “príncipe”. O pior é que o egoísta, por princípio, anda sempre na contramão de Deus, e isso é muito mais sério e perigoso.

Deus só tem uma mão: o Amor. O egoísmo trafega em outro sentido. É significativo que uma condição prévia para andar na mão de Deus e para aprender o amor cristão seja esta: Quem quiser salvar a sua vida – diz Cristo – a perderá; mas quem perder a sua vida por amor de mim [quem souber sacrificá-la por amor], a salvará (cf. Mt 16, 25 e Mc 8, 35). A mão de Deus é o Amor. Sair dela é atravessar-se na estrada, e aí todas as colisões são inevitáveis.

O egoísmo colide com tudo e, além disso, tem a triste faculdade de tornar negativas todas as coisas, opondo-as a si. O egoísta, por exemplo, em vez de valer-se do temperamento da esposa para saber “como” deve amá-la, serve-se disso como motivo para humilhá-la e ofendê-la. Não pensa:
“Ela é lenta, vou estimulá-la, vou ajudá-la”. Pensa: “Ela é lenta; atrasa tudo! Não julgava que fosse tão lerda quando casei! Isto não pode continuar!” São duas maneiras opostas de reagir perante uma mesma situação. Duas maneiras que se podem dar em todas as situações. As mais belas coisas estiolam nas mãos do egoísta.

Vale a pena repisar bem a afirmação de que o nosso egoísmo é a causa fundamental dos nossos aborrecimentos. Assim como o lendário Rei Midas tinha o poder de transformar em ouro tudo o que tocava, o egoísta tem a virtude de transformar em pontas, em cacos de vidro, em navalhas e espinheiros, tudo o que não se curva aos seus desejos.

O QUE A VIDA ESPERA DE NÓS

No relato autobiográfico intitulado Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, [1] o psiquiatra
Viktor Frankl relata o ambiente de profundo abatimento que se ia apossando do espírito de seus
companheiros de barracão, no campo de concentração nazista em que se encontravam, à medida
que as expectativas de libertação se afunilavam e o futuro aparecia cada vez mais sombrio.
Era comum ouvir-se dizer: – “Eu já não espero mais nada da vida”.
“Que resposta podemos dar a essas palavras?” – perguntava-se Frankl. E a seguir, com vibrações de descoberta, explica a nova luz que se acendeu nele e que procurou transmitir aos outros:
“Do que realmente precisamos é de uma mudança radical da nossa atitude perante a vida.

Temos que aprender nós mesmos, e depois ensinar aos desesperados, que na verdade não é importante o que nós esperamos da vida; importante é o que a vida espera de nós”.

Numa noite em que um corte de luz mergulhou os prisioneiros numa depressão ainda maior, Frankl, embora gelado e sonolento, irritado e cansado, sentiu que era preciso fazer alguma coisa para infundir ânimo àqueles pobres farrapos humanos que já desistiam da vida. Levantou-se, então, e falou. Expôs com veemente ardor a sua descoberta. E essa ideia de que a vida tem um sentido infinitamente superior ao de simplesmente satisfazer desejos, obter coisas, passar bem, gozar de boa saúde, invadiu, como um clarão de esperança, aqueles corações agoniados.

Entenderam que Deus, a esposa, os filhos, os amigos, o mundo esperavam deles (deles que pareciam animais acuados, prestes a serem levados para o matadouro) um testemunho – na vida ou na morte – de que o ser humano foi feito para algo muito maior do que comer, beber, gozar, rir na fortuna e chorar na adversidade. Deus e os outros esperavam algo que só cada um deles, com grandeza de alma, podia dar. Deus e o mundo “precisavam” de cada um deles!

Esta concepção da vida, como é óbvio, opõe-se frontalmente à atitude egoísta acima descrita. É a outra possível vertente da nossa existência. A única verdadeira. A vida só pode ser encarada como uma missão a cumprir, que nos é confiada por Deus, como uma edificação de que somos responsáveis e de que outros dependem. Não vivemos para obter; vivemos para edificar.

QUERENDO EDIFICAR UMA TORRE

O próprio Cristo utiliza a imagem da edificação para falar de nós. Diante do seu futuro, o homem é um construtor. Deus facilita-lhe o material, desvenda-lhe aos poucos as linhas mestras da “obra” a ser realizada e estende-lhe a mão para ajudá-lo na tarefa. Mas cada qual é responsável por fazer a obra bem feita. Quem de vós, se quiser edificar uma torre, não se senta primeiro e calcula...? (Lc 14, 28).

Aprofundando na imagem da edificação, Cristo diz-nos ainda como se deve fazer o cálculo, qual é a garantia de que a construção será sólida e indestrutível: Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente que edificou a sua casa sobre rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa: ela, porém, não caiu, porque estava edificada sobre rocha (Mt 7, 24-27).

Construir sobre rocha, fazer uma edificação que nenhuma contrariedade – vento ou chuva, tremores ou enchentes – possa abalar, só se consegue quando o alicerce sobre o qual se levanta é a palavra de Cristo: Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática...

É a palavra, é a mensagem de Cristo que indica a “mão de direcção” que Deus quer deixar sinalizada no coração dos homens: a mão do Amor. Amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e com todas as forças; amar o próximo como a nós mesmos, mais ainda, como Cristo nos amou – ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13) –, este é o alicerce, este é o pilar firmíssimo, esta é a “mão de Deus”! Quando se vai por ela, descobre-se que a única coisa que a vida e as pessoas nos estão pedindo a toda a hora é amor: amor consistente na aceitação confiante da Vontade de Deus e da sua Cruz santa; ou amor que aprenda, num crescendo que nunca termina, a compreender os outros, a desculpá-los, a perdoá-los, a servi-los, a dar-se sem cálculos nem mesquinharias.

Quando nos decidimos a enveredar por essa senda, ficamos pasmados ao perceber que cada vez há menos coisas que nos pegam na contramão e nos fazem perder a paciência. E isto é assim porque cada vez se torna menor o egoísmo que trafega em sentido contrário ao do amor.

Façamos uma pequena experiência. Escrevamos em forma de lista todas as coisas que, na última semana, nos aborreceram e mexeram com a nossa paciência. A seguir, diante de cada item, anotemos uma pergunta: que tipo de amor Deus me pedia aí? E prossigamos a experiência, imaginando: se eu tivesse vivido naquele momento o tipo certo de amor, teria havido impaciência?

A resposta seria, naturalmente, “não”. Não haveria impaciência se eu tivesse amado. Talvez possamos retrucar: “Mas é que eu não sou santo” – o que é verdade –, mas o que não poderemos dizer nunca honestamente é que ali havia uma contrariedade que o amor não podia superar.

Na realidade, todos os exercícios de paciência consistem em exercícios de amor. Conheço várias pessoas – graças a Deus conheço muita gente boa – que, ao voltarem a casa com toda a carga do cansaço do dia, vão rezando o terço no trânsito ou carregam consigo um livro de pensamentos espirituais, para lerem e meditarem uma ou outra frase ao pararem no semáforo demorado ou no engarrafamento incontornável. Ao mesmo tempo, vão espremendo os seus cansados miolos, tentando concretizar: “Que iniciativa, que detalhe, que palavra posso preparar para que a minha chegada a casa seja um motivo de alegria para a minha mulher, ou para o meu marido, e para os meus filhos?” E, assim, homens e mulheres cujo retorno ao lar era antes soturno e irritado, tornam-se – em virtude do amor a Deus e aos outros, que se esforçam por cultivar – corações pacientes, que espalham a paz e a alegria à sua volta.
(cont.)






[1] 3ª ed., Sinodal-Vozes, 1993, págs. 76 e segs.

12/06/2014

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira






(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Temas para meditar 143



Humildade e Fé


A fé não é própria dos soberbos, mas dos humildes.




(Stº agostinho - cit em Catena Áurea vol. VI pg. 292)

Reflectindo - 24

      Reflectindo

Mergulho

A cor da água era indecifrável: tão depressa verde brilhante como um azul profundo, misterioso.
Eu movia-me como que voando, mal agitando os braços, mas com uma direcção estranhamente fixa: para baixo... sempre para baixo.
Admirava-me muito de não ver o fundo de coisa nenhuma e, também, não ver nada nadando ao meu lado: nem peixes, cetáceos...ou qualquer outro animal marinho.
E, não tinha muitas dúvidas, eu estava em pleno mar... num mergulho profundo, decidido, fantástico! E, no entanto, parecia-me estar só, absolutamente só naquela imensidão de que não adivinhava nem o princípio nem o fim.
Sentia-me bastante à vontade, não tinha medo ou receio, - o que não deixava de ser estranho: o mar infundiu-me sempre enormíssimo respeito - não tinha noção de dimensões: altura, largura, espessura... nada!
Como poderia ser? Como respirava? Como...?
Não tenho respostas para dar a estas - e outras numerosíssimas - perguntas.
Ocorre-me apenas, que neste sonho, vislumbrei a imensidão de Deus!
E... desejei repetir o "mergulho".

(ama, reflexões, 2004)


Tratado da lei 21

Questão 95: Da Lei humana

Art. 3 — Se Isidoro expõe convenientemente a qualidade da lei positiva.

O terceiro discute-se assim. — Parece que Isidoro expõe inconvenientemente as qualidades da lei positiva, dizendo: A lei há-de ser honesta, justa, possível, natural, conforme aos costumes pátrios, conveniente ao lugar e ao tempo, necessária, útil e também clara, de modo a não iludir pela obscuridade; escrita, não para a utilidade privada, mas para a utilidade comum dos cidadãos.

1. — Pois, antes, atribuía à qualidade de lei três condições, dizendo: Lei será tudo o que estiver de acordo com a razão; que, ao menos, concorde com a religião, convenha à disciplina, aproveite à salvação. Portanto, é superfluamente que, depois, multiplica as condições da lei.

2. Demais. — A justiça faz parte da honestidade, como diz Túlio. Logo, depois de ter dito — honesta, superfluamente acrescenta — justa.

3. Demais. — A lei escrita, segundo Isidoro, divide-se do costume, por oposição. Logo, não devia dizer, na definição da lei — conforme ao costume pátrio.

4. Demais. — Necessário tem dupla acepção. Numa é o que, sendo-o absolutamente, não pode sofrer mudança; e esta necessidade, não dependendo do juízo humano, não pertence à lei humana. Mas, noutra acepção, pode ser necessário o que tende para um fim, e tal necessidade é o mesmo que utilidade. Logo, é supérfluo dizer — necessária e útil.

Mas, em contrário, é a autoridade do próprio Isidoro.

A forma de um ser, que tende para um fim, há-de necessariamente ser determinada por proporção com esse fim. Assim, a forma de uma serra há-de ser tal que sirva para cortar, como está claro em Aristóteles. Assim também, tudo o que é recto e medido há de necessariamente ter a forma proporcionada à sua regra e medida. Ora, uma e outra coisa se encontram na lei humana; pois, ordena-se a um fim; e é uma regra ou medida, regulada ou medida por uma medida superior. E esta é dupla a saber, a lei divina e a lei da natureza, como do sobredito resulta (a. 2; q. 93, a. 3). Ora, o fim da lei humana é a utilidade dos homens, como também o diz o jurisconsulto. Por isso Isidoro discriminou, em primeiro lugar, três condições da lei: ser concorde com a religião, enquanto proporcionada à lei divina; conveniente a disciplina, enquanto proporcionada à lei da natureza; aproveitar à salvação enquanto proporcionada à utilidade humana.

E a estas três se reduzem todas as outras condições, referidas em seguida. Assim, a denominação de honesta se refere a ser concorde com a religião; o que acrescenta — justa, possível, natural, conforme aos costumes pátrios, conveniente ao lugar e ao tempo, tudo se reduz a ser conveniente à disciplina. Pois, a disciplina humana se refere, primeiro, à ordem da razão, que está incluída na palavra — justa. Segundo, à faculdade do agente. Pois, a disciplina deve convir a cada um, segundo a sua possibilidade, observada a possibilidade da natureza. Assim, não se pode impor às crianças o mesmo que se impõe aos homens perfeitos. E ela ser deve conforme aos costumes humanos, pois, o homem não pode, só, viver em sociedade, sem conformar os seus costumes com os dos outros. Terceiro quanto às circunstâncias devidas, Isidoro diz — conveniente ao lugar e ao tempo. E o que acrescenta — necessária, útil, etc. — se refere ao que importa à salvação. De modo que a necessidade se refere à remoção dos males; a utilidade, à consecução dos bens; a clareza acautela contra danos que poderiam provir da própria lei. E, ordenando-se a lei para o bem comum, como já dissemos (q. 90, a. 2), esta mesma condição está exposta na última parte da enumeração.

Donde se deduzem claras as RESPOSTAS ÀS OBJECÇÕES.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A Paciência 2)


Tempo comum X Semana

Evangelho: Mt 5, 20-26

20 Porque Eu vos digo que, se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus. 21 «Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não matarás”, e quem matar será submetido ao juízo do tribunal. 22 Porém, Eu digo-vos que todo aquele que se irar contra o seu irmão, será submetido ao juízo do tribunal. E quem chamar cretino a seu irmão será condenado pelo sinédrio. E quem lhe chamar louco será condenado ao fogo da Geena. 23 Portanto, se estás para fazer a tua oferta diante do altar, e te lembrares ali que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem fazer a tua oferta. 25 Concilia-te sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho, para que não suceda que esse adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao guarda, e sejas metido na prisão. 26 Em verdade te digo: Não sairás de lá antes de ter pago o último centavo.

Comentário:

Algumas expressões deste trecho de São Mateus são evidentemente para interpretar ao sabor da época em que Jesus as proferiu. As palavras “louco”, “cretino”, “imbecil” tinham um significado gravíssimo que, hoje, efetivamente já não têm,

O que interessa reter, portanto, é a definição das prioridades: oferecer algo a Deus e, depois, reconciliar-se com quem estamos de mal, ou o contrário?

Jesus Cristo não deixa nenhuma margem de equívoco: Deus não aceitará nada quando há algo pendente com outros.

É, no fim e a cabo, o que se sintetiza no Pai-Nosso: “perdoa as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos ofendeu”; sendo que, como é óbvio, o inverso também é verdadeiro ou seja: “perdoa as nossas ofensas porque já fomos perdoados a quem ofendemos”.

(ama, comentário sobre Mt 5, 20-26, 2014.03.14)


Leitura espiritual



Temas


A PACIÊNCIA
…/2

ESTOJOS DESAJUSTADOS

Mas, uma vez que não vivemos no País das Maravilhas, como Alice, e sim na Terra dos Homens de que falava Saint-Exupéry, forçoso é que reconheçamos que a toda a hora o estojo do mundo falha, machuca, não abre, não fecha e se desajusta ou se desengonça. E então a impaciência começa a brotar, a crescer, e a dar os seus, digamos, “frutos” (os já referidos lamentos, tristezas, reclamações e quejandos).

As formas de desajuste e inadaptação ao estojo da realidade, isto é, as impaciências do dia-a-dia, são tão ricas em número como as espécies de insetos num livro de entomologia. Bastaria observar com um pouquinho de atenção retalhos de um único dia na vida de qualquer família normal para podermos elaborar um volumoso dicionário de impaciências. Lembremos algumas das mais corriqueiras, a título de exemplo e só para mencionar o que Nelson Rodrigues chamaria o “óbvio ululante”.

Papai acorda mais cedo e vai preparar o café (ofício cada dia mais masculino). Primeira “fechada”, naquela hora de olhar estremunhado e nervos mal temperados: da torneira não sai um pingo d'água, porque é dia de corte devido à estiagem; e o pior é que o jornal tinha avisado, e já é a quarta vez que se esquece disso num mês. Segunda “fechada”: a menina, após a explosão de um estrondoso rádio-despertador e mais três séries de violentas batidas da mãe na porta do quarto, continua a dormir, e o pobre progenitor de emprego ameaçado, que já está atrasado para o serviço, vai ter que deixá-la antes, a ela e ao Rodrigo, na escola. Ó estojo mal ajustado! O dia já começa, como diria Guimarães Rosa, com “o mundo à revelia”!

Mas o que começa, continua. Quando o aflito pai ia ligar para o escritório, avisando que uma emergência o impediria de participar da primeira reunião, o imprescindível telefone, tão necessário, está ocupado. Por quem? Pela filha mais velha, é lógico, que já leva vinte minutos na sua primeira conversa do dia com o namorado. “Sempre é assim!”, desabafa o pobre pai acuado.

Mas a bronca não elimina quinze minutos mais, mínimo regulamentar para completar o horário do matutino namoro. O estojo continua sem funcionar.

E quando por fim o homem, esfalfado antes de ter começado a trabalhar, consegue sair à rua com o velho carro usado, adquirido a preço camarada de um colega, os olhos batem instantaneamente no guarda-lamas afundado..., e a última que pegou no carro foi a mulher. – “Mais uma vez, outra vez!”, exclama o nosso protagonista, praticando sem o saber um ato teologicamente perfeito de impaciência.

Será, porventura, preciso acrescentar que, ao conseguir entrar na avenida, com um barulhinho no motor que deixa o coração em sobressalto, o trânsito está parado? O engarrafamento é monumental, fora do comum – que é comum mesmo –, devido a uma carreta que se incrustou de frente no canteiro central e está atravessada na pista. – “Mais essa! E depois dizem que não existe a lei de Murphy!”

Se quiséssemos continuar pintando esse quadro escuro de contrariedades cotidianas, não poderia faltar uma referência aos comentários mordazes dos colegas de escritório, porque o time dele “mais uma vez” perdeu, nem faltaria a queixa contra o infernal barulho da rua que tanto dificulta trabalhar; e assim, após inúmeros aborrecimentos, veríamos o nosso homem chegar a casa num tal estado de ânimo que qualquer pergunta da mulher lhe pareceria uma ofensa.

Poderíamos, sim, pintar este quadro, mas – ainda que tivesse um fundo realista – seria completamente falso. A verdade é que, salvo em raros dias que são exceção, a vida não se compõe de uma sequência ininterrupta de contrariedades. Graças a Deus, há também muitas satisfações e muitas alegrias e, normalmente, para quem não estiver cego, o mais justo é terminar o dia fazendo uma enorme lista de bênçãos recebidas de Deus, de males e perigos evitados, de proteções “descaradas” dos Anjos da Guarda, além de muitos detalhes simpáticos do próximo, de modo que o coração sinta a necessidade de elevar uma emocionada ação de graças. Se fôssemos sinceros, veríamos que o elenco das bênçãos – tão belas como habituais – é normalmente bem superior ao das contradições.

À PROCURA DO CRIMINOSO

Isto, porém, não elimina o facto de que as contrariedades existem, e é delas que, como de um gerador elétrico, surge a corrente contínua ou alternada da impaciência.

Se nos perguntassem de chofre: – “Por que você fica impaciente?”, logo apontaríamos o culpado: – “Tal contrariedade mais ou menos frequente, mais ou menos constante”. O culpado, o “criminoso”, o agente provocador, é sempre a contrariedade que acomete, azucrina e faz sofrer.

Caso pensemos assim – com esta simplificação tão cândida –, será bom que observemos um fenômeno: nem todo o mundo fica impaciente diante das mesmas coisas. Há, portanto, “algo” dentro de nós que nos faz receber “determinadas” contrariedades – muitas ou poucas – de um modo negativo e que desemboca na impaciência, ao passo que outras não. O que é esse “algo”? Se conseguirmos enxergá-lo, teremos aberto um bom caminho para diagnosticar a etiologia da impaciência e para ver os remédios que conduzem à mais saudável paciência.

Pensemos, além disso, que – tal como acontece com a preguiça –, afora os casos raros de infecção generalizada (como a “preguiça integral” e a “impaciência permanente”), o defeito da impaciência costuma ser “especializado”. Cada um de nós tem as “suas” impaciências particulares, mexe-se dentro do campo da sua especialização. Pode ser que pertençamos, por exemplo, à turma daqueles “especialistas” que não têm paciência para escutar o próximo, sobretudo o mais próximo (marido, mulher, filhos). Sempre me recordarei de um bispo velhinho, a quem – por razões de trabalho – visitava com certa frequência. Como muitos anciãos, gostava de recordar coisas passadas, e eu – por respeito e inibição, pois era muito jovem – ficava a ouvi-lo, de modo que praticamente nunca abria a boca: limitava-me a deixá-lo falar. Passado algum tempo, soube com espanto que ele comentara a um colega que eu “tinha uma conversa muito agradável”! Senti vergonha, porque não tinha consciência de estar sendo paciente, e aprendi uma lição.

Para mencionar outro exemplo: não pertenceremos por acaso à turma especializada dos que
jamais admitem interrupções? Estão “na deles” e dali não saem. Por mais que um filho, ou a esposa ou qualquer outra pessoa precise da sua atenção, da sua palavra ou da sua ajuda, o “homem intrinsecamente-ocupado-em-suas-coisas-muito-importantes” vai limitar-se a “responder”, impaciente, com um olhar de poucos amigos, unido a um ronco gutural ininteligível, mas perfeitamente interpretável.

E, ainda, não pertenceremos talvez àquele outro rol de pós-graduados, conhecido como “a turma dos impacientes mascarados”, que já apareciam acima divorciando-se? – “Sou muito paciente, dizem esses mascarados. Não brigo nunca!” Mas sempre, sistematicamente, fogem, lisos como uma cobra d'água, de enfrentar questões difíceis e aborrecidas (uma conversa a fundo com o filho, muito necessária), de aceitar compromissos (fazer oração diariamente, ler um livro de formação cristã) ou de assumir responsabilidades (colaborar habitualmente num trabalho assistencial). A razão disso não está nem na falta de tempo nem na falta de habilidade, mas no facto puro e simples de que “não querem saber”, “não querem ter trabalho”, ou seja, não querem sofrer.

E eis neste caso a impaciência em estado quimicamente puro, em forma de uma completa falta de generosidade para aceitar com fé, esperança e amor “o que contraria”, aquilo de que “não gostamos”, isto é, o sacrifício e o sofrimento que Deus nos pede para acolher.

OBTER E EDIFICAR

A MÃO E A CONTRAMÃO

– Isso me pegou na contramão! – diz o impaciente contrariado.

Tem razão. Aquilo foi-lhe de encontro e o abalroou, chocando-se com os seus desejos, com a sua tranquilidade ou com o seu bem-estar.

Mas, ao escutarmos essa sua queixa, seria lógico que lhe perguntássemos:
– E... qual é a sua mão?

Em matéria de paciência, talvez seja esta a pergunta fundamental, a que melhor nos pode conduzir àquele “algo” que mencionamos acima e que é a verdadeira causa das nossas impaciências.

Todos temos mão e contramão na vida. A mão é o objectivo para o qual se orientam principalmente os nossos desejos, as nossas lutas, as nossas ambições, as nossas esperanças de realização e de felicidade. Essa orientação fundamental é a autêntica directriz do nosso coração, das nossas reflexões, dos nossos devaneios e dos nossos empenhos.

Constatamos esta realidade em nós e nos outros. E, ao mesmo tempo, verificamos que essa orientação fundamental varia de um homem para outro. Mais ainda, que a mão dessa direcção de vida tem sentidos contrários, conforme as pessoas. Um professor universitário, entusiasmado com as suas pesquisas, não pode viver sem os seus livros e o seu estudo, chegando a sacrificar indevidamente a esse ideal científico até a saúde e a família. Pelo contrário, um estudante vadio não consegue viver nem conviver com os livros e o estudo. O contraste é ainda mais marcante se entramos a fundo nas questões em que se enraízam o sentido e o valor da vida. Para um santo, um mundo sem Deus seria uma noite horrenda, a quintessência do inferno. Para um agnóstico, Deus é perfeitamente dispensável, e todas as coisas estão niveladas pela mesma indiferença.

Se procurarmos meditar na vida, e conseguirmos lucidez suficiente para pensá-la em profundidade, perceberemos que todas as atitudes básicas, todas as orientações “de fundo”, todas as “mãos”, se reduzem, em último termo, a duas, que podem ser enunciadas em duas palavras: obter e edificar.

“DÁ-ME A PARTE QUE ME CORRESPONDE”

É comum perguntar a uma criança: – “O que você quer ser quando crescer?” A resposta pode ir desde “engenheiro igual ao papai” até “bombeiro” ou “jogador da Seleção brasileira”.

Menos comum é perguntar: – “O que você quer fazer quando for grande?” Possivelmente, a resposta será: “Estudar, namorar, casar”... Mas outras crianças ficarão desnorteadas perante uma pergunta dessas. Elas sabem bem qual é a imagem ideal de si mesmas em seus “sonhos”, mas custa-lhes considerar a vida como tarefa.

Ora, o que é totalmente incomum é perguntar: – “O que você quer dar, o que você gostaria de dar quando for grande?” E, no entanto, esta é a única pergunta que deveria fazer realmente sentido para um ser humano.

A atitude de muitos perante a vida é radicalmente egoísta. O mundo é “para mim”, a vida é “para mim”. Mesmo os amores são vistos como um meio de obter o benefício da realização pessoal. É por isso que muitos pensam em marido ou mulher só enquanto “gostarmos”, ou seja, enquanto o egoísmo receber vantagens dessa união. É só começarem, porém, os sacrifícios, que haverá despedida e partirão para outra. E os filhos? Às vezes, nem sequer se pensa neles, e se espera tanto para tê-los que – com perdão do leitor – a decisão de deixar descendência acaba por ser tomada depois da menopausa.

O egoísta, aquele que só quer usufruir da vida, que quer “realizar-se” colocando o seu “eu” como meta e centro do mundo, esse só sabe repetir as palavras que Cristo põe na boca do filho pródigo: “Pai, dá-me a parte que me toca” (cf. Lc 15, 12).
(cont.)