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18/11/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo comum XXXIII Semana


Evangelho: Lc 19, 11-28

11 Estando eles a ouvir estas coisas, Jesus acrescentou uma parábola, por estar perto de Jerusalém e porque julgavam que o reino de Deus se havia de manifestar em breve. 12 Disse pois: «Um homem nobre foi para um país distante tomar posse de um reino, para depois voltar. 13 Chamando dez dos seus servos, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai com elas até eu voltar. 14 Mas os seus concidadãos aborreciam-no e enviaram atrás dele deputados encarregados de dizer: Não queremos que este reine sobre nós. 15 «Quando ele voltou, depois de ter tomado posse do reino, mandou chamar aqueles servos a quem dera o dinheiro, a fim de saber quanto tinha lucrado cada um. 16 Veio o primeiro e disse: Senhor, a tua mina rendeu dez minas. 17 Ele disse-lhe: Está bem, servo bom; porque foste fiel no pouco, serás governador de dez cidades. 18 Veio o segundo e disse: Senhor, a tua mina rendeu cinco minas. 19 Respondeu-lhe: Sê tu também governador de cinco cidades. 20 Veio depois o outro e disse: Senhor, eis a tua mina que guardei embrulhada num lenço, 21 porque tive medo de ti, que és um homem austero, que tiras donde não puseste e recolhes o que não semeaste. 22 Disse-lhe o senhor: Servo mau, pela tua mesma boca te julgo. Sabias que eu sou um homem austero, que tiro donde não pus e recolho o que não semeei; 23 então, porque não puseste o meu dinheiro num banco, para que, quando eu viesse, o recebesse com os juros? 24 Depois disse aos que estavam presentes: Tirai-lhe a mina, e dai-a ao que tem dez. 25 Eles responderam-lhe: Senhor, ele já tem dez. 26 Pois eu vos digo que àquele que tiver, se lhe dará; mas àquele que não tem, ainda mesmo o que tem lhe será tirado. 27 Quanto, porém, àqueles meus inimigos, que não quiseram que eu fosse seu rei, trazei-os aqui e degolai-os na minha presença!». 28 Dito isto, ia Jesus adiante, subindo para Jerusalém.

Comentário:

Fazer render o que me entregaste!

Ah, Senhor, como tenho sido desleixado!

Como tenho procedido como se de facto fossem MEUS os talentos, as minas que me entregaste quando criaste a minha alma!

Tenho começado tantas coisas… e terminado tão poucas!

Eu quero, Senhor, ser fiel nas coisas pequenas porque, sem isso, as grandes… não estarão ao meu alcance.

Fiel, com uma fidelidade de filho devedor de quantias imensas, de bens inumeráveis.

Ajuda-me neste meu propósito.

SERVIAM!

(AMA, Meditação, Lc 19, 28)

Leitura espiritual



A PACIÊNCIA
…/10

AS DEMORAS DE DEUS

No mundo em que vivemos, bêbado de acelerações, ultrassónico nas mudanças e doente de impaciências, a bela arte do amor paciente é muito necessária.
A virtude da paciência é uma terapia de que o mundo actual precisa muito.

Mas, num ambiente em que o egoísmo pensa que “para mim tudo tem que ser antes e ao meu gosto” e o comodismo exige “tudo rápido, para já e com o menor trabalho possível”, a impaciência grassa largamente e faz a festa.
E é natural que se mostre, a toda a hora, em forma de cansaço insofrido, unido a uma revolta irritada.
Não é estranho que, nesse clima, as impaciências acabem cedo ou tarde por arremessar-se contra Deus.

Tal é o caso, não infrequente, dos que chegam a duvidar da bondade de Deus e sentem abalar-se-lhes a fé quando julgam que “Deus não os escuta”, pois – segundo pensam – não atende aos seus pedidos nem os livra das suas aflições.

Alguns falam então do “silêncio de Deus”, insinuando – ou afirmando claramente – que Deus não se interessa pelas suas criaturas, mas permanece na olímpica solidão dos céus, alheio às tribulações e anseios dos homens.
Um bom número de casos de agnosticismo, ou de ateísmo inconsistente (será que há algum ateísmo que não seja inconsistente?), ou de ceticismo mais ou menos cínico, tomaram pé em alguma decepção. Esperava-se algo de Deus, e não aconteceu.
Por essa razão, Fulano deixou de ir à Missa depois da morte do filho, pelo qual tanto tinha rezado; Sicrano perdeu a fé após a quinta tentativa frustrada de entrar na faculdade; e Beltrana bandeou-se para o esoterismo ao perder o último namorado.

Os “silêncios” e as “demoras” de Deus põem à prova a nossa paciência.
Mas são precisamente essas dificuldades desconcertantes as que nos fazem compreender que uma boa paciência jamais poderá ser erguida sobre uma fé ruim.

Uma das primeiras verdades – inesgotável e luminosa verdade! – que Cristo nos revelou foi a da paternidade de Deus: O vosso Pai vê, o vosso Pai sabe, o vosso Pai cuida (cf. Mt 6, 25 e segs.). Não se vendem dois passarinhos por uma moedinha? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade do vosso Pai. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois!

Valeis mais do que muitos pássaros [i].

Deus é um Pai que sempre nos acompanha. E esse Pai está amorosamente activo, talvez mais do que nunca, quando parece que se cala e não intervém.
“Quando nada acontece – diz, com certeira intuição, Guimarães Rosa –, há um milagre que não estamos vendo” [ii]
Quem vive realmente de fé, caminha sereno e confiante na “mão” de Deus que, como víamos acima, muitas vezes não coincide com a nossa.
Ele, que é Bom Pastor de cada um de nós, sabe, e sabe-o muito bem, por onde nos leva e nos traz.
Ainda que atravesse as sombras da morte, nada temerei, porque Tu estás comigo [iii].
Ele nos dá, ou permite que nos aconteça, aquilo que – embora não o entendamos – mais nos convém, sempre com vistas à nossa verdadeira realização, que é a que floresce e se completa na vida eterna:
 Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma [iv].
Não temas, meu pequeno rebanho, porque foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino [v].

Quem vive de fé, entende muito bem, por isso, o belo conselho do Eclesiástico: Sofre as demoras de Deus. Dedica-te a Deus, espera com paciência [...]. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus pelo cadinho da tribulação [vi].

O MILAGRE QUE NÃO ESTAMOS VENDO

O “milagre que não estamos vendo” consiste no que São Paulo via com lúcida fé e expressava com esplêndida convicção:
Nós sabemos que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam [vii].
Se tivermos amor a Deus, tudo, absolutamente tudo – o que chamamos sorte e o que chamamos infortúnio, o que é um sucesso no mundo e o que é um fracasso, a satisfação e o sofrimento, a saúde e a doença, a vida e a morte –, tudo acabará sendo conduzido por Deus, com a sua soberana e misteriosa “alquimia”, para algo que resultará num bem para nós.

Mons. Escrivá costumava dizer que a nossa vida é uma preciosa tapeçaria, que Deus vai urdindo connosco – com a nossa liberdade – aos poucos, fio a fio.
Habitualmente, nós só a vemos pelo avesso, enquanto é tecida na oficina do dia-a-dia.
Por isso, tudo nos parece com frequência uma confusão de fiapos soltos e de figuras bizarras.
Uma vez por outra, porém, Deus deixa-nos olhar por uns instantes a tapeçaria pela frente, e então ficamos pasmados ao dar-nos conta da sua harmonia e do seu esplendor.
A vida, quando já foi um pouco longa e procurou não se afastar de Deus, oferece-nos de quando em quando alguns desses lampejos de lucidez: entendemos que foi bom o que antes repudiávamos como mau, e captamos o porquê de certas coisas que, na altura, nos pareciam absurdas e sem sentido.

Alguns santos tiveram o privilégio de contemplar, felizes, a tapeçaria de uma vida inteira na sua harmonia total.
Tal foi o caso de Santa Teresa de Ávila que, após concluir a sua autobiografia, escrita por obediência aos superiores, remeteu o manuscrito a Frei Garcia de Toledo, com uma carta na qual, a todas as tribulações, fadigas, dores e contrariedades relatadas, chamava belamente “as grandes misericórdias com que Deus me cumulou” [viii]

Também o Bem-aventurado Josemaria Escrivá, três meses antes de deixar esta terra, ponderava na sua oração as vicissitudes – muitas delas duríssimas – da sua longa vida, e dizia:
Um olhar para trás... Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora tudo alegrias, tudo alegrias... Porque temos a experiência de que a dor é o martelar do Artista, que quer fazer, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, um Cristo... Senhor, obrigado por tudo, muito obrigado!” [ix]
É bem verdade que um clarão de Deus pode mostrar-nos, às vezes, a tapeçaria inteira.
Mas o normal é que, na penumbra desta terra, Deus nos peça fé.
Ele não deixará de nos dar a graça necessária para aceitarmos com paciência e confiança as suas “demoras” e os seus aparentes “silêncios”.
A nós toca-nos dizer, amorosamente, com o salmista:
Mantenho em calma e sossego a minha alma.
Tal como a criança no regaço de sua mãe, assim está a minha alma no Senhor. [...]
Põe a tua esperança no Senhor, agora e para sempre [x].

A SANTA IMPACIÊNCIA

O que acabamos de dizer, aproximando-nos já do final destas páginas, não estará porventura incentivando uma paciência feita de calma passividade, de abandono nas mãos de Deus, muito confiante, mas também excessivamente inerte?

Não.
Quando um cristão repete, com o salmo:
Só em Deus repousa a minha alma, é d’Ele que me vem a paciência [xi], não está fazendo a oração das cómodas desistências, como se dissesse:
– “Eu durmo tranquilo reclinado sobre o peito do meu Deus, desligo-me de tudo, e Ele que faça o que julgar melhor”.

O bom cristão é sempre parecido com São João, pelo menos em uma coisa: o seu modo de repousar em Deus consiste em reclinar a cabeça sobre o Coração de Cristo.
E o Coração de Jesus está em chamas: mais do que repousos, contagia ardores.

Queremos saber qual é a fogueira que lhe anda no peito?
Ouçamos umas palavras que pronunciou pouco antes da sua Paixão, e que deixam entrever as labaredas da santa impaciência que o consumia por dentro:
Eu vim lançar fogo à terra, e que quero senão que ele se acenda?

Tenho de receber um batismo (o derramamento salvador do seu sangue), e quanto anseio até que ele se cumpra! [xii].

O Senhor aguardava, ansioso, a “sua hora”, o momento em que levaria à plenitude, no alto da Cruz, a obra redentora, e esse desejo queimava-o por dentro.
Queria com todas as suas forças – disposto a dar a vida até à última gota de sangue – que a Verdade e a Vida divinas se alastrassem em chamas por toda a terra.
E aguardava essa hora – deixando na mão do Pai os tempos e os momentos –, em serena e fervente tensão.
Não vivia a calma passividade dos falsos pacientes.
Era puro fogo, brasa em crepitação.

Por isso, se antes de encerrarmos estas linhas tivéssemos dado, nem que fosse de leve, a impressão de que a paciência é apenas uma arte de sofrer, de aceitar, de persistir no sacrifício, e mais nada, estaríamos deixando o leitor com um equívoco na alma.
“A paciência cristã – diz um autor – nada tem a ver com os temperamentos fleumáticos [...]. O fleumático nunca se impacienta, porque para ele nada existe que o comova interiormente [...]. Quem não tem interesse por alguma coisa, é natural que possa esperar muito tempo: nunca perderá a calma, nunca experimentará a urgência estimulante, nunca sentirá impaciência” [xiii]

Mas aquele que possui o ideal cristão e experimenta o zelo pela missão que Deus lhe confiou, não se afunda na calma inexpressiva do comodista.
Estimulado por uma nobre inquietação, tem pressa em aproveitar – por amor a Deus e aos homens – todos os instantes da sua vida, e, sem permitir que a pressa o torne precipitado, não deixa para amanhã o que hoje pode oferecer ao Senhor.

O quadro completo da paciência só se abrange quando se recordam as palavras de São Tomás de Aquino, já citadas nestas páginas:
“Só o amor é causa da paciência”.
É nisto que está a autenticidade desta virtude.
Aquele grande amor que, com a ajuda da graça divina, nos dá forças para aceitar, sorrindo e de olhos postos em Deus, as pequenas contrariedades e as grandes dores; aquele grande amor que nos dá energia para sermos fiéis e persistir pacientemente na luta um dia após outro, é o mesmo amor que acende na alma os grandes ideais e nos impele a realizá-los com o maior ardor e prontidão de que a nossa inteligência e a nossa vontade sejam capazes.
A mesma paciência que aceita torna-se divinamente impaciente em seus desejos de amar, de dar, de edificar.

Não precipita atabalhoadamente as coisas, mas tem pressa, quer andar – como gostava de dizer Mons. Escrivá – “ao passo de Deus”, ao ritmo das graças e das oportunidades que o Senhor nos dá, sem nada perder, sem nada atrasar.

Por isso, não é incoerente que um livro que começou por citar e glosar a frase “Tenha santa paciência”, termine – com o favor de Deus – espicaçando o leitor a que se lance com brio a dar o melhor de si mesmo e a cumprir com entusiasmo a missão que certamente Deus lhe confiou, enquanto lhe diz, como despedida:

“Tenha santa impaciência!”

FRANCISCO FAUS, [xiv] A PACIÊNCIA, 2ª edição, QUADRANTE, São Paulo 1998

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Mt 10, 20-31
[ii][ii] Primeiras Estórias, josé olympio, Rio de Janeiro, 1962, pág. 71
[iii] Sl 23, 4
[iv] Mt 10, 28
[v] Lc 12, 32
[vi][vi] Ecli 2, 3-5
[vii] Rom 8, 28
[viii] Livro da Vida, 3ª. ed., Vozes, Petrópolis, 1961, pág. 360.
[ix] s. bernal, obra citada, pág. 416
[x] Sl 131, 2-3
[xi] Sl 62, 6
[xii] Lc 12, 49-50
[xiii] hildebrand, obra citada, págs. 202-203.
[xiv] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na colecção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.

17/11/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo comum XXXIII Semana


Evangelho: Lc 19, 1-10

1 Tendo entrado em Jericó, atravessava a cidade. 2 Eis que um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e rico, 3 procurava conhecer de vista Jesus, mas não podia por causa da multidão, porque era pequeno de estatura. 4 Correndo adiante, subiu a um sicómoro para O ver, porque havia de passar por ali. 5 Quando chegou Jesus àquele lugar, levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, porque convém que Eu fique hoje em tua casa». 6 Ele desceu a toda a pressa, e recebeu-O alegremente. 7 Vendo isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa de um homem pecador». 8 Entretanto, Zaqueu, de pé diante do Senhor, disse-Lhe: «Eis, Senhor, que dou aos pobres metade dos meus bens e, naquilo em que tiver defraudado alguém, restituir-lhe-ei o quádruplo». 9 Jesus disse-lhe: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque este também é filho de Abraão. 10 Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido».

Comentário:

No mesmo mês de Novembro a Liturgia oferece-nos outra vez este trecho do Evangelho de São Lucas. Não o faz pela beleza do escrito – que indubitavelmente tem – mas para que se grave bem em nós a bondade que o Senhor usa para com aqueles que O procuram e não desistem de o fazer sejam quais forem os obstáculos que possam querer impedi-lo.

O que pode começar por simples curiosidade transformar-se-á numa mudança radical da própria vida e, sobretudo, do comportamento pessoal.

O Senhor, cuja generosidade não conhece limites, retribui sempre com extrema largueza o pouco ou muito que queiramos oferecer-lhe.

(ama, comentário sobre Lc 19, 1-10, 2013.11.19)



Leitura espiritual



A PACIÊNCIA
…/9

‘Mais de uma vez – acrescenta a filha – tenho esclarecido em público que eu não seria o que hoje sou, se não tivesse recebido a educação que meus pais me deram, se não tivesse tido o seu exemplo em face de tantas contrariedades e situações difíceis – entre elas a morte de dois filhos – por que Deus permitiu que passassem’ [i]

Essa perspectiva de tantos anos de entrega constante e amorosa dos pais iluminou aos olhos dessa mulher as suas próprias raízes.
Entendeu-se melhor a si mesma, projectando as suas lembranças sobre o fundo luminoso da dedicação paciente, contínua, calada, carinhosa de seus pais cristãos.

OS FRUTOS DOURADOS DA PACIÊNCIA

Ao captar mais lucidamente a riqueza do exemplo dos pais, Maria Antónia pôde compreender também uma dimensão preciosa da virtude da paciência, de que agora nos vamos ocupar: a da fidelidade persistente, que é feita de amor generoso e constante; uma paciência que não se cansa do sacrifício, que não tem pressa em cobrar resultados, que não desanima quando os esforços parecem baldados e os frutos ainda não se vêm.
Esta era a paciência que brilhava, com seu halo doce e envolvente, na recordação dos pais.

Todos nós temos experiência de quanto custa persistir nos esforços ou atitudes que exigem sacrifícios continuados e não trazem compensações imediatas.
Não é fácil lutar, manter-se firme no empenho, e ver que tudo demora a realizar-se, a concluir-se, a chegar.

A nossa paciência é testada sempre que temos de aguardar, esperar, voltar, tentar uma e outra vez: desde a interminável espera num consultório dentário até o desgosto do casal de namorados que precisa adiar de novo a data do casamento, porque não têm condições de financiar o apartamento.
Com razão diz Hildebrand que “a impaciência se relaciona sempre com o tempo. [ii]
Mas todo aquele que quiser conseguir alguma coisa de real valor na vida, não terá outro remédio senão armar-se de paciência e esperar. Demora-se, necessariamente, a ser um profissional experiente; demora-se a amadurecer por dentro até corrigir pelo menos alguns dos defeitos pessoais; demora-se a suavizar arestas no casamento e, aos poucos, ir-se ajustando à base de mútuos perdões e sorridentes renúncias; demora-se a criar um bom ambiente familiar; demora a vida inteira a autêntica formação dos filhos.

‘Aprendi a esperar – dizia Mons. Escrivá –; não é pouca ciência’.
Mas é importante termos muito presente que esse “esperar” não significa “aguardar” passivamente.
Consiste, como estamos vendo, em persistir fiel e confiadamente no cumprimento da nossa missão, do nosso dever – do dever religioso, moral, familiar, profissional... –, durante todo o tempo que for preciso, com aquela convicção que animava Santa Teresa: “A paciência tudo alcança”.

A essa paciente espera se refere o Apóstolo São Tiago, quando nos põe diante dos olhos a imagem do lavrador: Tende, pois, paciência, meus irmãos [...]. Vede o lavrador: ele aguarda o precioso fruto da terra e tem paciência até receber a chuva do outono e a da primavera. Tende também vós paciência e fortalecei os vossos corações [iii].

Não é verdade que estas palavras nos lembram muitas coisas pessoais?
Os frutos dourados da vida só se conseguem com uma luta constante, unida a uma paciência fiel.
Mas quanto custa seguir o conselho do Apóstolo!
Muitas vezes já fomos como aquela criança a quem a mãe tinha oferecido uma planta que, com o tempo, iria dar flores.
“Mas, quando os botões surgiram, não sabíamos esperar que abrissem. Colaborávamos no seu desabrochar triturando-as, separando talvez as pétalas, para que a floração fosse mais rápida. Nódoas escuras apareciam então, e as flores estiolavam, murchavam...” [iv]
Quantas coisas, na vida, não estiolam por cansaços impacientes que nos levam a desistir!
Na vida familiar, os exemplos são gritantes.
Talvez hoje seja mais necessário do que nunca recordar aos casais que a felicidade que procuram, sem saber bem como achá-la, nunca a conseguirão como fruto do egoísmo defendido de qualquer incómodo, mas como fruto do amor fielmente paciente, do amor cristão.
E da mesma coisa deveriam lembrar-se todos os que começaram alguma vez, movidos por um alegre impulso da graça, a esforçar-se decididamente por viver o ideal e as virtudes cristãs.
A maior ameaça contra esse bom propósito, mais do que nas fraquezas e nas reincidências no erro, encontra-se no cansaço, na sensação de que “não adianta continuar”, ou de que “custa demais conseguir”, ou seja, na falta de paciência para ir avançando aos poucos, à força de começar e recomeçar.

Nós gostamos de que as coisas nos sejam dadas logo. Deus sabe que as almas e as coisas precisam ter as suas estações.
Temos que aprender, por isso, a ser bons semeadores, que esperam a colheita sem pressas inquietas e perseveram sem desânimos exaustos.

Semear é duro.
É enterrar o grão e nada ver. Isso exige fé e desprendimento.
Eu dou a semente do meu esforço, do meu empenho, do meu sacrifício, da minha oração, e espero, vigilante, até que dê o seu fruto, enquanto continuo, solícito, a zelar pelo campo: rego, limpo, podo, adubo, protejo...
Só com essa paciência activa é que um dia virá o fruto: o fruto da fé, amadurecida a partir da persistência na oração, nos sacramentos, na formação; o fruto dos valores cristãos finalmente arraigados nos filhos; o fruto das virtudes pessoais que desabrocham e se firmam; os frutos do apostolado.

Todos nós já exclamamos mais de uma vez: ‘Que paciência!’, ao admirarmos obras humanas magníficas, que só se explicam por uma longa aplicação, por um trabalho meticuloso, prolongado e imensamente paciente.
É assim que louvamos, por exemplo, os bordados delicadíssimos e artísticos de uma enorme toalha de mesa feita à mão.
É assim também que admiramos o trabalho da vida inteira de um pesquisador, que foi coligindo, exaustivamente, um incrível acervo de dados sobre uma matéria até então ainda não estudada.
– ´Que paciência!’, dizemos.
Pois bem, uma paciência igual, pelo menos, e um esmero e uma tenacidade análogos, são os que Deus nos pede para cultivarmos em nós e à nossa volta a vida e as virtudes cristãs.

A paciência produz a virtude comprovada, diz São Paulo [v].
E São Tiago repisa o mesmo ensinamento ao escrever:
É preciso que a paciência efectue a sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma [vi].
Pela vossa paciência possuireis as vossas almas, havia já dito Jesus [vii].

É muito sugestivo o facto de que, nesses três textos, como em tantos outros da Bíblia, a mesma palavra que significa paciência inclua também o sentido de perseverança, de persistência fiel.

(cont.)

FRANCISCO FAUS, [viii] A PACIÊNCIA, 2ª edição, QUADRANTE, São Paulo 1998

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] maria antónia virgili, Jornal El Norte de Castilla, Valladolid, 16.05.1992.
[ii] dietrich von hildebrand, A nossa transformação em Cristo, Aster, Lisboa, 1960, pág. 204.

[iii] Ti 5, 7-8
[iv] Romano Guardini, O Deus vivo, Aster, Lisboa, s/d, pág. 71.
[v] Rom 5, 4
[vi] Ti 1, 4
[vii] Lc 21, 19
[viii] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na colecção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.

16/11/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual




Tempo comum XXXIII Semana


Evangelho: Lc 18, 35-43

35 Sucedeu que, aproximando-se eles de Jericó, estava sentado à beira da estrada um cego a pedir esmola. 36 Ouvindo a multidão que passava, perguntou que era aquilo. 37 Disseram-lhe que era Jesus Nazareno que passava. 38 Então ele clamou: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!». 39 Os que iam adiante repreendiam-no para que se calasse. Porém, ele, cada vez gritava mais: «Filho de David, tem piedade de mim!». 40 Jesus, parando, mandou que Lho trouxessem. Quando ele chegou, interrogou-o: 41 «Que queres que te faça?». Ele respondeu: «Senhor, que eu veja». 42 Jesus disse-lhe: «Vê; a tua fé te salvou». 43 Imediatamente, recuperou a vista, e foi-O seguindo, glorificando a Deus. Todo o povo, vendo isto, deu louvores a Deus.

Comentário:

A perseverança na oração dá sempre frutos.

O Coração Amantíssimo de Cristo não pode ignorar quem Lhe pede com insistência movida pela Esperança e pela Fé de ser atendido.

(ama, comentário sobre LC 18 35-43 2014.11.17)



Leitura espiritual



A PACIÊNCIA
…/8

Falar assim poderia soar a masoquismo, porque aquilo não era uma dor convertida em gosto; era uma dor convertida em amor, e em luta para poder continuar a ser fiel a si mesma, a nós e a Deus, mas continuava a ser uma dor que a dilacerava, que a desfazia. Sofreu – eu o vi – tremendamente: mas era uma luta enamorada, no meio da dor, para encontrar Cristo Crucificado. Em meio a essa dor, junto de Cristo, nunca esteve só. Se Deus está ao meu lado – pensou – e me pede isto, será porque é possível; e se Ele o quer, Ele me ajudará... Montse, graças à dor, deu-nos o melhor de si mesma” [i]
Depois destes comentários, não perguntemos mais o que é a paciência, vista com olhos cristãos, nem o que é o amor que sabe sofrer.
Nada há a acrescentar.

NUM CONSULTÓRIO PSIQUIÁTRICO

Restam-nos duas histórias, que podem relatar-se em muito poucas palavras. São ambas narradas pelo professor de psiquiatria e escritor J. A. Vallejo-Nágera, no seu livro Concerto para instrumentos desafinados. [ii]

Trata-se de algumas das muitas recordações que o médico regista como “momentos do coração” no seu trabalho diário.

O primeiro caso é o de um tradutor diplomado. Foi-lhe diagnosticado um câncer de pulmão, e simultaneamente deram-lhe a notícia de que lhe restavam poucos meses de vida. Homem de pouca fé, à diferença dos protagonistas dos dois exemplos anteriores, procurava no psiquiatra as soluções que não conseguia encontrar em Deus. Pensava na esposa e tremia ante a possibilidade de fazê-la sofrer:
– Temo que me falte coragem e serenidade, e que assim amargure os nossos últimos meses de convívio. Fisicamente, creio que posso aguentar; só temo falhar psicologicamente. Foi por isso que vim, para ter uma orientação técnica, um ponto de apoio, e poder dissimular até o final ou fingir que não sofro. Quando a minha mulher ficar sabendo a verdade, se ela julgar que eu não estou sofrendo, conseguirei aliviar-lhe este calvário que não lhe posso evitar.

Causa uma certa angústia esse sofrimento pendurado no vazio de um bom coração que não conhece a Deus. Mas, sem dúvida alguma, havia uma enorme grandeza no seu desejo de ser autenticamente paciente. Esse homem bom tinha muito amor à esposa, e estava procurando forças para conseguir que esse seu amor aprendesse a sofrer.


O segundo caso, paradoxalmente, é o de um sacerdote cheio de fé, que também procurava no psiquiatra um conselho para sofrer melhor. O médico narrador conta-nos que era um padre humilde, “tão insignificante que nem sequer era ridículo”. Tinha dedicado a vida, até aos sessenta e tantos anos, à sua tarefa de bom pastor das almas, especialmente cuidando das doenças espirituais no confessionário. Desde fazia algum tempo, tinha-se-lhe manifestado uma depressão endógena grave – assim a qualifica o especialista –, com as suas sequelas mórbidas e características de tristeza, desconsolo, remorso, pessimismo esmagador e perda do desejo de viver.

O sofrimento era grande. Mas, nesse caso, o médico comoveu-se porque o paciente não parecia querer consolo nem compaixão. “Também não parecia muito interessado no alívio do tormento... Que queria, então? Queria continuar a amar”.

– Até agora – dizia o padre ao doutor –, tenho levado uma vida sem pena nem glória. A Glória, eu a espero para depois, no Céu, e sei que é preciso adquiri-la por meio da pena. Recebi com gratidão o fato de Deus me ter enviado no final da vida a minha cruz; estava até desejando ter uma para poder carregá-la. Bendigo a Deus todos os dias por ter-se lembrado de mim no final, quando já me resta muito pouco tempo de vida e parecia ter perdido qualquer oportunidade de ganhar alguns méritos. Mas estou notando que agora, no confessionário, na direção espiritual, não sinto as coisas como antes, como ao longo de toda a minha vida, com entusiasmo por ajudar, com esse carinho espontâneo cheio de ansiedade, de necessidade de aliviar os que recorrem a mim.

Consigo dar conselhos porque o cérebro funciona, mas não os sinto com o coração, e isso soa-me a nota falsa, artificial, e não posso consolar os meus fiéis como antes. Nunca me tinha acontecido isto; tem que ser uma doença. É o que lhe peço que me cure. O resto irá passando com o tempo, e, se não, louvado seja Deus!

Esta história que parecia começar tão mal, termina tão bem! É mais um clarão sobre a virtude da paciência. Aquele padre zeloso, desprendido e humilde, sentia-se muito doído e confuso, não por estar doente, mas porque a doença lhe tornava difícil manter a vibração do amor e transmitir conforto e alegria.

Não é preciso aduzir mais exemplos para sentir, como um desafio, uma pergunta que se dirige a cada um de nós: Quando nos decidiremos a amar? Quando resolveremos, enfim, esquecer-nos de nós mesmos, ser generosos e viver para dar, para edificar? No dia em que formos capazes de começar a viver assim, estaremos começando a levantar o véu que nos encobre a pedra preciosa da paciência.

DEMORAS, CANSAÇOS E ARDORES

RAÍZES ILUMINADAS

Há cerca de dois anos, chegou-me às mãos um recorte de jornal que me sensibilizou profundamente.
A autora do artigo, uma professora de uns trinta e poucos anos, evocava a memória de seus pais, já falecidos, que tinham sido em tempos idos meus conhecidos.
O artigo foi escrito por ocasião da Beatificação do Fundador do Opus Dei e continha uma dupla homenagem: ao Bem-aventurado Josemaría Escrivá e aos pais da autora, que tinham sabido encarnar na vida do lar a espiritualidade aprendida do Beato Josemaría.

O leitor há-de permitir-me que introduza nestas páginas algumas citações desse artigo.

Maria Antónia – assim se chama a professora – conta a redescoberta que fez da “alma” de seus pais quando, depois de ambos terem falecido, remexia com carinho filial nos seus escritos, cartas e apontamentos, e especialmente na correspondência que o pai tinha mantido com Mons. Escrivá.

‘Até que ambos tornaram a reunir-se na vida eterna, havia muitos aspectos da vida interior deles que eu só podia intuir – escreve a filha –.
Captava-se a força do exemplo, a força da vocação dos dois, mas, como é lógico, perdiam-se muitos matizes, que ficavam só na intimidade deles.

Através de alguns excertos da correspondência encontrada, aprendi algumas coisas que agora tento transmitir’.

Olhando para trás, Maria Antónia evoca a progressiva descoberta que foi fazendo de muitas coisas maravilhosas que teciam, por assim dizer, o ambiente de seu lar, e que hoje percebia que não estavam lá por acaso nem por geração espontânea, mas como fruto do espírito cristão, generosamente vivido e cultivado pelos pais, num dia-a-dia amoroso, abnegado, paciente.

‘Meus pais já eram do Opus Dei naqueles duros anos 50 de Barcelona, quando eu ainda não tinha nascido.
À medida que fui tendo uso de razão e tornando-me mais consciente do que me rodeava, julguei sempre que o ambiente reinante na minha família, a educação que estávamos recebendo, e que tantas vezes tenho agradecido a Deus, fosse a normal em todas as famílias. Com o decorrer dos anos, fui percebendo que nem de longe era tão normal.
Os princípios dessa educação eram bem claros: uma grande liberdade, baseada no senso de responsabilidade inculcado desde crianças; otimismo e alegria fundamentados claramente na fé, pois não faltaram dificuldades e obstáculos em todo o caminho terreno de meus pais; uma sólida formação na doutrina cristã, unida a um modo positivo de nos sugerir, sem impor, detalhes de vida de oração, e uma profunda e arraigada devoção a Nossa Senhora, a quem todos considerávamos e continuamos a considerar a especial intercessora para os assuntos familiares.
Ficou-me muito claro que um dos pilares básicos para que esse ambiente familiar se mantivesse era o facto de que, em todos os momentos, o exemplo de meus pais, os seus actos, iam na frente das palavras. Passados os anos, percebi, sem que eles nada me dissessem, que aquilo era o espírito do Opus Dei’...

A filha relembra comovida as dificuldades financeiras por que a família numerosa passou, e os equilíbrios que o pai era obrigado a fazer para conjugar aulas na Faculdade, onde era professor, práticas de laboratório, trabalho em uma fábrica, preparação de um concurso e ainda aulas particulares. E relata a emoção que sentiu quando, folheando a correspondência paterna, descobriu que Mons. Escrivá tinha transcrito, no ponto 986 do livro Sulco, palavras de uma carta de seu pai:
“Não irá rir, Padre, se lhe disser que – faz uns dias – me surpreendi oferecendo ao Senhor, de uma maneira espontânea, o sacrifício de tempo que supunha para mim ter de consertar um brinquedo estragado de um dos meus filhos? – Não sorrio, fico feliz! Porque, com esse mesmo amor, Deus se ocupa de recompor os nossos estragos”. “Tenho – comenta a filha – recordações muito vivas dessas cenas: as bonecas descabeçadas ou sem pernas, a peça que precisava ser colada..., tudo isso nós sabíamos que, deixando-o na mesa do escritório de papai, tornaria a adquirir rapidamente a sua forma original. Que pouco valorizávamos, naquela altura, o ato heróico que podia significar para ele o fato de gastar dez ou quinze minutos! Mas como o valorizava aquela alma a quem Deus, através do espírito do Opus Dei, lhe saía ao encontro nesses pormenores minúsculos, mas grandiosos, por estarem cheios de amor”.

(cont.)

FRANCISCO FAUS, [iii] A PACIÊNCIA, 2ª edição, QUADRANTE, São Paulo 1998

(Revisão da versão portuguesa por ama)






[i] Todos os factos e depoimentos citados estão extraídos do livro de j. m. cejas, Montse Grases. La alegría de la entrega, Rialp, Madrid, 1993. 
[ii] Concierto para instrumentos desafinados, Argos- Vergara, Barcelona, 1981, págs. 162 e segs.
[iii] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na colecção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.