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30/01/2015

Jesus Cristo e a Igreja - 53

O que diz o Evangelho de Judas?

Entre os diversos evangelhos apócrifos que são mencionados pelos Padres e pelos antigos autores eclesiásticos encontra-se o denominado Evangelho de Judas.

Dele Santo Ireneu, no seu tratado Contra as heresias, (1, 31, 1) escreve: “Outros declaram que Caim obteve o seu ser do Poder do alto e reconhecem que Esaú, Coré, os Sodomitas e esse tipo de pessoas estão relacionadas entre si. Por isso – acrescentam eles – foram assediados pelo Criador, embora nenhum tenha sofrido dano. Dizem que a Sabedoria tinha o costume de levar consigo o que lhe pertencia, partindo deles e retornando a ela mesma. Também dizem que Judas o traidor estava muito familiarizado com estas coisas e que apenas ele, sabendo a verdade como nenhum outro, levou a cabo o mistério da traição. Dizem que por sua culpa todas as coisas terrenas e celestiais foram dissolvidas. Foram estes que escreveram uma história fictícia a esse respeito e que denominam Evangelho de Judas”. A ele aludem também Santo Epifânio e Teodoreto de Ciro.

Dado que Ireneu escreveu a sua obra em 180, o Evangelho de Judas teve de ser escrito antes desta data, provavelmente em grego, entre 130 e 170. Da seita dos Caimitas não conhecemos mais do que aquilo que nos diz o texto de Ireneu. Não se sabe se era um grupo independente ou parte de uma seita gnóstica mais ampla.

Muito recentemente deu-se a conhecer a existência de um códice do século IV encontrado no Egipto, que contém um texto em copto do Evangelho de Judas. O códice contém também outros três escritos gnósticos. Com este novo achado podemos saber que o Evangelho de Judas recolhe uma suposta revelação de Jesus a Judas Iscariotes “três dias antes de ter celebrado a Páscoa”. Tal como no caso do Evangelho de Maria (ver a pergunta correspondente), trata-se de uma obra carente de qualquer conteúdo histórico, que utiliza o nome de Judas para transmitir ensinamentos ocultos, aos iniciados na seita. Depois de mencionar que Jesus fazia o seu ministério terreno fazendo milagres e mostrando-se às vezes diante dos seus discípulos sob a forma de um menino, conta um diálogo entre Jesus e os discípulos. Jesus ri-se do que estão a fazer (dar graças sobre o pão) e eles não gostam. Judas é o único que reage bem perante aquilo que Jesus pede, pelo que Jesus lhe diz: “Eu sei quem és e donde vens. Tu vens do reino imortal de Barbelo e eu não sou digno de pronunciar o nome de quem te enviou” (Barbelo é a primeira emanação de Deus nas cosmogonias gnósticas de tipo setiano). Seguem-se outros encontros e diálogos dos discípulos e de Judas com Jesus nos quais se tratam complicadas questões cósmicas. Quase no final conta-se como Jesus diz a Judas: “Tu excederás a todos, porque tu sacrificarás o homem de que estou revestido”. O escrito acaba por dizer que Judas recebeu dinheiro dos escribas e lhes entregou Jesus.

Este novo texto tem valor para o nosso conhecimento do gnosticismo do século II, mas do ponto de vista histórico não contribui nada – nem sobre Jesus, nem sobre os seus discípulos – que não saibamos pelos evangelhos. Contudo, este manuscrito – tal como os outros que foram descobertos no século passado – confirma a veracidade das informações que Ireneu, Epifânio e outros escritores antigos nos transmitiram sobre os grupos gnósticos.

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23/01/2015

Jesus Cristo e a Igreja - 52

O que sucedeu no Concílio de Niceia?

O Concílio I de Niceia é o primeiro Concílio Ecuménico, isto é, universal, em que participaram bispos de todas as regiões onde havia cristãos.

Teve lugar quando a Igreja pôde desfrutar de uma paz estável e dispunha de liberdade para se reunir abertamente. Desenrolou-se de 20 de Maio a 25 de Julho, do ano 325. Nele participaram alguns bispos que tinham nos seus corpos os sinais dos castigos que tinham sofrido por se terem mantido fiéis nas perseguições passadas, e que eram ainda muito recentes. O Imperador Constantino, que por essas datas ainda não se tinha baptizado, facilitou a participação dos bispos, pondo à sua disposição as diligências imperiais – para que fizessem a viagem – e oferecendo­lhes hospita­li­dade em Niceia da Bitínia, próximo da sua residência de Nicomédia. De facto, considerou muito oportuna essa reunião, uma vez que – depois de ter obtido com a sua vitória contra Licínio, no ano 324, a reunificação do Império – desejava também ver unida a Igreja, que nesses momentos andava agitada pela pregação de Ário, um sacerdote que negava a verdadeira divindade de Jesus Cristo. Desde o ano 318 Ário tinha-se oposto ao seu bispo Alexandre de Alexandria, e foi excomungado num sínodo de todos os bispos do Egipto. Ário fugiu para Nicomédia, para junto do seu amigo o bispo Eusébio.

Entre os Padres Conciliares contavam-se as figuras eclesiásticas mais relevantes do momento. Estava Ósio, bispo de Córdova que, segundo parece, presidiu às sessões. Assistiu também Alexandre de Alexan­dria, ajudado pelo então diácono Atanásio, Marcelo de Ancira, Macário de Jerusalém, Leôncio de Cesareia da Capadócia, Eustácio de Antioquia, e alguns presbíteros em representação do bispo de Roma, que não pôde assistir, devido à sua avançada idade. Também não faltaram os amigos de Ário, como Eusébio de Cesareia, Eusébio de Nicomédia e alguns outros. No total, participaram uns trezentos bispos. Os partidários de Árrio, que contavam também com as simpatias do Imperador Constantino, pensavam que, desde que expusessem os seus pontos de vista, a assembleia lhes daria razão. Todavia, quando Eusébio de Nicomédia tomou a palavra para dizer que Jesus Cristo não era mais que uma criatura – se bem que muito excelsa e eminente – e que não era de natureza divina, a imensa maioria dos assistentes compreendeu imediatamente que essa doutrina atraiçoava a fé recebida dos Apóstolos. Para evitar tão graves confusões, os Padres Conciliares decidiram redigir, tendo como base do credo baptis­mal da igreja de Cesareia, um símbolo de fé que reflectisse, de modo sintético e claro, a confissão genuína da fé recebida e admitida pelos cristãos desde as origens. Nele se diz que Jesus Cristo é “da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, homoousios tou Patrou (consubstancial ao Pai)”. Todos os Padres Conciliares, excepto dois bispos, ratificaram esse Credo – o Símbolo Niceno – a 19 de Junho do ano 325.

Além dessa questão fundamental, em Niceia fixou­se a celebração da Páscoa no primeiro Domingo depois do primeiro plenilúnio da Primavera, seguindo a prática habitual na igreja de Roma e em muitas outras. Também se trataram algumas questões disci­plinares de menor importância, relativas ao funciona­mento interno da Igreja. No que respeita ao tema mais importante – a crise arriana – Eusébio de Nico­média conseguiu, pouco tempo depois, voltar à sua sede contando com a ajuda de Constantino, tendo o próprio Imperador ordenado depois ao bispo de Cons­tantinopla que admitisse Árrio à comunhão. Entre­tanto, depois da morte de Alexandre, Atanásio acedeu ao episcopado em Alexandria. Foi uma das maiores figuras da Igreja em todo o século IV, que defendeu, com grande altura intelectual, a fé de Niceia, mas que – precisamente por isso – foi enviado para o exílio pelo Imperador. O historiador Eusébio de Cesareia – também próximo das teses arrianas – exagera, nos seus escritos, a influência de Cons­tantino no Concílio de Niceia. Se só se dispusesse dessa fonte, poderia pensar-se que o Imperador, além de pronunciar umas palavras de saudação no início das sessões, assumiu o protagonismo na reconciliação dos adversários e na restauração da concórdia, impondo-se também nas questões doutrinais, acima dos bispos que participa­vam no Concílio. Trata-se de uma versão deformada da realidade. Atendendo a todas as fontes disponíveis, pode dizer-se certamente, que Constantino tornou possível a celebração do Concílio de Niceia, e teve influência na sua celebra­ção prestando todo o seu apoio. Contudo, o estudo dos documentos mostra que o Imperador não influenciou a formulação da fé que se consubstanciou no Credo porque não tinha capacidade teológica para dominar as questões que ali se debatiam, mas também, e sobretudo, porque as fórmulas aprovadas não coincidem com as suas inclinações pessoais, que se identificam melhor com a corrente arriana, isto é, considerar que Jesus Cristo não era Deus, mas sim uma criatura excelsa.

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16/01/2015

Jesus Cristo e a Igreja - 51

Quem foi Constantino?

Flavius Valerius Aurelius Constantinus (272-337), conhecido como Constantino I ou Constantino o Grande, foi imperador do Império Romano nos anos 306 a 337. Passou à história como o primeiro imperador cristão.

Filho de um oficial grego, Constâncio Cloro, que no ano 305 foi nomeado Augusto ao mesmo tempo que Galério, e de uma mulher que viria a ser Santa Helena. Ao morrer Constâncio Cloro no ano 306, Constantino é aclamado imperador pelas tropas locais, no meio de uma difícil situação política, agravada pelas tensões com o antigo imperador, Maximiano, e seu filho Maxêncio. Constantino derrotou primeiro a Maximiano em 310 e depois a Maxêncio na batalha de Ponte Mílvius, em 28 de Outubro de 312. Uma tradição diz que Constantino antes dessa batalha teve una visão. Olhando para o sol, ao qual como pagão prestava culto, viu uma cruz e ordenou que os seus soldados pusessem nos escudos o monograma de Cristo (as duas primeiras letras do nome grego sobrepostas). Embora tenha continuado a praticar ritos pagãos, desde essa vitória mostrou-se favorável aos cristãos. Junto com Licínio, imperador do oriente, promulgou o chamado “édito de Milão” (ver pergunta seguinte) favorecendo a liberdade de culto. Mais tarde os dois imperadores enfrentaram-se, e no ano 324 Constantino derrotou Licínio e passou a ser o único Augusto do império.

Constantino levou a cabo numerosas reformas de tipo administrativo, militar e económico, mas onde mais se destacou foi nas disposições político-religiosas, e em primeiro lugar as que encaminhavam à cristianização do império. Promoveu estruturas adequadas para conservar a unidade da Igreja, como modo de preservar a unidade do estado e legitimar a sua configuração monárquica, sem excluir outras motivações religiosas de tipo pessoal. Junto a disposições administrativas eclesiásticas, tomou medidas contra heresias e cismas. Para defender a unidade da Igreja lutou contra o cisma causado pelos donatistas no norte de África e convocou o Concílio de Niceia (ver pergunta O que sucedeu no Concílio de Niceia?) para resolver a controvérsia trinitária originada por Árrio. No ano 330 transferiu a capital do império de Roma para Bizâncio, que chamou Constantinopla, o que implicou uma ruptura com a tradição, apesar de lhe querer dar um carácter de capital cristã. Como então acontecia com frequência, só foi baptizado pouco antes de morrer. Quem o baptizou foi Eusébio de Nicomédia, bispo de tendência ariana.

Juntamente com as deficiências do seu mandato – entre as que se encontram as generalizadas no tempo em que viveu como por exemplo o seu carácter caprichoso e violento – não se lhe pode negar a concessão da liberdade à Igreja e o favorecimento da sua unidade. Não é, no entanto, correcto do ponto de vista histórico que para o conseguir Constantino tivesse determinado entre outras coisas o número de livros que devia ter a Bíblia. Neste longo processo, que não acabou senão mais tarde, os quatro evangelhos eram desde há muito tempo os únicos que a Igreja reconhecia como verdadeiros. Os outros “evangelhos” não foram suprimidos por Constantino, uma vez que tinham sido proscritos como heréticos dezenas de anos atrás.

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09/01/2015

Jesus Cristo e a Igreja - 50

Que opiniões políticas tinha Jesus?

Jesus foi acusado perante a autoridade romana de promover uma revolta política (cf. Lc 23, 2). Enquanto deliberava, o procurador Pilatos recebeu pressões para que O condenasse à morte por esse motivo: “Se soltas Este, não és amigo de César, porque todo aquele que se faz rei, declara-se contra César” (Jo 19, 12). Por isso, no titulus crucis onde se indicava o motivo da condenação estava escrito: “Jesus Nazareno, rei dos judeus”.

Os seus acusadores usaram como pretexto a pregação que Jesus realizara acerca do Reino de Deus, um reino de justiça, amor e paz, para O apresentar como adversário político, que poderia acabar por levantar problemas a Roma. Mas Jesus não participou directamente na política nem tomou partido por nenhum dos bandos ou tendências nos quais se perfilavam as opiniões e a acção política das pessoas que então viviam na Galileia ou Judeia.

Isto não quer dizer que Jesus se desentendesse das questões relevantes na vida social do seu tempo. De facto a sua atenção pelos doentes, pobres e necessitados não passaram inadvertidos. Pregou a justiça e, cima de tudo, o amor ao próximo sem distinções.

Quando entrou em Jerusalém para participar na festa da Páscoa, a multidão aclamava-o como Messias gritando à sua passagem: “Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana no mais alto dos Céus!” (Mt 21, 9). No entanto Jesus não respondia às expectativas políticas que o povo colocava no Messias: não era um líder guerreiro que viesse mudar pelas armas a situação em que se encontravam, nem tão pouco foi um revo­lucionário que incitasse uma revolta contra o poder romano.

O messianismo de Jesus só se entende à luz das passagens do Servo Sofredor, de quem Isaías tinha profetizado (Is 52, 13-53, 12) que se entrega à morte para a redenção de muitos. Assim o entenderam claramente os primeiros cristãos ao reflectir, movidos pelo Espírito Santo, sobre o sucedido: “Cristo também sofreu por vós deixando-vos o exemplo, para que sigais as Suas pisadas. Ele que não cometeu pecado, «e em cuja boca não se encontrou a mentira»; quando O injuriavam, não injuriava, sofrendo, não ameaçava, mas entregava-Se ao justo Juiz; foi Ele mesmo que levou os nossos pecados em Seu corpo, sobre o madeiro, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: «por Suas chagas fostes curados». Porque vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora vos convertestes ao Pastor e Guarda das vossas almas” (1 Pe 2, 21-25).

Nalgumas biografias recentes de Jesus faz-se notar, ao considerar a sua atitude perante a política do mo­mento, a variedade existente entre os homens que escolhe para serem Apóstolos. É costume citar Simão, chamado Zelote (cf. Lc 6, 15), que – como indicaria o seu próprio apelido – seria um nacionalista radical, empenhado na luta pela independência do povo frente aos romanos. Alguns especialistas nas línguas da zona também apontam Judas Iscariotes, cujo apelido, iskariot, parece ser uma transcrição grega popular da palavra latina sicarius, o que o identificaria como simpatizante do grupo mais extre­mista e violento do nacionalismo judaico. No entanto, Mateus exercia o ofício de cobrador de impostos para a autoridade romana, «publicano», ou colaboracionista com o regime político estabelecido por Roma, o que naquela altura se considerava equivalente. Outros nomes, como Filipe, denotariam a sua procedência do mundo helenístico que estava muito estabelecido na Galileia.

Estes dados podem ter alguns detalhes discutíveis ou associar alguns desses homens a posições políticas que só ganharam força décadas depois, mas em qualquer caso são bem ilustrativas do facto de no grupo dos Doze existirem pessoas muito variadas, cada um com as suas próprias opiniões e posicio­namentos, que tinham sido chamados a uma tarefa – própria de Jesus – que transcendia a filiação política e a condição social de cada um deles.

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02/01/2015

Jesus Cristo e a Igreja - 49

Quem foi Pôncio Pilatos?

Pôncio Pilatos desempenhou o cargo de Prefeito da província romana de Judeia, desde o ano 26 d.C. até 36 ou começos de 37 d.C. A sua jurisdição estendia--se também à Samaria e à Idumeia. Não temos dados certos sobre sua vida antes destas datas. O título do ofício que desempenhou, foi o de Praefectus, tal como corresponde aos que desempenharam esse cargo antes do Imperador Cláudio, e é confirmado por uma inscrição encontrada na Cesareia. O título de Procurator que empregam alguns autores antigos para se referirem ao seu ofício, é um anacronismo. Os evangelhos referem-se a ele pelo título genérico de “governador”. Como prefeito, correspondia-lhe manter a ordem na província e administrá-la judicial e economicamente. Portanto, devia estar à frente do sistema judicial (e assim consta que fez no processo de Jesus) e recolher tributos e impostos para suprir as necessidades da província e de Roma. Desta última actividade não há provas directas, se bem que o incidente do aqueduto narrado por Flávio Josefo (ver mais abaixo) seja seguramente uma consequência dela. Por outro lado, foram encontradas moedas cunhadas em Jerusalém nos anos 29, 30 e 31, que, sem dúvida, foram mandadas fazer por Pilatos. Mas, acima de tudo, passou à história por ter sido quem
ordenou a execução de Jesus de Nazaré. Ironicamente o seu nome passou, desta maneira, a integrar o símbolo da fé cristã: “ padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”.

As suas relações com os judeus, como nos informam Filão e Flávio Josefo, não foram propriamente pacíficas. Na opinião de Josefo, os anos de Pilatos foram muito turbulentos na Palestina, e Filão diz que o governador se caracterizava pela “sua venalidade, a sua violência, os seus roubos, os assaltos, a conduta abusiva, as frequentes execuções de prisioneiros que não tinham sido julgados, e a ferocidade sem limite” (Gayo 302). Embora nestas apreciações influa seguramente a intencionalidade e a compreensão própria destes dois autores, a crueldade de Pilatos, como sugere Lc 13, 1 – onde se menciona o incidente de certos galileus, cujo sangue o governador misturara com o dos sacrifícios deles – parece fora de dúvida. Josefo e Filão dizem também que Pilatos introduziu em Jerusalém umas insígnias em honra de Tibério, que originaram uma grande agitação até que foram levadas para Cesareia. Josefo relata, noutro momento, que Pilatos utilizou fundos sagrados para construir um aqueduto. A decisão originou uma revolta, que foi esmagada de forma sangrenta. Alguns pensam que este acontecimento é aquele a que se refere Lc 13, 1. Um último episódio, relatado por Josefo, é a violenta repressão de samaritanos no monte Garizim, no ano 35. Como resultado disso, os samaritanos enviaram uma delegação ao governador da Síria, L. Vitélio, que suspendeu Pilatos do seu cargo. Este foi chamado a Roma para dar explicações, mas chegou já depois da morte de Tibério. Segundo uma tradição recolhida por Eusébio, caiu em desgraça, sob o império de Calígula, e acabou por se suicidar.
Nos séculos posteriores surgiram todo o tipo de lendas sobre a sua pessoa. Umas, atribuíram-lhe um fim terrível, no Tibre ou em Vienne (França), enquanto outras (sobretudo as Actas de Pilatos, que na Idade Média formavam parte do (Evangelho de Nicodemos) o apresentavam como convertido ao cristianismo juntamente com a sua mulher Prócula, que é venerada como santa, na Igreja Ortodoxa, pela sua defesa de Jesus (Mt 27, 19). Inclusivamente, o próprio Pilatos conta-se entre os santos da igreja etíope e copta. Mas, acima destas tradições, que na sua origem reflectem uma intenção de mitigar a culpa do governador romano, nos tempos em que o cristianismo tinha dificuldades para abrir caminho no Império, a figura de Pilatos que conhecemos pelos evangelhos é a de um personagem indolente, que não quer enfrentar a verdade e prefere contentar a multidão.
A sua inclusão no Credo é, contudo, de grande importância, porque nos recorda que a fé cristã é uma religião histórica e não um programa ético ou uma filosofia. A redenção teve lugar num lugar concreto
do mundo, a Palestina, num tempo concreto da história, isto é, quando Pilatos era prefeito da Judeia.

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26/12/2014

Jesus Cristo e a Igreja - 48

O que é o Santo Graal e que relações tem com o Santo Cálice?

A palavra “graal”, etimologicamente, vem do latim tardio “gradalis” ou “gratalis”, que deriva do latim clássico “crater”, vaso. Nos livros de cavalaria da Idade Média, entende-se que é o recipiente ou cálice em que Jesus consagrou o seu sangue, na Última Ceia, e que depois utilizou José de Arimateia para recolher o sangue e a água derramados ao lavar o corpo de Jesus. Anos depois, segundo esses livros, José levou-o consigo para as Ilhas Britânicas (ver a pergunta “Quem foi José de Arimateia?" e fundou uma comunidade de guardas da relíquia, que mais tarde ficaria ligada aos Templários.

É provável que esta lenda tenha nascido no País de Gales, inspirando-se em fontes antigas latinizadas, como poderiam ser as Actas de Pilatos, uma obra apócrifa do século V. Com a saga celta de Perceval ou Parsifal – relacionada com as histórias do rei Artur e desenvolvida em obras como Le Conte du Graal, de Chrétien de Troyes, Percival de Wolfram von Eschenbach ou Le Morte Darthur, de Thomas Malory – a lenda é enriquecida e difunde-se. O Graal converte-se numa pedra preciosa que, guardada durante um tempo por anjos, foi confiada à guarda dos cavaleiros da Ordem do Santo Graal e do seu chefe, o rei do Graal. Todos os anos, na Sexta-feira Santa, desce uma pomba do céu e, depois de depositar uma hóstia sobre a pedra, renova o seu poder e a sua força misteriosa, que comunica uma perpétua juventude e pode saciar qualquer desejo de comer e beber. De vez em quando, umas inscrições na pedra revelam os nomes daqueles que estão
chamados à bem-aventurança eterna na cidade do Graal, em Montsalvage.
Esta lenda, pela sua temática, está relacionada com o cálice que utilizou Jesus na última ceia e sobre o qual existem várias tradições antigas. Fundamentalmente, são três. A mais antiga é do século VII, e conta que um peregrino anglo-saxónico afirma ter visto e tocado o cálice que utilizou Jesus, na igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém. Era de prata e tinha duas asas à vista.

Uma segunda tradição diz que esse cálice é o que se conserva na catedral de São Lourenço de Génova.
É chamado o Sacro Catino. É de vidro verde, com a forma de um prato, e teria sido levado para Génova pelos cruzados, no século XII. Segundo uma terceira tradição, o cálice da Última Ceia é aquele que se conserva na catedral de Valência (Espanha) e se venera como o Santo Cálice. Trata-se de um cálice de calcedónia, de cor muito escura, que teria sido levado para Roma por São Pedro e utilizado ali pelos seus sucessores até que, no século III, devido às perseguições foi entregue à guarda de São Lourenço, que o levou para Huesca. Depois de ter estado em diversos lugares de Aragão teria sido levado para Valência, no século XV.

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19/12/2014

Jesus Cristo e a Igreja - 47

Jesus quis realmente fundar uma Igreja?

A pregação de Jesus dirigia-se em primeiro lugar a Israel, como ele mesmo o disse aos que o seguiam: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15, 24). Desde o começo da sua actividade convidava a todos à conversão: “Completou-se o tempo e aproxima-se o Reino de Deus; arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15).
Mas essa chamada à conversão pessoal não se percebe num contexto individualista, mas tem como objectivo reunir continuamente a humanidade dispersa para constituir o Povo de Deus que tinha vindo salvar.
Um sinal evidente de que Jesus tinha a intenção de reunir o povo da Aliança, incluindo a humanidade inteira, para cumprir das promessas feitas ao seu povo, é a instituição dos doze apóstolos, à frente dos quais coloca Pedro: “Os nomes dos doze Apóstolos são estes: O primeiro é Simão, também chamado Pedro, depois André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu e Tadeu; Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou” (Mt 10, 2-4; cf. Mc 3, 13-16; Lc 6, 12-16) (veja-se a pergunta (Quem foram os doze Apóstolos). O número doze faz referência às doze tribos de Israel e manifesta o significado desta iniciativa de congregar o povo santo de Deus, a ekkesia Theou eles são os alicerces da nova Jerusalém (cf. Ap 21, 12-14).

Um novo sinal dessa intenção de Jesus foi ter-lhes confiado na Última Ceia o poder de celebrar a Eucaristia que instituiu naquele momento (veja-se a pergunta (O que aconteceu na Última Ceia?) Deste modo, transmitiu a toda a Igreja, na pessoa daqueles Doze que estão à frente dela, a responsabilidade de ser sinal e instrumento da reunião começada por Ele e que devia dar-se nos últimos tempos. Com efeito, a sua entrega na Cruz, antecipada sacramentalmente nessa Ceia, e actualizada cada vez que a Igreja celebra a Eucaristia, cria uma comunidade unida na comunhão com Ele mesmo, chamada a ser sinal e instrumento da tarefa por Ele iniciada. A Igreja nasce, pois, da doação total de Cristo pela nossa salvação, antecipada na instituição da Eucaristia e consumada na Cruz.
Os doze Apóstolos são o sinal mais evidente da vontade de Jesus sobre a existência e a missão da sua Igreja, garantia de que entre Cristo e a Igreja não há contraposição: são inseparáveis, apesar dos pecados dos homens que compõem a Igreja.
Os Apóstolos eram conscientes, porque assim o tinham recebido de Jesus, de que a sua missão se haveria de perpetuar. Por isso se preocuparam em encontrar sucessores, para que a missão que lhes tinha sido confiada continuasse depois da sua morte – tal como testemunha o livro dos Actos dos Apóstolos.
Deixaram uma comunidade estruturada através do ministério apostólico e guiada pelos pastores legítimos, que a edificam e a sustentam na comunhão com Cristo e com o Espírito Santo, na qual todos os homens estão chamados a experimentar a salvação oferecida pelo Pai.
Nas cartas de São Paulo consideram-se, portanto, os membros da Igreja como “ concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo pedra angular o próprio Cristo Jesus” (Ef 2, 19-20).
Não é possível encontrar Jesus quando se prescinde da realidade que Ele criou e na qual se comunica. Entre Jesus e a sua Igreja há uma continuidade profunda, inseparável e misteriosa, em virtude da qual Cristo se faz presente hoje no seu povo.

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12/12/2014

Jesus Cristo e a Igreja - 46

Como se explicam os milagres de Jesus?

Entre as acusações mais antigas de judeus e pagãos contra Jesus encontra-se a de ser um mago. No século II, Orígenes refuta as imputações de magia que Celso faz do Mestre de Nazaré e às que aludem São Justino, Arnóbio e Lactâncio. Também algumas tradições
judaicas que podem remontar ao século II contêm acusações de feitiçaria. Em todos estes casos, não se afirma que ele não tenha existido, ou que não tenha realizado prodígios, mas que os motivos que o levavam a fazê-los eram o interesse e a fama pessoais.
Destas afirmações se conclui a existência histórica de Jesus e a sua fama de taumaturgo, tal como o mostram os evangelhos. Por isso, hoje em dia, entre os dados que se dão por demonstrados sobre a vida de Jesus, está o facto de ter realizado exorcismos e curas.

No entanto, em relação a outros personagens da época conhecidos por realizar prodígios, Jesus é único. Distingue-se pelo número muito maior de milagres que fez e pelo sentido que lhes deu, absolutamente diferente dos prodígios que realizaram alguns desses personagens (se é que realmente os fizeram). O número de milagres atribuídos a outros taumaturgos é muito reduzido, enquanto que nos evangelhos temos 19 relatos de milagres em Mt; 18 em Mc; 20 em Lc e 8 em Jo. Além disso há referências nos sinópticos e João a muitos outros milagres que Jesus fez (cf. Mc 1, 32-34 e par.; 3, 7-12 e par.; 6, 53-56; Jo 20, 30). O sentido é também diferente ao de qualquer outro taumaturgo: Jesus faz milagres que implicavam nos beneficiados um reconhecimento da bondade de Deus e uma mudança de vida. A sua resistência a fazê-los mostra que não buscava a sua própria exaltação ou glória. Daí que tenham um significado próprio.
Os milagres de Jesus entendem-se no contexto do Reino de Deus: “Se eu expulso os demónios pelo Espírito de Deus, é porque o Reino de Deus chegou a vós” (Mt 12, 28). Jesus inaugura o Reino de Deus e os milagres são uma chamada a uma resposta de fé.
Isto é fundamental e distintivo dos milagres que fez Jesus. Reino e milagres são inseparáveis.
Os milagres de Jesus não eram fruto de técnicas (como um médico) ou da actuação de demónios ou anjos (como um mago), mas resultado do poder sobrenatural do Espírito de Deus.

Portanto, Jesus fez milagres para confirmar que o Reino estava presente nele, anunciar a derrota definitiva de Satanás e aumentar a fé na sua Pessoa.
Não podem explicar-se como prodígios assombrosos mas como actuações de próprio Deus com um significado mais profundo do que o facto prodigioso. Os milagres sobre a natureza são sinais de que o poder divino que actua em Jesus se estende para além do mundo humano e se manifesta como poder de domínio também sobre as forças da natureza. Os milagres de cura e os exorcismos são sinais de que Jesus manifestou o seu poder de salvar o homem do mal que ameaça a alma. Uns e outros são sinais de outras realidades espirituais: as curas do corpo – a libertação da escravidão da doença – significam a cura da alma da escravidão do pecado; o poder de expulsar os demónios indica a vitória de Cristo sobre o mal; a multiplicação dos pães alude ao dom da Eucaristia; a tempestade acalmada é um convite a confiar em Cristo nos momentos da contradição ou da dificuldade; a ressurreição de Lázaro anuncia que o próprio Cristo é a ressurreição, e é figura da ressurreição final; etc.

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05/12/2014

Jesus Cristo e a Igreja - 45

Que diz o Evangelho de Filipe?

Trata-se de um escrito contido no Códice II da colecção de códices coptos de Nag Hammadi (NHC), que se conservam no Museu copto do Cairo. Nada tem a ver com o “ Evangelho de Filipe”, citado por Santo Epifânio que dizia que era usado por alguns hereges do Egipto, ou com aquele que outros escritores eclesiásticos mencionam como pertencendo aos maniqueus.
O escrito de Nag Hammadi (NHC II 51, 29-86, 19) apresenta como título no final “ Evangelho segundo Filipe”, se bem que, na realidade, nem é um evangelho – não é narração da vida de Jesus – nem o próprio texto se apresenta como sendo de Filipe. Esse título é um acrescento posterior à sua redacção original, feita provavelmente em grego por volta do século III, e que se fundamenta no facto de se atribuir a esse apóstolo o dito de que José, o Carpinteiro, teria feito a cruz a partir das árvores que ele mesmo tinha plantado (91).

A obra contém uma centena de pensamentos mais ou menos desenvolvidos, sem que tenham um fio condutor coerente entre eles. Em dezassete casos, são apresentados como palavras do Senhor, dos quais nove procedem dos evangelhos canónicos e os outros são novos. A maior parte das vezes trata-se de parágrafos extraídos de fontes anteriores de carácter homilético ou catequético. Reflectem uma doutrina gnóstica peculiar, se bem que em parte parecida com a de outros hereges gnósticos, como os valentinianos.
Exemplos: a) a compreensão do mundo celeste (Pléroma) como se fosse formado por pares (o Pai e Sofia superior; Cristo e o Espírito Santo – entendido este último como sendo mulher – e o Salvador e Sofia inferior de quem procede o mundo material); b) a distinção entre vários Cristos, entre os quais está Jesus na sua aparição terrena; c) a concepção da salvação como a união, já neste mundo, da alma (elemento feminino do homem) com o anjo procedente de Pléroma (elemento masculino); d) a distinção entre homens espirituais (pneumáticos) que conseguem essa união, e os psíquicos e os hílicos
(materiais) aos quais ela é inacessível.

Entre os pontos que mais atenção têm atraído sobre este evangelho estão aqueles que se referem a Jesus e Madalena. Esta é apresentada como a “ companheira” de Cristo (36), e acrescenta-se que “ o Senhor a beijou (na boca) repetidas vezes” , porque a amava mais que a todos os discípulos (59). Estas expressões, que, à primeira vista, poderiam parecer eróticas, empregam-se para simbolizar que Madalena tinha adquirido a perfeição própria do gnóstico e que tinha chegado à luz porque Cristo lho tinha concedido. Acontece algo semelhante quando se fala da “ câmara nupcial” como sacramento – ou literalmente um mistério – que constitui o auge do Baptismo, da Unção, da Eucaristia e da Redenção. O matrimónio é empregado como símbolo da união entre a alma e o seu anjo nesse sacramento da “ câmara nupcial” . No Evangelho de Filipe, tal sacramento representa a aquisição da unidade originária do homem neste mundo, mas que culminará no mundo celeste que, para o autor, é a própria e verdadeira “câmara nupcial”.

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21/11/2014

Jesus Cristo e a Igreja 43

Em que consiste substancialmente a mensagem cristã?

Consiste em anunciar Jesus Cristo. Ele é a boa notícia (evangelho) que proclamavam desde princípio os Apóstolos, como escreve S. Paulo: “Lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual recebestes, no qual perseverais, pelo qual sereis também salvos (...). Porque, antes de tudo, ensinei-vos o que eu mesmo recebi: Que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras; que foi visto por Cefas e depois pelos onze” (1 Cor 15, 1-5). Essa mensagem refere-se directamente à morte e ressurreição de Jesus por nossa salvação e inclui que Jesus é o Messias (Cristo) enviado por Deus tal como tinha sido prometido a Israel. O anúncio de Jesus Cristo abrange portanto a fé no Deus único, criador do mundo e do homem, e protagonista principal da história da salvação.

A mensagem cristã anuncia que, com Jesus Cristo, se realizou em plenitude a revelação de Deus ao homem: “ quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido
sob a Lei, a fim de que remisse aqueles que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adopção de filhos” (Gl 4, 4-5). Jesus revela quem é Deus de uma maneira nova e mais profunda do que a que tinha sido revelada ao povo de Israel. Revela Deus como seu Pai de uma forma única, ao ponto de chegar a dizer: “O Pai e eu somos um” (Jo 10, 30). Apoiando-se nos ensinamentos dos Apóstolos a Igreja anuncia Jesus Cristo como Filho de Deus e verdadeiro Deus com a mesma natureza que o Pai.
Jesus actuou durante a sua vida na terra com o poder de Deus e do Espírito de Deus que estava n’Ele (Lc 4, 18-21). Além disso prometeu enviar o Espírito depois da sua ressurreição e glorificação junto do Pai
(Jo 14, 16). Quando os Apóstolos receberam o Espírito Santo no dia de Pentecostes compreenderam que Jesus tinha cumprido a sua promessa desde o céu, e experimentaram a sua força transformadora. O
Espírito Santo continua a vivificar a Igreja como sua alma. A mensagem cristã inclui portanto o Espírito Santo, verdadeiro Deus e terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
A mensagem cristã anuncia também o que anunciava Jesus Cristo: o Reino de Deus (Mc 1, 15).
Jesus encheu de conteúdo essa expressão simbólica indicando com ela a presença de Deus na história humana e o seu sentido, e a união de Deus com o homem. Jesus anunciava o Reino de Deus como já iniciado pela Sua presença entre os homens e as Suas acções libertadoras do poder do demónio e do mal (Mt 12, 28).
É essa presença e essa acção de Jesus Cristo que continuam na Igreja pela força do Espírito Santo. A Igreja é, na história humana, como o gérmen e a semente desse Reino, que culminará gloriosamente com a segunda vinda de Cristo no final dos tempos.
Entretanto o homem adquire nela, mediante o Baptismo, uma nova relação com Deus, a de filho de Deus unido a Jesus Cristo, que culminará também após a morte e a ressurreição final. Cristo continua a estar realmente presente na Igreja através da Eucaristia, e actuando também nos outros Sacramentos, sinais eficazes da sua graça. Mediante a acção dos cristãos, quando vivem a caridade, vai-se manifestando o amor de Deus a todos os homens. Tudo isso faz parte da mensagem cristã.

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14/11/2014

Jesus Cristo e a Igreja 42

Quem foi José de Arimateia?

José de Arimateia aparece mencionado nos quatro evangelhos no contexto da paixão e morte de Jesus.
Era oriundo de Arimateia (Armathajim em hebraico), uma aldeia de Judá, actual Rentis, a 10 km a nordeste de Lydda, provavelmente o lugar de nascimento de Samuel (1 Sm 1, 1). Homem rico (Mt 27, 57) e membro ilustre do sinédrio (Mc 15, 43; Lc 23, 50), tinha um sepulcro novo cavado na rocha, perto do Gólgota, em Jerusalém. Era discípulo de Jesus, mas, do mesmo modo que Nicodemos, mantinha-o oculto por temor das autoridades judaicas (Jo 19, 38). Dele diz Lucas que esperava o Reino de Deus e não tinha consentido na condenação de Jesus por parte do sinédrio (Lc 23, 51). Nos momentos cruéis da crucifixão não teme dar a cara e pede a Pilatos o corpo de Jesus (no Evangelho de Pedro 2, 1; 6, 23-24, um apócrifo do século II, José solicita-o antes da crucifixão). Concedida a licença pelo perfeito, desprega crucificado, envolve-o num lençol limpo e, com a ajuda de Nicodemos, deposita Jesus no sepulcro que lhe pertencia e que ainda ninguém tinha utilizado. Depois de o fechar com uma grande pedra vão-se embora (Mt 27, 57-60, Mc 15, 42-46, Lc 23, 50-53 e Jo 19, 38-42). Até aqui chegam os dados históricos.

A partir do século IV surgiram tradições lendárias de carácter fantástico nas quais se elogiava a figura de José. Num apócrifo do século V, as Actas de Pilatos também chamado Evangelho de Nicodemos, conta-se que os judeus reprovam o comportamento de José e de Nicodemos a favor de Jesus e que, por este motivo, José é enviado para a prisão. Libertado milagrosamente aparece em Arimateia. Dali regressa a Jerusalém e conta como foi libertado por Jesus.
Mais fabulosa ainda é a obra Vindicta salvatoris (talvez do século IV), que teve uma grande difusão em Inglaterra e na Aquitânia. Neste livro conta-se a marcha de Tito, comandando as suas legiões, para vingar a morte de Jesus. Ao conquistar Jerusalém, encontra José numa torre, onde tinha sido preso para que morresse de fome. No entanto, foi alimentado por um manjar celestial.
Nos séculos XI-XIII, a lenda sobre José de Arimateia foi colorindo-se com novos detalhes nas Ilhas Britânicas e em França, incluindo-se nas histórias do santo Graal e do rei Artur. Segundo uma destas lendas, José lavou o corpo de Jesus e recolheu a água e o sangue num recipiente. Depois, José e Nicodemos dividiram o seu conteúdo (ver a pergunta: Que é o Santo Graal. Outras lendas dizem que José, levando este relicário, evangelizou a França (alguns relatos dizem que teria desembarcado em Marselha com Marta, Maria e Lázaro), Espanha (onde São Tiago o teria consagrado bispo), Portugal e Inglaterra.
Nesta última região, a figura de José tornou-se muito popular. A lenda fá-lo fundador da primeira igreja em solo britânico, em Glastonbury Tor, onde enquanto dormia o seu báculo criou raízes e floresceu.
Glastonbury Abbey converteu-se num importante centro de peregrinação até ao seu encerramento com a Reforma, em 1539. Em França, uma lenda do século IX refere que o patriarca Fortunato de Jerusalém, no tempo de Carlos Magno, fugiu para ocidente levando com ele os ossos de José de Arimateia, até chegar ao mosteiro de Moyenmoutier, onde chegou a ser abade.
Todas estas lendas, sem qualquer fundamento histórico, mostram a importância que se dava aos primeiros discípulos de Jesus. O desenvolvimento destes relatos pode estar ligado a polémicas circunstanciais de algumas regiões (como a Inglaterra ou a França) com Roma. O objectivo seria mostrar que determinadas regiões tinham sido evangelizadas por discípulos de Jesus e não por missionários enviados a partir de Roma. Em qualquer caso, nada têm a ver com a verdade histórica.

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07/11/2014

Jesus Cristo e a Igreja 41

Poderiam ter roubado o corpo de Jesus?


Àqueles que não se sentiam à vontade perante a afirmação de que Jesus tinha ressuscitado e que encontram o sepulcro onde tinha sido depositado vazio, o que primeiro que lhes ocorre pensar e dizer é que alguém tinha roubado o seu corpo (cf. Mt 28, 11-15).
A lousa encontrada em Nazaré com um rescrito imperial que recorda que é necessário respeitar a inviolabilidade dos sepulcros, testemunha que houve um grande reboliço em Jerusalém motivado pelo desaparecimento do cadáver de alguém procedente de Nazaré, por volta do ano 30.
Contudo, o próprio facto de encontrar o sepulcro vazio não impediria pensar que o corpo tivesse sido roubado. Mesmo tendo isso em conta, causou tal impacto nas santas mulheres e nos discípulos de Jesus
que se aproximaram do sepulcro, que mesmo antes de terem visto Jesus novamente vivo, foi o primeiro passo para o reconhecimento de que havia ressuscitado.

No evangelho de São João há um relato preciso que narra como encontraram tudo. Relata que logo que Pedro e João ouviram o que Maria lhes contava, saíram, Pedro com o outro discípulo, e foram ao sepulcro: “Corriam ambos juntos, mas o outro discípulo corria mais do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. Tendo-se inclinado, viu os lençóis no chão, mas não entrou. Chegou depois Simão Pedro, que o seguia, entrou no sepulcro e viu os lençóis espalmados, e o sudário que tinha sido posto na sua cabeça, não caído junto dos lençóis, mas aparte, ainda enrolado, no mesmo sítio de antes. Entrou também, então, o outro discípulo que tinha chegado primeiro ao sepulcro. Viu e acreditou” (Jo 20, 4-8).
As palavras que utiliza o evangelista, para descrever o que Pedro e ele viram no sepulcro vazio, expressam com vivo realismo a impressão que lhes causou o que puderam contemplar. Para começar, a surpresa de encontrar ali os lençóis que tinham envolvido o corpo de Jesus. Se alguém tivesse entrado para roubar o cadáver, ter-se-ia entretido em tirar os lençóis que envolviam o corpo, para levar só o corpo? Não parece lógico. Além disso, o sudário estava “ ainda enrolado” , como tinha estado na sexta-feira à tarde quando foi colocado em volta da cabeça de Jesus. Os lençóis permaneciam como tinham sido colocados envolvendo o corpo de Jesus, mas agora não envolviam nada e por isso estavam “ espalmados”, ocos, como se o corpo de Jesus se tivesse evaporado e tivesse saído sem os desdobrar, passando através deles. E ainda há mais dados surpreendentes na descrição daquilo que viram. Quando se amortalhava um cadáver, primeiro enrolava-se o sudário à volta da cabeça, e depois, tanto o corpo e como a cabeça se envolviam nos lençóis. O relato de João especifica que no sepulcro o sudário permanecia “no mesmo sítio de antes”, isto é, conservando a mesma disposição que havia tido quando estava ali o corpo de Jesus.
A descrição do evangelho assinala com extraordinária precisão o que contemplaram atónitos os Apóstolos. Era humanamente inexplicável a ausência do corpo de Jesus. Era fisicamente impossível que alguém o tivesse roubado, já que para tirá-lo da mortalha, teria sido necessário desenrolar os lençóis e o sudário, que teriam ficado por ali soltos. Mas eles tinham diante dos seus olhos os lençóis e o sudário, tal como estavam quando tinham deixado ali o corpo do Mestre na tarde de sexta-feira. A única diferença é que o corpo de Jesus já não estava lá. O resto permanecia no seu lugar.
Até tal ponto foram significativos os restos que encontraram no sepulcro vazio, que lhes fizeram intuir de algum modo a ressurreição do Senhor, pois “ viram e acreditaram”.

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30/10/2014

Jesus Cristo e a Igreja - 40

Como se explica a ressurreição de Jesus?

A ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações historicamente comprovadas.
Os Apóstolos deram testemunho do que tinham visto e ouvido. Pelo ano 57 São Paulo escreve aos Coríntios:
“Porque, antes de tudo, ensinei-vos o que eu mesmo recebi: Que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras; que foi visto por Cefas e depois pelos onze” (1 Co 15, 3-5).
Quando alguém actualmente se aproxima desses factos para buscar, do modo mais objectivo possível, a verdade sobre o que sucedeu, pode surgir uma pergunta: donde procede a afirmação de que Jesus ressuscitou? É uma manipulação da realidade que teve um eco extraordinário na história humana, ou é um facto real, que continua a ser tão surpreendente e inesperado como foi naquela altura para os seus aturdidos discípulos?
Para essas questões só é possível encontrar uma solução razoável procurando estudar quais podiam ser as crenças daqueles homens sobre a vida depois da morte, para avaliar se a ideia de uma ressurreição como a que descreviam era uma ocorrência lógica para os seus esquemas mentais.

Para começar, no mundo grego há referências a uma vida após a morte, mas com características singulares. O Hades, motivo recorrente já desde os poemas homéricos, é o domicílio da morte, um mundo de sombras que é como uma vaga recordação da morada dos vivos. Mas Homero jamais imaginou que na realidade fosse possível um regresso do Hades. Platão, com uma perspectiva diferente tinha especulado acerca da reencarnação, mas não imaginou como algo real a possibilidade de revitalização do próprio corpo, depois de morto. Isto significa que, embora se falasse por vezes na vida após a morte, nunca passava pela cabeça a ideia de ressurreição isto é, que algum indivíduo pudesse regressar à vida corporal no mundo presente.
No judaísmo a situação é em parte diferente e em parte semelhante. O sheol de que falam o Antigo Testamento e outros textos judeus antigos não é muito diferente do Hades homérico, onde as pessoas estão como adormecidas. Mas, em contraste com a concepção grega, há portas abertas à esperança. O Senhor é o único Deus, quer dos vivos quer dos mortos, com poder tanto no mundo de cima como no sheol. É possível um triunfo sobre a morte. Na tradição judaica, manifesta-se alguma crença numa ressurreição. E espera-se também a chegada do Messias, mas ambos os acontecimentos não aparecem ligados. Para qualquer judeu contemporâneo de Jesus trata-se, pelo menos à partida, de duas questões teológicas que dizem respeito a âmbitos muito diferentes.
Espera-se que o Messias derrote os inimigos do Senhor, restabeleça em todo o seu esplendor e pureza o culto do templo, estabeleça o domínio do Senhor sobre o mundo, mas nunca se imagina que ressuscitará depois da sua morte: é algo que não passava habitualmente pela cabeça de um judeu piedoso e instruído.
Roubar o seu corpo e difundir a ideia de que tinha ressuscitado com esse corpo, como argumento para mostrar que era o Messias, é impensável. No dia de Pentecostes, segundo referem os Actos dos Apóstolos, Pedro afirma que “Deus O ressuscitou desfazendo as ligaduras da morte”, e por consequência conclui: “Saiba, pois, toda a casa de Israel com absoluta certeza que Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus, a quem vós crucificastes” (Act 2, 36).
A explicação dessas afirmações é que os Apóstolos tinham contemplado algo que jamais tinham imaginado e viam-se no dever de dar testemunho, apesar da sua perplexidade e das troças que supunham, com razão, que iam suscitar.

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