28/03/2021

Reflexão na Quaresma

 


Quinto Domingo da Quaresma

Domingo de Ramos


Impressiona pensar que, talvez, muitos desta multidão que aclama Jesus na Sua entrada em Jerusalém serão os mesmos que, horas depois, hão-de vociferar «Crucifica-o».

Como é volúvel o ser humano sobretudo, quando abdica da vontade própria para por medo, conveniência, o que seja, se deixar conduzir por outros não lhe importando perceber o que está na raíz, qual o verdadeiro objectivo do que lhe sugerem que faça.

Os que se servem destas pobres pessoas têm de facto um objectivo: quantas mais pessoas se juntarem numa "reclamação" do que for, melhor porque será uma forma de pressionar quem tem de decidir. Será como pretender que uma mentira for repetida exaustivamente passe a ser uma verdade.

Só morrendo é que a semente dá origem a uma vida nova, revelando assim a sua maravilhosa fecundidade.

Agora aclamam Jesus invadidos por um ímpeto interior genuíno concluindo d por querem a Sua glorificaçã, coroá-Lo Rei. 

Depois, a morte que pedem aos gritos é uma cedência à pressão dos chefes do povo. Não é genuíno mas cobarde.


Mas, o que ignoram é que para Jesus a morte é semente de uma vida maravilhosamente nova e fecunda. Graças à Sua morte redentora, os benefícios da salvação são, com efeito, comunicados a todos os homens, judeus ou pagãos. A Sua morte é a conclusão da Sua missão é, por isso, a hora da Sua glorificação.

Aceitando voluntariamente a morte, em filial e amorosa obediência ao Pai e aos Seus planos de salvação, Jesus «deu-nos a vida imortal».

Doutrina

 

A oração

 

2. Conteúdos da oração

 

Adoração e louvor.

 

É parte essencial da oração reconhecer e proclamar a grandeza de Deus, a plenitude do seu ser, a infinidade da sua bondade e do seu amor. Pode chegar-se ao louvor a partir da consideração da beleza e magnitude do universo, como acontece em múltiplos textos bíblicos (cf. por exemplo, Sl 19; Si 42, 15-25; Dn 3, 32-90) e em numerosas orações da tradição cristã [1]; ou a partir das obras grandes e maravilhosas que Deus faz na história da salvação, como sucede no Magnificat (Lc 1, 46-55), ou nos grandes hinos paulinos (ver, por exemplo, Ef 1, 3-14); ou de pequenos factos e inclusive de minudências em que se manifesta o amor de Deus.

Em todo o caso, o que caracteriza o louvor é que nele o olhar vai directamente para o próprio Deus, tal como é em si, na sua perfeição ilimitada e infinita. “O louvor é a forma de oração que mais imediatamente reconhece que Deus é Deus! Canta-O por Si próprio, glorifica-O, não tanto pelo que Ele faz, mas sobretudo porque ELE É” (Catecismo , 2639). Está por isso intimamente unida à adoração, ao reconhecimento, não só intelectual mas existencial, da pequenez de tudo o criado, em comparação com o Criador e, em consequência, à humildade, à aceitação da indignidade pessoal diante de quem nos transcende até ao infinito; à maravilha que causa o facto desse Deus a quem os anjos e o universo inteiro rende reverência, se tenha dignado não só a olhar para o homem, mas a habitar no homem, mais ainda, a encarnar.

Adoração, louvor, petição, acção de graças resumem as disposições de fundo que informam a totalidade do diálogo entre o homem e Deus. Seja qual for o conteúdo concreto da oração, quem reza fá-lo sempre, de uma forma ou de outra, explícita o implicitamente, adorando, louvando, suplicando, implorando ou dando graças a esse Deus que reverencia, que ama e em que confia. Importa reiterar, também, que os conteúdos concretos da oração poderão ser muito variados. Por vezes, socorremo-nos da oração para considerar passagens da Escritura, para aprofundar alguma verdade cristã, para reviver a vida Cristo, para sentir a proximidade de Santa Maria... Noutras, iniciar-se-á a partir da própria vida para tornar Deus participante das alegrias e afãs, ambições e problemas que a existência traz consigo, ou para encontrar apoio ou consolo, ou para examinar diante de Deus o próprio comportamento e fazer propósitos e tomar decisões, ou mais simplesmente para comentar, com quem sabemos que nos ama, os acontecimentos do dia.

Encontro entre o crente e Deus em quem se apoia e por quem se sabe amado, a oração pode incidir sobre a totalidade dos acontecimentos que conformam a existência e sobre a totalidade dos sentimentos que o coração pode experimentar. «Escreveste-me: “orar é falar com Deus. Mas, de quê?” — De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas!; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te – ganhar intimidade!”.[2] Seguindo uma e outra via, a oração será sempre um encontro íntimo e filial entre o homem e Deus, que fomenta o sentido da proximidade divina e leva a viver cada dia da existência cara a Deus.

 

José Luis Illanes

 

Bibliografía básica:

- Catecismo da Igreja Católica, 2558-2758.

Leituras recomendadas:

- S. Josemaria, Homilias «O triunfo de Cristo na humildade»; «A Eucaristia, mistério de fé e de amor»; «A Ascensão do Senhor aos céus»; «O Grande Desconhecido» e «Por Maria, a Jesus»,em Cristo que passa , 12-21, 83-94, 117-126, 127-138 y 139-149. Homilias «A intimidade com Deus»; «Vida de oração» e «Rumo à santidade» , em Amigos de Deus , 142-153, 238-257, 294-316.

- J. Echevarría, Itinerários de vida cristã, Diel, Lisboa 2006, pp. 105-120.

- J.L. Illanes, Tratado de teología espiritual, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 427-483.

- M. Belda, Guiados por el Espíritu de Dios. Curso de Teología Espiritual, Palabra , Madrid 2006, pp. 301-338.



[1] Remissão para dois dos mais claros e conhecidos: os “Louvores ao Deus Altíssimo” e o “Cântico do irmão sol” de São Francisco de Assis.

[2] São Josemaria, Caminho, 91.

Pequena agenda do cristão - Domingo

     


DOMINGO

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



[i] Cfr. Lc 1, 38
[ii] AMA, orações pessoais
[iii] AMA, orações pessoais
[iv] AMA, orações pessoais
[v] Btº Álvaro del Portillo (oração pessoal)


























27/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Virtudes

Prudência

 

A virtude moral pode existir sem certas virtudes intelectuais, como a sabedoria, a ciência e a arte. Não porém sem o intelecto e a prudência. Sem a prudência, não pode haver realmente virtude moral, já que esta é um habitus “electivo” (electivus), isto é, que faz escolhas certas. Ora, para uma boa escolha, duas coisas exigem-se: primeiro, que haja a devida intenção do fim, o que se faz pela virtude moral, que inclina a potência apetitiva para o bem conveniente com a razão, que é o fim devido. Segundo, que se usem correctamente os meios, e isso só se alcança por uma razão que saiba aconselhar, julgar e decidir bem, o que é próprio da prudência e de virtudes a ela conexas. Logo, a virtude moral não pode existir sem a prudência.

Por conseqüência, também não poderá haver virtude moral sem o intelecto, pois é por ele que são conhecidos os princípios naturalmente evidentes, seja na ordem especulativa, seja na prática. Assim, da mesma forma que a razão recta, na ordem especulativa, enquanto procede de princípios naturalmente conhecidos, pressupõe o intelecto deles, assim também a prudência, que é a razão recta do agir (recta ratio agibilium).

 

São Tomás de Aquino, Suma Teológica P I-II, q. 58, a. 4.

Reflexão na Quaresma

 


Esmola


Quem distribui esmolas faça-o com despreocupação e alegria, já que, quanto menos se reserve para si, maior será o ganho que obterá.

 

(São Leão Magno, Sermão 10º sobre a Quaresma)

Pequena agenda do cristão - Sábado

     



SÁBADO

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Orações sugeridas:

26/03/2021

São Josemaria – Textos Março 26

 


Estou com Ele no tempo da adversidade

Ainda que tudo se vá abaixo e se acabe; ainda que os acontecimentos se sucedam ao contrário do previsto, com tremenda adversidade; nada se ganha perturbando-se. Além disso, recorda a oração confiante do profeta: "O Senhor é o nosso Juiz; o Senhor é o nosso Legislador; o Senhor é o nosso Rei; Ele é quem nos há-de salvar". Reza-a devotamente, todos os dias, para acomodar a tua conduta aos desígnios da Providência, que nos governa para nosso bem. (Forja, 855)

Quando a tentação do desânimo, dos contrastes, da luta, da tribulação, de uma nova noite da alma nos ataca – violenta –, o salmista põe-nos nos lábios e na inteligência aquelas palavras: estou com Ele no tempo da adversidade. Jesus, perante a Tua Cruz, que vale a minha; perante as Tuas feridas, os meus arranhões? Perante o Teu Amor imenso, puro e infinito, que vale o minúsculo fardo que Tu colocaste sobre os meus ombros? E os vossos corações e o meu enchem-se de uma santa avidez, confessando-Lhe – com obras – que morremos de Amor. Nasce uma sede de Deus, uma ânsia de compreender as Suas lágrimas; de ver o Seu sorriso, o Seu rosto... Julgo que o melhor modo de o exprimir é repetir novamente, com a Escritura: como o veado deseja a fonte das águas, assim a minha alma te anela, ó meu Deus! E a alma avança, metida em Deus, endeusada: o cristão tornou-se um viajante sedento, que abre a boca às águas da fonte. Com esta entrega, o zelo apostólico ateia-se, aumenta dia-a-dia – pegando esta ânsia aos outros – porque o bem é difusivo. Não é possível que a nossa pobre natureza, tão perto de Deus, não arda em desejos de semear no mundo inteiro a alegria e a paz, de regar tudo com as águas redentoras que brotam do lado aberto de Cristo, de começar e acabar todas as tarefas por Amor. Falava antes de dores, de sofrimentos, de lágrimas. E não me contradigo se afirmo que, para um discípulo que procura amorosamente o Mestre, é muito diferente o sabor das tristezas, das penas, das aflições: desaparecem imediatamente, quando aceitamos deveras a Vontade de Deus, quando cumprimos com gosto os Seus desígnios, como filhos fiéis, ainda que os nervos pareçam rebentar e o suplício pareça insuportável. (Amigos de Deus, 310–311)

Leitura Espiritual Mar 27

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc XIII, 6-30

 

A figueira estéril

6 Disse-lhes, também, a seguinte parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar frutos, mas não os encontrou. 7 Disse ao encarregado da vinha: ‘Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro. Corta-a; para que está ela a ocupar a terra?’ 8 Mas ele respondeu: ‘Senhor, deixa-a mais este ano, para que eu possa escavar a terra em volta e deitar-lhe estrume. 9 Se der frutos na próxima estação, ficará; senão, poderás cortá-la.’»

 

Cura da mulher encurvada

10 Um dia de sábado, ensinava Jesus numa sinagoga. 11 Estava lá certa mulher doente por causa de um espírito, há dezoito anos: andava curvada e não podia endireitar-se completamente. 12 Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: «Mulher, estás livre da tua enfermidade.» 13 E impôs-lhe as mãos. No mesmo instante, ela endireitou-se e começou a dar glória a Deus. 14 Mas o chefe da sinagoga, indignado por ver que Jesus fazia uma cura ao sábado, disse à multidão: «Seis dias há, durante os quais se deve trabalhar. Vinde, pois, nesses dias, para serdes curados e não em dia de sábado.» 15 Replicou-lhe o Senhor: «Hipócritas, não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi ou o seu jumento da manjedoura e o leva a beber? 16 E esta mulher, que é filha de Abraão, presa por Satanás há dezoito anos, não devia libertar-se desse laço, a um sábado?» 17 Dizendo isto, todos os seus adversários ficaram envergonhados, e a multidão alegrava-se com todas as maravilhas que Ele realizava.

 

O grão de mostarda e o fermento

18 Disse, então: «A que é semelhante o Reino de Deus e a que posso compará-lo? 19 É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e deitou no seu quintal. Cresceu, tornou-se uma árvore e as aves do céu vieram abrigar-se nos seus ramos.» 20 Disse ainda: «A que posso comparar o Reino de Deus? 21 É semelhante ao fermento que certa mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até ficar levedada toda a massa.»

 

A porta estreita

22 Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém. 23 Disse-lhe alguém: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu-lhes: 24 «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. 25 Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, ficareis fora e batereis, dizendo: ‘Abre-nos, Senhor!’ Mas ele há-de responder-vos: ‘Não sei de onde sois.’ 26 Começareis, então, a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e Tu ensinaste nas nossas praças.’ 27 Responder-vos-á: ‘Repito-vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade.’ 28 Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora. 29 Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul, sentar-se à mesa no Reino de Deus. 30 E há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.»

 

Texto

 


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE

JOÃO PAULO II

PARA A QUARESMA DE 1993

 

«Tenho sede» (Jo 19,28)

 

Amados irmãos e irmãs,

 

1. Durante o santo tempo da Quaresma, a Igreja retoma mais uma vez o caminho que conduz à Páscoa. Guiada por Jesus e seguindo os seus passos ela envolve-nos na travessia do deserto.

 

A história da Salvação deu ao deserto um significado religioso e profundo. Conduzido por Moisés e mais tarde iluminado por outros profetas, o Povo eleito pôde, através de privações e sofrimentos, experimentar a presença fiel de Deus e da sua misericórdia; alimentou-se com o pão descido do céu e extinguiu a sede com a água que brotava da rocha; o Povo de Deus cresceu na fé e na experiência do evento do Messias redentor.

 

Foi também no deserto que João Baptista pregou e as multidões acorreram a ele para receber, nas águas do Jordão, o baptismo de penitência: o deserto foi um lugar de conversão para acolher Aquele que vem para vencer a desolação e a morte ligadas ao pecado. Jesus, o Messias dos pobres que ele cumula de bens (cf. Lc 1, 53), deu início à sua missão assumindo a condição daquele que tem fome e sede no deserto.

 

Amados irmãos e irmãs, convido-vos, ao longo desta Quaresma, a meditar a Palavra de vida deixada por Cristo à sua Igreja a fim de que ilumine o itinerário de cada um dos seus membros. Reconhecei a voz de Jesus que vos fala, especialmente neste tempo de Quaresma, no Evangelho, nas celebrações litúrgicas, nas exortações dos vossos pastores. Escutai a voz de Jesus que, aflito pela fadiga e pela sede diz à Samaritana junto da fonte de Jacó: "dá-me de beber" (Jo 4, 7). Contemplai Jesus pregado na cruz, expirando, e escutai a sua voz apenas perceptível: "Tenho sede" (Jo 19, 28). Hoje Cristo repete o seu apelo e revive os tormentos da sua agonia nos nossos irmãos e nos pobres.

 

Convidando-nos, com a vivência da Quaresma, a percorrer os caminhos do amor e da esperança traçados por Cristo, a Igreja ajuda-nos a compreender que a vida cristã comporta o desapego dos bens supérfluos, a aceitação da pobreza que nos liberta e que nos dispõe a descobrir a presença de Deus e a acolher os nossos irmãos com solidariedade cada vez mais activa e em comunhão cada vez mais ampla.

 

Recordai, pois, a palavra do Senhor: "Quem der, nem que seja um copo de água fria a um destes pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa" (Mt 10, 42). Meditai com todo o coração e com esperança naquelas outras palavras: "Vinde, benditos de meu Pai,... pois tive sede e me destes de beber" (Mt 25, 34-35).

 

Durante a Quaresma de 1993, para concretizar a solidariedade e a caridade fraterna associadas à busca espiritual deste tempo forte do ano litúrgico, peço aos membros da Igreja que volvam particular atenção aos homens e mulheres, provados pela desertificação dramática das suas terras e àqueles que, em demasiadas regiões do mundo, têm falta deste bem elementar, mas indispensável à vida, que é a água.

 

Sentimo-nos inquietos por ver que hoje o deserto avança e abrange terras que ainda ontem eram prósperas e férteis. Não podemos esquecer que, em muitos casos, o próprio homem foi causa da esterilização de terras que se tornaram desertas e da poluição de águas que antes eram sãs. Quando não se respeitam os bens da terra, quando se abusa deles, age-se de maneira injusta e até mesmo criminosa, porque as consequências são miséria e morte para muitos nossos irmãos e irmãs.

 

Preocupa-nos também profundamente ver que inteiros povos, milhões de seres humanos, estão reduzidos à indigência, padecem a fome e são atingidos por doenças porque privados de água potável. De facto, a fome e numerosas doenças estão intimamente relacionadas com a seca e a poluição das águas. Lá onde as chuvas são raras e onde as nascentes de água secam, a vida torna-se mais frágil e diminui até desaparecer. Zonas imensas da Africa são atingidas por este flagelo; mas o mesmo verifica-se também nalgumas regiões da América Latina e da Austrália.

 

Além disso, está à vista de todos que o desenvolvimento industrial anárquico e o emprego de tecnologias que rompem o equilíbrio natural, causaram prejuízos graves ao ambiente, provocando sérias catástrofes. Corremos o risco de deixar em herança às gerações futuras, em muitas partes do mundo, o drama da sede e do deserto.

 

Convido-vos calorosamente a ajudar com generosidade as instituições, as organizações e as obras sociais que se ocupam das populações aflitas por carestias ou pela sede e submetidas às dificuldades da desertificação crescente. Exorto-vos igualmente a colaborar com todos aqueles que se esforçam por analisar cientificamente todos os factores da desertificação e por descobrir os meios para lhe pôr remédio.

 

Oxalá a generosidade activa dos filhos e das filhas da Igreja, bem como de todos os homens e mulheres de boa vontade, possa apressar a realização da profecia de Isaías: "Porque a água jorrará do deserto, e rios, da estepe. A terra seca se transformará em brejo, e a terra árida em mananciais de água" (35, 6-7)!

 

De todo o coração vos abençoo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

Vaticano, 18 de Setembro de 1992.

 

IOANNES PAULUS PP. II

 

 

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Leitura Espiritual Mar 26

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc XII, 42-59; Lc XIII, 1-5

 

Exortação à vigilância

42 O Senhor respondeu: «Quem será, pois, o administrador fiel e prudente a quem o senhor pôs à frente do seu pessoal para lhe dar, a seu tempo, a ração de trigo? 43 Feliz o servo a quem o senhor, quando vier, encontrar procedendo assim. 44 Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. 45 Mas, se aquele administrador disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’ e começar a espancar servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46 o senhor daquele servo chegará no dia em que ele menos espera e a uma hora que ele não sabe; então, pô-lo-á de parte, fazendo-o partilhar da sorte dos infiéis. 47 O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou e não agiu conforme os seus desejos, será castigado com muitos açoites. 48 Aquele, porém, que, sem a conhecer, fez coisas dignas de açoites, apenas receberá alguns. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito será pedido.»

 

Por Jesus ou contra Jesus

49 «Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! 50 Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize! 51 Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, Eu vo-lo digo, mas antes a divisão. 52 Porque, daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; 53 vão dividir-se: o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.» 54 Dizia também às multidões: «Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: ‘Vem lá a chuva’; e assim sucede. 55 E quando sopra o vento sul, dizeis: ‘Vai haver muito calor’; e assim acontece. 56 Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?» 57 «Porque não julgais por vós mesmos, o que é justo? 58 Por isso, quando fores com o teu adversário ao magistrado, procura resolver o assunto no caminho, não vá ele entregar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59 Digo-te que não sairás de lá, antes de pagares até ao último centavo.»

 

Necessidade da penitência

XIII 1 Nessa ocasião, apareceram alguns a falar-lhe dos galileus, cujo sangue Pilatos tinha misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. 2 Respondeu-lhes: «Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente. 4 E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.»

 

Texto

 


MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II

PARA A QUARESMA DE 1991

 

 Amados irmãos e irmãs em Cristo:

 

A grande Encíclica de Leão XIII, a Rerum Novarum, da qual se comemora o centenário, iniciou um novo capítulo da doutrina social da Igreja. Pois bem, uma constante deste ensinamento é também o convite infatigável ao empenho solidário, tendente a debelar a pobreza e o subdesenvolvimento em que vivem milhões de seres humanos.

 

Não obstante a criação, com os seus bens, seja destinada a todos, hoje grande parte da humanidade continua a sofrer sob o peso intolerável da miséria. Numa tal situação há necessidade de caridade e solidariedade vividas, como afirmei na Encíclica Sollicitudo rei socialis, para significar quanto seja urgente actuar para o bem dos outros, e estarmos prontos a esquecer-nos de nós mesmos – no sentido evangélico – para servirmos os outros, em vez de os oprimir para nosso proveito.

 

1. Neste tempo de Quaresma dirigimo-nos de novo a Deus, rico de misericórdia, fonte de todo o bem, para lhe pedir que nos liberte do nosso egoísmo, e nos dê um coração novo e um novo espírito.

 

A Quaresma, e o período pascal que vem a seguir, põem diante de nós a identificação total de Nosso Senhor Jesus Cristo com os pobres. O filho de Deus, que se fez pobre por nosso amor, identifica-se com aqueles que sofrem. Esta identificação plena encontra a sua expressão mais evidente nas palavras do Senhor: «Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequenos, foi a mim mesmo que o fizestes» (Mt 25, 40).

 

2. No ápice da Quaresma, a Quinta-feira Santa, a Liturgia recorda-nos a instituição da Eucaristia, memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo. É aqui, neste sacramento no qual a Igreja celebra a profundidade da sua fé, que devemos ir buscar a consciência viva de Cristo pobre, sofredor, perseguido. Aquele Cristo, Jesus, que tanto nos amou ao ponto de dar a sua vida por nós e que se dá a nós na Eucaristia como alimento de vida eterna, é o mesmo Cristo que nos convida a vê-lo no corpo e na vida daqueles pobres, com os quais manifestou a sua plena solidariedade.

 

São João Crisóstomo colheu magistralmente esta identificação, afirmando: «Se quiserdes honrar o Corpo de Cristo, não o desprezeis quando está nu; não honreis Cristo eucarístico com paramentos de seda, ignorando aquele outro Cristo que, fora dos muros da Igreja, sofre o frio e a nudez» (cf. Om. in Mattaheum, n. 50, 3-4, PG 58).

 

3. Neste tempo de Quaresma é bom reflectir sobre a parábola do rico opulento e de Lázaro. Todos os homens são chamados a participar no banquete dos bens da vida, e todavia tantos encontram-se ainda fora da porta, como Lázaro, enquanto «os cães iam lamber-lhe as feridas» (Lc 16, 11).

 

Se ignorássemos a multidão imensa de pessoas humanas que não só estão privadas do estricto necessário para viver (alimento, casa, assistência médica) mas que não têm sequer a esperança num futuro melhor, tornar-nos-íamos como o rico opulento que finge não ver o pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31).

 

Devemos, por isso, ter bem impressa nos olhos a imagem da miséria assustadora, que aflige tantas partes do mundo; e por isso, com esta intenção, repito o apelo que – em nome de Jesus Cristo e em nome de toda a humanidade – dirigi a todos os homens durante a minha última visita ao Sahel: «Como julgará a história uma geração que, tendo todos os meios para nutrir (aquelas populações) do planeta, com indiferença fratricida se recusa a fazê-lo?... Como pode deixar de ser um deserto, um mundo no qual a pobreza não encontra um amor capaz de dar a vida?» (cf. L'Osservatore Romano, 31 de Janeiro de 1990, p. 6).

 

Volvendo o nosso olhar para Jesus Cristo, o bom Samaritano, não podemos esquecer que – desde a pobreza da manjedoura à espoliação total da Cruz – Ele se fez um com os últimos. Ensinou-nos o desapego das riquezas, a confiança em Deus, a disponibilidade à partilha. Exorta-nos a volver o olhar para os nossos irmãos e irmãs, que vivem na miséria e no sofrimento, com o espírito de quem - pobre - sabe que depende totalmente de Deus e Dele tem necessidade absoluta. O modo como nos comportamos será a verdadeira, autêntica medida do nosso amor a Ele, fonte de vida e de amor, e sinal de nossa fidelidade ao seu Evangelho. Que a Quaresma aumente em todos esta consciência e este empenho de caridade, para que não passe em vão mas nos conduza, verdadeiramente renovados, para a alegria da Páscoa.

 

 

IOANNES PAULUS PP. II

 

 

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