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31/03/2021

Leitura Espiritual Mar 31

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc XVI, 1-31



 

Advertência aos discípulos

XII 1 Entretanto, a multidão tinha-se reunido; eram milhares, a ponto de se pisarem uns aos outros. Jesus começou a dizer primeiramente aos seus discípulos: «Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. 2 Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a conhecer-se. 3 Porque tudo quanto tiverdes dito nas trevas há-de ouvir-se em plena luz, e o que tiverdes dito ao ouvido, em lugares retirados, será proclamado sobre os terraços. 4 Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. 5 Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar na Geena. Sim, Eu vo-lo digo, a esse é que deveis temer. 6 Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus. 7 Mais ainda, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não temais: valeis mais do que muitos pássaros. 8 Digo-vos ainda: Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também o Filho do Homem se declarará por ele diante dos anjos de Deus. 9 Aquele, porém, que me tiver negado diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus.

 

Pecado contra o Espírito Santo

10 E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem, há-de perdoar-se; mas, a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo, jamais se perdoará. 11 Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de dizer em vossa defesa, 12 pois o Espírito Santo vos ensinará, no momento próprio, o que deveis dizer.» 

 

Cuidado com a avareza

13 Dentre a multidão, alguém lhe disse: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» 14 Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» 15 E prosseguiu: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.» 16 Disse-lhes, então, esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. 17 E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ 18 Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. 19 Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.’ 20 Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?’ 21 Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.»

 

Confiança em Jesus

 

22 Em seguida, disse aos discípulos: «É por isso que vos digo: Não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir; 23 pois a vida é mais que o alimento, e o corpo mais que o vestuário. 24 Reparai nos corvos: não semeiam nem colhem, não têm despensa nem celeiro, e Deus alimenta-os. Quanto mais não valeis vós do que as aves! 25 E quem de vós, pelo facto de se inquietar, pode acrescentar um côvado à extensão da sua vida? 26 Se nem as mínimas coisas podeis fazer, porque vos preocupais com as restantes? 27 Reparai nos lírios, como crescem! Não trabalham nem fiam; pois Eu digo-vos: Nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 28 Se Deus veste assim a erva, que hoje está no campo e amanhã é lançada no fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! 29 Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, nem andeis ansiosos, 30 pois as pessoas do mundo é que andam à procura de todas estas coisas; mas o vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 31 Procurai, antes, o seu Reino, e o resto vos será dado por acréscimo.

 

Texto

 


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE

PAPA JOÃO PAULO II

PARA A QUARESMA DE 1996

 

 

Amados Irmãos e Irmãs!

 

1. O Senhor chama-nos, uma vez mais, a segui-Lo pelo itinerário quaresmal, caminho anualmente proposto a todos os fiéis, para que renovem a sua resposta pessoal e comunitária à vocação baptismal e produzam frutos de conversão. A Quaresma é um caminho de reflexão dinâmica e criativa que impele à penitência, para robustecer todo o propósito de compromisso evangélico; um caminho de amor, que abre o ânimo dos crentes aos irmãos, elevando-os para Deus. Jesus pede aos seus discípulos que vivam e difundam a caridade, o mandamento novo que representa um magistral resumo do Decálogo divino, confiado a Moisés no Monte Sinai. Na vida de todos os dias, sucede encontrarmos famintos, sedentos, doentes, marginalizados, migrantes. Durante o tempo quaresmal, somos convidados a olhar, com mais atenção, os seus rostos carregados de sofrimento; rostos que testemunham o desafio das pobrezas do nosso tempo.

 

2. O Evangelho destaca como o Redentor experimenta singular compaixão por aqueles que vivem em dificuldade; fala-lhes do Reino de Deus e cura os enfermos no corpo e no espírito. Depois diz aos discípulos: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Mas eles reparam que só têm cinco pães e dois peixes. Também nós hoje, como então os Apóstolos em Betsaída, dispomos de meios, sem dúvida, insuficientes para valer eficazmente a cerca de oitocentos milhões de pessoas famintas ou mal nutridas, que, às portas do ano 2000, lutam ainda pela sua sobrevivência.

 

Que fazer então? Deixar as coisas como estão, rendendo-nos à impotência? É esta a pergunta para a qual, ao início da Quaresma, desejo chamar a atenção de cada fiel e de toda a comunidade eclesial. A multidão de famintos, composta de crianças, mulheres, anciãos, migrantes, deslocados, desempregados, dirige-nos o seu grito de dor. Imploram-nos, esperando ser ouvidos. Como não tornar atentos os nossos ouvidos e vigilantes os nossos corações, começando por pôr à disposição aqueles cinco pães e os dois peixes que Deus colocou em nossas mãos? Todos podemos fazer qualquer coisa por eles, dando cada um o seu próprio contributo. Isto requer certamente renúncias, que supõem uma conversão interior e profunda. É preciso, sem dúvida, rever os comportamentos consumistas, combater o hedonismo, opor-se à indiferença e à delegação das responsabilidades.

 

3. A fome é um drama enorme que aflige a humanidade : urge tomar ainda maior consciência do mesmo e oferecer um apoio convicto e generoso às várias Organizações e Movimentos, nascidos para aliviar os sofrimentos de quem corre o risco de morrer por carência de alimento, privilegiando aqueles que não são atingidos por programas governamentais e internacionais. Impõe-se apoiar a luta contra a fome, tanto nos países menos avançados como nas nações altamente industrializadas, onde, infelizmente, vai sempre aumentando a distância que separa os ricos dos pobres.

 

A terra está dotada dos recursos necessários para saciar a humanidade inteira. É preciso sabê-los usar com inteligência, respeitando o ambiente e os ritmos da natureza, garantindo a equidade e a justiça nas trocas comerciais, e uma distribuição das riquezas que tenha em conta o dever da solidariedade. Alguém poderia objectar que se trata de uma enorme e quimérica utopia. O ensinamento e a acção social da Igreja, porém, demonstram o contrário: sempre que os homens se convertem ao Evangelho, esse projecto de partilha e solidariedade torna-se uma estupenda realidade.

 

4. Na verdade, enquanto vemos, por um lado, ser destruídas grandes quantidades de produtos necessários à vida do homem, por outro, descobrimos com amargura longas filas de pessoas que aguardam a sua vez junto das mesas dos pobres ou à volta dos comboios das Organizações humanitárias, ocupadas a distribuir ajudas de toda a espécie. Mas, também nas modernas metrópoles, à hora de encerramento dos mercados locais, não é raro vislumbrar gente desconhecida que se inclina a rebuscar o rebotalho das mercadorias ali abandonado.

 

Diante de tais cenas, sintomas de profundas contradições, como não experimentar no espírito um sentimento de revolta interior? Como não sentir-se tocado por um impulso espontâneo de caridade cristã? A autêntica solidariedade, todavia, não se improvisa; só através de um paciente e responsável trabalho de formação, realizado desde a infância, é que aquela se tornará um hábito mental da pessoa, englobando os diversos campos de actividade e responsabilidade. Requer-se um processo geral de sensibilização, capaz de envolver toda a sociedade. A Igreja Católica, em colaboração cordial com as outras Confissões religiosas, deseja oferecer o seu próprio e qualificado contributo para um tal processo. Trata-se de um fundamental esforço de promoção do homem e de partilha fraterna, que não pode deixar de ver ai empenhados também os próprios pobres, segundo as suas possibilidades.

 

5. Amados Irmãos e Irmãs! Ao mesmo tempo que vos confio estas reflexões quaresmais, para que as desenvolvais individual e comunitariamente sob a guia dos vossos Pastores, exorto-vos a cumprir gestos significativos e concretos, capazes de multiplicar aqueles poucos pães e peixes, de que dispomos. Contribuir-se-á assim validamente para fazer frente aos vários géneros de fome, sendo este um modo autêntico de viver o providencial período da Quaresma, tempo de conversão e reconciliação.

 

Nestes empenhativos propósitos, sirva-vos de apoio e conforto a Bênção Apostólica, que de bom grado concedo a cada um de vós, pedindo ao Senhor a graça de nos encaminhar generosamente, mediante a oração e a penitência, para as celebrações da Páscoa.

 

Castel Gandolfo, 8 de Setembro, Natividade da Virgem Santa Maria, do ano 1995, décimo sétimo de Pontificado.

 

IOANNES PAULUS PP II

 

 

© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

 

 

 

28/03/2021

Leitura Espiritual Mar 28

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc XIII, 31-35; Lc XIV, 1-14

 

Jesus e Herodes

31 Naquela altura aproximaram-se dele alguns fariseus, que lhe disseram: «Vai-te embora, sai daqui, porque Herodes quer matar-te.» 32 Respondeu-lhes: «Ide dizer a essa raposa: Agora estou a expulsar demónios e a realizar curas, hoje e amanhã; ao terceiro dia, atinjo o meu termo. 33 Mas hoje, amanhã e depois devo seguir o meu caminho, porque não se admite que um profeta morra fora de Jerusalém.»

 

Censuras a Jerusalém

34 «Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos, como a galinha junta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste! 35 Agora, ficará deserta a vossa casa. Eu vo-lo digo: Não me vereis até chegar o dia em que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!»

 

Cura de um hidrópico

XIV 1 Tendo entrado, a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para comer uma refeição, todos o observavam. 2 Achava-se ali, diante dele, um hidrópico. 3 Jesus, dirigindo a palavra aos doutores da Lei e fariseus, disse-lhes: «É permitido ou não curar ao sábado?» 4 Mas eles ficaram calados. Tomando-o, então, pela mão, curou-o e mandou-o embora. 5 Depois, disse-lhes: «Qual de vós, se o seu filho ou o seu boi cair a um poço, 6 não o irá logo retirar em dia de sábado?» E a isto não puderam replicar.

 

O último lugar

7 Observando como os convidados escolhiam os primeiros lugares, disse-lhes esta parábola: 8 «Quando fores convidado para um banquete, não ocupes o primeiro lugar; não suceda que tenha sido convidado alguém mais digno do que tu, 9 venha o que vos convidou, a ti e ao outro, e te diga: ‘Cede o teu lugar a este.’ Ficarias envergonhado e passarias a ocupar o último lugar. 10 Mas, quando fores convidado, senta-te no último lugar; e assim, quando vier o que te convidou, há-de dizer-te: ‘Amigo, vem mais para cima.’ Então, isto será uma honra para ti, aos olhos de todos os que estiverem contigo à mesa. 11 Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.»

 

Caridade

12 Disse, depois, a quem o tinha convidado: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos; não vão eles também convidar-te, por sua vez, e assim retribuir-te. 13 Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. 14 E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.»

 

Texto


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE

JOÃO PAULO II

PARA A QUARESMA DE 1994

 

Amados Irmãos e Irmãs em Cristo

 

1. A Quaresma é o tempo favorável, concedido pelo Senhor, para renovar a nossa caminhada de conversão e fortificar em nós a fé, a esperança e a caridade, para entrar na Aliança querida por Deus e para conhecer um tempo de graça e reconciliação.

 

«A família está ao serviço da caridade, a caridade está ao serviço da família». Com um tal tema, escolhido para este ano, quereria convidar todos os cristãos a transformarem a sua existência e a modificarem os seus comportamentos, para serem fermento que faz crescer no seio da família humana a caridade e a solidariedade, valores essenciais da vida social e da vida cristã.

 

2. Em primeiro lugar, que as famílias tomem consciência da sua missão na Igreja e no mundo! E na oração pessoal e comunitária que recebem o Espírito Santo que, nelas e por elas, vem fazer novas todas as coisas e que abre o coração dos fiéis â dimensão universal. Saciando-se na fonte do amor, cada um tornar-se-á capaz de transmitir este amor na sua vida e nas suas obras. A oração une-nos em Cristo, fazendo assim todos os homens irmãos.

 

A família é o lugar primeiro e privilegiado da educação e do exercício da vida fraterna, da caridade e da solidariedade, em suas múltiplas formas. No relacionamento familiar, aprende-se a atenção, o acolhimento e o respeito do outro, que sempre deve poder encontrar o lugar que lhe pertence. Depois, a vida em comum é um convite à partilha, que permite sair do próprio egoísmo. Aprendendo a partilhar e a dar, descobre-se a alegria imensa que nos traz a comunhão dos bens. Com delicadeza, os pais procurarão despertar nos filhos, pelo seu exemplo e o seu ensino, o sentido da solidariedade. Desde a infância, cada um é chamado também a fazer a experiência da abstinência e do jejum, a fim de forjar o seu carácter e dominar os seus instintos, em especial o da posse exclusiva para si mesmo. Aquilo que se aprende na vida familiar permanece ao longo de toda a existência.

 

3. Nestes tempos particularmente difíceis que o nosso mundo atravessa, oxalá as famílias, a exemplo de Maria que se apressou a ir visitar sua prima Isabel, se tornem próximas dos seus irmãos em necessidade e os tenham presentes na sua oração! Como o Senhor, que toma os homens ao seu cuidado, devemos poder dizer: «Voltei os Meus olhos para o meu povo, e o seu clamor chegou até Mim» (1 Sam 9,16); deste modo, não poderemos permanecer surdos aos seus apelos. Porque a pobreza de um número sempre crescente de irmãos nossos aniquila-lhes a sua dignidade de pessoas e desfigura a humanidade inteira; constitui uma injúria clamorosa ao dever de solidariedade e de justiça.

 

4. Hoje, a nossa atenção deve concentrar-se especialmente sobre os sofrimentos e as pobrezas familiares. Com efeito, um grande número de famílias atingiram o limiar da pobreza, não possuindo sequer o mínimo necessário para se alimentar e nutrir os seus filhos, para permitir a estes últimos terem um crescimento físico e psíquico normal e seguirem uma escolaridade regular e válida. Algumas não têm os meios para se alojarem decentemente. O desemprego alastra cada vez mais, aumentando em proporções consideráveis o empobrecimento de faixas inteiras da população. Mulheres há que se vêem obrigadas a prover sozinhas às necessidades dos seus filhos e a educá-los, o que leva muitas vezes os jovens a divagarem pelas ruas, refugiando-se na droga, no abuso do álcool ou na violência. Constata-se actualmente um crescimento dos casais e das famílias a braços com provações psicológicas e de relacionamento. As dificuldades sociais contribuem às vezes para a desintegração do núcleo familiar. Com muita frequência, o filho nascituro não é aceite. Em alguns países, os menores são submetidos a condições desumanas ou vergonhosamente explorados. As pessoas de idade e as diminuídas, porque economicamente não rentáveis, são deixadas numa extrema solidão e sentem-se inúteis. Por pertencerem a outras raças, culturas, religiões, famílias vêem-se rejeitadas na terra onde se tinham estabelecido.

 

5. Face a tais flagelos, que atingem o conjunto do planeta, não podemos calar nem permanecer inactivos, pois ferem a família, célula básica da sociedade e da Igreja. Somos chamados a domina-los. Os cristãos e os homens de boa vontade têm o dever de apoiar as famílias em dificuldade, dando-lhes os meios espirituais e materiais para sair das situações frequentemente trágicas que acabamos de evocar.

 

Neste tempo da Quaresma, portanto, convido antes de mais à partilha com as famílias mais pobres, para que possam desempenhar, particularmente com os filhos, as responsabilidades que lhes competem. Ninguém pode ser rejeitado em nome da sua diferença, da sua debilidade ou da sua pobreza. Pelo contrário, as diversidades são riquezas para a construção comum. É a Cristo, que nos damos sempre que nos dedicamos aos pobres, porque eles «revestiram o rosto do nosso Salvador» e «são os preferidos de Deus» (S. Gregório de Nissa, O amor dos pobres). A fé exige a partilha com os semelhantes. A solidariedade material é uma expressão essencial e primária da caridade fraterna: é ela que dá a cada um os meios para subsistir e organizar a sua vida.

 

A terra e as suas riquezas pertencem a todos. «A fecundidade de toda a terra deve tornar-se fertilidade para todos» (S. Ambrósio de Milão, De Nabuthe VII, 33). Nas horas dolorosas que vivemos, não basta, sem dúvida, tomar do supérfluo, mas sim transformar os comportamentos e os modos de consumo, a fim de cortar do próprio necessário e de olhar apenas ao essencial, para que todos possam viver com dignidade. Façamos jejuar os nossos desejos por vezes imoderados no possuir, a fim de oferecer ao nosso próximo o que radicalmente lhe falta. O jejum dos ricos deve tornar-se o alimento dos pobres (cf. S. Leão Magno, Homilia 20 sobre o jejum).

 

6. De modo particular, chamo a atenção das comunidades diocesanas e paroquiais para a necessidade de encontrar meios práticos para ir em socorro das famílias carenciadas. Sei que numerosos sínodos diocesanos tomaram já providências nesse sentido. Também a pastoral familiar deve poder jogar um papel de primeiro plano. Além disso, os cristãos, nos organismos civis em que participam, apelarão insistentemente a este cuidado e a este dever imperioso de ajudar as famílias mais débeis. Dirijo-me ainda aos governantes das nações para que encontrem, à escala do seu país e do conjunto planetário, os meios para fazer cessar a espiral de pobreza e endividamento das famílias. A Igreja deseja que, nas políticas económicas, os dirigentes e os chefes de empresa tomem consciência das mudanças a operar e das suas obrigações, para que as famílias não dependam unicamente das ajudas que lhes são concedidas, mas que o trabalho dos seus membros lhes possa fornecer os meios de subsistência.

 

7. A comunidade cristã acolhe com alegria a iniciativa das Nações Unidas de fazer de 1994 um Ano Internacional da Família, e por todo o lado onde lhe é possível, de bom grado ela dá o seu contributo especifico.

 

Hoje não fechemos o nosso coração, mas escutemos a voz do Senhor e a dos nossos irmãos, os homens!

 

Possam as acções de caridade realizadas no decurso desta Quaresma, pelas famílias e para as famílias, proporcionarem a cada um a alegria profunda e abrirem os corações a Cristo ressuscitado, «o Primogénito de muitos irmãos» (Rm 8,29)! A todos aqueles que responderão a este apelo do Senhor, concedo de bom grado a minha Bênção Apostólica.

 

Vaticano, 3 de Setembro de 1993.

 

IOANNES PAULUS PP. II

 

© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

 

 

 

26/03/2021

Leitura Espiritual Mar 26

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc XII, 42-59; Lc XIII, 1-5

 

Exortação à vigilância

42 O Senhor respondeu: «Quem será, pois, o administrador fiel e prudente a quem o senhor pôs à frente do seu pessoal para lhe dar, a seu tempo, a ração de trigo? 43 Feliz o servo a quem o senhor, quando vier, encontrar procedendo assim. 44 Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. 45 Mas, se aquele administrador disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’ e começar a espancar servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46 o senhor daquele servo chegará no dia em que ele menos espera e a uma hora que ele não sabe; então, pô-lo-á de parte, fazendo-o partilhar da sorte dos infiéis. 47 O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou e não agiu conforme os seus desejos, será castigado com muitos açoites. 48 Aquele, porém, que, sem a conhecer, fez coisas dignas de açoites, apenas receberá alguns. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito será pedido.»

 

Por Jesus ou contra Jesus

49 «Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! 50 Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize! 51 Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, Eu vo-lo digo, mas antes a divisão. 52 Porque, daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; 53 vão dividir-se: o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.» 54 Dizia também às multidões: «Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: ‘Vem lá a chuva’; e assim sucede. 55 E quando sopra o vento sul, dizeis: ‘Vai haver muito calor’; e assim acontece. 56 Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?» 57 «Porque não julgais por vós mesmos, o que é justo? 58 Por isso, quando fores com o teu adversário ao magistrado, procura resolver o assunto no caminho, não vá ele entregar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59 Digo-te que não sairás de lá, antes de pagares até ao último centavo.»

 

Necessidade da penitência

XIII 1 Nessa ocasião, apareceram alguns a falar-lhe dos galileus, cujo sangue Pilatos tinha misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. 2 Respondeu-lhes: «Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente. 4 E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.»

 

Texto

 


MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II

PARA A QUARESMA DE 1991

 

 Amados irmãos e irmãs em Cristo:

 

A grande Encíclica de Leão XIII, a Rerum Novarum, da qual se comemora o centenário, iniciou um novo capítulo da doutrina social da Igreja. Pois bem, uma constante deste ensinamento é também o convite infatigável ao empenho solidário, tendente a debelar a pobreza e o subdesenvolvimento em que vivem milhões de seres humanos.

 

Não obstante a criação, com os seus bens, seja destinada a todos, hoje grande parte da humanidade continua a sofrer sob o peso intolerável da miséria. Numa tal situação há necessidade de caridade e solidariedade vividas, como afirmei na Encíclica Sollicitudo rei socialis, para significar quanto seja urgente actuar para o bem dos outros, e estarmos prontos a esquecer-nos de nós mesmos – no sentido evangélico – para servirmos os outros, em vez de os oprimir para nosso proveito.

 

1. Neste tempo de Quaresma dirigimo-nos de novo a Deus, rico de misericórdia, fonte de todo o bem, para lhe pedir que nos liberte do nosso egoísmo, e nos dê um coração novo e um novo espírito.

 

A Quaresma, e o período pascal que vem a seguir, põem diante de nós a identificação total de Nosso Senhor Jesus Cristo com os pobres. O filho de Deus, que se fez pobre por nosso amor, identifica-se com aqueles que sofrem. Esta identificação plena encontra a sua expressão mais evidente nas palavras do Senhor: «Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequenos, foi a mim mesmo que o fizestes» (Mt 25, 40).

 

2. No ápice da Quaresma, a Quinta-feira Santa, a Liturgia recorda-nos a instituição da Eucaristia, memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo. É aqui, neste sacramento no qual a Igreja celebra a profundidade da sua fé, que devemos ir buscar a consciência viva de Cristo pobre, sofredor, perseguido. Aquele Cristo, Jesus, que tanto nos amou ao ponto de dar a sua vida por nós e que se dá a nós na Eucaristia como alimento de vida eterna, é o mesmo Cristo que nos convida a vê-lo no corpo e na vida daqueles pobres, com os quais manifestou a sua plena solidariedade.

 

São João Crisóstomo colheu magistralmente esta identificação, afirmando: «Se quiserdes honrar o Corpo de Cristo, não o desprezeis quando está nu; não honreis Cristo eucarístico com paramentos de seda, ignorando aquele outro Cristo que, fora dos muros da Igreja, sofre o frio e a nudez» (cf. Om. in Mattaheum, n. 50, 3-4, PG 58).

 

3. Neste tempo de Quaresma é bom reflectir sobre a parábola do rico opulento e de Lázaro. Todos os homens são chamados a participar no banquete dos bens da vida, e todavia tantos encontram-se ainda fora da porta, como Lázaro, enquanto «os cães iam lamber-lhe as feridas» (Lc 16, 11).

 

Se ignorássemos a multidão imensa de pessoas humanas que não só estão privadas do estricto necessário para viver (alimento, casa, assistência médica) mas que não têm sequer a esperança num futuro melhor, tornar-nos-íamos como o rico opulento que finge não ver o pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31).

 

Devemos, por isso, ter bem impressa nos olhos a imagem da miséria assustadora, que aflige tantas partes do mundo; e por isso, com esta intenção, repito o apelo que – em nome de Jesus Cristo e em nome de toda a humanidade – dirigi a todos os homens durante a minha última visita ao Sahel: «Como julgará a história uma geração que, tendo todos os meios para nutrir (aquelas populações) do planeta, com indiferença fratricida se recusa a fazê-lo?... Como pode deixar de ser um deserto, um mundo no qual a pobreza não encontra um amor capaz de dar a vida?» (cf. L'Osservatore Romano, 31 de Janeiro de 1990, p. 6).

 

Volvendo o nosso olhar para Jesus Cristo, o bom Samaritano, não podemos esquecer que – desde a pobreza da manjedoura à espoliação total da Cruz – Ele se fez um com os últimos. Ensinou-nos o desapego das riquezas, a confiança em Deus, a disponibilidade à partilha. Exorta-nos a volver o olhar para os nossos irmãos e irmãs, que vivem na miséria e no sofrimento, com o espírito de quem - pobre - sabe que depende totalmente de Deus e Dele tem necessidade absoluta. O modo como nos comportamos será a verdadeira, autêntica medida do nosso amor a Ele, fonte de vida e de amor, e sinal de nossa fidelidade ao seu Evangelho. Que a Quaresma aumente em todos esta consciência e este empenho de caridade, para que não passe em vão mas nos conduza, verdadeiramente renovados, para a alegria da Páscoa.

 

 

IOANNES PAULUS PP. II

 

 

© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

 

 

 

 

25/03/2021

Leitura Espiritual Mar 25



Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc XII, 22-41

 



Confiança em Jesus

22 Em seguida, disse aos discípulos: «É por isso que vos digo: Não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir; 23 pois a vida é mais que o alimento, e o corpo mais que o vestuário. 24 Reparai nos corvos: não semeiam nem colhem, não têm despensa nem celeiro, e Deus alimenta-os. Quanto mais não valeis vós do que as aves! 25 E quem de vós, pelo facto de se inquietar, pode acrescentar um côvado à extensão da sua vida? 26 Se nem as mínimas coisas podeis fazer, porque vos preocupais com as restantes? 27 Reparai nos lírios, como crescem! Não trabalham nem fiam; pois Eu digo-vos: Nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 28 Se Deus veste assim a erva, que hoje está no campo e amanhã é lançada no fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! 29 Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, nem andeis ansiosos, 30 pois as pessoas do mundo é que andam à procura de todas estas coisas; mas o vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 31 Procurai, antes, o seu Reino, e o resto vos será dado por acréscimo. 32 Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino.» 33 «Vendei os vossos bens e dai-os de esmola. Arranjai bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável no Céu, onde o ladrão não chega e a traça não rói. 34 Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.»

 

Vigilância

35 «Estejam apertados os vossos cintos e acesas as vossas lâmpadas. 36 Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar da boda, para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater. 37 Felizes aqueles servos a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Em verdade vos digo: Vai cingir-se, mandará que se ponham à mesa e há-de servi-los. 38 E, se vier pela meia-noite ou de madrugada, e assim os encontrar, felizes serão eles. 39 Ficai a sabê-lo bem: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não teria deixado arrombar a sua casa. 40 Estai preparados, vós também, porque o Filho do Homem chegará na hora em que menos pensais.» 41 Pedro disse-lhe: «Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou é para todos igualmente?»

 

 

Texto


MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II

PARA A QUARESMA DE 1990

 

 Amados irmãos e irmãs em Cristo:

 

1. Como todos os anos, a aproximação da Quaresma dá-me a oportunidade de me dirigir a vós, para vos convidar a aproveitardes este momento favorável, e este «tempo da salvação» (cf. 2 Cor 6, 2). Que ele seja vivido intensamente por todos, na sua dupla dimensão de conversão a Deus e de amor aos irmãos. Com efeito, a Quaresma convida-nos a mudar totalmente a mente e o coração, para escutarmos a voz do Senhor que nos convida a voltarmos para Ele, em novidade de vida, e a sermos cada vez mais sensíveis aos sofrimentos dos que nos rodeiam.

 

Este ano, desejaria propor, com especial empenho, à reflexão comum, o problema dos expatriados e dos refugiados. O seu número, de facto, enorme e cada vez maior, constitui uma realidade dolorosa no mundo em que vivemos, realidade que não se confina apenas nalgumas regiões, mas já se estendeu a todos os continentes.

 

Homens sem pátria, os refugiados procuram acolhimento noutros países do mundo, que é a nossa casa comum; mas só a poucos de entre eles é dado voltar aos Países de origem, devido às mudanças da situação interna; para os outros arrasta-se a condição dolorosíssima de êxodo, de insegurança e de busca ansiosa de uma posição de vida adequada. Entre eles há crianças, mulheres, viúvas, famílias muitas vezes divididas, jovens frustrados nas suas aspirações, adultos desarraigados da profissão, privados dos seus bens materiais, da casa, e da pátria.

 

2. Perante a amplidão e a gravidade deste problema, todos os filhos da Igreja devem sentir-se interpelados, como seguidores de Jesus, que quis também Ele sofrer a condição de refugiado - e na qualidade de testemunhas do seu Evangelho. Além disso, o próprio Cristo, naquela página comovedora do mesmo Evangelho que, na liturgia latina, lemos na segunda-feira da primeira semana da Quaresma, quis ser reconhecido e identificado em cada refugiado: «Eu era peregrino e vós me recolhestes ... Era peregrino e não me recolhestes» (Mt 25, 35 e 43).

 

Estas palavras de Cristo devem levar-nos a um atento exame de consciência quanto à nossa atitude em relação aos exilados e aos refugiados. Nós encontramo-los, efectivamente, quase todos os dias, no território de muitas paróquias; tornaram-se verdadeiramente o nosso próximo mais próximo. Eles têm necessidade da caridade, da justiça e da solidariedade de todos os cristãos.

 

3. A vós, a cada um dos membros e a cada comunidade da Igreja católica, portanto, dirijo a minha exortação premente, nesta Quaresma, a fim de que procureis lançar mão de todos os meios existentes para socorrer os irmãos refugiados, organizando adequadas obras de acolhimento a fim de favorecer a sua plena inserção na sociedade civil e demonstrando para com eles abertura de mente e calorosa cordialidade.

 

A solicitude pelos refugiados deve estimular-nos a reafirmar e a evidenciar os direitos humanos, universalmente reconhecidos, e a solicitar que também para com eles sejam efectivamente respeitados. Como recordava a 3 de Junho de 1986, por ocasião da entrega do Prémio Internacional da Paz João XXIII ao «Catholic Office for Emergency and Refugees» (COERR), a Encíclica Pacem in terris daquele grande Pontífice tinha já acentuado a urgência de os direitos dos refugiados lhes deverem ser reconhecidos, como pessoas que são; e afirmava que «é nosso dever garantir sempre os direitos inalienáveis, que são inerentes a todos os seres humanos e que não são condicionados por factores naturais ou por situações socio-políticas» (Ensinamentos IX, 1, 1986, p. 1751). Tratar-se-á, pois, de garantir aos refugiados o direito de constituírem uma família ou de se integrarem nela; de terem um emprego seguro, digno, com remuneração adequada; de viverem em casas dignas de seres humanos; de usufruírem de adequada instrução escolar para as crianças e a juventude, bem como da assistência medico-sanitária; em suma, de fruírem todos aqueles direitos que foram solenemente sancionados desde 1951 pela Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos refugiados, e confirmados pelo Protocolo de 1967 relativo ao mesmo Estatuto.

 

4. Sei bem que, face a um problema tão grave como este, tem sido intenso o trabalho de Organismos internacionais, de Organizações católicas e de Movimentos de índole diversa, na busca de programas sociais adequados, aos quais numerosas pessoas dão apoio e colaboração. Agradeço a todos, e a todos quero dirigir uma palavra de encorajamento a demonstrarem uma sensibilidade cada vez maior, dado que, como se pode facilmente verificar, aquilo que se faz, embora já seja muito, não é ainda suficiente. Com efeito, o número dos refugiados aumenta sem cessar e as possibilidades de acolhimento e de assistência mostram-se muitas vezes inadequadas.

 

O nosso empenhamento prioritário deve ser o de participar, animar e apoiar com o nosso testemunho de amor, correntes autênticas de caridade, que consigam, em todos os Países, permear a obra de formação sobretudo da infância e da juventude, para o respeito recíproco, para a tolerância e para o espírito de serviço, a todos os níveis, tanto a nível pessoal, como a nível de Poderes públicos. Isto facilitará sobremaneira a superação de muitos problemas.

 

5. Dirijo-me também a vós, irmãos e irmãs exilados e refugiados, que viveis unidos na fé em Deus, na mútua caridade e na esperança inquebrantável. O mundo todo conhece as vossas vicissitudes. E a Igreja quer estar-vos presente com a ajuda que os seus membros se esforçam por prestar-vos, embora sabendo que essa ajuda é insuficiente. Para suavizar os vossos sofrimentos é necessária também a contribuição da vossa boa vontade e da vossa inteligência. Vós possuís a riqueza da vossa civilização, da vossa cultura, das vossas tradições e dos vossos valores humanos e espirituais, onde podeis ir buscar a capacidade e a força para começar uma vida nova. Exercitai-vos também vós, dentro das vossas possibilidades, na assistência e na ajuda recíprocas, nos lugares onde temporariamente fostes acolhidos.

 

Nós, Católicos, acompanhar-vos-emos e vos ampararemos na vossa caminhada, reconhecendo em cada um de vós o rosto de Cristo, exilado e prófugo, e recordando quanto Ele disse: «Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mt 25, 40).

 

6. No início desta Quaresma, invoco a riqueza de graça e de luz que irradia do mistério da Paixão e Ressurreição redentora de Cristo, a fim de que cada um dos fiéis e cada uma das comunidades eclesiais e religiosas de toda a Igreja encontrem a inspiração e as energias necessárias para as obras de solidariedade concreta, em favor dos irmãos e irmãs exilados e refugiados; e a fim de que estes, confortados pela ajuda fraterna e pela atenção dos demais, reencontrem alegria e esperança para prosseguirem no seu penoso caminho.

 

Que a minha Bênção seja penhor da abundância dos dons do Senhor sobre quantos acolherem este meu premente apelo.

 

IOANNES PAULUS PP. II

 

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