05/10/2011

Evangelho do dia e comentário














T. Comum– XXVII Semana




Evangelho: Lc 11, 1-4

1 Estando Ele a fazer oração em certo lugar, quando acabou, um dos Seus discípulos disse-Lhe: «Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos». 2 Ele respondeu-lhes: «Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o Teu nome. Venha o Teu reino. 3 O pão nosso de cada dia dá-nos hoje 4 perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todos os que nos ofendem; e não nos deixes cair em tentação».
Comentário:

Ao longo dos séculos muitos têm comentado e meditado o Pai-Nosso.
E não se esgota o manancial de inspirações que esta oração nos suscita, o que não admira já que se trata de uma oração “composta” pelo próprio Jesus Cristo.


Mas, mais que ensiná-la, o Senhor recomendou-a expressamente: «Quando orardes, dizei» como se nos dissesse que bastará rezar o Pai-Nosso para dizermos tudo quanto precisamos dizer a Deus.


Na verdade só o próprio Deus poderia “compor” uma oração como esta que sintetiza absolutamente tudo quanto podemos e devemos levar à Sua presença.

(ama, comentário sobre Lc 11, 1-4, 2011.09.06)

Textos de São Josemaria Escrivá

“O trabalho é caminho de santificação”

A conversão é coisa de um instante. – A santificação é obra de toda a vida. (Caminho, 285)

O Opus Dei propõe-se promover, entre pessoas de todas as classes da sociedade, o desejo da plenitude de vida cristã no meio do mundo. Isto é, o Opus Dei pretende ajudar as pessoas que vivem no mundo – o homem vulgar, o homem da rua – a levar uma vida plenamente cristã, sem modificar o seu modo normal de vida, o seu trabalho habitual, nem os seus ideais e preocupações.

Por isto se pode dizer, como escrevi há muitos anos, que o Opus Dei é velho como o Evangelho e, como o Evangelho, novo. Trata-se de recordar aos cristãos as palavras maravilhosas que se lêem no Génesis: que Deus criou o homem para trabalhar. Pusemos os olhos no exemplo de Cristo, que passou quase toda a sua vida terrena trabalhando como artesão numa terra pequena. O trabalho não é apenas um dos mais altos valores humanos e um meio pelo qual os homens hão-de contribuir para o progresso da sociedade; é também um caminho de santificação. (...) 
O Opus Dei é uma organização internacional de leigos, a que pertencem também sacerdotes diocesanos (minoria bem exígua em comparação com o total de membros). Os seus membros são pessoas que vivem no mundo e nele exercem uma profissão ou ofício. Não entram no Opus Dei para abandonar esse trabalho, mas, pelo contrário, para encontrar uma ajuda espiritual que os leve a santificar o seu trabalho quotidiano, convertendo-o também em meio de santificação, sua e dos outros. Não mudam de estado: continuam a ser solteiros, casados, viúvos, ou sacerdotes; procuram, sim, servir Deus e os outros homens, dentro do seu próprio estado. Ao Opus Dei, não interessam votos nem promessas; o que pede aos seus sócios é que, no meio das deficiências e erros, próprios de toda a vida humana, se esforcem por praticar as virtudes humanas e cristãs, sabendo-se filhos de Deus. (Temas Actuais do Cristianismo, 24).

04/10/2011

O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA (1)


1 – Uma visão da juventude




Este trabalho será sobretudo a minha visão e vivência diária, pessoal e em Igreja, do Sacramento da Penitência.



Quando era mais novo, e mesmo na adolescência, este sacramento era conhecido sobretudo, como Sacramento da Confissão.



Se, por um lado esse nome “assustava”, pois parecia focar mais o aspecto do pecado do que da misericórdia de Deus, por outro ainda, parecia dar-nos também uma perspectiva de que, “listando”, confessando os pecados a um sacerdote, tudo ficava resolvido.
Claro que sabíamos e era-nos ensinado que o arrependimento e o propósito de emenda eram necessários, mas parecia quase, que esses “factores” eram matéria adquirida ao confessarmos os nossos pecados.
Corria-se ainda o “risco” de se constituir uma “lista de pecados”, que depois consultada, bastaria colocar um “x” naqueles que considerássemos, com prejuízo nítido para um verdadeiro exame de consciência.
(Talvez que ainda hoje, e em certos meios populares e não só, esta não seja uma visão tão ultrapassada.)



Lembro-me bem que o “ter” que se confessar, era algo que não desejávamos, porque a carga negativa de termos pecado, (termos feito coisas erradas), era bem mais forte, parecia-nos, que o fim alcançado, ou seja o perdão de Deus.
A reconciliação com Deus era um valor que não aflorava desse sacramento, e como tal, parecia-nos a nós jovens, (pelo menos a mim), que a Confissão tinha muito mais a ver com algo a que a Igreja nos ia “obrigando”, do que propriamente uma necessidade de nos reconciliarmos com Deus.



Resumindo esta parte introdutória, diria que a Confissão era para nós, jovens, muito mais um peso, uma “dor”, do que um alivio, uma “cura”.
Se o refiro aqui e agora, é pela sensação que tenho, (talvez por culpa nossa catequistas), de que os jovens de hoje, ainda, de algum modo, vêem assim este extraordinário sacramento, o que tem de forçosamente ser modificado, pois não corresponde minimamente à realidade dos efeitos extraordinários na vida de cada um, que uma boa confissão nos concede pela graça de Deus.



Havia ainda o receio, para nós jovens, de que os nossos pais viessem a saber das nossas faltas e também, da imagem que o sacerdote, (normalmente o pároco que nos conhecia), iria fazer de cada um, o que, curiosamente, passados todos estes anos, ainda encontro nalguns catequizandos adolescentes, o que significa que há ainda muito caminho para percorrer no ensino deste sacramento, mormente na enfatização do segredo inviolável da Confissão, e para além deste, no facto de que nenhum sacerdote pretende fazer juízos de valor sobre aqueles que a ele se confessam.



Costumo dizer aos meus catequizandos que Deus concede aos sacerdotes um “dom de esquecimento” dos pecados confessados, sobretudo na ligação e atribuição destes àqueles que se confessaram, de um modo geral, claro está.



Hoje a Igreja, (e os fiéis mais lentamente), chama a este sacramento, Sacramento da Penitência e por vezes também, Sacramento da Reconciliação.



Um e outro nome me parecem redutores da dimensão extraordinária deste sacramento, porque se a penitência poderá ter uma conotação de “expiação”, quase “castigo”, a reconciliação apenas refere uma parte, importante sem dúvida, deste sacramento, mas não o seu todo, toda a sua dimensão, que abarca libertação e cura, como veremos adiante.



De qualquer modo, Sacramento da Penitência, talvez seja o nome mais correcto, porque como nos diz o Catecismo, penitência indica conversão, mudança de vida, começar de novo, pois a chamada à penitência está intimamente ligada, ao «arrependei-vos, convertei-vos, acreditai no Evangelho», que é a pregação que percorre todos os Evangelhos e Escritos do Novo Testamento.

JMA

Nota:
Publicação de excertos de um pequeno trabalho sobre o Sacramento da Penitência, que fiz para a disciplina de Sacramentologia, do Curso Geral de Teologia, que concluí no Seminário Diocesano de Leiria.


Miles Davis


Navegando pela minha cidade
Faz hoje[1] vinte anos que morreu Miles Davis, um dos maiores músicos de Jazz 
de sempre. E porque só muito tardiamente me apaixonei pelo Jazz precisamente por causa da música dele, estou de luto como se ele tivesse morrido hoje, porque há vinte anos não o conhecia.

Dizem os psiquiatras que é muito importante “viver-se o luto” ou “fazer luto”, caso contrário, a dor fica atravessada no coração e é muito difícil depois engolir as coisas da vida. E a vida acaba por nos matar antes de morrermos.

Na Estrada da Circunvalação, no fim de uma curva de quem nela entra vindo do nó onde se inicia a Via Norte houve há anos um acidente em que morreu uma pessoa. Não sei quem foi, mas suponho que tenha sido um jovem ou uma jovem.
No exacto local onde se deu o acidente que deixou marcas durante muito tempo no separador metálico, alguém continua a pôr flores em frascos com água, até hoje.

As flores vão murchando e vão sendo substituídas por outras. E elas são como que um memorial; uma evocação; um ramo de desespero de quem não admite que ele seja quebrado porque se o for é que o seu filho (ou a sua filha) morre mesmo.
E assim ainda não morre, porque vive na dor absoluta como brasas permanentemente atiçadas pelo vento do tempo que se quer parado. Porque não o fazer seria uma traição ou mesmo um homicídio.
E as palavras que não se disseram enquanto havia tempo para as dizer vão lentamente ficando cheias de feridas e úlceras putrefactas acabando por infectar todas as outras que ainda têm de ser ditas.

Conheci um homem que andava sempre vestido de preto e que um dia me disse num arranco aos solavancos: … estava em casa a limpar a pistola… e ela disparou-se … e matei a minha filha … tinha cinco anos!
Este acidente tinha sido há mais de vinte anos. Era impossível ele desculpar-se e isso obrigava-o a vestir-se sempre de preto para que nunca se esquecesse ou se perdoasse.

Estas duas situações são exemplares do que é não se “fazer luto” ou não se “viver o luto”. E não o fazer é não aceitar a realidade porque ela é insuportável.
Se ao Homem não lhe tivesse sido dado o dom do choro e das lágrimas, não seria um ser humano. Porque é através desses dons que ele se purifica no altar da dor e da angústia existencial. Porque a tristeza é aliada do inimigo.
E também quanta dor pode existir por trás de uma gargalhada!

Pois é, eu hoje estou de luto pelo Miles Davis que morreu há vinte anos. Porque o luto faz-se, não se cultiva. Não se deve cultivar.
Era um homem tão apaixonado pela música que disse: “Tenho calafrios, uma mancha no pulmão, duas hérnias por causa do esforço físico e um nervo comprimido nas costas. A minha mão formiga quando fumo. Tenho muitos problemas, inclusive diabetes, mas se pudesse estar em palco o ano todo não pararia de tocar”[2].

E agora – em sua memória - vou ouvir Bye Bye Blackbird do Miles Davis Quintet with Jonh Coltrane.

Afonso Cabral


[1] 28 de Setembro de 2011
[2] In Artigo de Vítor Belanciano – Jornal Público de 28.09.2011

Música e oração


    IL DIVO - Amazing Grace 


selecção JMA 

A nossa coroação 4

Para lá do Túnel
Ninguém tem, desde logo, a salvação assegurada a 100%, salvo no caso de uma revelação privada do Senhor, e se estritamente nos reportarmos às palavras de São Pedro na sua primeira epístola, o tema torna-se muito inquietante, por ser muito pouco consoladoras as suas palavras quando escreve: “E se o justo se salva a duras penas, que será do ímpio e do pecador?”. (1Pe 4,18). E sem todavia São Paulo mais em linha com o que antes escrevemos, diz-nos: “Não têm que temer ser condenados os que estão unidos a Cristo e não vivem segundo os desejos da carne” (Rm 8,1). E noutra epístola a os Gálatas, São Paulo diz-nos: “O que alguém semeie isso colherá. O que semeia para a carne, dela colherá corrupção; o que semeia para o espírito, do Espírito colherá vida eterna” (Ga 6,7b-8). Por outras palavras, existe o aforismo, que diz: Tal como se vive assim se morre.

Juan del Carmelo, trad ama

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
Se esta Igreja na qual estamos é a que Cristo fundou, ou para usar uma expressão do Vaticano II /LG8), «a Igreja que Cristo fundou subsiste na Igreja Católica», esta tem que apresentar umas credenciais ou sinais que a tornem identificável e reconhecível como a Igreja que Cristo fundou.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

Em Deus há acidentes?

Tratado De Deo Uno


Questão 3: Da simplicidade de Deus

 

Art. 6 — Se em Deus há acidentes.

(I Sent., dist. 8, q. 4, a. 3; Cont. Gent. I, 23; De Pot., q. 7, a. 4; Compend. Theol., c. 23.)

O sexto discute-se assim. Parece que em Deus há acidentes.

1. — Pois, a substância em nenhum ser é acidente [i]. Ora, o que num é acidente não pode ser substância em outro. Assim, prova-se que o calor, sendo acidente em outros seres, não pode ser a forma substancial do fogo. Ora, a sabedoria, a virtude e qualidades semelhantes, que são acidentes em nós, atribuem-se a Deus. Logo, há nele acidentes.

2. Demais. — Em cada género há um primeiro termo. Ora, muitos são os géneros de acidentes. Se, portanto, os termos primeiros desses géneros não existem em Deus, haverá muitos seres primeiros além de Deus, o que é inadmissível.

Mas, em contrário, todo acidente existe num sujeito. Ora, Deus não pode ser sujeito, porque não pode sê-lo a forma simples, como diz Boécio [ii]. Logo, não há nele acidentes.

SOLUÇÃO. — Do que dissemos, claramente resulta que, em Deus, não pode haver acidentes. — Primeiro, porque o sujeito está para o acidente como a potência para o ato; pois, em relação ao acidente, o sujeito é, de certo modo, actual. Ora, em Deus não há absolutamente nada de potencial, conforme se conclui do que já dissemos [iii].

Segundo, porque Deus é o seu ser. Ora, como diz Boécio, embora o que existe seja susceptível de acréscimo, contudo, o ser em si de nenhum modo o é [iv]. Assim, um corpo cálido pode ter algo de estranho à calidez, como a brancura; mas, no calor mesmo, nada mais há além dele próprio.

Terceiro, porque tudo o que existe por si mesmo é anterior ao que tem existência acidental. Donde, sendo Deus o ser absolutamente primeiro, nada pode ter de acidental; nem mesmo os acidentes próprios, — como o de risível, no homem — podem nele existir. Porque todos os acidentes são causados pelos princípios do sujeito, e, em Deus, causa primeira, nada pode ser causado. Donde se conclui, que em Deus, não há nenhum acidente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A virtude e a sabedoria não se atribuem univocamente a Deus e a nós, como a seguir se dirá [v]. — Donde se não segue que os acidentes existam em Deus como em nós.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Sendo a substância anterior aos acidentes, os princípios destes se reduzem aos daquela, como ao que lhes é anterior. Mas, para que todos os seres dependam de Deus, não é necessário que ele seja o primeiro no género da substância, senão, o primeiro, fora de todo género, relativamente ao ser total.


[i] I Physic., c. 3
[ii] De Trin., c. 2
[iii] Art. 1
[iv] de Hebdomad.
[v] Q. 13, a. 5