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30/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 72



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Jesus entre os doutores


A VOZ DOS SANTOS

«Cristo é uma criança. Que dor a de sua Mãe e a de S. José, porque - no regresso de Jerusalém - não vinha entre os parentes e amigos! E que alegria a sua, quando o vêem, já de longe, doutrinando os mestres de Israel! Mas reparai nas palavras, aparentemente duras, que saem da boca do Filho, ao responder a sua Mãe: por que me buscáveis?

Não era razoável que o procurassem? As almas que sabem o que é perder Cristo e encontrá-lo podem compreender isto... Por que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? Não sabíeis, porventura, que eu devo dedicar totalmente o meu tempo ao meu Pai celestial?

Este é o fruto da oração de hoje: que nos persuadamos de que o nosso caminhar na terra - em todas as circunstâncias e em todos os momentos - é para Deus; que é um tesouro de glória, uma imagem do Céu; que é, nas nossas mãos, uma maravilha que temos de administrar, com sentido de responsabilidade perante os homens e perante Deus, sem necessidade de mudar de estado, no meio da rua, santificando a nossa profissão ou o nosso ofício, a vida de família, as relações sociais e todas as actividades que parecem à primeira vista só terrenas (...).

Recorre comigo à Mãe de Cristo. Mãe Nossa, que viste crescer Jesus, que o viste aproveitar a sua passagem entre os homens: ensina-me a utilizar os meus dias em serviço à Igreja e às almas. Mãe bondosa, ensina-me a ouvir, no mais íntimo do meu coração, como uma censura carinhosa, sempre que for necessário, que o meu tempo não me pertence, porque é do Nosso Pai que está nos Céus».

são josemaría escrivá de balaguer (século XX). Amigos de Deus, nn. 53-54

29/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 71



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Jesus entre os doutores


A VOZ DOS SANTOS

«Fixemo-nos nas angústias e pesares que deve ter experimentado esta aflita Mãe durante os três dias que passou a procurar por todos os lados o seu adorado Filho. Por ventura vistes — exclamaria com a Esposa dos Cantares — O amado da minha alma? [i]. Mas ninguém lhe sabia responder. Cansada e fatigada, Maria, sem poder achar o íman do seu coração, podia dizer com mais ternura do que Ruben ao não encontrar o irmão José: o menino já lá não está e eu para onde irei? [ii]. O meu Jesus não aparece em nenhum lado; não sei que mais devo fazer para o encontrar; mas, para onde irei privada do meu tesouro? Durante aqueles três dias viveu banhada em pranto e podia muito bem repetir aquelas palavras de David: as lágrimas são o meu pão noite e dia, e durante todo o tempo me perguntam: onde está o teu Deus? [iii].
Era tão grande a aflição de Maria, que passou aquelas três noites sem dormir, rogando com abrasadas lágrimas ao Eterno Pai que lhe devolvesse o seu Filho. E com frequência, como observa São Bernardo, dirigia-se ao seu querido Jesus repetindo aquelas palavras da Esposa do Cantares: mostra-me onde apascentas, onde fazes a sesta ao meio-dia [iv]. Meu Filho diz-me onde estás, a fim de que não Te vá procurar em vão e à aventura».

santo afonso maria de ligório (século XVIII). As glórias de Maria.




[i] Ct 3, 3
[ii] Gn 37, 30
[iii] Sal 41, 4
[iv] Ct 1, 6

28/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 70



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Jesus entre os doutores


A VOZ DOS PADRES

«Não se deve passar por alto a modéstia santa da Virgem Maria. Tinha dado à luz a Cristo; um anjo tinha-se aproximado d’Ela e tinha-lhe comunicado: eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Será grande e será chamado Filho do Altíssimo [i]. Embora tivesse merecido dar à luz o Filho do Altíssimo, era muito humilde; nem sequer se antepôs ao marido no modo de falar. Não diz: "eu e teu pai", mas: o teu pai e eu. Não teve em conta a dignidade do seu seio, mas a hierarquia conjugal.

A resposta do Senhor Jesus Cristo: convinha que Eu me ocupasse das coisas do Meu Pai [ii], não indica que a paternidade de Deus exclua a de José. Como o provamos? Pelo testemunho da Escritura, que afirma textualmente: Ele disse-lhes: "Porque me procuráveis? Não sabíeis que é necessário que Eu esteja nas coisas do Meu Pai?" Mas eles não compreenderam o que lhes disse. E foi com eles, e veio para Nazaré, e era-lhes submisso [iii]. Não disse: "Era submisso à Sua Mãe", ou: "Era-lhe submisso", mas: era-lhes submisso. A quem? Não era aos pais? Um e outro eram pais, a quem Ele era submisso, do mesmo modo que se tinha dignado ser Filho do homem. Mas eles eram pais no tempo e Deus era-o desde a eternidade. Eles eram pais do Filho do homem, o Pai o era do Seu Verbo e Sabedoria, era Pai do Seu Poder, por quem fez todas as coisas».

santo agostinho (séculos IV-V). Sermão 51, 18-20.




[i] Lc 1, 31-32
[ii] Lc 2, 49
[iii] Lc 2, 49-51

27/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 69



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Jesus entre os doutores


A VOZ DOS PADRES

«Feitos os doze anos, detém-Se em Jerusalém. Os Seus pais, não sabendo onde estava, procuram-n’O com inquietação e não o encontram. Procuram-n’O entre os parentes, entre os companheiros de viagem, entre os conhecidos; mas não o encontram com nenhuma destas pessoas. Jesus é procurado pelos seus pais, pelo pai adoptivo que o tinha acompanhado e velado por Ele no Egipto; e, no entanto, apesar de tanta procura, não o encontram logo.
Jesus, com efeito, não se encontra entre os parentes e amigos segundo a carne, não está entre os que se unem a Ele corporalmente. O meu Jesus não pode ser encontrado na multidão.

Aprende onde o encontram os que O procuram, de maneira que também tu — procurando junto de José e Maria — o possas encontrar. Ao procurá-l’O, diz o evangelista, acharam-n’O no templo [i]. Não O encontraram num lugar qualquer, mas no templo; e nem sequer simplesmente no templo, mas no meio dos doutores, que escutava e interrogava [ii]. Procura também tu Jesus no templo de Deus, procura-O na Igreja, procura-O nos mestres que estão dentro do templo e não saem de lá. Se O procurares assim, encontrá-l’O-ás.

Por outro lado, se alguém afirma que é mestre e não possui a Jesus, esse é mestre só de nome; e Jesus, Verbo e Sabedoria de Deus, não se deixa encontrar junto dele. Encontram-n’O enquanto está sentado no meio dos doutores; e não só está sentado, mas interroga-os e escuta-os. Também agora Jesus se encontra aqui connosco, questiona-nos e nos escuta-nos. E todos os que O ouviam estavam maravilhados [iii]. Porquê? Não era certamente pelas Suas perguntas, embora fossem extraordinárias, mas pelas Suas respostas. Interrogava os doutores e como eles não conseguiam responder a algumas das Suas perguntas, Ele próprio respondia. Mas a Suas respostas não se baseavam na habilidade da discussão, mas na sabedoria da Sagrada Escritura. Também tu, portanto, deixa-te instruir pela Lei divina»

orígenes (século III). Homilias sobre o Evangelho de São Lucas 18, 2-4.




[i] Lc 2, 46
[ii] Ibid.
[iii] Lc 2, 47

26/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 68



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Jesus entre os doutores



A VOZ DO MAGISTÉRIO

«Através deste episódio, Jesus prepara a Sua mãe para o mistério da Redenção. Maria, juntamente com José, vive nesses três dramáticos dias em que o Filho Se separa deles, para permanecer no Templo, a antecipação do tríduo da Sua paixão, morte e ressurreição.

Deixando partir a Sua Mãe e José para a Galileia, sem lhes indicar a intenção de permanecer em Jerusalém, Jesus introdu-los no mistério daquele sofrimento que leva à alegria, antecipando quanto haveria de realizar depois com os discípulos, mediante o anúncio da Sua Páscoa.

A resposta de Jesus em forma interrogativa é densa de significado: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de Meu Pai?» [i]. Com essa expressão Ele, de modo inesperado e imprevisto, revela a Maria e José o mistério da Sua Pessoa, convidando-os a ultrapassar as aparências e abrindo-lhes perspectivas novas quanto ao Seu futuro.

Esta referência à total dedicação ao projecto de Deus é evidenciada no texto evangélico, pela expressão verbal «é necessário», que aparecerá, depois, no anúncio da Paixão [ii]. Aos Seus pais, pois, é pedido que O deixem ir, a fim de cumprir a Sua missão lá onde O conduz a vontade do Pai celeste.

O Evangelista comenta: «Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse» [iii]. Maria e José não percebem o conteúdo da Sua resposta, nem o modo, que parece ser uma rejeição, com que Ele reage à preocupação deles como pais. Com esta atitude Jesus quer revelar os aspectos misteriosos da Sua intimidade com o Pai, aspectos que Maria intui sem, porém, os saber ligar com a prova que estava a atravessar.

As palavras de Lucas permitem-nos conhecer como Maria vive no mais profundo do seu ser este episódio deveras singular. Ela «guardava todas estas coisas no seu coração» [iv]. A Mãe de Jesus liga os eventos ao mistério do Filho, que lhe foi revelado na Anunciação e aprofunda-os no silêncio da contemplação, oferecendo a sua colaboração no espírito de um renovado «fiat».

Inicia assim o primeiro elo duma cadeia de eventos, que levará Maria a superar progressivamente o papel natural, que deriva da sua maternidade, para se pôr ao serviço da missão do seu divino Filho.

são joão paulo ii (século XX). Discurso na audiência geral, 15-I-1997.




[i] Lc 2, 49
[ii] cf. Mc 8, 31
[iii] Lc 2, 50
[iv] Lc 2, 51

25/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 67



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Regresso a Nazaré



A VOZ DOS POETAS


O infinito Menino vai crescendo,

e com garbo e graça sobrehumana

dá passinhos pela mão asiendo

à que pisa a imortal Diana;

dela para o justo José parte correndo,

e dos braços com que o universo aplana

asas fazendo, voa para o doce ninho

do terno coração do seu querido...

Pendendo alegre do amado colo,

e achando-Se seguro entre seus braços,

o rosto grave junta ao Seu belo,

premiando seus dulcíssimos abraços:

Talvez deixe os braços de Sua mãe,

e cheio de amoroso regozijo

por ver que tal favor a José agrade,

balbuciando com ele, pai! lhe disse.

Ele com afecto e com amor de pai

filho! lhe chama, sendo de Deus Filho;

encosta o seu rosto ao de escarlate e neve,

e das suas rosas o alento bebe.

Já o Menino Deus os alvos peitos deixa

ricos do seu alimento soberano,

e nos pés de ouro já com maior força,

e anda sem que ninguém Lhe dê a mão;

chora se vê que seu José se afasta,

e vendo-o voltar se alegra ufano;

ásele e diz cheio de alegria:

"Pai, dê-nos o pão de cada dia"...


José de Valdivielso (siglos XVI-XVII). Vida, excelencias y muerte del glorioso Patriarca y Esposo de Nuestra Señora San José, canto XIX.

24/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 66



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Regresso a Nazaré



A VOZ DOS SANTOS

«S. Mateus, ao narrar estas cenas no seu Evangelho, põe constantemente em destaque a fidelidade de José, que cumpre sem vacilações os mandatos de Deus, embora por vezes o sentido desses mandatos lhe possa parecer obscuro ou se lhe oculte a sua conexão com o resto dos planos divinos.

A fé de José não vacila, a sua obediência é sempre estrita e rápida. Para compreender melhor esta lição que aqui nos dá o Santo Patriarca, é bom que consideremos que a sua fé é activa e que a sua obediência não se parece com a obediência de quem se deixa arrastar pelos acontecimentos. Porque a fé cristã é o que há de mais oposto ao conformismo ou à falta de actividade e de energia interiores.

José abandonou-se sem reservas nas mãos de Deus, mas nunca deixou de reflectir sobre os acontecimentos, e assim recebeu do Senhor a inteligência das obras de Deus, que é a verdadeira sabedoria.

Deste modo, aprendeu a pouco e pouco que os planos sobrenaturais têm uma coerência divina, que às vezes está em contradição com os planos humanos.

Nas diversas circunstâncias da sua vida, o Patriarca não renuncia a pensar, nem se alheia da sua responsabilidade. Pelo contrário: põe toda a sua experiência humana ao serviço da fé. Quando volta do Egipto, ouvindo que Arquelau reinava na Judeia em vez de seu pai Herodes, temeu ir para lá. Aprendeu a mover-se dentro dos planos divinos e, como confirmação de que Deus quer o que ele pressentia, recebe a indicação de se retirar para a Galileia.

Assim foi a fé de S. José: plena, confiante, íntegra, manifestando-se numa entrega real à vontade de Deus, numa obediência inteligente. E, com a Fé, a Caridade, o Amor. A sua fé funde-se com o amor: com o amor de Deus que estava a cumprir as promessas feitas a Abraão, a Jacob, a Moisés; com o carinho de esposo para com Maria e com o carinho de pai para com Jesus. Fé e amor na esperança da grande missão que Deus, servindo-se também dele – um carpinteiro da Galileia – estava a começar no mundo: a redenção dos homens.»


São Josemaria (século XX). Cristo que passa, n. 42.

23/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 65



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Regresso a Nazaré



A VOZ DOS PADRES

«O Menino Jesus, que hoje nasceu para nós, cresce em sabedoria, idade e graça naqueles que O acolhem, mas em diversa medida. Não é idêntico em todos, mas adapta-Se à disponibilidade e à capacidade de cada um e, na medida em que é acolhido, mostra-Se como criança, como adolescente ou como adulto. É como um ramo na videira: não aparece sempre do mesmo modo, mas muda com o decorrer das estações; germina, floresce, converte-se em fruto, chega a fazer-se vinho.

A videira encerra já a promessa no fruto ainda não pronto para o vinho, mas aguarda a estação propícia. No entanto, não se pode dizer que o ramo esteja desprovido de atractivo. Em lugar de deleitar o gosto, deleita o olfacto; e na espera da vindima, fortalece o coração com a esperança. A fé firme e segura da graça que se espera é já gozo para quem aguarda com paciência. Assim sucede com a uva de Chipre: promete o vinho embora ainda não o seja. E com a sua flor (a flor é a esperança) dá garantias da graça futura. Quem adere plenamente mediante a sua vontade à lei do Senhor, e medita nela de dia e de noite, cresce como uma árvore frondosa regada por veias de água viva e produz fruto a seu tempo».


São Gregório de Nisa (século IV). Homilia II sobre o Cântico dos Cânticos (PG 44, 802-804).

22/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 64



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Regresso a Nazaré



A VOZ DOS PADRES

«Convém meditar nas palavras que se seguem. Diz: "Crescia em sabedoria e graça" [i]. Crescer em sabedoria e graça não pertence à natureza divina: desde o princípio tinha tudo e nada lhe faltava. Mas também não há que pensar que, segundo a natureza humana, (Jesus) se fortaleceu mais ou foi mais cheio daquele Espírito Santo que habitava n’Ele, pois desde o primeiro momento teve o supremo grau de inabitação da graça. Com efeito, mediante a união das duas naturezas, imediatamente "n’Ele habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade" [ii], como afirma o santo Apóstolo Paulo.

Assim, as palavras: "Crescia em sabedoria e graça" [iii], ensinam que desde o primeiro momento da inabitação da humanidade na divindade, a plenitude de graça e de sabedoria se manifestava e resplandecia cada vez mais, de acordo com o desenvolvimento e o crescimento corporal; não recebia uma nova graça ou uma sabedoria superabundante, mas a plenitude de graça e de sabedoria manifestava-se por meio das Suas gloriosas acções (...). No entanto, não convinha que a Sua sabedoria se manifestasse fora da idade. E como, segundo a ordem da natureza, se requer esperar pelos doze anos para atingir a plenitude da razão, assim considerou Ele coisa boa atingi-la ao chegar aos doze anos».

São Máximo o Confessor (século VII). Vida de Maria, n. 60.




[i] Lc 2, 40
[ii] Col 2, 9
[iii] Lc 2, 40

21/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria -63



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Regresso a Nazaré



A VOZ DO MAGISTÉRIO

«Nazaré é a escola onde começa a entender-se a vida de Jesus, é a escola onde se inicia o conhecimento do Seu Evangelho. Aqui aprendemos a observar, a escutar, a meditar, a penetrar no sentido profundo e misterioso desta simples, humilde e encantadora manifestação do Filho de Deus entre os homens. Aqui se aprende inclusivamente, talvez de uma maneira quase insensível, a imitar essa vida.

Aqui revela-se-nos o método que nos fará descobrir quem é Cristo. Aqui compreendemos a importância que tem o ambiente que rodeou a Sua vida durante a Sua estadia entre nós, e quão necessário é o conhecimento dos lugares, dos tempos, dos costumes, da linguagem, das práticas religiosas, numa palavra, de tudo aquilo de que Jesus se serviu para Se revelar ao mundo. Aqui tudo fala, tudo tem um sentido.

Aqui, nesta escola, compreendemos a necessidade de uma disciplina espiritual se queremos seguir os ensinamentos do Evangelho e ser discípulos de Cristo. Como gostaríamos de ser outra vez crianças e voltar a esta humilde mas sublime escola de Nazaré! Como gostaríamos de voltar a começar, junto de Maria, a nossa iniciação na verdadeira ciência da vida e na mais elevada sabedoria da verdade divina! (...).

A Sua primeira lição é o silêncio. Como desejaríamos que se renovasse e fortalecesse em nós o amor ao silêncio, esse admirável e indispensável hábito do espírito, tão necessário para nós, que estamos atordoados por tanto ruído, tanto tumulto, tantas vozes da nossa ruidosa e extremamente agitada vida moderna. Silêncio de Nazaré, ensina-nos o recolhimento e a interioridade, ensina-nos a estar sempre dispostos a escutar as boas inspirações e a doutrina dos verdadeiros mestres. Ensina-nos a necessidade e o valor de uma conveniente formação, do estudo, da meditação, de uma vida interior intensa, da oração pessoal que só Deus vê.

Oferece-se-nos, além disso, uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o significado da família, a sua comunhão de amor, a sua simples e austera beleza, o seu carácter sagrado e inviolável, o doce e insubstituível que é a sua pedagogia e o fundamental e incomparável que é a sua função no plano social.

Finalmente, aqui aprendemos também a lição do trabalho. Nazaré, a casa do filho do artesão: como desejamos compreender mais neste lugar a austera mas redentora lei do trabalho humano e exaltá-la devidamente, restabelecer a consciência da sua dignidade, de maneira que fosse patente para todos; recordar aqui, sob este tecto, que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo e que a sua dignidade e a liberdade para o exercer não provêm tão só dos seus motivos económicos, mas também daqueles outros valores que o encaminham para um fim mais nobre».


Paulo VI (século XX). Alocução em Nazaré, 5-I-1964

20/08/2017

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 62



Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Regresso a Nazaré




A VOZ DO MAGISTÉRIO

Depois da morte de Herodes, quando se dá o retorno da sagrada família a Nazaré, inicia-se o longo período da vida oculta. Aquela que "acreditou no cumprimento das coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor" [i] vive no dia-a-dia o conteúdo dessas palavras. O Filho a quem deu o nome de Jesus está diariamente ao seu lado; assim, no contacto com Ele, usa certamente este nome, o que não devia, aliás, causar estranheza a ninguém, tratando-se de um nome que era usual, desde havia muito tempo, em Israel. Maria sabe, no entanto, que aquele a quem foi posto o nome de Jesus, foi chamado pelo Anjo "Filho do Altíssimo" [ii]. Maria sabe que o concebeu e deu à luz "sem ter conhecido homem", por obra do Espírito Santo, com o poder do Altíssimo que sobre ela estendeu a sua sombra [iii], tal como nos tempos de Moisés e dos antepassados a nuvem velava a presença de Deus [iv]. Maria sabe, portanto, que o Filho, por ela dado à luz virginalmente, é precisamente aquele "Santo", "o Filho de Deus" de que lhe havia falado o Anjo.

Durante os anos da vida oculta de Jesus na casa de Nazaré, também a vida de Maria "está escondida com Cristo em Deus" [v] mediante a fé. A fé é, efectivamente, um contacto com o mistério de Deus. Maria está constante e quotidianamente em contacto com o mistério inefável de Deus que se fez homem, mistério que supera tudo aquilo que foi revelado na Antiga Aliança. Desde o momento da Anunciação, a mente da Virgem-Mãe foi introduzida na "novidade" radical de auto-revelação de Deus e tomou consciência do mistério. Ela é a primeira daqueles "pequeninos" dos quais um dia Jesus dirá: "Pai, ... escondeste estas coisas aos sábios e aos sagazes e as revelaste aos pequeninos" [vi]. Na verdade, "ninguém conhece o Filho senão o Pai" [vii].

Como poderá então Maria "conhecer o Filho"? Certamente, não como o Pai o conhece; e no entanto, ela é a primeira entre aqueles aos quais o Pai "o quis revelar" [viii]. Se, porém, desde o momento da Anunciação lhe foi revelado o Filho, que apenas o Pai conhece completamente, como Aquele que o gera no "hoje" eterno [ix], então Maria, a Mãe, está em contacto com a verdade do seu Filho somente na fé e mediante a fé! Portanto, é feliz porque "acreditou"; e acredita cada dia, no meio de todas as provações e contrariedades do período da infância de Jesus e, depois, durante os anos da sua vida oculta em Nazaré, quando ele "lhes era submisso" [x]: submisso a Maria e também a José, porque José, diante dos homens, fazia para ele as vezes de pai; e era por isso que o Filho de Maria era tido pela gente do lugar como "o filho do carpinteiro" [xi].

A Mãe daquele Filho, por conseguinte, lembrando tudo quanto lhe tinha sido dito na Anunciação e nos acontecimentos sucessivos, é portadora em si mesma da "novidade" radical da fé: o início da Nova Aliança. Este é o início do Evangelho, isto é, da boa nova e jubilosa nova. Não é difícil, porém, perceber naquele início um particular aperto do coração, unido a uma espécie de "noite da fé" - para usar as palavras de São João da Cruz - como que um "véu" através do qual é forçoso aproximar-se do Invisível e viver na intimidade com o mistério [xii]. Foi deste modo, efectivamente, que Maria, durante muitos anos, permaneceu na intimidade com o mistério do seu Filho, e avançou no seu itinerário de fé, à medida em que Jesus "crescia em sabedoria ... e graça, diante de Deus e dos homens" [xiii]. Manifestava-se cada vez mais aos olhos dos homens a predilecção que Deus tinha por ele. A primeira entre estas criaturas humanas admitidas à descoberta de Cristo foi Maria que, com Ele e com José, vivia na mesma casa em Nazaré.

João Paulo II (século XX). Carta encíclica Redemptoris Mater, 25-III-1987, n. 17.




[i] Lc 1, 45
[ii] cf. Lc 1, 32
[iii] cf. Lc 1, 35
[iv] cf. Ex 24, 16; 40, 34-35; 1 Rs 8, 10-12
[v] cf. Col 3, 3
[vi] Mt 11, 25
[vii] Mt 11, 27
[viii] cf. Mt 11, 26-27; 1 Cor 2, 11
[ix] cf. Sl 2, 7
[x] Lc 2, 51
[xi] Mt 13, 55
[xii] cfr. Subida do Monte Carmelo, II, cap. 3, 4-6
[xiii] Lc 2, 52