Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
21/06/2014
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.
A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.
Lembrar-me:
Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.
Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Temas para meditar 152
O remédio simples e sempre acessível para assegurar uma alegria sobrenatural constante, consiste no esquecimento de si mesmo, por um motivo de caridade. Devemos impor-nos o direito de pensar em nós, quando à nossa volta há tantas necessidades, tantas coisas para fazer em benefício do próximo.
(P. antónio cardigos, Filiação divina, Rei dos livros nr. 105)
Tratado da lei 30
Art.
2 — Se a lei humana há de sempre ser mudada quando aparecerem melhores
instituições.
(II
Polit., lect. XII).
O segundo discute-se assim. — Parece
que a lei humana há de sempre ser mudada quando aparecerem melhores
instituições.
1. — Pois, as leis humanas são
fundadas na razão humana, assim como também as demais artes. Ora, nestas,
muda-se o que estava estabelecido, se aparecer algo de melhor. Logo, o mesmo se
deve fazer com as leis humanas.
2. Demais. — Pelo passado podemos
prever o futuro. Ora, se as leis humanas não mudassem com a superveniência de
melhores instituições, daí resultariam muitos inconvenientes, porque segundo
parece, as leis antigas eram muito rudes. Logo, as leis hão-de mudar-se, sempre
que for possível fazer melhores instituições.
3. Demais. — As leis humanas são
feitas para governar actos particulares dos homens. Ora, na ordem dos actos
particulares, não podemos alcançar conhecimento perfeito senão pela experiência,
que exige tempo, como diz Aristóteles. Logo, parece que, no decurso do tempo,
pode ser que ocorra algo de melhor a ser estatuído.
Mas, em contrário, dizem as Decretais:
É ridículo e desonra bastante abominável sofrer a destruição das tradições que
recebemos, desde a antiguidade, dos nossos antepassados.
Como já dissemos (a. 1), a
lei humana pode ser rectamente mudada, na medida em que essa mudança responda a
uma utilidade pública. Mas a mudança, em si mesma, da lei, acarreta um certo
detrimento para o bem da comunidade. Porque para a observância da lei contribui
muito o costume; a ponto de o que se faz contra o costume geral, embora em si
mesmo leve, ser, na verdade, grave. Donde, mudada, a lei perde da sua força
obrigatória, na medida em que se destrói o costume. Portanto, nunca deve ser
mudada a lei humana, a menos que, por outro lado, haja compensação, para o bem
comum, correlativa à parte de rogada da lei. E isto dá-se: ou porque, da nova
disposição legal, provém alguma utilidade máxima e evidentíssima; ou porque
havia máxima necessidade de mudança; ou porque a lei costumeira continha
manifesta iniquidade ou a sua observância era nociva para muitos. Por isso, o jurisconsulto diz: No constituir uma nova ordem de coisas deve ser evidente a utilidade
para nos afastarmos da lei tida diuturnamente como justa.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— O que pertence à arte tem uma eficácia fundada só na razão; e portanto,
sempre que ocorrer qualquer melhora, deve-se mudar o que antes estava estabelecido.
Ora, as leis tiram do costume a sua máxima virtude, como diz o Filósofo. Daí o
não deverem ser facilmente mudadas.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A objecção
conclui, que as leis se devem mudar; não porém para darem lugar a qualquer
melhoria; mas por causa de alguma grande utilidade ou necessidade, como já se
disse.
E semelhantemente se deve RESPONDER À
TERCEIRA OBJECÇÃO.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 2)
Tempo comum XI Semana
Evangelho: Mt 6, 24-34
24 «Ninguém
pode servir a dois senhores: porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de
afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. 25
«Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que
haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir.
Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? 26
Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos
celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós
muito mais do que elas? 27 Qual de vós, por mais que se afadigue,
pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? 28 «E porque
vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não
trabalham nem fiam. 29 Digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a
sua glória, se vestiu como um deles. 30 Se, pois, Deus veste assim
uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a
vós, homens de pouca fé? 31 Não vos aflijais, pois, dizendo: Que
comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32 Os gentios é
que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que
tendes necessidade delas. 33 Buscai, pois, em primeiro lugar, o
reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por
acréscimo. 34 Não vos preocupeis, pois, pelo dia de amanhã; o dia de
amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia bastam os seus trabalhos.
Comentário:
O que
verdadeiramente está em causa á a confiança em Deus.
Não tem que ver com
a passividade como se se deva esperar que o Senhor movido pela Sua misericórdia
provesse tudo quanto possamos necessitar.
Não!
O Senhor nunca o
fará!
Ele só completará o
que, resultado do nosso esforço empenhado e coerente, nos faltar para viver
como Ele quer que vivamos.
A PAZ NA FAMÍLIA
…/2
A pessoa orgulhosa tem
muito aguçado o espírito crítico. Não por rigor filosófico ou científico, mas
por “superioridade” arrogante. O orgulho só lhe deixa ver o lado ruim dos outros,
que ele contempla de cima para baixo, com ar de desaprovação, com um desprezo prévio,
preconceituoso, que é parecido com o do fariseu da parábola de Cristo: Eu não
sou como os outros homens [...], nem como este publicano (Lc 18, 11).
Como pode haver paz e
harmonia num lar onde o pai, ou a mãe, ou o filho adolescente, ou a filha
universitária..., passam a vida criticando, reclamando, resmungando e “botando
defeito” em todas as coisas dos outros?
Para o irmão, o que a irmã
disse é estúpido, e assim o proclama em voz alta; para o pai, os ideais e
sonhos do filho são tolices, que lhe lavam o cérebro e o afastam da única coisa
que interessa: ganhar dinheiro; a comida – responsabilidade direta da mulher –
sempre está ruim: ou é salgada demais, ou é insossa, ou é uma fábrica de
colesterol, ou parece ração de granja. Uns e outros só vêm que os demais falam
alto, ou chegam tarde, ou não respondem, ou olham torto, ou não ligam nem um
pouco para o que se lhes diz, ou têm amizades intratáveis, ou escolhem os
piores momentos para fazer as coisas... Em resumo: críticas, críticas e mais
críticas. Como se o “criticão” tivesse um sensor que só fosse capaz de captar o
negativo.
Só a título ilustrativo,
vou contar uma pequena e divertida história da vida real. Um casal de velhos.
Ele, arrastando a perna, vai fazer as compras para a geladeira e a despensa (não
no supermercado, mas na quitanda, como corresponde a um homem de outros tempos).
Ela, boa pessoa, tem, no entanto, o vício de criticar. Volta ele da quitanda
com o carro cheio: lá tem de tudo e um pouquinho mais. Mas a cara-metade, em
vez de agradecer, só se lembra de gritar, com um rangido de arranhar a alma: “E
o jiló? Cadê o jiló? Você se esqueceu do jiló!”
Essa corda da crítica fica
ainda mais desafinada quando se transforma, por um pior desajuste, na corda da
ironia ou do sarcasmo. Nestes casos, o desprezo é mais ferino.
Ironizar é quase sempre
diminuir e humilhar o outro. Às vezes, é pisar em cima dele até deixá-lo
esmagado no chão. Uma ironia bem aplicada é um dos golpes mais baixos que o nosso
orgulho pode desferir nos outros.
– Puxa, desta vez, de cada
três palavras que você falou com os convidados, só quatro eram asneiras.
Parabéns, vai melhorando! – espeta o marido, sarcasticamente, na cara da
mulher.
– Fulano (colega do
marido) já foi promovido faz um ano, e você ainda pastando lá em baixo. Deve
ser porque o ar daquele escritório de pé-rapado te faz bem... – ridiculariza a mulher,
mexendo com um marido já complexado pela falta de sucesso profissional.
– Sabem de que sofre “o”
neurónio da loira? – pergunta ironicamente o menino convencido, olhando com
desprezo para a irmã. – Sofre de solidão!
No dia seguinte vem com
outras duas piadas, que ele acha melhores ainda: – A loira burra (que, por
sinal, é bem mais inteligente do que ele) só tem três neurónios no cérebro: um
receptor, um emissor..., e o terceiro para atrapalhar os outros dois! E tem
mais! Como é que a gente sabe que a loira usou o computador? Quando tem líquido
corretor na tela!
Deus nos livre da ironia
corrosiva, que é a escória da nossa vaidade e da nossa arrogância. Não poucas
vezes, achando-nos “engraçadinhos”, estamos esfaqueando os outros. Peçamos a
Deus que, em casa e fora de casa, saibamos praticar somente a ironia amável, simpática,
aquela que não fere ninguém, mas alegra os corações e faz rir com gosto.
MAIS CORDAS DESAFINADAS
Existem outras cordas mal
soantes do orgulho. Seria difícil lembrá-las todas. Mas, para ficarmos prevenidos
e tentarmos melhorar, talvez seja útil examinar ainda mais três ou quatro
delas.
Uma corda, um defeito
muito aparentado com a crítica, é a mania de fiscalizar, partindo da base de
que sempre existe “coelho no mato”. O paradigma pitoresco desse espírito de
suspeita é a figura lendária do marido que, todos os dias, ao chegar a casa,
aplica uma homérica surra na mulher e nos filhos, e esclarece depois: “Não sei
o que eles fizeram, mas eles sabem...”
Há pais que parecem estar
sempre a fazer uma auditoria na mulher e nos filhos, com um bloco de multas e o
Código Penal na mão. A alguns deles, costumo chamá-los, brincando, “Catão, o
Censor” [1]
E o mesmo se poderia dizer
de certas mães, que mostram uma eterna desconfiança para com os filhos.
Interrogam policialmente a todos sobre todas as coisas; vasculham gavetas,
papéis e armários à procura de “algo errado”; não acreditam no que eles dizem;
fazem complicadas pesquisas telefónicas para se certificar de que estiveram mesmo
lá onde disseram que iam; perguntam mil vezes a mesma coisa, para ver se os
apanham em contradição. Em consequência, os filhos se exasperam, ficam fora de
casa o mais que podem e acabam caindo na teia de aranha das mentiras,
provocadas pela desconfiança dos pais.
Quando essa desconfiança
se dá entre marido e mulher, e degenera na doença mortal dos ciúmes, então a
paz familiar está à beira do naufrágio. O lar torna-se uma câmara de gás, cada
vez mais venenoso e asfixiante. O homem ou a mulher que se torturam, e torturam
o cônjuge, com a máquina mortífera dos ciúmes, deveriam compreender que só têm
duas saídas para esse beco letal: ou reconhecem que o ciúme é fruto de um
requintado orgulho (o da pessoa que se sente como uma divindade nunca
suficientemente adorada); ou aceitam o facto de que estão doentes, e vão-se
tratar com um bom especialista. O que não é possível é dizer “Eu sou ciumento”
e continuar a transformar o lar num inferno.
Também é manifestação
clara de orgulho a mania de ter razão. Como é desagradável conviver com uma
pessoa que, por princípio, não aceita que a contradigam, ainda que o façam
serenamente e com bons argumentos; que não é capaz de ceder – até mesmo quando já
não tem mais o que retrucar –, mas sente a necessidade de dizer a última
palavra, porque não quer dar o braço a torcer. “Eu estou com a razão, e
pronto!”
É tão bom ceder! Só é
preciso ter um pouco de humildade, ungida com um pouco de caridade. O
Bem-aventurado Josemaría Escrivá aconselhava sempre aos casais – e a todas as pessoas
de boa vontade – a não discutir. “Da discussão – escrevia – não costuma sair a
luz, porque é apagada pela paixão” 2. E punha um minúsculo exemplo
prático, com palavras semelhantes a estas: – Para que discutir com a mulher,
que afirma que a prima Fulana tem trinta anos, teimando em dizer que “já tem
trinta e dois”? É melhor ceder, e não atear uma discussão por uma
insignificância. Que importância têm dois ou três anos a mais ou a menos?
Às vezes, para ajudar
algum obstinado discutidor a abaixar as armas, costumo dizer-lhe: “Você já
pensou que ninguém vai para o Céu pelo facto de «ter tido razão» nas discussões?
No dia do Juízo, ninguém vai perguntar-lhe se, na vida, você «teve razão». Pelo
contrário, vão perguntar-lhe se soube compreender os outros, se soube perdoar,
aparar arestas e espinhos no convívio e evitar conflitos por minúcias tolas”.
Por último, para não fazer
uma enumeração interminável de cordas do orgulho, vou lembrar algo que me dizia
recentemente um velho amigo, e que me deixou pensativo e comovido. Eu vinha
meditando sobre o que agora estou a escrever, e ocorreu-me perguntar a esse
amigo (pai de uma família unida e exemplar, que acabava de celebrar as Bodas de
Ouro do seu felicíssimo casamento): “Fulano, qual acha você que é o segredo da
paz familiar?”
Confesso que esperava umas
palavras um tanto românticas. Por isso, surpreendeu-me a resposta: “Eu diria
que o segredo da paz na família é a educação”.
Reconheci, depois, que há
nessa resposta uma enorme dose de sabedoria cristã, acrisolada pela
experiência. A grosseria, com efeito, não resulta só da deficiência de formação
de berço. É sempre um ato de orgulho, porque constitui uma falta de respeito
para com a pessoa rudemente tratada, um rebaixamento, uma humilhação. Na
terceira parte desta obra, ao falar dos bons caminhos que levam à paz, deveremos
mencionar o respeito – feito de humildade, compreensão e grandeza de coração –,
como base indispensável para o amor e, portanto, para a harmonia e a paz. Mas,
por ora, vamos deixar este assunto por aqui.
SEGUNDO PORÃO: O EGOÍSMO
COMODISTA
HISTÓRIA TRISTE DE CHUPIM
Rubem Braga tem uma
crônica deliciosa, intitulada História triste de tuim. Vamos começar este novo
item com uma crónica nada deliciosa, que poderíamos chamar História triste de
chupim.
Na casa onde moro, há um
pedacinho de jardim na frente e um quintal nos fundos. É visitada o ano inteiro
por pássaros os mais diversos, que enchem o quintal de cores e alegria.
Na primavera, fervilham:
lá faz ninho o sabiá, cria a corruíra e se multiplica a rolinha. Mas, ano após
ano, uma sombra escura desce sobre esse pequenino paraíso alegre. Um dia qualquer,
observa-se bicando o chão, com ar distraído e olhar sorrateiro, um casal de chupins,
pretos como o azeviche. Por mais que disfarcem, ninguém se ilude sobre os seus propósitos.
Estão a espiar a ingenuidade com que o tico-tico prepara, laboriosamente, o seu
ninho. Aproveitando um descuido dos inocentes passarinhos, a fêmea do chupim
depositará no ninho deles um ou dois de seus ovos, e desaparecerá, lavando as
mãos – ou o bico – dos trabalhos aborrecidos de ter que construir um ninho,
chocar os ovos e alimentar os filhotes.
Só quer vida livre, e os
tico-ticos que aguentem o tranco!
Mas isso não é o pior.
Correm os dias e nascem as crias. No ninho, começam a conviver pequenos
tico-ticos e o ainda pequenino chupim. A mãe tico-tico, numa azáfama incansável,
vai levando comida para aqueles quatro ou cinco biquinhos abertos. Passam-se mais
uns dias, e o filhote de chupim já cresceu. Logo vai crescendo mais, ocupa
quase todo o ninho, lá mal cabem todos. Até que, numa manhã, descobre-se com o
coração cortado o gordo filhote de chupim refestelado no ninho e, no chão,
mortos ou agonizantes, os filhos legítimos do tico-tico, que foram sendo
empurrados para fora porque o chupim precisava do espaço inteiro do ninho.
A imagem do chupim não é
nada obscura, parece-me, quando aplicada aos conflitos do lar. Porque o chupim
é um símbolo claríssimo do egoísmo na vida familiar. Em casa e fora dela, se as
pessoas não dominam a tendência para o egoísmo e o comodismo que todos trazemos
dentro, esses defeitos vão crescendo cada vez mais e, gordos como o chupim, acabam
por repelir ou machucar seriamente os outros. Convençamo-nos de que não é só com
a agressão, a ofensa, a irritação, a crítica e a prepotência que se criam
conflitos familiares.
Muitos, muitíssimos deles,
são fruto da hipertrofia do comodismo egoísta.
Na sua Carta às famílias,
João Paulo II convida-nos a perguntar-nos se o egoísmo que, como diz, “se
esconde inclusive no amor”, não acaba por ser “mais forte do que este amor” 3.
Vamos agora fazer-nos essa
pergunta, ao mesmo tempo que procuramos identificar manifestações de egoísmo e
comodismo que não raro grassam na vida familiar.
(cont.)
_______________________________________
Notas:
(2)
josemaría escrivá, Caminho, 8a. ed., Quadrante, 1995, n.
25;
(3)
joão paulo ii, Carta às famílias, n. 7;
[1] marco pórcio catão (234-149 a.C. personalidade pública de Roma que recebeu o apelido de
censorius pelo rigor inflexível com que criticou o relaxamento de costumes,
devido à influência grega.
20/06/2014
SER "ANDRÉ"!
Sempre
ouvimos dizer que os primeiros catequistas devem ser os pais, que a primeira
catequese tem que ser em casa, que a família deve rezar unida e deve dar
testemunho aos vindouros, para que também eles encontrem o Deus que nos chama
ao seu amor.
André,
alertado por João Baptista seguiu Jesus, e encontrando o seu irmão Simão Pedro,
logo lhe deu a Boa Nova e o levou a Jesus.
A
frase, simples e concisa, é terna e tocante: «E levou-o até Jesus.»
Não
o levou “a” Jesus, mas sim, levou-o ”até” Jesus!
Mostrou-lhe
Jesus, fê-lo encontrar-se com Jesus, e, a partir daí, tudo passou a ser entre
Jesus e Simão Pedro.
André
reconhece o Messias, o Senhor, e é esse acreditar que ele transmite ao seu
irmão, levando-o ao encontro d’Aquele que é objecto da sua fé.
A
partir daqui, Pedro encontra Jesus, e tendo Jesus fixado nele o seu olhar,
Pedro deixa-se conduzir até à missão que Ele há-de colocar sobre os seus
ombros!
E
nós, que um dia começámos a seguir Jesus, como pais, como irmãos, como
parentes, também damos a Boa Nova aos da nossa casa?
Também
os levamos até Jesus?
Também
testemunhamos com palavras, com actos, com a nossa vida, a nossa fé em Jesus
Cristo, Nosso Senhor e Salvador?
Sejamos
então, todos e cada um de nós, “André”, para aqueles que se cruzam nas nossas
vidas, começando por aqueles que o Senhor nos deu como família.
Monte
Real, 17 de Junho de 2014
Joaquim Mexia Alves
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Labels:
JMA (Ser André)
«Mãe, ensina-me a ser nada, para que Cristo seja tudo em mim».
Oração que um dia o Espírito Santo quis colocar no meu coração e me esforço para que seja verdade na minha vida.
Maria procura o Filho que se perdeu
Três dias e três noites procura
Maria o Filho que se perdeu... Oxalá possamos dizer, tu e eu, que a nossa
vontade de encontrar Jesus também não conhece descanso. (Sulco,
794)
Que dor a de sua Mãe e a de S.
José, porque – no regresso de Jerusalém – não vinha entre os parentes e amigos!
E que alegria a sua, quando o vêem, já de longe, doutrinando os mestres de
Israel! Mas reparai nas palavras, aparentemente duras, que saem da boca do Filho,
ao responder a sua Mãe: por que me buscáveis?
Não era razoável que o
procurassem? As almas que sabem o que é perder Cristo e encontrá-lo podem
compreender isto... Por que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas
coisas de meu Pai?. Não sabíeis, porventura, que eu devo dedicar totalmente o
meu tempo ao meu Pai celestial?
Este é o fruto da oração de
hoje: que nos persuadamos de que o nosso caminhar na terra – em todas as
circunstâncias e em todos os momentos – é para Deus; que é um tesouro de glória,
uma imagem do Céu; que é, nas nossas mãos, uma maravilha que temos de administrar,
com sentido de responsabilidade perante os homens e perante Deus, sem
necessidade de mudar de estado, no meio da rua, santificando a nossa profissão
ou o nosso ofício, a vida de família, as relações sociais e todas as
actividades que parecem à primeira vista só terrenas. (Amigos
de Deus, 53–54)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Contenção; alguma privação; ser humilde.
Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.
Lembrar-me:
Filiação divina.
Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Jesus Cristo e a Igreja 19
Quais e quantos são?
Evangelhos
canónicos são os que a Igreja reconheceu como sendo aqueles que transmitem autenticamente
a tradição apostólica e estão inspirados por Deus. São quatro e só quatro:
Mateus, Marcos, Lucas e João. Assim o propôs expressamente Santo Ireneu de Leão
nos finais do séc. II (Adversus Haereses
3.11.8-9) e assim o tem mantido constantemente a Igreja, propondo-o finalmente
como dogma de fé ao definir o cânone das Sagradas Escrituras no Concílio de
Trento (1545-1563).
A
composição destes evangelhos tem as suas raízes no que os apóstolos viram e
ouviram estando com Jesus, e nas aparições que tiveram dele depois de ressuscitar
de entre os mortos. Logo a seguir os mesmos apóstolos, cumprindo o mandato do
Senhor, pregaram a boa notícia (ou evangelho) acerca d’Ele e acerca da salvação
que Ele traz a todos os homens, e foram-se formando comunidades de cristãos na Palestina
e fora dela (Antioquia, cidades da Ásia Menor, Roma, etc.). Nestas comunidades
as tradições foram tomando forma de relatos ou de ensinamentos acerca de Jesus,
sempre sob a tutela dos apóstolos
que
tinham sido testemunhas. Num terceiro momento essas tradições foram postas por
escrito integrando-as numa narração em forma de biografia do Senhor.
Assim
surgiram os evangelhos para uso das comunidades às quais estavam destinados. O primeiro,
segundo parece, terá sido Marcos ou talvez uma edição de Mateus, em hebraico ou
aramaico, mais breve que a actual. Os outros três imitaram o género literário
deste. Neste trabalho, cada evangelista escolheu algumas coisas das muitas que se
transmitiam, sintetizou outras e apresentou tudo atendendo à condição dos seus
leitores imediatos.
Que
os quatro gozaram da garantia apostólica vê-se no facto de terem sido recebidos
e transmitidos como escritos pelos próprios apóstolos ou por discípulos directos
dos mesmos: Marcos foi discípulo de São Pedro e Lucas de São Paulo.
Os
evangelhos apócrifos são os que a Igreja não aceitou como conservando autêntica
tradição apostólica, embora normalmente fossem apresentados sob o nome de algum
apóstolo. Começaram a circular muito cedo, pois já são citados na segunda
metade do séc. II, mas não gozavam da garantia apostólica como os quatro
reconhecidos e, além disso, muitos deles continham doutrinas que não estavam de
acordo com o ensino apostólico. “Apócrifo” começou por significar “segredo” por
fazer referência a escritos que se dirigiam a um grupo especial de iniciados e serem
conservados nesse grupo. Mais tarde passou a significar inautêntico e
inclusivamente herético. À medida que passou o tempo o número desses apócrifos
cresceu em grande número, quer para dar pormenores da vida de Jesus que não
davam os evangelhos canónicos (por exemplo os apócrifos da infância de Jesus),
quer para pôr sob o nome de algum apóstolo ensinamentos divergentes das que eram
comuns na Igreja (por exemplo o evangelho de Tomé). Orígenes de Alexandria (+
245) escrevia: “A Igreja em quatro evangelhos, os hereges, muitíssimos”.
Entre
as informações dos Padres da Igreja, os que conservou a piedade cristã, e os
testemunhados de um modo ou outro em papiros, o número de “evangelhos apócrifos”
conhecidos é pouco superior a cinquenta.
© www.opusdei.org
- Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade
de Navarra, dirigida por Francisco Varo.
Temas para meditar 151
Ter, antes de mais, esta doutrina clara: todos podemos rezar; mais concretamente, todos devemos rezar, porque viemos ao mundo para amar a Deus, louvá-lo, servi-lo e depois, na outra vida – aqui estamos de passagem -, gozá-Lo eternamente. E o que é rezar? Simplesmente, falar com Deus mediante orações vocais ou na meditação. Não é admissível a desculpa de que não sabemos ou nos cansamos. Falar com Deus para aprender d’Ele, consiste em olhá-lo, em contar-lhe a nossa vida – trabalho, alegrias, penas, cansaços, reacções, tentações -, se O escutarmos, ouviremos que nos sugere: Deixa aquilo, sê mais cordial, trabalha melhor, serve os outros, não penses mal de ninguém, fala com sinceridade e com educação… Não desprezemos o tesouro da oração, porque ama-se como se reza, e reza-se como se ama. Com a certeza de que, ao contemplar o Mestre em Getsemani, a nossa mente abrir-se-á à necessidade de rezar, também quando não for fácil fazê-lo.
(javier echevarría, Getsemaní, Planeta 3ª ed. pg. 12)
Tratado da lei 29
Em seguida devemos tratar da mudança
das leis. E nesta questão discutem-se quatro artigos;
Art. 1 — Se a lei humana deve de algum
modo ser mudada.
Art. 2 — Se a lei humana há de sempre
ser mudada quando aparecerem melhores instituições.
Art. 3 — Se o costume pode obter força
de lei e abrogar a lei.
Art. 4 — Se os chefes do povo podem
dispensar nas leis humanas.
Art.
1 — Se a lei humana deve de algum modo ser mudada.
(Infra, q. 104, a. 3, ad 2; Ad.
Galat., cap. I, lect. II. V Ethic., lect. XII).
O primeiro discute-se assim. — Parece
que a lei humana de nenhum modo deve ser mudada.
1. — Pois, a lei humana deriva da lei
natural, como já se disse (q. 95, a. 2). Ora, a lei natural perdura imutável.
Logo, também a lei humana deve permanece imutável.
2. Demais. — Como diz o Filósofo, a
medida deve, por excelência, ser permanente. Ora, a lei humana é a medida dos actos
humanos, como já se disse (q. 90, a. 1, a. 2). Logo, deve permanecer imutável.
3. Demais. — Ser justa e recta da
essência da lei, como já se disse (q. 95, a. 2). Ora, o que é uma vez recto é-o
sempre. Logo, o que foi uma vez lei deve sê-lo sempre.
Mas, em contrário, Agostinho diz: A
lei temporal, embora justa, pode, no decurso do tempo, ser justamente mudada.
Como já se disse (q. 91, a.
3), a lei humana é um ditame da razão por que se dirigem os actos humanos. E
assim, por dupla causa pode a lei humana ser justamente mudada: uma fundada na
razão; outra, proveniente dos homens, cujos actos são regulados por lei.
Uma é fundada na razão, porque à razão
humana é natural ascender gradualmente do imperfeito para o perfeito. Por isso
vemos, nas ciências especulativas, que os primeiros filósofos transmitiram aos
seus sucessores umas doutrinas imperfeitas, que estes por sua vez transmitiram
aos seus sucessores mais aperfeiçoadas. Ora, o mesmo se dá na ordem das acções.
Assim, os primeiros que intentaram descobrir mais útil disposição para a
comunidade humana, não podendo prever tudo, por si mesmos, fizeram algumas
instituições imperfeitas e falhas em muitos casos, que os pósteros modificaram,
estabelecendo por sua vez algumas outras, que, em alguns casos, podem não
realizar a utilidade comum.
Por outro lado, por parte do homem,
cujos actos são regulados por lei, esta pode mudar-se rectamente, por causa da
mudança das condições dos homens, aos quais convêm coisas diversas segundo as
suas diversas condições. Assim Agostinho dá o exemplo seguinte. Se um povo for
de boa moderação, grave e guarda diligentíssimo da utilidade comum, a lei é
justamente feita para que a tal povo seja lícito estabelecer os seus
magistrados, que administrem a república. Mas se, depravado esse povo
paulatinamente, venha a tornar venal o seu sufrágio e entregar o governo a
homens flagiciosos e celerados, é justo cassar-lhe o poder de distribuir as
honras, e transferi-lo ao arbítrio de uns poucos bons.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— A lei natural é uma participação da lei eterna, como já se disse (q. 91, a.
2), e por isso permanece imutável; e essa imutabilidade tem-na da perfeição da
razão divina, que institui a natureza. Ao contrário, a razão humana é mutável e
imperfeita. E portanto, a sua lei é mutável. Além disso, a lei natural contém alguns
preceitos universais, que sempre permanecem; ao passo que a lei estabelecida
pelo homem contém preceitos particulares, provocados pelos casos emergentes.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A medida deve
ser permanente quanto possível. Mas na ordem das coisas mutáveis não pode haver
nada que permaneça imutável. Donde, a lei humana não pode ser absolutamente
imutável.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Na ordem das
coisas materiais a rectidão é considerada absolutamente; e por isso permanece
na sua essência. Ao passo que a rectidão da lei é considerada em relação à
utilidade comum, a qual não é sempre proporcionada uma mesma realidade, como já
se disse. Por isso essa rectidão é susceptível de mudança.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia)
Evangelho: Mt 6, 19-23
19 «Não
acumuleis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e
onde os ladrões arrombam as paredes e roubam. 20 Entesourai para vós
tesouros no céu, onde nem a ferrugem nem a traça os consomem, e onde os ladrões
não arrombam as paredes nem roubam. 21 Porque onde está o teu
tesouro, aí está também o teu coração. 22 «O olho é a lâmpada do
corpo. Se o teu olho for são, todo o teu corpo terá luz. 23 Mas, se
teu olho for malicioso todo o teu corpo estará em trevas. Se, pois, a luz que
há em ti é trevas, quão tenebrosas serão essas trevas!
Comentário:
Quantos pecados tiveram a sua “origem” no olhar.
Lembremos um dos mais conhecidos de todos os tempos, o pecado de David. As consequências de ter detido o seu olhar numa cena íntima e reservada foram terríveis, desde o assassínio congeminado de Urias, até à própria morte do seu filho e herdeiro.
Olhar, ver é bem diferente de mirar, aquele pode ser natural e directo, e, portanto, natural; este, é sempre um acto voluntário e, como todos os actos de vontade, tem consequências.
A PAZ NA FAMÍLIA
INTRODUÇÃO
DESEJOS
DE PAZ
Se perguntarmos a uma
pessoa recém-casada qual é o bem que mais deseja na família, provavelmente responderá:
– O amor.
Se fizermos a mesma
pergunta a um homem ou a uma mulher já maduros, com longos anos de convivência
familiar, é provável que nos responda:
– A paz.
Nem todos dirão isso,
certamente, mas muitos, sim. É que os anos de convívio entre marido e mulher, e
entre pais e filhos, vão evidenciando, com luminosa clareza, que a paz é um bem
inestimável, tanto mais precioso quanto mais frágil e difícil é de conseguir e
de conservar.
– Paz! Pelo amor de Deus,
quero paz lá em casa! – dizem alguns, com gemidos de náufrago que já não
aguenta mais segurar-se numa tábua no meio da tormenta.
Têm ampla experiência das
agruras da “guerra”: desavenças, incompreensões, brigas, maus humores,
recriminações, injustiças, teimosias, desafios, reclamações monótonas... A esses,
a harmonia parece-lhes um sonho que lhes escapou das mãos há muito tempo, como se
fosse um balão perdido no espaço, sem meio algum de o recuperar.
A harmonia familiar é um
ideal que essas pessoas entristecidas amam, com um amor ardente e dolorido,
unido à convicção amarga de que a paz familiar estável não existe na terra ou,
caso exista, é uma loteria que não os contemplou.
Uma loteria, uma questão
de sorte. É assim que muitos veem as alegrias da paz familiar. Uns são
agraciados e outros não. Qualquer pessoa – pai, mãe, filho – que se queixa da
falta de paz familiar costuma dispor de uma explicação para essa infelicidade:
a má sorte de ter que conviver com um cônjuge ou filhos – ou pais – de carácter
difícil, de temperamento insuportável, de... instintivamente, o queixume pela
falta de paz toma a forma de uma acusação. Sabemos bem quem são os culpados, e
sabemos bem de que males são culpados. É a grosseria do marido, é a
indisciplina e o desrespeito dos filhos, é a tirania irracional dos pais... Ou,
então: “É que não me compreendem, não me escutam, não acreditam em mim, não têm
responsabilidade, não têm ordem, gritam à toa, ofendem...
Assim, não é possível ter
paz!”
Em face dessa tendência
para a acusação dos outros, parece-me muito sugestivo o seguinte comentário de
um escritor brasileiro:
“Nos casos de conflitos
entre pessoas [o autor está tratando do divórcio], asseveramos que a única
solução, o único termo ou desenlace perfeito só pode ser atingido quando se
chega à confrontação leal e verídica de um sentimento de culpa. Um desentendimento
jamais poderá ser resolvido se as partes obstinadamente fogem dessa confrontação.
Consegue-se um apaziguamento com evasivas, com fórmulas conciliatórias como
aquela: «ninguém tem culpa»; mas só se consegue uma cura profunda e fecunda no momento
em que cada parte queixosa seja capaz de um duplo ato moral: o do reconhecimento
de sua culpa, na base de uma genuína humildade; e o da ciência proporcionada e
justa da culpa alheia, num acto de misericórdia, predisposto ao perdão [...].
O remédio específico para
os humanos desentendimentos não pode ser puramente psicológico. Há-de ser
moral, e não é outro senão o ato de humildade e o acto de generosidade”
É um conselho lúcido e
muito útil. Sim. Quando cambaleia ou naufraga a paz familiar, a primeira coisa
que devemos fazer é deixar de lado toda e qualquer acusação, por objetiva e
justa que pareça, e começar pela tarefa humilde de reconhecer as nossas culpas:
“Qual é a minha parte de
culpa no mal-estar familiar?” Ninguém nos pede que assumamos toda a culpa, mas
sim que comecemos por enxergá-la e aceitá-la sem desculpas, como passo prévio
para conquistar ou reconquistar a paz no lar.
Depois disso, poderemos
dar o segundo passo, o da ponderação serena e objetiva da culpa alheia, e então
estaremos em condições de encarar essa culpa com a disposição generosa de
compreender e perdoar, de corrigir e ajudar.
AS
CORDAS DO CORAÇÃO
Uma comparação simples
pode ajudar-nos a perceber melhor a conveniência de começar reconhecendo a
nossa culpa.
O coração humano pode ser
comparado a um instrumento de cordas. Imagine, se quiser, um violino, uma
harpa, ou um piano, que tem cordas também.
É claro que, para extrair
do instrumento uma música harmoniosa – uma sinfonia, uma rapsódia, uma sonata
–, é necessário um bom intérprete. Mas não adianta dispor do melhor intérprete
do mundo, se o instrumento tem as cordas soltas ou mal afinadas. Por mais que o
virtuose se esforce, só conseguirá dissonâncias roucas ou estridentes, ruídos abafados,
cacofonias. A primeira coisa que fazem os músicos de uma orquestra, antes que o
regente levante a batuta e imponha o silêncio expectante do início do concerto,
é afinar os instrumentos. Qualquer amante da música lembra-se desses
barulhinhos inconfundíveis de violoncelos, violinos e contrabaixos a regular as
cordas.
Pois bem, o coração também
tem as suas cordas. Umas cordas que se chamam virtudes ou defeitos. São as
cordas da humildade ou do orgulho, da fortaleza ou da moleza, da preguiça ou da
laboriosidade, do otimismo ou do pessimismo, da generosidade ou da mesquinhez...
Virtudes que soam bem, ou defeitos que soam mal.
Os outros, quer sejam
amáveis ou grosseiros, quer sejam pacientes ou irritadiços, farão soar dentro
do nosso coração uma nota conforme as nossas cordas. Se a corda da generosidade
anda fraca, qualquer atitude da esposa, do marido, do filho ou do pai que exija
algum sacrifício fará vibrar a nota desafinada do mau-humor. Pelo contrário, se
o coração for grande e a corda da generosidade estiver “bem temperada”, mesmo
as agressões mais desagradáveis dos outros farão ressoar a nota da compreensão,
da afabilidade que desvia a discussão, da grandeza de alma que finge nem ter
reparado na ofensa. E, então, haverá paz.
Vale a pena, portanto,
insistir em que a primeira causa das desavenças, brigas e desarmonias, não
convém buscá-la no que “os outros fazem ou dizem”, mas na maneira como isso que
fazem ou dizem – quer seja bom, quer ruim – repercute no nosso coração.
Lembremo-nos do exemplo de
Cristo. Ele – cujo coração de Homem-Deus tinha as cordas das virtudes
divinamente afinadas – espalhava à sua volta uma paz imensa, não só quando pregava
aprazivelmente nas margens do lago de Genesaré, e todos se encantavam com as suas
palavras, mas também quando agonizava no alto da cruz, cercado de impropérios, zombarias
e tormentos atrozes.
Do coração é que sai tudo,
dizia Cristo (Mc 7, 21). Tudo depende do coração, do amor, da bondade e das
virtudes que nele se enraízam. Boas virtudes são geradoras de paz.
Defeitos arraigados são
provocadores de guerra.
Como entendia bem São
Paulo o ensinamento de Cristo! Bastará, por ora, lembrar apenas dois trechos
das suas cartas, que põem à mostra as cordas da paz e as cordas da guerra:
– Cordas da paz: Revesti-vos
de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão, paciência.
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro
motivo de queixa [...]. Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo
da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados
(Col 3, 12-15).
– Cordas da guerra:
Nenhuma palavra má saia da vossa boca [...]. Toda a amargura, indignação,
cólera, gritos, injúrias, e toda a espécie de malícia, sejam banidos dentre vós
(Ef 4, 29.31).
Guerra e paz, sim. Vale a
pena encará-las ambas. E, para que a nossa reflexão seja como uma escada, que
vai subindo dos fundões até às cumeadas, assim como Dante começou a Divina
Comédia pelo Inferno, também vamos iniciar estas simplicíssimas meditações
entrando, primeiro, nos porões onde fermentam os conflitos familiares, para depois
subir, contemplar com perspectiva cristã o ideal familiar, e procurar, enfim,
os caminhos que podem conduzir a família à paz.
UMA
DESCIDA AOS PORÕES
PRIMEIRO PORÃO: O ORGULHO O
“EU” SOBRE O ALTAR
De todas as cordas
desafinadas do coração, a pior é a do orgulho. Este vício capital é o primeiro
inimigo da paz familiar; o orgulho que, de resto, é o inimigo número um de toda
a bondade e de toda a alegria. Não é em vão que a Bíblia diz, no livro do
Eclesiástico, que o orgulho é o princípio de todo o pecado (Ecli 10, 15).
Mas, o que é o orgulho?
Uma definição clássica
reza assim: “O orgulho é o apetite desordenado da própria excelência”. Trocando
a frase em miúdos, significa: é o desejo exorbitado de sobressair, de ficar por
cima, de ser valorizado, acatado e estimado; é a ânsia de sentir-se superior
aos outros, ou pelo menos nunca inferiorizado; é a incapacidade de aceitar
qualquer coisa que fira o nosso amor-próprio ou rebaixe a nossa imagem.
O orgulho cega. Essa
supervalorização do nosso “eu” impede-nos de enxergar a verdade sobre os nossos
defeitos e culpas, porque não suportamos que essa verdade nos situe abaixo do
alto conceito que fazemos de nós mesmos ou nos coloque por baixo dos outros.
Poderíamos dizer que a
pessoa orgulhosa construiu um altar dentro do seu coração, onde entronizou o
seu próprio “eu” como um ídolo intocável, que constantemente defende e adora.
Qualquer coisa que atinja esse falso “deus”, qualquer coisa que tente
questioná-lo ou ameace rebaixá-lo, provoca no orgulhoso uma reação imediata, violenta
como uma descarga elétrica, ou abafada e surda (por exemplo, um mutismo
sufocante, um ar carrancudo de dignidade ofendida, etc.), que acaba com a paz.
Não há dúvida de que o
orgulho é a corda mais desafinada do coração.
Melhor dizendo, o orgulho
é todo um conjunto de cordas desafinadas.
Procuraremos agora ouvir o
som de algumas delas. Não será agradável a música, mas pode ser bom escutá-la,
não, evidentemente, pelo prazer maldoso de ver retratadas nela as falhas das
pessoas da nossa casa (“É o vivo retrato do meu marido”, “Acho que o autor
deste livro fez a radiografia da minha mulher”, “É, chapado, o meu irmão”,
“Olhe aí a cara da minha sogra”...); não, não vamos procurar esse prazer
ruim... Pelo contrário, vamos tentar fazer um reconhecimento humilde dos porões
escuros da nossa própria alma – das nossas cordas desafinadas –, com o intuito
positivo de ajustar-lhes as cravelhas, de afinar, em suma, o instrumento
poderoso que é o nosso coração e, com a ajuda de Deus, conseguir que ele vibre
com notas cada vez mais puras e harmoniosas.
Vejamos, pois, essas
cordas, sem pretender falar de todas, nem colocá-las numa determinada ordem de importância.
Pensemos simplesmente nos atritos familiares que nos são mais conhecidos e
deixemos a reflexão correr.
Facilmente salta à vista
uma primeira corda bem mal ajustada: a crítica.
(cont.)
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