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18/06/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Mt 6, 24-34

24 «Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. 25 «Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? 26 Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? 27 Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? 28 «E porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. 29 Digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 30 Se, pois, Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? 31 Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32 Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 33 Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Não vos preocupeis, pois, pelo dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia bastam os seus trabalhos.

Comentário:

O que o Senhor pretende com este discurso é fundamentalmente transmitir-nos dois princípios basilares de toda Vida  Cristã:

Primeiro ter ordenadas as prioridades, depois ter confiança ilimitada na providência divina.

Uma vez postos os meios que dispomos confiar que o Senhor providenciará o que faltar.

(ama, comentário sobre Mt 6,24-34 2015,06.20)





20/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual




Tempo comum XI Semana

Beatas Sancha, Mafalda e Teresa

Evangelho: Mt 6, 24-34

24 «Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. 25 «Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? 26 Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? 27 Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? 28 «E porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. 29 Digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 30 Se, pois, Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? 31 Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32 Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 33 Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Não vos preocupeis, pois, pelo dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia bastam os seus trabalhos.

Comentário:

A nossa humanidade resiste, de certa forma, a estas recomendações de Jesus. No fim e ao cabo são recomendações de abandono e confiança na providência de Deus.

Esta nossa tendência para julgarmos saber o que melhor nos convém é obstáculo a esse abandono e a essa confiança e, no entanto, temos provas abundantes que, Ele, nunca nos “falha” nem nos deixa sem o que realmente precisamos.

(ama, comentário sobre Mt 6, 24-34, 2014.06.21)

Leitura espiritual



Misericordiae Vultus

BULA DE PROCLAMAÇÃO 
DO JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA
FRANCISCO
BISPO DE ROMA
SERVO DOS SERVOS DE DEUS
A QUANTOS LEREM ESTA CARTA
GRAÇA, MISERICÓRDIA E PAZ


1.   Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai.

21. A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar.

A experiência do profeta Oseias ajuda-nos, mostrando-nos a superação da justiça na linha da misericórdia.
A época em que viveu este profeta conta-se entre as mais dramáticas da história do povo judeu.
O Reino está próximo da destruição; o povo não permaneceu fiel à aliança, afastou-se de Deus e perdeu a fé dos pais.
Segundo uma lógica humana, é justo que Deus pense em rejeitar o povo infiel: não observou o pacto estipulado e, consequentemente, merece a devida pena, ou seja, o exílio.
Assim o atestam as palavras do profeta: «Não voltará para o Egipto, mas a Assíria será o seu rei, porque recusaram converter-se» [1].
E todavia, depois desta reacção que faz apelo à justiça, o profeta muda radicalmente a sua linguagem e revela o verdadeiro rosto de Deus:
«O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti e não me deixo levar pela ira» [2].
Santo Agostinho, de certo modo comentando as palavras do profeta, diz:

«É mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia» [3]. 

É mesmo assim!
A ira de Deus dura um instante, ao passo que a sua misericórdia é eterna.
Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei.

A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir.

Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário!
Quem erra, deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão.

Deus não rejeita a justiça.
Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça.
Devemos prestar muita atenção àquilo que escreve Paulo, para não cair no mesmo erro que o apóstolo censurava nos judeus seus contemporâneos:

«Por não terem reconhecido a justiça que vem de Deus e terem procurado estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus.
É que o fim da Lei é Cristo, para que, deste modo, a justiça seja concedida a todo o que tem fé» [4].

Esta justiça de Deus é a misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.

22. O Jubileu inclui também o referimento à indulgência.

Esta, no Ano Santo da Misericórdia, adquire uma relevância particular.
O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece limites.
Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens.
É possível deixar-se reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja.
Por isso, Deus está sempre disponível para o perdão, não Se cansando de o oferecer de maneira sempre nova e inesperada.
No entanto todos nós fazemos experiência do pecado.
Sabemos que somos chamados à perfeição [5], mas sentimos fortemente o peso do pecado.
Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados.

No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece.
A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso.
Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado.

A Igreja vive a comunhão dos Santos.

Na Eucaristia, esta comunhão, que é dom de Deus, realiza-se como união espiritual que nos une, a nós crentes, com os Santos e Beatos cujo número é incalculável [6].

A sua santidade vem em ajuda da nossa fragilidade, e assim a Mãe-Igreja, com a sua oração e a sua vida, é capaz de acudir à fraqueza de uns com a santidade de outros.
Portanto viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai, com a certeza de que o seu perdão cobre toda a vida do crente.
A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência misericordiosa em toda a sua extensão.

23. A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja.

Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus.

Israel foi o primeiro que recebeu esta revelação, permanecendo esta na história como o início duma riqueza incomensurável para oferecer à humanidade inteira.
Como vimos, as páginas do Antigo Testamento estão permeadas de misericórdia, porque narram as obras que o Senhor realizou em favor do seu povo, nos momentos mais difíceis da sua história.

O islamismo, por sua vez, coloca entre os nomes dados ao Criador o de Misericordioso e Clemente.
Esta invocação aparece com frequência nos lábios dos fiéis muçulmanos, que se sentem acompanhados e sustentados pela misericórdia na sua fraqueza diária.
Também eles acreditam que ninguém pode pôr limites à misericórdia divina, porque as suas portas estão sempre abertas.

Possa este Ano Jubilar, vivido na misericórdia, favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas; que ele nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação.

24. O pensamento volta-se agora para a Mãe da Misericórdia.

A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus.
Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem.
Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne.
A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor.

Escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Aliança entre Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus.
O seu cântico de louvor, no limiar da casa de Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende «de geração em geração» [7].

Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem Maria.
Isto servir-nos-á de conforto e apoio no momento de atravessarmos a Porta Santa para experimentar os frutos da misericórdia divina.

Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus.

O perdão supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus.
Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém.

Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus.
E a nossa oração estenda-se também a tantos Santos e Beatos que fizeram da misericórdia a sua missão vital. Em particular, o pensamento volta-se para a grande apóstola da Misericórdia, Santa Faustina Kowalska.
Ela, que foi chamada a entrar nas profundezas da misericórdia divina, interceda por nós e nos obtenha a graça de viver e caminhar sempre no perdão de Deus e na confiança inabalável do seu amor.

25. Será, portanto, um Ano Santo extraordinário para viver, na existência de cada dia, a misericórdia que o Pai, desde sempre, estende sobre nós.

Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus.
Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar connosco a sua vida.
A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus.
A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio.
Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo.
A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo.
Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia.

Esta fonte nunca poderá esgotar-se, por maior que seja o número daqueles que dela se abeirem.
Sempre que alguém tiver necessidade poderá aceder a ela, porque a misericórdia de Deus não tem fim.
Quanto insondável é a profundidade do mistério que encerra, tanto é inesgotável a riqueza que dela provém.

Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor.
Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar.
Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar:

«Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre» [8].

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Abril – véspera do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia – do Ano do Senhor de 2015, o terceiro de pontificado.

Francisco






[1] Os 11, 5
[2] 11, 8-9
[3] Enarratio in Psalmos, 76, 11.
[4] Rm 10, 3-4
[5] cf.Mt 5, 48
[6] Ap 7, 4
[7] Lc 1, 50
[8] Sl 25/24, 6

21/06/2014

Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 2)


Tempo comum XI Semana

Evangelho: Mt 6, 24-34

24 «Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. 25 «Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? 26 Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? 27 Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? 28 «E porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. 29 Digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 30 Se, pois, Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? 31 Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32 Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 33 Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Não vos preocupeis, pois, pelo dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia bastam os seus trabalhos.

Comentário:


O que verdadeiramente está em causa á a confiança em Deus.
Não tem que ver com a passividade como se se deva esperar que o Senhor movido pela Sua misericórdia provesse tudo quanto possamos necessitar.

Não!

O Senhor nunca o fará!

Ele só completará o que, resultado do nosso esforço empenhado e coerente, nos faltar para viver como Ele quer que vivamos.

(ama, comentário sobre Mt 6, 24-34, 2014.03.02)


Leitura espiritual



Temas


A PAZ NA FAMÍLIA

…/2

A pessoa orgulhosa tem muito aguçado o espírito crítico. Não por rigor filosófico ou científico, mas por “superioridade” arrogante. O orgulho só lhe deixa ver o lado ruim dos outros, que ele contempla de cima para baixo, com ar de desaprovação, com um desprezo prévio, preconceituoso, que é parecido com o do fariseu da parábola de Cristo: Eu não sou como os outros homens [...], nem como este publicano (Lc 18, 11).

Como pode haver paz e harmonia num lar onde o pai, ou a mãe, ou o filho adolescente, ou a filha universitária..., passam a vida criticando, reclamando, resmungando e “botando defeito” em todas as coisas dos outros?

Para o irmão, o que a irmã disse é estúpido, e assim o proclama em voz alta; para o pai, os ideais e sonhos do filho são tolices, que lhe lavam o cérebro e o afastam da única coisa que interessa: ganhar dinheiro; a comida – responsabilidade direta da mulher – sempre está ruim: ou é salgada demais, ou é insossa, ou é uma fábrica de colesterol, ou parece ração de granja. Uns e outros só vêm que os demais falam alto, ou chegam tarde, ou não respondem, ou olham torto, ou não ligam nem um pouco para o que se lhes diz, ou têm amizades intratáveis, ou escolhem os piores momentos para fazer as coisas... Em resumo: críticas, críticas e mais críticas. Como se o “criticão” tivesse um sensor que só fosse capaz de captar o negativo.

Só a título ilustrativo, vou contar uma pequena e divertida história da vida real. Um casal de velhos. Ele, arrastando a perna, vai fazer as compras para a geladeira e a despensa (não no supermercado, mas na quitanda, como corresponde a um homem de outros tempos). Ela, boa pessoa, tem, no entanto, o vício de criticar. Volta ele da quitanda com o carro cheio: lá tem de tudo e um pouquinho mais. Mas a cara-metade, em vez de agradecer, só se lembra de gritar, com um rangido de arranhar a alma: “E o jiló? Cadê o jiló? Você se esqueceu do jiló!”

Essa corda da crítica fica ainda mais desafinada quando se transforma, por um pior desajuste, na corda da ironia ou do sarcasmo. Nestes casos, o desprezo é mais ferino.

Ironizar é quase sempre diminuir e humilhar o outro. Às vezes, é pisar em cima dele até deixá-lo esmagado no chão. Uma ironia bem aplicada é um dos golpes mais baixos que o nosso orgulho pode desferir nos outros.

– Puxa, desta vez, de cada três palavras que você falou com os convidados, só quatro eram asneiras. Parabéns, vai melhorando! – espeta o marido, sarcasticamente, na cara da mulher.

– Fulano (colega do marido) já foi promovido faz um ano, e você ainda pastando lá em baixo. Deve ser porque o ar daquele escritório de pé-rapado te faz bem... – ridiculariza a mulher, mexendo com um marido já complexado pela falta de sucesso profissional.

– Sabem de que sofre “o” neurónio da loira? – pergunta ironicamente o menino convencido, olhando com desprezo para a irmã. – Sofre de solidão!

No dia seguinte vem com outras duas piadas, que ele acha melhores ainda: – A loira burra (que, por sinal, é bem mais inteligente do que ele) só tem três neurónios no cérebro: um receptor, um emissor..., e o terceiro para atrapalhar os outros dois! E tem mais! Como é que a gente sabe que a loira usou o computador? Quando tem líquido corretor na tela!

Deus nos livre da ironia corrosiva, que é a escória da nossa vaidade e da nossa arrogância. Não poucas vezes, achando-nos “engraçadinhos”, estamos esfaqueando os outros. Peçamos a Deus que, em casa e fora de casa, saibamos praticar somente a ironia amável, simpática, aquela que não fere ninguém, mas alegra os corações e faz rir com gosto.

MAIS CORDAS DESAFINADAS

Existem outras cordas mal soantes do orgulho. Seria difícil lembrá-las todas. Mas, para ficarmos prevenidos e tentarmos melhorar, talvez seja útil examinar ainda mais três ou quatro delas.

Uma corda, um defeito muito aparentado com a crítica, é a mania de fiscalizar, partindo da base de que sempre existe “coelho no mato”. O paradigma pitoresco desse espírito de suspeita é a figura lendária do marido que, todos os dias, ao chegar a casa, aplica uma homérica surra na mulher e nos filhos, e esclarece depois: “Não sei o que eles fizeram, mas eles sabem...”

Há pais que parecem estar sempre a fazer uma auditoria na mulher e nos filhos, com um bloco de multas e o Código Penal na mão. A alguns deles, costumo chamá-los, brincando, “Catão, o Censor” [1]

E o mesmo se poderia dizer de certas mães, que mostram uma eterna desconfiança para com os filhos. Interrogam policialmente a todos sobre todas as coisas; vasculham gavetas, papéis e armários à procura de “algo errado”; não acreditam no que eles dizem; fazem complicadas pesquisas telefónicas para se certificar de que estiveram mesmo lá onde disseram que iam; perguntam mil vezes a mesma coisa, para ver se os apanham em contradição. Em consequência, os filhos se exasperam, ficam fora de casa o mais que podem e acabam caindo na teia de aranha das mentiras, provocadas pela desconfiança dos pais.
Quando essa desconfiança se dá entre marido e mulher, e degenera na doença mortal dos ciúmes, então a paz familiar está à beira do naufrágio. O lar torna-se uma câmara de gás, cada vez mais venenoso e asfixiante. O homem ou a mulher que se torturam, e torturam o cônjuge, com a máquina mortífera dos ciúmes, deveriam compreender que só têm duas saídas para esse beco letal: ou reconhecem que o ciúme é fruto de um requintado orgulho (o da pessoa que se sente como uma divindade nunca suficientemente adorada); ou aceitam o facto de que estão doentes, e vão-se tratar com um bom especialista. O que não é possível é dizer “Eu sou ciumento” e continuar a transformar o lar num inferno.

Também é manifestação clara de orgulho a mania de ter razão. Como é desagradável conviver com uma pessoa que, por princípio, não aceita que a contradigam, ainda que o façam serenamente e com bons argumentos; que não é capaz de ceder – até mesmo quando já não tem mais o que retrucar –, mas sente a necessidade de dizer a última palavra, porque não quer dar o braço a torcer. “Eu estou com a razão, e pronto!”

É tão bom ceder! Só é preciso ter um pouco de humildade, ungida com um pouco de caridade. O Bem-aventurado Josemaría Escrivá aconselhava sempre aos casais – e a todas as pessoas de boa vontade – a não discutir. “Da discussão – escrevia – não costuma sair a luz, porque é apagada pela paixão” 2. E punha um minúsculo exemplo prático, com palavras semelhantes a estas: – Para que discutir com a mulher, que afirma que a prima Fulana tem trinta anos, teimando em dizer que “já tem trinta e dois”? É melhor ceder, e não atear uma discussão por uma insignificância. Que importância têm dois ou três anos a mais ou a menos?

Às vezes, para ajudar algum obstinado discutidor a abaixar as armas, costumo dizer-lhe: “Você já pensou que ninguém vai para o Céu pelo facto de «ter tido razão» nas discussões? No dia do Juízo, ninguém vai perguntar-lhe se, na vida, você «teve razão». Pelo contrário, vão perguntar-lhe se soube compreender os outros, se soube perdoar, aparar arestas e espinhos no convívio e evitar conflitos por minúcias tolas”.

Por último, para não fazer uma enumeração interminável de cordas do orgulho, vou lembrar algo que me dizia recentemente um velho amigo, e que me deixou pensativo e comovido. Eu vinha meditando sobre o que agora estou a escrever, e ocorreu-me perguntar a esse amigo (pai de uma família unida e exemplar, que acabava de celebrar as Bodas de Ouro do seu felicíssimo casamento): “Fulano, qual acha você que é o segredo da paz familiar?”

Confesso que esperava umas palavras um tanto românticas. Por isso, surpreendeu-me a resposta: “Eu diria que o segredo da paz na família é a educação”.

Reconheci, depois, que há nessa resposta uma enorme dose de sabedoria cristã, acrisolada pela experiência. A grosseria, com efeito, não resulta só da deficiência de formação de berço. É sempre um ato de orgulho, porque constitui uma falta de respeito para com a pessoa rudemente tratada, um rebaixamento, uma humilhação. Na terceira parte desta obra, ao falar dos bons caminhos que levam à paz, deveremos mencionar o respeito – feito de humildade, compreensão e grandeza de coração –, como base indispensável para o amor e, portanto, para a harmonia e a paz. Mas, por ora, vamos deixar este assunto por aqui.

SEGUNDO PORÃO: O EGOÍSMO COMODISTA

HISTÓRIA TRISTE DE CHUPIM

Rubem Braga tem uma crônica deliciosa, intitulada História triste de tuim. Vamos começar este novo item com uma crónica nada deliciosa, que poderíamos chamar História triste de chupim.

Na casa onde moro, há um pedacinho de jardim na frente e um quintal nos fundos. É visitada o ano inteiro por pássaros os mais diversos, que enchem o quintal de cores e alegria.

Na primavera, fervilham: lá faz ninho o sabiá, cria a corruíra e se multiplica a rolinha. Mas, ano após ano, uma sombra escura desce sobre esse pequenino paraíso alegre. Um dia qualquer, observa-se bicando o chão, com ar distraído e olhar sorrateiro, um casal de chupins, pretos como o azeviche. Por mais que disfarcem, ninguém se ilude sobre os seus propósitos. Estão a espiar a ingenuidade com que o tico-tico prepara, laboriosamente, o seu ninho. Aproveitando um descuido dos inocentes passarinhos, a fêmea do chupim depositará no ninho deles um ou dois de seus ovos, e desaparecerá, lavando as mãos – ou o bico – dos trabalhos aborrecidos de ter que construir um ninho, chocar os ovos e alimentar os filhotes.

Só quer vida livre, e os tico-ticos que aguentem o tranco!

Mas isso não é o pior. Correm os dias e nascem as crias. No ninho, começam a conviver pequenos tico-ticos e o ainda pequenino chupim. A mãe tico-tico, numa azáfama incansável, vai levando comida para aqueles quatro ou cinco biquinhos abertos. Passam-se mais uns dias, e o filhote de chupim já cresceu. Logo vai crescendo mais, ocupa quase todo o ninho, lá mal cabem todos. Até que, numa manhã, descobre-se com o coração cortado o gordo filhote de chupim refestelado no ninho e, no chão, mortos ou agonizantes, os filhos legítimos do tico-tico, que foram sendo empurrados para fora porque o chupim precisava do espaço inteiro do ninho.

A imagem do chupim não é nada obscura, parece-me, quando aplicada aos conflitos do lar. Porque o chupim é um símbolo claríssimo do egoísmo na vida familiar. Em casa e fora dela, se as pessoas não dominam a tendência para o egoísmo e o comodismo que todos trazemos dentro, esses defeitos vão crescendo cada vez mais e, gordos como o chupim, acabam por repelir ou machucar seriamente os outros. Convençamo-nos de que não é só com a agressão, a ofensa, a irritação, a crítica e a prepotência que se criam conflitos familiares.
Muitos, muitíssimos deles, são fruto da hipertrofia do comodismo egoísta.

Na sua Carta às famílias, João Paulo II convida-nos a perguntar-nos se o egoísmo que, como diz, “se esconde inclusive no amor”, não acaba por ser “mais forte do que este amor” 3.
Vamos agora fazer-nos essa pergunta, ao mesmo tempo que procuramos identificar manifestações de egoísmo e comodismo que não raro grassam na vida familiar.

(cont.)

_______________________________________
Notas:
(2) josemaría escrivá, Caminho, 8a. ed., Quadrante, 1995, n. 25;
(3) joão paulo ii, Carta às famílias, n. 7;







[1] marco pórcio catão (234-149 a.C. personalidade pública de Roma que recebeu o apelido de censorius pelo rigor inflexível com que criticou o relaxamento de costumes, devido à influência grega.