Mostrar mensagens com a etiqueta Leitura espiritual - A paz na família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leitura espiritual - A paz na família. Mostrar todas as mensagens

23/12/2017

Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

MAIS VIRTUDES AMÁVEIS

Virtudes amáveis criam vida amável. Páginas atrás, mencionávamos a resposta daquele velho amigo que acabava de celebrar as Bodas de Ouro, à pergunta sobre o que, na opinião dele, mais tinha contribuído para a paz familiar. – “A educação”, respondeu.
Os detalhes de educação, as gentilezas, as delicadezas sorridentes, não são só para praticar fora de casa, com os estranhos, nem são coisas ultrapassadas pelo à-vontade moderno (que é tão antigo como a mais velha grosseria). Não sei por quê, mas parece que basta atravessar a porta do lar para que se afrouxem e se soltem todas as normas da educação.
Vem-me agora à memória um facto recente, nada exemplar. Falava-me alguém, com tristeza, de um casal que se tratava de maneira rude e grosseira. Num daqueles dias, após uma briga com troca de insultos, em que a mulher chamou o marido de “cavalo”, acabou gritando-lhe, quando ele estava saindo de casa:
– “Não se esqueça de levar a ferradura!”
E ele retrucou, no mesmo nível:
– “Não, vou deixá-la aqui mesmo. Com certeza você vai precisar muito dela”.
Diálogos desse teor – e bem mais cavalares e chulos –, infelizmente, não são infrequentes nos lares.
Sabemos dizer “Por favor”? Sabemos ceder o melhor lugar na sala para assistir à televisão? Sabemos escolher o pior pedaço nas refeições? Sabemos apressar-nos no banho, para não fazer esperar outros? Sabemos agradecer, dizendo “Obrigado, muito obrigado, já percebi que você se lembrou de me comprar tal coisa”? Sabe o marido dizer, com um brilho sincero nos olhos: “Você está linda com esse vestido novo”, “Você prepara o melhor vatapá do Brasil”, “O que seria desta casa sem você?” Sabe ela “esperar” o marido, não para despejar-lhe em cima a carga elétrica acumulada durante o dia, mas para cumulá-lo de pequenas atenções?
Para os maridos, concretamente, parece-me interessante transcrever um caso narrado, com estilo de ficha médica, por outro psiquiatra:
“Ele tem vinte e nove anos e ela vinte e quatro. Classe média. Têm pouco mais de dois anos de casados, e já um ano depois de morarem juntos começaram fortes tensões entre os dois, com momentos muito difíceis. Numa dessas ocasiões, ela foi para a casa dos pais e voltou poucos dias depois. Têm um filho”.
O médico pede à jovem esposa que faça uma lista das coisas de que sente mais falta, e ela indica os seguintes pontos:
“1. Que, durante o café da manhã, fale comigo e não se dedique a ler o jornal sem me dizer nada; que me conte o que vai fazer nesse dia, ainda que ache que não é importante.
“2. Que me beije ao sair de casa e ao voltar.
“3. Que diga alguma coisa agradável sobre a minha apresentação: «Hoje você está linda», «como lhe fica bem essa blusa» ou alguma coisa simpática e bem-humorada..., como costumava fazer no namoro.
“4. Que me pergunte como foi o meu dia, o que fiz, como me sinto.
“5. Que não se mostre mais carinhoso só quando quer ter relações íntimas comigo.
Isso é uma coisa que me revolta.
“6. Que «perca o tempo» com seu o filho quando chega do serviço, e não se feche no quarto com os seus papéis.
“7. Que colabore em algumas pequenas tarefas da casa: preparar a mesa, trazer os guardanapos, tirar as pedras de gelo da geladeira, etc.
“8. Que, nos dias «especiais», me leve a jantar fora, como fazíamos quando namorávamos ou logo depois de casados; e que se arrume e não vá com a mesma roupa com que esteve trabalhando” [i].
Também os maridos poderiam fazer listas análogas. E os filhos. E os pais. E todos eles deveriam lembrar-se de que existe um ato, um gesto precioso e insubstituível, que torna cálidas e luminosas todas as amabilidades e serviços: o sorriso.

CARAS SORRIDENTES

“Não esqueças – dizia Mons. Escrivá – que, às vezes, faz-nos falta ter ao lado caras sorridentes” [ii]. Ele o recomendava, e – sou testemunha disso – praticava-o em favor dos outros todos os dias e a todas as horas. Costumava dizer – por experiência própria – que, em muitas ocasiões, “sorrir é a melhor mortificação”, pois com ela prestamos um grande serviço, tornando a vida mais amável e alegre aos que convivem connosco.
É estranho, mas alguns pensam que sorrir sem ter vontade é hipocrisia. Não é verdade. Fazer o esforço de sorrir para evitar preocupações, angústias, tormentas ou cerração no lar é um grande acto de amor. O sorriso dissipa nuvens, desarma irritações, abre uma nesga de céu por onde entra o sol da alegria. Por isso, deve-se lutar esforçadamente para não privar desse bem os outros. Sorrir não é só uma reação espontânea, uma atitude “natural” incontrolável; pode – deve, muitas vezes – ser um ato voluntário de amor, praticado com esforço consciente, pensando no bem dos outros.
A este propósito, gosto de recordar um cartão de Boas-Festas que um padre amigo me mandou em fins de 1992. Era uma folha de papel simples, xerocada na paróquia, e trazia uma espécie de poema. Não sei se era da autoria dele, ou se o tomara emprestado de alguma publicação. Seja como for, o conteúdo era extremamente simpático. Debaixo do cabeçalho –
Um sorriso –, vinham as seguintes frases:
– “Não custa nada e rende muito.
– “Enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o dá.
– “Dura somente um instante, mas os seus efeitos perduram para sempre.
– “Ninguém é tão rico que dele não precise.
– “Ninguém é tão pobre que não o possa dar a todos.
– “Leva a felicidade a todos e a toda a parte.
– “É símbolo da amizade, da boa vontade, é alento para os desanimados, repouso para os cansados, raio de sol para os tristes, ressurreição para os desesperados.
– “Não se compra nem se empresta.
– “Nenhuma moeda do mundo pode pagar o seu valor.
– “Não há ninguém que precise tanto de um sorriso como aquele que já não sabe sorrir.
– “Quando você nasceu, todos sorriram, só você é que chorava. Viva de tal maneira que, quando você morrer, todos chorem e só você sorria”.
Como vemos, doçura, mansidão, paciência, educação, gentileza, sorriso..., são fontes de paz no lar. Não haverá outras “virtudes amáveis” que também colaborem para a paz? Há muitas, com certeza. Por exemplo, uma virtude que poucos relacionam com o nosso tema: a virtude da ordem. Torna-se mais fácil a paz num lar em que, sem esquemas excessivamente rígidos, existe ordem material, pontualidade, previdência e ordem nos horários. O ambiente de ordem facilita a tranquilidade e elimina muita confusão e agitação. Todos temos a experiência de que a desordem e o desmazelo – como lembrávamos antes – criam inquietações e mal-estar.
Outro exemplo de virtude amável: a confiança em Deus. Perante os problemas, sofrimentos e incertezas que sempre pairam ameaçadoramente sobre a vida familiar, a pessoa que não confia em Deus sente-se insegura, angustia-se e transmite aos outros essa sua intranquilidade. Se soubesse confiar em Deus, manter-se-ia serena e difundiria segurança à sua volta.
Poderíamos pensar ainda na virtude da afabilidade, na importância de cultivar o bom humor, no esforço por comentar o lado positivo das coisas, na necessidade de evitar apreciações apocalípticas sobre a vida, e em tantas outras manifestações de virtudes, que contribuem poderosamente para a paz no lar. Mas, como não é o caso de prosseguir até ao infinito, teremos que encerrar estes comentários por aqui... Deixaremos apenas estas reticências, para que o leitor as preencha com as suas belas experiências de paz familiar.
Em todo o caso, de tudo o que – sem pretensões de esgotar o tema [iii]– foi comentado nestas páginas, talvez possa ficar-lhe, com a ajuda de Deus, uma linha de rumo, uma directriz para a consciência cristã: a certeza de que a paz só morre nas mãos do egoísmo, só é destruída pela falta de virtudes pessoais; e, ao mesmo tempo, a convicção de que a paz – em quaisquer circunstâncias – só é edificada e garantida pelo amor abnegado e pelas amáveis virtudes que Cristo nos ensinou.

 FRANCISCO FAUS [iv]




[i] Enrique Rojas, op. cit., págs. 217-218;
[ii] Sulco, n. 57.
[iii] Sobre o tema das virtudes na vida do lar, vale a pena ler também as obras de Georges Chevrot, As pequenas virtudes do lar, 4a ed., Quadrante, São Paulo, 1990, e O Evangelho no lar, Quadrante, São Paulo, 1992.
[iv] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

22/12/2017

Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

PERDOAR DE TODO O CORAÇÃO

“Certo – pode dizer alguém –, eu perdoo, gostaria de perdoar, mas não consigo esquecer. Portanto, o meu perdão não vale nada, pois Cristo manda perdoar de todo o coração”.
Quantos não sofrem, angustiados, por essa incapacidade que têm de esquecer mágoas e ofensas! “Eu tento – dizem –, eu quereria esquecer, eu me esforço, mas continuo lembrando-me e, de cada vez que lembro, vem-me aquela fervura, sinto raiva, sinto antipatia, não aguento ver a pessoa na minha frente”.
Deus não nos pede impossíveis, e mudar sentimentos involuntários, muitas vezes, é um impossível. Então, o que é que Deus pede quando nos fala de perdoar de todo o coração? Com muita clareza no-lo diz o Catecismo da Igreja Católica: “Não está em nosso poder não mais sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão” (n. 2843).
É um jacto de luz e um conforto, porque é algo que uma pessoa de boa vontade sempre pode fazer.
Primeiro, transformar “a ferida em compaixão”. Não, naturalmente, na compaixão que despreza, olhando o “coitado” de cima para baixo. Mas na compaixão verdadeira que, sabendo passar por alto a mágoa pessoal – ainda que essa continue como um sentimento que não conseguimos eliminar –, percebe que a atitude errada do outro é uma ferida que ele próprio infligiu a si mesmo. Como é lógico, a “compaixão” vivida conscientemente – com autêntico esforço de compreensão – deixa cada vez menos espaço no nosso coração para o rancor.
Depois, o Catecismo fala de “purificar a memória, transformando a ofensa em intercessão”, isto é, em oração, pedindo a Deus por aquele que nos ofendeu. Esse é exatamente o ensinamento de Cristo: Orai pelos que vos maltratam e perseguem (Mt 5, 44).
Todos nos comovemos quando lemos as histórias dos mártires que, a exemplo de Cristo, rezavam fervorosamente pelos seus algozes. Mas, por que achamos que isso não é connosco?
A esposa, o marido, os filhos, podem ser difíceis, mas não são – normalmente – os nossos algozes. Quantas vezes rezamos por eles? Mais concretamente, lembramo-nos de rezar por eles – depois do primeiro sufoco, mesmo que o ânimo continue a ferver – todas as vezes que nos ofendem ou nos tratam com desconsideração? Será que isso nos parece esquisito ou impossível? Seria uma pena se fosse assim, porque é um ponto básico do espírito cristão. É preciso decidir-nos a lutar por vivê-lo.

NÃO APENAS ESQUECER, MAS ESQUECER-SE

E agora vejamos a humildade. É mais uma virtude que São Paulo cita como arma de paz, e não poderia deixar de ser assim, uma vez que, como vimos acima, o orgulho é o principal inimigo da paz.
Há uma manifestação de humildade que deveríamos pedir insistentemente a Deus, pois favorece a paz: é a graça de não sermos suscetíveis. O orgulhoso é muito sensível, é desconfiado, magoa-se por tudo e por nada. Têm que se medir as palavras para falar com ele: – “Cuidado com o que dizes, cuidado com o modo de olhá-lo, porque pode interpretar mal!”
“A maioria dos conflitos em que se debate a vida interior de muita gente – dizia Mons. Escrivá – é fabricada pela imaginação: é que disseram..., é que podem pensar..., é que não me consideram... E essa pobre alma sofre, pela sua triste fatuidade, com suspeitas que não são reais. Nessa aventura infeliz, a sua amargura é contínua, e procura produzir desassossego nos outros: porque não sabe ser humilde, porque não aprendeu a esquecer-se de si própria para se dar generosamente ao serviço dos outros por amor a Deus” [i].
Nestas palavras, ao lado do diagnóstico da susceptibilidade, indicam-se os dois principais remédios: aprender a esquecer-nos de nós mesmos; e dar-nos generosamente ao serviço dos outros. São dois aspectos da humildade que têm a maior relevância para a paz familiar.
Faz alguns anos, veio-me às mãos, não sei dizer como, o texto de uma mensagem que a rainha Fabíola dirigiu ao povo belga por ocasião dos trinta anos do seu casamento com o rei Balduíno. A data era de 15 de Dezembro de 1990 e o texto da mensagem era o seguinte: “Eu vos direi, simplesmente, que estes têm sido anos de felicidade, devido em grande parte à gentileza do meu marido, às suas atenções, a um constante esquecimento de si mesmo que jamais ficou desmentido. Ele tem para comigo uma paciência a toda a prova: foi a paciência que permitiu ao nosso amor crescer e expandir-se. Esse esquecimento de si, em favor do outro, é a verdadeira chave do casamento”.
Esquecer-se: palavra maravilhosa. São Paulo aplica-a a Cristo, dizendo que se esqueceu de si, que se aniquilou a si mesmo, assumindo a condição de servo... (Fil 2, 7). O esquecimento é a face oculta do amor, aquilo que nos facilita amar libertos da carga do “eu”.
Assim o fez Cristo: esqueceu-se de Si até fazer-se “nada” – aniquilando-se –, para dar-se totalmente a nós. E d’Ele, entregue e esquecido, afirmará São Paulo que é a nossa paz (Ef 2, 14).
Em que pensamos habitualmente? Em quem pensamos? Já é hora de deixar de preocupar-nos tanto por nós mesmos, de deixar de avaliar tudo o que os outros fazem – “é bom, é ruim” – pelos reflexos que projeta no espelho do nosso “eu”. Somente quem se esquece humildemente de si é capaz de se doar. “Oxalá te habitues a ocupar-te diariamente dos outros, com tanta entrega que te esqueças de que existes!” [ii]

O SERVIDOR DE TODOS

Com estas palavras – ser o servidor de todos –, Cristo procurou reiteradamente curar o egoísmo e a ambição dos seus Apóstolos. Várias vezes, o Evangelho nos apresenta aqueles homens bons e rudes, que Jesus chamou e que ia formando pacientemente junto de Si, a discutir sobre qual deles seria o maior. Em todas essas ocasiões, Jesus deu-lhes uma resposta “radical”: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servidor de todos (Mc 9, 34-35). E aproveitou para recordar-lhes que esse era justamente o caminho que Ele quis seguir: O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para salvação de muitos (Mt 20, 28).
Como seria delicioso um lar em que todos estivessem dispostos a servir uns aos outros; mais ainda, em que competissem uns com os outros, para ver quem serve mais e melhor. Seria o império da paz e da alegria. Porque é evidente que quem serve, quem deseja servir, não se lembra de reclamar e, em consequência, está pouco predisposto a brigar ou a descambar para o mau-humor.
Grande parte das queixas que há no lar obedecem ao desejo de “sermos servidos”.
Pensamos, amargurados, que se esqueceram de nós; que não nos dão atenção; que não nos tratam com carinho; que não preparam a comida de que gostamos; que têm a rara habilidade de mudar de canal de televisão quando estamos assistindo ao nosso programa preferido...
Em suma, não nos “servem” o que achamos justo receber.
Quem tem espírito de serviço, sem cair na conivência com a desordem, reclama pouco e faz muito. E o que faz – se realmente é humilde – possui as seguintes características:
– É um serviço feito com alegria. Uma pessoa que serve resmungando, como se fosse um mártir condenado a trabalhos forçados, torna o seu serviço desagradável e deixa o ambiente rarefeito. É natural que os outros, enervados – por exemplo – pela mulher que reclama do trabalho que lhe dão, ou pelo marido que resmunga, ou pelos protestos dos filhos ante o menor pedido de ajuda, tenham vontade de gritar: “Pára com isso! Prefiro eu fazer tudo a estar tendo que aturar tanta reclamação!”
– Depois, é um serviço feito com elegância, isto é, sem lhe dar importância. Como é desagradável a pessoa que serve e, depois, fica cobrando os serviços prestados: “Eu fiz muito mais do que deveria fazer; chega, agora façam vocês”, “Eu passo o dia dando duro e vocês – os filhos –, na maior gandaia”. “Eu já fui ontem comprar pão, agora que vá a minha irmã”... Cristo, pelo contrário, ensina-nos de modo explícito que, depois de termos feito tudo, devemos dizer, sem nenhuma vaidade: Não fizemos mais que o que devíamos fazer (cf. Lc 17, 10).
– Finalmente, é um espírito de serviço que sabe adiantar-se. Muitos servem, realizam serviços, mas puxados sempre pelos outros: pelo que os outros pedem ou mandam.
Deles próprios, não parte iniciativa nenhuma.
Quando temos espírito de serviço, o coração e a mente estão vigilantes, e fazemos o que dizia São Paulo: Adiantai-vos em honrar uns aos outros (Rom 12, 10). Adiantamo-nos, fazemos as coisas antes que os outros as tenham que fazer, poupamo-los com carinho.
Como é agradável o ambiente de uma casa onde a mulher, que anda fatigada, descobre com surpresa que, sem dizer nada, a filha de treze anos se levantou um pouco antes da hora e está preparando o café; ou que o menino, sabendo que a empregada foi embora, arrumou ele
sozinho – milagre! – a sua cama; ou que vê aparecer o marido na cozinha, a cantarolar “Romaria” (“Sou caipira, Pirapora...”), pondo-se de repente a lavar a louça! Isso é uma bênção de paz para o lar.

UM CORTEJO DE VIRTUDES AMÁVEIS

Voltando ao texto de São Paulo, depois da humildade, mencionam-se outras virtudes: primeiro, uma virtude que tanto pode traduzir-se por doçura como por mansidão; e, depois, a virtude da paciência.
Como é natural, São Paulo não pretende fazer aí um tratado exaustivo: não afirma que as virtudes que enumera sejam “todas” as virtudes que contribuem para a paz. Mas, sem dúvida, todas elas estão relacionadas com a paz e, por isso, servem-nos muito bem de pauta.
Doçura, paciência, serenidade, mansidão. Só de ouvirmos estas palavras, parece que a paz já se derrama na nossa alma.
Há pessoas que, por estarem perto de Deus, difundem em todos os que as cercam ma paz serena. Bem-dispostas, pacientes, suaves nos modos, são, ao mesmo tempo, gentis e cheias de delicadezas. Junto delas, experimentamos uma sensação de bem-estar parecida com a que nos envolve ao contemplarmos um suave e lento entardecer no campo.
Sem as virtudes amáveis, a vida torna-se dura, áspera, cheia de atritos. Na verdade, qual é a fonte mais comum das palavras, dos olhares e dos gestos desagradáveis? Sem dúvida, a irritabilidade e a impaciência não controladas. Ninguém tem vontade de chegar a uma casa em que a mulher grita e se impacienta por qualquer contrariedade; ou em que o pai está sempre esbravejando, furioso, e bronqueando a todos.
Em compensação, quando o marido ou a mulher possuem as virtudes amáveis de que estamos falando, os dois têm ânsias de chegar a casa, cada um sente uma pontada de vazio quando o outro está ausente, e experimenta um sobressalto de alegria quando percebe que está voltando para o lar.
Os médicos falam do sinal “patognomónico” que, como explica o dicionário, é o sintoma característico de uma doença. O professor de psiquiatria e escritor J.A. VallejoNágera comentava, a este respeito, numa entrevista autobiográfica: “O sinal patognomónico de que um casamento funciona bem é o barulhinho da chave na fechadura da porta da casa.
Eu estava acostumado a chegar a casa e a que a Viky [a esposa] estivesse à minha espera.
Se, por um motivo qualquer, não estava, eu sentia um vazio, um oco. Diria até que notava o som do vazio. Quando, passado um tempo, ouvia o elevador e, depois, o barulho da chave sendo introduzida na fechadura, e sentia que o meu coração se alegrava, ficava certo de que o meu casamento funcionava. Tenho praticado muito no meu consultório o teste da chave, como eu o chamo, com pacientes que têm problemas matrimoniais” [iii].

(cont)

FRANCISCO FAUS [iv]




[i]  Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, n. 101;
[ii] Josemaría Escrivá, Sulco, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 947;
[iii] J.A. Vallejo-Nágera e J.L. Olaizola, La puerta de la esperanza, Rialp Planeta, 21a. ed., Barcelona, 1992, pág. 141;
[iv] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

21/12/2017

Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

A IMAGEM IDEAL E A IMAGEM REAL

Muitos, sem nem darem por isso, fazem dos outros e, concretamente das pessoas da família, como um espelho de si mesmos. Encaram a mulher, o marido, os filhos, como espelhos em que gostariam de ver-se refletidos: sempre lhes agradaria contemplar neles os seus gostos, os seus desejos, os seus sonhos. Os outros só são estimados como projeção de si mesmos.
É preciso virar cento e oitenta graus esse espelho, é preciso abrir o coração e fazer o que, com expressão feliz, Gustavo Corção chamava “a descoberta do outro”.
“O marido, cheio de razões – escreve esse autor –, não admite que a mulher fale de certo modo, tenha tal tique ou qual mania. Que a sua maneira de andar, de partir o pão, de atender o telefone, seja a sua maneira. O confronto diário, entra ano sai ano, é insuportável para cada cônjuge [...]. Cada um se procura a si mesmo na face que lhe fica em frente e, nos dias piores, fica desvairado, atormentado, enlouquecido, como homem que visse no seu espelho uma imagem absurda, diferente da sua, a fazer gestos disparatados e femininos”.
Nesse clima de auto-procura, continua a dizer Corção, as pessoas “são coisas de mim mesmo que circulam fora de mim para melhor me servir. O eu fica no centro de um universo escuro, em volta estão os corpos tributários: este traz-me o café, aquele a carícia”.
Para quebrar esse curto-circuito perverso, é necessário fazer a “descoberta do outro”. A descoberta de que o marido, a mulher, os filhos, são o “outro”, que deve ser compreendido e amado por si mesmo. A caridade cristã leva, então, a ver nos outros membros da família o próximo, “esse que amaremos como a nós mesmos [...]. Vivemos esbarrando no próximo, porque não nos ocorre, na espessura da nossa escuridão, que ele tenha direito à objetividade, que seja o outro” [i].
Sim. Como custa entender que o cônjuge, ou o filho, ou a filha, ou os pais, sejam “eles”! No entanto, esse olhar compreensivo é o primeiro passo do entendimento, da paz, do amor.
Na realidade, qual é a causa mais profunda das desavenças, das brigas, dos maus humores, dos desentendimentos familiares? É que temos uma “imagem ideal” da pessoa (o que desejaríamos que a esposa, o filho, o pai fossem...), mas encontramo-nos a cada passo com a “imagem real”. Essa imagem real – que é a única que existe – irrita, decepciona. O choque com a imagem real, que parece arrebentar os sonhos ideais, azeda e desgasta o dia-a-dia, fere a harmonia familiar, que – rachada já por tantas incompreensões – pode ficar estilhaçada.
O primeiro passo do amor misericordioso consiste em procurar entender os outros, sabendo que são outros. Para isso, antes de mais nada é necessário respeitá-los. Um ser humano é um mundo que deve ser encarado com um respeito imenso. Deus faz assim connosco, dá-nos um enorme valor, embora sejamos – como somos – pobres pecadores: para Ele valemos o preço do sangue de Jesus Cristo.
“Cada criatura humana – diz um autor espiritual – é um enigma, uma palavra velada.
Todo o trabalho da caridade paciente consiste em decifrar esses enigmas e em encontrar o seu sentido” [ii].
Entender exige um acto consciente, um propósito deliberado de compreender. Como dizia um conhecido orientador familiar, “os amantes são aqueles que se amam; os esposos são aqueles que se empenham em amar-se” [iii].
Existe esse ato deliberado, esse empenho, quando alguém diz: “Eu, a partir de hoje, faço o propósito de esforçar-me seriamente por entender a minha mulher; eu quero entender o meu filho”.

OS CANAIS DA COMUNICAÇÃO

Se esse propósito for sincero, quem o fez logo verá que precisa de lutar contra vários defeitos que lhe dificultam a compreensão. Em primeiro lugar, terá de lutar contra o preconceito. No lar, os preconceitos podem ser inúmeros. “Já nos conhecemos!” – dizem uns aos outros; e assim, mal o marido abre a boca, a mulher, sem se dar ao trabalho de escutá-lo, corta: “Você já vem de novo com a mesma história, você não muda”; assim que o pai começa a explicar a dificuldade que tem de aumentar a mesada, logo o filho o interrompe: “Ah, pai, sempre podando”... Antes de ouvir, já se tem o filme do outro, pronto e revelado, como se as pessoas fossem clichês que não pudessem mudar.
Como é importante o “empenho” em entender: “Por que ele ou ela é assim? Como é mesmo por dentro? Que lhe acontece? Que teme? Que desejaria? O que o faz sofrer?...”
Não se trata de fazer “análise”. Deus nos livre do marido “analista” da mulher ou vice-versa. Mas trata-se, sim, de abrir o coração à compreensão. Para isso, é muito necessário aprender a bela arte de escutar, que nos permite amplificar os canais da comunicação, do diálogo compreensivo.
Não pratica certamente essa arte aquele tipo de marido que, chegando a casa com ar cansado, desaba na poltrona. A mulher está ansiosa por falar-lhe, e ele, abanando a cabeça como quem faz uma magnânima concessão a um ser inferior, diz-lhe: – “Vai, fala”. Ela desabafa enquanto ele olha para o infinito, com inexpressividade de peixe. – “Já acabou?”, pergunta ele e recolhe-se atrás do jornal.
Pelo contrário, pratica a arte de escutar aquele que deixa falar o outro: escuta-o com atenção até que termine; evita acusações ou desqualificações; não se serve de expressões do tipo “já sei, não precisa dizer-me”; toma cuidado com as interpretações erróneas de palavras, frases, gestos ou atitudes; sabe pedir amavelmente esclarecimentos; está atento ao assunto da conversa, sem pular abruptamente para outro; evita expressões cortantes como “Isso não admito”, “Não aguento esse modo de falar”, “Você não muda”, etc. [iv].
Só o respeito, sem preconceitos nem precipitações, pode levar a “entender” o outro.
E, quando a compreensão vai crescendo, deixa-se de dizer: “Ele deveria ser assim”, e passasse a dizer: “Ele é assim; portanto, o que é que eu devo fazer?”
Então, como diz o Papa, a nossa misericórdia “reavalia, promove e tira o bem de todas as formas de mal” (ou seja, dos defeitos, das limitações, das más disposições dos outros). É uma verdade comprovada que, quando procuramos compreender uma pessoa, facilmente descobrimos qual é a nossa atitude – a palavra, o silêncio – que mais a poderia ajudar, que poderia fazer-lhe maior bem. Nisso consiste a bondade de que fala São Paulo no texto que estamos a comentar [v]. Quando cada membro da família se esforça por entender os outros, todos acabam “entendendo-se” cada vez mais. Assim garantem a paz.

O CUME DA MISERICÓRDIA

O cume da misericórdia, como ensina Cristo, é o perdão. Mas, na vida em família, o perdão, muitas vezes é o cúmulo da dificuldade. Como custa perdoar no lar! E, no entanto, é muito mais daninho para a paz familiar guardar rancores, curtir ressentimentos e andar com revides, do que explodir momentaneamente, dando vazão à ira, ao grito e ao sopapo.
Creio que todos nós experimentamos um estremecimento quando encaramos de frente duas declarações de Cristo:
– depois de nos ensinar a rezar: perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, Jesus acrescenta: Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará (Mt 6, 12.15). Já imaginamos o que seria, para nós, o dia do Juízo, se Deus nos perdoasse só como nós perdoamos os outros?
– o segundo ensinamento deixa-nos pensativos e um tanto perturbados. Repetindo de certa forma o anterior, introduz um novo matiz. Cristo acaba de narrar a parábola do servo cruel, que tendo sido perdoado de uma grande dívida pelo seu senhor, não perdoa um companheiro que lhe deve uma insignificância. O senhor do servo castiga-o severamente e, como moral da parábola, Cristo conclui: Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um não perdoar a seu irmão de todo o coração (Mt 18, 35).
Há pessoas que parecem ter no coração um computador com capacidade de muitos gigas, em cuja memória se vão guardando todas as mágoas, perfeitamente contabilizadas:
“Não se lembrou do meu aniversário”, “Faz dez anos que não me traz flores nem bombons”, “Ela não aceitou a minha explicação «verdadeira» sobre os meus atrasos à noite e acusa-me de infidelidade”, “Quando éramos namorados, no dia tantos de tantos de mil novecentos e tantos, às dezoito e trinta e cinco horas, na esquina das ruas tal e qual, ele me ofendeu dizendo xis ou ípsilon”, “Ela passa o dia na casa da sua mãe, como se não tivesse marido e filhos”, “Ele não quis ir ao casamento do meu sobrinho, sabendo que magoava toda a minha família”, “Você disse isso porque meus pais são pobres”, e assim por diante.
Basta que qualquer faísca provoque uma irritação, basta uma má interpretação, uma crítica, uma zombaria ou um protesto, para que a pessoa que se sente ofendida “clique” no seu computador invisível e apareça no vídeo o arquivo dos “agravos”, com uma lista interminável. Essa enxurrada de reminiscências negativas cai então como um raio sobre o outro, reacende a fogueira das acusações mútuas e aumenta o círculo vicioso dos rancores e das recriminações. Adeus à paz! São Paulo sabia bem de que massa estamos feitos e, por isso, pensando no amor que gera a paz, dizia, como víamos acima: Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós (Ef 3, 13).
Como são importantes os pequenos perdões no lar! Esforcemo-nos, pelo menos, por calar-nos: não retruquemos, não firamos sensibilidades. Façamos um propósito espiritual altamente recomendável: “Nas discussões, lá em casa, eu faço questão de dizer a penúltima palavra”. Quem se obstina em dizer a última, inevitavelmente atiça a chama da discussão.
Mas calar-se não é carneirismo? Será que tenho que aceitar todas as injustiças e humilhações? Não. Às vezes, pode-se – e deve-se – cortar energicamente e na hora um despropósito, mas não há necessidade de cair numa interminável discussão, nem de ficar remoendo horas e dias. Outras vezes, convirá calar e esperar, e mais tarde, tentar um diálogo sereno e esclarecedor ou fazer uma correção tranquila; em outras ocasiões, nada facilitará tanto o arrependimento do outro como mostrar-lhe – sem humilhá-lo – grandeza de alma. Uma pessoa ofendida que trata bem, com coração magnânimo, aquele que o ofendeu, é moralmente “superior”, não pelo orgulho, mas pela bondade. Com isso, desarma o agressor, que pode perceber a sua tola mesquinhez em contraste com esse amor maior.

(cont)

FRANCISCO FAUS [vi]





[i] Gustavo Corção, A descoberta do outro, Agir, Rio de Janeiro, 1967, págs. 226-228;
[ii] Um Cartuxo, Silêncio com Deus, Aster, Lisboa, 1956, págs. 141-142;
[iii] Pedro-Juan Viladrich, A família “soberana”, em L'Osservatore Romano, 26.08.1994, pág. 5;
[iv] cfr. a obra do psiquiatra Enrique Rojas, Remedios para el desamor, Ediciones TH, Madrid, 1990, págs. 228 e segs.;
[v] Sobre a bondade, cfr. Francisco Faus, O homem bom, Quadrante, São Paulo, 1990.
[vi] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

20/12/2017

Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

VOCAÇÃO DIVINA, VOCAÇÃO DE AMOR

“Compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família”, ter “consciência da própria missão”.
Para muitas moças e rapazes, frases como as que acabamos de ler devem parecer-lhes belas palavras ou sonhos irreais. E, no entanto, desses ideais sobre o casamento e a família, que eles ainda não entendem, “dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade”.
O casamento e a família, como qualquer outra vocação, significam para um cristão um chamamento pessoal de Cristo, um apelo para segui-Lo.
Se alguém quiser vir após mim – diz Jesus Cristo –, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16, 24). Estamos nos antípodas do utilitarismo egoísta. Em vez de dizer: “Procure-se a si mesmo, realize-se a si mesmo”, diz-nos: “Não pense em si, doe-se generosamente”.
Esse apelo à renúncia e ao esquecimento próprio não é, absolutamente, uma tristonha anulação da personalidade, nem um abafamento da alegria de viver. É exatamente o contrário: as palavras de Cristo estão a mostrar-nos o rosto do amor. E o amor é a seiva vivificante da família.
Será preciso lembrar que o amor cristão se formula assim: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei (Jo 13, 34)? Será que há alguma dúvida sobre como Ele, Cristo, nos amou? Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).
Com Cristo, um amor inédito entrou no mundo, um amor que o mundo pagão desconhecia totalmente. Era um amor à medida do Amor de Deus, que os cristãos designaram com uma palavra nova: “agápe”, em grego; “caritas” – caridade –, em latim. Era um amor à imagem e semelhança do amor de Cristo.
O que fizemos desse amor? No mundo de hoje, é preciso reaprendê-lo; é urgente – para todos, mas especialmente para os jovens – redescobrir a beleza inefável do Amor com maiúscula, que vem de Deus (1 Jo 44, 7). A nossa alma tem uma necessidade vital de experimentar o deslumbramento feliz de São João, quando exclamava: Nisto conhecemos o amor: em que Jesus deu a sua vida por nós, e também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos (1 Jo 3, 16). Desse João Apóstolo que, com quase cem anos de idade, acrescentava, extasiado: Nós conhecemos o amor de Deus e acreditamos nele!... Se Deus nos amou assim, também nós nos devemos amar-nos uns aos outros (1 Jo 4, 11.16).
Não duvidemos: é aí, e somente aí, nas profundezas do amor cristão, que finca as suas raízes a paz familiar.

A SABEDORIA DE SÃO TOMÁS

Antes de terminar esta panorâmica – “a família em perspectiva” –, talvez valha a pena acrescentar ainda, como complemento útil, umas breves reflexões. São considerações que procedem de boa fonte, de São Tomás de Aquino.
Na sua Suma Teológica, a certa altura, o santo doutor, na esteira de Aristóteles, formula várias perguntas sobre o amor e – como se estivesse a dizer a coisa mais óbvia do mundo – escreve que há dois tipos de amor:
Um é o que chama amor de concupiscência (que não significa só o amor sexual, pois a palavra latina concupiscentia designa os desejos em geral). Dá-se esse amor quando “em vez de querer o bem de quem amamos, queremos que ele seja um bem para nós, como quando dizemos que amamos o vinho ou um cavalo...” São Tomás parece brincar, mas fala com a maior seriedade. Não sei se o que vou dizer não será rude demais, mas creio que o amante egoísta, descrito nas páginas anteriores, encara a esposa – ou o marido, ou os filhos, ou os pais – com a mesma mentalidade com que degusta um vinho ou experimenta o trote de um cavalo.
O outro tipo de amor – acrescenta São Tomás – é o que se chama amor de amizade.
“Não é – diz – um amor qualquer, mas o amor que possui a benevolência, isto é, o amor que existe quando amamos alguém de tal maneira que queremos o seu bem”  [i].
Pronto. Poucas palavras para enormes verdades. Há um amor que busca só o bem e o interesse próprios. Há outro amor que busca e trabalha pelo bem da pessoa amada. Este último – amor de amizade –, vivificado pela capacidade de querer que nos infunde o Espírito Santo (cf. Rom 5, 5), é o amor cristão. E é só com esse tipo de amor que se faz, de verdade, família e nela se consegue a paz.
Enquanto escrevo estas últimas linhas, vem-me ao pensamento – e comove-me novamente – a lembrança de um casal amigo, excelentes pessoas, unidas e fiéis após longos anos de convívio. Com uma lucidez plácida e simples, o marido, bom cristão, dizia-me: “O senhor sabe? Depois de tantos anos, cheguei à conclusão de que o amor entre marido e mulher só é amor mesmo quando os dois se tornam amigos, quando são dois bons amigos.
O verdadeiro amor é amizade”.
E, com isto, finalizamos a nossa digressão sobre a “família em perspectiva”. As considerações gerais que acabamos de fazer serão o ponto de partida para as que faremos a seguir comentando atitudes e gestos concretos que, brotando do amor, podem construir a paz familiar.

CONSTRUIR A PAZ FAMILIAR
UM COMBATE PELA PAZ

Na introdução a estas páginas, transcrevíamos umas palavras de São Paulo que põem à mostra – dizíamos ali – as cordas da paz. Vamos agora rever e meditar com calma esse texto, que nos pode ajudar a encontrar os caminhos da paz (cf. Lc 1, 79) pelos quais Deus quer que andemos.
Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a formar um único corpo. E sede agradecidos (Col 3, 12-15).
Relendo essas linhas, facilmente podemos observar nelas quatro ideias claras:
Primeira: São Paulo quer mostrar o caminho para que a paz “triunfe nos corações”.
Reparemos que ele não diz: para que a paz “surja”, “permaneça” ou se “assente” em vossos corações, mas para que “triunfe em vossos corações”. E é que a paz da alma – que transborda em paz para os outros – é sempre “consequência da guerra”; é uma conquista, resultante – como dizia Mons. Escrivá – de uma luta íntima “contra tudo o que na vida não for de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza de coração” [ii].
Segunda ideia: essa luta trava-se praticando virtudes concretas, não bastando sentimentos e boas vontades: é preciso exercitar a misericórdia, a bondade, a doçura, a mansidão, a paciência, o perdão.
Terceira ideia: essas virtudes constituem uma força eficaz, apta para produzir a paz, só quando estão bem amarradas, como um feixe, pela caridade (pelo amor à medida do amor de Cristo), formando assim um conjunto firme e coeso. Este é exactamente o significado da expressão: o amor é o vínculo da perfeição.
Quarta ideia: essa luta pela paz – e concretamente pela paz na família – é um dever que decorre da nossa vocação. Por isso São Paulo começa esse parágrafo afirmando que devemos exercitar as virtudes que levam à paz justamente por sermos eleitos de Deus, santos – chamados à santidade – e amados.
Após este olhar geral sobre as palavras de São Paulo, vamos agora ativar o zoom e fazer uma aproximação das virtudes mencionadas por ele, juntamente com outras que lhes são conexas.

UMA ENTRANHADA MISERICÓRDIA

Que quer dizer misericórdia na família? Entenderemos bem essa virtude, se nos lembramos de que a misericórdia do cristão deve imitar a misericórdia de Deus: Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso (Lc 6, 36).
Deus é misericordioso porque vê as nossas misérias – por dizê-lo de um modo humano – “com coração”. A palavra misericórdia significa, com efeito, “miséria” que toca o “coração”. Quer isto dizer que Deus olha para os nossos pecados, os nossos defeitos, as nossas ofensas – que não pode aprovar –, não com a dureza de um justiceiro, mas com um olhar compreensivo, compassivo e sempre predisposto ao perdão.
A pessoa misericordiosa sabe “olhar com coração”. Mas não fica só nisso. “O verdadeiro significado da misericórdia – diz João Paulo II – não consiste apenas no olhar, por mais penetrante e cheio de compaixão que seja, com que se encara o mal moral, físico ou material. A misericórdia manifesta-se com a sua fisionomia verdadeira e própria quando reavalia, promove e sabe tirar o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem”. A misericórdia – acrescenta – é um amor “que não se deixa «vencer pelo mal», mas «vence o mal com o bem» (cf. Rom 12, 21)”11.
Retenhamos bem essas ideias: a virtude da misericórdia começa por “olhar” o outro, por “vê-lo” com um olhar “penetrante” e “cheio de compaixão”; e completa-se quando, a partir desse olhar compreensivo, nos esforçamos por tirar um bem do mal que vemos nos outros. Duas atitudes que, por si sós, já seriam um excelente programa para a paz da família.
Mas bem poucos as conseguem viver na prática.

(cont)

FRANCISCO FAUS [iii]




[i]  São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. XXIII, art. 1, concl.;
[ii] Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 73; (11) Encíclica Dives in misericordia, n. 4;
[iii] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

19/12/2017

Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

UMA SOCIEDADE HUMANA?

Na sua segunda visita ao Brasil, João Paulo II teve, no dia 17 de Outubro de 1991, um encontro com o laicato católico em Campo Grande. Falou-lhes da família e, entre outras coisas, dizia-lhes: “Não percais nunca a consciência de que, do fortalecimento e da santidade da família, depende a inteira saúde do corpo social, pois a família, por desígnio de Deus, é e será sempre a «célula primeira e vital da sociedade»” [i].
Uma sociedade sadia é um “organismo” formado por famílias sadias. A paz e o bem do mundo, em grande parte, são o reflexo da paz e do bem das famílias. E o contrário também é verdade: muitas famílias sem paz dão como resultado um mundo inquieto, desconjuntado e agressivo, um mundo sem paz.
Por isso, presta-se um imenso desserviço à sociedade quando, deixando a família na sombra, se apresenta o bem social, simplesmente, como a soma dos bens particulares dos indivíduos. O indivíduo seria, assim, a única coisa que interessaria. Não se pensa que o indivíduo deva pôr-se a serviço do bem comum, a começar pelo bem da família, mas julga-se que a família é que tem de ficar subordinada ao bem-estar do indivíduo: se a família serve para a sua “realização”, bem; se não serve, ele a quebra, como um palito usado, e atira-a fora.
Muitos não reparam na medonha falsificação que há nessa mentalidade. A sociedade não é, absolutamente, uma somatória de indivíduos, um agregado de sujeitos isolados, sem outra relação entre eles que os acordos que consigam fazer para conjugar os seus egoísmos.
A sociedade “humana” não existe sem a família, que é o ambiente natural e sadio de onde surge o “homem humano” de que falava Guimarães Rosa. A sociedade só é “sociedade” na medida em que é uma constelação de famílias, da mesma maneira que um organismo sadio é uma união de órgãos e células sãos. Por isso, o bem da família, a proteção à família, é um dos deveres mais graves – se não o mais grave – dos governantes e dos responsáveis pela formação da opinião pública. Todos os atentados ideológicos ou práticos contra a família e contra os valores familiares são uma traição à dignidade da pessoa humana e um crime contra a sociedade.
Ninguém ignora que essa traição está sendo praticada com febril insistência e agressividade. Mediante uma orquestração sistemática dos meios de comunicação social, a família é bombardeada, ridicularizada, vista ironicamente como uma espécie em extinção, como instituição obsoleta, inimiga das liberdades individuais, do progresso, da mentalidade moderna, da necessária libertação de tabus. Basta ligar a maior parte das telenovelas, visitar uma videoteca, folhear jornais de grande circulação e revistas de todo o tipo, para achar diariamente a apologia do sexo livre hedonista (homossexual ou  heterossexual, praticado por adultos, por adolescentes e por crianças convenientemente “educadas” pelas sexologias oficiais), da aventura descomprometida, da separação por motivos fúteis, da deslealdade justificada pelo simples prazer, do aborto e de tantos outros dinamitadores do bem da família.
E os poderes públicos? E os legisladores? Uns silenciam, outros vão na onda daquilo que os meios de comunicação, manipulando falsamente os dados, apresentam como opinião da maioria; e, pouco a pouco, vão-se abrindo fendas profundíssimas, vão-se acobertando aberrações, vão-se escancarando legalmente portas para sistemas de vida demolidores da família.

CORDAS REBENTADAS

Por que são cada vez mais frequentes os casamentos meteóricos, que não chegam a durar um ano ou dois e, por vezes, nem sequer uns poucos meses? É pura e simplesmente porque o “egoísmo utilitarista” predominante arrebentou as boas cordas do coração de jovens e menos jovens, deixando só as cordas mais desafinadas, aquelas que – vibradas pelo orgulho e pelo comodismo – tocam a música monótona que canta: “Direito, direito, eu tenho direito! Tenho o direito de ser feliz, tenho o direito de que as coisas sejam a meu gosto, tenho o direito de não sofrer, de não ter que aguentar!”
Por isso, ante a menor contrariedade, as cordas do hedonista chiam, irritadas: “Ela perturba-me! Não me faz feliz!”, “Ele não quer que eu faça as coisas do meu jeito, pisa a minha independência! Ele – ou ela – dá trabalho, exige sacrifício, ousa solicitar renúncias!
Não é o que esperava quando me casei! Ele, ela, não me dá, não me «proporciona», não me «abastece», não «alimenta» as minhas vontades, não me permite «consumir» o tipo de satisfações que o meu apetite voraz anseia!”
É natural que as famílias constituídas por pessoas assim, incapazes de amar, incapazes de dar, carentes de toda a generosidade, vão caindo uma após outra, ao primeiro vento contrário, como as folhas no outono. Essa incapacidade de ser fiel, que muitos meios de comunicação apresentam como liberdade, na realidade é uma atrofia que inabilita para amar: um “autismo” moral, que é a doença típica do homem e da mulher que se autoproclamam “avançados”, “modernos”, mas que estão vazios de tudo, exceto de si mesmos.

SITUAÇÃO OU VOCAÇÃO

É inútil tentar resolver essa “incapacidade de fazer família” com panos quentes: acompanhamento psiquiátrico (fora de casos patológicos), aprendizado das dez “técnicas” de convívio feliz publicadas – com a costumeira superficialidade – pelas revistas do coração.
A solução, a única solução, está em algo de muito mais profundo. Não há, em muitos rapazes e moças, capacidade de “fazer família”, porque se perdeu a noção do que “é a família”. Não há capacidade de criar amor familiar, porque se perdeu a noção do verdadeiro amor. Não há capacidade de conseguir, no lar, um clima de bondade, paciência, serenidade, alegria, caridade e paz, porque todos esses valores positivos são virtudes ou fruto das virtudes e, hoje, a maioria das pessoas, em vez de aprenderem virtudes, passam os anos a aprender interesses e conveniências. Entram, assim, nas lutas da vida como um combatente moralmente desarmado.
Que é, afinal, a família? Hoje, mais do que nunca, é preciso fazer ressoar, com a força de uma verdade jubilosa e de um apelo premente, que o casamento e a família não são uma situação, nem uma solução, mas uma vocação e uma missão.
Uma situação. Uma solução. É assim que muitos dos que ainda concedem algum papel ao casamento e à família costumam considerá-los. “Eu – pensam eles – situo-me profissionalmente, situo-me familiarmente, e tento manter nos dois campos, enquanto for conveniente para mim, a situação que, no momento, vejo como a solução mais conveniente”.
A família não é isso. É algo muito maior. Para compreendê-la, escutemos uma das vozes que têm proclamado com maior clareza o sentido divino, cristão, do casamento e da família. Refiro-me ao Bem-aventurado Josemaria Escrivá. Contemplando ele, sob o foco luminoso da fé, o sentido da existência humana, dizia: “Para que estamos no mundo? Para amar a Deus com todo o nosso coração e com toda a nossa alma, e para estender esse amor a todas as criaturas [...]. Deus não deixa nenhuma alma abandonada a um destino cego; para todas tem um desígnio, a todas chama com uma vocação pessoalíssima, intransferível”.
Também “o matrimônio é caminho divino, é vocação”  [ii].
Esta afirmação categórica – “o matrimônio é vocação” – feita por Mons. Escrivá já desde os começos dos anos trinta, surpreendia e desconcertava, de início, os seus ouvintes.
Depois, quando penetravam nessa verdade e lhe descobriam as consequências, deslumbrava-os e rasgava-lhes empolgantes horizontes de vida.
“Há quase quarenta anos – dizia o Bem-aventurado, em 1968 – que venho pregando o sentido vocacional do matrimónio. Que olhos cheios de luz vi mais de uma vez quando – julgando eles e elas incompatíveis na sua vida a entrega a Deus e um amor humano nobre e limpo – me ouviam dizer que o matrimónio é um caminho divino na terra!”
Se o matrimónio é uma vocação, quer dizer que é uma chamada de Deus para “algo”, ou seja, que é um apelo divino para o cumprimento de uma missão. Ilustrando essa verdade, na mesma ocasião, o Beato Josemaria continuava a dizer: “O matrimónio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem nele e santifiquem através dele: para isso os cônjuges têm uma graça especial, conferida pelo sacramento instituído por Jesus Cristo.
Quem é chamado ao estado matrimonial encontra nesse estado – com a graça de Deus – tudo o que necessita para ser santo, para se identificar cada dia mais com Jesus Cristo e para levar ao Senhor as pessoas com quem convive.
“Por isso penso sempre com esperança e com carinho nos lares cristãos, em todas as famílias que brotaram do Sacramento do Matrimónio, que são testemunhos luminosos desse grande mistério divino – Sacramentum magnum! (Ef 5, 32), sacramento grande – da união e do amor entre Cristo e a sua Igreja. Devemos trabalhar para que essas células cristãs da sociedade nasçam e se desenvolvam com ânsia de santidade [...]. Os esposos cristãos devem ter consciência de que são chamados a santificar-se santificando, de que são chamados a ser apóstolos, e de que o seu primeiro apostolado está no lar. Devem compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família, a educação dos filhos, a irradiação cristã na sociedade. Desta consciência da própria missão dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade” [iii].

(cont)

FRANCISCO FAUS [iv]




[i] Palavra do Santo Padre ao Brasil, Paulinas, São Paulo, 1991, pág. 128;
[ii] Josemaria Escrivá, Questões actuais do cristianismo, 3a. ed., Quadrante, São Paulo, 1986, n. 106;
[iii] ibid., n. 91; ver também, do mesmo autor, a homilia O Matrimônio, vocação cristã, em É Cristo que passa, 2a. ed., Quadrante, São Paulo, 1975, ns. 22-30;
[iv] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.