28/04/2014

Pequena agenda do cristão


Segunda-Feira

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

Propósito: Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me: Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?


Vidas de Santos

São Luís Maria Grignion de Monfort, presbítero

Nota Histórica
         
Luís Maria Grignion nasceu em Monfort, na região da Bretanha, e foi ordenado sacerdote em Paris. Nomeado missionário apostólico pelo papa Clemente XI, percorreu as regiões ocidentais de França, anunciando a Sabedoria eterna, Cristo encarnado e crucificado, e ensinando o caminho da santidade por Maria a Jesus. Para a sua obra missionária fundou várias associações religiosas de Sacerdotes, de Irmãos e, com a colaboração da bem- aventurada Maria Luísa Trichet (Maria Luísa de Jesus), associações de Irmãs. Morreu na cidade de Saint-Laurent-sur-Sèvre, diocese de Luçon, a 28 de Abril de 1716, deixando muitos escritos, principalmente sobre espiritualidade mariana.

Totus tuus

Toda a nossa perfeição consiste em sermos conformes a Jesus Cristo, em nos unirmos e consagrarmos a Ele. A mais perfeita de todas as devoções é sem dúvida aquela que nos conforma, nos une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, porque Maria é, entre todas as criaturas, a mais conforme a Jesus Cristo, conclui-se que, entre todas as devoções, a que melhor consagra e conforma uma alma a Nosso Senhor é a devoção à Santíssima Virgem, sua santa Mãe. E quanto mais uma alma for consagrada a Maria, mais o será a Jesus Cristo.
É por isso que a perfeita consagração a Jesus Cristo não é mais que uma perfeita e total consagração de si mesmo à Santíssima Virgem; esta é a devoção que eu ensino.
Esta forma de devoção pode chamar-se, com toda a propriedade, a perfeita renovação dos votos e promessas do santo Baptismo, porque nela o cristão dá-se totalmente à Santíssima Virgem, para que, por Maria, pertença todo a Cristo.
Assim, a consagração é feita ao mesmo tempo à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo: à Virgem Santa Maria, como o modo perfeito que Jesus Cristo escolheu para Se unir a nós e nos unir a Ele; e a Nosso Senhor Jesus Cristo, como nosso fim último, a quem devemos tudo o que somos, porque é o nosso Redentor e o nosso Deus.
Além disso, devemos considerar que todo o homem, quando é baptizado, renuncia solenemente, pela sua própria boca ou pela do seu padrinho e madrinha, a Satanás e às suas tentações e obras, e toma Jesus Cristo como seu Mestre e soberano Senhor, a fim de depender d’Ele na qualidade de escravo de amor. É o que realmente se faz nesta devoção: o cristão renuncia ao demónio, ao mundo, ao pecado e a si mesmo, e consagra-se totalmente a Jesus Cristo pelas mãos de Maria.
No Baptismo não nos damos a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, pelo menos de maneira expressa, e não damos a Jesus Cristo o valor das nossas boas obras. Ficamos, depois do Baptismo, com plena liberdade de aplicar esse valor a quem quisermos ou de o reservar para nós mesmos. Mas, por esta devoção, damo-nos expressamente a Nosso Senhor pelas mãos de Maria e consagramos-Lhe o valor de todas as nossas acções.

(Do Tratado «A verdadeira devoção à Santíssima Virgem», de São Luís Maria Grignion de Monfort, nn. 120.121.125-126: Oeuvres complètes, Seuil, Paris 1966, pp. 562-563.566-567)

(SNL)


Vidas de Santos

SÃO PEDRO CHANEL, presbítero e mártir

Nota Histórica   

Nasceu em Cuet (França) no ano 1803. Ordenado sacerdote, exerceu o ministério pastoral por algum tempo. Depois entrou na Sociedade de Maria (Maristas) e partiu como missionário para a Oceânia. Apesar de dificuldades de toda a espécie, conseguiu converter alguns pagãos, o que provocou o ódio dos sicários que lhe deram a morte na ilha Futuna em 1841.
         
Elogio de São Pedro Chanel, presbítero e mártir

O sangue dos mártires é semente de cristãos

Pedro, logo que abraçou a vida religiosa na Sociedade de Maria, foi mandado a seu pedido para as missões da Oceânia e aportou à ilha de Futuna no Oceano Pacífico, onde ainda não tinha sido anunciado o nome de Cristo. Um religioso leigo que sempre o acompanhou assim descreve a sua vida missionário:
«Depois dos seus trabalhos, voltava a casa abrasado pelo ardor do sol, muitas vezes enfraquecido pela fome, banhado em suor e morto de cansaço, mas sempre animado, ágil e satisfeito, como se regressasse dum lugar de delícias; isto não uma vez, mas quase todos os dias.
Não costumava negar coisa alguma aos habitantes de Futuna, nem sequer aos que o perseguiam. Sempre os desculpava e nunca os repelia, por mais rudes e incómodos que fossem. Tratava a todos com extraordinária amabilidade, que manifestava de muitos modos, sem exceptuar ninguém».
Não é pois de admirar que os indígenas chamassem «homem de grande coração» àquele que algumas vezes dissera a seus irmãos em religião: «Em missão tão difícil bem preciso é que sejamos santos».
Pouco a pouco foi anunciando o Evangelho de Cristo, mas pouco fruto conseguia. Apesar disso, continuava com invencível constância o seu trabalho missionário, ao mesmo tempo humanitário e religioso, confiando no exemplo e nas palavras de Cristo: Um é o que semeia e outro o que ceifa. E pedia com insistência o auxílio da Mãe de Deus, por quem tinha particular devoção.
A sua pregação da religião cristã destruiu o culto dos maus espíritos, que os notáveis de Futuna fomentavam para conservar o povo sob o seu domínio. Foi esta a razão que os levou a assassiná-lo cruelmente com a esperança de fazerem desaparecer, com esta morte, as sementes da religião cristã, que Pedro tinha lançado à terra.
Mas ele próprio dissera na véspera do martírio: «Nada importa que eu morra; o cristianismo está tão arraigado nesta ilha, que não será arrancado com a minha morte».

O sangue do mártir frutificou primeiramente nos habitantes de Futuna, que, poucos anos mais tarde, abraçaram todos a fé de Cristo; mas frutificou também nas outras ilhas da Oceânia, onde existem agora Igrejas cristãs muito florescentes, que têm e invocam a Pedro como seu primeiro mártir.

Diálogos apostólicos 13


Reservando a privacidade e sob este título genérico de ‘Diálogos apostólicos’ publicam-se alguns diálogos, recados e excertos de conversas a respeito da Melhoria Pessoal e da Vida Interior.

Que possam ter utilidade na reflexão sobre situações talvez bastante comuns a quem envereda por estes caminhos.

Logo de começo, insisti uma vez mais:

_ Plano de vida, plano de vida! Coisas concretas a horas certas, quando não, andas ao sabor das oportunidades e da disposição pessoal.

_ Está bem! Anuíste, mas... E a minha liberdade?

Contei-te que, alguém terá comentado a João Paulo II que com um plano de vida tão preenchido como o que efectivamente tinha, pouca liberdade teria, ao que o Papa respondera:


‘Tudo quanto cumpro no meu plano de vida faço-o com inteira liberdade!’

Ide a José e encontrareis Jesus

Ama muito S. José, quer-lhe com toda a tua alma, porque é a pessoa que, com Jesus, mais amou Santa Maria e quem mais conviveu com Deus: quem mais o amou, depois da Nossa Mãe. Merece o teu carinho e convém-te dar-te com ele, porque é Mestre de vida interior e pode muito ante Nosso Senhor e ante a Mãe de Deus. (Forja, 554)

José foi, no aspecto humano, mestre de Jesus; conviveu com Ele diariamente, com carinho delicado, e cuidou dele com abnegação alegre. Não será esta uma boa razão para considerarmos este varão justo, este Santo Patriarca, no qual culmina a Fé da Antiga Aliança, Mestre de vida interior? A vida interior não é outra coisa senão o convívio assíduo e intimo com Cristo, para nos identificarmos com Ele. E José saberá dizer-nos muitas coisas sobre Jesus. Por isso, não deixeis nunca de conviver com ele; ite ad Joseph, como diz a tradição cristã com uma frase tomada do Antigo Testamento.

Mestre da vida interior, trabalhador empenhado no seu trabalho, servidor fiel de Deus em relação contínua com Jesus: este é José. Ite ad Joseph. Com S. José o cristão aprende o que é ser Deus e estar plenamente entre os homens, santificando o mundo. Ide a José e encontrareis Jesus. Ide a José e encontrareis Maria, que encheu sempre de paz a amável oficina de Nazaré. (Cristo que passa, nn. 56)

A Igreja inteira reconhece S. José como seu protector e padroeiro. Ao longo dos séculos tem-se falado dele, sublinhando diversos aspectos da sua vida, sempre fiel à missão que Deus lhe confiara. Por isso, desde há muitos anos, me agrada invocá-lo com um título carinhoso: Nosso Pai e Senhor.


S. José é realmente Pai e Senhor, protegendo e acompanhando no seu caminho terreno aqueles que o veneram, como protegeu e acompanhou Jesus enquanto crescia e se fazia homem. (Cristo que passa, nn. 39)

Tratado dos vícios e pecados 73

Questão 85: Dos efeitos do pecado e, primeiro, da corrupção do bem da natureza.

Art. 4 — Se a privação do modo, da espécie e da ordem são efeitos do pecado.

(De Virtut., q. 1, a. 8, ad 12).

O quarto discute-se assim. — Parece que a privação do modo, da espécie e da ordem não são efeitos do pecado.

1. — Pois, como diz Agostinho, quando o modo, a espécie e a ordem são grandes, grande é o bem; quando pequenos, pequeno; e nulo, quando são nulos. Ora, o pecado não anula o bem da natureza. Logo, não priva do modo, da espécie e da ordem.

2. Demais. — Nada pode ser causa de si mesmo. Ora, o pecado é a privação do modo, da espécie e da ordem, como diz Agostinho. Logo, a privação do modo, da espécie e da ordem não é efeito do pecado.

3. Demais. — Pecados diversos têm efeitos diversos. Ora, o modo, a espécie e a ordem, sendo diversos entre si, parece que hão-de sofrer privações diversas. Logo, a privação deles é o efeito de pecados diversos; e portanto, não de um pecado qualquer.

Mas, em contrário, o pecado afecta a alma, como a doença o corpo, segundo a Escritura (Sl 6, 3): Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou enfermo. Ora, a enfermidade priva do modo, da espécie e da ordem do corpo. Logo, o pecado priva do modo, da espécie e da ordem da alma.

Como já dissemos na Primeira Parte (q. 5, 5), o modo, a espécie e a ordem são consecutivos a todo bem criado, como tal, e mesmo a todo ser. Pois, todo ser e todo bem é considerado tal pela relação com alguma forma, em que se funda a espécie. Ora, a forma de um ser, substancial ou acidental, depende de uma certa medida; e por isso o Filósofo diz que as formas das coisas são como os números. Donde o ter a forma um certo modo, relativo à medida. E pela sua forma que um ser se ordena a outro. E assim, conforme os diversos graus dos bens são os graus diversos do modo, da espécie e da ordem.

Há pois um certo bem pertinente à própria substância da natureza, que tem o seu modo, a sua espécie e ordem; e esse não sofre privação nem detrimento pelo pecado. Há outro bem, o da inclinação natural, que, por seu lado, tem o seu modo, a sua espécie e a sua ordem, e padece detrimento pelo pecado, como já se disse (a. 1, 2), mas não fica completamente eliminado. Há ainda o bem da virtude e da graça, que por sua vez tem o seu modo, a sua espécie e ordem, e esse fica totalmente destruído pelo pecado mortal. Há por fim, o bem consistente no acto ordenado, em si mesmo, e também tem o seu modo, a sua espécie e a sua ordem; e a privação deste constitui o pecado mesmo, essencialmente. Por onde se evidencia como o pecado é privação do modo, da espécie e da ordem; e priva deles ou os diminui.

Donde se deduz clara a resposta às DUAS PRIMEIRAS OBJECÇÕES.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O modo, a espécie e a ordem são consecutivos entre si, como do sobredito resulta. Por isso sofrem privação e diminuição, simultaneamente.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Temas para meditar 89

Corredenção

Que sentiste, Senhora, ao ver assim o teu Filho? - perguntamos-lhe na intimidade da nossa oração -. Olho-te e não encontro palavras para falar da tua dor. Mas sim entendo que ao ver o teu Filho que o necessita, ao compreender que nós teus filhos o necessitamos, aceitas tudo sem vacilar. É um novo «faça-se» na tua vida. Um novo modo de aceitar a corredenção. Graças, minha Mãe! Dá-me essa atitude decidida de entrega, o esquecimento absoluto de mim mesmo. Que frente às almas, ao aprender de ti o que exige corredimir, tudo me pareça pouco. Mas recorda-te de sair ao meu encontro, no caminho, porque sozinho não saberei seguir para a frente.


(m. montenegro, Via Crucis, Palabra, 3ª ed., Madrid Abril de 1976)

27/04/2014

Evangelho do dia, comentário e Leitura espiritual

Tempo de Páscoa

II Semana 


Domingo da Divina Misericórdia

Evangelho: Jo 20, 19-31

19 Chegada a tarde daquele mesmo dia, que era o primeiro da semana, e estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam juntos, por medo dos judeus, foi Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!». 20 Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se muito ao ver o Senhor. 21 Ele disse-lhes novamente: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também vos envio a vós». 22 Tendo dito esta palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. 23 Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». 24 Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25 Os outros discípulos disseram-lhe: «Vimos o Senhor!». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas Suas mãos a abertura dos cravos, se não meter a minha mão no Seu lado, não acreditarei». 26 Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27 Em seguida disse a Tomé: «Mete aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima também a tua mão e mete-a no Meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel!». 28 Respondeu-Lhe Tomé: «Meu Senhor e Meu Deus!». 29 Jesus disse-lhe: «Tu acreditaste, Tomé, porque Me viste; bem-aventurados os que acreditaram sem terem visto». 30 Outros muitos prodígios fez ainda Jesus na presença de Seus discípulos, que não foram escritos neste livro. 31 Estes, porém, foram escritos a fim de que acrediteis que Jesus é o Messias, Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em Seu nome.

Comentário:

Temos que dar muitas graças a São Tomé porque, talvez, nenhum dos apóstolos se identifique mais connosco que este homem simples, pragmático e, sobretudo, possuidor de um são critério.

Não acredita por acreditar mas por convencimento pessoal e quando encontra a verdade reconhece-a em toda a sua plenitude.

Os outros alegraram-se com a constatação da Ressurreição, ele fica esmagado e rendido fazendo a maior e mais completa declaração de amor a Cristo.

Ao dizer «meu Senhor e meu Deus» afirma a sua fé, confirma o seu amor e rende o preito devido ao Senhor.

Digamos nos também, muitas vezes ao dia ‘meu Senhor e meu Deus’ e, sobretudo durante a consagração das espécies, afirmemos a nossa fé e devotada entrega.

(ama, comentário sobre Jo 20, 19-31, 2013.04.07)


Leitura espiritual






Temas para leitura espiritual





Oração Mental

Oração: diálogo do homem com Deus, de coração a coração. Uma relação na qual o homem pode pôr cada vez mais empenho, como se sugere neste texto.

«Se o cristianismo – dizia João Paulo II – se há-de distinguir no nosso tempo, sobretudo, pela “arte da oração”, como não sentir uma renovada necessidade de estar longos tempos em conversa espiritual, em adoração silenciosa, em atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência e nela encontrei força, consolo e apoio!» 1.

COM TODA A TUA ALMA

Queremos amar a Deus Pai com todas as nossas forças, pôr a alma na oração, com todas as suas potências:, a inteligência e a vontade, a memória, a imaginação e os sentimentos. O Senhor serve-se delas, sucessiva ou simultaneamente, como vias para entrar em diálogo connosco.

Não há dois tempos de oração iguais. O Espírito Santo, fonte de contínua novidade, toma a iniciativa, atua e espera. Às vezes espera uma luta a secas, quando parece que não vem nenhuma resposta: nota-se então mais o esforço da vontade, sereno e tenaz, por fazer atos de fé e de amor, por Lhe contar coisas, por aplicar a inteligência e a imaginação à Sagrada Escritura, a textos da liturgia ou de autores espirituais; procurando-O com palavras ou apenas olhando-O. A atitude de procura é já diálogo que transforma, embora às vezes pareça que não encontra eco.

Outras vezes irrompem ideias ou afetos que dão fluidez aos tempos de oração e ajudam a apercebermo-nos da presença de Deus. Nuns e noutros casos – com afetos, ideias, com vontade, ou sem ela – trata-se de que ponhamos as nossas potências nas mãos do Espírito Santo. Somos seus e Ele disse: Não posso Eu fazer o que quero com o que é meu? 2 Oração mental é diálogo com Deus, de coração a coração, em que intervém a alma toda: a inteligência e a imaginação, a memória e a vontade. Uma meditação que contribui para dar valor sobrenatural à nossa pobre vida humana, à nossa vida corrente e diária. 3.

A única regra que Deus quis seguir é a que Se impôs ao criar-nos livres, esperar a nossa filial colaboração. Ao dispormo-nos para a oração, fa-lo-emos como filhos, lutando por manter a atenção neste Pai que quer falar connosco. Ao fim e ao cabo, o que se espera da nossa parte não é que haja facilidade na inteligência, ou que se inflame o coração com afectos. O importante é a determinação por manter a abertura ao diálogo, sem deixar que essa atitude decaia por rotina ou desalento.

ORAÇÃO E PLENITUDE

Deus fala de muitas maneiras; a oração é sobretudo escuta e resposta. Fala na Escritura, na liturgia, na direção espiritual, através do mundo e nas circunstâncias da vida: no trabalho, nas vicissitudes do dia ou no convívio com os outros. Para aprender esta linguagem divina convém dedicar algum tempo a estar a sós com Deus.

Falar com Deus é deixar que Ele vá ganhando protagonismo no nosso ser. Meditar a vida de Cristo permite entender a nossa história pessoal, para a abrir à graça. Queremos que entre, para que transforme a nossa vida em reflexo fiel da Sua. Deus Pai predestinou-nos para sermos conformes com a imagem do Seu Filho 4, e quer ver Cristo formado em nós 5, para que possamos exclamar: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim 6.

Especialmente no Novo Testamento, o melhor livro de meditação, contemplamos os mistérios de Cristo: revivemos o Nascimento em Belém, a vida escondida em Nazaré, as angústias da Paixão... Esta assimilação ao Filho realiza-a o Espírito Santo com eficácia; mas não é um processo mecânico diante do qual o baptizado seria apenas um espectador assombrado; podemos colaborar filialmente com a acção divina, dispondo bem a vontade, aplicando a imaginação e a inteligência, dando largas aos bons afectos.

Era isto que fazia São Josemaria, quando entendia os seus próprios sofrimentos, ao considerar a agonia de Cristo: E eu, que também quero cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderei queixar-me, se encontro por companheiro de caminho o sofrimento?

Constituirá um sinal certo da minha filiação, porque me trata como ao Seu Divino Filho. E, então, como Ele, poderei gemer e chorar sozinho no meu Getsémani; mas, prostrado por terra, reconhecendo O meu nada, subirá ao Senhor um grito saído do íntimo da minha alma: Pater mi, Abba, Pater, ... fiat! 7

Falamos comDeus quando oramos, e a Ele ouvimos quando lemos as palavras divinas 8; «a oração deve acompanhar a leitura da Sagrada Escritura para que se realize o diálogo de Deus com o homem» 9, um diálogo no qual o Pai nos fala do Filho, para que sejamos outros Cristos, o próprio Cristo. Vale a pena mobilizar as nossas potências à hora de rezar com o Evangelho. Primeiro, imaginas a cena ou o mistério, que te servirá para te recolheres e meditares. Depois, aplicas o entendimento, para considerar aquele traço da vida do Mestre (…). Conta-lhe então o que te costuma suceder nestes assuntos, o que se passa contigo, o que te está a acontecer. Mantém-te atento, porque talvez Ele queira indicar-te alguma coisa: surgirão essas moções interiores, o caíres em ti, as admoestações. 10.

Trata-se, em resumo, de rezar sobre a nossa vida para a viver como Deus espera. É muito necessário, especialmente para os que procuram santificar-se no trabalho. Que obras serão as tuas, se não as meditaste na presença do Senhor, para as ordenares? Sem essa conversa com Deus, como poderás acabar com perfeição a actividade do dia? 11

Ao contemplar, por um lado, os mistérios de Jesus e, por outro, os acontecimentos da nossa existência, aprendemos a rezar como Cristo, cuja oração estava toda «nesta adesão amorosa do seu coração de homem ao “mistério da vontade” do Pai (Ef 1, 9)» 12; aprendemos a rezar como um filho de Deus, seguindo o exemplo de São Josemaria. A minha oração, diante de qualquer circunstância, tem sido a mesma, com tonalidades diferentes. Tenho-lhe dito: Senhor, Tu colocaste-me aqui; Tu confiaste-me isto ou aquilo, e eu confio em Ti. Sei que és meu Pai e tenho visto sempre que as crianças confiam absolutamente nos pais. A minha experiência sacerdotal confirmou-me que este abandono nas mãos de Deus leva as almas a adquirir uma piedade forte, profunda e serena, que impele a trabalhar constantemente com rectidão de intenção. 13.

A oração é o meio privilegiado para amadurecer. É parte imprescindível desse processo pelo qual o centro de gravidade se transfere do amor próprio para o amor a Deus e aos outros por Ele. A personalidade madura tem peso, consistência, continuidade, traços bem definidos que dão um modo, peculiar em cada pessoa, de refletir Cristo.

A pessoa madura é como um piano bem afinado. Não procura a genialidade de emitir sons imprevistos, de surpreender. O surpreendente é que dá a nota certa e o genial é que, graças à sua estabilidade, permite interpretar as melhores melodias; é fiável, responde de modo previsível e, por isso, serve. Atingir essa estabilidade e firmeza que dá a maturidade é todo um desafio.

Contemplar a Humanidade do Senhor é o melhor caminho para a plenitude. Ele ajuda a descobrir e a corrigir as teclas que não respondem bem. Para alguns será uma vontade que resiste a pôr em prática o que Deus espera deles. Outros podem notar que lhes falta calor humano, tão necessário para a convivência e para o apostolado. Alguns, talvez enérgicos, têm tendência, no entanto, para a precipitação e para a desordem, levados pelos sentimentos.

É uma tarefa que não acaba nunca. Implica detetar os desequilíbrios, as notas que desafinam, com uma atitude humilde e decidida a melhorar, sem impaciências nem desânimos, porque o Senhor nos olha com imenso carinho e compreensão. Que importante é aprender a meditar a nossa vida com os olhos do Senhor! Falando com Ele desperta-se a paixão pela verdade, em contacto com ela; perde-se o medo a conhecer o que realmente somos, sem evasões da imaginação ou deformações da soberba.

Ao contemplar a realidade a partir do diálogo com Deus, aprende-se também a ler nas pessoas e nos factos, sem o filtro flutuante de uma apreciação exclusivamente sentimental ou de utilidade imediata. É também onde aprendemos a admirar a grandeza de um Deus que ama a nossa pequenez, ao contemplar tantos mistérios que nos superam.

A VERDADEIRA ORAÇÃO

Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim 14. Assim se lamenta o Senhor na Escritura, porque sabe que cada alma tem que pôr n’Ele o seu coração para atingir a felicidade. Por isso, na oração, a disposição da vontade para encontrar, amar e pôr em prática o querer de Deus, tem uma certa preeminência sobre as outras capacidades da alma: «O aproveitamento da alma não está em pensar muito, mas em amar muito» 15.

Muitas vezes, rezar amando exigirá esforços, frequentemente vividos sem consolos nem frutos aparentes. A oração não é problema de falar ou de sentir, mas de amar. E amamos quando nos esforçamos por dizer alguma coisa ao Senhor, mesmo que não se diga nada. 16. Temos a confiança filial de que Deus outorga a cada um os dons de que mais necessita, quando mais os necessita. A oração – recorda-o – não consiste em fazer discursos bonitos, frases grandiloquentes ou que consolem...

Oração é, às vezes, um olhar a uma imagem de Nosso Senhor ou de Sua Mãe; outras, um pedido com palavras; outras, o oferecimento das boas obras, dos resultados da fidelidade...

Como o soldado que está de guarda, assim temos de estar nós à porta de Deus Nosso Senhor: e isso é oração. Ou como se deita o cãozinho aos pés do seu dono.

Não te importes de lho dizer: Senhor, aqui me tens como um cão fiel; ou melhor, como um burrinho que não dá coices a quem lhe quer bem. 17.

Esta experiência também acontece na amizade humana. Quando nos encontramos com outras pessoas pode suceder que não saibamos o que dizer, porque a cabeça não responde apesar das tentativas para entabular a conversa. Procuramos então outros meios para que não se crie um ambiente de frieza: um olhar amável, um gesto de cortesia, uma atitude de escuta atenta, um pequeno detalhe de preocupação pelas suas coisas. Toda a experiência verdadeiramente humana abre possibilidades de convívio com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem.

Como fidelidade e perseverança são outros nomes do amor, saberemos avançar, também quando a inteligência, a imaginação ou a sensibilidade escapem ao nosso controlo. Nesses momentos, o amor pode encontrar outras vias para se expandir. A tua inteligência está entorpecida, inactiva. Fazes esforços inúteis para coordenar as ideias, na presença do Senhor; um verdadeiro atordoamento!
Não te esforces nem te preocupes. - Escuta-me: é a hora do coração. 18

À hora de falar com Deus, ainda que a cabeça não responda, não se interrompe o diálogo. Inclusivamente quando verificamos que, apesar de uma luta autêntica, há distração e entorpecimento, temos a segurança de ter agradado com os nossos bons desejos a Deus Pai, que olha com amor para os nossos esforços.

ORAÇÃO E OBRAS

Atrevo-me a assegurar, sem temor de me enganar, que há muitas, infinitas maneiras de orar. Mas eu preferia para todos nós a autêntica oração dos filhos de Deus, não o palavreado dos hipócritas que hão-de ouvir de Jesus: nem todo o que me diz, Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus. (…) Que o nosso clamor – Senhor! - vá unido ao desejo eficaz de converter em realidade essas moções interiores, que o Espírito Santo desperta na nossa alma 19.

E para converter em realidade essas moções recebidas na oração, convém formular frequentemente propósitos. O fim da reflexão sobre as prescrições do Céu é a acção, para pôr em prática as prescrições divinas 20. Não se trata apenas de que a nossa inteligência navegue em ideias piedosas, mas de escutar a voz do Senhor e de cumprir a Sua vontade. A tua oração não pode ficar em meras palavras: há-de ter realidades e consequências práticas 21.

A oração dos filhos de Deus há-de ter consequências apostólicas. O apostolado revela-nos outra faceta do amor na oração. Queremos voltar a aprender a rezar, também para poder ajudar os outros. Aí encontraremos a força para levar muitas pessoas por caminhos de diálogo com Deus.

Não rezamos sozinhos porque não vivemos nem queremos viver sós. Quando pomos a nossa vida diante de Deus, necessariamente temos de falar daquilo que mais nos interessa, dos nossos irmãos na fé, dos nossos familiares, amigos e conhecidos; dos que nos ajudam ou daqueles que não nos entendem ou nos fazem sofrer. Se a vontade tem boas disposições, sem medo de complicar a vida, poderemos escutar na oração sugestões divinas, novos horizontes apostólicos e modos criativos de ajudar os outros.

O Senhor, a partir do interior da nossa alma, ajudar-nos-á a compreender os outros, a saber como lhes exigir, como levá-los até Ele; dará luzes à nossa inteligência para ler nas almas; aperfeiçoará os afectos; ajudar-nos-á a amar com um amor mais forte e mais limpo. A nossa vida de apóstolos vale o que valer a nossa oração.

c. ruiz
2012/09/20

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama

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Notas:
1 João Paulo II, Litt. Enc. Ecclesia de Eucaristia, 17-IV-2004, n. 25.
2 Mt 20, 15.
3 São Josemaria, Cristo que passa, n. 119.
4 Ro 8, 29.
5 Cfr. Gal 4, 19.
6 Gal 2, 20.
7 São Josemaria, Via Sacra, I, 1.
8 Cfr. Santo Ambrósio, De officiis ministrorum, I, 20, 88.
9 Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei Verbum, n. 25.
10 São Josemaria, Amigos de Deus, n. 253.
11 São Josemaria, Sulco, n. 448.
12 Catecismo da Igreja Católica, n. 2603.
13São Josemaria, Amigos de Deus, n. 143.
14 Is 29, 13; cfr. Mt 15, 8.
15 Santa Teresa de Jesus, Fundações, cap. 5, n. 2.
16 São Josemaria, Sulco, n. 464.
17 São Josemaria, Forja, n. 73.
18 São Josemaria, Caminho, n. 102.
19 São Josemaria, Amigos de Deus, n. 243.
20 Cfr. Santo Ambrósio: Expositio in Psalmum CXVIII, 6, 35.
21 São Josemaria, Forja, n. 75