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31/07/2020

Leitura espiritual


O HOMEM BOM

O TESOURO VERDADEIRO

Com as reflexões anteriores, procuramos desenhar um quadro da bondade actuante.
Agora, olhando com perspectiva essa pintura, é necessário concluir que, dentre os traços do quadro, talvez esteja faltando ressaltar o principal.
A razão é simples.
Todas as cores que se juntam para compor a luz da bondade apontam para uma única finalidade, várias vezes recordada ao longo destas páginas: fazer o bem.
Por isso, o que é realmente decisivo é ter uma ideia clara sobre o verdadeiro conceito de bem.
De nada adiantaria empenharmo-nos generosamente em fazer o bem aos outros, se, no final das contas, terminássemos por descobrir que, pretendendo ajudá-los, involuntariamente lhes fizemos mal ou, o que vem a dar na mesma, lhes proporcionamos bens fictícios e omitimos o bem real.
Daí a grande importância de não perdermos nunca de vista qual é o verdadeiro bem do homem, o único bem, sem o qual nenhum dos outros merece esse nome.
A resposta a essa pergunta sobre o bem já foi dada por Cristo:
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma? Ou que poderá dar o homem em troca da sua alma? (Mt 16, 26).
Estas palavras brilham como um lampejo no meio da escuridão.
Nenhum “bem” vale a pena se a alma estiver privada da Vida da graça de Deus.
Com efeito, sem a graça divina, uma alma está morta e, então, as melhores qualidades e “bens” de que possa dispor não passam de flores vistosas enfeitando um cadáver.
Estando ausente a vida, “de que aproveitam” as flores?
Deveriam pensar mais nisto, todos os que amam, todos aqueles que, por terem a fé cristã, são capazes de compreender a perspectiva de Cristo.
Sim, deveríamos entender que “querer bem” outra coisa não é que “querer o bem” do próximo, e que não há bem algum quando falta Deus.
“A quem tem Deus – dizia Santa Teresa de Ávila – nada lhe falta”.
A quem não o tem, podemos acrescentar, nada lhe aproveita.
É excelente, sem dúvida, o empenho dos pais em que os filhos tenham saúde, cultura, bem-estar, capacitação profissional que lhes permita enfrentar com segurança o futuro.
Mas é um empenho muito mais excelente e vital – por ser decisivo, questão de vida ou morte – esforçarem-se com a sua oração, o seu exemplo e uma orientação prudente e contínua, para que os filhos conheçam as verdades da fé cristã – a doutrina salvadora de Cristo – e aprendam a praticá-las.
Podem ter a certeza de que as virtudes cristãs de um filho vão fazer-lhe, ao longo do dia, um bem infinitamente maior do que todos os diplomas ou contas bancárias que lhes possam proporcionar.
Mil vezes mais vale a fé do que a saúde, a união com Deus do que o sucesso.
Só as virtudes cristãs são os tesouros verdadeiros de que Cristo falava (Mt 6, 19-20).
E só esses tesouros proporcionam àqueles que amamos a “realização” – o bem e a plenitude –, quer nesta terra, quer na eternidade.
Sem esta convicção, todos os ideais de bondade se dissolvem como um sonho ilusório.
Sempre deveria ecoar em nossos ouvidos, como um roteiro de bondade, o segredo que Cristo confidenciou a Marta:
Tu te inquietas e te perturbas por muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada (Lc 10, 41-42).
A “melhor parte” é estarmos junto de Cristo, atentos às suas palavras, fazendo da Vontade de Deus a luz e o norte da vida.
Aí está o verdadeiro bem do homem.

* * *
Começávamos estas páginas constatando que uma das impressões mais gratas e indeléveis da vida é ter conhecido um homem bom.
Ao encerrá-las com estes últimos pensamentos, talvez seja o momento de tomarmos consciência de que esse homem bom, deveríamos sê-lo cada um de nós.
Afinal, foi para isso que Deus nos pôs no mundo, e a nós nos cabe – com a sua ajuda – trabalhar por consegui-lo.
Não duvidemos de que, quando o curso desta nossa vida terrena se encerrar, uma das nossas maiores alegrias será olhar para trás e ver que a nossa passagem pelo mundo não foi inútil.
Valerá a pena termos vivido se, nessa hora definitiva, pudermos dizer que, pela misericórdia divina e apesar das nossas misérias, tivemos a graça de ser um reflexo da bondade de Deus nos corações dos homens.

......

[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.

30/07/2020

Leitura espiritual



Cartas de São Paulo

Romanos

14 Os «fortes» e os «fracos» -
1 Àquele que é fraco na fé, acolhei-o, sem cair em discussões sobre as suas maneiras de pensar. 2 Enquanto a fé de um lhe permite comer de tudo, o que é fraco só come legumes. 3 Quem come não despreze aquele que não come; e quem não come não julgue aquele que come, porque Deus o acolheu. 4 Quem és tu para julgares o criado de um outro? Se está de pé ou se cai, isso é lá com o seu patrão. Há-de, aliás, ficar de pé, porque o Senhor tem poder para o segurar. 5 Além disso, enquanto um julga que há dias e dias, há quem julgue que os dias são todos iguais. Tenha um e outro plena convicção daquilo que pensa. 6 Quem guarda alguns dias, é em honra do Senhor que os guarda; quem come de tudo, é em honra do Senhor que come, pois dá graças a Deus; e quem não come, é em honra do Senhor que não come, e também ele dá graças a Deus. 7 De facto, nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo. 8 Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; e se morremos, é para o Senhor que morremos. Ou seja, quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos. 9 Pois foi para isto que Cristo morreu e voltou à vida: para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos. 10 Mas tu, porque julgas o teu irmão? E tu, porque desprezas o teu irmão? De facto, todos havemos de comparecer diante do tribunal de Deus, 11 pois está escrito: Tão certo como Eu vivo, diz o Senhor, todo o joelho se dobrará diante de mim e toda a língua dará a Deus glória e louvor. 12 Portanto, cada um de nós terá de dar contas de si mesmo a Deus.

Unidos no amor –
13 Deixemos, pois, de nos julgar uns aos outros. Tomai de preferência esta decisão: não ser para o irmão causa de tropeço ou de escândalo. 14 Sei e estou convencido, no Senhor Jesus, de que nada é impuro em si mesmo. Uma coisa é impura só para aquele que a considera como impura. 15 Se, por tomares um alimento, entristeces o teu irmão, então não estás a proceder de acordo com o amor. Não faças, com o teu alimento, com que se perca aquele por quem Cristo morreu. 16 Que não seja, pois, motivo de blasfémia o bem que há em vós. 17 É que o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo. 18 E quem deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e estimado pelos homens. 19 Procuremos, portanto, aquilo que leva à paz e à edificação mútua. 20 Não destruas a obra de Deus, por uma questão de alimento. Todas as coisas são puras, certamente, mas tornam-se más para aquele que, ao comê-las, encontra nisso causa de tropeço. 21 O que é bom é não comer carne nem beber vinho, nada em que o teu irmão possa tropeçar. 22 Guarda para ti, diante de Deus, a convicção de fé que tens. Feliz de quem não se condena a si mesmo, devido às decisões que toma. 23 Mas quem sente escrúpulos por aquilo que come fica culpado, por não agir de acordo com a sua convicção de fé. Tudo o que não é feito a partir da convicção de fé é pecado.


 
Amigos de Deus

21           
Na barca de Cristo

Como a Nosso Senhor, também a mim me agrada muito falar de barcas e de redes, para todos tirarmos propósitos firmes e concretos dessas cenas evangélicas. S. Lucas conta-nos que uns pescadores lavavam e remendavam as redes à beira do lago de Genesaré. Jesus aproxima-se de uma daquelas naves atracadas na margem e sobe a uma delas, a de Simão. Com que naturalidade se mete o Mestre na vida de cada um de nós para nos complicar a vida, como se repete por aí em tom de queixa. Nosso Senhor cruzou-se convosco e comigo no nosso caminho, para nos complicar a existência, delicadamente, amorosamente.

Depois de pregar da barca de Pedro, dirige-se aos pescadores: duc in altum, et laxate retia vestra in capturam, remai para o mar alto e lançai as redes! Fiados na palavra de Cristo, obedecem e obtêm aquela pesca prodigiosa. Olhando para Pedro que, como Tiago e João, estava pasmado, Nosso Senhor explica-lhe: não tenhas medo; desta hora em diante serás pescador de homens. E, trazidas as barcas para terra, deixando tudo, seguiram-no.

A tua barca - os teus talentos, as tuas aspirações, os teus êxitos - não vale para nada, a não ser que a ponhas à disposição de Jesus Cristo, que permitas que Ele possa entrar nela com liberdade, que não a convertas num ídolo. Sozinho, com a tua barca, se prescindires do Mestre, sobrenaturalmente falando, encaminhas-te directamente para o naufrágio. Só se admitires, se procurares a presença e o governo de Nosso Senhor, estarás a salvo das tempestades e dos reveses da vida. Põe tudo nas mãos de Deus: que os teus pensamentos, as aventuras boas da tua imaginação, as tuas ambições humanas nobres, os teus amores limpos, passem pelo coração de Cristo. De outra forma, mais tarde ou mais cedo, irão a pique com o teu egoísmo.

22           
Se consentires que Deus seja o senhor da tua nave, que Ele seja o amo, que segurança!..., mesmo quando a tempestade se levanta no meio das trevas mais escuras e parece que Ele se ausenta, que está a dormir, que não se preocupa. S. Marcos relata que os Apóstolos se encontravam nessas circunstâncias; e Jesus, vendo-os cansados de remar (porque o vento lhes era contrário), cerca da quarta vigília da noite foi ter com eles, andando sobre o mar... Tende confiança, sou eu, não temais. E subiu para a barca, para junto deles e cessou o vento.

Meus filhos, acontecem tantas coisas na terra...! Podia pôr-me a falar de penas, de sofrimentos, de maus tratos, de martírios - não tiro nem uma letra -, do heroísmo de muitas almas. Aos nossos olhos, na nossa inteligência, surge às vezes a impressão de que Jesus dorme, de que não nos ouve; mas S. Lucas narra como Nosso Senhor se comporta com os seus: Enquanto iam navegando, Jesus adormeceu e levantou-se uma tempestade de vento sobre o lago e a barca enchia-se de água e estavam em perigo. Aproximando-se dele, despertaram-no dizendo: Mestre, nós perecemos! Ele, levantando-se, increpou o vento e as ondas, que acalmaram e veio a bonança. Então disse-lhes: onde está a vossa fé?

Se nos dermos, Ele dá-se-nos. Temos de confiar plenamente no Mestre, temos de nos abandonar nas suas mãos sem mesquinhez; de lhe manifestar, com as nossas obras, que a barca é dele, que queremos que disponha à vontade de tudo o que nos pertence.

Termino, recorrendo à intercessão de Santa Maria, com estes propósitos: viver de fé; perseverar com esperança; permanecer unidos a Jesus Cristo, amá-lo de verdade, de verdade, de verdade; percorrer e saborear a nossa aventura de Amor, pois estamos apaixonados por Deus; deixar que Cristo entre na nossa pobre barca e tome posse da nossa alma como Dono e Senhor; manifestar-lhe com sinceridade que havemos de nos esforçar por nos mantermos sempre na sua presença, de dia e de noite, porque Ele nos chamou à fé: ecce ego quia vocasti me! e que vimos ao seu redil atraídos pela sua voz e pelos seus assobios de Bom Pastor, com a certeza de que só à sua sombra encontraremos a verdadeira felicidade temporal e eterna.

23           
Tenho recordado com frequência aquela cena comovedora que o Evangelho nos relata: Jesus está na barca de Pedro, de onde tinha falado ao povo. Essa multidão que o seguia moveu o afã de almas que consome o seu Coração e o Divino Mestre quer que os discípulos participem quanto antes desse zelo. Depois de lhes dizer que se façam ao largo - duc in altum! - sugere a Pedro que lance as redes para pescar.

Não me vou demorar agora nos pormenores, tão instrutivos, desses momentos. Desejo que consideremos a reacção do Príncipe dos Apóstolos perante o milagre: afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador . É uma verdade - disso não tenho dúvidas - que se ajusta perfeitamente à situação pessoal de todos. No entanto, asseguro-vos que, ao tropeçar durante a minha vida com tantos prodígios da graça, realizados através de mãos humanas, tenho-me sentido inclinado, diariamente cada vez mais inclinado, a gritar: Senhor, não te afastes de mim, pois sem Ti não posso fazer nada de bom.

Precisamente por isso, percebo muito bem aquelas palavras do Bispo de Hipona, que soam como um cântico maravilhoso à liberdade: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti, porque cada um de nós, tu, eu, temos sempre a possibilidade - a triste desventura - de nos levantarmos contra Deus, de rejeitá-lo - talvez só com a nossa conduta - ou de exclamar: não queremos que reine sobre nós.

24           
Escolher a vida

Agradecidos por nos apercebermos da felicidade a que estamos chamados, aprendemos que todas as criaturas foram tiradas do nada por Deus e para Deus: as racionais, os homens, apesar de tão frequentemente perdermos a razão; e as irracionais, as que percorrem a superfície da terra, ou habitam as entranhas do mundo, ou cruzam o azul do céu, algumas delas até fitarem o Sol. Mas, no meio desta maravilhosa variedade, só nós, homens -não falo aqui dos anjos - nos unimos ao Criador pelo exercício da nossa liberdade, podendo prestar ou negar a Nosso Senhor a glória que lhe corresponde como Autor de tudo o que existe.

Essa possibilidade é a principal componente do claro-escuro da liberdade humana. Nosso Senhor convida-nos e anima-nos a escolher o bem, porque nos ama profundamente. Considera que ponho hoje diante de ti, dum lado, a vida e o bem, do outro, a morte e o mal. Recomendo-te que ames o Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus preceitos, as suas leis e os seus decretos. Se assim fizeres, viverás... Escolhe, pois, a vida para que vivas .

Queres pensar - pela minha parte também farei o meu exame - se manténs imutável e firme a tua escolha da Vida? Se, ao ouvires essa voz de Deus, amabilíssima, que te estimula à santidade, respondes livremente que sim? Dirijamos o olhar para o nosso Jesus, quando falava às multidões pelas cidades e campos da Palestina. Não pretende impor-se. Se queres ser perfeito..., diz ao jovem rico. Aquele rapaz rejeitou o convite e o Evangelho conta que abiit tristis , que se retirou entristecido. Por isso, alguma vez lhe chamei a ave triste: perdeu a alegria, porque se negou a entregar a liberdade a Deus.


Leitura espiritual



1 «Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. 2 Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. 3 Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado. 4 Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. 5 Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. 7 Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. 8 Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos.» 9 «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor. 10 Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor. 11 Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa. 12 É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. 13 Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos. 14 Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15 Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai. 16 Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. 17 É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros.» 18 «Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a mim. 19 Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. 20 Lembrai-vos da palavra que vos disse: o servo não é mais que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também vos hão-de perseguir a vós. Se cumpriram a minha palavra, também hão-de cumprir a vossa. 21 Mas tudo isto vos farão por causa de mim, porque não reconhecem aquele que me enviou. 22 Se Eu não tivesse vindo e não lhes tivesse dirigido a palavra, não teriam culpa, mas, agora, não têm escusa do seu pecado. 23 Quem me odeia a mim odeia também o meu Pai. 24 Se, diante deles, Eu não tivesse realizado obras que ninguém mais realizou, não teriam culpa; mas agora, apesar de as verem, continuam a odiar-me a mim e ao meu Pai. 25 Tinha, porém, de se cumprir a palavra que ficou escrita na sua Lei: Odiaram-me sem razão.» 26 «Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai, Ele dará testemunho a meu favor. 27 E vós também haveis de dar testemunho, porque estais comigo desde o princípio.»

Comentários:

         Todos compreendem estas imagens usadas por Cristo. Não e necessário ser agricultor para saber que um ramo qualquer separado do tronco não serve para nada e acaba por secar. E, a razão porque tal acontece é compreendida por todos: o ramo vive enquanto recebe a seiva que corre no tronco. Separados de Cristo, a Sua Palavra, que é a seiva que alimenta a vida, deixa de correr em nós, alimentar a nossa alma e, o resultado é o mesmo, mortos espiritualmente, não servimos para nada. O que se pode concluir, sem esforço, é que a nossa união com Deus é vital para a nossa própria sobrevivência.
Unidos a Ele, viveremos uma vida com sentido e com proveito donde que, o contrário, isto é, separados d’Ele, acabamos por morrer por não ter qualquer préstimo.
         Pela segunda vez este ano a Liturgia apresenta este trecho de São João e, parece-me que a razão se compreende com facilidade: A Igreja quer chamar-nos a atenção para a necessidade de uma constante revisão de vida, para um exame cuidado e sério do nosso comportamento como cristãos. O que temos que conservar e desenvolver e o que não interessa e convém deixar.
         Este Mandamento – o Mandamento Novo – é, digamos assim, a razão da vinda do Senhor à terra. Ao mandar-nos ter o amor como motivo e razão da nossa vida, mais não faz que confirmar que, sem o AMOR, não é possível fazer parte da família divina como filhos de Deus. Mais: sem amor, nem sequer seremos considerados como amigos - o que já seria muito – mas servos que não têm nem escolha ou outra vontade que as do seu Senhor. Amando, deveras, alcançaremos essa dignidade extraordinária de amigos escolhidos, um a um, pelo próprio Jesus Cristo. Poderá haver quem não goste desta palavra – servo! – uns, porque acham, e com alguma razão, que é de certo modo pejorativa e, outros, porque parece estar em contradição com a própria liberdade que o nosso Criador nos outorgou. Mas, de facto, nem uns nem outros veem como devem ver: Em primeiro lugar, qualquer um de nós pode considerar-se servo de alguém, seja o patrão para o qual trabalha, seja a própria profissão que escolheu e que o obriga a cumprir com os princípios de ética e outros dessa mesma profissão; Depois porque a liberdade que disfrutamos não a conquistámos, por assim dizer, foi-nos dada sem nenhuma contribuição da nossa parte. Mas, então, pode aduzir-se, nunca se é inteiramente livre! É verdade, a nossa liberdade, que tanto prezamos, permite-nos fazer o que bem entendermos, mas, naturalmente que ela só existirá se as nossas escolhas forem acertadas quando não acabamos por ser servos – melhor dito – escravos dos nossos defeitos, tendências e vícios.
         É bem de ver que podar as videiras é uma tarefa absolutamente necessária para não só manter a saúde e o vigor das plantas, como para garantir frutos abundantes e de bom calibre. Abandonada, a videira continuará a dar frutos mas, em pouco tempo, este tornam-se enfezados e sem qualquer préstimo e a própria videira crescerá sem forma, num emaranhado de ramos e folhas que acabarão por abafar as outras plantas que estiverem próximo. Assim connosco, os cristãos, temos de "podar" quanto não presta ou está a mais na nossa vida, mantendo o vigor e a saúde da nossa alma para que as obras sejam boas, dêem os frutos que O Senhor legitimamente espera colher. Por vezes pode custar esse corte, essa "limpeza" desses inúmeros "ramos" que são os desejos de ter, os atilhos que nos prendem a coisas supérfluas, o lastro que vamos acumulando que nos pesa e tolhe. Mas vale a pena! As importantes declarações de Jesus unem indissoluvelmente o amor e a alegria. Não é possível existir uma sem o outro e compreende-se bem porquê: A alegria que o amor – verdadeiro, sincero, total – produz no ser humano, é de tal forma visível, palpável, que não há quem se atreva a negá-lo. O inverso, infelizmente, é bem verdadeiro, sem amor o homem vive mergulhado na tristeza e não é, de modo nenhum, e um ser completo porque Deus criou-nos para amar. Há quem aduza que todos os amores humanos por honestos, verdadeiros, puros, que possam existir não se podem comparar com o Amor de Deus porque Ele É O Amor! Mas Cristo diz o contrário, que o amor é só um, o que vale, o que interessa: O Amor do Pai pelo Filho e, sendo assim, é este Amor que devemos perseguir com afinco para atingirmos aquela alegria de Cristo, sumo bem e consolação. Por isso mesmo nos diz categoricamente: «o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». Amar como Jesus pede é possível? Temos de convir que sim ou ele não o teria pedido. Aliás, faz mais que um pedido, dá uma instrução, uma regra. Sem amor, que interessa a vida? Como são possíveis as boas obras? Quem ama está por natureza definitivamente empenhado no que ama. É o que mais quer, o que mais entranhadamente deseja porque o tem como um autêntico bem que não pode desperdiçar. Não tenhamos medo do amor e de o demonstrar com palavras e com obras.
          Alegria, alegria... É principal característica dos filhos de Deus porque a alegria nasce do amor e os filhos de Deus são reconhecidos exactamente pelo amor que os une entre si, a todos os homens, a Deus. Tudo começa na extraordinária noite do nascimento de Cristo em que os Anjos do Céu anunciam aos pastores de Belém «uma grande alegria». Esta alegria incomensurável perdurará para sempre até ao final dos tempos e, depois, continua no Céu no gozo da presença de Deus.
Qual é o “motor” da alegria? O amor! Alguém que ama – verdadeiramente ama – tem de ser uma pessoa alegre porque não há forma de se poder amar como convém – isto é, totalmente – sem essa alegria que vem de dentro, do mais fundo do coração. E isto - perdoe-se-me – não é poesia, mas uma realidade. Jesus Cristo declara-se alegre, totalmente alegre, o que é natural porque o Seu Amor é total, não tem nem condições nem limites.
         O Senhor confirma aos Seus Apóstolos, para que não lhes restem quaisquer dúvidas, que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade dará testemunho, confirmará por assim dizer, quanto Ele lhes disse e ensinou. E o mesmo Espírito Santo lhes dará as luzes que possam necessitar para compreender o que ouviram. Só agora, o Senhor lhes diz isto porque, como disse e é absolutamente lógico, tudo ouviram directamente da Sua boca enquanto esteve com eles Talvez que o maior bem que nos foi alcançado por Jesus Cristo seja o ter-nos retirado do mundo, isto é, pertencendo ao mundo sem ser mundanos. Isto significa que a podemos viver perfeitamente a nossa vida espiritual que é, no fim e ao cabo, a nossa íntima relação com Deus, vivendo onde temos de viver nos ambientes e circunstâncias que cabem a cada um. Não precisamos retirar-nos para viver uma intensa vida de piedade, de amorosa " ligação " com a prática da nossa fé, ser santos. Santos no meio do mundo! Esta maravilhosa realidade foi-nos dada por Jesus que, sem qualquer mérito da nossa parte, nos proporciona quanto precisamos para a atingir.
         Jesus Cristo que É a VERDADE, não podia enganar-nos, com promessas, “futuros cor-de-rosa”, vidas cheias de bons momentos e futuros risonhos. Bem ao contrário, diz sem rebuços tudo quanto irá acontecer aos que decidirem segui-Lo e espalhar o Reino de Deus pela terra. Não só no futuro imediato, mas ao longo de todos os tempos, como bem vemos agora. Não parece apelativo este convite a segui-Lo, mas, a verdade, é que não faltaram – nem faltarão nunca – quem se decida por esse caminho e, o que parece ser um contra-senso é na verdade, uma escolha de extraordinária eficácia. Ninguém gosta de sofrer, mas, se for preciso passar dificuldades, amarguras, maus tratos e, até sacrificar a própria vida pela “causa” Divina haverá sempre quem escolha esse caminho porque sabe que, o prémio vale bem tudo isso. O que o Senhor tem reservado para quem O segue é um bem incomensuravelmente maior que qualquer contratempo, dificuldade ou obstáculo. E, com Ele, depositando n’Ele inteira confiança que nunca nos faltará com o Seu auxílio, vale bem a pena percorrer esse caminho.
         Na verdade, quando Deus "decidiu" salvar a humanidade, recuperando os filhos perdidos pelo pecado de Adão, fá-lo para sempre. Não admira, o homem está feito para a eternidade. Primeiro Deus Pai envia os profetas e estabelece alianças com o povo escolhido; logo Deus Filho toma a forma humana gerado no seio puríssimo da Santíssima Virgem e vive entre os homens, fisicamente, durante trinta e três anos, entregando o penhor dessa vida eterna, ensinando os meios para a conquistar, depositando nas mãos de Pedro à chaves do Reino de Deus e, depois, já legitimados como autênticos filhos de Deus, vem Deus Espírito Santo para confirmar na fé, consolidar a esperança e fortalecer o amor e, finalmente, ficar connosco até ao final dos tempos assistindo-nos com os Seus Dons inefáveis. Temos forçosamente de concluir que Deus não nos abandona nunca e que o Seu gozo e alegria é que vivamos esta vida terrena de tal forma que possamos merecer gozar a Sua presença por toda a eternidade.
         Jesus sublinha uma vez mais que sem Ele nada podemos fazer. E como proceder? Estando unidos a Ele. Não há outro processo ou alternativa. Unidos a Cristo como os ramos à videira podemos tudo mesmo o que aparentemente é impossível. Jesus dá este exemplo muito gráfico da videira e dos sarmentos para ”reforçar” a absoluta necessidade que temos de estar unidos a Ele, o que temos a ganhar e o que perderemos se o não estivermos. O que andam a fazer no monte as ovelhas sem pastor? Andam perdidas e sem rumo em busca das melhores pastagens que, sem a ajuda do pastor, serão muito difíceis de encontrar. Andarão perdidas e sem rumo podendo precipitar-se num barranco que não adivinham ou entrar no território perigoso do lobo que está sempre à espreita. Sim! Unidos a Cristo com firmeza e determinação e, sobretudo, com toda a confiança na Sua pronta e eficaz assistência em caso de necessidade. Todos entendemos bem estas imagens de que o Senhor se serve para nossa doutrina. Podemos não ser “agricultores experimentados”, mas sabemos o suficiente para compreender que um ramo só pode produzir frutos se estiver ligado ao tronco. O nosso “tronco” é Jesus Cristo, que mergulhado na nossa humanidade por vontade própria – por Amor – nos garante a seiva, o alimento necessário para que não só vivamos, mas, sobretudo, para que frutifiquemos. E… que frutos são esses? Nada mais que as boas obras que praticamos e, estas, não são outra coisa que o cumprimento da Vontade de Deus. São João, com o estilo que lhe é próprio, reproduz as palavras de Jesus Cristo que nos parece estar a ouvir o Senhor a explicar-nos com singela simplicidade o que significa ser cristão: [1] ESTAR UNIDO A CRISTO! Evidentemente que sabemos muito bem que somos cristãos pela força da graça infundida no Baptismo mas, do que falamos é viver como cristãos e tal não é possível sem essa união íntima, sólida, constante como os sarmentos em relação à vide. Então, compreendemos bem, que tal como a vide só está “completa” com os sarmentos a ela unidos, também nós só estaremos “completos” se unidos a Cristo. Sem esta união somos incapazes de dar qualquer fruto aproveitável porque, de facto, Quem os produz é o Próprio Cristo por nosso intermédio, como instrumentos Seus para espalhar por toda a parte o Seu Reino de Paz e Amor.
         As palavras de Cristo segundo Ele próprio são «espírito e vida» e, segundo o príncipe dos Apóstolos são «palavras de vida eterna». As duas afirmações completam-se admiravelmente não sendo necessárias mais explicações. Ouvindo Cristo, guardando as suas palavras temos quanto precisamos para viver esta vida de forma a ganhar a vida eterna. Há algo neste trecho de São João: «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós» que é tão sério e importante que não podemos deixar de reflectir detidamente. O amor que Cristo nos tem é igual ao amor que Deus Pai tem por Deus Filho?! Então… é um amor imenso, sem medida nem comparação possível. Vemos as “consequências” desse amor: dar a vida por nós! O Senhor quase que resume todas as Suas recomendações numa única: «É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». Esforçar-se por cumprir este mandato é, pois, o segredo da nossa salvação.
         A Sagrada Liturgia vai, ao longo do tempo pascal, percorrendo, entre outros, o Capítulo 15 do Evangelho escrito por São João. Percebemos que esta insistência se deve ao desejo de que gravemos bem no nosso espírito Quem é de facto Jesus Cristo e – com palavras humanas – a estrutura da Sua doutrina. Insiste, sobretudo, no amor, ou melhor, no AMOR com letra grande, porque, de facto, a Sua vinda a este mundo assumindo uma identidade humana igual a nós em tudo excepto no pecado, se deve a uma “missão” de amor que terminará no Sacrifício da Cruz como a prova maior e mais completa desse mesmo AMOR. Não podemos, nós os homens, viver sem amor e, há que primeiro amar com toda a nossa alma e todas as nossas capacidades a Deus Nosso Senhor e, depois, como bem sabemos, os outros – todos – por amor de Deus. Nunca o esqueçamos: Nós somos a prova viva do Amor de Deus!
              Nós que ouvimos a Palavra de Deus e que tentamos pô-la em prática somos, para Jesus Cristo iguais à Sua Santíssima Mãe? Assusta um pouco esta afirmação do Senhor, mas na verdade temos de reconhecer que é muito lógica. Quem primeiro pós em prática a Palavra que ouviu do Anjo? Foi Maria Santíssima donde que imitando-a merecermos tão grande honra.
     Este tempo que vivemos é o tempo do Espírito Santo. O que sabemos e intuímos é a Ele que o devemos. Presente na nossa vida diária vai concedendo na medida em que precisamos e Lhe pedimos os Dons de cujos frutos vivemos. Sem eles ficaríamos absolutamente impedidos de fazer algo bom é meritório

       





[1] São João é o único Evangelista que relata esta parábola da videira.

29/07/2020

Leitura espiritual

Contribuir para a evangelização no próprio trabalho
Ao longo da sua vida, S. Josemaria pregou incansavelmente que todos os baptizados são chamados à santidade, e que pode atingir-se esta santidade no exercício de qualquer profissão honesta. Foi uma mensagem original, que abria horizontes inesperados na vida quotidiana de muitos católicos.
“O que a ti te maravilha, a mim parece-me razoável. – Por que foi Deus procurar-te no exercício da tua profissão? Assim procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto às redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos... E – admira-te! – Paulo, na sua ânsia de acabar com a semente dos cristãos”[1].
Nos planos de Deus, o trabalho não ocupa um lugar acidental. É muito mais do que uma forma de garantir a própria subsistência. Inclusive do ponto de vista humano, “é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”[2]. E o olhar da fé descobre que esta atividade é um modo de participar na tarefa da criação e redenção[3]; o valor do trabalho torna-se maior, porque se vê como “meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora” [4]. Portanto, é lógico que consideremos a transcendência que esta realidade tem para a missão da Igreja, especialmente na tarefa da nova evangelização.

A dimensão social da profissão
Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, quis partilhar também a condição de trabalhador, e exercer uma profissão concreta. O Evangelho conta que os seus compatriotas o reconheciam como “o filho do artesão”[5], e na sua pregação encontramos vários exemplos retirados dos labores quotidianos dos homens e mulheres do seu tempo: a agricultura[6], o trabalho da casa[7], o comércio[8]. O mundo do trabalho não lhe era alheio, e entendia o que significa desempenhar um ofício que pressupõe conhecimentos e capacidades específicas.
S. Lucas mostra no seu Evangelho que durante a sua infância, «Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens»[9]. Isso realizar-se-ia também através do trabalho diário na oficina de S. José. Porque a profissão é um meio para o desenvolvimento da personalidade. Em boa medida, configura um modo de ser particular: um administrador aprende a ser minucioso nas contas, os jornalistas desenvolvem aptidões comunicativas, etc. Por meio do trabalho executado durante anos, se a pessoa não cai na rotina, consegue crescer e desenvolver diversas aptidões, até chegar ao ponto de estar orgulhosa da sua atividade, cresce um entusiasmo pela profissão.
Mas a profissão não é simplesmente um recurso para cultivar uma atividade para a qual nos sintamos mais ou menos inclinados. Precisamente porque nos situa dentro da comunidade humana, a profissão supera o âmbito privado e chega a ter uma dimensão social evidente. A pessoa apresenta-se perante os outros cidadãos como operário, vendedor, professor, agricultor, etc. E, precisamente nesta posição, a pessoa insere-se numa rede de relações profissionais, onde ocorre um intercâmbio recíproco de bens e serviços. O resultado final é maior daquele que cada pessoa poderia conseguir sozinha, com as suas próprias forças. Por exemplo, para levantar um arranha-céus moderno é necessária a colaboração de milhares de operários, técnicos e engenheiros da empresa construtora, o trabalho também não seria possível sem os serviços realizados por outras empresas, bem como o financiamento externo e outras facilidades que a autoridade pública pode conceder, tendo em consideração a importância social do projecto.
De modo especial hoje em dia, exercer uma profissão implica relacionar-se com muitas pessoas, sem as quais não poderíamos atingir objectivos comuns. Diz-se, com razão, que somos interdependentes, ao constatar, entre outras coisas, que é indispensável o estabelecimento de relações profissionais. Relações que, no entanto, são sempre entre pessoas, e que – neste sentido – devem ser cultivadas de acordo com a dignidade do ser humano. Portanto, nesse intercâmbio de serviços, além das considerações em relação à produtividade e eficiência, que são lógicas, não podemos esquecer a sua dimensão ética. Assim o advertia Bento XVI: “O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora”[10].

Cultivar relações profissionais à medida do homem
A atividade profissional perderia o seu sentido se não contribuísse para a perfeição global da pessoa, em última análise, se não ajudasse os homens e mulheres a responderem ao seu chamamento para a santidade. E, apesar disso, não é raro encontrar perspectivas – teóricas ou práticas – que ferem a dignidade do homem por dar realce excessivo à capacidade produtiva dos indivíduos, e reduzir a finalidade do trabalho ao simples aumento do consumo. Chegam até a pensar que é possível construir uma civilização fundada no egoísmo, e consideram o trabalhador uma mera engrenagem de uma grande máquina de produção.
O Papa Francisco, reflectindo sobre os problemas que muitos países actualmente enfrentam, apontou claramente os limites de tais abordagens redutoras: “A crise mundial, que envolve as finanças e a economia, parece evidenciar as suas deformações e, sobretudo, a sua grave carência de perspectiva antropológica, que reduz o homem a uma única das suas exigências: o consumo. Pior ainda, hoje o próprio ser humano é visto como um bem de consumo, que se pode usar e deitar fora. Começámos esta cultura do descartável. Esta perversão verifica-se tanto a nível individual como social” [11].
Diante deste panorama, os cristãos são chamados a demonstrar, com obras, que é possível desenvolver relações profissionais que ajudem as pessoas do ambiente de trabalho a realizarem-se como pessoas, e ao mesmo tempo serem proveitosas e produtivas. Trata-se da tarefa de ordenar rectamente as actividades temporais[12]. De certo modo, é necessário redescobrir o autêntico sentido do profissionalismo, que é um valor comum a muitas culturas.
Como é o perfil de um bom profissional? Pensamos imediatamente que essa pessoa deve realizar o seu trabalho com competência: apresentar um produto de qualidade, dominar os conhecimentos técnicos específicos da profissão, ter a desenvoltura necessária para usar certas máquinas ou programas informáticos. É preciso acrescentar a isso outras aptidões ou hábitos, que facilitam o trabalho de toda a equipa e dos clientes: pontualidade nas reuniões, tratamento afável no escritório ou na fábrica, a lealdade de quem não gera conflitos com os seus companheiros e dirigentes, etc.
A lista poderia continuar a crescer de modo ilimitado. Em qualquer caso, é claro que as virtudes contribuem para a boa realização da atividade laboral. E, neste ponto, todos os baptizados podem dar um claro testemunho de como a fé contribui para a perfeição da pessoa, incluindo a dimensão profissional. Não porque procurem uma oportunidade de auto.afirmação, mas porque consideram o trabalho como um campo privilegiado para levar, com naturalidade, a mensagem do Evangelho, de servir os homens, em todas as suas dimensões. Assim o dizia São Josemaria: “Não acredito na rectidão de intenção de quem não se esforça por alcançar a competência necessária para cumprir bem as tarefas que lhe são confiadas. Não basta querer fazer o bem; é preciso saber fazê-lo. E, se realmente o queremos, esse desejo traduzir-se-á no empenho por utilizar os meios adequados para deixar as coisas acabadas, com perfeição humana”[13].
Quando um cristão, apesar das suas limitações pessoais, se esforça por ser um bom profissional, adquire uma reputação que facilita o apostolado no seu ambiente de trabalho, e essa atitude torna-se num convite a aproximar-se da fé católica para os outros. É um testemunho de vida cristã ao qual são particularmente sensíveis os homens e mulheres que vivem numa cultura que valoriza o trabalho bem feito. É um campo em que podemos aplicar o seguinte convite de Bento XVI: “A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou.”[14]

Ser coerentes com o chamamento à santidade na profissão
É possível contribuir para a tarefa da evangelização a partir de todos os campos profissionais, por mais variados que sejam. Isso implica apresentar um estilo de trabalho, de relacionamento com os outros, que provavelmente entrará em contraste com outros modos que não são coerentes com o chamamento à santidade que todo o homem possui. Nestas circunstâncias, a unidade de vida dos fiéis cobra uma maior importância.
Os filhos de Deus não podem contentar-se com ocupar posições de influência no local de trabalho (empresas, associações profissionais, sindicatos), se não colocarem os meios que puderem para mudar práticas contrárias à dignidade da pessoa. Devem aproveitar as oportunidades que têm para que a sua organização ou empresa promova um ambiente que facilite o desenvolvimento humano, e, ao mesmo tempo, seja rentável. E não apenas porque oferece formação profissional, mas também porque as condições de trabalho proporcionam aos funcionários dedicar o tempo necessário para cultivar o relacionamento com Deus, a vida familiar, alguns hobbies.
Por outro lado, é evidente que na profissão há situações em que a coerência cristã é testada: convites dos colegas a um ganho pessoal à custa de prejudicar os recursos da empresa; prestação de serviços que, embora à primeira vista pareçam de acordo com os termos do contrato, a longo prazo causam dano aos clientes; estratégias de concorrência desleal, etc. Às vezes, são colocados como condições que devem ser aceites, porque “as coisas funcionam assim”, ou “temos feito isso há já muito tempo”. Podem até mesmo ser práticas que, por um defeito na legislação, não teriam repercussões legais, mas para o cristão, é evidente que não estão de acordo com a lei de Deus.
É hora de lembrar que o Senhor quer que sejamos, também no nosso ambiente de trabalho, o sal da terra que não pode perder o seu sabor[15]. E para contribuir para a missão da Igreja, temos de vencer os respeitos humanos e o medo de condicionar a carreira. Ultimamente, o Papa Francisco tem insistido em que não podemos ceder ao domínio dos interesses económicos desordenados que prejudicam o bem geral do indivíduo, especialmente dos mais vulneráveis: “O que manda hoje não é o homem, mas o dinheiro, é o dinheiro que manda! E Deus, nosso Pai, confiou a tarefa de conservar a terra, não ao dinheiro, mas a nós: são os homens e mulheres que temos esta tarefa!”[16].
É verdade que em muitos casos pode chegar-se a ganhos e sucesso fácil quando a lei de Deus não é seguida, mas são frágeis: não faltam exemplos nos últimos anos de escândalos no mundo dos negócios e no financeiro que confirmam isso. Os fiéis, porém, sabem que um estilo de trabalho impregnado pela caridade cristã responde à verdade sobre o homem e, consequentemente, não implica de forma alguma exercer uma profissão medíocre. Vivem com essa visão de fé que os leva a medir bem o seu bem-estar material e realizações temporais, com a consciência de que não temos morada permanente na terra[17] e que o maior projecto que podem realizar é o da santidade pessoal: “cem por um e a vida eterna! – Parece-te pequeno o ‘negócio’?”[18]

(R. Valdés)

28/07/2020

Leitura espiritual


Cartas e São Paulo

Romanos

II. A VIDA DE ACORDO COM O EVANGELHO
(12,1-15,13)

12 O culto espiritual –
1 Por isso, vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual. 2 Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito.

Ao serviço da comunidade –
3 Assim, em virtude da graça que me foi dada, digo a todos e a cada um de vós que não se sinta acima do que deve sentir-se; mas sinta-se preocupado em ser sensato, de acordo com a medida de fé que Deus distribuiu a cada um. 4 É que, como num só corpo, temos muitos membros, mas os membros não têm todos a mesma função, 5 assim acontece connosco: os muitos que somos formamos um só corpo em Cristo, mas, individualmente, somos membros que pertencem uns aos outros. 6 Temos dons que, consoante a graça que nos foi dada, são diferentes: se é o da profecia, que seja usado em sintonia com a fé; 7 se é o do serviço, que seja usado a servir; se um tem o de ensinar, que o use no ensino; 8 se outro tem o de exortar, que o use na exortação; quem reparte, faça-o com generosidade; quem preside, faça-o com dedicação; quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria.

O amor faz o bem –
9 Que o vosso amor seja sincero. Detestai o mal e apegai-vos ao bem. 10 Sede afectuosos uns para com os outros no amor fraterno; adiantai-vos uns aos outros na estima mútua. 11 Não sejais preguiçosos na vossa dedicação; deixai-vos inflamar pelo Espírito; entregai-vos ao serviço do Senhor. 12 Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração. 13 Partilhai com os santos que passam necessidade; aproveitai todas as ocasiões para serdes hospitaleiros. 14 Bendizei os que vos perseguem; bendizei, não amaldiçoeis. 15 Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram. 16 Preocupai-vos em andar de acordo uns com os outros; não vos preocupeis com as grandezas, mas entregai-vos ao que é humilde; não vos julgueis sábios por vós próprios. 17 Não pagueis a ninguém o mal com o mal; interessai-vos pelo que é bom diante de todos os homens. 18 Tanto quanto for possível e de vós dependa, vivei em paz com todos os homens. 19 Não vos vingueis por vós próprios, caríssimos; mas deixai que seja Deus a castigar, pois está escrito: É a mim que compete punir, Eu é que hei-de retribuir, diz o Senhor. 20  Em vez disso, se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede, dá-lhe de beber; porque, se fizeres isso, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça. 21 Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem.


 
Amigos de Deus

7            
É bem certo que se trata de um objectivo elevado e árduo. Mas não se esqueçam de que o santo não nasce: forja-se no jogo contínuo da graça divina e da correspondência humana.
Um dos escritores cristãos dos primeiros séculos adverte, referindo-se à união com Deus: Tudo o que se desenvolve começa por ser pequeno.
Ao alimentar-se gradualmente, com constantes progressos, é que chega a ser grande.
Por isso te digo que, se quiseres portar-te como um cristão coerente - sei que estás disposto a isso, embora te custe tantas vezes vencer-te ou puxar por esse pobre corpo - deves ter muito cuidado com os mais pequenos pormenores, porque a santidade que Nosso Senhor te exige atinge-se realizando com amor de Deus o trabalho e as obrigações de cada dia, que se compõem quase sempre de pequenas realidades.

8            
Coisas pequenas e vida de infância

Pensando naqueles que, à medida que o tempo passa, ainda se dedicam a sonhar -em sonhos vãos e pueris, como Tartarin de Tarascon - com caçar leões nos corredores de casa, onde se calhar só há ratos e pouco mais, pensando neles, insisto, lembro a grandeza de actuar com espírito divino no cumprimento fiel das obrigações habituais de cada dia, com essas lutas que enchem Nosso Senhor de alegria e que só Ele e cada um de nós conhece.

Convençam-se de que normalmente não vão encontrar ocasiões para grandes façanhas, entre outros motivos porque não é habitual que surjam essas oportunidades.
Pelo contrário, não faltam ocasiões de demonstrar o amor a Jesus Cristo, através do que é pequeno, do normal.
A grandeza da alma também se demonstra nas coisas diminutas, comenta S. Jerónimo.
Não admiramos o Criador apenas no céu e na terra, no sol e no oceano, nos elefantes, camelos, bois, cavalos, leopardos, ursos e leões; mas também nos animais minúsculos como formigas, mosquitos, moscas, vermes e outros animais semelhantes, que distinguimos melhor pelos corpos do que pelos nomes: admiramos a mesma mestria tanto nos grandes como nos pequenos.
Assim, a alma que se dá a Deus dedica às coisas menores o mesmo fervor que às maiores.

9            
Ao meditar as palavras de Nosso Senhor: Por amor deles santifico-me a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade, percebemos claramente o nosso único fim: a santificação, isto é, que temos de ser santos para santificar.
Simultaneamente, como tentação subtil, talvez nos assalte o pensamento de que muito poucos estamos decididos a responder a esse convite divino, além de nos vermos como instrumentos de muito fraca categoria.
É verdade, somos poucos, em comparação com o resto da humanidade e pessoalmente não valemos nada; mas a afirmação do Mestre ressoa com autoridade: o cristão é luz, sal, fermento do mundo e um pouco de fermento faz levedar toda a massa.
Precisamente por isso, tenho pregado sempre que nos interessam todas as almas - as cem que há num cento - sem nenhuma espécie de discriminações, com a certeza de que Jesus Cristo nos redimiu a todos e quer servir-se de alguns de nós, apesar da nossa nulidade pessoal, para darmos a conhecer esta salvação.


Um discípulo de Jesus nunca trata ninguém mal; chama erro ao erro, mas deve corrigir com afecto o que erra: se não, não pode ajudá-lo, não pode santificá-lo.
Temos que conviver, temos que compreender, temos que desculpar, temos que ser fraternos; e, como aconselhava S. João da Cruz, temos que pôr amor, onde não há amor, para tirar amor, sempre, mesmo nas circunstâncias aparentemente intranscendentes que o trabalho profissional e as relações familiares e sociais nos proporcionam.
Portanto, tu e eu vamos aproveitar até as oportunidades mais banais que se apresentarem à nossa volta, para santificá-las, para nos santificarmos e para santificar os que compartilham connosco os mesmos afãs quotidianos, sentindo nas nossas vidas o peso doce e sugestivo da co-redenção.

10
         
Vou continuar esta conversa diante de Nosso Senhor, com uma nota que utilizei há uns anos e que mantém a actualidade.
Recolhi então umas considerações de Teresa de Ávila: tudo o que se acaba e não contenta Deus é nada e menos que nada.
Compreendem porque é que uma alma deixa de saborear a paz e a serenidade quando se afasta do seu fim, quando se esquece de que Deus a criou para a santidade?
Esforcem-se por nunca perder este ponto de mira sobrenatural, nem sequer nos momentos de diversão ou de descanso, tão necessários como o trabalho na vida de cada um.

Bem podem chegar ao cume da vossa actividade profissional, alcançar os triunfos mais retumbantes, como fruto da livre iniciativa com que exercem as actividades temporais; mas se abandonarem o sentido sobrenatural que tem de presidir todo o nosso trabalho humano, enganaram-se lamentavelmente no caminho.

11
         
Permitam-me uma pequena digressão que vem muito a propósito.
Nunca perguntei a opinião política a nenhum dos que vêm ter comigo: não me interessa!
Com esta minha norma de conduta, manifesto uma realidade que está muito metida no âmago do Opus Dei, ao qual me dediquei completamente, com a graça e a misericórdia divina, para servir a Santa Igreja.
Não me interessa esse tema porque os cristãos gozam da mais completa liberdade, com a consequente responsabilidade pessoal, para intervir como lhes parecer melhor em questões de índole política, social, cultural, etc., sem outros limites além dos que o Magistério da Igreja indica.
Só ficaria preocupado - pelo bem dessas almas - se não respeitassem tais marcas, porque teriam criado uma vincada oposição entre a fé que afirmam professar e as obras: e, nessa altura, teria que lhes chamar a atenção com clareza.
Este sacrossanto respeito pelas vossas opções, desde que elas não afastem da lei de Deus, não se entende.
Não o entende quem ignora o verdadeiro conceito da liberdade que Cristo nos ganhou na Cruz, qua libertate Christus nos liberavit, quem for sectário de um e de outro extremo, quem pretender impor as suas opiniões temporais como dogmas. Também não o entende quem degrada o homem, ao negar o valor da fé, colocando-a à mercê dos erros mais brutais.

12 
        
Mas voltemos ao nosso tema.
Dizia-lhes que bem podem alcançar os êxitos mais espectaculares no terreno profissional, na actuação pública, nos afazeres profissionais, mas se se descuidarem interiormente e se afastarem de Nosso Senhor, o fim será um fracasso rotundo.
Perante Deus, que é o que conta em última análise, quem luta por comportar-se como um cristão autêntico, é que consegue a vitória: não existe uma solução intermédia.
Por isso vocês conhecem tantas pessoas que deviam sentir-se muito felizes, ao julgar a sua situação de um ponto de vista humano e, no entanto, arrastam uma existência inquieta, azeda; parece que vendem alegria a granel, mas aprofunda-se um pouco nas suas almas e fica a descoberto um sabor acre, mais amargo que o fel.
Isto não há-de acontecer a nenhum de nós, se deveras tratarmos de cumprir constantemente a Vontade de Deus, de dar-lhe glória, de louvá-lo e de espalhar o seu reinado entre todas as criaturas.




27/07/2020

LEITURA ESPIRITUAL


Leitura espiritual

Cartas de São Paulo

Romanos
9 Incredulidade de Israel –
1 É verdade o que vou dizer em Cristo; não minto, pois é a minha consciência que, pelo Espírito Santo, disto me dá testemunho: 2tenho uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração. 3 Desejaria ser amaldiçoado, ser eu próprio separado de Cristo, pelo bem dos meus irmãos, os da minha raça, segundo a carne. 4 Eles são os israelitas, a quem pertence a adopção filial, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas. 5 A eles pertencem os patriarcas e é deles que descende Cristo, segundo a carne. Deus que está acima de todas as coisas, bendito seja Ele pelos séculos! Ámen.

Eleição dos patriarcas –
6 Não é que a palavra de Deus tenha falhado. O que acontece é que nem todos os que descendem de Israel são Israel, 7 como nem todos, por serem descendentes de Abraão, são seus filhos. Não: Só os de Isaac é que serão chamados a ser teus descendentes. 8 O que significa que não são os filhos por via carnal que são filhos de Deus, mas só os filhos devido à promessa é que são tidos em conta como descendentes. 9 É uma promessa, de facto, o que diz esta palavra: Voltarei por esta altura, e já Sara terá um filho. 10 Não foi só com ela que isso aconteceu, mas também com Rebeca. Concebeu de um só homem, o nosso pai Isaac; 11 e ainda os filhos não tinham nascido, nem nada de bom ou de mau tinham feito - para que se mantenha claro que o desígnio de Deus é da sua livre escolha 12 e está dependente, não das obras, mas de Deus que chama - e já lhe foi dito: O mais velho será servo do mais novo, 13 de acordo com o que está escrito: Amei Jacob, mas não Esaú.

Deus é livre na sua misericórdia –
14 Que havemos de concluir? Que há injustiça em Deus? De modo nenhum! 15 É a Moisés que Ele o diz: Usarei de misericórdia com quem me decido a ser misericordioso, e terei compaixão de quem me quero compadecer. 16 Portanto, isto não depende daquele que quer nem daquele que se esforça por alcançá-lo, mas de Deus que é misericordioso. 17 Assim, diz a Escritura ao Faraó: Exactamente para isto é que Eu te fiz surgir: para mostrar em ti o meu poder e para que assim o meu nome seja proclamado em toda a terra. 18 Portanto, Deus usa de misericórdia com quem quer e endurece quem Ele quer. 19 Dir-me-ás então: Nesse caso, de que me pode Ele repreender ainda? Sim, porque quem poderia resistir à sua vontade? 20 Quem és tu, homem, para entrares em contestação com Deus? Dirá, porventura, o que é moldado àquele que o molda: «Porque me fizeste assim?» 21 Ou não tem o oleiro poder sobre o barro para, da mesma massa, tanto fazer um vaso de luxo como um de uso vulgar? 22 Ora, se Deus, na intenção de mostrar a sua ira e manifestar o seu poder, suportou com tanta paciência os vasos da ira, prontos para a perdição, 23 e se Ele o fez também para manifestar a riqueza da sua glória para com os vasos da misericórdia que de antemão tinha preparado para a glória… 24 A estes, que somos nós, chamou-os não só de entre os judeus, mas também de entre os gentios. 25 É exactamente o que Ele diz no livro de Oseias: Àquele que não é meu povo, hei-de chamar meu povo, e minha amada, àquela que não é minha amada. 26 Precisamente no lugar onde lhes tinha sido dito: «Vós não sois o meu povo», aí serão chamados filhos do Deus vivo. 27 Isaías, por sua vez, exclama, a respeito de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel fosse como a areia do mar, só o resto se salvará; 28 pois será de um modo completo e restrito que o Senhor há-de cumprir a sua palavra sobre a terra. 29 É ainda o que profetizou Isaías: Se o Senhor dos exércitos não nos tivesse deixado uma descendência, teríamos ficado como Sodoma, seríamos como Gomorra.

Israel tropeçou no Evangelho –
30 Que diremos, portanto? Que os gentios, que não procuravam a justiça, a alcançaram, mas, claro, a justiça que vem pela fé; 31 Israel, ao contrário, que procurava uma lei que podia levar à justiça, não atingiu essa lei. 32 Por que razão? Porque não foi pela fé, mas pelas obras, que a procuraram obter. Tropeçaram na pedra de tropeço, 33 conforme o que está escrito: Reparai que ponho em Sião uma pedra de tropeço, uma rocha de escândalo, e só quem nela acreditar não ficará frustrado.



Amigos de Deus

208
        
Mas se abundam os temerosos e os frívolos, nesta nossa terra muitos homens rectos, impelidos por um nobre ideal - ainda que sem motivo sobrenatural, por filantropia - afrontam toda a espécie de privações e consomem-se generosamente a servir os outros, a ajudá-los nos seus sofrimentos ou nas suas dificuldades.
Sinto-me sempre levado a respeitar, e mesmo a admirar a tenacidade de quem trabalha decididamente por um ideal limpo.
No entanto, considero minha obrigação recordar que tudo o que iniciamos aqui, se é empresa exclusivamente nossa, nasce com o selo da caducidade.
Meditai as palavras da Escritura: contemplei tudo o que as minhas mãos tinham feito e as canseiras que tive ao fazê-lo e vi que tudo era vaidade e vento que passa e que nada havia de proveitoso debaixo do sol.

Esta precariedade não sufoca a esperança.
Pelo contrário, quando reconhecemos a pequenez e a contingência das iniciativas terrenas, o trabalho abre-se à autêntica esperança que eleva toda a actividade humana e a converte em lugar de encontro com Deus.
Essa tarefa é assim iluminada com uma luz perene, que afasta as trevas das desilusões.
Mas se transformarmos os projectos temporais em metas absolutas, suprimindo do horizonte a morada eterna e o fim para que fomos criados - amar e louvar o Senhor e possuí-lo depois no Céu - os intentos mais brilhantes transformam-se em traições e inclusive em instrumento para envilecer as criaturas.
Recordai a sincera e famosa exclamação de Santo Agostinho, que tinha experimentado tantas amarguras enquanto não conhecia Deus e procurava fora d'Ele a felicidade: fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansa em Ti!
Talvez não exista nada mais trágico na vida dos homens do que os enganos padecidos pela corrupção ou pela falsificação da esperança, apresentada com uma perspectiva que não tem como objecto o amor que sacia sem saciar.

A mim, e desejo que a vós suceda o mesmo, a segurança de me sentir - de me saber - filho de Deus enche-me de verdadeira esperança que, por ser virtude sobrenatural, ao ser infundida nas criaturas, se acomoda à nossa natureza e é também virtude muito humana.
Sou feliz com a certeza do Céu que alcançaremos, se permanecermos fiéis até ao fim; com a felicidade que nos chegará, quoniam bonus, porque o meu Deus é bom e é infinita a sua misericórdia. Esta convicção incita-me a compreender que só o que está marcado com o selo de Deus revela o sinal indelével da eternidade e tem um valor imperecível.
Por isso, a esperança não me separa das coisas desta terra, antes me aproxima dessas realidades de um modo novo, cristão, que procura descobrir em tudo a relação da natureza, caída, com Deus Criador e com Deus Redentor.

209
         
Em que esperar

Dado que o mundo oferece muitos bens, apetecíveis para este nosso coração, que reclama felicidade e busca ansiosamente o amor, talvez alguns perguntem: nós, os cristãos, em que devemos esperar? Além disso, queremos semear a paz e a alegria às mãos cheias, não ficamos satisfeitos com a consecução da prosperidade pessoal e procuramos que estejam contentes todos os que nos rodeiam.

Por desgraça, alguns, com uma visão digna mas rasteira, com ideais exclusivamente caducos e fugazes, esquecem que os anelos do cristão se hão-de orientar para cumes mais elevados: infinitos.
O que nos interessa é o próprio Amor de Deus, é gozá-lo plenamente, com um júbilo sem fim.
Temos comprovado, de muitas maneiras, que as coisas da terra hão-de passar para todos, quando este mundo acabar; e já antes, para cada um, com a morte, porque nem as riquezas nem as honras acompanham ninguém ao sepulcro.
Por isso, com as asas da esperança, que anima os nossos corações a levantarem-se para Deus, aprendemos a rezar: in te Domine speravi, non confundar in æternum, espero em Ti, Senhor, para que me dirijas com as tuas mãos agora e em todos os momentos pelos séculos dos séculos.

210
        
O Senhor não nos criou para construirmos aqui uma Cidade definitiva, porque este mundo é o caminho para o outro, que é morada sem pesar.
No entanto, nós, os filhos de Deus, não devemos desligar-nos das actividades terrenas em que Deus nos coloca para as santificarmos, para as impregnarmos da nossa bendita fé, a única que dá verdadeira paz, alegria autêntica às almas e aos diversos ambientes.
Tem sido esta a minha pregação constante desde 1928: urge cristianizar a sociedade; levar a todos os estratos desta nossa humanidade o sentido sobrenatural, de modo que uns e outros nos empenhemos em elevar à ordem da graça a ocupação diária, a profissão ou o ofício.
Desta forma, todas as ocupações humanas se iluminam com uma esperança nova, que transcende o tempo e a caducidade do mundano.

Pelo Baptismo, somos portadores da palavra de Cristo, que serena, que inflama e aquieta as consciências feridas.
E para que o Senhor actue em nós e por nós, temos de lhe dizer que estamos dispostos a lutar em cada dia, ainda que nos vejamos frouxos e inúteis, ainda que sintamos o peso imenso das misérias pessoais e da pobre debilidade pessoal.
Temos de lhe repetir que confiamos n'Ele, na sua ajuda: se é preciso, como Abraão, contra toda a esperança.
Assim trabalharemos com renovado empenho e ensinaremos as pessoas a reagirem com serenidade, livres de ódios, de receios, de ignorância, de incompreensões, de pessimismos, porque Deus tudo pode.

211
        
Onde quer que nos encontremos, esta é a exortação do Senhor: vigiai!
Em face deste apelo de Deus, alimentemos nas nossas consciências os desejos esperançosos de santidade, com obras.
Dá-me, meu filho, o teu coração, sugere-nos o Senhor ao ouvido. Deixa-te de construir castelos com a fantasia, decide-te a abrir a tua alma a Deus, pois exclusivamente no Senhor acharás o fundamento real para a tua esperança e para fazer o bem aos outros.
Quando não lutamos connosco mesmos, quando não rechaçamos terminantemente os inimigos que estão dentro da cidadela interior - o orgulho, a inveja, a concupiscência da carne e dos olhos, a auto-suficiência, a tresloucada avidez da libertinagem - quando não existe essa peleja interior, os mais nobres ideais definham como a flor do feno; ao romper o sol ardente, a erva seca, a flor cai e acaba a sua vistosa formosura.
Depois, pela menor fenda brotarão o desalento e a tristeza, como plantas daninhas e invasoras.

Jesus não se conforma com um assentimento titubeante.
Pretende, tem direito a que caminhemos com inteireza, sem concessões às dificuldades.
Exige passos firmes concretos; pois, de ordinário, os propósitos gerais servem para pouco.
Os propósitos pouco delineados parecem-me entusiasmos falazes que intentam calar as chamadas divinas percebidas pelo coração; fogos fátuos, que não queimam nem dão calor e que desaparecem com a mesma fugacidade com que surgiram.

Por isso, convencer-me-ei de que as tuas intenções de alcançar a meta são sinceras, se te vir caminhar com determinação.
Faz o bem, revendo as tuas atitudes habituais quanto à ocupação de cada instante; pratica a justiça, precisamente nos ambientes que frequentas, ainda que a fadiga te vença; fomenta a felicidade dos que te rodeiam, servindo os outros com alegria no lugar do teu trabalho, com esforço para o acabar com a maior perfeição possível, com a tua compreensão, com o teu sorriso, com a tua atitude cristã.
E tudo por Deus, com o pensamento na sua glória, com o olhar no alto, anelando a Pátria definitiva, pois só esse fim vale a pena.

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Tudo posso

Se não lutas, não me digas que procuras identificar-te mais com Cristo, conhecê-lo, amá-lo.
Quando empreendemos o caminho real de seguir a Cristo, de nos portarmos como filhos de Deus, não se nos oculta o que nos aguarda: a Santa Cruz, que temos de contemplar como o ponto central onde se apoia a nossa esperança de nos unirmos ao Senhor.

Digo-vos desde já que este programa não é uma empresa cómoda; viver da maneira que o Senhor assinala pressupõe esforço. Leio-vos a enumeração do Apóstolo, quando refere as suas peripécias e os seus sofrimentos para cumprir a vontade de Jesus:
Dos judeus recebi cinco vezes quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas; uma vez apedrejado; três vezes naufraguei; uma noite e um dia estive no abismo do mar. Muitas vezes, em viagens, perigos de rios, perigos de ladrões, perigos dos da minha nação, perigos dos gentios, perigos na cidade, perigos no descampado, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e misérias, em muitas vigílias, com fome e com sede, com muitos jejuns, com frio e nudez. Além destas coisas exteriores, pesam sobre mim as ocupações de cada dia pela solicitude de todas as igrejas.

Gosto, nestas conversas com o Senhor, de me cingir à realidade em que se desenvolve a nossa vida, sem inventar teorias, nem sonhar com grandes renúncias, com heroicidades, que habitualmente não acontecem.
Importa que aproveitemos o tempo, que se nos escapa das mãos e que, segundo o critério cristão, é mais do que ouro, porque representa uma antecipação da glória que depois nos será concedida.

Logicamente, na nossa jornada, não toparemos com tais nem com tantas contradições como as que ocorreram na vida de Saulo. Nós descobriremos a baixeza do nosso egoísmo, os golpes da sensualidade, as investidas de um orgulho inútil e ridículo e muitas outras claudicações: tantas, tantas fraquezas.
Descoroçoar?
Não.
Com S. Paulo, repitamos ao Senhor: sinto complacência nas minhas enfermidades, nos ultrajes, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo; pois quando estou fraco, então sou mais forte.