26/04/2014

Nunca estivemos tão perto da santidade (JMA)

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Hoje de manhã, quando estava naquele estado de sonolência, em que muitas vezes eu julgo que Deus “fala” comigo, veio ao meu pensamento esta frase: “Nunca estivemos tão perto da santidade.”

Não me demorei muito a pensar no que tal significava, mas, ao chegar ao escritório, uma das primeiras imagens que vi no computador foi a de um sacerdote que conheço a cumprimentar João Paulo II.

Percebi então o que a frase me queria dizer e percebi que realmente, em termos muitos simples, “nunca estivemos tão perto da santidade” como agora!

Eu vi, com estes olhos que Deus me deu, João XXIII na “minha” televisão.
Eu vi, com estes olhos que Deus me deu, João Paulo II no meu país.
Eu li, com estes olhos que Deus me deu, coisas escritas pelo Padre Pio, por Josemaria Escrivá, e por tantos outros, já depois de eu ter nascido e ser gente.
Eu estive presente, com este corpo que Deus me deu, na celebração da Beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus, que era prima da minha mãe.

Num tempo em que o cristianismo é tão atacado, em que a Igreja é tão vilipendiada, em que os cristãos são tão perseguidos, o Espírito Santo responde-nos, dando-nos testemunhos de extraordinária virtude, de fé inquebrantável, de uma fortaleza que vai para além da força humana, ou seja, uma fortaleza que só pode vir de Deus, para mostrar aos homens que Ele está com eles e que nunca os abandona.

E mostra-nos tantas coisas!

Toma um homem já de idade avançada, a quem os homens vaticinaram um pontificado curto e intermédio, e fá-lo suscitar a maior “revolução” que a Igreja teve em toda a sua existência, como que a dizer-nos que ninguém é demasiado velho para fazer coisas novas.
«Eu renovo todas as coisas.» Ap 21,5

Toma um homem novo forte, atlético e leva-o por um caminho de degradação física, resistindo, não deixando de servir nunca, com um esforço e sofrimento visível a todos, como que a dizer-nos que o homem é sempre homem, filho de Deus, amado por Deus, independentemente de toda a sua condição física ou mental, porque é vida de Deus, vida que pertence a Deus e que, por isso mesmo, só Deus pode iniciá-la e terminá-la no tempo próprio de Deus.
«Por isso, não desfalecemos, e mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se, dia após dia.» 2 Cor 4,16

Pega nalguns homens e mulheres, deixa-os viver provações sobre provações, incompreensões, tantas vezes provocadas pelos seus próprios pares em Igreja, reveste-os de humildade, fá-los resistir, enche-os de disponibilidade, para mostrar-nos que quem permanece em Deus, apesar dos homens, é sempre testemunha do amor de Deus.
«Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. … Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer.» Jo 15, 4-5

E queixamo-nos, nós!
E pedimos nós sinais!
E procuramos nós outros “deuses”!
E deixamo-nos levar por relativismos, por “politicamente correctos”, por supostas consciências que nós próprios “fabricamos”.

Nunca, arrisco-me a dizer, desde o tempo em que Jesus Cristo esteve connosco, nascido da Virgem Maria, Deus nos falou de tantos modos, tão claramente e com tanta intensidade.
Somos uma geração abençoada!

«Quem tem ouvidos, ouça!»
«Quem tem olhos, veja!»
«Quem tem boca, fale!»
«Quem tem coração, ame!»

Deus está aqui, no meio de nós, em nós, e quer suscitar santos em cada um daqueles que n’Ele acredita e n’Ele quer permanecer.

Ele está disponível para nós. Estamos nós disponíveis para Ele?

Realmente, “nunca estivemos tão perto da santidade.”


Marinha Grande, 23 de Abril de 2014
Joaquim Mexia Alves
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Encontro com Sacerdotes



Tratado dos vícios e pecados 71

Questão 85: Dos efeitos do pecado e, primeiro, da corrupção do bem da natureza.

Art. 2 — Se a natureza humana pode ser privada totalmente do seu bem pelo pecado.

(I, q. 48, a. 4; II Sent., dist. VI, a. 4, ad 3; dist. XXXIV, a. 5; De Malo, q. 2, a. 12; III Cont. Gent., cap. XII).

O segundo discute-se assim. — Parece que a natureza humana pode ser privada totalmente do seu bem pelo pecado.

1. — Pois, o bem da natureza humana é finito, por também ela o ser. Ora, o finito exaure-se todo diminuindo continuamente. E como o bem da natureza pode diminuir continuamente pelo pecado, conclui-se que pode de todo exaurir-se.

2. Demais. — Em seres da mesma natureza o todo e as partes têm a mesma essência, como se dá com o ar, a água, a carne e com todos os corpos de partes semelhantes. Ora, o bem da natureza é totalmente uniforme. Logo, como pode ser privada de uma de suas partes pelo pecado, pode também o ser, totalmente por ele.

3. Demais. — O bem da natureza, diminuído pelo pecado, consiste em ser capaz da virtude. Ora, em alguns casos essa capacidade fica totalmente destruída pelo pecado, como se dá com os condenados, que não podem readquirir a virtude, como o cego não pode recuperar a vista. Logo, o pecado pode privar totalmente do bem da natureza.

Mas, em contrário, diz Agostinho, que o mal só pode existir no bem. Ora, o mal da culpa não pode existir no bem da virtude ou da graça, por lhe ser contrário. Logo, há-de existir no bem da natureza, e portanto não priva totalmente dele.

Como já dissemos (a. 1), o bem da natureza, diminuído pelo pecado, é a inclinação natural para a virtude, a qual convém ao homem só por ser ele racional; pois por isso é que pode agir de conformidade com a razão, e portanto virtuosamente. Ora, o pecado não pode privá-lo totalmente de ser racional, pois então já não seria capaz de pecar. Logo, não é possível ser privado totalmente do referido bem.

Alguns porém, para explicar como esse bem pode sofrer continuamente detrimento pelo pecado, recorreram a um exemplo onde se mostra o finito diminuindo infinitamente sem nunca se desvanecer de todo. Pois, como diz o Filósofo, se subtrairmos continuamente uma mesma quantidade, de uma grandeza finita, esta há-de desaparecer totalmente. Assim, se de uma quantidade finita qualquer subtrairmos sempre a medida de um palmo. Se porém, a subtracção se der na mesma proporção e não segundo uma mesma quantidade, a grandeza poderá diminuir infinitamente. Assim, se uma quantidade for dividida em duas partes, e se da metade subtrairmos a metade, poderemos proceder ao infinito; de modo a sempre ser menor o tirado depois que o tirado antes. — Mas isto não se dá no caso vertente. Pois, um pecado qualquer não diminui menos o bem da natureza, que o precedente; antes, e talvez, mais, sendo mais grave.

E portanto, devemos dizer, de modo diverso, que a inclinação, no caso vertente, deve entender-se como um termo médio entre dois extremos. Pois, tem sua raiz na natureza racional; e tende para o bem da virtude, como para o termo e o fim. De dois modos, pois, podemos explicar a diminuição: em relação à raiz e em relação ao termo. Do primeiro modo, ela não fica diminuída pelo pecado, por este não diminuir a natureza, em si mesma, como já dissemos (a. 1). Mas diminui do segundo modo, encontrando um obstáculo que a impeça de atingir o termo. Pois, se ficasse diminuída, do primeiro modo, poderia então e forçosamente eliminar-se totalmente, uma vez desaparecida totalmente a natureza racional. Mas, ficando diminuída, pelo obstáculo que se lhe opõe à consecução do termo, é claro que é susceptível de diminuir infinitamente, por poderem os obstáculos emergir ao infinito, sendo o homem capaz de acrescentar infinitamente pecado a pecado. Não poderá porém a inclinação desvanecer-se de todo, por sempre lhe permanecer a raiz. Tal se dá com um corpo diáfano, que, por ser tal tem inclinação a receber a luz; mas essa inclinação ou capacidade diminui com a sobreveniência das nuvens, embora sempre lhes permaneça na raiz da natureza.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A objecção colhe tratando-se de diminuição por subtracção. Mas no caso vertente, a diminuição dá-se por um obstáculo aposto, que não elimina nem diminui a raiz da inclinação, como se disse.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A inclinação natural é, de facto, totalmente uniforme. Mas diz respeito ao princípio e ao termo; e, segundo essa diversidade, ora diminui, ora não.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Mesmo nos condenados permanece a inclinação para a virtude; de contrário não sofreriam o remorso da consciência. E se essa inclinação não se actualiza é por lhes faltar a graça, conforme o exige a justiça. Assim também o cego conserva a aptidão para ver, na raiz própria da natureza, por ser um animal a que a visão é natural. Mas, esta não se actualiza, por lhe faltar a causa adequada, que formaria o órgão necessário para ver.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Reflectindo 16

Sobre a felicidade 3

A questão séria e importantíssima é conseguir chegar ao ponto em que se considere fazer a pergunta necessária: ‘O que é, para mim, a felicidade?’
Surpreendentemente, ou talvez não, as respostas serão inúmeras e, nenhuma delas satisfatórias. Poderá até acontecer chegar-se a uma resposta aparentemente definitiva: “Eu sou feliz!”. Dura pouco, pouquíssimo, esta conclusão porque quase simultaneamente aparece no horizonte algo que está por atingir, por satisfazer, por alcançar e, então, essa tal resposta aparentemente definitiva: ‘Eu sou feliz!’ verá acrescentado, inevitavelmente um porém…

Isto porquê?

Porque a felicidade não é exclusiva, própria, particular mas, sempre colectiva; eu não posso, verdadeiramente, ser feliz se houver outros seres humanos que o não são. Mas, mais… o objectivo nunca é atingido na sua totalidade, há sempre algo que ainda faltará fazer e sucede que a insatisfação, pequena ou grande, que tal sentimento gera, impede a felicidade de se completar.

Tal não quer dizer que se seja infeliz. Não considero que a infelicidade não tenha que ver directamente com a felicidade porque, como acabei de dizer, quem se considera feliz porque atingiu um patamar de satisfação pessoal que assim o leva a considerar-se, tendo, como também disse, ânsias de ‘crescer’ na felicidade, não se considera infeliz por isso, bem pelo contrário, um pouco da sua felicidade reside directamente nesse sentimento, nesse reconhecimento, melhor dizendo, que poderá, talvez, fazer mais e melhor. Assim, o contrário de felicidade não é senão o egoísmo pessoal que impede ver a felicidade por atingir por outros e o que pessoalmente podemos fazer para os ajudar nesse sentido.

(cont.)

ama, 2013


Temas para meditar 87

Características da Fé

A fé ilumina toda a existência. Tudo se ordena a Deus. Mas esse ordenamento há-de respeitar a natureza própria de cada coisa. Não se trata de converter o mundo numa grande sacristia, nem os lares em conventos, nem a economia em beneficência... Mas, sem simplificações ingénuas, a fé deve informar o pensamento e a acção do cristão porque jamais, em circunstância alguma, em nenhum momento do dia se deve deixar de ser cristão, e conduzir-se e pensar como tal.

(francisco fernández carvajalHablar con Dios, Páscoa, 2ª Sem., 5ª F. Fª.)

25/04/2014

Evangelho do dia, comentário e Leitura espiritual

Tempo de Páscoa

I Semana 


São Marcos – Evangelista

Evangelho: Jo 21, 1-14

1 Depois disto, Jesus voltou a mostrar-Se aos Seus discípulos, junto do mar de Tiberíades. Mostrou-Se deste modo: 2 Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e dois outros dos Seus discípulos. 3 Simão Pedro disse-lhes: «Vou pescar». Responderam-lhe: «Nós vamos também contigo». Partiram e entraram numa barca. Naquela noite nada apanharam. 4 Chegada a manhã, Jesus apresentou-Se na praia; mas os discípulos não conheceram que era Ele. 5 Jesus disse-lhes: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?». Responderam-Lhe: «Nada». 6 Disse-lhes: «Lançai a rede para o lado direito do barco, e encontrareis». Lançaram a rede e já não a podiam arrastar, por causa da grande quantidade de peixes. 7 Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!». Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava nu, e lançou-se à água. 8 Os outros discípulos, que não estavam distantes de terra, senão duzentos côvados, vieram no barco puxando a rede cheia de peixes. 9 Logo que saltaram para terra, viram umas brasas acesas, peixe em cima delas, e pão. 10 Jesus disse-lhes: «Trazei dos peixes que apanhastes agora». 11 Simão Pedro subiu à barca e arrastou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede. 12 Jesus disse-lhes: «Vinde comer». Nenhum dos discípulos ousava perguntar-Lhe: «Quem és Tu?», sabendo que era o Senhor. 13 Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. 14 Foi esta a terceira vez que Jesus Se manifestou aos discípulos depois de ter ressuscitado dos mortos

Comentário:

No apostolado não há que temer a quantidade, o número de pessoas com quem desenvolvemos o nosso trabalho.

Cento e cinquenta e três ou apenas um ou dois.

Nem eles são 'nossos' nem o que fazemos é por nós ou para nós.

O apostolado, seja discreto ou espectacular, sem resultados ou cheio de êxitos é sempre - deve ser - obra divina dirigida por e para Cristo.

(ama, comentário sobre Jo 21, 1-14, 2013.04.05)




Leitura espiritual






Temas para leitura espiritual





Virtudes humanas

A graça é a fonte da santificação; cura e eleva a natureza tornando-nos capazes de agir como filhos de Deus.

A graça e as virtudes

1. A graça

Deus chamou o homem a participar na vida da Santíssima Trindade. «Esta vocação para a vida eterna é sobrenatural» (Catecismo, 1998)

[1]. Para nos conduzir a este fim último sobrenatural, concede-nos já nesta terra um início dessa participação que será plena no céu. Este dom é a graça santificante, que consiste num «começo da glória» 2[2]. Portanto, a graça santificante:

- «é dom gratuito que Deus nos faz da sua vida, infundida pelo Espírito Santo na nossa alma, para a curar do pecado e a santificar» (Catecismo, 1999);

- «é uma participação na vida de Deus» (Catecismo, 1997; cf. 2 Pe 1,4) que nos diviniza (cf. Catecismo , 1999);

- é, portanto, uma nova vida, sobrenatural; como um novo nascimento pelo qual somos constituídos filhos de Deus por adopção, participantes da filiação natural do Filho: «filhos no Filho» [3];

- introduz-nos, assim, na intimidade da vida trinitária. Como filhos adoptivos, podemos chamar «Pai» a Deus, em união com o Filho único (cf. Catecismo, 1997);

- É “graça de Cristo”, porque na situação presente – quer dizer, depois do pecado e da Redenção operada por Jesus Cristo – a graça chega-nos como participação da graça de Cristo (Catecismo, 1997): «Da sua plenitude todos recebemos graça sobre graça”» (Jo 1, 16). A graça configura-nos com Cristo (cf. Rm 8, 29):

- é «graça do Espírito Santo», porque é infundida na alma pelo Espírito Santo [4].

À graça santificante chama-se também graça habitual porque é uma disposição estável que aperfeiçoa a alma pela infusão das virtudes, para torná-la capaz de viver com Deus, de actuar por seu amor (cf. Catecismo, 2000) [5].

2. A justificação
          
A primeira obra da graça em nós é a justificação (cf. Catecismo, 1989). Chama-se justificação à passagem do estado de pecado ao estado da graça (ou “de justiça”, porque a graça nos faz “justos”) [6]. Esta tem lugar no Baptismo, e cada vez que Deus perdoa os pecados mortais e infunde a graça santificante (ordinariamente no sacramento da penitência) [7]. A justificação «é a obra mais excelente do amor de Deus» (Catecismo, 1994; cf. Ef 2, 4-5).

3. A santificação

Deus não nega a ninguém a sua graça, porque quer que todos os homens se salvem (1 Tm 2, 4); todos estão chamados à santidade (cf. Mt 5, 48) [8]. A graça «é, em nós, a nascente da obra de santificação» (Catecismo, 1999); sara e eleva a nossa natureza tornando-nos capazes de actuar como filhos de Deus [9], e de reproduzir à imagem de Cristo (cf. Rm 8, 29): quer dizer, de ser, cada um, alter Christus, outro Cristo. Esta semelhança com Cristo manifesta-se nas virtudes.

A santificação é o progresso em santidade; consiste na união cada vez mais íntima com Deus (cf. Catecismo, 2014), até chegar a ser não só outro Cristo mas ipse Christus, o próprio Cristo [10]; quer dizer, uma só coisa com Cristo, como membro seu (cf. 1 Cor 12, 27). Para crescer em santidade é necessário cooperar livremente com a graça, e isto requer esforço, luta, por causa da desordem introduzida pelo pecado (o fomes peccati). «Não há santidade sem renúncia e combate espiritual» (Catecismo, 2015) [11].

Consequentemente, para vencer na luta ascética, antes de mais é preciso pedir a Deus a graça mediante a oração e a mortificação – «a oração dos sentidos» [12]– e recebê-la nos sacramentos [13].

A união com Cristo só será definitiva no Céu. É necessário pedir a Deus a graça da perseverança final: quer dizer, o dom de morrer na graça de Deus (cf. Catecismo, 2016 e 2849).

4. As virtudes teologais

Em geral, «a virtude é uma disposição habitual e firme para praticar o bem» (Catecismo, 1803) [14]. «As virtudes teologais referem-se directamente a Deus e dispõem os cristãos para viverem em relação com a Santíssima Trindade» (Catecismo, 1812). «São infundidas por Deus na alma dos fiéis para os tornar capazes de proceder como filhos seus» (Catecismo, 1813) [15]. As virtudes teologais são três: fé, esperança e caridade (cf. 1 Cor 13, 13).

A fé «é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo o que Ele nos disse e revelou, e que a santa Igreja nos propõe para acreditarmos» (Catecismo, 1814). Pela fé «o homem entrega-se completa e livremente a Deus» [16], e esforça-se por conhecer e fazer a vontade de Deus (cf. Rm 1, 17) [17].

«O discípulo de Cristo, não somente deve guardar a fé e viver dela, como também professá-la, dar testemunho dela e propagá-la» (Catecismo, 1816; cf. Mt 10, 32-33).

«A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos o Reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo» (Catecismo 1817) [18].

«A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus (Catecismo, 1822). Este é o mandamento novo de Jesus Cristo: «que vos ameis com eu vos amei» (Jo 15, 12) [19].

5. As virtudes humanas

«As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade, que regulam os nossos actos, ordenam as nossas paixões e guiam o nosso procedimento segundo a razão e a fé. Conferem facilidade, domínio e alegria para se levar uma vida moralmente boa. O Homem virtuoso é aquele que livremente pratica o bem» (Catecismo, 1804). Estas adquirem-se mediante as forças humanas e são os frutos e germes de actos moralmente bons» (Catecismo, 1804) [20].

Entre as virtudes humanas há quatro chamadas cardeais, porque todas as outras se agrupam à volta delas. São a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança (cf. Catecismo, 1805).

- «A prudência é a virtude que dispõe a razão prática para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e para escolher os justos meios de o atingir» (Catecismo, 1806). É a «norma recta da acção» [21].

- «A justiça é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido» (Catecismo 1807) [22].

- «A fortaleza é a virtude moral que, no meio das dificuldades, assegura a firmeza e a constância na prossecução do bem. Torna firme a decisão de resistir às tentações e de superar os obstáculos na vida moral. A virtude da fortaleza dá capacidade para vencer o medo, mesmo da morte, e enfrentar a provação e as perseguições. Dispõe a ir até à renúncia e ao sacrifício da própria vida, na defesa duma causa justa» (Catecismo, 1808) [23].

- «A temperança a virtude moral que modera a atracção dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos limites da honestidade» […] A pessoa temperante orienta para o bem os apetites sensíveis, guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração. A temperança é muitas vezes louvada no Antigo Testamento: “Não te deixes levar pelas tuas más inclinações e refreia os teus apetites” (Sir 18, 30). No Novo Testamento, é chamada “moderação”, ou “sobriedade”» (Catecismo, 1809).

A respeito das virtudes morais, afirma-se que in médio virtus. Isto significa que a virtude moral consiste no meio entre um defeito e um excesso [24]. In médio virtus não é uma chamada à mediocridade. A virtude não é o termo médio entre dois ou mais vícios, mas a rectidão da vontade que, como num cume, se opõe a todos os abismos que são os vícios [25].

6. As virtudes e a graça. As virtudes cristãs

As feridas deixadas pelo pecado original na natureza humana dificultam a aquisição e o exercício das virtudes humanas (cf. Catecismo, 1811) [26]. Para adquiri-las e praticá-las, o cristão conta com a graça de Deus que sara a natureza humana.

 Além disso, a graça, ao elevar a natureza humana a participar da natureza divina, eleva essas virtudes ao plano sobrenatural (cf. Catecismo, 1810), levando a pessoa humana a actuar segundo a recta razão iluminada pela fé: numa palavra, a imitar Cristo. Deste modo, as virtudes humanas tornam-se virtudes cristãs [27].

7. Os dons e os frutos do Espírito

«A vida moral dos cristãos é sustentada pelos dons do Espírito Santo. Estes são disposições permanentes que tornam o homem dócil aos impulsos do Espírito Santo» (Catecismo, 1830) [28].

Os sete dons do Espírito Santo são (cf. Catecismo, 1831):

1º - Sabedoria: para compreender e julgar com acerto acerca dos desígnios divinos.

2º - Entendimento: para penetrar na verdade sobre Deus.

3º - Conselho: para julgar e secundar nas acções singulares os desígnios divinos.

4º - Fortaleza: para acometer as dificuldades na vida cristã.

5º - Ciência: para conhecer a ordenação das coisas criadas por Deus.

6º - Piedade: para nos comportarmos como filhos de Deus e como irmãos dos nossos irmãos os homens, sendo outros Cristos.

7º - Temor de Deus: para repudiar tudo o que possa ofender a Deus, como um filho repudia, por amor, o que possa ofender o seu pai.

«Os frutos do Espírito Santo são perfeições que o Espírito Santo forma em nós, como primícias da glória eterna» (Catecismo, 1832). São actos que a acção do Espírito Santo produz habitualmente na alma. A tradição da Igreja enumera doze: «caridade, gozo, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência, castidade» (Gl 5, 22-23).

8. Influência das paixões na vida moral

Pela união substancial da alma e do corpo, a nossa vida espiritual – o conhecimento intelectual e o livre querer da vontade – encontra-se sob o influxo (para o bem ou para o mal) da sensibilidade. Este influxo manifesta-se nas paixões que são «emoções ou movimentos da sensibilidade, que inclinam a agir, ou a não agir, em vista do que se sentiu ou imaginou como bom ou como mau» (Catecismo 1763). As paixões são movimentos do apetite sensível (irascível e concupiscível). Podem chamar-se também, em sentido amplo, “sentimentos” ou “emoções” [29].

Por exemplo, são paixões o amor, a ira, o temor, etc. «A mais fundamental é o amor, provocado pela atracção do bem. O amor causa o desejo do bem ausente e a esperança de o alcançar. Este movimento tem o seu termo no prazer e na alegria do bem possuído. A apreensão pelo mal causa o ódio, a aversão e o receio do mal futuro; este movimento termina na tristeza pelo mal presente ou na cólera que a ele se opõe» (Catecismo, 1765).

As paixões influem muito na vida moral «Em si mesmas, as paixões não são nem boas nem más» (Catecismo, 1767). «São moralmente boas quando contribuem para uma acção boa, e más, no caso contrário» (Catecismo 1768) [30]. Pertence à perfeição humana que as paixões estejam reguladas pela razão e dominadas pela vontade [31]. Depois do pecado original, as paixões não se encontram submetidas ao império da razão, e com frequência inclinam a levar a cabo o que não é bom [32]. Para as encaminhar habitualmente para o bem necessita-se da ajuda da graça, que sara as feridas do pecado, e da luta ascética.

A vontade, se é boa, utiliza as paixões ordinariamente para o bem [33]. Pelo contrário, a má vontade que segue o egoísmo, sucumbe às paixões desordenadas ou usa-as para o mal (cf. Catecismo, 1768).

francisco díaz 2012/09/20

Bibliografia básica:
Catecismo da Igreja Católica, 1762-1770, 1803-1832 e 1987-2005.
Leituras recomendadas:
São Josemaria, Homilia «Virtudes humanas», em Amigos de Deus, 73-92.

Nota: Revisão gráfica e da tradução por ama.





[1] Esta vocação «depende inteiramente da iniciativa gratuita de Deus, porque só Ele pode revelar-Se e dar-Se a si mesmo. E ultrapassa as capacidades da inteligência e as forças da vontade humana, como de qualquer criatura (cf. 1 Cor 2, 7-9” (Catecismo, 1998).
[2] S. Summa Theologica, II-II, q. 24, a. 3, ad 2.Tomás de Aquino,
[3] Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 22. Cf. Rm 8, 14-17; Gl 4, 5-6, 1 Jo 3,1.
[4] Qualquer dom criado procede do Dom incriado, que é o Espírito Santo. «O amor de Deus derramou-se nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5; cf. Gl 4, 6).
[5] Deve-se distinguir entre graça habitual e graças actuais, «que designam intervenções divinas que estão na origem da conversão ou no decorrer da obra da santificação» (cf. Ibidem).
[6] «A justificação envolve o perdão dos pecados, a santificação e a renovação interior» (Concílio de Trento: DS 1528).
[7] Nos adultos, esta passagem é fruto da moção de Deus (graça actual) e da liberdade do homem, «Sob a moção da graça, o homem volta-se para Deus e desvia-se do pecado, acolhendo assim o perdão e a justiça do Alto» (Catecismo, 1989).
[8] Deus quis recordar esta verdade com especial força e novidade, por meio dos ensinamentos de São Josemaria a partir do dia 2 de Outubro de 1928. A Igreja proclamou no Concílio Vaticano II (1962-65): «Todos os fiéis, de qualquer estado ou regime de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade» (Concílio Vaticano II, Const. Lumen Gentium, 40).
[9] Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III, q. 2, a. 12, c.
[10] Cf. São Josemaria, Cristo que Passa, n. 104
[11] Mas a graça «não faz concorrência de modo nenhum, à nossa liberdade, quando esta corresponde ao sentido da verdade e do bem que Deus colocou no coração do homem» (Catecismo, 1742). Pelo contrário, «a graça corresponde às aspirações profundas da liberdade humana» (Catecismo, 2022).
[12] São Josemaria, Cristo que Passa, 9
[13] Para alcançar a graça de Deus contamos com a intercessão da nossa Mãe Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças, e também com a de S. José, dos Anjos e dos Santos.
[14] Pelo contrário, os vícios são hábitos morais que se seguem às obras más e inclinam a repeti-las e a piorar.
[15] Tal como a alma humana opera através das suas potências (entendimento e vontade), o cristão em graça de Deus opera através das virtudes teologais, que são como as potências da “nova natureza” elevada pela graça.
[16] Concílio Vaticano II, Const. Dei Verbum, 5.
[17] A fé manifesta-se pelas obras: a fé viva «actua pela caridade» (Gl 5, 6), enquanto que «a fé sem obras está morta» (Tg 2, 26), mesmo que o dom da fé permaneça em quem não pecou directamente contra ela (cf. Concílio de Trento: DS 1545).
[18] Cf. Heb 10, 23; Tt 3, 6-7. «A virtude da esperança corresponde ao desejo de felicidade que Deus colocou no coração de todo o homem» (Catecismo, 1818), purifica-o e eleva-o; protege-o do desalento; dilata-lhe o coração na espera da bem-aventurança eterna; preserva-o do egoísmo e condu-lo à alegria (cf. Ibidem).
[19] A caridade é superior a todas as virtudes (cf. 1 Cor 13, 13). «Se não tivesse caridade nada seria nada» (1 Cor 13,3). «O exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade» (Catecismo, 1827). É a forma de todas as virtudes: “informa-as” ou vivifica-as”, porque as orienta o amor de Deus; sem caridade, as outras virtudes estão mortas. A caridade purifica a nossa faculdade humana de amar e eleva-a à perfeição sobrenatural do amor divino (cf. Catecismo, 1827). Há uma ordem na caridade. A caridade manifesta-se também na correcção fraterna (cf. Catecismo 1829).
[20] O cristão desenvolve as virtudes com a ajuda da graça de Deus que, ao sarar a natureza humana, dá força para as praticar e ordena-as a um fim mais elevado.
[21] Conduz a julgar rectamente sobre o modo de agir: sem retrair da acção (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 47, a. 2). «Não se confunde, nem com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. É chamada “auriga virtutum – condutor das virtudes,” porque guia as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena a sua conduta segundo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e ultrapassamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar» (Catecismo, 1806).
[22] O homem não pode dar a Deus o que Lhe deve ou o justo em sentido estrito. Por isso, a justiça para com Deus chama-se mais propriamente “virtude da religião”, «dado que a Deus Lhe basta que cumpramos à medida das nossas possibilidades» (S. Tomás de Aquino, Summa Theologica, II-II, q. 57, a. 1, ad 3).
[23] «No mundo tereis tribulação. Mas confiai: Eu venci o mundo» (Jo 16, 33).
[24] Por exemplo, a laboriosidade consiste em trabalhar tudo o que se deve, que é um meio entre um menos e um mais. Opõe-se à laboriosidade trabalhar menos do devido, perder o tempo, etc. E também se opõe trabalhar sem medida, sem respeitar outras coisas que também se devem fazer (deveres de piedade, de caridade, etc.).
[25] O princípio in médio virtus é válido somente para as virtudes morais, as quais têm por objecto os meios para alcançar o fim, e nesses meios há sempre uma medida. Pelo contrário, não é válido no caso das virtudes teologais, porque estas virtudes (fé, esperança e caridade) têm directamente a Deus por objecto. Por isso, não é possível um excesso: “crer demasiado”, “esperar demasiado” em Deus” ou “amá-Lo em excesso”.
[26] A natureza humana está ferida pelo pecado. Por isso, tem inclinações que não são naturais como consequência do pecado. Do mesmo modo que não é natural coxear, devido à consequência de alguma doença, como não seria natural mesmo que toda a gente coxeasse, nem sequer são naturais as feridas que deixou o pecado original e os pecados pessoais na alma: a tendência para a soberba, a preguiça, a sensualidade, etc. Com a ajuda da graça e com esforço pessoal, estas feridas podem-se ir curando, de modo que o homem seja e se comporte como corresponde à sua natureza e condição de filho de Deus. Esta saúde consegue-se por meio das virtudes. De modo semelhante, a doença agrava-se com os vícios.
[27] Assim, há uma prudência que é virtude humana, bem como uma prudência que é sobrenatural, infundida por Deus na alma, juntamente com a graça. Para que uma virtude sobrenatural possa produzir fruto – actos bons – precisa da correspondente virtude humana. Por exemplo e no caso das outras virtudes cardeais: a virtude sobrenatural da justiça, exige a virtude humana da justiça; e o mesmo acontece com a fortaleza e a temperança. Dito doutra maneira, a perfeição cristã – a santidade – exige e compreende a perfeição humana.
[28] Para compreender melhor a função dos Dons do Espírito Santo na vida moral, pode-se acrescentar a seguinte explicação clássica: assim como a natureza humana tem algumas potências (inteligência e vontade) que permitem realizar as operações de entender e querer, assim a natureza elevada pela graça tem potências que lhe permitem realizar actos sobrenaturais. Estas potências são as virtudes teologais (fé, esperança e caridade). São como os remos de um barco, que permitem avançar em direcção ao fim sobrenatural. No entanto, este fim supera-nos de tal modo, que não bastam as virtudes teologais para o alcançar. Deus concede, juntamente com a graça, os dons do Espírito Santo, que são novas perfeições da alma que permitem que seja movida pelo mesmo Espírito Santo. São como a vela de um barco, que lhe permite avançar com o sopro do vento. Os dons aperfeiçoam-nos em ordem a tornarmo-nos mais dóceis à acção do Espírito Santo, que se converte assim em motor da nossa actuação.
[29] É preciso ter em conta que também se fala de “sentimentos” ou “emoções” supersensíveis ou espirituais que não são propriamente “paixões” porque não estão sujeitos aos movimentos do apetite sensível.
[30] Por exemplo, há uma ira boa, que se indigna perante o mal, e também há uma ira má descontrolada ou que move ao mal (como acontece na vingança); há temor bom e há temor mau, que paralisa para fazer o bem; etc.
[31] Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologica, I-II, q. 24, aa. 1 e 3.
[32] Em certas ocasiões podem dominar de tal modo a pessoa, que a responsabilidade moral se reduz ao mínimo.
[33] «A perfeição moral consiste em que o homem não seja movido para o bem só pela vontade, mas também pelo seu apetite sensível, segundo esta palavra do Salmo: “O meu coração e a minha carne exultam no Deus vivo” (Sl 84, 3)» (Catecismo, 1770). «As paixões são más se o amor for mau, boas se for bom» (Santo Agostinho, De Civitate Dei, 14, 7)