07/10/2011

Evangelho do dia e comentário

Nossa Senhora do Rosário [i]












T. Comum– XXVII Semana




Evangelho: Lc 1, 26-38

26 Estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27 a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de David; o nome da virgem era Maria. 28 Entrando o anjo onde ela estava, disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça; o Senhor é contigo». 29 Ela, ao ouvir estas palavras, perturbou-se e discorria pensativa que saudação seria esta. 30 O anjo disse-lhe: «Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; 31 eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a Quem porás o nome de Jesus. 32 Será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai David; 33 reinará sobre a casa de Jacob eternamente e o Seu reino não terá fim». 34 Maria disse ao anjo: «Como se fará isso, pois eu não conheço homem?». 35 O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra; por isso mesmo o Santo que há-de nascer de ti será chamado Filho de Deus. 36 Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se dizia estéril; 37 porque a Deus nada é impossível». 38 Então Maria disse: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». E o anjo afastou-se dela.

Meditação:

Com "festinatione" foste assistir Santa Isabel.

O tempo urge, é tempo de apressar o encontro com o dever, com a vocação, com o próximo.

Ensina-nos a não deixar para "depois" aquilo que devemos fazer agora.

(ama, comentário sobre Lc 1, 26-38, 2010.12.08)


[i] Nossa Senhora do Rosário
1. O Rosário da Virgem Maria (Rosarium Virginis Mariae), que ao sopro do Espírito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milénio, é oração amada por numerosos Santos e estimulada pelo Magistério. Na sua simplicidade e profundidade, permanece, mesmo no terceiro Milénio recém iniciado, uma oração de grande significado e destinada a produzir frutos de santidade. Ela enquadra-se perfeitamente no caminho espiritual de um cristianismo que, passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de Deus a «fazer-se ao largo» (duc in altum!) para reafirmar, melhor «gritar» Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como «caminho, verdade e vida» (Jo 14, 6), como « o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização». (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 45.)
O Rosário, de facto, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio (Cf. Paulo VI, Exort. ap. Marialis cultus (2 de Fevereiro de 1974), 42: AAS 66 (1974), 153) Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria,  para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor. (JOÃO PAULO II, carta apostólica Rosarium Virginis Mariae ao episcopado ao clero e aos fiéis, introdução)

Textos de São Josemaria Escrivá

“Ajuda-os sem que o notem”

O pensamento da morte ajudar-te-á a cultivar a virtude da caridade, porque talvez esse instante concreto de convivência seja o último em que estás com este ou com aquele... Eles, ou tu, ou eu, podemos faltar em qualquer momento. (Sulco, 895)

Dir-me-ás talvez: e porque havia eu de me esforçar? Não sou eu quem te responde, mas S. Paulo: o amor de Cristo urge-nos. Todo o espaço de uma existência é pouco para alargar as fronteiras da tua caridade. Desde os primeiríssimos começos do Opus Dei, manifestei o meu grande empenho em repetir sem cessar, para as almas generosas que se decidam a traduzi-lo em obras, aquele grito de Cristo: nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros. Conhecer-nos-ão precisamente por isso, porque a caridade é o ponto de arranque de qualquer actividade de um cristão. (…)

Queria fazer-vos notar que, após vinte séculos, ainda aparece com toda a pujança de novidade o Mandato do Mestre, que é uma espécie de carta de apresentação do verdadeiro filho de Deus. Ao longo da minha vida sacerdotal, tenho pregado com muitíssima frequência que, desgraçadamente para muitos, continua a ser novo, porque nunca ou quase nunca se esforçaram por praticá-lo. É triste, mas é assim. E não há dúvida nenhuma de que a afirmação do Messias ressalta de modo terminante: nisto vos conhecerão, que vos amais uns aos outros! Por isso, sinto a necessidade de recordar constantemente essas palavras do Senhor. S. Paulo acrescenta: levai os fardos uns dos outros e, desta maneira, cumprireis a lei de Cristo. Momentos perdidos, talvez com a falsa desculpa de que te sobra tempo... Se há tantos irmãos, amigos teus, sobrecarregados de trabalho! Com delicadeza, com cortesia, com um sorriso nos lábios, ajuda-os, de tal maneira que se torne quase impossível que o notem; e que nem se possam mostrar agradecidos, porque a discreta finura da tua caridade fez com que ela passasse inadvertida.
(Amigos de Deus, 43–44).

06/10/2011

O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA (2)

2 – O Sacramento da Penitência



O texto/imagem bíblica que talvez melhor expresse em todas as suas vertentes este sacramento, e a sua importantíssima necessidade para cada cristão, é sem dúvida a Parábola do Filho Pródigo, que podemos ler no Evangelho de São Lucas 15,11-32

Aquele filho tinha tudo, nada lhe faltava, mas mesmo assim decidiu romper a sua relação com o pai e afastar-se dele.
Mesmo assim, o pai com nada lhe faltou, e viu-o partir.
O rompimento dessa relação de amor com o pai, levou-o a uma vida desregrada, a uma vida dissoluta, no fundo a uma vida de pecado.
Essa vida dissoluta, conduziu-o inevitavelmente aos vícios, que retiram a liberdade ao homem, e como tal são causa de intranquilidade, de provações, de desespero.
É isso que o pecado faz no homem, quando o homem nele se deixa cair e viver, aprisionando-o, retirando-lhe a alegria de viver, provocando-lhe ao longo do tempo, mais dor do que prazer.
Mas o filho reflecte, faz um “exame de consciência” e percebe que a vida que leva está errada, não tem sentido, e que só a relação com o pai lhe dá paz, lhe dá mais vida.
Arrependido parte à procura do pai para lhe pedir perdão pelos seus actos.
Mas o pai não fica extático á espera do pedido de perdão do filho. O pai vai também ao encontro do seu filho.
Podemos ver aqui, sem grande esforço a figura do sacerdote, que vai ao encontro daquele que se aproxima do Sacramento da Penitência.
O filho arrependido, já nada exige, a não ser fazer a vontade de seu pai, o que constitui sem dúvida a imagem do propósito de emenda.
Mas o perdão do pai é de tal modo, que lhe abre os braços e volta-o a tratar como o filho querido que sempre foi.
E ao recebê-lo novamente como filho, a liberdade daquele filho é restabelecida, porque a relação de amor verdadeiro é sempre assente na liberdade de cada um.
O perdão de Deus é tão infinito, que pelo Sacramento da Penitência, a reconciliação, a relação com Deus, é de imediato restabelecida em toda a sua dimensão de eterno amor.
Era assim necessário que aquele filho procurasse o pai arrependido, mas era também necessário que o pai viesse ao encontro do filho, para o perdoar e acolher.



A Igreja, sobretudo no Concílio de Trento, apresenta como fundamento principal da instituição do Sacramento da Penitência o texto bíblico do Evangelho de São João 20,22-23
«Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»



O texto é tão claro, tão preciso, que parece, (e é sem dúvida), uma resposta àqueles que afirmam que o Sacramento da Penitência não é necessário, pois se “confessam” directamente a Deus.



Deus quis instituir este sacramento assim, servindo-se dos homens, porque Ele mesmo, na pessoa de Jesus Cristo, se quis encontrar com os homens, num contacto directo, através dos sinais e linguagens da condição humana, quis viver como nós e passar pelas mesmas condições que nós, excepto o pecado.



Como nos diz o Arcebispo Bruno Forte, numa Carta Pastoral à Igreja de Chieti-Vasto para o Advento de 2005, sobre O Sacramento da Penitência:
«Como Ele saiu de si mesmo por nosso amor e veio “tocar-nos” com a sua carne, assim nós somos chamados a sair de nós mesmos por seu amor e ir com humildade e fé ter com quem pode dar-nos o perdão em seu nome mediante a palavra e o gesto.
Somente a absolvição dos pecados, que o sacerdote nos dá no Sacramento, pode comunicar-nos a certeza interior de sermos verdadeiramente perdoados e acolhidos pelo Pai que está nos Céus, porque Cristo confiou ao ministério da Igreja o poder de ligar e desligar, de excluir e de admitir na comunidade da aliança. (cf Mt 18,17)»



Com efeito, como podemos nós aferir se determinado comportamento é pecado ou não, se verdadeiramente na nossa consciência temos dúvidas?
A nossa consciência é “moldável” perante tantas circunstâncias, que neste caso concreto da nossa relação com Deus, (ou do rompimento dessa relação da nossa parte), só com algo, ou alguém para além de nós, podemos aferir se aquilo que nos incomoda é realmente pecado, e sobretudo e também, podermos ouvir e perceber espiritualmente e fisicamente o perdão de Deus.
É curioso percebermos que, em tantas coisas da nossa vivência da Fé, pedimos sinais visíveis, palpáveis, e no entanto, em algo tão importante e imprescindível para a vivência dessa Fé, que é a nossa relação com Deus que dá sentido a essa Fé, queremos prescindir dos sinais visíveis e palpáveis que o próprio Deus nos concede.



Só na celebração do Sacramento da Penitência perante o sacerdote que nos ouve e connosco fala, o mesmo sacerdote nos pode ajudar a percebermos a dimensão total do nosso pecado, a necessidade do nosso arrependimento e nos conduzir, não só ao perdão de Deus, mas à consciência do perdão a nós mesmos e aos outros.
Muito mais ainda isto é verdade, se nos lembrarmos que a Igreja nos ensina que o sacerdote no Sacramento da Penitência é pessoa de Cristo, ou seja, nos estamos a confessar verdadeiramente a Jesus Cristo.



É importante percebermos que não é o sacerdote que nos concede o perdão dos nossos pecados, mas sim, pela autoridade de Cristo em que está investido, é o próprio Deus que nos perdoa.



Aliás, a confissão dos pecados, no Sacramento da Penitência, não dá origem a um “julgamento”, nem o sacerdote é um “juiz” que vai aferir do “tamanho” dos nossos pecados, mas apenas nos vai colocar perante a realidade das nossas faltas e ajudar-nos a compreender como é necessário, para além do perdão de Deus que nos leva à reconciliação com Ele, o perdão a nós próprios, porque tantas vezes ao falharmos, nos julgamos com demasiada severidade, o que por sua vez, nos conduz a uma vergonha interior que nos retira a paz.



Leva-nos também a perceber a necessidade de pedirmos perdão a quem ofendemos, e a perdoarmos a quem nos ofendeu, para que em nós seja uma realidade o que rezamos no Pai Nosso: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos».


A nossa coroação 6

Para lá do Túnel
.- Por isso se diz que só há duas classes de pessoas: as que dizem a Deus: 
“Faça-se a Tua vontade”, e aquelas a quem é Deus que lhes diz no último instante: “Faça-se a tua vontade”. Todos os que estão no inferno assim o decidiram. Sem esta auto-eleição não poderia existir o inferno. Nenhuma alma que deseje a felicidade séria e constantemente a perderá. O que não se pode fazer é jogar com dois baralhos, com o Senhor.


.- Sem a oração não há salvação possível. Santo Afonso Maria Ligorio dizia: “O que reza, certamente salva-se; o que não reza, condena-se.  Todos os condenados se condenaram porque não fizeram oração; se tivesse orado com constância, ter-se-iam salvo”. A sensu contrario é sabido que: O homem que nunca cessa de pedir a graça da sua salvação, está seguro de que irá para o céu.

Juan del Carmelo, trad ama

Derrocada

Há mais de uma hora que não fazia o mais leve movimento. Nem podia… a enorme viga de cimento que lhe esmagava as pernas tinha-o preso como num torno.
Fora tudo tão rápido! Ao ruído da explosão seguira-se o desmoronamento do edifício e não tivera tempo para um “ai”. Não fazia a menor ideia de quanto tempo estivera desacordado depois do choque brutal que o prostrara, mas, decerto, teriam sido uns largos minutos porque a poeira espessa que envolvera tudo à sua volta já se tinha dissipado e agora era como que uma segunda pele que o cobria completamente. Tentara limpar os olhos mas o ardor fora insuportável e desistira. Não lhe restava outra coisa que quedar-se imóvel à espera de algum socorro.
Não sabia o que acontecera, nem e lembrava bem dos momentos antes da violentíssima explosão, de resto, isto não lhe interessava para nada a sua preocupação resumia-se a ser encontrado por alguma equipa de socorro, os bombeiros…

Há pouco parecera-lhe ouvir vozes e quis gritar por socorro mas, da sua garganta não saiu um som sequer.

Sim, haveriam de dar com ele, disso não tinha dúvidas mas, à medida que o tempo passava começou a ”empreender”, como dizia a criada velha dos seus pais, o que é que isso adiantaria. Sim, com as pernas, que não sentia, esmagadas e irremediavelmente perdidas, passaria o resto dos dias a viver como um destroço humano dependente dos outros para as mais pequenas necessidades. 

E… isso… seria vida?
Não, decerto que não! Aos quarenta e três anos… que vida seria a sua?
Talvez fosse melhor que não o encontrassem!
Sim… talvez… mas, também, morrer ali de inacção, desidratado, debaixo de um choque traumático tremendo… não era, decididamente, uma solução animadora.

De vez em quando varria-se-lhe o pensamento e ficava como que apático, sem pensar nem sentir nada, numa tontura que o avassalava por completo. A vida passava-lhe como um documentário de notícias rápidas e um pouco desfocadas com pouca ou nenhuma ligação entre umas e outras. Os rostos das pessoas pareciam-lhe como as fotografias dos filhos pequenos das celebridades que as revistas de sociedade publicavam distorcidas com o intuito, dizia-se, de dificultarem a identificação por possíveis sequestradores em busca de resgates chorudos. Os ambientes apareciam todos com cores esfumadas e esbatidas como se tivessem ocorrido há mais de cem anos. Um nevoeiro… isso… era um nevoeiro que tudo cobria de disfarçava.
Por cima de si. Tanto quanto conseguia a perceber-se, estava uma amálgama de tijolos, cimento e pedras fazendo como que uma estranha abóbada sobre o pequeno buraco onde jazia. A viga de cimento parecia ser o esteio de tudo aquilo e, conseguiu pensar, que se os socorristas tentassem movê-la tudo aquilo se despenharia sepultando-o de vez, irremediavelmente.

O que é que se faz numa situação destas?

Não lhe ocorria outra coisa que não fosse: preparar-se para morrer.

Mas como é que isso se faz? Como é que uma pessoa sepultada viva debaixo de uma mole de escombros se prepara para morrer?
Ocorreu-lhe que, talvez fosse bom rezar qualquer coisa. Mas… o quê?
Nunca tinha ligado a “essas coisas” de rezar, Igreja etc. Agora, aflito como estava, é que se lembrava de rezar?
E… Deus… que havia de pensar? Então, tu, que nunca te lembraste de Mim, agora que estás nessa situação é que me invocas! Mas, Eu, não te conheço! Como posso conhecer-te se tu nunca quiseste privar comigo?
Esta “posição” de Deus era, no seu ponto de vista, lógica e absolutamente coerente.
E, depois, rezaria o quê, isto é, como é que se reza?
Pois claro, tinha ido várias vezes à Igreja nos Baptizados dos sobrinhos, no casamento de amigos, nos funerais dos pais… mas isso foram circunstâncias sem nenhum significado especial, faziam parte da “vida social” e como cerimónias habituais e correntes.
Bom… havia o Pai-Nosso… mas não se lembrava como era e parecia-lhe uma oração enorme com imensas palavras difíceis de recordar.
Uma deslocação súbita vez cair sobre ele uma chuva de detritos e pensou que seria o fim, mas não, ficou-se por ali. O que seria? Um simples movimento dos escombros ou alguém que andaria a escavar à sua procura?
Há… pois… ninguém deveria andar à sua procura pelo simples facto de que ninguém sabia que ali estava. Chegara já de noite à velha casa dos pais e, seguramente, ninguém sabia que ele ali estava. Davam-no em França… ou seria na Alemanha… para onde emigrara há mais de vinte anos. Sim, agora lembrava-se de ter aberto a porta de entrada perra de anos sem serventia e ter acendido o isqueiro para ver alguma coisa na escuridão. A explosão fora imediata. Como era possível que, tantos anos abandonada, a casa ainda conservasse no seu interior uma tão grande acumulação de gás da botija completamente enferrujada?
Sim, no lugarejo próximo, uma explosão àquela hora da noite numa vivenda abandonada não faria sair ninguém de casa para ver o que passava. Coisas de marginais, haveriam de pensar…
Neste “dormir acordado” com intervalos de completa inconsciência, tinham-se passado mais de trinta minutos contados pelo relógio que continuava no pulso a trabalhar como se nada se tivesse passado.

Lembrou-se da última vez que visitara a mãe ainda com vida… há tantos anos…
A pobre mulher sem notícias do filho emigrado há tanto tempo, quase sucumbira de alegria e não descansou enquanto não a levou a Fátima a agradecer – dizia ela – tê-lo podido beijar e abraçar de boa saúde.
No seu espírito passaram as imagens impressionantes de centenas de milhares de velas acesas e um imenso coro e vozes a cantar o “Avé”
E, então, subitamente, como se fosse a coisa mais natural, começou a trautear com voz sumida:

“A treze de Maio, na Cova de Iria, apareceu brilhando…”

Mais uns detritos caíram sobre ele e um rosto iluminado por uma lanterna apareceu numa nesga entre os destroços.
Ouviu gritar:

“Pessoal… está aqui… está vivo…”

ama, Carvide 2011.09.11

Princípios filosóficos do cristianismo

A Fé e a Razão

Filósofo
Rembrandt
Mas se a fé necessita da razão, esta recebe boa ajuda da fé, a qual recebe boa ajuda da fé, a qual contribui para a purificar das suas imperfeições e limites, que se devem no homem às consequências do pecado original, e elevação a horizontes insuspeitados. Que mudança experimentou a filosofia de Aristóteles que conhecia Deus como mero motor que se limita a impelir as outras substâncias, mas que desconhecia Deus como criador! Em Aristóteles o ser é a essência que, como forma, sela e define a matéria-prima.
São Tomás supera radicalmente esse esencialismo da forma numa concepção do ser que se baseia fundamentalmente no conceito de participação: o ser da criatura é um ser recebido de deus e em permanente comunhão com Ele. Quando a fé, fiz Mondin, anuncia à razão onde está a verdade, então o filósofo sebe em que direcção há-se mover-se. E é então quando corresponde à filosofia demonstrar a verdade conhecida com a sua metodologia autónoma. A filosofia deveria justificar por si mesma o que conheceu a partir da fá. Seguramente, o tema da alma espiritual e imortal, desde o ponto de vista histórico, deve mais à luz da fé que à luz da razão, se bem que seja uma verdade que há-de demonstrar-se também no campo da razão.

(jose ramón ayllón, trad. ama)

Canonização de S. Josemaria Escrivá

Textos de São Josemaria Escrivá


“Deus não te arranca do teu ambiente”

Deus não te arranca do teu ambiente, não te tira do mundo, nem do teu estado, nem das tuas ambições humanas nobres, nem do teu trabalho profissional... mas, aí, quer-te santo! (Forja, 362)

Convencei-vos de que a vocação profissional é parte essencial e inseparável da nossa condição de cristãos. O Senhor quer que sejais santos no lugar onde estais e no trabalho que haveis escolhido pelas razões que vos aprouveram: pela minha parte, todos me parecem bons e nobres – desde que não se oponham à lei divina – e capazes de ser elevados ao plano sobrenatural, isto é, enxertados nessa corrente de Amor que define a vida de um filho de Deus. (...). 
Temos de evitar o erro de considerar que o apostolado se reduz ao testemunho de algumas práticas piedosas. Tu e eu somos cristãos, mas, ao mesmo tempo e sem solução de continuidade, cidadãos e trabalhadores, com obrigações bem nítidas que temos de cumprir exemplarmente, se deveras queremos santificar-nos. É Jesus Cristo que nos estimula: Vós sois a luz do mundo. (Amigos de Deus,  60–61).

Deus entra na composição dos outros seres?

Tratado De Deo Uno


Questão 3: Da simplicidade de Deus

Art. 8 — Se Deus entra na composição dos outros seres.

(I Sent., dist. 8, q. 1, a. 2; Cont. Gent., I, 17, 26, 27; III, 51; de Pot., q. 6, a. 6; De Verit., q. 21, a. 4)

O oitavo discute-se assim. — Parece que Deus entra na composição dos outros seres.

1. — Pois, Dionísio diz:  Ser de todas as coisas é o que, além de existir, é a divindade [i]. Ora, tal ser entra na composição do ser individual. Logo, Deus entra na composição dos outros seres.

2. Demais. — Deus é forma, como o diz Agostinho: O verbo de Deus (que é Deus) é forma não informada [ii]. Ora, a forma faz parte do composto. Logo, Deus é parte dos seres compostos.

3. Demais. — Coisas que existem e de nenhum modo diferem são idênticas. Ora, Deus e a matéria-prima, em nada diferindo entre si, são absolutamente idênticos. Mas, como a matéria-prima entra na composição de todos os seres, o mesmo há-de dar-se com Deus. — Prova da média. Seres diferentes hão-de diferir por certas diferenças; logo, hão de necessariamente ser compostos. Ora, Deus e a matéria-prima são absolutamente simples; portanto, de nenhum modo diferem.

Mas, em contrário, Dionísio:  Não há nele  (em Deus) contacto nem qualquer comunhão por onde vá de mistura com partes [iii].

SOLUÇÃO. — Três erros se cometeram neste assunto. Uns ensinaram ser Deus a alma do mundo, como se lê em Agostinho [iv]; e a ele se reduzem os que disseram ser Deus a alma do primeiro céu. — Outros, porém, afirmaram ser ele o princípio formal de todas as coisas, e tal se diz ter sido a opinião dos Almarianos. — E o terceiro erro foi o de Davi de Dinant, concebendo estultissimamente Deus como matéria-prima. — Ora, todas estas doutrinas são falsas, pois de nenhum modo é possível que Deus entre na composição de qualquer ser, nem como princípio formal, nem como material. — Primeiro, porque, consoante ficou dito [v], Deus é a causa eficiente primeira. Ora, a causa eficiente não coincide numericamente com a forma de seu efeito, mas só especificamente; assim, um homem gera outro. A matéria, porém, não coincide com a causa eficiente, nem numérica nem especificamente, pois é potencial, e esta actual. — Segundo, porque sendo Deus a causa eficiente primeira, é-lhe próprio, primária e essencialmente o agir. Ora, o que faz parte da composição de um ser não é agente primário e essencial; pois é, antes, o composto que age. Assim, não é a mão que age, mas, o homem, por meio dela; e o fogo aquece pelo calor. Logo, Deus não pode fazer parte de nenhum composto. — Terceiro, porque nenhuma parte do composto pode ser, absolutamente, a primeira entre os seres; nem, portanto, a matéria e a forma que são as partes primeiras dos compostos. Pois, aquela é potencial, e a potência é, em si mesma, posterior ao ato, como do sobredito resulta [vi]. A forma, por seu lado, como parte do composto, é participada. Ora, como o participante é posterior ao ser que existe por essência, assim também o é o próprio participado. P. ex., o fogo, matéria ígnea, é posterior, ao que é fogo por essência. Ora, já demonstramos que Deus é o ser absolutamente primeiro [vii].

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A divindade é chamada ser de todos os seres, efectiva e exemplarmente, e não, por essência.

RESPOSTA A SEGUNDA. — O verbo é forma exemplar; mas não é forma como parte de um composto.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Os seres simples, ao contrário dos compostos, não diferem entre si senão pelo que são. Assim, o homem e o cavalo diferem entre si, por ser aquele racional e este irracional; mas essas diferenças não mais diferem entre si, por outras. Por onde, em rigor de expressão, não se dirá propriamente — diferem, mas — são diversos. Pois, segundo o Filósofo [viii], a palavra — diverso — se emprega em sentido absoluto; ao passo que todo ser diferente de outro, difere por alguma coisa. Por isso, rigorosamente falando, a matéria-prima e Deus não diferem, mas são diversos entre si. Donde, não se segue que sejam idênticos.


[i] Cael. Hier., cap. 4.
[ii] Serm. Ad Popul., 117 (al. De Verbis Dom., 38)
[iii] de Div. Nom., cap. 2.
[iv] VII de Civitate Dei, c. 6
[v] Q. 2, a. 3.
[vi] Art. 1.
[vii] Q. 2, a. 3.
[viii] X Metaphys., c. 3