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08/02/2019

Leitura espiritual


«PROVAS»
MAS TODAVIA SÃO VÁLIDAS?

Pergunta:

Permita-me uma pequena pausa. Não discuto, obviamente, sobre a validade filosófica, teorética, de quanto acaba de expor; mas, esta forma de argumentar tem todavia um significado concreto para o homem de hoje? Faz sentido que se pergunte sobre Deus, a Sua existência, a Sua essência?

Resposta:

Diria que hoje mais que nunca, seguramente, mais que em outras épocas, inclusive recentes. A mentalidade positivista, que se desenvolveu com muita força entre os séculos IX e XX, hoje vai, em certo sentido, em retirada. O homem contemporâneo está redescobrindo o sacrum, ainda que nem sempre saiba chamá-lo pelo seu nome.

O positivismo não foi somente uma filosofia, nem unicamente uma metodologia; foi uma dessas escolas da suspeita que a época moderna viu florescer e prosperar. O homem é realmente capaz de conhecer algo mais do que os seus olhos vêem e os seus ouvidos ouvem? Existe uma outra ciência além do saber rigorosamente empírico? A capacidade da razão humana está totalmente submetida aos sentidos, e interiormente dirigida pelas leis da matemática, que demonstraram ser particularmente úteis para ordenar os fenómenos de forma racional, além de para orientar os s processos do progresso técnico?
Se se entra na óptica positivista, conceitos como por exemplo Deus ou alma são simplesmente carentes de sentido. Nada corresponde a esses conceitos no âmbito da experiência sensorial.

Esta óptica, pelo menos nalguns campos, +é a que está actualmente em retirada. Pode constatar-se isto inclusivamente comparando entre si as primeiras e as sucessivas obras de Ludwig Wittgenstein, o filósofo austríaco da primeira metade do século XX

Por outro lado, ninguém se surpreende pelo facto de que o conhecimento humano seja, inicialmente, um conhecimento sensorial. Nenhum clássico da filosofia, nem Platão nem Aristóteles, o punha em dúvida.
O homem reconhece-se a si mesmo como um ser ético, capaz de actuar segundo os critérios do bem e do mal., e não somente segundo a utilidade e o prazer. Reconhece-se também a si mesmo como um ser religioso, capaz de colocar-se em contacto com Deus. 

A oração é, em certo sentido, a primeira prova desta realidade.

Para o pensamento contemporâneo é muito importante a filosofia da religião. Somos testemunhas de um retorno significativo à metafísica (filosofia do ser) através de uma antropologia integral. Não se pode pensar adequadamente sobre o homem sem fazer referência, constitutiva para ele, a Deus. E o que São Tomás defendia como actus essendi com a linguagem da filosofia da existência, a filosofia da religião expressa-o com as categorias da experiência antropológica.

Para esta experiência contribuíram muito os filósofos do diálogo, como Martin Buber. E encontramo-nos já muito perto de São Tomás, mas o caminho passa tanto através do ser e da existência como através das pessoas e da sua relação mútua, através do “eu” e o “tu”. 

Esta é uma dimensão fundamental da existência do homem, que é sempre uma coexistência.

Onde aprenderam isto os filósofos do diálogo?

Aprenderam-no em primeiro lugar da experiência da Bíblia

A vida humana inteira é um “coexistir” na dimensão quotidiana - “tu” e “eu” – e também na dimensão absoluta e definitiva: “eu” e “TU”».

A tradição bíblica gira em torno deste TU, que em primeiro lugar é o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, e o Deus dos Padres, e depois o Deus de Jesus Cristo e dos Apóstolos, o Deus da nossa fé.

A nossa fé é profundamente antropológica, está enraizada constitutivamente na coexistência, na comunidade do povo de Deus, e na comunhão com esse eterno TU.

Uma coexistência assim é essencial para a nossa tradição judaico-cristã e provem da iniciativa do próprio Deus.

Está na linha da Criação, de que é o seu prolongamento, e ao mesmo tempo é – como ensina São Paulo - «a terna eleição do homem no Verbo que é o Filho» [i]




(Cfr entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)

(Tradução do castelhano por AMA)



[i] Cfr Ef. 1,4

05/02/2019

Leitura espiritual


Há na verdade um Deus no Céu?


Pergunta:

A fé desses cristãos católicos dos quais o Senhor é pastor e mestre (bem como “Vice” do único Pastore Mestre) tem três “graus”, três “níveis”, unidos uns aos outros: Deus, Jesus Cristo, a Igreja.

Todo o cristão crê que Deus existe.
Todo o cristão crê que esse Deus não só falou, mas assumiu a carne do homem sendo uma das figuras da História, em tempos do Império Romano: Jesus de Nazaré.

Mas, entre os cristãos, um católico vai mais além: cré que esse Deus, que esse Cristo, vive e actua – como que num “corpo”, para usar um dos termos do Novo Testamento –na Igreja cuja Cabeça visível na terra é agora o Senhor, o Bispo de Roma.

A fé, naturalmente, é um dom, uma graça divina; mas também a razão é um dom divino. Segundo as antigas exortações dos santos e doutores da Igreja, o Cristão “Crê para entender”; mas também está chamado a “entender para crer”.

Comecemos, pois, pelo princípio, Santidade, situando-nos numa perspectiva unicamente humana – se tal for possível, pelo menos momentaneamente -,pode o homem e como, chegar à convicção de que Deus existe verdadeiramente?

Resposta:

A sua pergunta refere-se, no fim de contas, à distinção pascaliana entre o Absoluto, quer dizer, o Deus do filósofos (os libertins racionalistas) e o Deus de Jesus Cristo e, antes, , o Deus dos patriarcas, desde Abraão a Moisés.
Somente este segundo é o Deus vivo.
O primeiro é fruto do pensamento humano, da especulação humana, que, todavia, está em condições de poder dizer algo válido sobre Ele, como a Constituição conciliar sobre a Divina Revelação, a Dei Verbum, recordou (n. 3).
Todos os argumentos racionais, no fim de contas, seguem o caminho indicado pelo Livro da Sabedoria e pela Carta aos Romanos: vão do mundo visível ao mundo invisível.

Por essa mesma via procedem de modo diferente Aristóteles e Platão, do qual, todavia, se distanciou, e justamente para os cristãos o Absoluto filosófico, considerado como Primeiro Ser ou como Supremo Bem, não revestia muito significado. Para quê entrar nas especulações filosóficas sobre Deus – perguntavam-se –se o Deus vivo tinha falado, não somente por meio dos profetas, mas também por meio do Seu próprio Filho? A Teologia dos Padres, especialmente no Oriente, distancia-se cada vez mais de Platão e, em geral, dos filósofos. A mesma filosofia, no cristianismo do Oriente europeu, acabam por resolver-se numa teologia (assim por exemplo), nos tempos modernos, com Vladimir Soloviev).

São Tomás, contrariamente, não abandona a via dos filósofos. Inicia a Summa Theologiae com a pergunta: «An Deus sit»? («Deus existe?» [i]
A mesma pergunta que o senhor me faz. Essa pergunta demonstrou ser muito útil. Não somente criou a teodiceia, mas que toda a civilização ocidental, que é considerada a mais desenvolvida, seguiu concordante com esta pergunta. E se hoje a Summa Theologiae, infelizmente, se deixou um pouco de lado, a sua pergunta inicial continua válida, e continua ressoando na nossa civilização.

Chegados a este ponto, há que citar um parágrafo da Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II: Realmente os desequilíbrios que o mundo moderno sofre estão ligados a esse outro desequilíbrio fundamental que mergulha as suas raízes no coração humano. São muitos os elementos que combatem no próprio interior do homem. Por um lado, como criatura, o homem experimenta múltiplas limitações; por outro lado sente-se, todavia, ilimitado nos seus desejos e chamado a uma vida superior. Atraído por muitos outros desejos, tem de eleger um e renunciar a outros.
Além disso como doente e pecador, não raramente faz o que não quer, e deixa de fazer o que queria levar a cabo. Por isso sofre em si mesmo uma divisão, da qual provêem tantas e tão graves discórdias na sociedade (…). Apesar disso, ante a actual evolução do mundo, são cada dia mais numerosos, os que se colocam ou acometem com nova penetração as questões mais fundamentais: O que é o homem? Qual é o sentido da dor, do mal, da morte, que, apesar de tantos progressos, todavia subsistem? O que valem estas conquistas conseguidas a tão alto preço? O que aporta o homem à sociedade e que pode esperar; ela? Que haverá depois desta vida?
Isto: A Igreja crê que Cristo, morto e ressuscitado por todos, dá sempre ao homem, mediante o Seu Espírito, luz e força para responder à sua vocação máxima e que não foi dado na terra outro nome aos homens pelo qual possam salvar-se.
Crê igualmente que a chave, o centro e o fim do homem e de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre. [ii]

Esta passagem conciliar tem uma riqueza imensa.
Adverte-se claramente que a resposta à pergunta Deus sit? Não é só uma questão que afecte o intelecto, é ao mesmo tempo, uma questão que abarca toda a existência humana. 

Não é somente uma questão do intelecto, mas também uma questão da vontade do homem, mais ainda, é uma questão do coração humano (as raisons du coeur de Blas Pascal)

Penso que é injusto considerar que a postura de São Tomás se esgote só no âmbito racional. Há que dar razão, é verdade a Étiene Gilson quando diz com Tomás que o intelecto é a criação mais maravilhosa de Deus; mas isso não significa absolutamente ceder a um racionalismo unilateral.
Tomás é esclarecedor de toda a riqueza e complexidade de todo o ser criado e especialmente do ser humano.
Não é justo que o seu pensamento se tenha fechado neste período pós-conciliar; Ele, realmente, não deixou de sero mestre do universalismo filosófico e teológico.
Neste contexto devem ser lida as suas quinque viae, quer dizer, as cinco vias que levam a responder à pergunta: 

An Deus sit?


(Cfr entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)
(Tradução do castelhano por AM
A)



[i] Cfr I, q. 2. A.3
[ii] (GS 10)

25/01/2019

Leitura espiritual


A oração do Vigário de Cristo

Pergunta:

Depois destes esclarecimentos, necessários, sobre a oração cristã, permita-me que volte à pergunta precedente:

Como e por quem e porquê reza o Papa?

Resposta:

Teria de se fazer a pergunta ao Espírito Santo! 

O Papa reza tal como Espírito Santo lhe permite rezar.

Penso que deve rezar de maneira que, aprofundando no mistério revelado em Cristo, possa cumprir melhor o seu ministério. E o Espírito certamente guia-o no resto. Basta somente que o homem não ponha obstáculos.
«O Espírito Santo vem em ajuda da nossa debilidade.»

Porque reza o Papa?

Com que se enche o espaço interior da sua oração?

Gaudium etspes, luctus et angor hominum huius temporis, alegrias e esperanças, tristeza e angústias dos homens dehoje são objecto da oração do Papa

Evangelho quer dizer boa nova, e a Boa Notícia é sempre um convite á alegria.

O que é o Evangelho?

É uma grande afirmação do mundo e do homem porque é a revelação da verdade do seu Deus.

Deus é a primeira fonte de alegria e de esperança para o homem.

Um Deus tal como nos revelou Cristo.

Deus é Criador e Pai; Deus, que« amou tanto o mundo até ao ponto de entregar o seu Filho Unigénito, para que o homem não morra, mas para que tenha a vida eterna» [i]

Evangelho é, antes de qualquer outra coisa a alegria da criação.

Deus ao criar, vê que o que cria é bom [ii], que é fonte de alegria para todas as criaturas, e em sumo grau é-o para todo o homem.

Deus Criador parece dizer a toda a criação: «É bom que tu existas» 
E esta sua alegria transmite-se especialmente mediante a Boa Nova, segundo a qual o Bem é maior que tudo o que no mundo haja de mal!

O mal não é nem fundamental nem definitivo.

Também neste pondo o cristianismo se distingue de modo cortante de qualquer forma de pensamento existencial.

A criação foi dada e confiada como a tarefa ao homem com o fim de que constitua para ele não uma fonte de sofrimentos, mas para que seja o fundamento de uma existência criativa no mundo.

Um homem que crê na bondade essencial das criaturas está em condições de descobrir todos os segredos da criação, de aperfeiçoar continuamente a obra que Deus lhe entregou.

Para quem acolhe a Revelação e, em particular, o Evangelho, tem que concluir que é melhor existir que não existir; e por isso no horizonte do Evangelho não há lugar para nenhum nirvana, para nenhuma apatia ou resignação.
Há, pelo contrário, um grande desafio para aperfeiçoar tudo quanto foi criado, tanto a si próprio como ao mundo.

O motivo da nossa alegria é, pois, ter a força com que derrotar o mal, é receber a filiação divina, que constitui a essência da Boa Nova.
Este poder, Deus dá-o ao homem em Cristo.

«O Filho Unigénito vem ao mundo não para julgar o mundo, mas para que o mundo se salve do mal». [iii]

A obra da Redenção é a elevação da obra da Criação a um novo nível.
O que tinha sido criado fica penetrado de uma santificação redentora, mais ainda, por uma divinização, fica como que atraído pela órbita da divindade e da vida íntima de Deus.

Nesta dimensão é vencida a força destrutiva do pecado.
A vida indestrutível, que se revela na Ressurreição de Cristo, “devora” por assim dizer a morte.

«Onde está, oh morte a tua vitória?» pergunta o Apóstolo Paulo fixando o seu olhar em Cristo ressuscitado. [iv]

(Cfr entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)

(Tradução do castelhano por AMA)




[i] Cfr. Jo 3, 16
[ii] Cfr Gn 1, 1-25
[iii] Cfr. Jo 5, 17
[iv] 1 Cor 15,55

22/01/2019

Leitura espiritual


Rezar: como e porquê

Pergunta:

Permita-me pedir-lhe que nos confie pelo menos um pouco do segredo do seu coração. Face à convicção que na sua pessoa – como na de qualquer Papa – vive o mistério no qual que a fé crê, surge espontaneamente a pergunta:
Como é capaz de aguentar um peso semelhante, que a partir do ponto de vista humano será quase insuportável?
Nenhum homem na terra, nem sequer nenhum dos mais altos representantes das diferentes religiões, tem uma responsabilidade semelhante; ninguém está em tão estreita relação com O próprio Deus, apesar das sua declarações sobre a “co-responsabilidade” de todos os baptizados, se bem que cada um ao seu nível.

Santidade, se mo permite:
Como se dirige a Jesus?
Como dialoga na oração com esse Cristo que entregou a Pedro (para que chegassem até à sua pessoa, através da sucessão apostólica) «as chaves do Reino dos céus», conferindo-lhe o poder de «atar e desatar» todas as coisas?

Resposta:

Faz-me uma pergunta sobre a oração, pergunta ao Papa como reza. Agradeço-lhe a pergunta.
Talvez convenha iniciar a resposta com o que São Paulo escreve na Carta aos Romanos.
O Apóstolo entra directamente in medias res quando diz:
«O Espírito vem em ajuda da nossa debilidade porque nem sequer sabemos o que nos convém pedir, mas o próprio Espírito intercede com insistência por nós, com gemidos inefáveis» [i]


O que é a oração?
Comummente considera-se uma conversa.
Numa conversa há sempre um “eu” e um “tu”. Neste caso um Tu com T maiúsculo.
A experiência da oração ensina que se inicialmente o “eu” parece o elemento mais importante, logo nos damos conta que na realidade as coisas são de outro modo.
Mais importante é o “Tu”, porque a nossa oração parte da iniciativa de Deus.
São Paulo na Carta aos Romanos ensina exactamente isto.
Segundo o Apóstolo, a oração reflecte toda a realidade criada, tem em certo sentido uma função cósmica.

O homem é sacerdote de toda a criação, fala em nome dela mas enquanto guiado pelo Espírito.
Dever-se-ia meditar detidamente sobre esta passagem da Carta aos Romanos para entrar no centro profundo do que é a oração.
Leiamos: «A própria criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus; pois foi submetida à caducidade – não por sua vontade, mas pelo querer daquele que lha impôs -, e fomenta a esperança de ser também ela libertada da escravidão da corrupção, para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus.
Sabemos efectivamente que toda a criação geme e sofre até hoje as dores do parto; não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espirito, gememos interiormente esperando a adopção dos filhos, a redenção do nosso corpo.
Porque na esperança fomos salvos» [ii]
E aqui encontramos de novo as palavras do Apóstolo já citadas:

«O espírito vem em ajuda da nossa debilidade, porque nem sequer sabemos o que nos convém pedir, mas o próprio Espírito intercede por nós com insistência, «com gemidos inefáveis»[iii]

Na oração, pois, o verdadeiro protagonista é Deus.
O protagonista é Cristo, que constantemente liberta a criatura da escravidão da corrupção e a conduz para a liberdade, para a glória dos filhos de Deus.
Protagonista é o Espírito Santo, que «vem em ajuda da nossa debilidade».
Nós começamos a rezar com a impressão que é uma iniciativa nossa: ao contrário, é sempre uma iniciativa de Deus em nós.
É exactamente assim como escreve São Paulo
Esta iniciativa reintegra-nos na nossa dignidade especial.
Sim, introduz-nos na dignidade superior dos filhos de Deus, filhos de Deus que são o que toda a criação espera.




(Cfr entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)

(Tradução do castelhano por AMA)



[i] 8,26
[ii] 8, 19-24
[iii] 8, 26

21/01/2019

Leitura espiritual


O Papa um escândalo e um mistério

2

O senhor afirma justamente que o Papa é um mistério.
Afirma, com razão, que ele é sinal de contradição, que ele é uma provocação.
O ancião Simeão disse do próprio Cristo que «seria sinal de contradição» [i]

Além disso o senhor sustém que face a uma verdade assim – ou seja, face ao Papa – há que escolher; e para muitos essa escolha não é fácil.
Acaso foi fácil para o próprio Pedro?
Foi-o para qualquer um dos seus sucessores?
É fácil para o Papa actual?

Escolher comporta uma iniciativa do homem. Todavia Cristo disse: «Não to revelaram nem a carne nem o sangue, mas sim o Meu Pai». [ii]

Esta escolha, portanto, não é somente uma iniciativa do homem, é também uma acção de Deus, que actua no homem, que revela. E em virtude dessa acção de Deus, o homem pode repetir: «Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo» [iii] e depois pode recitar todo o Credo, que é intimamente harmónico, conforme a profunda lógica da revelação.

O homem também pode aplicar a si mesmo e aos outros, as consequências que derivam da lógica da fé, penetradas pelo esplendor da verdade; pode fazer tudo isso, apesar de saber que, por causa disso, se converterá em «sinal de contradição».

O que resta a um homem assim?
Somente as palavras que Jesus dirigiu aos Apóstolos: «Se me perseguiram a Mim, perseguirão também a vós; se observaram a Minha palavra, observarão também a vossa». [iv]

Portanto: «Não tenhais medo!» Não tenhais medo do mistério de Deus; não tenhais medo do Seu Amor; e não tenhais medo da debilidade do homem nem da sua grandeza»
O homem não deixa de ser grande nem sequer na sua debilidade.
Não tenhais medo se ser testemunhas da dignidade de toda a pessoa humana, desde o momento da concepção até à hora da morte.

E a propósito dos nomes, acrescento: o Papa também é chamado Vigário de Cristo. Este título deve ser considerado no contexto total do Evangelho.
Antes de subir ao Céu Jesus disse aos Seus Apóstolos:
«Eu estarei convosco todos os dias até ao final do mundo» [v]
Ele, ainda que invisível, está pois presente pessoalmente na Sua Igreja. E está em cada cristão, em virtude do Baptismo e dos outros Sacramentos.
Por isso, já no tempo dos santos Padres, era costume afirmar: Christianus alter Christus («o cristão é outro Cristo»), querendo com isso ressaltar a dignidade do baptizado e a sua vocação, em Cristo, a santidade.

Cristo, além do mais, cumpre uma presença especial em cada sacerdote, o qual, quando celebra a Eucaristia ou administra os Sacramentos, o faz in persona Christi.

(…)

Assim, pois, para em alguma medida dissipar os seus temores, ditados todavia por uma profunda fé, aconselhar-lhe-ia a leitura de Santo Agostinho, que costumava repetir: Vobis sum episcopus, vobíscum christianus («Para vós sou o bispo, convosco sou um cristão» [vi]

Se se considera isto adequadamente, significa muito mais christianus que no episcopus, ainda que se trate do Bispo de Roma.


(Cfr entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)

 (Tradução do castelhano por AMA)



[i] Cfr. Lc 2, 34
[ii] Mt 16, 17
[iii] Mt 16, 16
[iv] Jo 15, 20
[v] Mt 28,20
[vi] Serm 340, 1: PL38, 1483

18/01/2019

Leitura espiritual


O Papa um escândalo e um mistério

Pergunta:

Santidade, com a minha primeira pergunta desejava voltar aos começos; e desculpar-me-á, pois, se é mais longa que as seguintes.

Estou ante um homem vestido de banco, com uma cruz sobre o peito. Não quero deixar de assinalar que este homem ao qual chamam Papa («Pai»,  em grego) é em si mesmo um mistério, um sinal de contradição, e inclusive uma provocação, um “escândalo” segundo o que para muitos é o sentido comum.

Efectivamente, ante um Papa há que escolher. O que é Cabeça da Igreja católica é definido pela fé “Vigário de Cristo”. É considerado como o homem que na terra representa o Filho de Deus, o que faz “as vezes” da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Isto é o que afirma qualquer Papa de si mesmo. Isto é o que crêem os católicos.

Todavia, e segundo muitos outros, esta pretensão é absurda; para eles o Papa não é representante de Deus mas testemunha supervivente de uns antigos mitos e lendas que o homem de hoje não pode aceitar.

Portanto, perante Vós é necessário – dizendo ao modo de Pascal –apostar: Ou bem que Vós sois o testemunho vivo do Criador do Universo, ou antes o protagonista mais ilustre de uma história milenária.

Se me permite, Perguntar-Lhe-ia: Nunca duvidou, no meio da sua certeza, de tal vínculo com Jesus Cristo e portanto, com Deus? Nunca se lhe colocaram perguntas e problemas acerca da verdade desse Credo que se recita na Missa e que proclama uma fé inaudita, de que o Senhor é o garante mais autorizado?

Resposta:

Quereria começar com a explicação d palavras e dos conceitos. A sua pergunta está, por um lado, penetrada de uma fé viva e, por outro, de uma certa inquietude. Devo assinalar isto já desde o início e, ao fazê-lo, devo referir-me à exortação que ressoou no início do meu ministério na Sede de Pedro: ‘Não tenhais medo!’
(…)
Não são palavras ditas por mim, estão profundamente enraizadas no Evangelho; são, simplesmente as Palavras do próprio Cristo.
De que não devemos ter medo? Não devemos temer a verdade de nós próprios. Pedro teve consciência disso, um dia, com especial viveza, e disse a Jesus: «Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador»! [i]

(…)

Assim que, ante a sua primeira pergunta, desejo referir-me às palavras de Cristo e, ao mesmo tempo, às minhas primeiras palavras na Praça de São Pedro. Portanto, “não há que ter medo ”quando a gente te chama Vigário de Cristo, quando te dizem Santo Padreou Sua Santidade ou empregam outras expressões semelhantes a estas, que, inclusive, parecem contrárias ao Evangelho, porque O próprio Cristo afirmou: «a ninguém chameis Pai (…) porque só um é vosso Pai, O do Céu. Tampouco vos façais chamar mestres, porque um só é o vosso Mestre: Cristo» [ii]

(…)

Assim pois, Pedro não teve medo de Deus que Se tinha feito homem. Ao contrário, sentiu medo ante o Filho de Deus como homem; não conseguia aceitar que fosse flagelado e coroado de espinhos e por fim crucificado. Pedro não o podia aceitar. Dava-lhe medo. E por isso Cristo reprendeu-o severamente. Todavia, não o rejeitou.

(…)

Esta Igreja confessa: «Tu és Criso, o Filho de Deus vivo». Isto confessa a Igreja através dos séculos juntamente com todos os que partilham a sua fé. Juntamente com todos aqueles a quem o Pai revelou ao Filho no Espírito Santo, assim como aqueles a quem o Filho no Espírito Santo revelou ao Pai.» [iii]

Esta revelação é definitiva, só se a pode aceitar ou rejeitar. Pode-se aceitá-la confessando a Deus, Pai Omnipotente, Criador do céu e da terra, e a Jesus Cristo, o Filho, da mesma substância que o Pai e o Espírito Santo, que é o Senhor e dá a vida.

Ou também se pode rejeitar todo o isto e escrever em maiúsculas: «Deus não tem um Filho»; «Jesus Cristo, é somente um dos profetas, ainda que não o último; é somente um homem.»

Pode alguém surpreender-se com tais posturas quando sabemos que o próprio Pedro teve dificuldades a este respeito?

Ele acreditava no Filho de Deus, mas não conseguia aceitar que este Filho de Deus, como homem, pudesse ser flagelado, coroado de espinhos, e que depois tivesse de morrer na cruz.

Na Igreja – edificada sobre a rocha que é Cristo – Pedro, os Apóstolos e os seus sucessores são testemunhas de Deus crucificado e ressuscitado em Cristo.


Desse modo, são testemunhas da vida que é mais forte que a morte.

São testemunhas de Deus que dá a vida porque é Amor [iv].
São testemunhas porque viram, ouviram e tocado com as mãos, com os olhos e os ouvidos de Pedro, e João e de tantos outros.

Mas Cristo disse a Tomé:

«Bem aventurados os que, ainda que sem terem visto, acreditaram» [v]

(Excertos da entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)

(Tradução do castelhano por AMA)


[i] Lc 5, 8
[ii] Mt 23, 9-10
[iii] Cfr. Mt 11, 25-27
[iv] Cfr.  Jo 4,8
[v] Jo 20,029