23/01/2015

Jesus Cristo e a Igreja - 52

O que sucedeu no Concílio de Niceia?

O Concílio I de Niceia é o primeiro Concílio Ecuménico, isto é, universal, em que participaram bispos de todas as regiões onde havia cristãos.

Teve lugar quando a Igreja pôde desfrutar de uma paz estável e dispunha de liberdade para se reunir abertamente. Desenrolou-se de 20 de Maio a 25 de Julho, do ano 325. Nele participaram alguns bispos que tinham nos seus corpos os sinais dos castigos que tinham sofrido por se terem mantido fiéis nas perseguições passadas, e que eram ainda muito recentes. O Imperador Constantino, que por essas datas ainda não se tinha baptizado, facilitou a participação dos bispos, pondo à sua disposição as diligências imperiais – para que fizessem a viagem – e oferecendo­‑lhes hospita­li­dade em Niceia da Bitínia, próximo da sua residência de Nicomédia. De facto, considerou muito oportuna essa reunião, uma vez que – depois de ter obtido com a sua vitória contra Licínio, no ano 324, a reunificação do Império – desejava também ver unida a Igreja, que nesses momentos andava agitada pela pregação de Ário, um sacerdote que negava a verdadeira divindade de Jesus Cristo. Desde o ano 318 Ário tinha-se oposto ao seu bispo Alexandre de Alexandria, e foi excomungado num sínodo de todos os bispos do Egipto. Ário fugiu para Nicomédia, para junto do seu amigo o bispo Eusébio.

Entre os Padres Conciliares contavam-se as figuras eclesiásticas mais relevantes do momento. Estava Ósio, bispo de Córdova que, segundo parece, presidiu às sessões. Assistiu também Alexandre de Alexan­dria, ajudado pelo então diácono Atanásio, Marcelo de Ancira, Macário de Jerusalém, Leôncio de Cesareia da Capadócia, Eustácio de Antioquia, e alguns presbíteros em representação do bispo de Roma, que não pôde assistir, devido à sua avançada idade. Também não faltaram os amigos de Ário, como Eusébio de Cesareia, Eusébio de Nicomédia e alguns outros. No total, participaram uns trezentos bispos. Os partidários de Árrio, que contavam também com as simpatias do Imperador Constantino, pensavam que, desde que expusessem os seus pontos de vista, a assembleia lhes daria razão. Todavia, quando Eusébio de Nicomédia tomou a palavra para dizer que Jesus Cristo não era mais que uma criatura – se bem que muito excelsa e eminente – e que não era de natureza divina, a imensa maioria dos assistentes compreendeu imediatamente que essa doutrina atraiçoava a fé recebida dos Apóstolos. Para evitar tão graves confusões, os Padres Conciliares decidiram redigir, tendo como base do credo baptis­mal da igreja de Cesareia, um símbolo de fé que reflectisse, de modo sintético e claro, a confissão genuína da fé recebida e admitida pelos cristãos desde as origens. Nele se diz que Jesus Cristo é “da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, homoousios tou Patrou (consubstancial ao Pai)”. Todos os Padres Conciliares, excepto dois bispos, ratificaram esse Credo – o Símbolo Niceno – a 19 de Junho do ano 325.

Além dessa questão fundamental, em Niceia fixou­‑se a celebração da Páscoa no primeiro Domingo depois do primeiro plenilúnio da Primavera, seguindo a prática habitual na igreja de Roma e em muitas outras. Também se trataram algumas questões disci­plinares de menor importância, relativas ao funciona­mento interno da Igreja. No que respeita ao tema mais importante – a crise arriana – Eusébio de Nico­média conseguiu, pouco tempo depois, voltar à sua sede contando com a ajuda de Constantino, tendo o próprio Imperador ordenado depois ao bispo de Cons­tantinopla que admitisse Árrio à comunhão. Entre­tanto, depois da morte de Alexandre, Atanásio acedeu ao episcopado em Alexandria. Foi uma das maiores figuras da Igreja em todo o século IV, que defendeu, com grande altura intelectual, a fé de Niceia, mas que – precisamente por isso – foi enviado para o exílio pelo Imperador. O historiador Eusébio de Cesareia – também próximo das teses arrianas – exagera, nos seus escritos, a influência de Cons­tantino no Concílio de Niceia. Se só se dispusesse dessa fonte, poderia pensar-se que o Imperador, além de pronunciar umas palavras de saudação no início das sessões, assumiu o protagonismo na reconciliação dos adversários e na restauração da concórdia, impondo-se também nas questões doutrinais, acima dos bispos que participa­vam no Concílio. Trata-se de uma versão deformada da realidade. Atendendo a todas as fontes disponíveis, pode dizer-se certamente, que Constantino tornou possível a celebração do Concílio de Niceia, e teve influência na sua celebra­ção prestando todo o seu apoio. Contudo, o estudo dos documentos mostra que o Imperador não influenciou a formulação da fé que se consubstanciou no Credo porque não tinha capacidade teológica para dominar as questões que ali se debatiam, mas também, e sobretudo, porque as fórmulas aprovadas não coincidem com as suas inclinações pessoais, que se identificam melhor com a corrente arriana, isto é, considerar que Jesus Cristo não era Deus, mas sim uma criatura excelsa.

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Cristo também vive agora

Vive junto de Cristo! Deves ser, no Evangelho, uma personagem mais, convivendo com Pedro, com João, com André..., porque Cristo também vive agora: "Iesus Christus, heri et hodie, ipse et in saecula!" Jesus Cristo vive!, hoje como ontem; é o mesmo, pelos séculos dos séculos. (Forja, 8)

É esse amor de Cristo que cada um de nós deve se esforçar por realizar na sua vida. Mas para ser ipse Christus é preciso mirar-se Nele. Não basta ter-se uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz.

Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso temos de meditar na vida de Jesus, desde o Seu nascimento num presépio até à Sua morte e à Sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narra a vida de Jesus, porque é necessário que a conheçamos bem, que a tenhamos inteira na mente e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, cerrando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas mais diversas situações da nossa vida, acudam à memória as palavras e os actos do Senhor.


Sentir-nos-emos assim metidos na sua vida. Na verdade, não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aqueles episódios; temos de meter-nos em cheio neles, como actores. (Cristo que passa, 107)

Temas para meditar - 343


Desprendimento


Muitas vezes, no meio das maiores dificuldades e carência económicas, o difícil é manter uma atitude de verdadeiro desprendimento e resistir, por muito que custe, ao apego “ao que não se tem”.


(ama, Diário, 2005.04.12)

Tratado do verbo encarnado 99

Questão 15: Das fraquezas atinentes à alma que Cristo assumiu com a natureza humana

Art. 6 — Se Cristo sofreu a tristeza.

O sexto discute-se assim. — Parece que Cristo não sofreu a tristeza.

1. — Pois, diz de Cristo a Escritura: Não será triste nem turbulento.

2. Demais. — Diz a Escritura: Não entristecerá ao justo coisa alguma, seja o que for que lhe acontecer. E a razão disto os estoicos davam-na dizendo, que ninguém se entristece senão pela perda dos seus bens, ora o justo não considera bens senão a justiça e a virtude, que não pode perder. Do contrário, estaria sujeito à fortuna, se se entristecesse quando perdesse os bens dela. Ora, Cristo era o justo por excelência, segundo a Escritura: Este é o nome que lhe chamaram, o Senhor nosso justo. Logo, não sofreu a tristeza,

3. Demais. — O Filosofo diz, que toda tristeza deve ser evitada como um mal. Ora, Cristo não tinha que evitar nenhum mal. Logo, não sofreu a tristeza.

4. Demais. — Como diz Agostinho, Nós nos entristecemos com o que nos contraria a vontade. Ora, Cristo não sofreu nada contra a sua vontade, pois, como diz a Escritura, foi oferecido porque ele mesmo quis. Logo, Cristo não sofreu a tristeza.

Mas, em contrário, diz o Senhor: A minha alma está numa tristeza mortal. E Ambrósio: Como homem, sofreu tristeza, pois, assumiu a minha tristeza, Pois, exprimo por certo a tristeza quando me refiro à cruz.

Como dissemos, o prazer da contemplação divina concentrava-se, por disposição do poder de Deus, na alma de Cristo, a ponto de não derivar para as potências sensitivas e, assim, excluir a dor sensível. Ora, como a dor sensível tem a sua sede no apetite sensitivo, assim também a tristeza, mas diferentemente, pelo seu motivo ou objecto. Pois, o objecto e o motivo da dor é uma lesão percebida pelo sentido do tacto, como quando alguém é ferido. Ora, o objecto e o motivo da tristeza é um dano ou um mal interiormente apreendido, pela razão ou pela imaginação, como dissemos na Segunda Parte, tal o caso de quem se entristece pela perda da graça ou do dinheiro. Ora, a alma de Cristo podia apreender interiormente uma coisa como nociva, tanto para si mesmo, como o foi a sua paixão e morte, quanto para os outros, como o pecado dos discípulos ou ainda dos Judeus que o mataram. Donde, assim como Cristo podia sofrer realmente a dor, também podia padecer realmente a tristeza, mas de maneira diferente de nós, daqueles três modos que assinalamos, quando tratamos em geral das paixões da alma de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Cristo não sofreu a tristeza, como paixão, no seu sentido perfeito, mas houve nele uma tristeza incoativa, como pro-paixão. Donde o dizer a Escritura: Começou a entristecer-se e a angustiar-se. — Ora, uma coisa é entristecer-se e outra começar a entristecer-se.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz Agostinho, os estoicos ensinavam que há na alma do sábio três eupatias, isto é, boas paixões, correspondentes às três perturbações - a cobiça, a alegria e o temor. Essas três eupatias correspondentes são: a cobiça, a vontade, a alegria, o gáudio, o medo, a cautela. Mas negavam que pudesse haver algo na alma do sábio de correspondente à tristeza, porque a tristeza supõe um mal já acontecido, ora, julgavam que nenhum mal podia atingir o sábio. E pensavam assim por só considerarem como bem o honesto, que torna os homens bons, e como sendo mal só o desonesto, que torna os homens maus. — Mas, embora o honesto seja o principal bem do homem, e o desonesto o mal principal, por dizerem respeito à razão, que é o principal no homem, há contudo, alguns bens humanos secundários, relativos ao corpo ou às coisas exteriores que servem ao corpo. E, assim sendo, pode haver tristeza na alma do sábio, quando o apetite sensitivo venha a apreender algum dos referidos males, não vai porém essa tristeza até perturbar a razão. E também a esta luz se entende que o justo não se contristará, seja o que for que lhe suceda, pois, nenhum acontecimento lhe perturba a razão, Donde, Cristo sofreu tristeza, quanto à pro-paixão, mas não quanto à paixão.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Toda tristeza implica o mal da pena, mas nem sempre o mal da culpa, senão só quando procede do afecto desordenado. Donde o dizer Agostinho: Quando estas paixões obedecem à razão recta e lhes cedemos em tempo e lugar oportunos, quem ousará chamar-lhes doenças ou paixões más?

RESPOSTA À QUARTA. — Nada impede que uma coisa contrária à vontade ser, em si mesma considerada e, contudo, querida, em razão do fim a que se ordena. Assim, não queremos em si mesmo um remédio amargo, mas enquanto ordenado à saúde. Ora, deste modo, a morte de Cristo e a sua paixão foram, consideradas em si mesmas, involuntárias e causas de tristeza, embora fossem voluntárias quanto ao fim, que é a redenção do género humano.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum II Semana

Evangelho: Mc 3 13-19

13 Tendo subido a um monte, chamou a Si os que quis, e aproximaram-se d'Ele. 14 Escolheu doze para que andassem com Ele e para os enviar a pregar, 15 com poder de expulsar os demónios: 16 Simão, a quem pôs o nome de Pedro; 17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer “filhos do trovão”; 18 e André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19 e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou

Comentário:

É – sempre – Jesus Quem chama e chama aqueles que quer. E não sabemos bem porquê, qual o critério do Senhor para escolher este em lugar daquele.

Mas, a questão está mal colocada porque, na verdade, o Senhor chama todos, sem excepção. Sim… é verdade, chama todos os homens sem acepção alguma à santidade pessoal porque todos somos Seus filhos e, um Pai, quer a todos os filhos por igual sejam quais forem as suas virtudes, aptidões, defeitos ou limitações.

Como é que chama este Doze simples pescadores na sua maioria e não outros?
Porquê escolhe Paulo um perseguidor e carrasco de cristãos?
Será que não viu que Judas O haveria de vender por trinta moedas?
Não conhecia a fragilidade de Pedro que O negaria com juramento?

Claro que sim mas também sabia que o apurado sentido de justiça de Paulo o levaria por inauditos caminhos de apostolado!

Que a fragilidade de Pedro seria ultrapassada pelo seu amor ao Mestre e, por isso lhe entregaria as chaves do Reino e confiando-lhe a chefia da Sua Igreja!

Que a tragédia pessoal de Judas seria a consequência de não ser capaz de amar e, amando, converter-se e pedir perdão!

(ama, comentário sobre Mc 3, 13-19, 2014.01.24)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

34             

Algumas pessoas têm afirmado às vezes que o Opus Dei é organizado internamente segundo as normas das sociedades secretas. Que se deve pensar de tal afirmação? Poderia dar-nos, a propósito dista, uma ideia da mensagem que desejou dirigir aos homens do nosso tempo ao fundar a Obra em 1928?

Desde 1928 não tenho deixado de pregar que a santidade não está reservada a privilegiados, que todos os caminhos da Terra podem ser divinos, porque o cerne da espiritualidade específica do Opus Dei é a santificação do TRABALHO. É preciso acabar com o preconceito de que os fiéis correntes não podem senão limitar-se a ajudar o clero, em apostolados eclesiásticos; e fazer notar que, para alcançar esse fim sobrenatural, os homens têm necessidade de ser e de se sentir pessoalmente livres, com a liberdade que Jesus Cristo ganhou para nós. Para pregar e ensinar a praticar esta doutrina, nunca tive necessidade de segredo algum. Os membros da Obra detestam o segredo, porque são fiéis correntes, pessoas exactamente iguais às outras: ao entrarem para o Opus Dei não mudam de estado. Repugnar-lhes-ia trazer um letreiro nas costas que dissesse: “Reparem que estou dedicado ao serviço de Deus”. Isto não seria nem laical nem secular. Mas os conhecidos e amigos dos sócios do Opus Dei sabem que eles fazem parte da Obra, porque o não dissimulam, ainda que o não apregoem.

35             
Poderia traçar um rápido esquema da estrutura do Opus Dei à escala mundial e da sua articulação com o Conselho Geral a que preside em Roma?

O Conselho Geral tem o seu domicílio em Roma, independente para cada Secção: a de homens e a de mulheres (“Anuário Pontifício” de 1966, págs. 885 e 1226); e em cada país existe um organismo análogo, presidido pelo Conselheiro nessa nação [*]. Não pense numa organização poderosa, estendida capilarmente até ao último recanto do Mundo. Imagine antes uma organização desorganizada, pois o trabalho dos directores do Opus Dei destina-se principalmente a fazer com que chegue a todos os seus membros o espírito genuíno do Evangelho - espírito de caridade, de convivência, de compreensão, absolutamente alheio ao fanatismo - mediante uma sólida e adequada formação teológica e apostólica. Depois, cada um actua com inteira liberdade pessoal e, formando de modo autónomo a sua própria consciência, esforça-se por procurar a perfeição cristã e cristianizar o seu ambiente, santificando o seu próprio trabalho intelectual ou manual, em todas as circunstâncias da sua vida e no seu próprio lar.

Por outro lado, a direcção da Obra é sempre colegial. Detestamos a tirania, especialmente neste governo exclusivamente espiritual do Opus Dei. Amamos a pluralidade: o contrário não conduziria senão à ineficácia, a não fazer nem deixar fazer, a não progredir.

[*] Cfr. nota ao n.º 19. A erecção do Opus Dei como Prelatura pessoal reforçou juridicamente a unidade do Opus Dei, ficando muito claro que toda a Prelatura - homens e mulheres, sacerdotes e leigos, casados e solteiros - constitui uma unidade pastoral orgânica e indivisível, que realiza os seus apostolados por meio da Secção de varões e da Secção feminina, sob o governo e a direcção do Prelado que, ajudado pelos seus Vigários e pelos seus Conselhos, dá e assegura a unidade fundamental de espírito e de jurisdição entre as duas Secções.

36             
O ponto 484 do seu código religioso, Caminho, precisa: “Sê instrumento”. Que sentido se deve atribuir a esta afirmação dentro do contexto das perguntas precedentes?

Caminho, um código? Não! Escrevi em 1934 uma boa parte deste livro, resumindo para todas as almas que dirigia - do Opus Dei ou não - a minha experiência sacerdotal. Não suspeitei que trinta anos mais tarde alcançaria uma difusão tão ampla - milhões de exemplares - em tantas línguas. Não é um livro somente para os sócios do Opus Dei; é para todos, mesmo para os não cristãos. Caminho deve ser lido com um mínimo de espírito sobrenatural, de vida interior e de preocupação apostólica. Não é um código do homem de acção. Pretende ser um livro que leva a viver na intimidade de Deus e a amá-lo, e a servir todas as almas: a ser um instrumento - era esta a sua pergunta - como o Apóstolo Paulo queria sê-lo de Cristo. Instrumento livre e responsável; aqueles que querem ver nas suas páginas uma finalidade temporal, enganam-se. Não se esqueça que é corrente, nos autores espirituais de todos os tempos, considerar as almas como instrumentos nas mãos de Deus.

37             
A Espanha ocupa um lugar de preferência na Obra? Pode considerar-se como ponto de partida dum programa mais ambicioso, ou um simples sector de actividade entre muitos outros?

A Espanha não é senão um dos 65 países em que há sócios do Opus Dei, e os espanhóis são uma minoria. Geograficamente, o Opus Dei nasceu na Espanha; mas o seu fim é universal desde o princípio. De resto, eu resido em Roma há vinte anos.

38             
O facto de alguns membros da Obra estarem presentes na vida pública do país, não politizou, de certo modo, o Opus Dei em Espanha? Não comprometem, assim, a Obra e a própria Igreja?

Nem em Espanha, nem em nenhum outro sítio! Insisto em que os sócios do Opus Dei trabalham com plena liberdade e sob a sua responsabilidade pessoal, sem comprometer nem a Igreja nem a Obra, porque não se apoiam nem na Igreja nem na Obra para realizarem as suas actividades pessoais.

Pessoas formadas numa concepção militar do apostolado e da vida espiritual tenderão a ver no trabalho livre e responsável dos cristãos um modo de actuar colectivo. Mas digo-lhe, como não me tenho cansado de repetir desde 1928, que a diversidade de opiniões e de comportamentos no terreno temporal e no campo teológico opinável não constitui problema algum para a Obra: a diversidade que existe e existirá sempre entre os sócios do Opus Dei é, pelo contrário, uma manifestação de bom espírito, de vida honesta, de respeito pelas opiniões legítimas de cada um.

39             
Não lhe parece que em Espanha, e em virtude do particularismo inerente à raça ibérica, um certo sector da Obra poderia ser tentado a utilizar o seu poder para satisfazer interesses particulares?

Levanta uma hipótese que me atrevo a garantir que nunca se apresentará na nossa Obra, não só porque nos associamos exclusivamente para fins sobrenaturais, mas ainda porque, se alguma vez um membro do Opus Dei quisesse impor, directa ou indirectamente, um critério temporal aos outros, ou servir-se deles para fins humanos, seria expulso sem contemplações, porque os outros sócios se revoltariam legitimamente, santamente.

40             
Em Espanha, o Opus Dei orgulha-se de reunir pessoas de todas as classes sociais. Esta afirmação é válida também para o resto do Mundo, ou deve admitir-se que nos outros países os sócios do Opus Dei procedem antes de meios ilustrados, como os estados-maiores da Indústria, da Administração, da Política e das Profissões Liberais?

De facto, pertencem ao Opus Dei, tanto em Espanha como em todo o mundo, pessoas de todas as condições sociais: homens e mulheres, velhos e jovens, operários, industriais, empregados, camponeses, representantes das profissões liberais, etc. A vocação é Deus quem a dá e para Deus não há acepção de pessoas.

Mas o Opus Dei não se orgulha de coisa nenhuma: não e às forças humanas que as obras de apostolado devem o seu crescimento, é ao sopro do Espírito Santo. Numa associação com fins temporais, é lógico publicar estatísticas que ostentem o número, a condição e as qualidades dos sócios, e assim costumam fazer as organizações que buscam prestígio temporal; mas este modo de actuar, quando se procura a santificação das almas, favorece a soberba colectiva: ora Cristo quer a humildade para cada um dos cristãos e para todos os cristãos.

41             
Qual é a situação actual do desenvolvimento da Obra em França?

Corno lhe dizia, o governo da Obra em cada país é autónomo. A melhor informação sobre o trabalho do Opus Dei em França, pode obtê-la perguntando-o aos directores da Obra nesse país.

Entre as actividades que o Opus Dei realiza corporativamente e pelas quais responde como tal, há residências de estudantes - como a Résidence lnternationale de Rouvray, em Paris; a Résidence Universitaire de L'Ile-Verte, em Grenoble -, centros de reuniões e convívios - como o Centre de Rencontre de Couvrelles, no departamento de L'Aisne - etc. Mas recordo-lhe que as obras corporativas são o que menos importa; o trabalho principal do Opus Dei é o testemunho pessoal, directo, que os seus sócios dão no ambiente do seu trabalho. E para isso a enumeração não serve. Não pense no fantasma do segredo. Não! As aves que sulcam o céu não são segredo e a ninguém passa pela cabeça contá-las.

42             
Qual é a situação actual da Obra no resto do Mundo, especialmente no mundo anglo-saxónico?

O Opus Dei encontra-se tão à vontade na Inglaterra como no Quénia, na Nigéria, como no Japão, nos Estados Unidos como na Áustria, na Irlanda como no México ou na Argentina: em cada lugar é o mesmo fenómeno teológico e pastoral, enraizado nas almas do país. Não se baseia numa cultura determinada nem numa época concreta da História. No mundo anglo-saxónico, o Opus Dei tem, graças à ajuda de Deus e à colaboração de grande número de pessoas, obras apostólicas de diversas espécies: Netherhall House, em Londres, que presta especial atenção aos estudantes afro-asiáticos; Hudson Center, em Montreal, para a formação humana e intelectual de raparigas; Nairana Cultural Center, que se dirige aos estudantes de Sydney... Nos Estados Unidos, onde o Opus Dei começou a trabalhar em 1949, podem mencionar-se: Midtown, centro para operários num bairro do coração de Chicago; Stonecrest Community Center, em Washington, destinado à formação de mulheres que carecem de preparação profissional; Trimount House, residência universitária, em Boston, etc. Uma advertência: a influência da Obra, na medida em que exista em cada caso, será sempre espiritual e de carácter religioso, nunca temporal.

43             
Fontes diversas pretendem que uma inimizade profunda oporia a maior parte das ordens religiosas, e singularmente a Companhia de Jesus, ao Opus Dei. Estes boatos têm algum fundamento ou fazem parte desses mitos que o público alimenta quando não conhece bem algum assunto?

Embora não sejamos religiosos nem nos pareçamos com os religiosos - nem há autoridade no Mundo que nos possa obrigar a sê-lo - no Opus Dei veneramos e amamos o estado religioso. Todos os dias rezo para que todos os veneráveis religiosos continuem a oferecer à Igreja frutos de virtudes, de obras apostólicas e de santidade. Os boatos de que se falou são... boatos. O Opus Dei teve sempre a admiração e a simpatia de inúmeras ordens e congregações, particularmente dos religiosos e das religiosas de clausura, que rezam por nós, nos escrevem com frequência e dão a conhecer a nossa Obra de mil e uma maneiras, porque se dão conta da nossa vida de contemplação no meio dos afazeres da rua. O secretário geral do Opus Dei, Dr. Alvaro del Portillo, conhecia e estimava o anterior Geral da Companhia de Jesus. O actual Geral, o Padre Arrupe, conheço-o eu e estimo-o, e ele a mim. As incompreensões, se as houvesse, demonstrariam pouco espírito cristão, porque a nossa fé é de unidade, não de rivalidade e divisões.

44             
Qual é a posição da Obra acerca da declaração conciliar em favor da liberdade religiosa, e de modo especial acerca da sua aplicação em Espanha, onde o “projecto Castiella” continua suspenso? E que dizer desse famoso “integrismo” atribuído alguma vez ao Opus Dei?

lntegrismo? O Opus Dei não está à direita, nem à esquerda, nem ao centro. Pessoalmente, como sacerdote, procuro estar com Cristo, que na Cruz estendeu os dois braços, e não apenas um deles. - Tomo com liberdade, de cada grupo, aquilo que me convence, e que me torna o coração e os braços acolhedores para com toda a gente. Por sua vez, cada um dos sócios da Obra é libérrimo de fazer as opções que quiser, no âmbito da fé cristã.

Quanto à liberdade religiosa, o Opus Dei, desde a sua fundação, nunca fez discriminações: trabalha e convive com todos, porque vê, em cada um, uma alma que é preciso respeitar e amar. Não são meras palavras: a nossa Obra foi a primeira organização católica a admitir, com autorização da Santa Sé, como Cooperadores os não católicos, sejam ou não cristãos. Defendi sempre a liberdade das consciências. Não compreendo a violência: não me parece apta para convencer nem para vencer. O erro supera-se com a oração, com a graça de Deus, com o estudo; nunca com a força, sempre com a caridade. Compreenderá que, sendo este o espírito que temos vivido desde o princípio, só me podem ter causado alegria os ensinamentos que o Concílio promulgou sobre este tema. Acerca do projecto concreto a que se refere, não é questão da minha competência, mas da hierarquia da Igreja em Espanha e dos católicos desse país, aplicando ao caso concreto o espírito do Concílio.

(cont)








[i] Entrevista realizada por Jacques-Guillemé-Brûlon, publicada em Le Figaro (Paris) em 16 de Maio de 1966.


Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?


22/01/2015

Há-de urgir-te a caridade de Cristo

Tens necessidade de vida interior e de formação doutrinal. Exige-te! – Tu, cavalheiro cristão, mulher cristã, tens de ser sal da terra e luz do mundo, porque estás obrigado a dar exemplo com um santo descaramento. Há-de urgir-te a caridade de Cristo e, ao sentires-te e saberes-te outro Cristo a partir do momento em que lhe disseste que o seguias, não te separarás dos teus semelhantes – os teus parentes, os teus amigos, os teus colegas –, da mesma maneira que o sal não se separa do alimento que condimenta. A tua vida interior e a tua formação abrangem a piedade e o critério que deve ter um filho de Deus, para temperar tudo com a sua presença activa. Pede ao Senhor para seres sempre esse bom condimento na vida dos outros. (Forja, 450)

Um cristão não pode reduzir-se aos seus problemas pessoais, pois tem de viver face à Igreja universal, pensando na salvação de todas as almas.

Deste modo, até aquelas facetas que poderiam considerar-se mais íntimas e privadas – a preocupação pelo progresso interior – não são, na realidade, individuais, visto que a santificação forma uma só coisa com o apostolado. Havemos de esforçar-nos, na nossa vida interior e no desenvolvimento das virtudes cristãs, pensando no bem de toda a Igreja, dado que não poderíamos fazer o bem e dar a conhecer Cristo, se na nossa vida não se desse um esforço sincero por realizar os ensinamentos do Evangelho.

Impregnadas deste espírito, as nossas orações, ainda que comecem por temas e propósitos aparentemente pessoais, acabam sempre por ir ter ao serviço dos outros. E, se caminharmos pela mão da Virgem Santíssima, Ela fará com que nos sintamos irmãos de todos os homens, porque todos somos Filhos desse Deus de que Ela é filha, esposa e mãe.

Os problemas dos outros devem ser os nossos problemas. A fraternidade cristã deve estar bem no fundo da nossa alma, de tal modo que nenhuma pessoa nos seja indiferente. Maria, Mãe de Jesus, que O criou, O educou e O acompanhou durante a sua vida terrena e agora está junto d'Ele nos Céus, ajudar-nos-á a reconhecer Jesus em quem passa ao nosso lado, tornado presente para nós nas necessidades dos nossos irmãos, os homens. (Cristo que passa, 145)

Diálogos com o meu eu (20)

Perante as notícias sentes vontade de pegar em armas e resolveres tudo de uma vez não é?
Sim, sem dúvida, aqueles criminosos mereciam o pior, ou seja, a morte!

E tu, se fosse preciso, ajudavas a isso, não é quase o que te apetece?

É verdade, mas alguma coisa me impede de aderir totalmente a essa ideia.

Sabes porquê?

Não.

Lembras-te da história? Jesus Cristo foi ofendido, insultado, cuspido, ultrajado, torturado e no fim foi horrorosamente crucificado!

É verdade!

E lembras-te do que Ele disse, perante tais coisas? «Perdoa-lhes Pai, que não sabem o que fazem.»

É verdade!

Vês o paralelo com as notícias? Uns insultaram-no e aos seus também, (com desenhos e graças degradantes), e outros depois mataram-nO, naqueles que antes O tinham ofendido.

É difícil pensar assim!
Pois é, mas não achas que Jesus Cristo, perante uns e outros, não diz na mesma: «Perdoa-lhes Pai, que não sabem o que fazem.»?

Acredito que sim.

Então faz tu também na mesma, no intimo do teu coração e reza por todos eles.


Marinha Grande, 10 de Janeiro de 2015
Joaquim Mexia Alves

Temas para meditar - 342


Critério


Muitas vezes, a nossa débil alma quando recebe pelas suas boas acções os mimos dos aplausos humanos, desvia-se (...), encontrando assim maior prazer em ser chamada ditosa que em sê-lo realmente (...). E aquilo que deveria ser para ela motivo de louvor a Deus converte-se em causa de separação.


(são gregório magno, Moralia, 10, 47-48)

Tratado do verbo encarnado 98

Questão 15: Das fraquezas atinentes à alma que Cristo assumiu com a natureza humana

Art. 5 — Se Cristo sofreu verdadeiramente a dor sensível.

O quinto discute-se assim. — Parece que Cristo não sofreu verdadeiramente a dor sensível.

1. — Pois, diz Hilário: Sendo para Cristo a morte, vida, que devemos crer tenha sofrido no sacramento da sua morte, ele que dá a vida pelos que lhe sacrificam a deles? E a seguir: O Deus unigénito realmente assumiu a natureza humana, sem deixar por isso de ser Deus. E assim, embora recebesse golpes ou fosse varado de ferimentos, ou amassado ou suspenso na cruz, tudo isso bem lhe podia fazer sofrer os assaltos da paixão, mas não causar-lhe dor, pois, tudo lhe era como um dardo que transpassasse a água. Logo, em Cristo não houve verdadeira dor.

2. Demais. — É próprio à carne concebida no pecado ficar sujeita ao jugo da dor. Ora, a carne de Cristo não foi concebida no pecado, mas, do Espírito Santo, no ventre virginal. Logo, não estava sujeita à necessidade de sofrer a dor.

3. Demais. — A contemplação das coisas divinas diminui o sentimento da dor, por isso os mártires suportaram melhor os seus tormentos, por terem a consideração posta no divino amor. Ora, a alma de Cristo estava toda engolfada nas delícias da contemplação de Deus, cuja essência via, como dissemos. Logo, não podia sentir nenhuma dor.

Mas, em contrário, a Escritura: Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas e ele mesmo carregou com as nossas dores.

Como resulta do que dissemos na Segunda Parte, a dor sensível real implica uma lesão corpórea e o sentimento dessa lesão. Ora, o corpo de Cristo, sendo passível e mortal, como demonstramos, podia sofrer uma lesão, e como a alma de Cristo era dotada de todas as potências naturais, não lhe faltava o sentimento da lesão. Donde, não pode haver nenhuma dúvida que Cristo tivesse realmente sofrido a dor.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Em todas as palavras citadas e em outras semelhantes, Hilário pretende excluir da carne de Cristo não a verdadeira dor, mas a necessidade de sofrê-la. Por isso, depois das palavras citadas, acrescenta: Quando o Senhor teve sede, teve fome ou chorou, não mostrou com isso que verdadeiramente bebesse, comesse ou sofresse dor, mas, para mostrar que tinha verdadeiramente um corpo, assumiu os hábitos do corpo, de modo que, pelo que é habitual à nossa natureza, satisfizesse as exigências do corpo. Ou, quando tomou a bebida e a comida, cedeu, não à necessidade, mas aos hábitos do corpo. E toma a palavra necessidade na sua relação com a causa primeira delas, que é o pecado, como dissemos, de modo que compreendamos que a carne de Cristo não estava sujeita ao jugo das referidas necessidades, porque nela não havia pecado. Por isso acrescenta Hilário: Teve Cristo um corpo, mas próprio da sua origem, nem trazia em si os vícios da concepção humana, mas se revestiu da forma do nosso corpo, em virtude do seu poder. Quanto à causa próxima dessas necessidades, que é a composição de elementos contrários, a carne de Cristo estava sujeita ao jugo delas, como estabelecemos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A carne concebida no pecado está sujeita à dor, não só por necessidade dos princípios naturais, mas ainda pela necessidade do reato do pecado. Cuja necessidade em Cristo não existia, mas só, a imposta pelos princípios naturais.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como dissemos, por uma sábia disposição da sua divindade, a bem-aventurança, a alma de Cristo de tal modo a tinha que ela não derivava para o corpo, para lhe não tolher a passibilidade e a mortalidade. E pela mesma razão, o prazer da contemplação de tal modo a sua inteligência o gozava, que não derivava para as potências sensíveis, a fim de não excluir assim a dor sensível.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum II Semana

Evangelho: Mc 3 7-12

7 Jesus retirou-Se com Seus discípulos para o mar, e segiu-O uma grande multidão do povo da Galileia; também da Judeia, 8 de Jerusalém, da Idumeia, da Transjordânia e das vizinhanças de Tiro e de Sidónia, tendo ouvido as coisas que fazia, foram em grande multidão ter com Ele. 9 Mandou aos Seus discípulos que Lhe aprontassem uma barca para que a multidão não O apertasse. 10 Porque, como curava muitos, todos os que padeciam algum mal lançavam-se sobre Ele para O tocarem. 11 E os espíritos imundos, quando O viam, prostravam-se diante d'Ele e gritavam: «Tu és o Filho de Deus». 12 Mas Ele ordenava-lhes com severidade que não O manifestassem.

Comentário: 

Jesus Cristo quer que os que O seguem acreditem nele pelo que ouvem e vêm e não pelas “declarações” do demónio.

Jesus Cristo é a Verdade e esta não pode ser confirmada pelo “pai da mentira”.

(AMA, Comentário sobre Mc 3, 7-12, 2014.12.10)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

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Quererá V. Rev.a dizer como e porquê fundou o Opus Dei, e que acontecimentos considera marcos mais importantes do seu desenvolvimento?

Porquê?... As obras que nascem da vontade de Deus não têm outra razão de ser senão o desejo divino de as utilizar como expressão da sua vontade salvífica universal.

Desde o primeiro momento, a Obra foi universal, católica. Não nasceu para dar solução aos problemas concretos da Europa da década de 20, mas sim para dizer aos homens e mulheres de todos os países, de qualquer condição, raça, língua ou ambiente, e de qualquer estado - solteiros, casados, viúvos, sacerdotes -, que podiam amar e servir a Deus sem deixar de viver no seu trabalho habitual, com a sua família, nas suas variadas e normais relações sociais.

Como se fundou? Sem nenhum meio humano. Eu tinha apenas 26 anos, a graça de Deus e bom-humor. A Obra nasceu pequena: não era mais que o empenho dum jovem sacerdote, que se esforçava por fazer o que Deus lhe pedia.

Pergunta-me por marcos do nosso caminho... Para mim, é marco essencial na Obra qualquer momento, qualquer instante em que, através do Opus Dei, alguém se aproxima de Deus, tornando-se assim mais irmão dos homens seus irmãos.

Talvez quisesse que lhe falasse dos pontos cruciais, na ordem do tempo... Embora não sejam estes os mais importantes, vou-lhe dar, de memória, umas datas, mais ou menos aproximadas. Já nos primeiros meses de 1935, estava tudo preparado para começar a trabalhar em França - concretamente em Paris. Mas vieram, primeiro, a guerra civil espanhola e, logo a seguir, a segunda guerra mundial - e foi preciso adiar a expansão da Obra. Mas, como esse desenvolvimento era necessário, o adiamento foi mínimo. Já em 1940 se iniciava o trabalho em Portugal. Quase coincidindo com o fim das hostilidades, embora tivesse havido já algumas viagens em anos anteriores, começou-se na Inglaterra, em França, na Itália, nos Estados Unidos, no México. Depois, a expansão tem um ritmo progressivo. A partir de 1949 e 50: na Alemanha, Holanda, Suíça, Argentina, Canadá, Venezuela e nos restantes países europeus e americanos. Ao mesmo tempo, o trabalho ia-se alargando a outros continentes: o Norte de África, o Japão, o Quénia e outros países da África oriental, a Austrália, as Filipinas, a Nigéria, etc.

Também sinto prazer em recordar especialmente, como datas capitais, as constantes ocasiões em que de modo mais palpável se manifestou o carinho dos Sumos Pontífices pela nossa Obra. Resido normalmente em Roma desde 1946, e assim tive ocasião de conhecer e tratar com Pio XII, João XXIII e Paulo VI. Em todos encontrei sempre um carinho de pai.

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Estaria V. Rev. de acordo com a afirmação, alguma vez feita, de que o ambiente especial de Espanha durante os últimos trinta anos facilitou o crescimento da Obra nesse país?

Em poucos lugares encontramos menos facilidades do que em Espanha. É o país - custa-me dizê-lo, pois amo profundamente a minha pátria - em que deu mais trabalho e sofrimento fazer enraizar a Obra. Mal tinha nascido, logo encontrou a oposição dos inimigos da liberdade individual, e de pessoas tão aferradas às ideias tradicionais que não podiam compreender a vida dos sócios do Opus Dei: cidadãos vulgares, que se esforçam por viver plenamente a sua vocação cristã sem deixar o mundo.

Também as obras de apostolado da própria Obra não encontraram especiais facilidades em Espanha. Governos de países onde a maioria dos cidadãos não é católica ajudaram, com muito maior generosidade do que o Estado espanhol, as actividades docentes e beneficentes promovidas por membros da Obra. O auxílio que esses governos concedem ou possam conceder às obras próprias do Opus Dei, como é habitual com outras obras semelhantes, não significa privilégio, mas simplesmente o reconhecimento da função social que desempenham, poupando dinheiro ao Tesouro público.

Na sua expansão internacional, o espírito do Opus Dei encontrou imediato eco e profundo acolhimento em todos os países. Se encontrou obstáculos, foi exactamente por causa de falsidades vindas de Espanha e inventadas por espanhóis, por alguns sectores bem concretos da sociedade espanhola. Em primeiro lugar, a organização internacional de que há pouco lhe falei; mas isso parece certo que é coisa do passado, e eu não guardo rancor a ninguém. Depois, algumas pessoas que não compreendem o pluralismo, que adoptam atitudes de grupo, quando não caem em mentalidade estreita ou totalitária e que se servem do nome católico para fazer política. Alguns desses, não percebo porquê - talvez por falsos motivos humanos -, parecem achar um gosto especial em atacar o Opus Dei, e, como dispõem de grandes meios económicos, - o dinheiro dos contribuintes espanhóis -, os seus ataques podem ser publicados por certa imprensa.

Vejo bem que o meu amigo está à espera de me ouvir citar nomes concretos de pessoas e instituições... Não lhos vou dar, e espero que compreenda a razão. Nem a minha missão nem a da Obra são políticas: o meu ofício é rezar. E não quero dizer nada que possa interpretar-se sequer como uma intervenção em Política. Mais ainda, é-me doloroso falar destas coisas. Estive calado durante quase 40 anos, e, se agora digo alguma coisa, é porque tenho obrigação de denunciar como absolutamente falsas as interpretações torcidas que algumas pessoas pretendem dar de uma actividade que é exclusivamente espiritual. Por isso, se bem que até agora me tenha calado, daqui em diante falarei, e, se for necessário, cada vez com maior clareza.

Mas, voltando ao tema central da sua pergunta: se, também em Espanha, muitas pessoas de todas as classes sociais têm procurado seguir Cristo com a ajuda do Opus Dei e de acordo com o seu espírito, a explicação para isso não se pode ir buscar ao ambiente ou a outros motivos extrínsecos. A prova do que afirmo está em que aqueles que tão levianamente o pretendem vêem diminuir os seus próprios grupos; e as causas exteriores são as mesmas para todos. Humanamente falando, talvez seja também porque esses formam grupo, e nós não tiramos a liberdade pessoal a ninguém.

Se o Opus Dei está bem desenvolvido em Espanha - como também em algumas outras nações -, pode ser condição disso o facto de a nossa tarefa espiritual aí se haver iniciado há 40 anos, e, como lhe expliquei antes, a guerra civil espanhola e, em seguida, a guerra mundial tornarem necessário o adiamento do início da Obra noutros países. Quero declarar, no entanto, que desde há alguns anos, os espanhóis são uma minoria no Opus Dei.

Não pense, repito, que não amo a minha pátria, ou que não me alegro profundamente com o trabalho que a Obra nela realiza; mas é triste que haja quem propague equívocos acerca do Opus Dei e acerca de Espanha.

(cont)








[i] Entrevista realizada por Peter Forbarth, correspondente de Time (New York), em 15 de Abril de 1967.