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22/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual

Tempo Comum
Semana II

Evangelho: Mc 3, 13-19

13 Tendo subido a um monte, chamou a Si os que quis, e aproximaram-se d'Ele. 14 Escolheu doze para que andassem com Ele e para os enviar a pregar, 15 com poder de expulsar os demónios: 16 Simão, a quem pôs o nome de Pedro; 17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer “filhos do trovão”; 18 e André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19 e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou

Comentário:

A partir deste momento Jesus Cristo tem um núcleo coeso de doze homens que O acompanharão permanentemente. Foi sem dúvida uma escolha cujo critério não nos compete apreciar porque, como expressamente diz o Evangelista: «chamou a Si os que quis» e não devemos questionar ou sequer tentar entender a Vontade Suprema do Senhor.

Podemos, isso sim, constatar os “resultados” dessa escolha: a Igreja de Jesus Cristo foi construída e constituída para sempre sobre os ombros destes homens que não se pouparam a trabalhos, privações e dificuldades de toda a ordem, quase todos dando a própria vida cimentando com o seu sangue generoso essa Igreja que herdámos como Mãe, guia, refúgio e caminho seguro para a nossa salvação.

(ama, comentário sobre Mc 3, 13-19, Malta, 2015.01.23)


Leitura espiritual



Vida Cristã

O matrimónio: uma vocação e um caminho divino

Deram a volta ao mundo umas palavras do Papa Francisco, no encontro com as famílias que teve lugar em Manila:

“Não é possível uma família sem sonhar. Quando numa família se perde a capacidade de sonhar, de amar, essa energia de sonhar perde-se, por isso lhes recomendo que à noite, quando façam o exame de consciência, também se façam esta pergunta: hoje sonhei com o futuro dos meus filhos, hoje sonhei com o amor do meu esposo ou esposa, sonhei com a história dos meus avós?” [i].


Sonhar


Esta capacidade de sonhar tem a ver com a “ilusão” – no sentido castelhano do termo – que pomos nos nossos horizontes e esperanças, sobretudo na relação com as pessoas, ou seja, os bens ou êxitos que lhes desejamos, as esperanças que temos a seu respeito.
A capacidade de sonhar equivale à capacidade de projectar o sentido da nossa vida naqueles que amamos.
Por isso é, efectivamente, algo representativo de cada família.

Desde muito cedo, S. Josemaria contribuiu para recordar, no quadro dos ensinamentos da Igreja, que o matrimónio – gérmen da família – é, no pleno sentido da palavra, uma chamada específica à santidade dentro da comum vocação cristã: um caminho vocacional, diferente mas complementar ao do celibato – seja sacerdotal ou laical – ou para a vida religiosa.

“O amor, que conduz ao matrimónio e à família, pode também ser um caminho divino, vocacional, maravilhoso, via para uma completa dedicação ao nosso Deus” [ii].

Por outro lado, esta chamada de Deus no matrimónio não significa de modo algum diminuir os requisitos que supõe seguir Jesus.
Pois, se “tudo contribui para o bem dos que amam a Deus” [iii], os esposos cristãos encontram na vida matrimonial e familiar a matéria da sua santificação pessoal, quer dizer, da sua pessoal identificação com Jesus Cristo: sacrifícios e alegrias, gozos e renúncias, o trabalho no lar e fora dele, são os elementos com que, à luz da fé, constroem o edifício da Igreja.

Sonhar, para um cristão, com a esposa ou com o esposo, é olhá-lo com os olhos de Deus.
É contemplar, prolongado no tempo, a realização do projecto que o Senhor tem pensado e quer, para cada um, e para os dois na sua concreta relação matrimonial.
É desejar que esses planos divinos se façam realidade na família, nos filhos – se Deus os manda – nos avós e nos amigos que a providência vá colocando para os acompanhar na viagem da vida.
É, afinal, ver cada um o outro como o seu particular caminho para o Céu.


O segredo da família


Com efeito, Cristo fez do matrimónio um caminho divino de santidade, para encontrar Deus no meio das ocupações diárias, da família e do trabalho, para situar a amizade, as alegrias e as penas – porque não há cristianismo sem Cruz – e as mil pequenas coisas do lar ao nível eterno do amor.
Eis o segredo do matrimónio e da família.
Assim se antecipa a contemplação e o gozo do céu, onde encontraremos a felicidade completa e definitiva.

No quadro desse “caminho divino” de amor matrimonial, S. Josemaria falava do significado cristão, profundo e belo, da relação conjugal:

“Noutros sacramentos a matéria é o pão, é o vinho, é a água… Aqui são os vossos corpos. (…). Vejo o leito conjugal como um altar; está ali a matéria do sacramento” [iv].

A expressão altar não deixa de ser surpreendente e ao, mesmo tempo, é consequência lógica de uma leitura profunda do matrimónio, que tem na una caro [v] – a união completa dos corpos humanos, criados à imagem e semelhança de Deus – o seu núcleo.


"VEJO O LEITO CONJUGAL COMO UM ALTAR; ESTÁ ALI A MATÉRIA DO SACRAMENTO[vi]


Nesta perspectiva se entende que os esposos cristãos expressem, na linguagem da corporalidade, o próprio do sacramento do matrimónio: com a sua entrega mútua, louvam a Deus e dão-Lhe glória, anunciam e actualizam o amor entre Cristo e a Igreja, secundando a obra do Espírito Santo nos seus corações.
E daí vem, para os esposos, para a sua família e para o mundo, uma corrente de graça, de força e de vida divina que tudo rejuvenesce.

Isto requer uma preparação e uma formação contínua, uma luta positiva e constante:
“Os símbolos fortes do corpo têm as chaves da alma: não podemos tratar os laços da carne com ligeireza, sem abrir uma ferida duradoura no espírito” [vii].

O vínculo que surge a partir do consentimento matrimonial fica selado e é enriquecido pelas relações íntimas entre os esposos.
A graça de Deus que receberam desde o Baptismo, encontra um novo canal que não se justapõe ao amor humano, antes o assume.
O sacramento do matrimónio não supõe um acrescento externo ao matrimónio natural; a graça sacramental específica informa os cônjuges a partir de dentro e ajuda-os a viver a sua relação com exclusividade, fidelidade e fecundidade:

“É importante que os esposos adquiram o sentido claro da dignidade da sua vocação, que saibam que foram chamados por Deus a chegar ao amor divino também através do amor humano; que foram eleitos, desde a eternidade, para cooperar com o poder criador de Deus na procriação e depois na educação dos filhos; que o Senhor lhes pede que façam, do seu lar e da sua vida familiar inteira, um testemunho de todas as virtudes cristãs” [viii].

Os filhos são sempre o melhor “investimento”, e a família a “empresa” mais sólida, a maior e a mais fascinante aventura.

Todos contribuem com o seu papel, mas a novela resultante é muito mais interessante do que a soma das histórias singulares, porque Deus actua e faz maravilhas.

Daí a importância de saber compreender – os esposos entre si e os filhos – de aprender a pedir desculpa, de amar – como ensinava S. Josemaria – todos os defeitos mútuos, sempre que não sejam ofensa a Deus [ix].

“E, na vida dos cônjuges, quantas dificuldades se resolvem, se conservarmos um espaço para o sonho, se nos detivermos a pensar no cônjuge e sonharmos com a bondade, com as coisas boas que tem. Por isso, é muito importante recuperar o amor através do sonho de cada dia. Nunca deixeis de ser namorados!” [x].

Parafraseando o Papa, poder-se-ia acrescentar: que os esposos nunca deixem de se sentar para compartilhar e recordar os momentos belos e as dificuldades que atravessaram juntos, para considerar as circunstâncias que provocaram êxitos ou fracassos, ou para recobrar um pouco de alento, ou para que os dois pensem na educação dos filhos.


Fundamento do futuro da humanidade


A vida matrimonial e familiar não é instalar-se numa existência segura e cómoda, mas antes dedicar-se um ao outro e dedicar generosamente tempo aos restantes membros da família, começando pela educação dos filhos – o que inclui facilitar a aprendizagem das virtudes e a iniciação na vida cristã – para abrir-se continuamente aos amigos, a outras famílias e, especialmente, aos mais necessitados. Deste modo, mediante a coerência da fé vivida em família, se comunica a boa nova – o Evangelho – de que Cristo continua presente e nos convida a segui-lo.


CADA FILHO É, ANTES DE MAIS, UM FILHO DE DEUS ÚNICO E IRREPETÍVEL COM QUE DEUS SONHOU PRIMEIRO.


Jesus revela-se aos filhos através do pai e da mãe, pois para ambos, cada filho é, antes de tudo, um filho de Deus, único e irrepetível, com quem Deus foi o primeiro a sonhar.
Por isso, João Paulo II podia afirmar que “o futuro da humanidade se constrói na família” [xi].


As famílias que não puderam ter filhos


E qual o sentido que devem dar ao seu matrimónio os esposos cristãos que não tenham descendência?

A esta pergunta, S. Josemaria respondia que, antes de mais, deveriam pedir a Deus que os abençoe com filhos, se for essa a Sua Vontade, como abençoou os Patriarcas do Antigo Testamento; e depois que recorram a um bom médico.

“Se apesar de tudo, o Senhor não lhes dá filhos, não hão-de ver nisso nenhuma frustração: hão-de estar contentes, descobrindo nesse mesmo facto a Vontade de Deus para eles. Muitas vezes o Senhor não concede filhos porque pede mais. Pede que se tenha o mesmo esforço e a mesma delicada entrega, ajudando o próximo, sem a alegria humana de ter tido filhos: não há, pois, motivo para se sentirem fracassados nem para dar lugar à tristeza”.

E acrescentava:
"Se os esposos têm vida interior, compreenderão que Deus os urge, impulsionando-os a fazer da sua vida um serviço cristão generoso, um apostolado diverso do que realizariam nos seus filhos, mas igualmente maravilhoso. Que olhem à sua volta e descobrirão de imediato pessoas que necessitam de ajuda, caridade e carinho. Além disso, há muitos trabalhos apostólicos em que podem trabalhar. E se sabem pôr o coração nessa tarefa, se sabem dar-se generosamente aos outros, esquecendo-se de si próprios, terão uma fecundidade esplêndida, uma paternidade espiritual que encherá a sua alma de verdadeira paz" [xii].

Em todo caso, S. Josemaria gostava de se referir às famílias dos primeiros cristãos:

“Aquelas famílias que viveram de Cristo e que O deram a conhecer. Pequenas comunidades cristãs, que foram como centros de irradiação da mensagem evangélica. Lares iguais aos outros lares daqueles tempos, mas animados de um espírito novo, que contagiava quem os conhecia e os tratava. Isso foram os primeiros cristãos, e isso temos que ser os cristãos de hoje: semeadores de paz e de alegria, da paz e da alegria que Jesus nos trouxe” [xiii].

r. pellitero

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Papa Francisco, Discurso no Encontro com as famílias, Manila, Filipinas, 16-01-2015.
[ii] Cfr. S. Josemaria, Homilia “Amar o mundo apaixonadamente”, em Temas actuais do cristianismo, n. 121; cfr. “O matrimónio, vocação cristã”, em Amigos de Deus.
[iii] Ro 8, 28.
[iv] S. Josemaria, Apontamentos tomados de uma reunião familiar (1967), recolhido em Diccionario de San Josemaria, Burgos 2013, p. 490.
[v] Cf. Gn 2, 24; Mc 10, 8.
[vi] s. josemaria
[vii] Papa Francisco, Audiência geral, 27-05-2015.
[viii] S. Josemaria, Temas actuais do cristianismo, n. 93.
[ix] Cf. S. Josemaria, Apontamentos tomados de uma reunião familiar, 7-VII-1974.
[x] Papa Francisco, Discurso no Encontro com as famílias, Manila, Filipinas, 16-01-2015.
[xi] S. João Paulo II, Familiaris consortio, n. 86.
[xii] S. Josemaria, Temas actuais do cristianismo, n. 96.
[xiii] S. Josemaria, Cristo que passa, n. 30.

23/01/2015

Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum II Semana

Evangelho: Mc 3 13-19

13 Tendo subido a um monte, chamou a Si os que quis, e aproximaram-se d'Ele. 14 Escolheu doze para que andassem com Ele e para os enviar a pregar, 15 com poder de expulsar os demónios: 16 Simão, a quem pôs o nome de Pedro; 17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer “filhos do trovão”; 18 e André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19 e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou

Comentário:

É – sempre – Jesus Quem chama e chama aqueles que quer. E não sabemos bem porquê, qual o critério do Senhor para escolher este em lugar daquele.

Mas, a questão está mal colocada porque, na verdade, o Senhor chama todos, sem excepção. Sim… é verdade, chama todos os homens sem acepção alguma à santidade pessoal porque todos somos Seus filhos e, um Pai, quer a todos os filhos por igual sejam quais forem as suas virtudes, aptidões, defeitos ou limitações.

Como é que chama este Doze simples pescadores na sua maioria e não outros?
Porquê escolhe Paulo um perseguidor e carrasco de cristãos?
Será que não viu que Judas O haveria de vender por trinta moedas?
Não conhecia a fragilidade de Pedro que O negaria com juramento?

Claro que sim mas também sabia que o apurado sentido de justiça de Paulo o levaria por inauditos caminhos de apostolado!

Que a fragilidade de Pedro seria ultrapassada pelo seu amor ao Mestre e, por isso lhe entregaria as chaves do Reino e confiando-lhe a chefia da Sua Igreja!

Que a tragédia pessoal de Judas seria a consequência de não ser capaz de amar e, amando, converter-se e pedir perdão!

(ama, comentário sobre Mc 3, 13-19, 2014.01.24)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

34             

Algumas pessoas têm afirmado às vezes que o Opus Dei é organizado internamente segundo as normas das sociedades secretas. Que se deve pensar de tal afirmação? Poderia dar-nos, a propósito dista, uma ideia da mensagem que desejou dirigir aos homens do nosso tempo ao fundar a Obra em 1928?

Desde 1928 não tenho deixado de pregar que a santidade não está reservada a privilegiados, que todos os caminhos da Terra podem ser divinos, porque o cerne da espiritualidade específica do Opus Dei é a santificação do TRABALHO. É preciso acabar com o preconceito de que os fiéis correntes não podem senão limitar-se a ajudar o clero, em apostolados eclesiásticos; e fazer notar que, para alcançar esse fim sobrenatural, os homens têm necessidade de ser e de se sentir pessoalmente livres, com a liberdade que Jesus Cristo ganhou para nós. Para pregar e ensinar a praticar esta doutrina, nunca tive necessidade de segredo algum. Os membros da Obra detestam o segredo, porque são fiéis correntes, pessoas exactamente iguais às outras: ao entrarem para o Opus Dei não mudam de estado. Repugnar-lhes-ia trazer um letreiro nas costas que dissesse: “Reparem que estou dedicado ao serviço de Deus”. Isto não seria nem laical nem secular. Mas os conhecidos e amigos dos sócios do Opus Dei sabem que eles fazem parte da Obra, porque o não dissimulam, ainda que o não apregoem.

35             
Poderia traçar um rápido esquema da estrutura do Opus Dei à escala mundial e da sua articulação com o Conselho Geral a que preside em Roma?

O Conselho Geral tem o seu domicílio em Roma, independente para cada Secção: a de homens e a de mulheres (“Anuário Pontifício” de 1966, págs. 885 e 1226); e em cada país existe um organismo análogo, presidido pelo Conselheiro nessa nação [*]. Não pense numa organização poderosa, estendida capilarmente até ao último recanto do Mundo. Imagine antes uma organização desorganizada, pois o trabalho dos directores do Opus Dei destina-se principalmente a fazer com que chegue a todos os seus membros o espírito genuíno do Evangelho - espírito de caridade, de convivência, de compreensão, absolutamente alheio ao fanatismo - mediante uma sólida e adequada formação teológica e apostólica. Depois, cada um actua com inteira liberdade pessoal e, formando de modo autónomo a sua própria consciência, esforça-se por procurar a perfeição cristã e cristianizar o seu ambiente, santificando o seu próprio trabalho intelectual ou manual, em todas as circunstâncias da sua vida e no seu próprio lar.

Por outro lado, a direcção da Obra é sempre colegial. Detestamos a tirania, especialmente neste governo exclusivamente espiritual do Opus Dei. Amamos a pluralidade: o contrário não conduziria senão à ineficácia, a não fazer nem deixar fazer, a não progredir.

[*] Cfr. nota ao n.º 19. A erecção do Opus Dei como Prelatura pessoal reforçou juridicamente a unidade do Opus Dei, ficando muito claro que toda a Prelatura - homens e mulheres, sacerdotes e leigos, casados e solteiros - constitui uma unidade pastoral orgânica e indivisível, que realiza os seus apostolados por meio da Secção de varões e da Secção feminina, sob o governo e a direcção do Prelado que, ajudado pelos seus Vigários e pelos seus Conselhos, dá e assegura a unidade fundamental de espírito e de jurisdição entre as duas Secções.

36             
O ponto 484 do seu código religioso, Caminho, precisa: “Sê instrumento”. Que sentido se deve atribuir a esta afirmação dentro do contexto das perguntas precedentes?

Caminho, um código? Não! Escrevi em 1934 uma boa parte deste livro, resumindo para todas as almas que dirigia - do Opus Dei ou não - a minha experiência sacerdotal. Não suspeitei que trinta anos mais tarde alcançaria uma difusão tão ampla - milhões de exemplares - em tantas línguas. Não é um livro somente para os sócios do Opus Dei; é para todos, mesmo para os não cristãos. Caminho deve ser lido com um mínimo de espírito sobrenatural, de vida interior e de preocupação apostólica. Não é um código do homem de acção. Pretende ser um livro que leva a viver na intimidade de Deus e a amá-lo, e a servir todas as almas: a ser um instrumento - era esta a sua pergunta - como o Apóstolo Paulo queria sê-lo de Cristo. Instrumento livre e responsável; aqueles que querem ver nas suas páginas uma finalidade temporal, enganam-se. Não se esqueça que é corrente, nos autores espirituais de todos os tempos, considerar as almas como instrumentos nas mãos de Deus.

37             
A Espanha ocupa um lugar de preferência na Obra? Pode considerar-se como ponto de partida dum programa mais ambicioso, ou um simples sector de actividade entre muitos outros?

A Espanha não é senão um dos 65 países em que há sócios do Opus Dei, e os espanhóis são uma minoria. Geograficamente, o Opus Dei nasceu na Espanha; mas o seu fim é universal desde o princípio. De resto, eu resido em Roma há vinte anos.

38             
O facto de alguns membros da Obra estarem presentes na vida pública do país, não politizou, de certo modo, o Opus Dei em Espanha? Não comprometem, assim, a Obra e a própria Igreja?

Nem em Espanha, nem em nenhum outro sítio! Insisto em que os sócios do Opus Dei trabalham com plena liberdade e sob a sua responsabilidade pessoal, sem comprometer nem a Igreja nem a Obra, porque não se apoiam nem na Igreja nem na Obra para realizarem as suas actividades pessoais.

Pessoas formadas numa concepção militar do apostolado e da vida espiritual tenderão a ver no trabalho livre e responsável dos cristãos um modo de actuar colectivo. Mas digo-lhe, como não me tenho cansado de repetir desde 1928, que a diversidade de opiniões e de comportamentos no terreno temporal e no campo teológico opinável não constitui problema algum para a Obra: a diversidade que existe e existirá sempre entre os sócios do Opus Dei é, pelo contrário, uma manifestação de bom espírito, de vida honesta, de respeito pelas opiniões legítimas de cada um.

39             
Não lhe parece que em Espanha, e em virtude do particularismo inerente à raça ibérica, um certo sector da Obra poderia ser tentado a utilizar o seu poder para satisfazer interesses particulares?

Levanta uma hipótese que me atrevo a garantir que nunca se apresentará na nossa Obra, não só porque nos associamos exclusivamente para fins sobrenaturais, mas ainda porque, se alguma vez um membro do Opus Dei quisesse impor, directa ou indirectamente, um critério temporal aos outros, ou servir-se deles para fins humanos, seria expulso sem contemplações, porque os outros sócios se revoltariam legitimamente, santamente.

40             
Em Espanha, o Opus Dei orgulha-se de reunir pessoas de todas as classes sociais. Esta afirmação é válida também para o resto do Mundo, ou deve admitir-se que nos outros países os sócios do Opus Dei procedem antes de meios ilustrados, como os estados-maiores da Indústria, da Administração, da Política e das Profissões Liberais?

De facto, pertencem ao Opus Dei, tanto em Espanha como em todo o mundo, pessoas de todas as condições sociais: homens e mulheres, velhos e jovens, operários, industriais, empregados, camponeses, representantes das profissões liberais, etc. A vocação é Deus quem a dá e para Deus não há acepção de pessoas.

Mas o Opus Dei não se orgulha de coisa nenhuma: não e às forças humanas que as obras de apostolado devem o seu crescimento, é ao sopro do Espírito Santo. Numa associação com fins temporais, é lógico publicar estatísticas que ostentem o número, a condição e as qualidades dos sócios, e assim costumam fazer as organizações que buscam prestígio temporal; mas este modo de actuar, quando se procura a santificação das almas, favorece a soberba colectiva: ora Cristo quer a humildade para cada um dos cristãos e para todos os cristãos.

41             
Qual é a situação actual do desenvolvimento da Obra em França?

Corno lhe dizia, o governo da Obra em cada país é autónomo. A melhor informação sobre o trabalho do Opus Dei em França, pode obtê-la perguntando-o aos directores da Obra nesse país.

Entre as actividades que o Opus Dei realiza corporativamente e pelas quais responde como tal, há residências de estudantes - como a Résidence lnternationale de Rouvray, em Paris; a Résidence Universitaire de L'Ile-Verte, em Grenoble -, centros de reuniões e convívios - como o Centre de Rencontre de Couvrelles, no departamento de L'Aisne - etc. Mas recordo-lhe que as obras corporativas são o que menos importa; o trabalho principal do Opus Dei é o testemunho pessoal, directo, que os seus sócios dão no ambiente do seu trabalho. E para isso a enumeração não serve. Não pense no fantasma do segredo. Não! As aves que sulcam o céu não são segredo e a ninguém passa pela cabeça contá-las.

42             
Qual é a situação actual da Obra no resto do Mundo, especialmente no mundo anglo-saxónico?

O Opus Dei encontra-se tão à vontade na Inglaterra como no Quénia, na Nigéria, como no Japão, nos Estados Unidos como na Áustria, na Irlanda como no México ou na Argentina: em cada lugar é o mesmo fenómeno teológico e pastoral, enraizado nas almas do país. Não se baseia numa cultura determinada nem numa época concreta da História. No mundo anglo-saxónico, o Opus Dei tem, graças à ajuda de Deus e à colaboração de grande número de pessoas, obras apostólicas de diversas espécies: Netherhall House, em Londres, que presta especial atenção aos estudantes afro-asiáticos; Hudson Center, em Montreal, para a formação humana e intelectual de raparigas; Nairana Cultural Center, que se dirige aos estudantes de Sydney... Nos Estados Unidos, onde o Opus Dei começou a trabalhar em 1949, podem mencionar-se: Midtown, centro para operários num bairro do coração de Chicago; Stonecrest Community Center, em Washington, destinado à formação de mulheres que carecem de preparação profissional; Trimount House, residência universitária, em Boston, etc. Uma advertência: a influência da Obra, na medida em que exista em cada caso, será sempre espiritual e de carácter religioso, nunca temporal.

43             
Fontes diversas pretendem que uma inimizade profunda oporia a maior parte das ordens religiosas, e singularmente a Companhia de Jesus, ao Opus Dei. Estes boatos têm algum fundamento ou fazem parte desses mitos que o público alimenta quando não conhece bem algum assunto?

Embora não sejamos religiosos nem nos pareçamos com os religiosos - nem há autoridade no Mundo que nos possa obrigar a sê-lo - no Opus Dei veneramos e amamos o estado religioso. Todos os dias rezo para que todos os veneráveis religiosos continuem a oferecer à Igreja frutos de virtudes, de obras apostólicas e de santidade. Os boatos de que se falou são... boatos. O Opus Dei teve sempre a admiração e a simpatia de inúmeras ordens e congregações, particularmente dos religiosos e das religiosas de clausura, que rezam por nós, nos escrevem com frequência e dão a conhecer a nossa Obra de mil e uma maneiras, porque se dão conta da nossa vida de contemplação no meio dos afazeres da rua. O secretário geral do Opus Dei, Dr. Alvaro del Portillo, conhecia e estimava o anterior Geral da Companhia de Jesus. O actual Geral, o Padre Arrupe, conheço-o eu e estimo-o, e ele a mim. As incompreensões, se as houvesse, demonstrariam pouco espírito cristão, porque a nossa fé é de unidade, não de rivalidade e divisões.

44             
Qual é a posição da Obra acerca da declaração conciliar em favor da liberdade religiosa, e de modo especial acerca da sua aplicação em Espanha, onde o “projecto Castiella” continua suspenso? E que dizer desse famoso “integrismo” atribuído alguma vez ao Opus Dei?

lntegrismo? O Opus Dei não está à direita, nem à esquerda, nem ao centro. Pessoalmente, como sacerdote, procuro estar com Cristo, que na Cruz estendeu os dois braços, e não apenas um deles. - Tomo com liberdade, de cada grupo, aquilo que me convence, e que me torna o coração e os braços acolhedores para com toda a gente. Por sua vez, cada um dos sócios da Obra é libérrimo de fazer as opções que quiser, no âmbito da fé cristã.

Quanto à liberdade religiosa, o Opus Dei, desde a sua fundação, nunca fez discriminações: trabalha e convive com todos, porque vê, em cada um, uma alma que é preciso respeitar e amar. Não são meras palavras: a nossa Obra foi a primeira organização católica a admitir, com autorização da Santa Sé, como Cooperadores os não católicos, sejam ou não cristãos. Defendi sempre a liberdade das consciências. Não compreendo a violência: não me parece apta para convencer nem para vencer. O erro supera-se com a oração, com a graça de Deus, com o estudo; nunca com a força, sempre com a caridade. Compreenderá que, sendo este o espírito que temos vivido desde o princípio, só me podem ter causado alegria os ensinamentos que o Concílio promulgou sobre este tema. Acerca do projecto concreto a que se refere, não é questão da minha competência, mas da hierarquia da Igreja em Espanha e dos católicos desse país, aplicando ao caso concreto o espírito do Concílio.

(cont)








[i] Entrevista realizada por Jacques-Guillemé-Brûlon, publicada em Le Figaro (Paris) em 16 de Maio de 1966.