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13/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Cinzas



Evangelho: Lc 5, 27-32

27 Depois disto, Jesus saiu, e viu sentado no banco de cobrança um publicano, chamado Levi, e disse-lhe: «Segue-Me». 28 Ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29 E Levi ofereceu-Lhe um grande banquete em sua casa, e havia grande número de publicanos e outros, que estavam à mesa com eles. 30 Os fariseus e os seus escribas murmuravam dizendo aos discípulos de Jesus: «Porque comeis e bebeis com os publicanos e os pecadores?». 31 Jesus respondeu-lhes: «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os doentes. 32 Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência».

Comentário:

A chamada que o Senhor faz a cada pessoa é sempre directa e simples com esta feita a Mateus?

Temos de convir que não!

Muitas vezes esse chamamento vem na sequência de algum acontecimento marcante como se fosse uma indicação do caminho a seguir.

O que importa  verdadeiramente é que a nossa resposta seja simples e célere com a de Mateus porque o tempo é sempre escasso e deve urgir-nos essa ânsia de seguir Cristo sem demora.

(ama, comentário sobre Lc 5 27-32, Carvide, 2015-02-21)


Leitura espiritual



ABRAÃO, NOSSO PAI NA FÉ


O livro do Génesis narra a vida de Abraão a partir do momento em que o Senhor se cruzou no seu caminho e transformou a radicalmente a sua existência. Embora o escritor sagrado não pretenda oferecer uma biografia detalhada, apresenta-nos numerosos episódios que põem em evidência a profunda fé do santo patriarca e o modo como ele deixa Deus agir na sua vida.

Com efeito, são lhe prometidas uma terra e uma descendência numerosa, mas Abraão deverá iniciar um caminho:
Sai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar. Eu farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei; tornarei famoso o teu nome, de modo que se tornará uma bênção [i]. Tempo depois, o próprio Deus mudar-lhe-á o nome – e já não te chamarás Abrão, mas o teu nome será Abraão [ii] – para indicar que lhe conferiu «una personalidade nova e uma nova missão, que ficam refletidas no significado do novo nome: “pai de multidões"» [iii]. Manifesta-se assim que toda a singularidade do patriarca depende da aliança com Deus e está ao serviço desta.

Abraão escuta a voz de Deus e põe-na em prática, sem prestar demasiada atenção ao que as circunstâncias lhe podiam aconselhar. Porquê abandonar a segurança da sua pátria, esperar uma descendência quando, quer ele quer a sua mulher, são de idade avançada?
Mas Abraão confia em Deus, na sua omnipotência, na sua sabedoria e na sua bondade. O episódio de Sodoma e Gomorra [iv] mostra, além da gravidade do pecado que ofende a Deus e destrói o homem, a familiaridade que Abraão tem com o seu Senhor. Deus não lhe oculta o que está por fazer e acolhe a oração de intercessão do santo patriarca. A resposta de fé apoia-se na confiança, ou seja, num trato pessoal com Deus.



O conhecimento das coisas, o sentir comum, a experiência, os meios humanos têm a sua importância, mas se tudo ficasse por aí, “numa ordem natural", a nossa perceção da realidade seria falsa por ser incompleta, porque o nosso Pai Deus não se desinteressa de nós nem o seu poder minguou. Assim o expressava São Josemaría Escrivá de Balaguer:

Nos empreendimentos de apostolado, está certo - é um dever - que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 = 4). Mas não esqueças - nunca! - que tens de contar, felizmente, com outra parcela: Deus + 2 + 2... [v].

As dificuldades habituais, por muito adversas que pareçam, nunca são a última palavra. Deus é fiel e cumpre sempre as suas promessas. Abraão actua de acordo com esta lógica. O valor exemplar da fé de Abraão compendia-se em três traços fundamentais: a obediência, a confiança e a fidelidade.

Na obediência da fé

Abraão manifesta a sua própria fé principalmente obedecendo a Deus. A obediência pressupõe a escuta, pois é necessário, em primeiro lugar, “prestar atenção", quer dizer, conhecer a vontade de outro para lhe dar resposta e cumpri-la. Na Sagrada Escritura obedecer não é apenas “cumprir" mecanicamente o mandado: implica uma atitude ativa, que põe em jogo a inteligência diante de Deus que se revela, e que conduz a pessoa a aderir à vontade divina com todas as forças e capacidades.

«Quando Deus o chama, Abraão parte "como lhe tinha dito o Senhor" [vi]: todo o seu coração se submete à Palavra e obedece» [vii].

A obediência que provém da fé vai muito para além da simples disciplina: pressupõe a aceitação livre e pessoal da Palavra de Deus. Assim ocorre também em muitos momentos da nossa vida quando podemos acolher essa Palavra ou recusá-la, deixando que as nossas ideias prevaleçam sobre o que Ele quer. A obediência da fé é a resposta ao convite de Deus ao homem para caminhar junto d'Ele, a viver em amizade com Ele.
«Obedecer ("ob-audire") na fé, é submeter-se livremente à palavra escutada, porque a sua verdade é garantida por Deus, a própria Verdade. Abraão é o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe desta obediência. A Virgem Maria é a realização mais perfeita da mesma» [viii].

Com confiança e abandono em Deus

Quando consideramos a vida de Abraão, vemos que a fé está presente em toda a sua existência, manifestando-se especialmente nos momentos de obscuridade, em que as certezas humanas falham. A fé implica sempre uma certa obscuridade, um viver no mistério, sabendo que nunca se chegará a atingir uma perfeita explicação, uma perfeita compreensão, pois o contrário já não seria fé. Como diz o autor da carta aos Hebreus, a fé é fundamento das coisas que se esperam, prova das que se não vêm [ix].
A falta de certeza da fé é superada pela confiança do crente em Deus; pela fé, o patriarca põe-se a caminho sem saber onde vai, mas essa é apenas a primeira ocasião em que deverá pôr em jogo esta virtude. Porque, como recorda o Catecismo da Igreja Católica, é necessário confiar muito em Deus para viver «como estrangeiro e peregrino na Terra prometida» [x], e para enfrentar o sacrifício do filho: Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, a quem amas, e vai para a região de Moriá e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que Eu vou indicar [xi].



A fé de Abraão manifesta-se em toda a sua grandeza quando se dispõe a renunciar ao seu filho Isaac. O sacrifício do próprio filho é profecia da entrega de Jesus Cristo para a salvação do mundo. É algo tão tremendo que dispensa comentários. Mas Abraão não se revolta contra Deus, não o questiona nem o põe em dúvida: fia-se d'Ele. Põe-se a caminho, continua atento a escutar a voz do Senhor e, no final da viagem ao monte Moriá, descobre que não quer o sangue de Isaac: E Deus disse-lhe: – Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus pois não me recusaste o teu filho, o teu filho único. (…). E Abraão deu a esse lugar o nome "Javé providenciará"! Assim ainda hoje se costuma dizer: "Sobre a montanha, Javé providenciará" [xii].

Acontecimentos similares costumam suceder na vida dos santos. Recordemos, por exemplo, quando o nosso Padre pensou que o Senhor lhe estava a pedir para deixar o Opus Dei para poder realizar uma nova fundação, dirigida aos sacerdotes diocesanos. Que grande sacrifício! De facto, depois de falar com várias pessoas na Santa Sé, chegou mesmo a comunicar a sua decisão a D. Álvaro, à Tia Carmen, ao Tio Santiago, aos membros do Conselho Geral e a mais alguns. Mas Deus não o quis assim, e livrou-me, com a sua mão misericordiosa – carinhosa – de Pai, do sacrifício bem grande que me dispunha a fazer de deixar o Opus Dei. Tinha dado conhecimento oficiosamente da minha decisão à Santa Sé (...), mas vi depois com clareza que não era necessária essa nova fundação, essa nova associação, posto que os sacerdotes diocesanos cabiam perfeitamente dentro da Obra [xiii].
Como Abraão tinha sido libertado, São Josemaria também foi, pois o Senhor fez-lhe entender que os sacerdotes diocesanos podiam fazer parte do Opus Dei e ser admitidos como sócios da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, sem que isso afetasse a sua situação na diocese; mais ainda, fortalecendo-se, assim, a sua união com o resto do clero e com o seu Bispo.

Fé que é fidelidade

A fé de Abraão manifesta-se também como fidelidade: perante os diversos acontecimentos persevera na sua decisão de seguir a vontade de Deus. A fé apoia-se na palavra de Deus e, por isso, dá lugar a decisões tomadas em profundidade, que não estão submetidas a posteriores “revisões" ou “re-pensamentos". Mantenhamos firme a confissão da esperança, porque fiel é o que fez a promessa [xiv].

Na nossa vida, sempre haverá momentos que nos servirão – com a graça de Deus – para fortalecer e consolidar a nossa fé. Abraão foi submetido a uma prova tremenda: viu-se na situação de ter que sacrificar aquele que era fruto da promessa que lhe tinha sido feito. O santo patriarca não só teve que enfrentar circunstâncias difíceis, mas ainda esperou contra toda a esperança [xv], porque as circunstâncias convidavam a “julgar" a vontade divina, a duvidar do próprio Deus e da sua fidelidade. Nisto radica a tentação que se apresentou a Abraão.

Também nós nos podemos encontrar, por vezes, com situações onde intuímos que o Senhor espera algo que talvez nos contrarie: um passo em frente na vida cristã, a renúncia a um modo de fazer ou mesmo a uma maneira de ser, talvez profundamente arraigada, mas que talvez não favoreça a fecundidade do apostolado. Pode surgir o impulso de silenciar essa inquietação, identificando aquilo que nos agradaria com o que deveria ser a vontade divina: «A tentação de deixar Deus de lado para nos pormos nós próprios no centro está sempre à espreita» [xvi].


Abraão não age assim: vai para o monte Moriá, com um grande conflito interior, mas convencido de que antes ou depois Deus providenciará [xvii].
E Deus, que está empenhado em fazer-se entender, no final providencia. Para que se fizesse luz, Abraão teve que percorrer o caminho completo, teve que pôr-se em marcha e chegar até ao fim.
Também nós, se procuramos secundar em todo o momento a vontade divina, descobriremos que, apesar das nossas limitações, Deus dá eficácia à nossa vida.
Saberemos e sentiremos que Deus nos ama e não teremos medo de O amar: «a fé professa-se com a boca e com o coração, com a palavra e com o amor» [xviii].

J. Yániz





[i] Gn12, 1-2.
[ii] Gn17, 5.
[iii] Bíblia de Navarra (tomo I, 1997), comentário a Gn17, 5.
[iv] Cfr. Gn18-19.
[v] S. Josemaria, Caminho, n. 471.
[vi] Gn12, 4
[vii] Catecismo da Igreja Católica, n. 2570.
[viii] Catecismo da Igreja Católica, n. 144.
[ix] Hb11, 1.
[x] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 145.
[xi] Gn22, 2.
[xii] Gn22, 12-14.
[xiii] S. Josemaria, Carta 24-XII-1951, n. 3, em A. Vázquez de Prada, El fundador del Opus Dei, vol. 3, Rialp, Madrid 2003, p. 171.
[xiv] Hb10, 23.
[xv] Cfr. Rm4, 18.
[xvi] Francisco, Audiência geral, 10-IV-2013.
[xvii] Gn22, 8.
[xviii] Francisco, Audiência geral, 3-IV-2013.

31/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum
Semana IV

Evangelho: Lc 4, 21-30

21 Começou a dizer-lhes: «Hoje cumpriu-se este passo da Escritura que acabais de ouvir». 22 E todos davam testemunho em Seu favor, e admiravam-se das palavras de graça que saíam da Sua boca, e diziam: «Não é este o filho de José?». 23 Então disse-lhes: «Sem dúvida que vós Me aplicareis este provérbio: “Médico, cura-te a ti mesmo”. Todas aquelas grandes coisas que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, fá-las também aqui na Tua terra». 24 Depois acrescentou: «Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. 25 Em verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando foi fechado o céu durante três anos e seis meses e houve uma grande fome por toda a terra; 26 e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma mulher viúva de Sarepta, do território de Sidónia. 27 Muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu; e nenhum deles foi curado, senão o sírio Naaman». 28 Todos os que estavam na sinagoga, ouvindo isto, encheram-se de ira. 29 Levantaram-se, lançaram-n'O fora da cidade, e conduziram-n'O até ao cume do monte sobre o qual estava edificada a cidade, para O precipitarem. 30 Mas, passando no meio deles, retirou-Se

Comentário:

Há algo de misterioso neste acontecimento que São Lucas relata: Jesus, passa pelo meio deles e afasta-se!

Como é possível que a multidão que O comprime e O arrasta para o precipitar do alto da colina tenha deixado, de repente, de O ver!

Há, de facto, um milagre que se regista e, o mais importante a reter é considerar que Cristo só Se deixa ver por aqueles que, de alguma forma, “merecem” vê-lo e, mesmo assim, é Ele quem decide quem O vê e a quem está vedado vê-lo.

Porquê?
Perguntemos ao nosso próprio coração porque queremos ver Jesus; para O adorar e, depois seguir ou, por curiosidade insatisfeita, ou, ainda, porque desejamos confirmar com os olhos o que o nosso íntimo nos garante?
Ver Jesus!
Deveria ser a vontade de toda a criatura e a sua certeza.

Vultum tuum, Domine, requiram!
Quero ver a Tua Face, Senhor!

E hei-de vê-la, mais tarde, quando Tu assim o determinares e ficar para sempre na Sua contemplação eterna.

(ama, Comentário a Lc 4, 24-30, 2013.03.04)

Leitura espiritual



Vida cristã

Uma personalidade que se identifique com Cristo

Por que reajo deste modo?
Por que sou assim?
Sou capaz de mudar?

São algumas das perguntas que alguma vez podem assaltar-nos.
Às vezes, consideramo-las em relação aos outros: por que tem aquele modo de ser?...

Vamos reflectir sobre estas questões, olhando para o nosso objectivo: ser cada vez mais parecidos com Jesus Cristo, deixando-o actuar na nossa vida.

Este processo abarca todas as dimensões da pessoa, que ao divinizar-se conserva as características autenticamente humanas, elevando-as com a vocação cristã.
Porque Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: perfectus Deus, perfectus homo.

Nele contemplamos a figura acabada do ser humano, pois «Cristo Redentor (...) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade» [i].

A nova vida que recebemos no Baptismo está chamada a crescer até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura de Cristo na sua plenitude [ii].

O divino, o sobrenatural, é o elemento decisivo na santidade pessoal, que une e harmoniza todas as facetas do homem, mas não podemos esquecer que isto inclui, como algo intrínseco e necessário, o elemento humano:
Se aceitamos a nossa responsabilidade de filhos de Deus, devemos ter em conta que Ele nos quer muito humanos.
Que a cabeça toque o céu, mas os pés assentem com toda a firmeza na terra.
O preço de vivermos cristãmente não é nem deixarmos de ser homens nem abdicarmos do esforço por adquirir as virtudes que alguns têm, mesmo sem conhecerem Cristo.
O preço de cada cristão é o Sangue redentor de Nosso Senhor, que nos quer ‒ insisto ‒ muito humanos e muito divinos, diariamente empenhados em imitá-lo, pois Ele é “perfectus Deus, perfectus homo[iii].

A tarefa de formar o carácter


A acção da graça nas almas está unida ao crescimento da maturidade humana, ao aperfeiçoamento do carácter.
Por isso, ao mesmo tempo que cultiva as virtudes sobrenaturais, um cristão que busca a santidade procurará alcançar os hábitos, os modos de fazer e de pensar que caracterizam uma pessoa madura e equilibrada.
O fim das suas acções será reflectir a vida de Cristo, e não um simples empenho de perfeição.
Por isso, S. Josemaria animava a fazer exame de consciência:

Filho, onde está o Cristo que as almas procuram em ti?: na tua soberba?, nos teus desejos de te impores aos outros?, nessas insignificâncias de carácter nas quais não te queres vencer?, nessa teimosia?... Está aí Cristo? ‒ Não!! A resposta dá-nos uma chave para empreender esta tarefa: ‒ De acordo: deves ter personalidade, mas a tua tem de procurar identificar-se com Cristo! [iv].

Na própria personalidade influi:
Tanto aquilo que se herda e se manifesta desde o nascimento, que se costuma chamar temperamento;
Como os aspectos que se vão adquirindo pela educação, as decisões pessoais, o trato com os outros e o trato com Deus, e muitos outros factores, que inclusive podem ser inconscientes.

Assim, existem diferentes tipos de personalidades ou carácter ‒ extrovertidos ou tímidos, impulsivos ou reservados, despreocupados ou apreensivos, etc. ‒, que se manifestam no modo de trabalhar, de se relacionar com os outros, de considerar os acontecimentos diários.


Estes elementos têm influência na vida moral, pois facilitam o desenvolvimento de certas virtudes, mas também podem facilitar o aparecimento de defeitos, se faltar o empenho em moldá-los.
Por exemplo, uma personalidade empreendedora pode ajudar a cultivar a laboriosidade, se simultaneamente se viver uma disciplina que evite o defeito da inconstância e do activismo.

Deus conta com a nossa personalidade para nos levar por caminhos de santidade.
O modo de ser de cada um é como uma terra fértil que precisa de ser cultivada: basta tirar, com paciência e alegria, as pedras e as ervas daninhas que impedem a acção da graça, e começará a dar frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um [v]

Cada um pode fazer render os talentos que recebeu das mãos de Deus, se se deixar transformar pela acção do Espírito Santo.
Forjando uma personalidade que possa reflectir o rosto de Cristo, sem que isto anule nenhuma das suas próprias características, pois diferentes são os santos do Céu, que têm cada um as suas notas pessoais e especialíssimas [vi].

Temos de reforçar e aperfeiçoar a personalidade para a ajustar a um estilo cristão, mas não se pode pensar que o ideal seria converter-se numa espécie de “super-homem”.
Na verdade, o modelo é sempre Jesus Cristo, que possui uma natureza humana igual à nossa, mas perfeita na sua normalidade e elevada pela graça.

Naturalmente, encontramos um exemplo sublime também na Virgem Maria: nela dá-se a plenitude do humano... e da normalidade.
A proverbial humildade e simplicidade de Maria, talvez as suas virtudes mais valorizadas em toda a tradição cristã, unidas à proximidade, ao afecto e à ternura com todos os seus filhos ‒ que são virtudes de uma boa mãe de família ‒, são a melhor confirmação deste facto:
a perfeição de uma criatura ‒ Mais que tu, só Deus! [vii] ‒ tão plenamente humana, tão encantadoramente mulher, a Senhora por excelência!


Maturidade humana e sobrenatural


A palavra “maturidade” significa em primeiro lugar estar maduro, pronto, e por extensão refere-se à plenitude do ser.
Implica também o cumprimento do próprio fim.
Por isso, na vida do Senhor encontraremos o melhor paradigma.
Contemplá-la nos Evangelhos e ver como Cristo trata as pessoas, ver a sua fortaleza diante do sofrimento, a decisão com que empreendeu a missão recebida do Pai, tudo isso nos dá o critério da maturidade.

Ao mesmo tempo, a nossa fé incorpora todos os valores nobres que se encontram nas diversas culturas, e por isso também é útil assimilar, purificando-os, os critérios clássicos de maturidade humana.
É algo que se fez ao longo da história da espiritualidade cristã, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos explícita.

O mundo clássico greco-romano, por exemplo (que foi tão sabiamente cristianizado pelos Padres da Igreja), colocou no centro do ideal da maturidade humana especialmente a “sabedoria” e a “prudência”, entendidas com diversos matizes.
Os filósofos e teólogos cristãos daquela época enriqueceram esta conceção indicando a primazia das virtudes teologais, de modo especial a caridade, como vínculo da perfeição [viii] ‒ usando palavras de S. Paulo ‒ e que dá forma a todas as virtudes.

Actualmente, o estudo sobre a maturidade humana completou-se com as perspetivas oferecidas pelas ciências modernas.
As suas conclusões são úteis na medida em que partirem de uma visão do homem aberta à mensagem cristã.

Assim, alguns costumam distinguir três campos fundamentais na maturidade: intelectual, afectiva e social.

Alguns dos traços significativos da maturidade intelectual podem ser:

Um adequado conceito de si mesmo a congruência entre aquilo que uma pessoa pensa que é, e aquilo que realmente é;
A sinceridade consigo mesmo influi decisivamente;
Uma filosofia correcta da vida; definir pessoalmente metas e fins claros, mas com horizontes abertos e ilimitados (em amplitude, profundidade e intensidade);
Um conjunto harmonioso de valores;
Uma clara certeza ético-moral;
Um realismo sadio diante do mundo próprio e alheio;
A capacidade de reflexão e análise serena dos problemas;
A criatividade e a iniciativa;
Etc.

Entre os traços da maturidade afectiva, sem nenhuma pretensão de exaustividade, podem apontar-se:

Saber reagir proporcionadamente diante dos acontecimentos da vida, sem se deixar abater pelo fracasso nem perder o realismo no sucesso;
Ter uma capacidade de controlo flexível e construtivo de si mesmo; Saber amar, ser generoso e dar-se aos outros;
Manifestar segurança e firmeza nas decisões e compromissos;
Actuar com serenidade e capacidade de superação perante os desafios e as dificuldades;
O optimismo, a alegria, a simpatia e o bom humor.



Finalmente, como parte da maturidade social encontramos:

O afecto sincero pelos outros, o respeito pelos seus direitos e o desejo de descobrir e aliviar as suas necessidades;
A compreensão da diversidade de opiniões, valores ou traços culturais, sem preconceitos;
A capacidade de crítica e independência perante a cultura dominante, o ambiente, os grupos de pressão ou as modas;
Uma naturalidade no comportamento que leva a actuar sem convencionalismos;
Ser capaz de ouvir e compreender;
A disposição para colaborar com outros.


Um caminho para a maturidade


Poderíamos resumir aquelas características dizendo que a pessoa madura é capaz de desenvolver um projecto elevado, claro e harmonioso da sua vida, e possui as disposições positivas necessárias para o realizar com facilidade.

Em qualquer caso, a maturidade é um processo que requer tempo, e passa por diferentes momentos e etapas.
Costumamos crescer de uma maneira gradual, embora na história pessoal possa haver acontecimentos que levam a dar grandes saltos. Para alguns por exemplo:
O nascimento do primeiro filho marca uma etapa, ao perceberem o que implica esta nova responsabilidade;
Ou, depois de passar por sérias dificuldades económicas, uma pessoa pode aprender a reconsiderar quais são as coisas verdadeiramente importantes na vida;
Etc.

No caminho para a maturidade a força transformadora da graça torna-se presente.
Basta um olhar sobre a vida das santas e dos santos mais conhecidos para detectar neles os ideais elevados, a certeza das suas convicções, a humildade – que é o conceito mais adequado sobre si mesmo –, a sua criatividade e iniciativa, a sua capacidade de entrega e amor realizados, o seu optimismo contagioso, a sua abertura – o seu empenho apostólico, em última análise ‒ eficaz e universal.

Podemos encontrar um exemplo claro na vida de S. Josemaria que desde a juventude notava que a graça trabalhava nele consolidando uma personalidade madura.
Percebia dentro de si mesmo, no meio das dificuldades, uma estabilidade de ânimo fora do comum:

Creio que o Senhor pôs na minha alma outra característica: a paz: ter a paz e dar a paz, como vejo acontecer em pessoas com quem me relaciono ou que dirijo [ix].
Podiam ser aplicadas a ele, com toda justiça, aquelas palavras do salmo: Super senes intellexi quia mandata tua quaesivi [x], sou mais sensato do que os anciãos, porque observo os vossos preceitos.

O que não exclui que, muitas vezes, se adquira a maturidade com o tempo, os fracassos e os sucessos, que estão previstos pela Providência Divina.

Contar com a graça e o tempo


Embora seja possível verificar que, num dado momento uma pessoa atingiu uma nova etapa de maturidade na sua vida, trabalhar o próprio modo de ser é uma tarefa que se prolonga durante a nossa caminhada terrena.

O conhecimento próprio e a aceitação do próprio carácter darão paz para não desanimar neste empenho.
Isto não significa ceder ao conformismo.
Significa reconhecer que o heroísmo da santidade não exige possuir uma personalidade perfeita agora, nem aspirar a um modo de ser idealizado, pois a santidade requer a luta paciente de cada dia, sabendo reconhecer os erros e pedir perdão.

As verdadeiras biografias dos heróis cristãos são como as nossas vidas: lutavam e ganhavam, lutavam e perdiam.
E então, contritos, voltavam à luta [xi].

O Senhor conta com o esforço constante ao longo do tempo para aperfeiçoar o próprio modo de ser.
É significativo, por exemplo, aquilo que uma pessoa comentava sobre a serva de Deus Dora del Hoyo já no final da sua vida:

«“Dora, quem te viu e quem te vê! Olha que és outra!” Riu-se: Sabia muito bem a que me referia» [xii].
Tinha verificado como, com os anos, o seu carácter tinha atingido uma estabilidade de ânimo que conseguia moderar as reacções do seu génio.

Neste empreendimento contamos sempre com a ajuda do Senhor e os cuidados maternos de Santa Maria:

«Nossa Senhora realiza precisamente isto em nós, ajuda-nos a crescer humanamente e na fé, a ser fortes e a não ceder à tentação de ser homens e cristãos de modo superficial, mas a viver com responsabilidade, a tender sempre cada vez mais para o alto» [xiii].


Forjar uma personalidade capaz de reflectir claramente a imagem de Jesus Cristo é um grande desafio!

j. sesé

(Revisão da versão poruguesa por ama)





[i] S. João Paulo II, Enc. Redemptor Hominis, n. 10.
[ii] Ef 4, 13.
[iii] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 75.
[iv] S. Josemaria, Forja, n. 468.
[v] Mt 13, 8.
[vi] S. Josemaria, Caminho, n. 947.
[vii] S. Josemaria, Caminho, n. 496.
[viii] Cl 3, 14.
[ix] S. Josemaria, Apontamentos íntimos, n. 1095, citado em Andrés Vázquez de Prada, Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei, vol. I, Editorial Verbo 2002, p. 507.
[x] Sl 118 (Vg).
[xi] S. Josemaria, Cristo que passa, n. 76.
[xii] Lembranças de Rosalía López Martínez, Roma 29-IX-2006 (AGP, DHA, T-1058), citado em Javier Medina Bayo, Dora del Hoyo, uma luz humilde e resplandecente, Quadrante, São Paulo 2012, p. 102.
[xiii] Papa Francisco, Palavras após a oração do terço na basílica de Santa Maria Maior, 6-V-2013.