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13/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Cinzas



Evangelho: Lc 5, 27-32

27 Depois disto, Jesus saiu, e viu sentado no banco de cobrança um publicano, chamado Levi, e disse-lhe: «Segue-Me». 28 Ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29 E Levi ofereceu-Lhe um grande banquete em sua casa, e havia grande número de publicanos e outros, que estavam à mesa com eles. 30 Os fariseus e os seus escribas murmuravam dizendo aos discípulos de Jesus: «Porque comeis e bebeis com os publicanos e os pecadores?». 31 Jesus respondeu-lhes: «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os doentes. 32 Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência».

Comentário:

A chamada que o Senhor faz a cada pessoa é sempre directa e simples com esta feita a Mateus?

Temos de convir que não!

Muitas vezes esse chamamento vem na sequência de algum acontecimento marcante como se fosse uma indicação do caminho a seguir.

O que importa  verdadeiramente é que a nossa resposta seja simples e célere com a de Mateus porque o tempo é sempre escasso e deve urgir-nos essa ânsia de seguir Cristo sem demora.

(ama, comentário sobre Lc 5 27-32, Carvide, 2015-02-21)


Leitura espiritual



ABRAÃO, NOSSO PAI NA FÉ


O livro do Génesis narra a vida de Abraão a partir do momento em que o Senhor se cruzou no seu caminho e transformou a radicalmente a sua existência. Embora o escritor sagrado não pretenda oferecer uma biografia detalhada, apresenta-nos numerosos episódios que põem em evidência a profunda fé do santo patriarca e o modo como ele deixa Deus agir na sua vida.

Com efeito, são lhe prometidas uma terra e uma descendência numerosa, mas Abraão deverá iniciar um caminho:
Sai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar. Eu farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei; tornarei famoso o teu nome, de modo que se tornará uma bênção [i]. Tempo depois, o próprio Deus mudar-lhe-á o nome – e já não te chamarás Abrão, mas o teu nome será Abraão [ii] – para indicar que lhe conferiu «una personalidade nova e uma nova missão, que ficam refletidas no significado do novo nome: “pai de multidões"» [iii]. Manifesta-se assim que toda a singularidade do patriarca depende da aliança com Deus e está ao serviço desta.

Abraão escuta a voz de Deus e põe-na em prática, sem prestar demasiada atenção ao que as circunstâncias lhe podiam aconselhar. Porquê abandonar a segurança da sua pátria, esperar uma descendência quando, quer ele quer a sua mulher, são de idade avançada?
Mas Abraão confia em Deus, na sua omnipotência, na sua sabedoria e na sua bondade. O episódio de Sodoma e Gomorra [iv] mostra, além da gravidade do pecado que ofende a Deus e destrói o homem, a familiaridade que Abraão tem com o seu Senhor. Deus não lhe oculta o que está por fazer e acolhe a oração de intercessão do santo patriarca. A resposta de fé apoia-se na confiança, ou seja, num trato pessoal com Deus.



O conhecimento das coisas, o sentir comum, a experiência, os meios humanos têm a sua importância, mas se tudo ficasse por aí, “numa ordem natural", a nossa perceção da realidade seria falsa por ser incompleta, porque o nosso Pai Deus não se desinteressa de nós nem o seu poder minguou. Assim o expressava São Josemaría Escrivá de Balaguer:

Nos empreendimentos de apostolado, está certo - é um dever - que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 = 4). Mas não esqueças - nunca! - que tens de contar, felizmente, com outra parcela: Deus + 2 + 2... [v].

As dificuldades habituais, por muito adversas que pareçam, nunca são a última palavra. Deus é fiel e cumpre sempre as suas promessas. Abraão actua de acordo com esta lógica. O valor exemplar da fé de Abraão compendia-se em três traços fundamentais: a obediência, a confiança e a fidelidade.

Na obediência da fé

Abraão manifesta a sua própria fé principalmente obedecendo a Deus. A obediência pressupõe a escuta, pois é necessário, em primeiro lugar, “prestar atenção", quer dizer, conhecer a vontade de outro para lhe dar resposta e cumpri-la. Na Sagrada Escritura obedecer não é apenas “cumprir" mecanicamente o mandado: implica uma atitude ativa, que põe em jogo a inteligência diante de Deus que se revela, e que conduz a pessoa a aderir à vontade divina com todas as forças e capacidades.

«Quando Deus o chama, Abraão parte "como lhe tinha dito o Senhor" [vi]: todo o seu coração se submete à Palavra e obedece» [vii].

A obediência que provém da fé vai muito para além da simples disciplina: pressupõe a aceitação livre e pessoal da Palavra de Deus. Assim ocorre também em muitos momentos da nossa vida quando podemos acolher essa Palavra ou recusá-la, deixando que as nossas ideias prevaleçam sobre o que Ele quer. A obediência da fé é a resposta ao convite de Deus ao homem para caminhar junto d'Ele, a viver em amizade com Ele.
«Obedecer ("ob-audire") na fé, é submeter-se livremente à palavra escutada, porque a sua verdade é garantida por Deus, a própria Verdade. Abraão é o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe desta obediência. A Virgem Maria é a realização mais perfeita da mesma» [viii].

Com confiança e abandono em Deus

Quando consideramos a vida de Abraão, vemos que a fé está presente em toda a sua existência, manifestando-se especialmente nos momentos de obscuridade, em que as certezas humanas falham. A fé implica sempre uma certa obscuridade, um viver no mistério, sabendo que nunca se chegará a atingir uma perfeita explicação, uma perfeita compreensão, pois o contrário já não seria fé. Como diz o autor da carta aos Hebreus, a fé é fundamento das coisas que se esperam, prova das que se não vêm [ix].
A falta de certeza da fé é superada pela confiança do crente em Deus; pela fé, o patriarca põe-se a caminho sem saber onde vai, mas essa é apenas a primeira ocasião em que deverá pôr em jogo esta virtude. Porque, como recorda o Catecismo da Igreja Católica, é necessário confiar muito em Deus para viver «como estrangeiro e peregrino na Terra prometida» [x], e para enfrentar o sacrifício do filho: Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, a quem amas, e vai para a região de Moriá e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que Eu vou indicar [xi].



A fé de Abraão manifesta-se em toda a sua grandeza quando se dispõe a renunciar ao seu filho Isaac. O sacrifício do próprio filho é profecia da entrega de Jesus Cristo para a salvação do mundo. É algo tão tremendo que dispensa comentários. Mas Abraão não se revolta contra Deus, não o questiona nem o põe em dúvida: fia-se d'Ele. Põe-se a caminho, continua atento a escutar a voz do Senhor e, no final da viagem ao monte Moriá, descobre que não quer o sangue de Isaac: E Deus disse-lhe: – Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus pois não me recusaste o teu filho, o teu filho único. (…). E Abraão deu a esse lugar o nome "Javé providenciará"! Assim ainda hoje se costuma dizer: "Sobre a montanha, Javé providenciará" [xii].

Acontecimentos similares costumam suceder na vida dos santos. Recordemos, por exemplo, quando o nosso Padre pensou que o Senhor lhe estava a pedir para deixar o Opus Dei para poder realizar uma nova fundação, dirigida aos sacerdotes diocesanos. Que grande sacrifício! De facto, depois de falar com várias pessoas na Santa Sé, chegou mesmo a comunicar a sua decisão a D. Álvaro, à Tia Carmen, ao Tio Santiago, aos membros do Conselho Geral e a mais alguns. Mas Deus não o quis assim, e livrou-me, com a sua mão misericordiosa – carinhosa – de Pai, do sacrifício bem grande que me dispunha a fazer de deixar o Opus Dei. Tinha dado conhecimento oficiosamente da minha decisão à Santa Sé (...), mas vi depois com clareza que não era necessária essa nova fundação, essa nova associação, posto que os sacerdotes diocesanos cabiam perfeitamente dentro da Obra [xiii].
Como Abraão tinha sido libertado, São Josemaria também foi, pois o Senhor fez-lhe entender que os sacerdotes diocesanos podiam fazer parte do Opus Dei e ser admitidos como sócios da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, sem que isso afetasse a sua situação na diocese; mais ainda, fortalecendo-se, assim, a sua união com o resto do clero e com o seu Bispo.

Fé que é fidelidade

A fé de Abraão manifesta-se também como fidelidade: perante os diversos acontecimentos persevera na sua decisão de seguir a vontade de Deus. A fé apoia-se na palavra de Deus e, por isso, dá lugar a decisões tomadas em profundidade, que não estão submetidas a posteriores “revisões" ou “re-pensamentos". Mantenhamos firme a confissão da esperança, porque fiel é o que fez a promessa [xiv].

Na nossa vida, sempre haverá momentos que nos servirão – com a graça de Deus – para fortalecer e consolidar a nossa fé. Abraão foi submetido a uma prova tremenda: viu-se na situação de ter que sacrificar aquele que era fruto da promessa que lhe tinha sido feito. O santo patriarca não só teve que enfrentar circunstâncias difíceis, mas ainda esperou contra toda a esperança [xv], porque as circunstâncias convidavam a “julgar" a vontade divina, a duvidar do próprio Deus e da sua fidelidade. Nisto radica a tentação que se apresentou a Abraão.

Também nós nos podemos encontrar, por vezes, com situações onde intuímos que o Senhor espera algo que talvez nos contrarie: um passo em frente na vida cristã, a renúncia a um modo de fazer ou mesmo a uma maneira de ser, talvez profundamente arraigada, mas que talvez não favoreça a fecundidade do apostolado. Pode surgir o impulso de silenciar essa inquietação, identificando aquilo que nos agradaria com o que deveria ser a vontade divina: «A tentação de deixar Deus de lado para nos pormos nós próprios no centro está sempre à espreita» [xvi].


Abraão não age assim: vai para o monte Moriá, com um grande conflito interior, mas convencido de que antes ou depois Deus providenciará [xvii].
E Deus, que está empenhado em fazer-se entender, no final providencia. Para que se fizesse luz, Abraão teve que percorrer o caminho completo, teve que pôr-se em marcha e chegar até ao fim.
Também nós, se procuramos secundar em todo o momento a vontade divina, descobriremos que, apesar das nossas limitações, Deus dá eficácia à nossa vida.
Saberemos e sentiremos que Deus nos ama e não teremos medo de O amar: «a fé professa-se com a boca e com o coração, com a palavra e com o amor» [xviii].

J. Yániz





[i] Gn12, 1-2.
[ii] Gn17, 5.
[iii] Bíblia de Navarra (tomo I, 1997), comentário a Gn17, 5.
[iv] Cfr. Gn18-19.
[v] S. Josemaria, Caminho, n. 471.
[vi] Gn12, 4
[vii] Catecismo da Igreja Católica, n. 2570.
[viii] Catecismo da Igreja Católica, n. 144.
[ix] Hb11, 1.
[x] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 145.
[xi] Gn22, 2.
[xii] Gn22, 12-14.
[xiii] S. Josemaria, Carta 24-XII-1951, n. 3, em A. Vázquez de Prada, El fundador del Opus Dei, vol. 3, Rialp, Madrid 2003, p. 171.
[xiv] Hb10, 23.
[xv] Cfr. Rm4, 18.
[xvi] Francisco, Audiência geral, 10-IV-2013.
[xvii] Gn22, 8.
[xviii] Francisco, Audiência geral, 3-IV-2013.

21/02/2015

Evangelho L espirit. (Santíssima Virgem)

Tempo de Cinzas

São Pedro Damião – Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 5 27-32

27 Depois disto, Jesus saiu, e viu sentado no banco de cobrança um publicano, chamado Levi, e disse-lhe: «Segue-Me». 28 Ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29 E Levi ofereceu-Lhe um grande banquete em sua casa, e havia grande número de publicanos e outros, que estavam à mesa com eles. 30 Os fariseus e os seus escribas murmuravam dizendo aos discípulos de Jesus: «Porque comeis e bebeis com os publicanos e os pecadores?». 31 Jesus respondeu-lhes: «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os doentes. 32 Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência».

Comentário

Podemos dizer que este trecho do Evangelho é muito apropriado para este início da Quaresma: «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os doentes. Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência».

Quem de nós ousará considerar-se “justo” que quer dizer: Santo?

Então… o caminho para a santidade que apresenta sempre dificuldades e obstáculos, avanços e retrocessos e, talvez, quedas frequentes, tem de ser pontuado pela penitência voluntária atitude muito útil para os vencer e as evitar.

(ama, comentário sobre Lc 5, 27-32, 2014.03.08)


Leitura espiritual



Santíssima Virgem
Vida de Maria (IX)

A adoração dos Magos

A Sagrada Família regressou a Belém. As palavras do velho Simeão ressoavam nos ouvidos de Maria e de José. À memória da Virgem viriam os textos de alguns profetas que, falando do Messias, seu Filho, afirmam que não só seria Rei de Israel, mas receberia as honras de todos os povos da terra. Isaías já o tinha anunciado com particular eloquência: À tua luz caminharão os povos e os reis andarão ao brilho do teu esplendor. Lança um olhar em volta e observa: todos se reuniram e vieram procurar-te (...). Uma grande multidão de camelos te invade, camelos de Madiã e Efa; vêm todos de Sabá, trazendo ouro e incenso e anunciando os louvores de Javé[1].

Entretanto, o tempo decorria na mais absoluta normalidade. Nada fazia pressagiar qualquer acontecimento fora do comum. Até que um dia aconteceu algo extraordinário.

Tendo nascido Jesus em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que uns Magos vieram do Oriente a Jerusalém, perguntando: Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Porque nós vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O[2]. São Mateus anota que, ao ouvir essa pergunta, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele[3].
Sabemos muito pouco sobre estas personagens. De qualquer forma, o texto evangélico oferece algumas certezas: tratava-se de uns viajantes procedentes do Oriente, onde tinham descoberto uma estrela de extraordinário fulgor, que os impeliu a deixar as suas casas e partir em busca do Rei dos judeus. Tudo o resto — o seu número, o país de origem, a natureza da luz celestial, o caminho que seguiram — não passa de mera conjectura, mais ou menos fundada.
A tradição ocidental fala de três personagens, a quem inclusive dá um nome — Melchior, Gaspar e Baltasar — enquanto outras tradições cristãs elevam o seu número para sete e até para doze. O facto de que procedessem do Oriente aponta para as longínquas regiões de além Jordão: o deserto siro-árabe, Mesopotâmia, Pérsia. A favor da origem persa pesa um episódio historicamente comprovado. Quando, nos princípios do século VII, o rei persa Cosroes II invadiu a Palestina, destruiu as basílicas que a piedade cristã tinha edificado em memória do Salvador, excepto uma: a Basílica da Natividade, em Belém. E isto por uma simples razão: na sua entrada figurava a representação de uns personagens vestidos com indumentária persa, numa atitude de prestar homenagem a Jesus nos braços de Sua Mãe.

OS CORAÇÕES DE MARIA E DE JOSÉ DEVEM TER-SE ENCHIDO DE ALEGRIA E GRATIDÃO. ALEGRIA PORQUE OS ANÚNCIOS PROFÉTICOS SOBRE JESUS COMEÇAVAM A CUMPRIR-SE.

A palavra magos, com que os designa o Evangelho, não tem nada que ver com o que hoje em dia se entende por esse nome. Não eram pessoas dadas à magia, mas homens cultos, muito provavelmente pertencentes a uma casta de estudiosos dos fenómenos celestes, discípulos de Zoroastro, já conhecidos por numerosos autores da Grécia clássica. Por outro lado, é um facto comprovado que a expectativa messiânica de Israel era conhecida nas regiões orientais do Império Romano e inclusive na própria Roma. Não é estranho, pois, que alguns sábios pertencentes à casta dos magos, ao descobrir um astro de extraordinário fulgor, o tivessem interpretado — iluminados interiormente por Deus — como um sinal do nascimento do esperado Rei dos Judeus.

Embora a piedade popular una, de modo quase imediato, o nascimento de Jesus com a chegada dos Magos à Palestina, não se conhece com precisão a época em que teve lugar; sabemos, sim, que Herodes, sentindo-se ameaçado, inquiriu deles cuidadosamente, acerca do tempo em que lhes tinha aparecido a estrela[4]. Depois perguntou aos doutores da Lei pelo lugar de nascimento do Messias e os escribas responderam citando o profeta Miqueias: e tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá; porque de ti sairá um chefe que apascentará Israel, Meu povo[5]. Usando uma mentira, Herodes pôs os Magos a caminho de Belém: ide, informai-vos bem acerca do Menino, e, quando O encontrardes, comunicai-mo, a fim de que também eu O vá adorar[6]. O seu propósito era bem diverso, pois propunha-se assassinar todos os meninos nascidos na cidade e na sua comarca, menores de dois anos, para assim se assegurar da morte daquele que — segundo o seu curto entender — lhe vinha disputar o trono. Deduz-se destes dados que a chegada dos Magos ocorreu algum tempo após o nascimento de Jesus; talvez um ano ou ano e meio.
Depois de receberem essa informação os Magos dirigiram-se apressadamente para Belém, cheios de alegria ao ver reaparecer a estrela, que tinha desaparecido misteriosamente em Jerusalém. Este mesmo facto advoga em favor da suposição de que o astro que os guiava não era um fenómeno natural — um cometa, uma conjunção, etc., como se procurou muitas vezes demonstrar — mas um sinal sobrenatural dado por Deus a esses homens escolhidos, e só a eles.

Mal saíram de Jerusalém — prossegue São Mateus — a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que chegando ao local onde estava o Menino, parou. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, Sua mãe e prostrando-se O adoraram; e abrindo os seus tesouros ofereceram-Lhe presentes de ouro, incenso e mirra[7].
Os corações de Maria e de José devem ter-se enchido de alegria e gratidão. Alegria porque os anúncios proféticos sobre Jesus começavam a cumprir-se; agradecimento porque os presentes daqueles homens generosos — predecessores na fé dos cristãos procedentes dos gentios — possivelmente, contribuíram para aliviar uma situação económica precária. José e Maria não puderam corresponder à sua generosidade. Eles, no entanto, consideraram-se suficientemente recompensados pelo olhar e o sorriso de Jesus, que iluminou de novo as suas almas e pelas doces palavras de agradecimento de Sua Mãe, Maria. [8]

***
Consideremos por momentos este extraordinário episódio ocorrido nos primeiros dias de vida de Jesus Cristo.
Quem são estes personagens tradicionalmente chamados “Magos” que se apressam em vir prestar a sua homenagem e oferecer presentes valiosos ao Menino?

Não se sabe exactamente quem são ou donde vieram.
Os textos sagrados falam vagamente que seriam pessoas de categoria social relevante, talvez dedicados ao estudo e à pesquisa dos astros. Podemos inferi-lo porque, obviamente conhecem as Escrituras e o que nelas se dizia dos sinais que haveriam de surgir quando do nascimento do Salvador e, também, porque detectam nos céus um desses sinais – a Estrela cintilante rara – que identificam como guia seguro para os levar ao seu destino.
A longa distância que têm de percorrer não é obstáculo, a identificação do local onde encontrariam o objecto da sua busca, tão pouco. Visto e avaliado o sinal nada os faz desistir nem sequer a matreira actuação de Herodes.

Encontrar Cristo é tarefa difícil quando não se sabe onde está nem se conhece o caminho para O encontrar. Há que pôr os meios disponíveis e tentar com perseverança, vencendo os obstáculos que sempre se levantam no caminho, sejam quais forem.
A alegria do encontro finalmente conseguido “pagará” todo o esforço e incómodos da busca.

Não temos – nós – que fazer tão grandes esforços para O encontrar, bastará seguir os sinais tão evidentes e claros que de tantas formas nos vão aparecendo ao longo da vida; temos, isso sim, de estar atentos a esses sinais e ter o coração limpo de preconceitos e disponível; com rectidão de intenção e o sincero desejo de encontrar o Senhor do Mundo.
Não nos preocupemos com os “presentes”, Ele não espera de nós outra coisa que nós mesmos de lama e coração dispostos a segui-lo e, seguindo-o, encontrarmos a verdadeira finalidade da nossa vida: assumir a nossa qualidade ímpar de Filhos de Deus, candidatos à Vida Eterna no Seu Reino.
Não importa se somos tão “importantes” como os Magos do oriente ou tão “simples" como os pastores de Belém; somos o que somos e não o que pretendemos – ou talvez gostássemos – ser.

O Senhor conhece-nos a todos e a cada um em particular com todas as nossas capacidades, fraquezas e desejos e o “presente” que espera de nós é que nos entreguemos confiadamente certos que a Sua “paga” será incomensuravelmente maior que quanto possamos oferecer-lhe.

O Menino abre os Seus braços a todos os homens porque veio salvar e redimir a todos dando a própria vida na Cruz. Desde o Seu berço está disponível para nos acolher e guiar como “Luz do Mundo” que ilumina mais – muito mais – que qualquer estrela.

Este Menino que parece inerme e indefeso face a um mundo de controvérsias, lutas fratricidas, vencerá sempre porque Ele é o Rei dos Reis, tem todo o Poder e Glória para todo o sempre.

Vamos a Belém com o coração nas mãos, aberto e disposto a receber a “chuva” de graças e bênçãos que com magnanimidade divina está pronto a conceder-nos.
A Seu lado estará a Sua Santíssima Mãe, enlevada na contemplação do seu Filho e “encantada” com a nossa presença que – podemos estar certos - nunca esquecerá porque, como dizem os Evangelhos, “guarda todas estas coisas no seu coração” e, uma Mãe como Ela é jamais esquece os seus filhos.[9]





[1] Is 60, 3-6
[2] Mt 2, 1-2
[3] Mt 2, 3
[4] Mt 2, 7
[5] Mt 2, 6
[6] Mt 2, 8
[7] Mt 2, 9-11
[8] j.a. loarte
[9] ama, reflexão sobre os Magos.