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13/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Cinzas



Evangelho: Lc 5, 27-32

27 Depois disto, Jesus saiu, e viu sentado no banco de cobrança um publicano, chamado Levi, e disse-lhe: «Segue-Me». 28 Ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29 E Levi ofereceu-Lhe um grande banquete em sua casa, e havia grande número de publicanos e outros, que estavam à mesa com eles. 30 Os fariseus e os seus escribas murmuravam dizendo aos discípulos de Jesus: «Porque comeis e bebeis com os publicanos e os pecadores?». 31 Jesus respondeu-lhes: «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os doentes. 32 Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência».

Comentário:

A chamada que o Senhor faz a cada pessoa é sempre directa e simples com esta feita a Mateus?

Temos de convir que não!

Muitas vezes esse chamamento vem na sequência de algum acontecimento marcante como se fosse uma indicação do caminho a seguir.

O que importa  verdadeiramente é que a nossa resposta seja simples e célere com a de Mateus porque o tempo é sempre escasso e deve urgir-nos essa ânsia de seguir Cristo sem demora.

(ama, comentário sobre Lc 5 27-32, Carvide, 2015-02-21)


Leitura espiritual



ABRAÃO, NOSSO PAI NA FÉ


O livro do Génesis narra a vida de Abraão a partir do momento em que o Senhor se cruzou no seu caminho e transformou a radicalmente a sua existência. Embora o escritor sagrado não pretenda oferecer uma biografia detalhada, apresenta-nos numerosos episódios que põem em evidência a profunda fé do santo patriarca e o modo como ele deixa Deus agir na sua vida.

Com efeito, são lhe prometidas uma terra e uma descendência numerosa, mas Abraão deverá iniciar um caminho:
Sai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar. Eu farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei; tornarei famoso o teu nome, de modo que se tornará uma bênção [i]. Tempo depois, o próprio Deus mudar-lhe-á o nome – e já não te chamarás Abrão, mas o teu nome será Abraão [ii] – para indicar que lhe conferiu «una personalidade nova e uma nova missão, que ficam refletidas no significado do novo nome: “pai de multidões"» [iii]. Manifesta-se assim que toda a singularidade do patriarca depende da aliança com Deus e está ao serviço desta.

Abraão escuta a voz de Deus e põe-na em prática, sem prestar demasiada atenção ao que as circunstâncias lhe podiam aconselhar. Porquê abandonar a segurança da sua pátria, esperar uma descendência quando, quer ele quer a sua mulher, são de idade avançada?
Mas Abraão confia em Deus, na sua omnipotência, na sua sabedoria e na sua bondade. O episódio de Sodoma e Gomorra [iv] mostra, além da gravidade do pecado que ofende a Deus e destrói o homem, a familiaridade que Abraão tem com o seu Senhor. Deus não lhe oculta o que está por fazer e acolhe a oração de intercessão do santo patriarca. A resposta de fé apoia-se na confiança, ou seja, num trato pessoal com Deus.



O conhecimento das coisas, o sentir comum, a experiência, os meios humanos têm a sua importância, mas se tudo ficasse por aí, “numa ordem natural", a nossa perceção da realidade seria falsa por ser incompleta, porque o nosso Pai Deus não se desinteressa de nós nem o seu poder minguou. Assim o expressava São Josemaría Escrivá de Balaguer:

Nos empreendimentos de apostolado, está certo - é um dever - que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 = 4). Mas não esqueças - nunca! - que tens de contar, felizmente, com outra parcela: Deus + 2 + 2... [v].

As dificuldades habituais, por muito adversas que pareçam, nunca são a última palavra. Deus é fiel e cumpre sempre as suas promessas. Abraão actua de acordo com esta lógica. O valor exemplar da fé de Abraão compendia-se em três traços fundamentais: a obediência, a confiança e a fidelidade.

Na obediência da fé

Abraão manifesta a sua própria fé principalmente obedecendo a Deus. A obediência pressupõe a escuta, pois é necessário, em primeiro lugar, “prestar atenção", quer dizer, conhecer a vontade de outro para lhe dar resposta e cumpri-la. Na Sagrada Escritura obedecer não é apenas “cumprir" mecanicamente o mandado: implica uma atitude ativa, que põe em jogo a inteligência diante de Deus que se revela, e que conduz a pessoa a aderir à vontade divina com todas as forças e capacidades.

«Quando Deus o chama, Abraão parte "como lhe tinha dito o Senhor" [vi]: todo o seu coração se submete à Palavra e obedece» [vii].

A obediência que provém da fé vai muito para além da simples disciplina: pressupõe a aceitação livre e pessoal da Palavra de Deus. Assim ocorre também em muitos momentos da nossa vida quando podemos acolher essa Palavra ou recusá-la, deixando que as nossas ideias prevaleçam sobre o que Ele quer. A obediência da fé é a resposta ao convite de Deus ao homem para caminhar junto d'Ele, a viver em amizade com Ele.
«Obedecer ("ob-audire") na fé, é submeter-se livremente à palavra escutada, porque a sua verdade é garantida por Deus, a própria Verdade. Abraão é o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe desta obediência. A Virgem Maria é a realização mais perfeita da mesma» [viii].

Com confiança e abandono em Deus

Quando consideramos a vida de Abraão, vemos que a fé está presente em toda a sua existência, manifestando-se especialmente nos momentos de obscuridade, em que as certezas humanas falham. A fé implica sempre uma certa obscuridade, um viver no mistério, sabendo que nunca se chegará a atingir uma perfeita explicação, uma perfeita compreensão, pois o contrário já não seria fé. Como diz o autor da carta aos Hebreus, a fé é fundamento das coisas que se esperam, prova das que se não vêm [ix].
A falta de certeza da fé é superada pela confiança do crente em Deus; pela fé, o patriarca põe-se a caminho sem saber onde vai, mas essa é apenas a primeira ocasião em que deverá pôr em jogo esta virtude. Porque, como recorda o Catecismo da Igreja Católica, é necessário confiar muito em Deus para viver «como estrangeiro e peregrino na Terra prometida» [x], e para enfrentar o sacrifício do filho: Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, a quem amas, e vai para a região de Moriá e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que Eu vou indicar [xi].



A fé de Abraão manifesta-se em toda a sua grandeza quando se dispõe a renunciar ao seu filho Isaac. O sacrifício do próprio filho é profecia da entrega de Jesus Cristo para a salvação do mundo. É algo tão tremendo que dispensa comentários. Mas Abraão não se revolta contra Deus, não o questiona nem o põe em dúvida: fia-se d'Ele. Põe-se a caminho, continua atento a escutar a voz do Senhor e, no final da viagem ao monte Moriá, descobre que não quer o sangue de Isaac: E Deus disse-lhe: – Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus pois não me recusaste o teu filho, o teu filho único. (…). E Abraão deu a esse lugar o nome "Javé providenciará"! Assim ainda hoje se costuma dizer: "Sobre a montanha, Javé providenciará" [xii].

Acontecimentos similares costumam suceder na vida dos santos. Recordemos, por exemplo, quando o nosso Padre pensou que o Senhor lhe estava a pedir para deixar o Opus Dei para poder realizar uma nova fundação, dirigida aos sacerdotes diocesanos. Que grande sacrifício! De facto, depois de falar com várias pessoas na Santa Sé, chegou mesmo a comunicar a sua decisão a D. Álvaro, à Tia Carmen, ao Tio Santiago, aos membros do Conselho Geral e a mais alguns. Mas Deus não o quis assim, e livrou-me, com a sua mão misericordiosa – carinhosa – de Pai, do sacrifício bem grande que me dispunha a fazer de deixar o Opus Dei. Tinha dado conhecimento oficiosamente da minha decisão à Santa Sé (...), mas vi depois com clareza que não era necessária essa nova fundação, essa nova associação, posto que os sacerdotes diocesanos cabiam perfeitamente dentro da Obra [xiii].
Como Abraão tinha sido libertado, São Josemaria também foi, pois o Senhor fez-lhe entender que os sacerdotes diocesanos podiam fazer parte do Opus Dei e ser admitidos como sócios da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, sem que isso afetasse a sua situação na diocese; mais ainda, fortalecendo-se, assim, a sua união com o resto do clero e com o seu Bispo.

Fé que é fidelidade

A fé de Abraão manifesta-se também como fidelidade: perante os diversos acontecimentos persevera na sua decisão de seguir a vontade de Deus. A fé apoia-se na palavra de Deus e, por isso, dá lugar a decisões tomadas em profundidade, que não estão submetidas a posteriores “revisões" ou “re-pensamentos". Mantenhamos firme a confissão da esperança, porque fiel é o que fez a promessa [xiv].

Na nossa vida, sempre haverá momentos que nos servirão – com a graça de Deus – para fortalecer e consolidar a nossa fé. Abraão foi submetido a uma prova tremenda: viu-se na situação de ter que sacrificar aquele que era fruto da promessa que lhe tinha sido feito. O santo patriarca não só teve que enfrentar circunstâncias difíceis, mas ainda esperou contra toda a esperança [xv], porque as circunstâncias convidavam a “julgar" a vontade divina, a duvidar do próprio Deus e da sua fidelidade. Nisto radica a tentação que se apresentou a Abraão.

Também nós nos podemos encontrar, por vezes, com situações onde intuímos que o Senhor espera algo que talvez nos contrarie: um passo em frente na vida cristã, a renúncia a um modo de fazer ou mesmo a uma maneira de ser, talvez profundamente arraigada, mas que talvez não favoreça a fecundidade do apostolado. Pode surgir o impulso de silenciar essa inquietação, identificando aquilo que nos agradaria com o que deveria ser a vontade divina: «A tentação de deixar Deus de lado para nos pormos nós próprios no centro está sempre à espreita» [xvi].


Abraão não age assim: vai para o monte Moriá, com um grande conflito interior, mas convencido de que antes ou depois Deus providenciará [xvii].
E Deus, que está empenhado em fazer-se entender, no final providencia. Para que se fizesse luz, Abraão teve que percorrer o caminho completo, teve que pôr-se em marcha e chegar até ao fim.
Também nós, se procuramos secundar em todo o momento a vontade divina, descobriremos que, apesar das nossas limitações, Deus dá eficácia à nossa vida.
Saberemos e sentiremos que Deus nos ama e não teremos medo de O amar: «a fé professa-se com a boca e com o coração, com a palavra e com o amor» [xviii].

J. Yániz





[i] Gn12, 1-2.
[ii] Gn17, 5.
[iii] Bíblia de Navarra (tomo I, 1997), comentário a Gn17, 5.
[iv] Cfr. Gn18-19.
[v] S. Josemaria, Caminho, n. 471.
[vi] Gn12, 4
[vii] Catecismo da Igreja Católica, n. 2570.
[viii] Catecismo da Igreja Católica, n. 144.
[ix] Hb11, 1.
[x] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 145.
[xi] Gn22, 2.
[xii] Gn22, 12-14.
[xiii] S. Josemaria, Carta 24-XII-1951, n. 3, em A. Vázquez de Prada, El fundador del Opus Dei, vol. 3, Rialp, Madrid 2003, p. 171.
[xiv] Hb10, 23.
[xv] Cfr. Rm4, 18.
[xvi] Francisco, Audiência geral, 10-IV-2013.
[xvii] Gn22, 8.
[xviii] Francisco, Audiência geral, 3-IV-2013.

26/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


 Tempo Comum
Semana III

Evangelho: Lc 10, 1-9

1 Depois disto, o Senhor escolheu outros setenta e dois, e mandou-os dois a dois à Sua frente por todas as cidades e lugares onde havia de ir. 2 Disse-lhes: «Grande é na verdade a messe, mas os operários poucos. Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a Sua messe. 3 Ide; eis que Eu vos envio como cordeiros entre lobos. 4 Não leveis bolsa, nem alforge, nem calçado, e não saudeis ninguém pelo caminho. 5 Na casa em que entrardes, dizei primeiro: A paz seja nesta casa. 6 Se ali houver algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; senão, tornará para vós. 7 Permanecei na mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, porque o operário é digno da sua recompensa. Não andeis de casa em casa. 8 Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que vos puserem diante; 9 curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: Está próximo de vós o reino de Deus.

Comentário:

Jesus Cristo revela a Sua preocupação e cuidado relativamente aos primeiros enviados a anunciar o Reino de Deus.

Faz questão de que não ignorem as dificuldades que irão enfrentar e dá instruções precisas e pormenorizadas de como devem actuar.

Devemos, os cristãos, ter bem presente esta necessidade de preparar com cuidado e esmero a acção apostólica porque por muita experiência que possamos ter de nada nos servirá se previamente não nos colocarmos nas Suas mãos pedindo com confiança: domine, quid me vis facere, Senhor, que queres que faça.

(ama comentário sobre LC 10 1-9, Cascais, 2015.10.01)


Leitura espiritual



Vida cristã

Na tarefa da nova evangelização

Com o Ano da fé, Bento XVI quis «introduzir todo o corpo eclesial num tempo de especial reflexão e redescoberta da fé» [i].

Trata-se de um convite para considerar o que é crer, o que é ser cristão, para que fiquemos mais conscientes da grandeza do dom da fé e, assim, realizemos uma nova evangelização.
Nova evangelização que o Beato Paulo VI e São João Paulo II já tinham promovido e que responde a uma necessidade objectiva, pois em muitos países de cultura tradicionalmente cristã «grupos inteiros de baptizados perderam o sentido vivo da fé ou até já não se reconhecem como membros da Igreja, levando uma existência afastada de Cristo e do Seu Evangelho» [ii].

São João Paulo II destacava que esta situação era um novo desafio para a Igreja.
Com efeito, «não parece justo equiparar a situação de um povo que nunca conheceu Jesus Cristo com a de outro que O conheceu, O aceitou e depois O recusou, ainda que tenha continuado a viver numa cultura que assimilou em grande parte os princípios e valores evangélicos» [iii].
Num contexto como este, é necessária a realização uma “nova evangelização" ou “reevangelização" [iv].
A criação do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, ou o passado Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização da fé cristã são sinais claros de um empenho por levar o Evangelho a sociedades marcadas, em muitos aspectos, pelo secularismo e o relativismo.


Responsabilidade de todos


Depois da ressurreição, Jesus enviou os seus discípulos, fazendo-os participantes da sua própria missão:
como o Pai me enviou, assim também Eu vos envio a vós [v].

Com a força do Espírito, os apóstolos e os primeiros cristãos cumpriram esse mandato; em poucos anos, estenderam a mensagem evangélica por toda a urbe conhecida.
Eram poucos, careciam de meios humanos, não contavam entre as suas fileiras – assim sucedeu, pelo menos, durante muito tempo – com grandes pensadores ou pessoas de relevo público.
Desenvolveram-se num ambiente social de indiferentismo, de carência de valores, semelhante, em muitos aspectos, ao que nos toca agora enfrentar. (…)
Aqueles primeiros souberam, com o seu comportamento, fazer brilhar diante dos seus concidadãos essa clareza salvadora e converteram-se em mensageiros de Cristo – simplesmente, com naturalidade, sem alardes apelativos – com a coerência entre a sua fé e as suas obras [vi].

A nova evangelização diz respeito a todos: também a nós Cristo pede que preguemos o Evangelho a toda a criatura [vii].

Cada cristão, em virtude do Baptismo, tem a responsabilidade de ser testemunha do Deus vivo, pois é-nos impossível calar o que vimos e ouvimos [viii].

Cada cristão é outro Cristo, enquanto identificado com Ele pela graça e pela correspondência pessoal, e está chamado a «transformar com a força do Evangelho os critérios de juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade» [ix].

Todos temos o dever e o direito de evangelizar, cada um de acordo com o seu próprio papel na Igreja.
Que grande trabalho temos pela frente!
Com humildade, com afã pessoal de santidade, temos que chegar às pessoas, antes de mais, com o nosso exemplo.
Estejamos conscientes de que o esforço por nos comportarmos como cristãos cabais – apesar das nossas misérias pessoais – faz parte da luz que o Senhor deseja acender no mundo.
Não tenhamos medo de chocar com o ambiente, nos pontos incompatíveis com a fé católica, ainda que essa atitude nos possa mesmo acarretar prejuízos materiais ou sociais [x].


Além disso, embora nalguns aspectos pareça que nos encontramos numa situação semelhante à dos nossos primeiros irmãos na fé, não podemos esquecer que, em comparação com eles, «a nossa época oferece neste campo novas ocasiões à Igreja:
A queda de ideologias e sistemas políticos opressores;
A abertura de fronteiras e a configuração de um mundo mais unido, devido ao incremento dos meios de comunicação;
O fixarem-se nos povos os valores evangélicos que Jesus encarnou na sua vida (paz, justiça, fraternidade, dedicação aos mais necessitados);
Um tipo de desenvolvimento económico e técnico sem alma que, não obstante, incita a buscar a verdade sobre Deus, sobre o homem e sobre o sentido da vida» [xi].

Abre-se diante de nós um imenso panorama, pois muitos estão à procura do sentido da sua vida, um sentido que só lhes pode dar o encontro com Cristo.
E é a nossa vida corrente – sem espectáculo – que lhes pode anunciar integramente o Evangelho, que lhes pode permitir descobrir a força de Jesus Cristo, a quem Deus fez para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção [xii].

Depois teremos que ajudar os que descobrem ou redescobrem Cristo, a perseverar na sua decisão de O seguir, oferecendo-lhes a formação humana, intelectual e espiritual oportuna.


Com as armas da oração, da caridade e da alegria


Em mais de uma ocasião, São Paulo exorta os cristãos a revestirem-se da armadura de Deus.
O próprio Apóstolo exemplifica esse “revestimento" interior dos filhos de Deus, quando ensina que – orando em todo tempo movidos pelo Espírito [xiii] – têm de “armar-se" com o cinturão da verdade e a couraça da justiça, e empunhar o escudo da fé e a espada do [xiv].

Quem nasce de novo pelo Baptismo, tem de comportar-se com espírito de misericórdia, de humildade, de [xv].

Tais disposições e condutas permitiram aos primeiros cristãos transformar o mundo.
Nestes começos do terceiro milénio, usando essas mesmas armas, a oração e a caridade, temos de levar a cabo a nova evangelização.

Antes de mais nada, com a oração. Perseverai na oração [xvi].
Tudo quanto pedirdes com fé na oração alcançá-lo-eis [xvii].

Se não procurássemos a fortaleza e a eficácia na intimidade com Cristo no Pão e na Palavra [xviii], onde a encontraríamos?

São Josemaria não se cansava de repetir que a arma do Opus Dei é a oração, e é essa lição que aprendemos a praticar, também convertendo o trabalho em oração, que temos de transmitir com paixão e dom de línguas em todos os ambientes.


A oração é o fundamento e o ponto de partida de todo o apostolado.

Católico, sem oração?...
É como um soldado sem armas [xix].

Uma nova evangelização, sem apoio firme e constante na oração? Uma utopia.
A oração é a arma mais poderosa do cristão.
A oração faz-nos eficazes.
A oração faz-nos felizes.
A oração dá-nos toda a força necessária para cumprir os mandatos de Deus [xx].

O apostolado, seja ele qual for, consiste numa superabundância da vida interior, e em consequência, se queremos ajudar os outros, se pretendemos sinceramente animá-los a descobrir o autêntico sentido do seu destino na terra, é preciso que nos fundamentemos na oração [xxi].

E, junto com a oração, contamos com a arma da caridade, que é o sal do apostolado dos cristãos [xxii].

Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros [xxiii].

Os primeiros cristãos deslumbraram muitos dos seus concidadãos, atraindo-os para Cristo e para a Igreja, com a finura da sua caridade. A Igreja foi enviada para manifestar o amor de Deus e tem de realizar a sua actividade – também qualquer acção apostólica pessoal ou colectiva dos cristãos e, mais em concreto, a nova evangelização – sob o signo da caridade, com a força do amor.

«Hoje como ontem, Ele envia-nos pelos caminhos do mundo para proclamar o Seu Evangelho a todos os povos da terra [xxiv].

Com o Seu amor, Jesus Cristo atrai para Si os homens de cada geração» [xxv].

Com caridade, transmite-se a alegria, que é outro sinal de vida cristã autêntica:

Disse-vos isto para que a Minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa [xxvi].

Com efeito, onde está o Senhor goza-se de paz e de alegria, ainda que a alma esteja em carne viva e rodeada de trevas [xxvii].

O apostolado cristão pode ser chamado um apostolado do ser feliz e fazer felizes os outros.
Já naquelas primeiras comunidades cristãs, que gozavam da simpatia de todo o povo, reinava essa alegria e simplicidade de coração [xxviii] que sempre cativa.
E, com a graça de Deus, muitos se incorporavam na Igreja.

Paulo VI, na encíclica Evangelii nuntiandi, falava da alegria de evangelizar e Bento XVI escreve sobre «uma nova evangelização para redescobrir a alegria de crer e voltar a encontrar o entusiasmo de comunicar a fé» pois «a fé, com efeito, cresce quando se vive como experiência de um amor que se recebe e se comunica como experiência de graça e gozo.
Torna-nos fecundos, porque liga o coração à esperança e permite dar um testemunho fecundo: com efeito, abre o coração e a mente dos que escutam para acolher o convite do Senhor para aceitar a Sua Palavra, para ser Seus discípulos» [xxix].


Em todos os ambientes


Esta nova evangelização deve ser realizada com o exemplo de caridade e alegria de cristãos bem formados, capazes de projectar a luz de Cristo e o sentido do homem.
Cristo, morrendo na Cruz, atrai a Si a Criação inteira, e, em Seu nome, os cristãos, trabalhando no meio do mundo, hão-de reconciliar todas as coisas com Deus, colocando Cristo no cume de todas as actividades humanas [xxx].

O cristão não está chamado a uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e, por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas (…); há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é a que tem de ser – na alma e no corpo – santa e cheia de Deus, deste Deus invisível, que encontramos nas coisas mais visíveis materiais [xxxi].

Conseguir iluminar todos os ambientes com a luz de Cristo é o grande encargo que temos pela frente.
Assim, todas as circunstâncias em que se desenvolve a nossa vida diária tomarão nova força e sentido através do encontro com o Senhor.
Não se trata de fazer nada especial, pois o apostolado não é algo diverso das tarefas de todos os dias: confunde-se com esse mesmo trabalho, convertido em ocasião de um encontro pessoal com Cristo [xxxii].

Como?
Com naturalidade, com simplicidade, vivendo como viveis no meio do mundo, entregues ao vosso trabalho profissional e aos cuidados da vossa família, participando em todos o ideais nobres, respeitando a legítima liberdade de cada um.
Desde há quase trinta anos, Deus pôs no meu coração o anseio de fazer compreender às pessoas de qualquer estado, condição ou ofício, esta doutrina: a vida corrente pode ser santa e cheia de Deus; o Senhor chama-nos a santificar o trabalho quotidiano, porque aí está também a perfeição do cristão [xxxiii].

Ao mesmo tempo, é evidente que há âmbitos nos quais é especialmente importante fazer escutar a voz de Deus: a investigação e o ensino, a moralidade pública, a instituição matrimonial e familiar, as novas tecnologias, etc.

Se nos empenhamos, contribuiremos para promover uma nova cultura, uma nova legislação, una nova moda que sejam coerentes com a dignidade do homem.
Actualmente o mundo necessita que nós, os cristãos, sejamos mais audazes, mais coerentes, mais vibrantes.
Através da nossa amizade sincera e leal ajudaremos muitas pessoas a tomar consciência da sua condição de filhos de Deus, chamados a identificar-se com Cristo.
Descobrir-lhes-emos o horizonte da santidade pessoal, de modo que eles mesmos contribuirão com as suas próprias vidas para o desenvolvimento da missão da Igreja, pois conhecer Jesus (…) é compreendermos que a nossa vida não pode ter outro sentido senão o de entregar-nos ao serviço dos outros [xxxiv].

Neste Ano da fé, Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, conceder-nos-á as graças de que necessitamos para vivermos transbordantes de espírito apostólico e mobilizar muitos para o serviço da nova evangelização.


j. yániz

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Bento XVI, Litt. apost. Porta fidei, 11-X-2011, n. 4.
[ii] São João Paulo II, Discurso à assembleia do CELAM, 9-3-1983.
[iii] São João Paulo II, Litt. enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, n. 37.
[iv] Cfr. São João Paulo II, Litt. enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, n. 30.
[v] Jo 17, 18
[vi] D. Javier Echevarría, Carta pastoral por ocasião do Ano da fé, 29-XI-2012, n. 11, em «Romana. Boletim da Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei» 55 (2012/2), pp. 343-344.
[vii] Mc 16, 15.
[viii] Act 4, 20
[ix] Beato Paulo VI, Exhort. apost. Evangelii nuntiandi, 8-XII-1975, n. 19.
[x] D. Javier Echevarría, Carta pastoral por ocasião do Ano de fé, 29-XI-2012, n. 9, em «Romana. Boletim da Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei» 55 (2012/2), p. 342.
[xi] S. João Paulo II, Litt. enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, n. 3.
[xii] cfr. Ef 6, 14-17.
[xiii] Ef 6, 18.
[xiv] 1 Cor 1, 30
[xv] Cfr. Col 3, 12-14.
[xvi] Col 4, 2
[xvii] Mt 21, 22.
[xviii] São Josemaria, Cristo que passa, n. 118.
[xix] São Josemaria, Sulco, n. 453.
[xx] São Josemaria, Forja, n. 439.
[xxi] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 239.
[xxii] Ibidem, n. 234.
[xxiii] Jo 13, 35.
[xxiv] cfr. Mt 28, 19
[xxv] Bento XVI, Litt. apost. Porta fidei, 11-X-2011, n. 7.
[xxvi] Jo 15, 11.
[xxvii] São Josemaria, Cristo que passa, n. 77.
[xxviii] Cfr. Act 2, 46.
[xxix] Bento XVI, Litt. apost. Porta fidei, 11-X-2011, n. 7.
[xxx] São Josemaria, Temas actuais do cristianismo, n. 114.
[xxxi] Ibid.
[xxxii] São Josemaria, Cristo que passa, n. 264.
[xxxiii] Ibidem, n.148.
[xxxiv] Ibidem, n. 145.