01/11/2014

Deus não te arranca do teu ambiente

Deus não te arranca do teu ambiente, não te tira do mundo, nem do teu estado, nem das tuas ambições humanas nobres, nem do teu trabalho profissional... mas, aí, quer-te santo! (Forja, 362)

Convencei-vos de que a vocação profissional é parte essencial e inseparável da nossa condição de cristãos. O Senhor quer que sejais santos no lugar onde estais e no trabalho que haveis escolhido pelas razões que vos aprouveram: pela minha parte, todos me parecem bons e nobres – desde que não se oponham à lei divina – e capazes de ser elevados ao plano sobrenatural, isto é, enxertados nessa corrente de Amor que define a vida de um filho de Deus. (...).


Temos de evitar o erro de considerar que o apostolado se reduz ao testemunho de algumas práticas piedosas. Tu e eu somos cristãos, mas, ao mesmo tempo e sem solução de continuidade, cidadãos e trabalhadores, com obrigações bem nítidas que temos de cumprir exemplarmente, se deveras queremos santificar-nos. É Jesus Cristo que nos estimula: Vós sois a luz do mundo. (Amigos de Deus,  60–61)

Temas para meditar - 258


Novembro


Neste mês de Novembro a Igreja, como boa Mãe, multiplica os sufrágios pelas almas do Purgatório e convida-nos a meditar sobre o sentido da vida à luz do nosso fim último: a vida eterna, para a qual nos encaminhamos rapidamente.
A liturgia recorda-nos que às almas que se Purificam no Purgatório chega o amor dos seus irmãos da terra, que se pode merecer por elas e encurtar essa espera do Céu. A morte não destrói a comunidade fundada pelo Senhor, mas aperfeiçoa-a. A união em Cristo é mais forte que a separação corporal, porque o Espírito Santo é um poderoso vínculo de união entre os cristãos. Até eles flui o amor e a fidelidade dos que peregrinam pela terra levando-lhes alegria e encurtando esse pouco espaço que todavia os separa da bem-aventurança eterna; e isto, ainda que não haja expressa intenção de o fazer. Se se quer conscientemente, essa corrente de amor e alegria para com eles é ainda maior.

(m. schmausTeologia dogmática, Rialp, Madrid, vol II, Los novíssimos, p. 503, trad ama)

Tratado do verbo encarnado 17

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 11 — Se à união da Encarnação precederam alguns méritos.

O undécimo discute-se assim. — Parece que certos méritos precederam à união da Encarnação.

1. — Pois, segundo a Escritura — Faça-se sobre nós a tua misericórdia da maneira que em ti temos esperado — diz a Glosa: Isto ensina o desejo que o profeta tinha da Encarnação e merecia que ela se realizasse. Logo, a Encarnação pode ser merecida.

2. Demais. — Quem merece alguma coisa merece aquilo sem o que essa coisa não pode ser obtida. Ora, os antigos Padres mereciam a vida eterna à qual não podiam chegar senão pela Encarnação. Assim, diz Gregório: Os que vieram a este mundo antes do advento de Cristo, por maior que tivessem a virtude da justiça, de nenhum modo podiam, separados do corpo, ser logo introduzidos no seio da pátria celeste, porque ainda não tinha vindo aquele que haveria de introduzir na sua perpétua morada as almas dos justos. Logo, parece que mereceram a Encarnação.

3. Demais. — Da B. V. Maria se canta que mereceu trazer o Senhor de todas as causas, o que se deu pela Encarnação. Logo, a Encarnação é susceptível de ser merecida.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Aquele que descobrir no nosso chefe os méritos precedentes da sua singular geração, descubra também em nós, seus membros, os méritos precedentes da multiplicada regeneração. Ora, nenhuns méritos precederam a nossa regeneração, como o diz o Apóstolo: Não por obras de justiça que tivéssemos feito nós outros mas segundo a sua misericórdia salvou-nos pelo baptismo de regeneração. Logo, nem a geração de Cristo foi precedida de quaisquer méritos.

Em relação a Cristo mesmo, é manifesto, pelo que já dissemos, que nenhuns méritos seus puderam preceder-lhe à união. Pois, não admitimos que antes tivesse sido um puro homem e depois, pelo mérito de uma boa vida, tivesse obtido ser Filho de Deus, como o ensinou Fotino. Mas, dizemos que desde o princípio da sua concepção esse homem foi verdadeiramente Filho de Deus, como não tendo nenhuma outra hipóstase senão a de Filho de Deus, segundo o Evangelho: O Santo que há-de nascer de ti será chamado Filho de Deus. Donde, todas as obras desse homem se lhe seguiram à união. E portanto, nenhuma obra sua podia ter merecido a união.

Mas nem também as obras de qualquer outro homem podiam ter sido meritórias dessa união, por um mérito de condignidade (ex condigno). Primeiro, porque as obras meritórias do homem ordenam-se propriamente à bem-aventurança, que o é prémio da virtude e consiste no pleno gozo de Deus. Ora, a união da Encarnação, realizada no ser pessoal, transcende a união da alma bem-aventurada, com Deus, que supõe da parte dela um acto de fruição. E por isso não é susceptível de mérito. — Segundo, porque a graça não é susceptível de mérito, pois é o princípio do merecer. Donde, com maior razão, não pode a Encarnação ser merecida, ela que é o princípio da graça, segundo o Evangelho: A graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo. — Terceiro, porque a Encarnação de Cristo é reformadora de toda a natureza humana. E portanto, não pode ser merecida pelo mérito de nenhum homem particular: porque o bem de qualquer puro homem não pode ser a causa do bem de toda a natureza.

Contudo, por congruência (ex congruo) mereceram os Santos Padres a Encarnação, desejando e pedindo. Pois, era congruente que Deus os ouvisse a eles que lhe obedeciam. Donde se deduz clara a resposta à primeira objecção.

RESPOSTA À SEGUNDA. — É falso dizer que o mérito compreende tudo àquilo sem o que o prémio não pode ser conseguido. Pois, certas coisas não somente são necessárias para o prémio, mas o mérito pré exige-as, assim, a bondade divina, e a própria natureza do homem. E semelhantemente, o mistério da Encarnação é o princípio do mérito, pois, todos nós participamos da plenitude de Cristo, como diz o Evangelho.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Dizemos que a Bem-aventurada Virgem mereceu trazer o Senhor de todas as coisas não por ter merecido que ele se encarnasse, mas por ter merecido, pela graça que lhe foi dada, um tal grau de pureza e de santidade. que pudesse congruamente ser a mãe de Deus.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Todos os Santos

Evangelho: Mt 5 1-12

1 Vendo Jesus aquelas multidões, subiu a um monte e, tendo-Se sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. 2 E pôs-Se a falar e ensinava-os, dizendo: 3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário

Este discurso de Jesus Cristo deve ter tido tal impacto naqueles que O escutaram que não admira que, terminado este, quisessem fazê-lo rei.
Ainda hoje em dia, com toda a sabedoria e conhecimentos que fomos acumulando, os cristãos encontram nestas palavras inúmeros temas de reflexão e, sobretudo, de esperança.
Sentimos que, de uma forma ou outra, o Senhor se referiu a cada um de nós em particular, às nossa dificuldades e problemas e, também, à forma de encarar as múltiplas circunstâncias que se nos vão deparando ao longo da vida.
Não admira… Ele, é o Senhor da Vida e da Morte, do passado, do presente e do futuro; tudo sabe e tudo conhece e, sobretudo, conhece-nos a nós, a cada um individualmente e sabe muito bem o que necessitamos para ser felizes.

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12, 2013.11.01)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte III

…/2

O dia que se seguiu à minha primeira Comunhão foi ainda um dia bonito, mas repassado de melancolia. A roupa linda que Maria comprara para mim, todos os presentes recebidos, não me enchiam o coração. Não havia senão Jesus que pudesse contentar-me. Anelava pelo momento em que me fosse dado recebê-lo pela segunda vez. Cerca de um mês após minha primeira comunhão fui confessar-me para a festa da Ascensão, e animei-me a pedir licença de fazer a Santa Comunhão. Contra toda a expectativa, o senhor sacerdote mo permitiu, e coube-me a felicidade de ajoelhar à Sagrada Mesa entre Papai e a Maria. Que doce recordação guardei da segunda visita de Jesus! Desta vez ainda, corriam minhas lágrimas com inefável doçura. Sem cessar repetia a mim mesma as palavras de São Paulo: "Já não sou eu que vivo, Jesus é quem vive em mim!..." A partir dessa Comunhão, meu desejo de receber o Bom Deus tornou-se cada vez maior; obtive permissão de fazê-lo em todas as festas principais. Na véspera desses ditosos dias, Maria punha-me à noite sobre os joelhos e preparava-me, como o fizera para minha primeira Comunhão. Tenho lembrança de que me falou, certa vez, a respeito do sofrimento, dizendo-me que provavelmente não andaria por tal caminho, mas que o Bom Deus sempre me guiaria, como se faz com uma criança...

No dia seguinte, depois de ter comungado, as palavras de Maria voltaram-me ao pensamento. Senti nascer no coração grande desejo de sofrer e, ao mesmo tempo, a íntima segurança de que Jesus me reservava grande número de cruzes. Senti-me inundada de tão grandes consolações, que as considero como uma das maiores graças de minha vida. O sofrer tornou-se-me um atractivo. Tinha encantos que me arrebatavam, sem os conhecer com clareza. Até então, sofria sem amar o sofrimento; desde aquele dia senti por ele verdadeiro amor. Sentia também o desejo de amar só a Deus, de não encontrar alegria senão Nele. Muitas vezes, repetia em minhas comunhões as palavras da Imitação de Cristo: "Ó Jesus! Doçura inefável, convertei-me em amargura todas as consolações da terra!..." Esta oração saía-me dos lábios sem esforço, sem constrangimento. Vinha-me a impressão de que a repetia, não por minha vontade, mas como criança que repete as palavras que uma pessoa amiga lhe sugere... Mais adiante, a minha querida Mãe, dir-vos-ei como aprouve a Jesus realizar meu desejo, como só Ele foi sempre minha inefável doçura. Se disso vos falasse desde já, seria obrigada a antecipar-me ao tempo de minha adolescência. Ainda me restam muitas particularidades de minha infância que vos devo contar.

Pouco tempo depois da minha primeira Comunhão entrei em novo retiro para a Crisma. Tinha-me preparado, com bastante empenho, para receber a visita do Espírito Santo. Não conseguia compreender que se não dê maior cuidado à recepção deste sacramento de Amor. De ordinário, fazia-se um só dia de retiro para a Crisma. Como, porém, o Senhor Bispo não podia vir no dia marcado, coube-me o consolo de ter dois dias de solidão. Para nos distrair, a nossa mestra levou-nos ao Monte Cassino, onde colhi grandes margaridas para a festa do Corpo de Deus. Oh! Como estava exultante a minha alma! Igual aos apóstolos, eu aguardava, venturosa, a visita do Espírito Santo... Folgava com a ideia de que dentro em breve seria perfeita cristã, sobretudo que eternamente teria na fronte a misteriosa cruz que o bispo traça, quando faz a imposição do Sacramento ... Chegou afinal o ditoso momento. Não senti, quando desceu o Espírito Santo nenhum vento impetuoso, mas antes aquela leve brisa, cujo murmúrio o profeta Elias ouviu no monte Horeb... Nesse dia, recebi a força para sofrer, pois logo em seguida devia começar o martírio de minha alma... Foi minha querida e gentil Leónia que me serviu de madrinha. Estava tão comovida que não pôde conter a efusão de lágrimas todo o tempo da cerimônia. Recebeu, comigo, a Santa Comunhão, pois nesse belo dia tive ainda a felicidade de unir-me a Jesus.

Terminadas as deliciosas e inolvidáveis festas, a minha vida retornou ao ritmo ordinário, isto é, tive de retomar a vida colegial, que tanto me custava. Quando fiz minha Primeira Comunhão, apreciava a convivência com crianças de minha idade, todas cheias de boa vontade, tendo tomado, como eu, a resolução de praticar seriamente a virtude. Mas, era preciso pôr-me em contato com alunas bem diferentes, dissipadas, não desejosas de cumprir o regulamento, e isto me deixava muito desconsolada. Tinha um génio folgaz, mas não sabia entregar-me aos brinquedos próprios de minha idade. No recreio, apoiava-me muitas vezes contra uma árvore e contemplava o andamento do jogo, enquanto me engolfava em sérias reflexões! Inventara um jogo que me agradava. Era o de enterrar as pobres avezinhas que encontrávamos mortas debaixo das árvores. Muitas alunas tiveram gosto em ajudar-me, de sorte que nosso cemitério se tornou muito bonito, plantado de árvores e flores, proporcionais ao tamanho de nossos pequenos emplumados.
Gostava, outrossim, de contar histórias. Inventava-as na medida que me acudiam à imaginação. As minhas colegas rodeavam-me com entusiasmo, e de vez em quando alunas maiores integravam-se ao grupo de ouvintes. Ia continuando a mesma história por vários dias, pois tinha prazer em torná-la cada vez mais interessante, na proporção que via as impressões despertadas, marcadas na fisionomia de minhas companheiras. Sem embargo, a mestra logo me proibiu continuar a minha actividade oratória, pois queria ver-nos brincar e correr, e não discorrer...

Apanhava com facilidade o sentido das matérias que aprendia, mas tinha dificuldade em decorar os textos. Por isso, quanto ao catecismo, no ano que precedeu minha Primeira Comunhão, pedia quase todos os dias a permissão para decorá-lo no tempo dos recreios. Os meus esforços coroaram-se de bom êxito, e fui sempre a primeira. Perdendo casualmente meu lugar, por causa de uma única palavra esquecida, minha dor manifestava-se por lágrimas amargas, que o Padre Domin não sabia como estancar... Estava muito satisfeito comigo (quando não chorava), e chamava-me sua doutorazinha, por causa de meu nome Teresa. Certa vez, a aluna que vinha depois de mim, não soube formular a arguição de catecismo para sua colega. Depois de passar, em vão, toda a roda das alunas, o Sr. Padre voltou-se novamente para mim, declarando que ia verificar se eu merecia o lugar de primeira da classe. Em minha profunda humildade, era só o que esperava. Levantei-me com segurança, respondi às arguições, sem cometer erro nenhum, com grande surpresa de todo o mundo... Feita a minha Primeira Comunhão, continuei o meu zelo pelo catecismo até a saída do colégio. Dava boa conta dos estudos. Era quase sempre a primeira. Os meus maiores sucessos eram em História e redacção, Todas minhas mestras tinham-me como aluna muito inteligente. Outro tanto não acontecia em casa de Titio, onde passava por ignorantinha, boa e meiga, dotada de juízo recto, mas incapaz e desajeitada... Não me surpreende a opinião que Titio e Titia tinham e certamente ainda terão a meu respeito. Por ser muito tímida, quase não falava. Quando escrevia, meu rabisco e minha ortografia - nada mais natural - não eram de feição que encantassem... Verdade é que, em costurinhas, em bordados e noutras tarefas, me desempenhava bem, a gosto de minhas mestras. Mas, o modo desajeitado com que manejava meu trabalho de agulha justificava a opinião pouco lisonjeira que tinham de mim. Considero tudo isso como uma graça. Uma vez que o Bom Deus queria meu coração só para Si, já atendia a minha oração, quando "trocava em amargura as consolações da terra". Para mim, isso tornava-se tanto mais necessário, quanto mais não me conservaria insensível a louvores. Muitas vezes, gabavam diante de mim a inteligência das outras, e jamais a minha. Daí concluí que a não tinha, e resignei-me a carecer dela...

Meu coração, sensível e amoroso, facilmente ter-se-ia entregue, se tivesse encontrado um coração capaz de compreendê-lo... Tentei ligar-me a meninas de minha idade, principalmente a duas dentre elas. Tinha-lhes amor, e elas por sua vez me amavam tanto, quanto eram capazes de fazê-lo. Mas, que lástima! Como é mesquinho e volúvel o coração das criaturas!... Não demorei em perceber que o meu amor era incompreendido. Uma de minhas amigas precisou procurar a família, e voltou alguns meses depois. Durante a sua ausência, pensava nela e guardava cuidadosamente um anelzinho que me dera. Quando tornei a ver a minha companheira, grande foi minha alegria, mas não obtive, ainda mal, senão um olhar indiferente... Meu amor não fora compreendido. Percebi-o, e não mendiguei uma afeição que me era negada. O Bom Deus, porém, deu-me um coração tão leal que, amando com pureza, ama para sempre. Por isso, continuei a rezar pela minha companheira, e ainda lhe tenho afeição... Ao ver que Celina queria bem a uma de nossas mestras, quis imitá-la, mas não pude consegui-lo, pois não sabia conquistar as boas graças das criaturas. Ó ditosa ignorância! Como me livrou de grandes males!... Quanto não agradeço a Jesus de me fazer encontrar só "amargura nas amizades da terra"! Com um coração como o meu, deixar-me-ia prender e cercear as asas. Como pode ria, então, "voar e repousar?" Como pode unir-se intimamente a Deus, um coração entregue à afeição das criaturas?... Tenho, o sentimento de que não é possível. Sem beber da taça envenenada do amor por demais ardente das criaturas, sinto em mim que me não é possível estar equivocada. Vi tantas almas que, seduzidas por essa luz falsa, esvoaçaram como míseras mariposas e queimaram as asas. Depois, volveram-se à verdadeira e meiga luz do amor. Esta deu-lhes novas asas, mais brilhantes e mais ligeiras, a fim de poderem voar para junto de Jesus, Fogo Divino, "que arde sem se consumir". Oh! Eu o sinto, Jesus conhecia-me como fraca demais para me expor à tentação. Quiçá, deixar-me-ia queimar toda inteira pela enganadora luz, se a visse fulgurar diante dos olhos... Não aconteceu assim. Só encontrei amargura, onde almas mais robustas deparam com alegria, e desta se desfazem por fidelidade. Não tenho, portanto, nenhum mérito em me não ter entregue ao amor das criaturas, uma vez que só fui preservada pela grande misericórdia do Bom Deus!... Reconheço que, sem Ele, poderia cair tão baixo como Santa Madalena. E com grande doçura ecoa em minha alma a profunda palavra de Nosso Senhor a Simão... Eu o sei, "menos ama aquele, a quem menos se perdoa". Mas, não ignoro também que a mim Jesus perdoou mais do que a Santa Madalena, pois me perdoou por antecipação, porquanto me impediu que caísse. Oh! Pudera explicar o que sinto!... Dou aqui um exemplo que traduzirá um pouco meu modo de pensar. - Suponho que o filho de um entendido doutor depare no caminho com uma pedra, que o faz cair e fracturar um membro. De pronto lhe acorre o pai, ergue-o com amor, pensa-lhe as lesões, aplicando todos os recursos de sua arte. E o filho, completamente curado, logo lhe testemunha sua gratidão. Não resta dúvida, o filho tem todo o motivo de querer bem ao Pai! Farei, contudo, outra suposição ainda. Sabendo que, no caminho do filho, se encontra uma pedra, o pai apressa-se em tomar a dianteira, e remove-a, sem que ninguém o veja. O filho, por certo, objecto de seu previdente carinho, não  tendo conhecimento da desgraça, da qual o pai o livrara, não lhe mostrará gratidão, e ter-lhe-á menos amor do que se fora curado por ele... No entanto, se souber o perigo, do qual acaba de escapar, não o amará ainda mais? Ora, tal filha sou eu, objecto do amor previdente de um Pai, que enviou seu Verbo para resgatar não os justos, mas os pecadores ". Quer que eu o ame, porque me perdoou, não digo muito, mas tudo. Não esperava que eu muito o amasse, como Santa Madalena, mas quis que soubesse como me amou com um amor de inefável previdência, a fim de que agora o ame até a loucura!... Ouvi dizer que se não encontra alma pura mais amorosa do que uma alma arrependida. Oh! Quem me dera desmentir a afirmação!...

Percebo estar muito longe do meu assunto, motivo pelo qual me apresso em retomá-lo. O ano seguinte à minha Primeira Comunhão escoou-se quase todo sem provações interiores para minha alma. No retiro para a segunda Comunhão é que fui assaltada pela terrível doença dos escrúpulos... É preciso passar por tal martírio, para o compreender. Ser-me-ia impossível dizer quanto não sofri em ano e meio... Todos os meus pensamentos e as minhas mais acções mais simples se tornavam para mim motivo de perturbação. Só tinha sossego, quando os contava à Maria, e isto era-me muito penoso, por sentir a obrigação de lhe dizer todas as ideias extravagantes que me vinham à mente a respeito dela própria. Alijado o meu fardo, desfrutava um instante de paz, mas a paz desvanecia-se como um relâmpago, e logo começava novamente meu martírio. De quanta paciência não precisava minha querida Maria, para me ouvir, sem dar mostras de nenhum aborrecimento!... Mal chegava eu da Abadia, punha-se ela a arrumar-me os cabelos para o dia seguinte (pois, querendo agradar ao Papai, a rainhazinha andava todos os dias com os cabelos em cachinhos, para grande admiração das colegas, mormente das professoras que não viam crianças tão mimadas pelos pais). E durante a arrumação não parava de chorar, contando todos os meus escrúpulos. Como tivesse terminado os estudos, Celina voltou para casa no fim do ano, e a pobre Teresa, obrigada a ficar sozinha, não demorou a ficar doente, pois o único interesse que a mantinha interna consistia em estar com sua inseparável Celina, sem a qual "sua filhinha" já não poderia ali continuar... Deixei, pois, a Abadia na idade de 13 anos e continuei meus estudos, tomando várias aulas semanais em casa da Sra. Papinau". Era uma pessoa boníssima, muito culta, com uns ares de solteirona. Vivia com a mãe, e encantava ver-se o pequeno lar, que juntas constituíam a três (pois a gata fazia parte da família e eu tinha de suportar as suas sonecas em cima dos meus cadernos e, inclusive, admirar o seu porte). Tinha a vantagem de viver na intimidade da família. Como os Buissonnets ficavam muito longe para as pernas já um tanto envelhecidas da minha professora, ela pedira que fosse tomar as aulas em sua casa. Ao chegar, encontrava ordinariamente a velha senhora Cochain. Fitava-me "com os seus olhos grandes e límpidos", e depois chamava com voz descansada e sentenciosa: "Senhô rra Papineau... a Se nho rrita Teresa já chegou!". A sua filha respondia-lhe prontamente, com voz acriançada: "Já vou, Mamã". E logo começava a aula. Essas lições tinham a vantagem (além dos conhecimentos que adquiria) de fazer-me conhecer o mundo... Quem o diria?... Na sala, mobiliada à moda antiga, rodeada de livros e cadernos, presenciava muitas vezes visitas de todos os géneros, de sacerdotes, senhoras, moças, etc. Na medida possível, a conversa ficava por conta da Sra. Cochain, a fim de que a filha pudesse dar-me aula, mas, em tais dias, não aprendia grande coisa. Com o nariz metido no livro, ouvia tudo o que se falava, até o que para mim seria melhor não escutar. A vaidade insinua-se tão facilmente no coração!... Dizia uma senhora que eu tinha cabelos bonitos... Na saída, uma outra, julgando não ser ouvida, indagava quem era essa menina tão bonita. E tais palavras, tanto mais lisonjeiras, quanto não eram ditas diante de mim, deixavam-me na alma uma impressão de gozo, que claramente me indicava como eu era cheia de amor-próprio. Oh! Quanta compaixão não sinto das almas que se perdem!... É tão fácil perder-se nas sendas floridas do mundo... Não há dúvida, para uma alma mais formada a doçura que ele oferece, vem mesclada de amargura, e o imenso vácuo dos desejos não poderia preencher-se com louvores momentâneos... No entanto, se o meu coração desde o seu despertar não se erguera até Deus, se o mundo me tivera sorrido desde minha entrada na vida, que teria acontecido comigo?... Ó minha Mãe querida, com que gratidão canto as misericórdias do Senhor!... De acordo com as palavras da Sabedoria, não foi ele que "me retirou do mundo, antes que meu espírito se pervertesse com sua malícia, e que ad suas enganosas aparências me seduzissem a alma?" A Santíssima Virgem também velava a sua florzinha. Não querendo que perdesse o brilho ao contato com as coisas da terra, retirou-a para o alto da sua montanha, antes que desabrochasse... Enquanto aguardava o ditoso momento, Teresinha crescia no amor à sua Mãe do Céu. Para lhe dar prova desse amor, praticou uma acção que muito lhe custou, e que a despeito de sua extensão vou historiar em poucas palavras... Quase logo depois de minha admissão na Abadia, fui recebida na associação dos Santos Anjos. Apreciava muito as práticas de devoção que se me impunham, pois sentia um atractivo todo particular em rezar aos bem-aventurados espíritos celestiais, especialmente àquele que o Bom Deus me dera para ser companheiro do meu exílio. Algum tempo depois da minha Primeira Comunhão, a fita de aspirante a Filha de Maria substituiu a dos Santos Anjos. Antes, porém, de ser admitida na Associação da Santíssima Virgem, deixei a Abadia. Por ter saído antes de concluir os estudos, não tinha o direito de ingressar como antiga aluna. Considerando, contudo, que todas as minhas irmãs tinham sido "Filhas de Maria", tive receio de ser, menos do que elas, filha de minha Mãe do Céu, e fui com toda a humildade (apesar do muito que me custava) pedir a licença de ser recebida na Associação da Santíssima Virgem na Abadia. A mestra directora não quis recusar-me, mas pôs como condição que, duas vezes por semana, me recolhesse uma tarde na Abadia, para mostrar se era digna de ser admitida. Bem ao invés de me causar prazer, a concessão foi-me custosa ao extremo. Não tinha, como outras antigas alunas, uma professora amiga, com a qual pudesse passar algumas horas. Contentava-me, por conseguinte, em cumprimentar a mestra, e depois trabalhava em silêncio até ao final da lição programada. Ninguém me dava atenção, e por isso subia à tribuna do coro da capela, ficando diante do Santíssimo Sacramento até o momento em que Papai ia buscar-me. Esta era minha exclusiva consolação. Não era Jesus meu único amigo? Não conseguia falar senão com Ele. Fatigava-me a alma conversar com as criaturas, ainda que se tratasse de conversas piedosas... Sentia que era maior vantagem falar com Deus do que falar de Deus, pois em conversas espirituais se intromete muito amor próprio!... Oh! bem era, única e exclusivamente, pela Santíssima Virgem que me apresentava na Abadia... Por vezes, sentia-me sozinha. Muito sozinha. Como nos dias de minha vida de semi-interna, quando triste e doente espairecia no grande pátio, repetia as palavras que sempre me fizeram renascer paz e alento no coração: "A vida é o teu navio, não é tua morada!"... Quando ainda pequenina, estas palavras restituíam-me a coragem. Ainda agora, a despeito dos anos que apagam tantas impressões da piedade infantil, a imagem da embarcação enleva a minha alma, ajudando-lhe a suportar o exílio em paciência... Não nos diz também a Sabedoria que "a vida é como uma nau que sulca as ondas agitadas, e de cuja rápida passagem não fica nenhum vestígio?... " Quando penso tais coisas, minha alma submerge no infinito. Afigura-se-me que já abordo a praia da eternidade... Afigura-se-me receber os amplexos de Jesus... Creio avistar minha Mãe do Céu que me vem ao encontro na companhia do Papá... da Mamã... dos quatro anjinhos... Creio, afinal, gozar para sempre da verdadeira vida eterna em família...

(cont.)




Morte e Eternidade

Já desde a minha primeira infância, ao chegar Novembro, ouvi repetir a minha volta palavras que não esqueci ao longo da vida: “Bendito mês, que começa com todos os santos e termina com santo André”.

No Ângelus de 1 de Novembro, Bento XVI recordou, doutra forma, a verdade escondida nessas palavras do povo: “A Solenidade de todos os Santos é uma ocasião propícia para elevar o olhar das realidades terrenas, marcadas pelo tempo, à dimensão de Deus, a dimensão de eternidade e de santidade”.
Nenhum momento na vida do homem mais apropriado para ajudar-nos a “elevar o olhar” que o da morte de pessoas queridas, de amigos, de conhecidos que nos deixam depois de uma longa doença, ou que abandonam a terra de improviso e sem o anunciar.
Porque é um momento apropriado? Simplesmente, porque a morte põ à prova a qualidade do “amor” que se esconde no coração de todo o homem. Se não amamos, a morte de um ser querido pode levar-nos a descobrir que já estamos mortos, ainda que nos mantenhamos em pé, porque perdemos todo o sentido da nossa vida.
Muitas pessoas, na sociedade actual, esforçam-se por tirar da perspectiva da sua vida o horizonte da morte. A morte é um tema de conversação quase proibido. Há no ambiente um certo e impreciso medo à morte, talvez pela obstinação de não pensar o que o homem pode encontrar depois da morte.
Esse temor manifesta-se em fazer desaparecer até as cinzas dos defuntos, atirando-as ao mar, a um lago, ao vento. Outras vezes, o medo expressa-se no eliminar da nossa mente todo o juízo do nosso actuar e do nosso viver: nada vale a pena e a morte apagará para sempre a memória das nossas misérias. E quer-se apagar da mente, também, sequer a possibilidade de que haja céu e inferno. Na realidade, alguns querem simplesmente “morrer para sempre”; e temem descobrir na morte, que esse desejo é uma “pretensão inútil”.
A morte situa-nos, talvez sem nos dar muita conta, ante a ineludível pregunta sobre o sentido da nossa vida. E talvez nos faça descobrir a verdade destas palavras de Bento XVI:
 “O homem pode explicar-se, encontra o seu sentido profundo, só se Deus existe”
O cristão não tem medo do juízo – sabe que só Deus nos pode julgar - e Deus é pai que nos acolhe quando arrependidos voltamos para Ele. Sabe que existe céu e inferno. E não faz desaparecer as cinzas dos seus defuntos, simplesmente porque ao enterrá-las, poderá visitá-las, saudá-las, ainda que apenas seja um dia no ano, ajuda-o a não perder de vista a eternidade. A realidade da eternidade dá-lhe ar para respirar na atmosfera viciada que se encontra tão amiúde à sua volta.
 “O homem necessita da eternidade, e qualquer outra esperança é para ele demasiado breve, demasiado limitada”.
O antigo costume de visitar os cemitérios nestes dias é um ar fresco em qualquer momento do viver. E as flores com que se adornam as tumbas, além de um detalhe de carinho para com os nossos defuntos, são também um desejo de lhes expressar um afecto, um carinho que por vezes não lhes manifestamos durante a vida.
 “Também na visita aos cemitérios, ao mesmo tempo que lembramos laços de afecto com quem nos amou durante a nossa vida, recorda-nos que todos vamos para outra vida, mais para além da morte. Que o choro, devido ao distanciamento terreno, não prevaleça sobre a certeza da ressurreição, sobre a esperança de alcançar a bem-aventurança da eternidade”, recorda-nos o Papa.
Essa bem-aventurança eterna, a vida eterna com Deus Pai, Filho e Espírito, que pedimos ao Senhor tenha concedido já aos nossos defuntos.

ernesto juliá díaz

(trad. do castelhano por ama)

Nota do tradutor:
Não estou totalmente de acordo com o autor no que se refere a quanto diz sobre as cinzas dos defuntos já que no ponto de vista cristão – que é o meu – a cremação de um ente querido não tem a ver nem com o temor da morte nem com qualquer “vontade” de apagar a sua memória; esta estará, para sempre, bem viva no coração dos que ficam. Devolver as cinzas à terra é, na minha maneira de ver, dar um destino coerente aos restos corporais. O que sim me interessa sobremaneira é manter viva a sua memória e na oração diária, frequente e profundamente sentida impetrando Deus Pai que os tenha acolhido para todo o sempre nos Seus braços amorosos. 


António Mexia Alves                                                        

31/10/2014

Deus não te arranca do teu ambiente

Deus não te arranca do teu ambiente, não te tira do mundo, nem do teu estado, nem das tuas ambições humanas nobres, nem do teu trabalho profissional... mas, aí, quer-te santo! (Forja, 362)


Convencei-vos de que a vocação profissional é parte essencial e inseparável da nossa condição de cristãos. O Senhor quer que sejais santos no lugar onde estais e no trabalho que haveis escolhido pelas razões que vos aprouveram: pela minha parte, todos me parecem bons e nobres – desde que não se oponham à lei divina – e capazes de ser elevados ao plano sobrenatural, isto é, enxertados nessa corrente de Amor que define a vida de um filho de Deus. (...).


Temos de evitar o erro de considerar que o apostolado se reduz ao testemunho de algumas práticas piedosas. Tu e eu somos cristãos, mas, ao mesmo tempo e sem solução de continuidade, cidadãos e trabalhadores, com obrigações bem nítidas que temos de cumprir exemplarmente, se deveras queremos santificar-nos. É Jesus Cristo que nos estimula: Vós sois a luz do mundo. (Amigos de Deus,  60–61)

Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Lc 14 1-6
1 Entrando Jesus, um sábado, em casa de um dos principais fariseus, para comer, eles estavam a observá-l'O. 2 Encontrava-se diante d'Ele um homem hidrópico. 3 Jesus, dirigindo a palavra aos doutores da lei e aos fariseus, disse-lhes: «É lícito ou não fazer curas ao sábado?». 4 Eles ficaram calados. Então Jesus, pegando no homem pela mão, curou-o e mandou-o embora. 5 Dirigindo-se depois a eles, disse: «Qual de vós, se o seu filho ou seu boi cair num poço, não o tirará imediatamente ainda que seja em dia de sábado?». 6 Eles não sabiam que replicar a isto.
Comentário

Não há dias, momentos ou circunstâncias como, igualmente não existem quaisquer desculpas que justifiquem não se praticarem boas obras, fazer o bem.
No que respeita ao próprio ou, principalmente, no que se refere ao próximo.
O que possa aduzir-se em contrário não passa de arrazoado sem sentido ou critério.
Em todos os momentos da nossa vida somos sempre filhos de Deus e teremos de agir como tal.
(ama, comentário sobre Lc 14 1-6, 2014.09.08)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte II

…/4


Esqueci mais alguns detalhes da minha infância antes do meu ingresso no Carmelo. Não vos falei do meu gosto pelas estampas e pela leitura... No entanto, minha querida Madre, às belas estampas que me mostráveis, como recompensa, devo uma das mais doces alegrias e uma das mais vivas impressões que me incitavam à prática da virtude... Ficava horas esquecidas a contemplá-las. A Florzinha do Divino Prisioneiro, por exemplo, falava-me de tantas cousas, que me deixavam embevecida. Vendo o nome de Paulina escrito na parte de baixo da florzinha, queria que o de Teresa também o fosse, e oferecia-me a Jesus para ser sua florzinha...

Se não sabia brincar, gostava muito de ler, e nisso levaria minha vida. Por sorte, para me guiarem, havia anjos da terra, que para mim seleccionavam livros que me distraíssem e ao mesmo tempo me alimentassem o espírito e o coração. Depois só devia aplicar certo tempo na leitura, o que me impunha grandes sacrifícios, interrompendo às vezes minha leitura no meio do trecho mais empolgante... O atractivo pela leitura durou até minha entrada para o Carmelo. Não poderia indicar o número de livros que me passaram pelas mãos. Mas, o Bom Deus nunca permitiu que lesse um só deles, capaz de me prejudicar.

Verdade é, na leitura de certas histórias de cavalaria, nem sempre apanhava desde logo o lado autêntico da vida. O Bom Deus, porém, de pronto me fazia intuir que a verdadeira glória é a que dura eternamente, não havendo, para sua consecução, necessidade de realizar obras aparatosas, mas de esconder-se e praticar a virtude, de molde a não saber a mão esquerda o que faz a direitas... Foi assim que, lendo a narração dos feitos patrióticos de heroínas francesas, mormente da Venerável JOANA D'ARC,sentia grande desejo de imitá-las. Perecia verificar em mim o mesmo ardor, de que estavam animadas, a mesma inspiração celestial.

Recebi, então, uma graça que sempre tomei como uma das maiores de minha vida, pois nessa idade não recebia, como agora, as luzes em que estou imersa. Cuidava que nascera para a glória, e como procurasse um meio de alcançá-la, o Bom Deus inspirou-me os sentimentos que acabo de descrever. Fez-me, outrossim, compreender que minha glória característica não apareceria aos olhos dos mortais, consistiria em tornar-me grande Santa!!!... Poderia tal desejo parecer temeridade, tomando-se em consideração quanto era fraca e imperfeita, e quanto ainda o sou, depois de passar sete anos em religião. Muito embora, sinto sempre a mesma audaciosa confiança de tornar-me grande Santa, pois não conto com meus méritos, por não ter nenhum, mas espero em Aquele que é a Virtude, a própria Santidade. Só Ele é que, cingindo-se aos meus débeis esforços, me elevará a Si próprio, e, cobrindo-me com seus méritos infinitos, fará de mim uma Santa. Não calculava, então, que seria preciso sofrer muito para chegar à santidade. O Bom Deus não tardou em mo demonstrar, quando enviou as provações que mais acima relatei... Agora retomarei minha exposição, desde o ponto em que a tinha largado. Três meses após minha cura, Papai levou-nos em viagem a Alençon. Era a primeira vez que para lá voltava. Bem grande foi minha alegria rever os lugares onde vivera minha infância, e de poder principalmente rezar junto à sepultura de Mamãe, pedindo-lhe que sempre me proteja...

O Bom Deus concedeu-me a graça de conhecer o mundo na medida suficientemente exata para o desprezar, e dele me conservar afastada. Poderia afirmar ter sido na minha permanência em Alençon que fiz minha primeira entrada no mundo. Em redor de mim, tudo era gozo e felicidade. Tornava-me alvo de festas, de mimos e admirações. Numa palavra, dentro de quinze dias, tive uma vida semeada só de flores... Não nego que tal vida tinha encantos para mim. Muita razão tem a Sabedoria em ponderar: "Porque a fascinação das frivolidades seduz até o espírito arredado do mal"'. Na idade de dez anos, o coração deixa-se facilmente embelezar. Por isso, considero como grande graça não ter ficado em Alençon. Os amigos que ali tínhamos eram muito dados ao mundo, sabiam aliar demais as alegrias da terra com o serviço de Deus. Não pensavam bastante na morte, e no entanto veio a morte visitar grande número de pessoas, minhas conhecidas, jovens, ricas e felizes!!! Gosto de volver em pensamento aos lugares encantados, onde elas viveram, e de perguntar a mim mesma onde estão, o que usufruem dos castelos e dos parques, donde as vi gozarem as comodidades da vida?... E vejo que debaixo do Sol tudo é vaidade e aflição de espírito. . . que o único bem consiste em amar a Deus de todo o coração e ser pobre de espírito aqui na terra...

Jesus quis, talvez, mostrar-me o mundo antes da primeira visita que estava para me fazer, a fim de que eu com mais liberdade escolhesse o caminho que lhe prometeria seguir. A época de minha Primeira Comunhão ficou gravada no coração como uma lembrança sem penumbras. Parece-me, não podia estar mais bem disposta do que estava. Além do mais, meus sofrimentos espirituais deixaram-me em sossego durante quase um ano. Queria Jesus fazer-me gozar de uma alegria tão perfeita, quanto possível neste vale de lágrimas...

Lembrai-vos, minha querida Madre, do maravilhoso livrinho que fizestes para mim, três meses antes da minha Primeira Comunhão?... Foi o que me ajudou a preparar o coração de uma maneira contínua e rápida. Pois, se desde muito já o vinha preparando, era bem necessário dar-lhe novo impulso, enchê-lo de novas flores, para que nele pudesse Jesus repousar com alegria... Praticava diariamente grande número de piedosos exercícios, que constituíam outras tantas flores. Fazia número maior ainda de jaculatórias, que escrevestes para cada dia em meu livrinho, e tais actos de amor formavam os botões das flores...

Toda semana, escrevíeis-me uma linda cartinha, que me enchia a alma de profundos pensamentos e me ajudava a praticar a virtude. Era um consolo para vossa pobre filhinha, que fazia tão grande sacrifício em se conformar com não ser, todas as tardes, preparada em vossos joelhos, como o fora sua querida Celina... No meu caso, era Maria que fazia as vezes de Paulina. Eu sentava nos joelhos dela, e nessa posição escutava com avidez o que me dizia. Parecia-me que todo o seu coração, tão grande, tão generoso, se transferia para dentro de mim. - Como guerreiros famosos ensinam aos filhos o traquejo das armas, assim também ela me falava dos combates da vida, do laurel outorgado aos vitoriosos... Maria falava-me ainda das imorredouras riquezas que são fáceis de juntar todos os dias, da infelicidade de passar ao largo, sem querer dar-se ao trabalho de estender a mão para as agarrar. Depois, mostrava-me o meio de ser santa pela fidelidade nas mínimas coisas. Deu-me o folheto "Sobre a renúncia", que eu meditava com toda a delícia ...

Oh! como era eloqüente minha querida madrinha! Quisera que não fosse a única a ouvir-lhe os profundos ensinamentos. Sentia-me tão atingida, que em minha ingenuidade acreditava que os maiores pecadores teriam sido atingidos como eu, deixariam então suas riquezas caducas, e já não quereriam ganhar outras senão as provenientes do Céu... Nessa época, ninguém ainda me ensinara o modo de fazer oração, apesar da grande vontade que tinha de aprendê-lo. Como, porém, me achasse bastante piedosa, Maria só me deixava fazer minhas preces. Um dia, uma das minhas mestras da Abadia me perguntou o que fazia nos dias de folga, quando estava sozinha. Respondi-lhe que me punha atrás de minha cama num vão que ali havia, fácil para mim de fechar com o cortinado, e nesse lugar ficava a "pensar". Mas, em que pensáveis? perguntou-me. - Penso no Bom Deus, na vida... na ETERNIDADE, enfim, penso!... Muito se divertiu a boa religiosa à minha custa. Mais tarde, gostava de lembrar o tempo em que pensava, e perguntava-me se ainda me punha a pensar... Compreendo agora que, sem o saber fazia oração, e que o Bom Deus já me instruía em segredo.


Manuscrito "A" - Parte III

Depressa se passaram os três meses de preparação. Tive logo de entrar em retiro, e de ficar interna para esse fim, pernoitando na Abadia. Não consigo exteriorizar em palavras a suave recordação que o retiro me deixou. Francamente, se sofri muito como interna, fui amplamente recompensada pela felicidade inefável desses poucos dias passados à espera de Jesus... Não creio que se possa fruir tal alegria noutro lugar senão em comunidades de religiosas. Sendo restrito o número de crianças, fácil se tornava dar atenção a cada uma delas em particular, e na ocasião tiveram, realmente, nossas mestras maternais cuidados para connosco. De mim se ocupavam mais que de outras. Todas as noites, vinha a mestra directora, com a lanterninha, abraçar-me na cama, dando-me sinais de grande afeição. Comovida com sua bondade, disse-lhe uma noite que lhe confiaria um segredo. Depois de tirar, com ar misterioso, meu precioso livrinho que estava debaixo do travesseiro, mostrei-lho com olhos radiantes de alegria... De manhã, achava muito bonito ver como as alunas se levantavam da cama, ao toque da campainha, e queria fazer como elas, mas não estava habituada a aprontar-me sozinha. Não estava ali Maria para me arrumar o cabelo. Por isso, tive de apresentar, timidamente, meu pente à supervisora do vestiário, a qual se riu ao ver uma menina crescida, de 11 anos, que não sabia cuidar de si mesma. No entanto, ela penteava-me, não de modo tão delicado, como Maria, mas nem por isso me atrevia a gritar, segundo meu costume de todos os dias, quando me submetia à leve mão da madrinha... No retiro, averiguei que era uma criança cercada de mimos e atenções, como poucas o serão na terra, antes de tudo entre crianças órfãs de mãe... Diariamente, vinham Maria e Leônia visitar-me, em companhia de Papai que me cumulava de agradinhos de sorte que não sofri com a privação de estar longe da família, e nada ofuscou o lindo Céu azul do meu retiro.

Escutava com muita atenção as instruções que o Sr. Padre Domin nos dava, e delas fiz até um resumo. Quanto aos meus próprios pensamentos, não quis anotar nenhum, alegando que os conservaria bem de memória, o que foi verdade ... Para mim era grande satisfação acompanhar as religiosas a todos os ofícios. No meio de minhas companheiras, atraía a atenção por causa de um grande Crucifixo que Leônia me tinha dado, e que eu metia na cintura à guisa dos missionários. O Crucifixo despertava a inveja das religiosas. Cuidavam que, andando com ele, queria imitar minha irmã carmelita... Oh! realmente era para ela que se dirigiam meus pensamentos. Sabia que minha Paulina estava em retiro como eu, não para que Jesus se desse a ela, mas para ela se dar a Jesus. Por conseguinte, a solidão que passei em expectativa, era-me duplamente querida...

Tenho recordação de que uma manhã me passaram para a enfermaria, porque estava tossindo muito (desde minha doença, as mestras tinham grande cuidado comigo; por ligeira dor de cabeça, ou quando me vissem mais pálida do que de costume, mandavam-me respirar ao ar livre ou repousar na enfermaria). Vi entrar minha querida Celina que, não obstante o retiro, obtivera permissão de visitar-me, para me oferecer um santinho que me causou grande prazer. Era a "Florzinha do Divino Prisioneiro". Oh! como me foi grato receber tal lembrança das mãos de Celina!... Quantos pensamentos de amor não tive por causa dela!...

Na véspera do grande dia, recebi a absolvição sacramental pela segunda vez. A confissão geral deixou-me grande paz na alma, e o Bom Deus não permitiu que a mais leve dúvida a perturbasse. No correr da tarde, pedi perdão a todos da família que vieram visitar-me, mas não conseguia falar senão através de minhas lágrimas. Estava por demais comovida... Paulina não estava presente, mas pelo coração senti que se mantinha junto a mim. Enviara-me por Maria uma bela estampa, que não me cansava de admirar e fazer admirar por toda a gente! ... Escrevera ao bom Padre Pichon para me recomendar às suas orações, dissera-lhe também que logo me tornaria carmelita, e então seria ele meu diretor. (Com efeito, foi o que aconteceu quatro anos mais tarde, pois no Carmelo lhe abri minha alma...). Maria entregou-me uma carta dele. Na verdade, senti-me sobremaneira feliz!... Chegavam-me, simultaneamente, todas as felicidades. O que mais me regozijou na carta dele, foi esta frase: "Amanhã, subirei ao Sagrado Altar, e a intenção será por vós e por vossa Paulina!" No dia 8 de maio, Paulina e Teresa se uniram cada vez mais, pois Jesus parecia tomá-las juntas, quando as inundou de suas graças ...

Raiou, enfim, o "mais belo de todos os dias". Quão inefáveis não são as recordações que na alma me deixaram as mínimas circunstâncias dessa data do Céu! ... A alegre alvorada, os respeitosos e afectuosos ósculos das mestras e das colegas maiores ... O salão nobre, repleto de flocos de neve, com os quais cada criança se via adornada por sua vez... Acima de tudo, a entrada na Capela e a entoação matinal do lindo cântico: "Ó Santo Altar, que de Anjos sois rodeado!"

Não quero, contudo, descer a pormenores. Há coisas que perdem a fragrância, quando expostas ao ar. Existem pensamentos da alma que se não podem traduzir em linguagem terrena, sem perderem o sentido autêntico e celestial. São como a "pedrinha branca que se dará ao vencedor, sobre a qual está escrito um nome, que ninguém CONHECE, senão QUEM a recebe". Ah! como foi doce o primeiro beijo de Jesus à minha alma! ...

Foi um beijo de amor. Sentia-me amada, e de minha parte dizia: "Amo-vos, entrego-me a Vós para sempre". Não houve pedidos, nem lutas, nem sacrifícios. Desde muito, Jesus e a pobre Teresinha se tinham olhado e compreendido. Naquele dia, porém, já não era um olhar, era uma fusão. Já não eram dois, Teresa desvanecera, como a gota de água que se dilui no bojo do oceano. Ficava só Jesus, era Ele o Senhor, o Rei. Teresa pedira-lhe tirasse sua liberdade, pois sua liberdade lhe fazia medo., Sentia-se tão fraca, tão frágil, que desejava permanecer para sempre unida à Força Divina! ... Sua alegria era grande demais, era profunda demais, para que a pudesse represar. Não tardou em debulhar-se em deliciosas lágrimas, com grande espanto das colegas que, mais tarde, diziam entre si: "Por que será que chorou? Sentiria algo que a acabrunhasse?... Não será, antes, por não ver junto a si a própria mãe ou a irmã, que é carmelita, a quem tanto ama?" - Não compreendiam que, ao descer a um coração toda a alegria do Céu, não a pode suportar um coração banido, sem derramar lágrimas... Oh! não! A ausência de Mamãe não me contristava no dia de minha Primeira Comunhão. Não estava o Céu dentro de mim, e nele não tinha Mamãe desde muito tomado lugar? Desta forma, quando recebi a visita de Jesus, recebi também a de minha querida Mãe, que me abençoava e se regozijava com minha felicidade... Não chorava, outrossim, a ausência de Paulina. Sem dúvida alguma, ficaria contente, se a visse ao meu lado, mas desde muito meu sacrifício estava aceito. Nessa data, meu coração se encheu só de alegria. Uni-me a ela, que irrevogavelmente se dava Aquele que tão amorosamente se dava a mim! ...

Na parte da tarde, fui eu quem pronunciou o ato de consagração à Santíssima Virgem. Era muito justo que, em nome de minhas companheiras, falasse à minha Mãe do Céu, eu que tão cedo me privara de minha Mãe da terra... De todo o coração me pus a falar-lhe, a consagrar-me a ela, como filha que se lança aos braços da Mãe, e lhe pede olhe por ela. Parece-me que a Santíssima Virgem terá olhado para sua florzinha e ter-lhe-á sorrido, pois não foi ela quem a curara com visível sorriso?... Não foi ela que no cálice de sua florzinha depositara seu Jesus, a Flor dos Campos, o Lírio do Vale?...

À tarde do belo dia, estive novamente com minha família terrena. Pela manhã, já tinha abraçado Papai e todos os meus queridos parentes. Agora, porém, se estabelecia a verdadeira reunião, quando Papai tomou pela mão sua rainhazinha e se dirigiu ao Carmelo... Vi então minha Paulina, que se tornara esposa de Jesus. Divisei-a com seu véu, branco, como o meu, e com sua coroa de rosas... Oh! minha alegria não comportava amargura. Esperava estar em breve novamente com ela, e com ela esperar pelo Céu!

Não fiquei insensível à festa de família, que se realizou na tarde da minha primeira Comunhão. Grande prazer me causou o lindo relógio que o meu Rei me deu, mas minha alegria era tranquila, e nada chegou a perturbar minha paz interior.

Maria levou-me consigo na noite imediata ao grande dia, pois os dias mais radiosos são seguidos de escuridões. Sem ocaso será só o dia da primeira e única, da eterna Comunhão do Céu...
(cont.) 





30/10/2014

Ajuda-os sem que o notem

O pensamento da morte ajudar-te-á a cultivar a virtude da caridade, porque talvez esse instante concreto de convivência seja o último em que estás com este ou com aquele... Eles, ou tu, ou eu, podemos faltar em qualquer momento. (Sulco, 895)

Dir-me-ás talvez: e porque havia eu de me esforçar? Não sou eu quem te responde, mas S. Paulo: o amor de Cristo urge-nos. Todo o espaço de uma existência é pouco para alargar as fronteiras da tua caridade. Desde os primeiríssimos começos do Opus Dei, manifestei o meu grande empenho em repetir sem cessar, para as almas generosas que se decidam a traduzi-lo em obras, aquele grito de Cristo: nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros. Conhecer-nos-ão precisamente por isso, porque a caridade é o ponto de arranque de qualquer actividade de um cristão. (…)


Queria fazer-vos notar que, após vinte séculos, ainda aparece com toda a pujança de novidade o Mandato do Mestre, que é uma espécie de carta de apresentação do verdadeiro filho de Deus. Ao longo da minha vida sacerdotal, tenho pregado com muitíssima frequência que, desgraçadamente para muitos, continua a ser novo, porque nunca ou quase nunca se esforçaram por praticá-lo. É triste, mas é assim. E não há dúvida nenhuma de que a afirmação do Messias ressalta de modo terminante: nisto vos conhecerão, que vos amais uns aos outros! Por isso, sinto a necessidade de recordar constantemente essas palavras do Senhor. S. Paulo acrescenta: levai os fardos uns dos outros e, desta maneira, cumprireis a lei de Cristo. Momentos perdidos, talvez com a falsa desculpa de que te sobra tempo... Se há tantos irmãos, amigos teus, sobrecarregados de trabalho! Com delicadeza, com cortesia, com um sorriso nos lábios, ajuda-os, de tal maneira que se torne quase impossível que o notem; e que nem se possam mostrar agradecidos, porque a discreta finura da tua caridade fez com que ela passasse inadvertida. (Amigos de Deus, 43–44)

Temas para meditar - 257


Cristianização

A Igreja de hoje prepara-se para uma nova cristianização, que se apresenta aos seus olhos como um desafio, ao qual deverá responder adequadamente como em tempos passados.






(São joão paulo ii Disc. em Santiago de Compostela 1989.08.19)

Tratado do verbo encarnado 15

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 9 — Se a união das duas naturezas em Cristo é a máxima das uniões.

O nono discute-se assim. — Parece que a união das duas naturezas em Cristo não é a máxima das uniões.

1. — Pois, o unido é inferior, em razão da unidade, ao que é uno, porque o unido o é por participação, e o uno, por essência. Ora, nas coisas criadas uma coisa é dita, absolutamente, una, como principalmente o demonstra a própria unidade, que é o princípio do número. Logo, a união de que falamos, não implica a máxima unidade.

2. Demais. — Quanto mais distam as coisas unidas tanto menor é a união. Ora, a natureza divina e a humana, unidas pela união de que tratamos, distam entre si em máximo grau, porque distam infinitamente. Logo, tal união é mínima.

3. Demais. — Da união resulta a unidade. Ora, da união da alma e do corpo em nós resulta a unidade da pessoa e da natureza, ao passo que da união da natureza divina com a humana resulta só a unidade da pessoa. Logo, maior é a união da alma com o corpo do que da natureza divina com a humana, e assim, a união de que agora tratamos não implica a máxima unidade.

Mas em contrário, diz Agostinho, que antes está o homem no Filho de Deus, que o Filho no Padre. Ora, o Filho está no Padre pela unidade de essência, ao passo que o homem está no Filho pela união da Encarnação. Logo, maior é a união da Encarnação que a unidade da essência divina. A qual porém é a máxima das unidades. E assim, por consequência, a união da Encarnação implica a máxima unidade.

A união implica a conjunção de dois seres num só ser. Donde, a união da Encarnação pode ser considerada a dupla luz: relativamente aos elementos unidos e relativamente àquele em que se unem. E, por este lado, a referida união tem a preeminência sobre as outras uniões, pois, a unidade da pessoa divina, em que se unem ias duas naturezas, é máxima. Portanto, não tem a preeminência relativamente aos elementos unidos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A unidade da pessoa divina é maior que a unidade numérica, isto é, que é o princípio do número. Pois, a unidade da pessoa divina é uma unidade por si subsistente, não recebida em outro ser por participação. E também é em si mesma completa, encerrando em si tudo o que compreende a noção de unidade. Por isso não lhe convém ser parte, como à unidade numeral, que é parte do número e é participada pelas coisas numeradas. E assim, a este respeito, a união da Encarnação tem preeminência sobre a unidade numeral, isto é, em razão da unidade de pessoa. Não porém em razão da natureza humana, que não é a unidade própria da pessoa divina, mas a esta está unida.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A objecção colhe quanto aos elementos conjuntos, não, quanto à pessoa em que se fez a união.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A unidade da pessoa divina é uma unidade maior que a da pessoa e da natureza, em nós. Por isso, a união da Encarnação é maior que a da alma e do corpo em nós. Quanto a objecção em contrário, ela supõe uma falsidade, a saber, que maior é a união da Encarnação que a unidade das pessoas divinas, na essência. E então devemos responder, quanto à autoridade de Agostinho, que a natureza humana não existe, mais, no Filho de Deus, que o Filho de Deus, no Pai, mas, muito menos. Mas, o próprio homem está, de certo modo, mais no Filho, que o Filho no Pai, isto é, quando digo — homem, tomando-o por Cristo, e quando digo — Filho de Deus, o suposto é o mesmo, mas não é o mesmo o suposto do Pai e do Filho.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.