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01/11/2016

Evangelho e comentário



Tempo Comum
Todos os Santos

Evangelho: Mt 5, 1-12

 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário:

No dia em que a Igreja faz memória de Todos os Santos este trecho do Sermão da Montanha é absolutamente adequado.

Jesus Cristo enumera uma extensa lista de Bem-aventurados, de santos, que por diversas circunstâncias e motivos merecem a Vida Eterna.

Que cada um veja onde se "enquadra" com o seu comportamento, com a forma como vive.

Afinal, para alcançar a salvação há inúmeros caminhos...

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12, Lisboa, 2015.11.01)






06/06/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Mt 5, 1-12

1 Vendo Jesus aquelas multidões, subiu a um monte e, tendo-Se sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. 2 E pôs-Se a falar e ensinava-os, dizendo: 3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário:

No monte Sinai, Moisés ouviu e recebeu os Mandamentos da Lei que Deus Pai quis dar ao Seu povo escolhido para que observando-os, fizessem a Sua Vontade mantendo-se assim na intimidade do Criador.

Na montanha da Judeia Jesus Cristo vem dar a todos os homens a segurança da salvação eterna seja quais forem as circunstâncias particulares de cada um.

De certo modo, as Bem-aventuranças "completam" o Decálogo.

A observância deste é obrigatória e imprescindível para a salvação, a obtenção daquelas é o prémio que Deus concede com enorme generosidade ao que, para o cumprimento da Lei, encontram obstáculos e adversidades sem conta e, praticando as virtudes, conseguem vencê-las.

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12, 2015.06.08)




Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

IV. Caminhos da Cristologia

3. Cristo, "o último Homem”.

Impõe-se reconhecer como importante mérito de Teilhard de Chardin o ter repensado essas interligações do ponto de vista da cosmovisão hodierna e, não obstante certa perigosa tendência para o biológico, tê-las compreendido correctamente, no seu conjunto e, em todo caso, tê-las tornado de novo acessíveis. Ouçamo-la! A mónada humana "somente pode tornar-se ela própria, se cessar de estar sozinha". A ressoar nos bastidores deve, escutar-se a ideia de que no cosmos, ao lado das duas ordens do infinitamente pequeno e do infinitamente grande, existe uma terceira ordem que determina a torrente da evolução: a ordem do infinitamente complexo. Nela está a meta propriamente dita do processo ascendente do devir; ela alcança o seu primeiro ponto culminante no aparecimento da vida, para, a seguir, avançar continuamente até aquelas formas altamente complexas que conferem ao cosmos um novo centro: "Por mínimo e ocasional que seja o lugar ocupado pelos planetas na história dos corpos celestes, eles formam, em última análise, os pontos vitais do universo. Através deles, passa agora o eixo, neles se concentra, daqui por diante, a tendência de uma evolução dirigida sobretudo para a formação de grandes moléculas". Considerar o mundo sob o ponto de vista da escola dinâmica da complexidade denota "uma total inversão dos valores, uma inversão de perspectiva".

Mas tornemos ao homem. Até aqui ele representa o máximo em complexidade. Mas, como pura mónada-homem, ele é incapaz de representar um fim; o seu próprio devir postula um ulterior movimento de complexidade: "Não representa o homem, simultaneamente, um indivíduo (= uma "pessoa") centrado relativamente a si e um elemento relacionado com alguma nova e mais alta síntese?". É o mesmo que dizer: por um lado, o homem já é um fim que não pode mais sofrer recuo, não pode mais ser desfeito, e, contudo, no lado-a-lado com os indivíduos, ele ainda não chegou à meta, mas revela-se como que um elemento a ansiar pela plenitude que o envolva sem destruí-lo. Tomemos mais um texto para ver em que direcção levam tais ideias: "Em antítese com as hipóteses ainda válidas na Física, o estável encontra-se não em baixo – no infra-elementar – mas em cima – no ultra-sintético". Portanto, deve constatar-se "que nada mais confere às coisas firmeza e conexão do que seu entrelaçamento a partir de cima". Creio estar-se aqui frente a um pensamento muito central: a imagem dinâmica do mundo destrói neste ponto o conceito positivista, tão familiar a todos nós, que vê o estável exclusivamente na "massa", na matéria dura. O mundo afinal é construído e conectado "de cima"; isto torna-se visível de uma maneira que se parece tão impressionante, pelo facto de estarmos tão pouco familiarizados com ela.

Daqui, se abre o caminho para outro texto, visando, ao menos, indicar a visão total de Teilhard de Chardin mediante a justaposição de alguns fragmentos. "A energia universal deve ser energia pensante, se na evolução ela não dever ser menor do que as metas que serão animadas pela sua actividade. Portanto... os atributos cósmicos de valor, com que a energia aparece envolvida aos nossos olhos, não suprimem absolutamente a necessidade de reconhecer-lhe uma forma transcendente de personalidade". A partir daí pode compreender-se a meta do movimento total, assim como Teilhard o vê: a torrente cósmica movimenta-se "na direcção de um estado incrível, quase 'monomolecular'... onde cada ego... está destinado a alcançar o seu ponto culminante em algum misterioso super-ego". Enquanto um "eu", o homem, sem dúvida, representa um fim, mas o rumo do movimento do ser e da sua própria existência revela-o, ao mesmo tempo, como um ente que pertence a um "super-ego", que o não apaga, mas o envolve; somente em tal fusão pode revelar-se a forma do homem futuro, quando o "ser-homem" encontrar-se totalmente no ponto final de si mesmo.

Deve reconhecer-se que, sob o enfoque da cosmovisão moderna e envolvido em vocabulário por vezes de forte sabor biológico, Teilhard conseguiu apreender o rumo da cristologia paulina, tornando-a novamente compreensível: a fé vê em Jesus o homem no qual – falando-se do ponto de vista biológico – foi dado como que o próximo salto da evolução; o homem, no qual se realizou a saída da limitada maneira do nosso ser, de uma limitação monádica; o homem no qual personalização e socialização não se excluem mais, mas se confirmam; aquele homem em quem a mais elevada unidade – "Corpo de Cristo", diz Paulo, e mais radicalmente: "todos vós sois um só em Cristo Jesus" (Gál 3,28) – e a mais sublime individualidade são um; aquele homem, no qual a humanidade toca o seu futuro e torna-se, em grau supremo, ela mesma, porque, por ele, toca o próprio Deus, participa dele, alcançando deste modo a sua mais peculiar possibilidade. Partindo daí, da fé em Cristo, verá o raiar de um movimento no qual a humanidade dividida será integrada, mais e mais, no ser de um único Adão, de um único "corpo" – do homem que há-de vir. A fé verá aí o movimento rumo àquele futuro do homem em que, completamente "socializado" e incorporado num único, o indivíduo não será apagado, mas chegará ao seu próprio ápice.

Não seria difícil mostrar que a teologia de João indica o mesmo rumo. Lembremo-nos apenas da palavra: "Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim" (Jo 12,32). A frase procura explicar o sentido da morte na cruz. Ora, a cruz constitui o centro da teologia de João, de modo que a frase indica a direcção para a qual todo o seu Evangelho quer apontar. O acontecimento da crucificação surge aí como um facto de abertura no qual as dispersas mónadas humanas são atraídas ao abraço de Jesus Cristo, para o vasto espaço dos seus braços abertos, para, mediante tal união, alcançar a sua meta, a meta da humanidade. Ora, sendo assim, Cristo, como o homem que há-de vir, não é o homem para si, mas essencialmente homem para os outros, ele é o homem do futuro, exactamente por ser o homem completamente aberto. Então, o homem para si, que só deseja ficar em si, é o homem do passado que devemos deixar para trás a fim de avançar. Por outras palavras: o futuro do homem está em "ser-para". No fundo, confirma-se novamente o que se constatou como sentido das palavras sobre a filiação e, já antes, como sentido da doutrina das três pessoas num Deus – a indicacção para a existência dinâmica, actuante que é essencialmente abertura no movimento entre "de" e "para". E revela-se, de novo, ser Cristo o homem completamente aberto, no qual as paredes da existência ruíram, o homem que é totalmente "passagem" (pascha).

Com isto voltamos a estar repentinamente no mistério da cruz e da páscoa que a Bíblia concebe como mistério de passagem. João, que acima de tudo reflectiu sobre estas ideias, encerra a sua descrição do Jesus terreno, com a imagem da existência cujas paredes foram despedaçadas, que não conhece mais nenhum limite firme, sendo essencialmente abertura. "Um dos soldados perfurou-lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água" (Jo 19,34). Na imagem do peito atravessado culmina, para João, não só a cena da cruz, mas a história inteira de Jesus. Após o golpe da lança, que terminou a vida terrena de Jesus, a sua existência está toda aberta; agora ele é todo "para", agora verdadeiramente não é mais um indivíduo, mas "Adão", de cujo lado foi formada Eva, ou seja, uma nova humanidade. Aquela concepção profunda do Antigo Testamento segundo a qual a mulher foi tirada do lado do varão (Gên 2,21ss), exprimindo-se assim, de modo inimitavelmente grandioso, a sua mútua e perene interdependência e a sua unidade – aquela história, portanto, parece ressoar aqui, ao se retomar a palavra "lado" (pleura, em geral traduzida incorrectamente pelo termo "costela"). O lado aberto do novo Adão repete o mistério criativo do "lado aberto" do varão: é o início de uma nova comunidade definitiva dos homens entre si; como símbolos seus estão aí: água e sangue, com o que João indica os sacramentos básicos, baptismo e eucaristia e, através deles, a Igreja como sinal da nova comunidade dos homens. Com isto o totalmente aberto, que sacrificou o ser como completamente recebido e passado adiante, torna-se visível como o que ele, no mais profundo de si mesmo, sempre foi: como "Filho". Assim Jesus, na cruz, realmente entrou na sua hora, como afirma João. A expressão enigmática deveria encontrar alguma luz sob este enfoque.

Mas tudo isso também mostra que responsabilidade recai sobre as palavras a respeito do homem que há-de vir – quão pouco tem tudo isso de comum com um alegre romantismo progressista. Porquanto ser o homem para os outros, o homem aberto e, com isto, o homem a inaugurar um começo novo denota: ser o homem em oblacção, o homem sacrificado. O futuro do homem está pendente da cruz – a salvação do homem é a cruz. E não há outro caminho para chegar a si, senão deixando forçar as grades da existência, olhando para o homem de coração atravessado (Jo 19,37), seguindo aquele que, como o perfurado, aberto, abriu o caminho para o futuro. Isso significa, finalmente, que o Cristianismo o qual, como fé na criação, acredita no primado do Logos, ou seja, da razão criadora como começo e origem, acredita nele, de modo específico, enquanto fim, o futuro, o que há-de vir. Neste olhar para o futuro está a dinâmica propriamente dita do crístico que, no Antigo e Novo Testamento, realiza a fé como esperança na promessa.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)





08/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum X Semana


Evangelho: Mt 5, 1-12

1 Vendo Jesus aquelas multidões, subiu a um monte e, tendo-Se sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. 2 E pôs-Se a falar e ensinava-os, dizendo: 3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário:

O Sermão da Montanha, como para sempre ficou conhecido, pode dizer-que contém todo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A universalidade das exortações contempla toda a humanidade com o mesmo amor, a mesma esperança, igual certeza: a Bem-Aventurança eterna.

Ninguém fica de fora ou é, de alguma forma, excluído da misericórdia divina.

É o mais extraordinário legado de confiança, amor e carinho que o Senhor nos poderia ter deixado.

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12 2014.06.09)


Leitura espiritual




a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS





viii a luta ascética para a conversão

…/2
       
        Enraizando o espírito na Esperança as raízes da avareza, da gula e da preguiça desvanecem-se.
A perspectiva da vida a eterna ajuda a contemplar no seu verdadeiro valor e riqueza todos os bens da terra.
E a esperança torna o homem diligente, forte.

        Crescendo na Caridade enfraquecem a inveja, a ira e a injúria.
O cristão descobre a alegria de ver nos outros os dons de Deus, anseia responder sempre com amabilidade e a sexualidade, como todas as outras potências do homem põe-se ao serviço do verdadeiro amor a Deus e aos outros, no celibato, no matrimónio, na família.

        E ao mesmo tempo quando se esfriam a Fé, a Esperança e a Caridade robustecem-se as raízes dos pecados capitais e os outros caminhos que levam o homem para longe de Deus.

        É muito significativo que um bom número de santos tenha terminado os seus dias na terra com um clamor quase constante no seu coração: «Senhor, aumenta-se a Fé, a Esperança e a Caridade».
Eram bem conscientes de que a vida cristã não pretende principalmente construir no homem a imagem da perfeição divina mas sim reflecti-la.

        Sem esquecer a ideia da «identificação com Cristo» e da «imitação de Cristo» queremos sublinhar – e é-nos também confirmado por esse clamor dos santos – que a Graça leva o cristão a viver «com Cristo, por Cristo, em Cristo», todas as qualidades da nossa natureza que são dom de Deus.
Cristo vive realmente em nós sem que deixemos de ser quem somos.
Daí que, na verdade, pode dizer-se do cristão que «é outro Cristo, «o próprio Cristo».

        Com esta perspectiva a luta ascética cristã centrar-se-á muito especialmente no esforço por crescer na Fé, crescer na Esperança, crescer na Caridade.
Como?

        1º Crescer na Fé.

Activamente, o cristão pode fazer actos de Fé ante possíveis dúvidas que surjam na sua imaginação ou na sua mente: por exemplo reafirmar a sua crença na presença real de Cristo na Eucaristia se ao ir comungar surgir alguma dúvida sobre essa realidade, confirmar-se na realidade da vida eterna ante a pena produzida pela morte de um ente querido que introduz alguma treva no espírito.

        Ao rezar o Credo ou ao lê-lo simplesmente para se inteirar melhor do seu conteúdo, o Cristão abre a sua inteligência à luz das grandes verdades reveladas por Cristo.
Os Dogmas descobrem a sua luz, não serão nunca para ele – como alguns pretendem – limites à inteligência humana mas sim luzes que ajudam a mente do homem a penetrar insondáveis campos da criação, do universo, do mistério do viver, do mistério do amor de Deus.

        O cristão cresce na Fé vivendo os sacramentos: por exemplo, viver o sacramento da reconciliação é um profundo acto de Fé; viver com devoção a Santa Missa é talvez o maior acto de Fé que o homem pode viver na terra.

        Qualquer manifestação externa de Fé também ajuda a crescer interiormente na Fé.
Por exemplo: o testemunho da Fé ante pessoas que maltratam a religião, falam mal de Cristo, dos sacramentos, supõe sempre um robustecimento da Fé; assim como qualquer acção para sustentar a Fé dos outros: uma catequese, uma explicação de alguma verdade, o recordar algumas das recomendações do Magistério da Igreja, etc.

        O cristão também tem a possibilidade de aumentar a Fé: ao cumprir os Mandamentos sem fazer distinções entre uns e outros.

        Crescendo na Fé, o crente compreende mais claramente toda a realidade a partir da luz de Deus, daí a importância de renovar dentro de nós actos de Fé concretos para que jamais nos acostumemos a estas verdades: a Encarnação do Filho de Deus, a Ressurreição de Cristo, a presença real de Cristo na Eucaristia, a Vida Eterna e a Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, um só Deus verdadeiro em Três Pessoas distintas.

        2º Crescer na Esperança.

        O crente cresce na Esperança ao voltar uma e outra vez à procura de Cristo em cada ocasião em que sente a sua falta.
O desânimo, antes da desesperança, é uma das maiores e mais fortes tentações que o homem encontra no seu caminhar com Deus e para Deus.

        Por vezes esse desânimo não é fruto da distância com que se contempla Deus, noutras é o «silêncio» de Deus que se torna incompreensível para o homem.
Deus nem sempre é fácil de entender e até as pessoas mais santas, em muitas ocasiões, não compreendem os planos de Deus.

        Todas estas situações cooperam para que o cristão caia na tentação de concentrar o seu esforço na vida terrena e chegue a esquecer-se da perspectiva da Vida Eterna.

        Outras vezes, sãos meios que Deus nos oferece para viver com Ele que nos parecem desproporcionados para conseguir o fim desejado, como sucedeu a Naamã, o general sírio, ante as recomendações do profeta Ezequiel para curar a sua lepra.
Que importância pode ter viver a Missa todos os Domingos e Festas de Guarda?
O que significará deixar de pedir perdão pelos pecados quando Deus já é por si mesmo misericordioso?
Acaso rezar vai resolver todos os problemas?

        A paciência ante a adversidade e a paciência confiada ante a proximidade de Deus é um caminho seguro para suster um homem na Esperança, não é, simplesmente, ter a segurança de receber um prémio pelas batalhas que temos de travar em nome de Cristo.
Uma esperança assim interesseira acabaria por converter-se em desesperança, em abandono.

        O cristão cresce em Esperança na medida em que cresce em Caridade, no Amor, porque descobre que espera de Deus que o ama e quer dar a Deus a alegria de receber da sua mão tudo quanto Deus lhe queira dar.

        A Esperança é uma virtude que fortifica o homem na sua luta contra o pecado e na sua confiança os desejos e a vontade manifestados por Deus nele: a vocação, por exemplo.
Crescendo assim, também passivamente, em Esperança o cristão descobre a verdade da afirmação de São Paulo: «Tudo coopera para o bem dos que amam a Deus» [1] e consegue perseverar, consciente, além disso, de que «Quem começou em nós a boa obra levá-la-á a cabo até ao dia de Cristo Jesus» [2].

        Afirmação que não comporta a realização das nossas aspirações e muito menos de todos os nossos desejos.
A Esperança é a janela aberta para «o novo Céu, a nova terra» que Cristo já enxertou no crente pela acção da Graça e que se apresentarão com todo o seu vigor e todos os seus resplendores na Vida Eterna.

        Abraão santificou-se na Esperança, que soube esperar «contra toda a esperança» porque sabia em Quem acreditava, em Quem confiava, em Quem esperava.

        Depois da Ressurreição de Cristo toda a esperança do cristão assenta no viver com Cristo ressuscitado, com Cristo Eucaristia, na terra e no céu.

        3º Crescer em Caridade.

        O cristão cresce activamente em Caridade com actos de amor a Deus e de amor ao próximo.
A piedade é o canal pelo qual flui o coração do homem nas suas relações com Deus.
A oração é sempre um acto de Caridade com Deus, além de um acto de Fé e de Esperança.

        No desejo de amar a Deus e ao próximo, mandamentos em que se resume toda a lei e os profetas, não o esqueçamos, é onde ocorre a conversão do cristão que chega a descobrir com o Apóstolo São Paulo que «ainda que tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência e ainda que tenha tanta fé que mova montanhas, se não tenho caridade, não sou nada» [3].

        A Caridade transforma sempre.
Deus criou o universo por Amor.
E no Amor, na Caridade, a criação sustém-se em pé e converte-se em perene glória de Deus.
Cristo disse de si próprio, como já recordámos, que tinha vindo «não para ser servido mas para servir».
Conhecemos também o que São João disse aos crentes:
«Não vos maravilheis, irmãos, se o mundo vos aborrece. Sabemos que fomos trasladados da morte à vida porque amamos os irmãos. O que não ama permanece na morte» [4].

        O conceito supremo da Caridade está recolhido nas palavras de Cristo: «amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» [5], e em dar a vida pelos outros: «Nisto conhecemos a Caridade, em que Ele deu a vida por nós e nós devemos dar as nossas vidas pelos nossos irmãos» [6].

        E desse preceito surge o amar os inimigos.
Deus ama a todos, não é inimigo de ninguém.
Cristo perdoa a todos e morre pela salvação de todos.
O cristão, ao amar com o Coração de Cristo e como Cristo ama não pode ter nenhum outro ser humano como inimigo.


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] Rom 8,28
[2] Flp 1, 6
[3] 1 Cor 13, 2
[4] 1 Jo 3, 13-14
[5] Jo 13, 34
[6] 1 Jo 3, 16

01/11/2014

Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Todos os Santos

Evangelho: Mt 5 1-12

1 Vendo Jesus aquelas multidões, subiu a um monte e, tendo-Se sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. 2 E pôs-Se a falar e ensinava-os, dizendo: 3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário

Este discurso de Jesus Cristo deve ter tido tal impacto naqueles que O escutaram que não admira que, terminado este, quisessem fazê-lo rei.
Ainda hoje em dia, com toda a sabedoria e conhecimentos que fomos acumulando, os cristãos encontram nestas palavras inúmeros temas de reflexão e, sobretudo, de esperança.
Sentimos que, de uma forma ou outra, o Senhor se referiu a cada um de nós em particular, às nossa dificuldades e problemas e, também, à forma de encarar as múltiplas circunstâncias que se nos vão deparando ao longo da vida.
Não admira… Ele, é o Senhor da Vida e da Morte, do passado, do presente e do futuro; tudo sabe e tudo conhece e, sobretudo, conhece-nos a nós, a cada um individualmente e sabe muito bem o que necessitamos para ser felizes.

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12, 2013.11.01)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte III

…/2

O dia que se seguiu à minha primeira Comunhão foi ainda um dia bonito, mas repassado de melancolia. A roupa linda que Maria comprara para mim, todos os presentes recebidos, não me enchiam o coração. Não havia senão Jesus que pudesse contentar-me. Anelava pelo momento em que me fosse dado recebê-lo pela segunda vez. Cerca de um mês após minha primeira comunhão fui confessar-me para a festa da Ascensão, e animei-me a pedir licença de fazer a Santa Comunhão. Contra toda a expectativa, o senhor sacerdote mo permitiu, e coube-me a felicidade de ajoelhar à Sagrada Mesa entre Papai e a Maria. Que doce recordação guardei da segunda visita de Jesus! Desta vez ainda, corriam minhas lágrimas com inefável doçura. Sem cessar repetia a mim mesma as palavras de São Paulo: "Já não sou eu que vivo, Jesus é quem vive em mim!..." A partir dessa Comunhão, meu desejo de receber o Bom Deus tornou-se cada vez maior; obtive permissão de fazê-lo em todas as festas principais. Na véspera desses ditosos dias, Maria punha-me à noite sobre os joelhos e preparava-me, como o fizera para minha primeira Comunhão. Tenho lembrança de que me falou, certa vez, a respeito do sofrimento, dizendo-me que provavelmente não andaria por tal caminho, mas que o Bom Deus sempre me guiaria, como se faz com uma criança...

No dia seguinte, depois de ter comungado, as palavras de Maria voltaram-me ao pensamento. Senti nascer no coração grande desejo de sofrer e, ao mesmo tempo, a íntima segurança de que Jesus me reservava grande número de cruzes. Senti-me inundada de tão grandes consolações, que as considero como uma das maiores graças de minha vida. O sofrer tornou-se-me um atractivo. Tinha encantos que me arrebatavam, sem os conhecer com clareza. Até então, sofria sem amar o sofrimento; desde aquele dia senti por ele verdadeiro amor. Sentia também o desejo de amar só a Deus, de não encontrar alegria senão Nele. Muitas vezes, repetia em minhas comunhões as palavras da Imitação de Cristo: "Ó Jesus! Doçura inefável, convertei-me em amargura todas as consolações da terra!..." Esta oração saía-me dos lábios sem esforço, sem constrangimento. Vinha-me a impressão de que a repetia, não por minha vontade, mas como criança que repete as palavras que uma pessoa amiga lhe sugere... Mais adiante, a minha querida Mãe, dir-vos-ei como aprouve a Jesus realizar meu desejo, como só Ele foi sempre minha inefável doçura. Se disso vos falasse desde já, seria obrigada a antecipar-me ao tempo de minha adolescência. Ainda me restam muitas particularidades de minha infância que vos devo contar.

Pouco tempo depois da minha primeira Comunhão entrei em novo retiro para a Crisma. Tinha-me preparado, com bastante empenho, para receber a visita do Espírito Santo. Não conseguia compreender que se não dê maior cuidado à recepção deste sacramento de Amor. De ordinário, fazia-se um só dia de retiro para a Crisma. Como, porém, o Senhor Bispo não podia vir no dia marcado, coube-me o consolo de ter dois dias de solidão. Para nos distrair, a nossa mestra levou-nos ao Monte Cassino, onde colhi grandes margaridas para a festa do Corpo de Deus. Oh! Como estava exultante a minha alma! Igual aos apóstolos, eu aguardava, venturosa, a visita do Espírito Santo... Folgava com a ideia de que dentro em breve seria perfeita cristã, sobretudo que eternamente teria na fronte a misteriosa cruz que o bispo traça, quando faz a imposição do Sacramento ... Chegou afinal o ditoso momento. Não senti, quando desceu o Espírito Santo nenhum vento impetuoso, mas antes aquela leve brisa, cujo murmúrio o profeta Elias ouviu no monte Horeb... Nesse dia, recebi a força para sofrer, pois logo em seguida devia começar o martírio de minha alma... Foi minha querida e gentil Leónia que me serviu de madrinha. Estava tão comovida que não pôde conter a efusão de lágrimas todo o tempo da cerimônia. Recebeu, comigo, a Santa Comunhão, pois nesse belo dia tive ainda a felicidade de unir-me a Jesus.

Terminadas as deliciosas e inolvidáveis festas, a minha vida retornou ao ritmo ordinário, isto é, tive de retomar a vida colegial, que tanto me custava. Quando fiz minha Primeira Comunhão, apreciava a convivência com crianças de minha idade, todas cheias de boa vontade, tendo tomado, como eu, a resolução de praticar seriamente a virtude. Mas, era preciso pôr-me em contato com alunas bem diferentes, dissipadas, não desejosas de cumprir o regulamento, e isto me deixava muito desconsolada. Tinha um génio folgaz, mas não sabia entregar-me aos brinquedos próprios de minha idade. No recreio, apoiava-me muitas vezes contra uma árvore e contemplava o andamento do jogo, enquanto me engolfava em sérias reflexões! Inventara um jogo que me agradava. Era o de enterrar as pobres avezinhas que encontrávamos mortas debaixo das árvores. Muitas alunas tiveram gosto em ajudar-me, de sorte que nosso cemitério se tornou muito bonito, plantado de árvores e flores, proporcionais ao tamanho de nossos pequenos emplumados.
Gostava, outrossim, de contar histórias. Inventava-as na medida que me acudiam à imaginação. As minhas colegas rodeavam-me com entusiasmo, e de vez em quando alunas maiores integravam-se ao grupo de ouvintes. Ia continuando a mesma história por vários dias, pois tinha prazer em torná-la cada vez mais interessante, na proporção que via as impressões despertadas, marcadas na fisionomia de minhas companheiras. Sem embargo, a mestra logo me proibiu continuar a minha actividade oratória, pois queria ver-nos brincar e correr, e não discorrer...

Apanhava com facilidade o sentido das matérias que aprendia, mas tinha dificuldade em decorar os textos. Por isso, quanto ao catecismo, no ano que precedeu minha Primeira Comunhão, pedia quase todos os dias a permissão para decorá-lo no tempo dos recreios. Os meus esforços coroaram-se de bom êxito, e fui sempre a primeira. Perdendo casualmente meu lugar, por causa de uma única palavra esquecida, minha dor manifestava-se por lágrimas amargas, que o Padre Domin não sabia como estancar... Estava muito satisfeito comigo (quando não chorava), e chamava-me sua doutorazinha, por causa de meu nome Teresa. Certa vez, a aluna que vinha depois de mim, não soube formular a arguição de catecismo para sua colega. Depois de passar, em vão, toda a roda das alunas, o Sr. Padre voltou-se novamente para mim, declarando que ia verificar se eu merecia o lugar de primeira da classe. Em minha profunda humildade, era só o que esperava. Levantei-me com segurança, respondi às arguições, sem cometer erro nenhum, com grande surpresa de todo o mundo... Feita a minha Primeira Comunhão, continuei o meu zelo pelo catecismo até a saída do colégio. Dava boa conta dos estudos. Era quase sempre a primeira. Os meus maiores sucessos eram em História e redacção, Todas minhas mestras tinham-me como aluna muito inteligente. Outro tanto não acontecia em casa de Titio, onde passava por ignorantinha, boa e meiga, dotada de juízo recto, mas incapaz e desajeitada... Não me surpreende a opinião que Titio e Titia tinham e certamente ainda terão a meu respeito. Por ser muito tímida, quase não falava. Quando escrevia, meu rabisco e minha ortografia - nada mais natural - não eram de feição que encantassem... Verdade é que, em costurinhas, em bordados e noutras tarefas, me desempenhava bem, a gosto de minhas mestras. Mas, o modo desajeitado com que manejava meu trabalho de agulha justificava a opinião pouco lisonjeira que tinham de mim. Considero tudo isso como uma graça. Uma vez que o Bom Deus queria meu coração só para Si, já atendia a minha oração, quando "trocava em amargura as consolações da terra". Para mim, isso tornava-se tanto mais necessário, quanto mais não me conservaria insensível a louvores. Muitas vezes, gabavam diante de mim a inteligência das outras, e jamais a minha. Daí concluí que a não tinha, e resignei-me a carecer dela...

Meu coração, sensível e amoroso, facilmente ter-se-ia entregue, se tivesse encontrado um coração capaz de compreendê-lo... Tentei ligar-me a meninas de minha idade, principalmente a duas dentre elas. Tinha-lhes amor, e elas por sua vez me amavam tanto, quanto eram capazes de fazê-lo. Mas, que lástima! Como é mesquinho e volúvel o coração das criaturas!... Não demorei em perceber que o meu amor era incompreendido. Uma de minhas amigas precisou procurar a família, e voltou alguns meses depois. Durante a sua ausência, pensava nela e guardava cuidadosamente um anelzinho que me dera. Quando tornei a ver a minha companheira, grande foi minha alegria, mas não obtive, ainda mal, senão um olhar indiferente... Meu amor não fora compreendido. Percebi-o, e não mendiguei uma afeição que me era negada. O Bom Deus, porém, deu-me um coração tão leal que, amando com pureza, ama para sempre. Por isso, continuei a rezar pela minha companheira, e ainda lhe tenho afeição... Ao ver que Celina queria bem a uma de nossas mestras, quis imitá-la, mas não pude consegui-lo, pois não sabia conquistar as boas graças das criaturas. Ó ditosa ignorância! Como me livrou de grandes males!... Quanto não agradeço a Jesus de me fazer encontrar só "amargura nas amizades da terra"! Com um coração como o meu, deixar-me-ia prender e cercear as asas. Como pode ria, então, "voar e repousar?" Como pode unir-se intimamente a Deus, um coração entregue à afeição das criaturas?... Tenho, o sentimento de que não é possível. Sem beber da taça envenenada do amor por demais ardente das criaturas, sinto em mim que me não é possível estar equivocada. Vi tantas almas que, seduzidas por essa luz falsa, esvoaçaram como míseras mariposas e queimaram as asas. Depois, volveram-se à verdadeira e meiga luz do amor. Esta deu-lhes novas asas, mais brilhantes e mais ligeiras, a fim de poderem voar para junto de Jesus, Fogo Divino, "que arde sem se consumir". Oh! Eu o sinto, Jesus conhecia-me como fraca demais para me expor à tentação. Quiçá, deixar-me-ia queimar toda inteira pela enganadora luz, se a visse fulgurar diante dos olhos... Não aconteceu assim. Só encontrei amargura, onde almas mais robustas deparam com alegria, e desta se desfazem por fidelidade. Não tenho, portanto, nenhum mérito em me não ter entregue ao amor das criaturas, uma vez que só fui preservada pela grande misericórdia do Bom Deus!... Reconheço que, sem Ele, poderia cair tão baixo como Santa Madalena. E com grande doçura ecoa em minha alma a profunda palavra de Nosso Senhor a Simão... Eu o sei, "menos ama aquele, a quem menos se perdoa". Mas, não ignoro também que a mim Jesus perdoou mais do que a Santa Madalena, pois me perdoou por antecipação, porquanto me impediu que caísse. Oh! Pudera explicar o que sinto!... Dou aqui um exemplo que traduzirá um pouco meu modo de pensar. - Suponho que o filho de um entendido doutor depare no caminho com uma pedra, que o faz cair e fracturar um membro. De pronto lhe acorre o pai, ergue-o com amor, pensa-lhe as lesões, aplicando todos os recursos de sua arte. E o filho, completamente curado, logo lhe testemunha sua gratidão. Não resta dúvida, o filho tem todo o motivo de querer bem ao Pai! Farei, contudo, outra suposição ainda. Sabendo que, no caminho do filho, se encontra uma pedra, o pai apressa-se em tomar a dianteira, e remove-a, sem que ninguém o veja. O filho, por certo, objecto de seu previdente carinho, não  tendo conhecimento da desgraça, da qual o pai o livrara, não lhe mostrará gratidão, e ter-lhe-á menos amor do que se fora curado por ele... No entanto, se souber o perigo, do qual acaba de escapar, não o amará ainda mais? Ora, tal filha sou eu, objecto do amor previdente de um Pai, que enviou seu Verbo para resgatar não os justos, mas os pecadores ". Quer que eu o ame, porque me perdoou, não digo muito, mas tudo. Não esperava que eu muito o amasse, como Santa Madalena, mas quis que soubesse como me amou com um amor de inefável previdência, a fim de que agora o ame até a loucura!... Ouvi dizer que se não encontra alma pura mais amorosa do que uma alma arrependida. Oh! Quem me dera desmentir a afirmação!...

Percebo estar muito longe do meu assunto, motivo pelo qual me apresso em retomá-lo. O ano seguinte à minha Primeira Comunhão escoou-se quase todo sem provações interiores para minha alma. No retiro para a segunda Comunhão é que fui assaltada pela terrível doença dos escrúpulos... É preciso passar por tal martírio, para o compreender. Ser-me-ia impossível dizer quanto não sofri em ano e meio... Todos os meus pensamentos e as minhas mais acções mais simples se tornavam para mim motivo de perturbação. Só tinha sossego, quando os contava à Maria, e isto era-me muito penoso, por sentir a obrigação de lhe dizer todas as ideias extravagantes que me vinham à mente a respeito dela própria. Alijado o meu fardo, desfrutava um instante de paz, mas a paz desvanecia-se como um relâmpago, e logo começava novamente meu martírio. De quanta paciência não precisava minha querida Maria, para me ouvir, sem dar mostras de nenhum aborrecimento!... Mal chegava eu da Abadia, punha-se ela a arrumar-me os cabelos para o dia seguinte (pois, querendo agradar ao Papai, a rainhazinha andava todos os dias com os cabelos em cachinhos, para grande admiração das colegas, mormente das professoras que não viam crianças tão mimadas pelos pais). E durante a arrumação não parava de chorar, contando todos os meus escrúpulos. Como tivesse terminado os estudos, Celina voltou para casa no fim do ano, e a pobre Teresa, obrigada a ficar sozinha, não demorou a ficar doente, pois o único interesse que a mantinha interna consistia em estar com sua inseparável Celina, sem a qual "sua filhinha" já não poderia ali continuar... Deixei, pois, a Abadia na idade de 13 anos e continuei meus estudos, tomando várias aulas semanais em casa da Sra. Papinau". Era uma pessoa boníssima, muito culta, com uns ares de solteirona. Vivia com a mãe, e encantava ver-se o pequeno lar, que juntas constituíam a três (pois a gata fazia parte da família e eu tinha de suportar as suas sonecas em cima dos meus cadernos e, inclusive, admirar o seu porte). Tinha a vantagem de viver na intimidade da família. Como os Buissonnets ficavam muito longe para as pernas já um tanto envelhecidas da minha professora, ela pedira que fosse tomar as aulas em sua casa. Ao chegar, encontrava ordinariamente a velha senhora Cochain. Fitava-me "com os seus olhos grandes e límpidos", e depois chamava com voz descansada e sentenciosa: "Senhô rra Papineau... a Se nho rrita Teresa já chegou!". A sua filha respondia-lhe prontamente, com voz acriançada: "Já vou, Mamã". E logo começava a aula. Essas lições tinham a vantagem (além dos conhecimentos que adquiria) de fazer-me conhecer o mundo... Quem o diria?... Na sala, mobiliada à moda antiga, rodeada de livros e cadernos, presenciava muitas vezes visitas de todos os géneros, de sacerdotes, senhoras, moças, etc. Na medida possível, a conversa ficava por conta da Sra. Cochain, a fim de que a filha pudesse dar-me aula, mas, em tais dias, não aprendia grande coisa. Com o nariz metido no livro, ouvia tudo o que se falava, até o que para mim seria melhor não escutar. A vaidade insinua-se tão facilmente no coração!... Dizia uma senhora que eu tinha cabelos bonitos... Na saída, uma outra, julgando não ser ouvida, indagava quem era essa menina tão bonita. E tais palavras, tanto mais lisonjeiras, quanto não eram ditas diante de mim, deixavam-me na alma uma impressão de gozo, que claramente me indicava como eu era cheia de amor-próprio. Oh! Quanta compaixão não sinto das almas que se perdem!... É tão fácil perder-se nas sendas floridas do mundo... Não há dúvida, para uma alma mais formada a doçura que ele oferece, vem mesclada de amargura, e o imenso vácuo dos desejos não poderia preencher-se com louvores momentâneos... No entanto, se o meu coração desde o seu despertar não se erguera até Deus, se o mundo me tivera sorrido desde minha entrada na vida, que teria acontecido comigo?... Ó minha Mãe querida, com que gratidão canto as misericórdias do Senhor!... De acordo com as palavras da Sabedoria, não foi ele que "me retirou do mundo, antes que meu espírito se pervertesse com sua malícia, e que ad suas enganosas aparências me seduzissem a alma?" A Santíssima Virgem também velava a sua florzinha. Não querendo que perdesse o brilho ao contato com as coisas da terra, retirou-a para o alto da sua montanha, antes que desabrochasse... Enquanto aguardava o ditoso momento, Teresinha crescia no amor à sua Mãe do Céu. Para lhe dar prova desse amor, praticou uma acção que muito lhe custou, e que a despeito de sua extensão vou historiar em poucas palavras... Quase logo depois de minha admissão na Abadia, fui recebida na associação dos Santos Anjos. Apreciava muito as práticas de devoção que se me impunham, pois sentia um atractivo todo particular em rezar aos bem-aventurados espíritos celestiais, especialmente àquele que o Bom Deus me dera para ser companheiro do meu exílio. Algum tempo depois da minha Primeira Comunhão, a fita de aspirante a Filha de Maria substituiu a dos Santos Anjos. Antes, porém, de ser admitida na Associação da Santíssima Virgem, deixei a Abadia. Por ter saído antes de concluir os estudos, não tinha o direito de ingressar como antiga aluna. Considerando, contudo, que todas as minhas irmãs tinham sido "Filhas de Maria", tive receio de ser, menos do que elas, filha de minha Mãe do Céu, e fui com toda a humildade (apesar do muito que me custava) pedir a licença de ser recebida na Associação da Santíssima Virgem na Abadia. A mestra directora não quis recusar-me, mas pôs como condição que, duas vezes por semana, me recolhesse uma tarde na Abadia, para mostrar se era digna de ser admitida. Bem ao invés de me causar prazer, a concessão foi-me custosa ao extremo. Não tinha, como outras antigas alunas, uma professora amiga, com a qual pudesse passar algumas horas. Contentava-me, por conseguinte, em cumprimentar a mestra, e depois trabalhava em silêncio até ao final da lição programada. Ninguém me dava atenção, e por isso subia à tribuna do coro da capela, ficando diante do Santíssimo Sacramento até o momento em que Papai ia buscar-me. Esta era minha exclusiva consolação. Não era Jesus meu único amigo? Não conseguia falar senão com Ele. Fatigava-me a alma conversar com as criaturas, ainda que se tratasse de conversas piedosas... Sentia que era maior vantagem falar com Deus do que falar de Deus, pois em conversas espirituais se intromete muito amor próprio!... Oh! bem era, única e exclusivamente, pela Santíssima Virgem que me apresentava na Abadia... Por vezes, sentia-me sozinha. Muito sozinha. Como nos dias de minha vida de semi-interna, quando triste e doente espairecia no grande pátio, repetia as palavras que sempre me fizeram renascer paz e alento no coração: "A vida é o teu navio, não é tua morada!"... Quando ainda pequenina, estas palavras restituíam-me a coragem. Ainda agora, a despeito dos anos que apagam tantas impressões da piedade infantil, a imagem da embarcação enleva a minha alma, ajudando-lhe a suportar o exílio em paciência... Não nos diz também a Sabedoria que "a vida é como uma nau que sulca as ondas agitadas, e de cuja rápida passagem não fica nenhum vestígio?... " Quando penso tais coisas, minha alma submerge no infinito. Afigura-se-me que já abordo a praia da eternidade... Afigura-se-me receber os amplexos de Jesus... Creio avistar minha Mãe do Céu que me vem ao encontro na companhia do Papá... da Mamã... dos quatro anjinhos... Creio, afinal, gozar para sempre da verdadeira vida eterna em família...

(cont.)