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15/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)




Tempo comum XI Semana


Evangelho: Mt 5, 38-42

38 «Ouvistes que foi dito: “Olho por olho e dente por dente”. 39 Eu, porém, digo-vos que não resistais ao homem mau; mas, se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra; 40 e ao que quer chamar-te a juízo para te tirar a túnica, cede-lhe também a capa. 41 Se alguém te forçar a dar mil passos, vai com ele mais dois mil. 42 Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem deseja que lhe emprestes.

Comentário:

São Mateus dá-nos conta do que, talvez, seja um dos conselhos/preceitos do Senhor!

Não se trata de permanecer impassível como se o mal de que somos alvo não nos atingisse mas o contrário: retribuir-mos esse mal com o bem, sem submissão ou por medo mas com a  consciência certa que o bem vence sempre o mal e quanto mais nos custe mais mérito alcançamos.

(ama, comentário sobre MT 5, 38-42, 2014.06.16)



Leitura espiritual




a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS




xii epílogo

…/2
       
        E a primeira conversão que se coloca na consciência de ser criatura origina-se na Fé em Deus Pai, na Esperança em Deus Filho e é engendrada na Caridade em Deus Espírito Santo.
O homem aceita a Criação e reconhece o seu pecado.
O coração clama por chegar a ser como Deus deseja ainda que sem saber exactamente o que vai ser do homem movido pelo amor de Deus.

        E assim sucessivamente qualquer nova conversão é uma descoberta dos horizontes da Fé, da Esperança, da Caridade e um abrir-se à perspectiva de viver em Cristo, com Cristo, por Cristo.

        Este caminho de conversões – insistimos – nunca termina pelo simples facto de que nunca chegamos a ser plenamente cristãos ainda que não deixemos de estar enxertados em Cristo, de ser templos do Espírito Santo e more em nós a Santíssima Trindade.
Deus não nos tira nada do nosso ser nem nos exige deixarmos de ser nós próprios.
Sendo plenamente nós mesmos, jamais chegamos a ser, ontológica e vitalmente, o mesmo Cristo.
Cristo vive em e connosco e quer que vivamos nele e com Ele e nunca se substitui a nós mesmos.

        O homem é consciente das dificuldades com que se encontra e das limitações que descobre em si próprio para que, ainda que mantendo viva fé na divindade de Jesus Cristo e na sua Ressurreição, desenvolver a capacidade que tem para se dirigir a Deus.
E também é consciente de que ainda que no meio das trevas originadas pelo pecado na sua mente, se encontra na disposição e com capacidade para amar.

        O homem que se relaciona com Deus abre-se a horizontes nunca suspeitados, inclusive quando considera que essas relações são mais rotineiras que vividas, mais fruto do costume que de um verdadeiro e renovado acto de amor.

Para onde nos dirigem esses horizontes?
Ou, melhor dito, em que consistem esses horizontes, qual é a sua verdadeira riqueza e mistério?
Se vivemos em Cristo, Deus acolhe-nos paternalmente como filhos.
Penetrar na mente de Deus, nos caminhos de Deus sobre o mundo, sobre a criação é, certamente, difícil e nem por isso temos de deixar de lado o esforço que comporta, conscientes, além disso, de que para esse fim fomos criados por Deus.

        O homem tem sempre duas opções abertas diante de si:
        - viver com Cristo;
        - viver sozinho consigo próprio.

        Não é possível que o homem se realize no âmbito puramente social e cultural das construções humanas.
O homem pode descobrir como o mundo está feito e as leis que regem a criação, o mundo que o rodeia.
Sá o Criador, Deus, pode dar-lhe a conhecer «porque» existe e «para que» existe.
«Não temos aqui cidade permanente mas andamos procurando a do futuro» [1].

        O homem só descobre a realidade do seu mistério quando aceita com serenidade saber-se incapaz para certas coisas, para certos voos da inteligência, do coração, quando se alegra com descobrir que o seu ser é limitado e que as suas capacidades estão encerradas no seu ser.
Ao pôr-se em contacto directamente com Deus, sabe-se «filho de Deus» com capacidade de viver «em família com Deus».

        O homem que, consciente de viver com Cristo e em Cristo, transforma a sua vida em Redenção, em glorificação, desenvolve as sementes que Deus pôs na sua alma com a graça: a Fé, a Esperança, a Caridade, terá o gozo e dará a Deus o gozo de ser homem, de ser cristão, de ser santo.

        A devoção pessoal de cada cristão com a Mãe de Deus é um estremeção no seu coração.
Ela chama à realidade do nosso ser com o ser Mãe de Deus e convida-nos a abrir o nosso espírito, o núcleo mais íntimo da nossa pessoa, para acolher o Espírito Santo como Ela fez: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» [2].

        Essa é a disposição da alma cristã para deixar Deus fazer nela a sua obra.


***

Maria é mãe da Igreja.
E é lógico concluir estas páginas com uma brevíssima referência explícita a que a vida pessoal cristã de cada crente se desenvolve na harmoniosa unidade de toda a Igreja.
Tema que, logicamente, requer um estudo próprio e detalhado que aqui fica apenas assinalado.

        Já nos Actos dos Apóstolos consta que os primeiros cristãos eram «um coração e uma alma» [3]; e podemos acrescentar que essa «unidade» se dá no coração do Senhor sendo todos «filhos de Deus em Cristo» e se realiza no âmbito da Igreja, família de Deus.

        O Concílio Vaticano II recorda estes planos de Deus quando afirma:
«E estabeleceu os que creem em Cristo na santa Igreja que já foi prefigurada desde a origem do mundo, admiravelmente preparada na história do povo de Israel, na Antiga Aliança» [4].

        Na Igreja o homem nasce a Cristo e em Cristo desenvolve-se e cresce.
E ao mesmo tempo participa com todos os cristãos e com todos os homens na vida de Cristo.
Vive a comunhão dos santos e alimenta-se sempre dessa comunhão.
Na Eucaristia, «o corpo social da Igreja reunido em volta dos seus pastores visíveis para «o alimento do Senhor» converte-se realmente no Corpo místico de Cristo.
E Cristo fá-lo «próprio».
É então quando a Igreja se torna verdadeiramente ‘corpo de Cristo’» [5].

        É na Igreja onde se realiza essa unidade no corpo de Cristo:

«Aos seus irmãos congregados de todos os povos, constitui-os misticamente o seu corpo, comunicando-lhes o seu espírito.
Nesse corpo a vida de Cristo comunica-se aos crentes os quais estão unidos a Cristo paciente e glorioso pelos sacramentos de um modo antigo mas real» [6].

FIM


ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] Heb 13, 14
[2] Lc 1, 38
[3] Act 4, 32
[4] Lumen gentium, n. 2
[5] henri de lubac, Meditazione sulla Chiesa, Jaca Book 1979, cap. IV
[6] Lumen gentium, n. 7

14/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum XI Semana


Evangelho: Mc 4, 26-34


26 Dizia também: «O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. 27 Dorme e se levanta, noite e dia, e a semente germina e cresce sem ele saber como. 28 Porque a terra por si mesma produz, primeiramente a haste, depois a espiga, e por último a espiga cheia de grãos. 29 E, quando o fruto está maduro, mete logo a foice, porque chegou o tempo da ceifa». 30 Dizia mais: «A que coisa compararemos nós o reino de Deus? Com que parábola o representaremos? 31 É como um grão de mostarda que, quando se semeia no campo, é a menor de todas as sementes que há na terra; 32 mas, depois que é semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças, e cria ramos tão grandes que “as aves do céu podem vir abrigar-se à sua sombra”». 33 Assim lhes propunha a palavra com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de compreender. 34 Não lhes falava sem parábolas; porém, em particular explicava tudo aos Seus discípulos.

Comentário:

Damo-nos conta da extraordinária Graça que nos é concedida: saber-mos de “fonte segura” o que é o Reino de Deus?
Passaram centenas e centenas de anos em que uma incomensurável multidão de seres humanos não sabia exactamente o que era e em enorme maioria nem sequer suspeitava da sua existência.
Foram esses homens um pouco “desconfiados” e de escassa cultura que nos transmitiram esse conhecimento al como o ouviram repetidas vezes dos lábios de Cristo.
Como devemos agradecer, venerar e exaltar esses Discípulos e Apóstolos a quem tanto devemos!

(ama, comentário sobre Mc 4, 26-34, Malta, 20152.01.30)


Leitura espiritual




a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS



xi a devoção à santíssima virgem


.../2

        «Dependendo totalmente de Deus e plenamente orientada para Ele pelo estímulo da sua fé, Maria, ao lado do seu Filho, é a imagem mais perfeita da liberdade e da libertação da humanidade e do cosmos.
A Igreja deve olhar para ela, Mãe e Modelo, para compreender integralmente o sentido da sua missão» [1].

        E Von Baltasar escreve:
«Existe acordo que a resposta final da Maria ao anjo e através dele a Deus, foi a expressão plena da fé de Abraão e de todo Israel. (…). A Palavra de Deus que quer fazer-se carne    em Maria necessita de um sim receptivo que seja pronunciado pela pessoa inteira, espírito e corpo, simplesmente sem nenhuma restrição (nem sequer inconsciente) e que ofereça a totalidade da natureza humana como lugar da humanização» [2].

        Mãe e Modelo que podemos unir, simplesmente, com a geração e educação, que assinalámos, e que a Santíssima Virgem desenvolve ao longo de toda sua vida em cada acção do seu viver.

        Pondo-se em seguida a caminho para procurar o seu Filho perdido no Templo é mestra de piedade de todo o povo cristão.
Uma vez encontrado o Senhor, o crente ouve dos lábios da Virgem palavras que serão fundamento de uma esperança viva:

«Fazei o que Ele vos disser» [3].

        Como fruto da sua vida de Fé, de Esperança, de Caridade, a Santíssima Virgem foi uma proposta à contemplação do cristão como modelo de todas as virtudes: magnanimidade, amabilidade, paciência, serenidade, pacífica, etc.
É interessante salientar, especialmente, que mais que nos hábitos «de fazer» - virtudes -, a devoção a Maria, o privar com ela, ensina o cristão de modo adequado a «ser e de estar perante Deus».

        «Porque Maria é Mãe a sua devoção ensina-nos a ser filhos: a querer verdadeiramente, sem medida, ser simples sem essas complicações que nascem do egoísmo de pensar só em nós mesmos, a estar alegres sabendo que nada pode destruir a nossa esperança» [4].

        Maria, Virgem e Mãe é realmente o paradigma da relação de Deus com a criatura humana e da resposta confiada da criatura a Deus que Eva Lhe negou no Paraíso.
Maria com a sua «comunicação de Graça», prepara o espírito do filhos de Deus em Cristo seu Filho, para viver com Deus Pai, Filho e Espírito Santo, a Criação, a Redenção, a Santificação das Criaturas e levar assim a cabo a Glorificação de Deus tornando possível que «Deus seja tudo em todas as coisas» [5].

        Com toda a verdade que de Maria foram ditas as palavras dos profetas sobre Jerusalém:

        «Naquele tempo, chamarão a Jerusalém «trono de Yahvé» e incorporar-se-ão nela todas as nações sem seguir mais a dureza dos seus corações» [6].

        «Levanta-te, resplandece Jerusalém que chegou a tua luz e a glória de Yahvé amanheceu sobre ti (…).
Levanta os teus olhos em volta e contempla, todos estes se congregaram e vieram a ti, os teus filhos virão de longe e as tuas filhas levantar-se-ão do teu lado» [7].

        «Alegra-te Jerusalém e regozijai-vos por ela todos que a amais, enchei-vos de alegria por ela todos os que por ela fazeis luto» [8].

        Podemos concluir estas páginas com palavras de São Josemaria Escrivá que recordam o sentido da devoção à Santíssima Mãe de Deus na vida pessoal de cada crente:

        «Os que consideram superadas as devoções à Santíssima Virgem dão sinais que perderam o profundo sentido cristão que encerram, que esqueceram a fonte de onde nascem: a fé na vontade salvadora de Deus Pai, o amor a Deus Filho que se fez realmente homem e nasceu de mulher, a confiança em Deus Espírito Santo que nos santifica com a sua graça.
Foi Deus quem nos deu Maria e não temos direito de rejeitá-la, mas sim temos de acudir a ela com amor e com alegria de filhos» [9].


xii epílogo


        Ao longo destas páginas tratámos de descobrir o sentido das relações de Deus com o homem e do homem com Deus e, mais concretamente, com Deus Pai, Filho e Espírito Santo que nosso Senhor Jesus Cristo nos revelou.

        O que é ser cristão?
Como ser cristão?

Pretendemos dar resposta a essas perguntas e fechamos o livro com a esperança que o leitor tenha feito suas essas duas questões e, se todavia não lhe foi dada uma resposta pessoal, se tenham de tal modo gravado no seu espírito que já não ceda o empenho.

        As perguntas e as respostas referem-se ao núcleo central e constitutivo da realidade cristã.
Núcleo que na sua essência é idêntico para todos os crentes em Cristo Jesus, para todos os filhos de Deus em Cristo, independentemente das suas qualidades pessoais, vocacionais, culturais, sociais, profissionais, civis, etc.

        Sacerdotes religiosos, leigos, casados, solteiros, homens e mulheres, monjas e mães de família constituem-se como cristãos se vivem a realidade de ser cristão que quisemos expressar ao longo destas páginas.
Cada um fá-lo-á à sua maneira, com uma variedade de matizes que pode ser tão ampla como seres humanos há no mundo.
As diferentes e múltiplas «espiritualidades» na sua grande diversidade e riqueza, em suma, reflexo da grandeza de Deus, têm como fundamento a realidade que pretendemos manifestar.

        Vimos que as relações entre Deus e os homens começam sempre em e a partir de Deus.
A vida com Deus é um dom que desde Deus Pai, Filho e Espírito Santo chega até ao homem.
Em nenhum momento surge da terra e chega a Deus. «Amamos a Deus porque antes Deus nos amou a nós» [10].
E ao dizer «amamos» queremos também acrescentar um certo conhecimento do Ser amado que também nos vem de Deus, por iniciativa de Deus que se nos dá a conhecer na Criação, em Cristo Redentor, no Espírito Santo Santificador.

        Descoberta a grandeza da Criação e a realidade de ser criaturas, filhos de Deus, livres e em liberdade, conhecemos também a realidade do pecado.
O pôr em prática a capacidade do homem de rejeitar os planos de Deus.

        E, ao mesmo tempo, apreciámos que o mais importante da redenção não é a libertação do pecado.
Esse passo entende-se na sua plenitude e na sua grandeza porque nos tira obstáculo que nos impede de desenvolver em toda a magnanimidade a condição de «filhos de Deus em Cristo» que recebemos com a Graça e, na Graça e com a Graça poder descobrir o Amor que Deus nos tem e gozarmos nesse amor.

        E inclusive, e com anterioridade vital, descobrir o «ser que somos» e desenvolver todas as sementes da vida que Deus nos doou no «nosso ser», para que ao retirar-lhes toda a riqueza escondida que contêm, descubramos realmente o «ser que somos», cheguemos a ser de certo modo «a ser o que somos».

        «Vede que amor o Pai nos teve para nos chamar filhos de Deus, pois, o somos!
O mundo não nos conhece porque não o conheceu a Ele.
Queridos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que seremos.
Sabemos que, quando se manifeste, seremos semelhantes a Ele porque o veremos tal qual é» [11].

        Toda a obra de Deus: Criação, Redenção, santificação tende a um único fim: descobrir e viver o gozo de Deus no pleno desenvolvimento dos homens como verdadeiros «filhos de Deus em Cristo Jesus», em amar-nos e deixar assim expedito o caminho para que «Deus seja tudo em todas as coisas» [12].

        Daí a necessidade de nos convertermos e que toda avida do cristão seja uma conversão constante nunca totalmente concluída, que não se desenvolve somente no campo da moral, do obrar, mas no ser, no campo da entidade do ser humano: «é Cristo quem vive em mim».
Conversão fruto da acção da Graça em nós.
Graça que jamais deixa de actuar no nosso espírito, se não lhe pusermos obstáculo, até que toda a massa esteja fermentada.

        Conversão à Fé, à Esperança e à Caridade.
«O justo vive da fé» [13].

E, no final, Cristo viverá verdadeiramente em nós.


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] joão paulo ii, Ecclesia de Eucharistia, n. 55
[2] hans urs von baltasar, María, Iglesia naciente, Encuentro, Madrid 1999, p. 81
[3] Jo 2, 5
[4] são josemaria escrivá, Cristo que passa, n. 143
[5] 1 Cor 15, 28
[6] Jr 3, 17
[7] Is 60, 1-6
[8] Is, 66, 10
[9] são josemaria escrivá, Cristo que passa, n. 142
[10] Cfr. 1 Jo 4, 10
[11] 1 Jo 3, 1-2
[12] 1 Cor 15, 28
[13] Rom 1, 17

13/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)




Tempo comum X Semana

Santo António de Lisboa

Evangelho: Mt 5, 13-19

13 «Vós sois o sal da terra. Porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e ser calcado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas no candelabro, a fim de que dê luz a todos os que estão em casa. 16 Assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus. 17 «Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas sim para cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe uma só letra ou um só traço da Lei, sem que tudo seja cumprido. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos mesmo dos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas o que os guardar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus.

Comentário:

O sal da terra! Que missão! Que encargo!

Que posso eu, pobre de mim, com as minhas misérias e fraquezas temperar neste grande banquete da vida humana?

Por mim, sozinho, absolutamente nada mas, contigo, Senhor, serei um condimento raro e de enorme eficácia.

Que assim seja não para minha satisfação mas para o bem das almas e a Tua glória.

(ama, comentário sobre Mt 5, 13-19, 2014.06.13)



Leitura espiritual





a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS



xi a devoção à santíssima virgem


        Ao chegar a este momento do nosso trabalho, temos de deter a nossa atenção no papel que por disposição divina corresponde à Virgem Santíssima em toda a vida pessoal cristã do homem, do santo.

        Sendo Ela a «obra de Deus» por excelência, a criatura mais unida entitativa, vital e afectivamente a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, vamos reflectir, ainda que seja brevemente, sobre o seu ser e sobre a sua vida para descobrir um exemplo vivo que Deus nela nos dá para toda a vida pessoal cristã e, sobretudo, para termos em conta que a devoção que lhe manifestemos como mãe de Deus, Filha de Deus, Esposa de Deus, pode ter na nossa própria conversão cristã, na nossa realidade existencial em ser filhos de Deus em Cristo Jesus.

        Não sem um significado especial para todos os crentes, Deus quis que a Santíssima Virgem estivesse presente na própria origem da obra da Encarnação fizesse valer a sua palavra no começo da vida pública de Jesus Cristo, se mantivesse firme ao pé da Cruz, sustivesse os Apóstolos unidos na espera da Ressurreição e da vinda do Espírito Santo.

        A citação é longa. Recolho-a porque centra a perspectiva destas páginas finais:

«Cremos que ninguém como Maria saberá introduzir-nos na dimensão divina e humana deste mistério (da Redenção).
Ninguém como Maria foi introduzido nele pelo próprio Deus.
Nisto consiste o carácter excepcional  da graça da maternidade divina.
Não só na história do género humano a dignidade desta Maternidade é única e irrepetível mas também única pela sua profundidade e pelo seu raio de acção é a participação de Maria, imagem da própria Maternidade, no desígnio divino da salvação do homem através do mistério da redenção.

        (…)

        O eterno amor do Pai, manifestado na história da humanidade mediante o Filho que o Pai deu «para que quem acredite nele não morra mas que tenha a vida eterna» [1], este amor aproxima-se de cada um de nós por meio desta Mãe e adquire de tal modo sinais mais compreensíveis e acessíveis a cada homem.
Por conseguinte, Maria deve encontrar-se em todas as vias da vida quotidiana da Igreja.
Mediante a sua presença materna a Igreja assegura-se de que vive verdadeiramente a vida do seu Mestre e Senhor, que vive o mistério da Redenção em toda a sua profundidade e plenitude vivificante» [2].

        Estas considerações de João Paulo II são na realidade o desenvolvimento de umas palavras do Concílio Vaticano II que expressam o sentir unânime da Igreja em torno à missão de Maria:

«A Santíssima Virgem (…) coberta com a sombra do Espírito Santo… deu à luz o Filho a quem Deus constituiu primogénito entre muitos irmãos [3].
Isto é, os fiéis em cuja geração e educação coopera com amor materno» [4].

        A missão de Maria com cada cristão resume-se nestas palavras:
«Geração e educação com amor materno», reflexo da missão que Deus Pai lhe encomendou com Deus Filho.

        Como participa Santa Maria na «geração» de um filho de Deus em Jesus Cristo?
        »Com o seu amor materno cuida dos irmãos do seu Filho que todavia peregrinam e se encontram em perigos e ansiedade até que sejam conduzidos à pátria Bem-Aventurada» [5].

        «A Santíssima Virgem predestinada desde toda a eternidade como Mãe de Deus juntamente com a encarnação do Verbo, por deposição da divina Providência, foi na terra Mãe excelsa do Divino Redentor (…).
Concebendo Cristo, engendrando-o.
Alimentando-o, apresentando-o ao Pai no Templo, padecendo com o seu Filho quando morria na Cruz, cooperou de forma inteiramente ímpar na obra do Salvador com a obediência, a fé, a esperança e a ardente caridade com o fim de restaurar a vida sobrenatural nas almas. Por isso é nossa Mãe em ordem da graça» [6].

        Toda a vida da Santíssima Virgem transmite os planos de Deus sobre as suas criaturas.
Feita Mãe e imaculada ajuda à «geração» de Cristo em cada cristão.

Como?

        O cuidado maternal da Santíssima Virgem não se fica somente num plano afectivo de intercessão e de preocupação pela sorte da vida pessoal cristã de cada filho de Deus.

        Na cena da visita da Santíssima Virgem a sua prima santa Isabel podemos descobrir um sentido mais vital e entitativo da missão maternal de Maria: à chegada de Maria grávida de Deus Filho, Deus Pai quis que o Espírito Santo encha a alma de Isabel e de João Maria «comunica» a Graça.
Deus envia Maria para «comunicar» a Graça e na Graça, alimentar a Fé, a Esperança e a Caridade dos que a recebem.

        O Espírito Santo anseia que todos o homem seja verdadeiramente filho de Deus e quer valer-se da Santíssima Virgem para que a Graça que ele deposita na alma tome forma, vá fazendo o possível para que o cristão descubra Cristo que a vida de Cristo cresça em cada cristão.
O Espírito Santo está como que à espera da palavra de Maria para começar e desenvolver a sua acção na alma do crente, de forma semelhante a como esperou a palavra da Virgem, para que a Palavra se engendrasse nela.

        São Bernardo fala do «aqueduto» e certamente é assim.
Todavia a imagem não esgota a participação da Santíssima Virgem na acção do Espírito Santo.
Maria não se limita a transportar a Graça.
Maria prepara a alma do cristão para descobrir o Espírito Santo  dentro dele, como Isabel e João o descobriram.

        Podemos dizer simplesmente que Maria, como Mãe de Cristo, nos manifesta o Espírito Santo que se vale da sua presença para que Cristo nasça em nós e nos configuremos com o Senhor: Deus Filho gerou-se nela por acção do Espírito Santo, acção que o Espírito Santo começou no amor de Maria a Deus Pai, na disposição de Maria à vontade de Deus Pai.

        De forma semelhante, o amor a Maria, a Mãe de Deus, prepara a alma do cristão para que o Espírito Santo já recebido no Baptismo e nos demais sacramentos, faça germinar a semente da Graça e se origine em cada cristão o despertar de Cristo e o viver de cada cristão com Cristo, em Cristo, por Cristo.

        Poderíamos chamar a esta acção de Maria a «força criadora» do amor materno.
Toda a nossa vida cristã se fundamenta na Graça, «certa participação na natureza divina».
Encontramo-nos «enxertados em Cristo».
Maria «sendo Mãe de Deus» com o seu amor fez crescer Cristo nas suas entranhas, ao mesmo tempo que o engendrava no seu coração.
O cristão ao viver a devoção a Maria recebe esse amor materno de Maria e «o calor» desse amor materno vivifica no seu espírito o «enxerto em Cristo».

        «Com o seu amor materno cuida dos irmãos do seu Filho que todavia peregrinam e se encontra em perigos e ansiedade até que sejam conduzidos à pátria Bem-Aventurada» [7].

Esta é a «maternidade espiritual» que a Virgem vive em cada crente.


***


        Se a Virgem é «geradora» sendo Mãe, a Mãe de Deus é «educadora» sendo Virgem Imaculada.
Como?

        «E é igualmente virgem (refere-se à Igreja) que guarda pura e integramente a fé prometida ao Esposo e à imitação da Mãe do seu Senhor, por virtude do Espírito Santo, conserva virginalmente uma fé íntegra, uma esperança sólida e uma caridade sincera» [8].

        Santa Maria, na plenitude da sua virgindade imaculada manifesta-nos uma vida de Fé, de Esperança, de Caridade.

«Como ser «virgem casta» se não for pela integridade da fé, da esperança?» exclama Santo Agostinho [9].

«Bem-aventurada tu que acreditaste» exulta Santa Isabel.
A Santíssima Virgem é, ao pé da Cruz, a imagem da Esperança na Palavra de Deus.
A sua resposta na Anunciação é a manifestação aberta da caridade, do amor a Deus ao devolver a Deus toda a confiança que o homem rejeitou no Paraíso.

        «Faça-se em mim segundo a Tua palavra» [10], é a expressão mais pela de Fé, de Esperança, de Caridade de uma criatura ao seu Criador.

        Ressaltando a fé eucarística da Virgem, João Paulo II assinala:

«A Maria foi-lhe pedido para acreditar que quem concebeu ‘por obra do Espírito Santo’ era o ‘Filho de Deus’.
Em continuidade com a fé da Virgem, no Mistério eucarístico pede-se-nos para acreditar que o mesmo Jesus, Filho de Deus e Filho de Maria, torna-se presente com todo o seu humano-divino nas espécies do pão e do vinho» [11].



(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[1] Jo 3, 16
[2] Juan Pablo II, Redemptor hominis, nn. 96, 98
[3] Cfr. Rom 8, 29
[4] Lumen gentium, n. 63
[5] Lumen gentium, n. 62
[6] Lumen gentium, n. 61
[7] Lumen gentium, n. 61
[8] Lumen gentium, n. 61
[9] Sermão, 188, 3, 4
[10] Lc 1, 38
[11] João Paulo II, Redemptoris mater, n. 37