03/10/2014

Está ali, com a sua Carne e com o seu Sangue

"Isto é o meu Corpo"... e Jesus imolou-se, ocultando-se sob as espécies de pão. Agora está ali, com a sua Carne e com o seu Sangue, com a sua Alma e com a sua Divindade: como no dia em que Tomé meteu os dedos nas suas Chagas gloriosas. E, no entanto, em tantas ocasiões, tu passas de largo, sem esboçares sequer uma breve saudação de simples cortesia, como fazes com qualquer pessoa conhecida que encontras ao passar! Tens bastante menos fé do que Tomé! (Sulco, 684)

O Criador se desfez em carinho pelas suas criaturas. Nosso Senhor Jesus Cristo, como se já não fossem suficientes todas as outras provas da sua misericórdia, institui a Eucaristia para que possamos tê-Lo sempre perto de nós e porque – tanto quanto nos é possível entender – movido pelo seu Amor, Ele, que de nada necessita, não quis prescindir de nós. A Trindade apaixonou-se pelo homem, elevado à ordem da graça e feito à sua imagem e semelhança, redimiu-o do pecado – do pecado de Adão que se propagou a toda a sua descendência e dos pecados pessoais de cada um – e deseja vivamente morar na nossa alma, como diz o Evangelho: se alguém Me ama, guardará a minha palavra, e Meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele morada.
Esta corrente trinitária de amor pelos homens perpetua-se de maneira sublime na Eucaristia. Há já muitos anos, todos aprendemos no catecismo que a Sagrada Eucaristia pode ser considerada como Sacrifício e como Sacramento e que o sacramento se nos apresenta como Comunhão e como um tesouro no altar, mais concretamente, no Sacrário. (Cristo que passa, nn. 84–85)


Tratado da Graça 15

Questão 111: Da divisão da graça.

Em seguida devemos tratar da divisão da graça.

E nesta questão discutem-se cinco artigos:
Art. 1 — Se a graça se divide convenientemente em graça santificante e gratuita.
Art. 2 — Se a graça se divide convenientemente em operante e cooperante.
Art. 3 — Se a graça se divide convenientemente em preveniente e subsequente.
Art. 4 — Se o Apóstolo divide convenientemente a graça gratuita.
Art. 5 — Se a graça gratuita é mais digna que a santificante.

Art. 1 — Se a graça se divide convenientemente em graça santificante e gratuita.

[III Cont. Gent., cap. CLIV, Compende. Theol., cap. CCXIV , Ad Rom., cap. I lect. III, Ad Ephes., cap. I, lect II].

O primeiro discute-se assim. — Parece que a graça não se divide, convenientemente, em graça santificante e gratuita.

1. — Pois, a graça é um dom de Deus, como já se disse (q. 110, a. 1). Porque, o homem não é agradável a Deus, por Deus lhe ter feito algum dom, mas antes é ao contrário, por lhe ser o homem agradável é que Deus lhe faz um dom gratuito. Logo, não há graça santificante.

2. Demais. — Tudo o que não é dado em virtude de méritos precedentes o é gratuitamente. Ora, pois que a natureza é pressuposta ao mérito, o próprio bem, que ela é, é dado ao homem sem mérito precedente. Logo, também a natureza foi dada gratuitamente por Deus. Mas como ela se divide da graça, por oposição, é inconveniente tomar-se como característica diferencial da graça o ser dada gratuitamente, porque essa característica encontra-se em outros géneros que não o da graça.    

3. Demais. — Toda a divisão se funda em características opostas. Ora, também a graça santificante, que nos justifica, nos é concedida gratuitamente por Deus, conforme a Escritura (Rm 3, 24): Tendo sido justificados gratuitamente por sua graça. Logo, a graça santificante não se deve dividir, por oposição, da graça gratuita.

Mas, em contrário, o Apóstolo diz, que a graça tanto torna agradável, como é dada gratuitamente. Assim, diz quanto à primeira característica (Ef 1, 6): Ele nos fez agradáveis a si em seu amado filho, e, quanto à segunda (Rm 2, 6): E se isto for por graça, não foi já pelas obras, doutra sorte a graça já não será graça. Portanto, pode distinguir-se a graça, que tem um só desses caracteres, da que tem os dois.

Como diz o Apóstolo (Rm 13, 1), as potestades que há, essas foram por Deus ordenadas. Ora, a ordem das coisas consiste em se ordenarem a Deus, umas pelas outras, como diz Dionísio. E como a graça se ordena a dirigir o homem para Deus, isso se fará, ordenadamente, de modo que uns se lhe ordenem por meio dos outros. Donde duas espécies de graça. Uma pela qual o homem se une directamente com Deus, chamada santificante. Outra, pela qual, nesse ordenar-se para Deus, uns colaboram com os outros, e esse dom é chamado graça gratuita, por sobrepujar a capacidade da natureza humana e o mérito pessoal do homem. Não se chama porém graça santificante, por não ser dada ao homem para ele directamente se justificar, mas antes, para cooperar na justificação dos outros. E a ela se refere o Apóstolo (1 Cor 12, 7): A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito, i. é, dos outros.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Diz-se que a graça torna agradável, não efectiva, mas formalmente, i. é, porque, por ela, o homem se justifica e se torna digno de ser considerado agradável a Deus, conforme a Escritura (Cl 1, 21): Fez-nos dignos de participar da sorte dos santos em luz.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A graça, enquanto gratuita, exclui a ideia de débito, que pode ser entendido em dupla acepção. Numa, provém do mérito, referente à pessoa a quem cabe praticar obras meritórias, conforme a Escritura (Rm 4, 4): E ao que obra não se lhe conta o jornal por graça, mas por dívida. Outra é o débito fundado na condição da natureza, assim quando dizemos ser devido ao homem ter razão e o mais pertencente à natureza humana. Ora, em nenhuma dessas acepções, o débito se funda em qualquer obrigação de Deus para com a criatura, mas antes, no dever desta, de submeter-se a Deus e realizar a ordenação divina. Esta exige que tal natureza tenha tais condições ou propriedades, e que, praticando tais actos, consiga tais resultados. Donde, o débito, na primeira acepção, carece desses dons naturais, mas deles não carece o débito na segunda acepção. Ao passo que, em ambas as acepções, faltam-lhe os dons sobrenaturais. E por isso, a estes cabem, mais especialmente, o nome de graça.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A graça santificante acrescenta alguma coisa à noção de graça gratuita, o que também pertence à essência da graça, que é tornar o homem agradável a Deus. Donde, à graça gratuita, que não o faz, se lhe dá o nome comum, como acontece em muitos outros casos. E assim, opõem-se as duas partes da divisão — tornar e não tornar agradável.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho do dia, coment e Leit. esp. (Enc.Divino afflante spiritu)

Tempo comum XXVI Semana

Evangelho: Lc 10, 13-16

13 «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidónia se tivessem realizado as maravilhas que se têm operado em vós, há muito tempo que teriam feito penitência vestidas de cilício e jazendo sobre a cinza. 14 Por isso haverá, no dia de juízo, menos rigor para Tiro e Sidónia que para vós. 15 E tu, Cafarnaum, “que te elevas até ao céu, serás abatida até ao inferno”. 16 Quem vos ouve, a Mim ouve, quem vos rejeita, a Mim rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou».


Comentário:

Para os que dizem que acreditam e seguem Jesus Cristo mas “não querem saber” da Igreja para nada… aqui está a “sentença”:

«Quem vos ouve, a Mim ouve, quem vos rejeita, a Mim rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou».

Como se poderá pretender seguir Jesus Cristo rejeitando uma instituição da qual Ele próprio é a cabeça?

(AMA, Comentário sobre Lc 10, 13-16, 2013.10.04)

Leitura espiritual



Documentos do Magistério
CARTA ENCÍCLICA
DIVINO AFFLANTE SPIRITU (*)
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
COMO A TODO O CLERO E FIÉIS DE CRISTO
DO ORBE CATÓLICO SOBRE OS ESTUDOS BÍBLICOS

INTRODUÇÃO

1. 50° aniversário da encíclica "Providentissimus Deus"

1. Inspirados pelo Espírito Divino, escreveram os sagrados autores aqueles livros que Deus, no seu paterno amor para com o género humano, se dignou dar-nos "para ensinar, para convencer, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e bem apetrechado para toda a obra boa." (1) Não admira, pois, se a santa Igreja, para quem este tesouro recebido do céu é fonte preciosíssima e regra divina do dogma e da moral, como o recebeu ilibado das mãos dos apóstolos, assim com todo o cuidado o conservou, e defendeu de toda e qualquer interpretação falsa e errónea, e com o maior esmero o utilizou para conseguir a salvação eterna das almas. Atestam-no eloquentemente documentos quase inumeráveis de cada século. Mas nos tempos mais recentes, quando se viu mais particularmente ameaçada a origem divina dos Livros Sagrados e a sua recta interpretação, também a Igreja tratou de as defender e proteger com maior empenho e diligência. E assim já o sacrossanto concílio de Trento, com solene decreto, determinou que devem reconhecer-se "como sagrados e canónicos os livros inteiros com todas as suas partes conforme se costuma ler na Igreja católica e estão na antiga Vulgata latina." (2) E em nosso tempo o concílio Vaticano II, para condenar algumas falsas doutrinas relativas a inspiração, declarou que a razão de os mesmos livros deverem ser considerados como sagrados e canónicos "não é porque, tendo sido compostos apenas por actividade humana, a Igreja depois os aprovou com a sua autoridade, nem unicamente porque contêm a revelação sem erro algum, mas porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, tem a Deus por autor, e como tais foram confiados à mesma Igreja." (3) Todavia, mesmo depois desta solene definição da doutrina católica que reivindica "aos livros inteiros com todas as suas partes" tal autoridade divina, que os preserva de todo e qualquer erro, houve escritores católicos que ousaram coarctar a verdade da Sagrada Escritura unicamente às coisas relativas à fé e a moral, considerando as restantes, quer físicas quer históricas, como "ditas de passagem" e sem conexão, afirmavam eles, com as verdades da fé. Por isso o nosso predecessor de imortal memória Leão XIII com a encíclica Providentissimus Deus, de 18 de Novembro de 1893, infligiu àqueles erros a merecida condenação, e ao mesmo tempo regulou o estudo dos Livros divinos com prescrições e normas sapientíssimas.

2. Modo de celebrar o cinquentenário

2. Ora, devendo celebrar-se o quinquagésimo aniversário da publicação daquela encíclica, justamente considerada como a Magna Carta dos estudos bíblicos, nós por aquela atenção que desde o princípio do nosso pontificado dedicamos aos estudos sagrados, (4), julgamos que o melhor modo de o fazer era, primeiro, confirmar e inculcar quanto aquele nosso predecessor sapientemente ordenou e quanto os seus sucessores acrescentaram para consolidação e aperfeiçoamento da sua obra, depois ordenar o que os tempos actuais parecem exigir, para estimular cada vez mais todos os filhos da Igreja que se dão a estes estudos, a uma tão necessária e louvável empresa.

PRIMEIRA PARTE
SOLICITUDE DE LEÃO XIII E SEUS SUCESSORES PELOS ESTUDOS BÍBLICOS

1. Leão XIII

Doutrina sobre a inerrância bíblica

3. O primeiro e maior cuidado de Leão XIII foi expor a doutrina relativa à verdade dos Livros Sagrados e defendê-la dos ataques contrários. Por isso em graves termos declarou que não há erro absolutamente nenhum quando o hagiógrafo falando de coisas físicas "se atém ao que aparece aos sentidos" como escreveu o Angélico,(5) exprimindo-se "ou de modo metafórico, ou segundo o modo comum de falar usado naqueles tempos e usado ainda hoje em muitos casos na conversação ordinária mesmo pelos maiores sábios." De fato "não era intenção dos escritores sagrados, ou melhor - são palavras de santo Agostinho (6) do Espírito Santo que por eles falava, ensinar aos homens essas coisas - isto é, a íntima constituição do mundo visível - que nada importam para a salvação". (7) Esse princípio "deverá aplicar-se às ciências afins, especialmente à história", isto é, refutando "de modo semelhante os sofismas dos adversários" e defendendo das suas objecções a verdade histórica da Sagrada Escritura. (8) Nem pode ser taxado de erro o escritor sagrado, "se aos copistas escaparam algumas inexactidões na transcrição dos códices" ou "se é incerto o verdadeiro sentido de algum passo". Enfim é absolutamente vedado "coarctar a inspiração unicamente a algumas partes da Sagrada Escritura ou conceder que o próprio escritor sagrado errou", pois que a divina inspiração "de sua natureza não só exclui todo erro, mas exclui-o e repele-o com a mesma necessidade com que Deus, suma verdade, não pode ser autor de nenhum erro. Esta é a fé antiga e constante da Igreja". (9)

4. Esta doutrina, pois, que nosso predecessor Leão XIII com tanta gravidade expôs, propomo-la nós também com nossa autoridade e a inculcamos, para que seja de todos escrupulosamente professada. E ademais ordenamos que, com não menor empenho, se sigam também hoje os conselhos e incitamentos que ele, como pedia o seu tempo, sabiamente acrescentou. Com efeito, vendo surgir novas e não leves dificuldades e problemas, quer dos preconceitos do racionalismo então em voga, quer principalmente dos numerosos monumentos da antiguidade descobertos e estudados no Oriente, o mesmo nosso predecessor, movido do zelo do seu múnus apostólico e ansioso não só de tornar uma tão importante fonte da revelação católica mais segura e largamente acessível para utilidade da grei do Senhor, mas também de a preservar de todo e qualquer inquinamento, manifestou vivo desejo de que "muitos compreendessem e constantemente sustentassem a defesa das divinas Escrituras, e que especialmente aqueles que a divina graça chamou às sagradas ordens, com diligência cada vez maior se aplicassem, como é de razão, a lê-las, meditá-las e explicá-las". (10)

Impulso dado aos estudos bíblicos: Escola bíblica de Jerusalém, Comissão bíblica

5. Por isso o mesmo pontífice, assim como já antes louvara e aprovara a Escola bíblica fundada em Jerusalém, junto da basílica de santo Estêvão, por iniciativa do mestre geral da sagrada Ordem dos Pregadores, porque, segundo ele próprio se exprime, "tinha dado grande impulso aos estudos bíblicos e esperava-se que o desse ainda maior", (11) assim no último ano de sua vida acrescentou um novo meio de aperfeiçoar cada dia mais e promover com toda a segurança estes estudos tão recomendados na encíclica Providentissimus Deus. De facto com a carta apostólica Vigilantiae de 30 de Outubro de 1902 instituía um Conselho ou Comissão de homens competentes, "cuja incumbência própria fosse procurar por todos os meios que as divinas Escrituras sejam entre nós largamente cultivadas com aquela maestria que os tempos requerem, e preservadas não só de qualquer hálito de erro, mas até de toda a temeridade de opinar." (12) Essa Comissão também nós, seguindo o exemplo dos nossos predecessores, a confirmamos e autorizamos com os factos, valendo-nos dela várias vezes, e em particular para chamar os expositores dos Livros Sagrados à observância dos sãos princípios de exegese católica que os santos Padres e doutores da Igreja e os mesmos sumos pontífices nos deixaram. (13)

2. Pio X

Graus académicos. Programa de estudos bíblicos, Instituto bíblico em Roma

6. Não é fora de propósito recordar aqui, com gratidão, os actos principais e de maior alcance com que nossos predecessores contribuíram para o mesmo fim, e que podemos chamar complementos ou frutos da feliz iniciativa de Leão XIII. Em primeiro lugar Pio X, querendo fornecer a Igreja "de um meio seguro para formar bom número de professores, recomendáveis por solidez e pureza de doutrina, que explicassem nas escolas católicas os livros santos...", instituiu "os graus académicos de Licenciado e Doutor na Sagrada Escritura conferidos pela Comissão Bíblica", (14) depois prescreveu "o programa de estudos da Sagrada Escritura nos seminários" com o fim de que os sacerdotes "não só adquirissem um profundo conhecimento da excelência, composição e doutrina da Bíblia, mas também soubessem e pudessem exercer convenientemente o ministério da divina palavra, e defender das objecções os Livros escritos sob a inspiração de Deus", (15) enfim "para que houvesse em Roma um centro de estudos superiores bíblicos que do modo mais eficaz possível fizesse progredir a ciência da Sagrada Escritura e das matérias com ela relacionadas, segundo o espírito da Igreja católica", fundou, confiando-o à ínclita Companhia de Jesus, o Pontifício Instituto Bíblico, e quis que fosse "provido de escolas superiores e de todos os meios de instrução bíblica" e prescreveu as normas por que devia reger-se e funcionar, declarando que assim realizava "o salutar e frutuoso desígnio" de Leão XIII. (16)

3. Pio Xl

Graus académicos obrigatórios

7. Coroou todas essas medidas o nosso predecessor de feliz memória Pio XI ordenando, entre outras coisas, que "ninguém pudesse ser professor de Sagrada Escritura nos seminários senão depois de feito um curso especial desta ciência e conseguidos regularmente os graus académicos na Comissão bíblica ou no Instituto bíblico", graus que ele declarou equiparados quanto aos direitos e efeitos aos graus devidamente conferidos na sagrada Teologia e no Direito Canónico, determinou também que a ninguém seja conferido "um benefício ao qual esteja canonicamente anexo o ónus de explicar ao povo a Sagrada Escritura, se, além do mais, não tiver conseguido a licenciatura ou a láurea em Sagrada Escritura." Ao mesmo tempo exortava os gerais das ordens regulares e das congregações religiosas, bem como os bispos de todo o orbe católico, a que mandassem os mais capazes dos seus alunos a frequentar as escolas do Instituto Bíblico para aí conseguirem os graus académicos, e a fim de confirmar com o seu exemplo essas exortações, constituiu para esse fim rendimentos anuais fruto da sua munificência .(17)

Mosteiro de S. Jerónimo para a revisão da Vulgata

8. O mesmo pontífice, visto que em 1907 com o favor e aprovação de Pio X de feliz memória "fora confiado aos padres beneditinos o encargo de fazer investigações e estudos preparatórios para a edição da versão da Sagrada Escritura comumente chamada Vulgata", (18) querendo dar mais sólida base e maior segurança a esta "fadigosa e árdua empresa", que exige muito tempo e grandes despesas, mas cuja grandíssima utilidade mostram os magníficos volumes já publicados, levantou o Cenóbio Romano de S. Jerónimo, inteiramente dedicado àquela obra, e dotou-o generosamente de rica biblioteca e de todos os meios de investigação. (19)

4. A difusão dos Livros Santos

9. Nem se deve aqui passar em silêncio quanto os mesmos nossos predecessores, sempre que se lhes ofereceu ocasião, recomendaram o estudo, a pregação, a leitura e meditação das Sagradas Escrituras. Com efeito Pio X aprovou calorosamente a Sociedade de S. Jerónimo que tem por fim propagar entre os fiéis o louvável costume de ler e meditar os santos Evangelhos e facilitar quanto possível este pio exercício. Exortou-a a perseverar constantemente na empresa, afirmando que "era a coisa mais útil e adaptada aos tempos", pois contribui não pouco "a desfazer o preconceito que a Igreja se opõe à leitura da Sagrada Escritura em língua vulgar e procura impedi-la". (20) Bento XV no XV centenário da morte do doutor máximo, na exposição das Sagradas Escrituras, depois de inculcar escrupulosamente os ensinamentos e exemplos do mesmo santo doutor e os princípios e normas ditados por Leão XIII e por ele próprio, e depois de outras oportuníssimas recomendações deste género que é preciso não esquecer nunca, exortou "todos os filhos da Igreja e especialmente o clero à veneração da Sagrada Escritura juntamente com a devota leitura e meditação assídua", fazendo notar "que nestas páginas se deve procurar o alimento que sustenta e aperfeiçoa a vida do espírito" e que "o principal uso da Escritura é o que tem por fim exercer santa e frutuosamente o ministério da divina palavra". Depois louvou novamente a actividade da Sociedade que tomou o nome do mesmo S. Jerónimo, que em larga escala difunde os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos, "de tal forma que já não há família cristã que os não possua e todos se vão habituando a lê-los e meditá-los todos os dias". (21)

(Revisão da versão portuguesa por ama)

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Notas:
(*) Em 30 de Setembro de 1943, por motivo do cinqüentenário da encíclica "Providentissimus Deus", o Santo Padre Pio XII publicou a seguinte encíclica sobre os estudos bíblicos. Por sua extensão, e pela admirável clareza com que expõe as normas que devem ser observadas no uso da Sagrada Escritura, o importante documento adquire o alcance de uma verdadeira Carta Magna em matéria de estudos e apostolado bíblicos.
(1) 2 Tm 3, 16s.
(2) Sessão IV, decr. l, Ench. Bibl ., n. 45.
(3) Sessão III, cap. 2, Ench. Bibl., n. 62.
(4) Sermo ad alumnos Seminariorum... in Urbe (24 de junho de 1939), AAS 31(1939), pp. 245-251.
(5) Cf. I, q. 70, art. l a 3.
(6) De Gen. ad litt. 2, 9, 20, PL 34, col. 270s., CSEL, 28(II, 2), p. 46.
(7) Leão XIII, Acta 13, p. 357s, Ench. Bibl. n.106.
(8) Cf. Bento XV, enc. Spiritus Paraclitus, AAS 12(1920), p. 396, Ench. Bibl. n. 471.
(9) Leão XIII, Acta 13, p. 357s, Ench. Bibl. n.109s.
(10) Cf. Leão XIII, Acta 13, p. 328, Ench. Bibl. n. 83.
(11) Carta Apost. Hierosolymae in coenobio, de 17 de set. de 1892, Leão XIII, Acta 12, pp. 239-241, v, p. 240.
(12) Cf. Leão XIII, Acta 22, p. 232ss, Ench. Bibl. n.130-141, v nn.130,132.
(13) Carta da Pontifícia Comissão Bíblica aos Exmos. Arcebispos e Bispos da Itália, de 20 de agosto de 1941, Acta Ap. Sedis 33(1941) pp. 465-472.
(14) Carta Apost. Scripturae Sanctae, de 23 de fev. de 1904, Pio X, Acta I, pp. 176-179, Ench. Bibl. nn.142-150, v 143-144.
(15) Cf Carta Apost. Quoniam in re biblica, de 27 de março de 1906, Pio X Acta 3, pp. 72-76, Ench. Bibl. nn.155-173, v.155.
(16) Carta Apost. Vinea electa, de 7 de maio de 1909, Acta Ap. Sedis 1(1909), pp. 447-449, Ench. Bibl. nn. 293-306, v. 294 e 296.
(17) Cf. Motu próprio Bibliorum scientiam, de 27 de abril de 1924, Acta Ap. Sedis 16(1924), pp.180-182.
(18) Carta ao Revmo. D. Aidano Gasquet, de 3 de dez. de 1907. Pio X, Acta 4, pp.117-119, Ench. Bibl. n. 285s.
(19) Const. Apost. Inter praecipuas, de 15 de junho de 1933, Acta Ap. Sedis 26(1934), pp. 85-87.
(20) Carta ao Exmo. Card. Cassetta Qui piam, de 21 de jan, de 1907, Pio X, Acta 4, pp. 23-25.
(21) Encícl. Spiritus Paraclitus, de 15 de set. de 1920, Acta Ap. Sedis 12(1920), pp. 385-422, Ench. Bibl. nn. 457-508, v 457, 491, 495, 497.





02/10/2014

S. Josemaria fala do 2 de Outubro de 1928





Jesus Cristo e a Igreja - 36

Porque é que condenaram Jesus à morte?



A figura Jesus de Nazaré foi-se tornando muito controversa com o tempo, conforme ia sendo conhecida a sua pregação. As autoridades religiosas de Jerusalém mostravam-se inquietas devido à agitação que o mestre, chegado da Galileia para a Páscoa, tinha suscitado entre o povo. As elites imperiais também, uma vez que – numa altura em que periodicamente se renovavam os levantamentos contra a ocupação romana, encabeçados por líderes locais que apelavam ao carácter próprio dos judeus – as notícias que lhes chegavam, acerca deste mestre que falava em preparar-se para a chegada de um «reino de Deus», não eram nada tranquilizadoras. Uns e outros estavam, pois, prevenidos contra ele, ainda que por diversos motivos.
Jesus foi detido e o seu caso foi examinado perante o Sinédrio. Não se tratou de um processo formal, com os requerimentos que mais tarde se recolheram na Misná (Sanhedrin IV, 1) – e que exigem entre outras coisas que tenha lugar durante o dia – mas de um interrogatório em domicílios particulares para verificar as acusações recebidas ou as suspeitas que se tinham acerca dos seus ensinamentos. Concretamente sobre a sua atitude crítica dirigida ao templo; a auréola messiânica que rodeava a sua pessoa e que era provocada pelas suas palavras e atitudes e, sobretudo, acerca da pretensão que lhe era atribuída de possuir uma dignidade divina. Mais do que as questões doutrinais em si mesmas, talvez o que realmente preocupasse as autoridades religiosas fosse a perturbação que poderiam provocar relativamente à situação presente. Poderia dar lugar a uma agitação popular que os romanos não tolerariam, e da qual poderia derivar uma situação política pior da que existia nesse momento.
Decidiram então levar essa causa a Pilatos, e o contencioso legal contra Jesus foi apresentado perante a autoridade romana. Diante de Pilatos manifestaram os temores de como aquele que falava de um «reino» poderia ser um perigo para Roma. O procurador tinha diante de si duas formas possíveis de enfrentar a situação. Uma delas, a chamada cognitio extra ordinem («castigo, medida forçosa») que lhe outorgava a capacidade de aplicar as medidas oportunas para manter a ordem pública. Recorrendo a esta poderia infligir um castigo exemplar ou inclusivamente condená-lo à morte para que servisse de exemplo. Ou por outro lado, podia estabelecer uma cognitio («conhecimento»), um processo formal no qual se formulava uma acusação, havia um interrogatório e se ditava uma sentença de acordo com a lei.

Pilatos parece ter sentido momentos de dúvida acerca do procedimento a seguir, embora tenha acabado por optar por um processo que seguia a fórmula mais habitual nas províncias romanas, a chamada cognitio extra ordinem, isto é, um processo em que o próprio pretor determinava o procedimento e ele mesmo ditava sentença. Assim se deduz de alguns detalhes aparentemente acidentais que ficaram reflectidos nos relatos: Pilatos recebe as acusações, interroga, senta-se no tribunal para ditar a sentença (Jo 19, 13; Mt 27, 19), e condena à morte na cruz por um delito formal. Foi justiçado como «rei dos judeus» segundo se fez constar no titulus crucis.
A avaliação histórica relativa à condenação de Jesus à morte deve de ser muito prudente, para não conduzir a generalizações precipitadas que levem a uma avaliação injusta. Concretamente, é importante fazer notar – ainda que seja óbvio – que os judeus não são responsáveis colectivamente pela morte de Jesus.
“Partindo do princípio de que os nossos pecados atingem Cristo em pessoa (cf. Mt 25, 45; Act 9, 4-5), a Igreja não duvida em imputar aos cristãos a mais grave responsabilidade no suplício de Jesus, responsabilidade que eles muitas vezes imputaram unicamente aos judeus”
(Catecismo da Igreja Católica n. 598).

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Reflectindo - 40

Defeitos - INDIFERENÇA

Não haverá pior defeito.
Na verdade, o indiferente, carece de virtudes fundamentais num ser humano tais como, entre outras: solidariedade, preocupação pelos outros, carinho, compaixão, ternura, afectividade, companheirismo, amizade, dedicação, caridade, espírito de serviço, amor.

O indiferente vai pela vida sozinho, debruçado sobre si próprio, sem emoções, sem causas a defender nem princípios a observar.

Não tem interesse especial por nada nem ninguém. A sua vida é monótona, o percurso errático, o comportamento abúlico.

O principal efeito da indiferença é a aridez que gera à sua volta, o isolamento e solidão.

O indiferente é um morto vivo. Não interessa aos outros homens. Deus não pode comunicar com ele.

E, sem comunicação com Deus não há vida.

(AMA, reflexão, 2010)


Tratado da Graça 14

Questão 110: Da graça de Deus quanto à sua essência.

Art. 4 — Se a graça está na essência da alma como no sujeito, ou em alguma das duas potências.

[Sent., dist. XXVI, a. 3, IV, dist, IV, q. 1, a. 3, qª 3, ad 1, De Verit., q. 27, a. 6].

O quarto discute-se assim. — Parece que a graça não está na essência da alma, como no sujeito, mas numa das suas potências.

1. — Pois, diz Agostinho, a graça está para a vontade, ou para o livre arbítrio, como o cavaleiro para o cavalo. Ora, à vontade ou livre arbítrio é uma potência, como já dissemos na Primeira Parte (q. 83, a. 2). Logo, a graça está na potência da alma como no seu sujeito.

2. Demais. — Da graça derivam os méritos do homem, como diz Agostinho. Ora, o mérito depende do acto procedente de alguma potência. Logo, a graça é a perfeição de alguma das potências da alma.

3. Demais. — Se a essência da alma fosse o sujeito próprio da graça, a alma haveria necessariamente de, na sua essência, ser capaz da graça. Ora, isto é falso, porque daí resultaria que toda alma é capaz da graça. Logo, a essência da alma não é o sujeito próprio da graça.

4. Demais. — A essência da alma é-lhe anterior às potências. Ora, o anterior é concebível independentemente do posterior. Donde resulta que podemos conceber a graça, na alma, sem recebermos nenhuma parte ou potência da alma, e nem à vontade, nem o intelecto, nem qualquer faculdade. Ora, isto é inadmissível.

Mas, em contrário, regenerados pela graça, tornamo-nos filhos de Deus. Ora, a geração termina, antes na essência, que nas potências. Logo, a graça está na essência da alma, antes de lhe estar nas potências.

Esta questão depende da precedente. Pois, se a graça é o mesmo que a virtude, há-de necessariamente estar nas potências da alma como no sujeito, porque elas são o sujeito próprio da virtude, como já dissemos (q. 56, a. 1). Se, ao contrário, difere da virtude, não se pode dizer que as potências da alma sejam o sujeito dela, porque toda perfeição das potências da alma tem natureza de virtude, como já dissemos (q. 55, a. 1, q. 56, a. 1). Donde se conclui, que a graça, assim como tem prioridade sobre a virtude, tem também um sujeito às potências da alma, a saber, a essência desta. Ora, pela potência intelectiva e pela virtude da fé, o homem participa do conhecimento divino, e, pela potência da vontade e pela virtude da caridade, participa do amor divino. Assim também, pela natureza da alma participa, por uma certa semelhança, da natureza divina, regenerando-se, de algum modo, e como criada de novo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Assim como da essência da alma decorrem as suas potências, que são os princípios das obras, assim também, da graça decorrem virtudes para as potências da alma, que a movem aos seus actos. E sendo assim, a graça está para a vontade como o motor, para o móvel, ou, o que é o mesmo, como o cavaleiro, para o cavalo, não, porém, como o acidente, para a substância.

E daqui se deduz também clara a RESPOSTA À SEGUNDA OBJECÇÃO. — Pois, a graça é, mediante as virtudes, o princípio das obras meritórias, assim como a essência da alma é, mediante as potências, o princípio das operações vitais.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Alma é o sujeito da graça, enquanto pertencente à espécie da natureza intelectual ou nacional. Ora, a alma não se especifica por meio de alguma potência, pois as potências são propriedades naturais da alma, resultantes da espécie. E portanto, a alma, por essência, difere especificamente das almas dos brutos e das plantas. E por isso, de ser a essência da alma humana sujeito da graça não se segue possa qualquer alma ser tal sujeito, pois, isso convém à essência da alma, enquanto pertencente a uma determinada espécie.

RESPOSTA À QUARTA. — Sendo as potências da alma propriedades naturais, resultantes da espécie, a alma não pode existir sem elas. Mas, dado que o pudesse, ainda a alma seria chamada, conforme a sua espécie, intelectual ou racional. Não por ter essas potências, actualmente, mas por causa da sua essência específica, de que naturalmente decorrem tais potências.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho do dia, coment e Leit. esp. (Enc.In multiplicibus curis)

Tempo comum XXVI Semana

Santos Anjos da Guarda

Evangelho: Mt 18, 1-5

1 Naquela mesma ocasião aproximaram-se de Jesus os discípulos, dizendo: «Quem é o maior no Reino dos Céus?». 2 Jesus, chamando uma criança, pô-la no meio deles 3 e disse: «Na verdade vos digo que, se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. 4 Aquele, pois, que se fizer pequeno como esta criança, esse será o maior no Reino dos Céus. 5 E quem receber em Meu nome uma criança como esta, é a Mim que recebe.10 Vede, não desprezeis um só destes pequeninos, pois vos declaro que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de Meu Pai que está nos céus. 12 «Que vos parece? Se alguém tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, porventura não deixa as outras noventa e nove no monte, e vai em busca daquela que se extraviou? 13 E, se acontecer encontrá-la, digo-vos em verdade que se alegra mais por esta, do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. 14 Assim, não é a vontade de vosso Pai que está nos céus que pereça um só destes pequeninos.

Comentário:

A realidade da existência dos Anjos da Guarda é para o cristão motivo de enorme alegria e agradecimento.
Alegria porque tem a seu lado um interlocutor atento e sempre disponível para estabelecer as “pontes” que necessita para chegar ao Criador;
Agradecimento pelo bem inestimável que constitui para nós e que só conheceremos completamente quando, ao nosso lado, assistir ao nosso derradeiro encontro com Deus.

(ama, comentário sobre Mt 18, 1-5; 10. 11-14, 2014.05.26)


Leitura espiritual



Documentos do Magistério

CARTA ENCÍCLICA
IN MULTIPLICIBUS CURIS
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

PEDEM-SE NOVAMENTE ORAÇÕES PÚBLICAS PARA A
PACIFICAÇÃO DA PALESTINA

1. Entre as muitas preocupações que nos afligem neste tempo tão cheio de consequências decisivas para a vida da grande família humana, e nos fazem sentir tão pesado o cargo do pontificado supremo, tem lugar destacado aquela que nos é causada pela guerra na Palestina. Na verdade, veneráveis irmãos, podemos vos dizer que nenhum acontecimento, nem alegre nem triste, consegue atenuar a dor que permanece viva em nosso ânimo, ao pensar que na terra onde o Senhor nosso Jesus Cristo derramou seu sangue para trazer a redenção e a salvação a toda a humanidade continua a ser derramado o sangue dos homens; que debaixo daquele céu no qual ecoou, naquela fatídica noite, o anúncio evangélico de paz, continuam os combates, acresce-se a miséria dos míseros e o terror dos aterrorizados, e milhares de prófugos, acossados e perdidos, vagueiam longe da pátria à procura de abrigo e de pão.

2. Contribuem para nos tornar mais viva essa dor não só as notícias que continuamente nos chegam de destruição e de danos causados aos edifícios sagrados e de beneficência que surgiram ao seu redor, mas também o medo que nos inspiram quanto à sorte destes mesmos lugares, espalhados por toda a Palestina e, em número maior, em Jerusalém, que foram santificados pelo nascimento, vida e morte do Salvador. Nem é preciso vos assegurar, veneráveis irmãos, que, no meio deste espetáculo de tantos males e na previsão de maiores ainda, não nos fechamos na nossa dor, mas fizemos tudo o que estava em nosso poder para aliviá-los.

3. Antes ainda que iniciasse o conflito armado, ao falar a uma delegação de notáveis árabes que nos veio homenagear, manifestamos a nossa mais viva solicitude pela paz na Palestina e, condenando todo recurso à violência, declaramos que ela não podia ser realizada a não ser na verdade e na justiça, isto é no respeito aos direitos de todos, às tradições, especialmente no campo religioso, assim como no fiel cumprimento de deveres e obrigações de cada grupo de moradores. Iniciada a guerra, sem nos afastar da atitude de imparcialidade a que somos obrigados pelo nosso ministério apostólico que nos põe acima dos conflitos que agitam a sociedade humana, não deixamos de agir, no que nos era possível, para o triunfo da justiça e da paz na Palestina e o respeito e a proteção dos lugares sagrados.

4. Ao mesmo tempo, solicitados por apelos numerosos e urgentes, que todos os dias são dirigidos a esta sé apostólica, procuramos, no limite das nossas possibilidades, socorrer as vítimas infelizes da guerra, enviando para este fim aos nossos representantes na Palestina, no Líbano e no Egito os meios ao nosso dispor e estimulando o surgimento e o firmar-se, entre os católicos nos vários países de iniciativas que tenham a mesma finalidade. Convencidos, porém, da insuficiência dos meios humanos para uma solução adequada desta questão de que todos podem ver a complexidade excepcional, recorremos antes de mais nada e constantemente ao grande meio da oração, e na nossa recente encíclica Auspicia quaedam vos convidávamos a rezar e a fazer rezar os fiéis confiados aos vossos cuidados pastorais, para que, sob a proteção da Virgem santíssima, "conciliadas as coisas na justiça, a concórdia e a paz voltassem felizmente na Palestina". (1)

5. Sabemos que o nosso convite não vos foi dirigido em vão. Nem esquecemos que, ao mesmo tempo que com as nossa súplicas e nossa obra nos esforçávamos juntamente com o mundo católico para a paz na Palestina, homens de boa vontade multiplicaram, com a mesma finalidade sem olhar para sacrifícios e perigos, seus nobres esforços para os quais nos é grato prestar homenagem. Contudo, a continuação do conflito e o aumento ininterrupto de ruínas materiais e morais que inexoravelmente os acompanham, nos levam, veneráveis irmãos a renovar com redobrada insistência o nosso convite, na esperança que seja acolhido não somente por vós mas também por todo o mundo católico.

6. Como declaramos no dia 2 de Junho passado aos membros do sagrado colégio dos cardeais, ao comunicar-lhes a nossa ansiedade quanto à Palestina, julgamos que o mundo cristão não poderia contemplar indiferente ou com indignação estéril aquela terra sagrada, à qual todos iam com todo respeito para beijá-la com o amor mais ardente, pisada por soldados em guerra e atingida por bombardeios aéreos. Julgamos que não poderia deixar consumar a devastação dos lugares santos e revolver o sepulcro de Jesus Cristo. Temos a maior confiança de que as súplicas fervorosas que se levantam ao Deus onipotente e misericordioso por parte dos cristãos espalhados por todo o mundo, junto com as aspirações de tantos corações nobres e ardentemente solícitos do bem e da verdade, possam tornar menos difícil aos que dirigem o destino dos homens a tarefa de fazer com que a justiça e a paz na Palestina se tornem uma realidade benéfica, e com a cooperação eficaz de todos os interessados, se crie uma ordem que garanta a cada parte, agora em conflito, a segurança da existência e, ao mesmo tempo, condições de vida, físicas e morais, capazes de alicerçar normalmente um estado de bem-estar espiritual e material.

7. Temos plena confiança que essas súplicas e essas aspirações, índice do valor que tão grande parte da família humana atribui a esses lugares sagrados, fortaleçam nas reuniões dos poderosos nas quais se discutem os problemas da paz, a convicção de dar a Jerusalém e cercanias, onde se conservam tantas e tão preciosas lembranças da vida e da morte do Salvador, um caráter internacional que, nas presentes circunstâncias, parece garantir melhor a tutela dos santuários. E também será preciso assegurar com garantias internacionais livre acesso aos lugares santos espalhados na Palestina, assim como a liberdade de culto e o respeito a usos e tradições religiosos.

8. E que cedo possa nascer o dia em que os homens tenham de novo a possibilidade de se dirigir em piedosas peregrinações aos lugares sagrados para encontrar, finalmente manifesto, naqueles monumentos vivos do Amor que se sublima no sacrifício da vida pelos irmãos, o grande segredo de pacífica convivência humana. Com essa confiança, de coração, concedemos a vós, veneráveis irmãos, aos vossos fiéis e a todos que acolherem com ânimo solícito este nosso apelo, com os votos dos favores divinos e como penhor de nossa benevolência, a bênção apostólica.

Dado em Castel Gandolfo, junto de Roma, no dia 24 de Outubro de 1948, ano X do nosso pontificado.

PIO PP. XII

(Revisão da versão portuguesa por ama)
__________________________
Nota:
(1) AAS 40 (1948), p.171.



01/10/2014

Desculpar a todos

Só serás bom, se souberes ver as coisas boas e as virtudes dos outros. Por isso, quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade, no momento oportuno, sem humilhar... e com intenção de aprender e de melhorar tu próprio, naquilo que corriges. (Forja, 455)

Uma das suas primeiras manifestações concretiza-se em iniciar a alma nos caminhos da humildade. Quando sinceramente nos consideramos nada; quando compreendemos que, se não tivéssemos o auxílio divino, a mais débil e fraca das criaturas seria melhor do que nós; quando nos vemos capazes de todos os erros e de todos os horrores; quando nos reconhecemos pecadores, embora lutemos com empenho por nos afastarmos de tantas infidelidades, como havemos de pensar mal dos outros? Como se poderá alimentar no coração o fanatismo, a intolerância, o orgulho?
A humildade leva-nos pela mão a tratar o próximo da melhor forma: compreender a todos, conviver com todos, desculpar a todos; não criar divisões nem barreiras; comportarmo-nos – sempre! – como instrumentos de unidade. Não é em vão que existe no fundo do homem uma forte aspiração à paz, à união com os seus semelhantes e ao respeito mútuo pelos direitos da pessoa, de modo que tal aspiração se transforme em fraternidade. Isto reflecte uma nota característica do que há de mais valioso na condição humana: se todos somos filhos de Deus, a fraternidade nem se reduz a uma figura de retórica, nem consiste num ideal ilusório, pois surge como meta difícil, mas real.
(…) Na oração, com a ajuda da graça, a soberba pode transformar-se em humildade. E brota da alma a verdadeira alegria, mesmo quando ainda notamos o barro nas asas, o lodo da pobre miséria, que vai secando. Depois, com a mortificação, cairá esse barro e poderemos voar muito alto, porque nos será favorável o vento da misericórdia de Deus. (Amigos de Deus, nn. 233. 249)