07/06/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Mt 5, 13-16

13 «Vós sois o sal da terra. Porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e ser calcado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas no candelabro, a fim de que dê luz a todos os que estão em casa. 16 Assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.

Comentário:

Jesus Cristo declara sem qualquer margem para dúvidas a importância do cristão na sociedade.

Uma importância que lhe vem directamente da sua Categoria de Filho de Deus em Cristo.

Como do sal ou da luz muitos dependerão dele como necessidade concreta para melhor "temperarem" as suas vidas e verem com nitidez o caminho a seguir.

(ama, comentário sobre Mt 5, 13-16 2015.06.09)



Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

IV. Caminhos da Cristologia

3. Cristo, "o último Homem”.

Fé cristã não é apenas olhar retrospectivo para o que aconteceu, ancoragem numa origem cronologicamente para trás de nós. Pensar assim, resultaria afinal em romantismo e mera restauração. Nem é apenas um olhar para o eterno; o que seria igual a platonismo e metafísica. É, sobretudo, um olhar para a frente, um avanço da esperança. Sem dúvida, não apenas isto: a esperança tornar-se-ia utopia, se a sua meta fosse puro auto-produto do homem. Ela é lídima esperança precisamente porque se encontra no sistema de coordenadas das três grandezas: do passado, ou seja, do avanço já realizado – da presença do eterno que conserva como unidade o tempo parcelado – do futuro, no qual Deus e mundo se tocarão mutuamente, tornando-se assim verdadeiramente Deus em mundo, mundo em Deus, como o ómega da história.

Sob o ponto de vista da fé cristã, poder-se-á dizer: para a história, Deus está no fim, e está no início para o ser. Aqui se destaca o vasto horizonte do crístico em que ele sobressai tanto da metafísica pura, como da ideologia marxista do futuro. Desde Abraão até ao retorno do Senhor, a fé marcha ao encontro do que há de vir. Mas em Cristo revela-se-lhe já agora o rosto do futuro: será o homem capaz de envolver a humanidade porque perdeu a si e a ela em Deus. Por isso, o sinal do que há de vir será a cruz, e o seu rosto, nesta época do mundo, será a face cheia de sangue e coberta de feridas: o "último homem", isto é, o homem futuro, propriamente dito, revela-se agora nos últimos homens. Portanto, quem quiser estar ao seu lado, deverá permanecer ao lado deles (Cfr. Mt 25,31-46).

Digressão: Estruturas do Crístico

Antes de continuar na análise dos diversos artigos do Credo que se seguem à confissão de Jesus como o Cristo, será conveniente deter-nos por um momento ainda. Na consideração das questões isoladas facilmente se perde de vista o conjunto; e, exactamente hoje, sobretudo ao tentar dialogar com os descrentes, sentimos quão necessário se nos torna uma tal perspectiva. De permeio, diante da situação da Teologia hodierna, poderia ter-se a impressão de ela estar muito satisfeita com os seus progressos ecuménicos – certamente muito dignos de louvor – a ponto de conseguir afastar veneráveis marcos fronteiriços (naturalmente para, via de regra, replantá-los noutro local), não dando bastante atenção aos problemas imediatos dos homens de hoje, que, muitas vezes, pouco representam de comum com as tradicionais questões disputadas das várias confissões. Quem poderá, por exemplo, explicar a um curioso, com a necessária brevidade e compreensão, o que significa "ser cristão"? Quem está em condições de explicar ao outro, de maneira clara, porque acredita e qual é o rumo de sua fé, qual o âmago da opção feita na fé?

Nos últimos tempos, contudo, com o surgimento de tais perguntas em escala maciça, passa-se não raro a diluir o crístico em altissonantes generalidades, capazes, sem dúvida, de afagar os ouvidos contemporâneos (cfr. 2 Tim 4,3), privando-os, no entanto, do pábulo forte da fé, a que têm direito. A Teologia não cumpre a sua missão, se ela gira, satisfeita, dentro de si e da sua erudição; e equivoca-se mais ainda, ao inventar "doutrinas de acordo com o próprio gosto" (2 Tim 4,3), oferecendo pedras em vez de pão: sua própria loquacidade ao invés da palavra de Deus. E torna-se imensamente grande a tarefa que assim se apresenta – entre Cila e Caríbdis. Tentemos apesar de tudo – ou antes, por causa disto – reflectir a respeito, sintetizando a forma básica do Cristianismo em umas poucas proposições claras. Mesmo que o resultado seja de qualquer modo insuficiente, talvez tenha a vantagem de desafiar outros a prosseguir no mesmo rumo, tornando-se assim um bom subsídio.

1.   O individual e o todo.

O primeiro escândalo fundamental com que os homens de hoje se deparam no Cristianismo está simplesmente na exterioridade em que o elemento religioso parece ter-se concentrado. Escandaliza-nos o facto de Deus dever ser transmitido por aparatos exteriores: Igreja, sacramentos, dogma ou apenas pelo anúncio (kerygma) para o qual de bom grado recuamos com o facto de diminuir o escândalo e que, no entanto, também constitui algo exterior. Face a tudo isto ergue-se a pergunta: Deus mora acaso em instituições, acontecimentos ou em palavras? Deus, sendo o eterno, não alcançaria a cada um de nós a partir do nosso íntimo? Pois bem, a resposta muito singela a tudo isto é: "sim", acrescentando-se: se apenas existisse Deus e uma soma de indivíduos, o Cristianismo não seria necessário. Deus pode e poderia realizar, e de facto realiza sempre de novo a salvação do indivíduo como indivíduo, directa e sem intermediários. Deus dispensa qualquer passagem intermediária para alcançar a alma de cada um, ali onde ele, Deus, se encontra mais no âmago do que o próprio sujeito; nada pode penetrar mais fundo e mais intimamente no homem do que Deus, que toca a criatura no ponto mais íntimo da sua intimidade. Para salvar o mero indivíduo não seria mister nem a Igreja, nem a história da salvação, nem a encarnação e paixão de Deus no mundo. Mas precisamente neste ponto deve inserir-se a declaracção que nos conduz mais além: fé cristã não principia do indivíduo atomizado, mas vem do saber que não existe o mero indivíduo, que o homem, muito mais, é ele próprio apenas quando entrosado no todo: na humanidade, na história, no cosmos, como lhe convém e é essencial à sua qualidade de "espírito em corpo".

O princípio "corpo" e "corporeidade", sob o qual se acha o homem, conota duas coisas: de um lado, o corpo separa os homens entre si, torna-os mutuamente impenetráveis. O corpo, como forma espacial e fechada, torna impossível um estar totalmente no outro; traça uma linha divisória que denota distância e limite, coloca-nos na distância um do outro, sendo portanto um princípio dissociador. Simultaneamente, porém, a existência em corpo necessariamente inclui história e comunidade, porquanto, se o puro espírito pode ser imaginado como existente apenas para si, corporeidade conota descender, originar-se um do outro: os homens vivem uns dos outros num sentido muito mais real e ao mesmo tempo pluri-estratificado. Porque, se a descendência se considera primeiro fisicamente (e já sob este ponto de vista abarca desde a origem até os múltiplos entrelaçamentos do cuidado mútuo pela subsistência), para quem é espírito, somente em corpo e como corpo, ela significa que também o espírito – ou seja simplesmente, o homem integral – está marcado profundamente pela sua pertença ao conjunto da humanidade – do único "Adão".

Deste modo, o homem revela-se como sendo aquele ente que só pode ser enquanto for do outro. Ou digamo-lo com uma palavra do grande teólogo tubinguense Möhler: "O homem, como ente transitoriamente colocado em relação, não vem a si mesmo, por si mesmo, embora também não sem si mesmo". De maneira mais forte a mesma ideia foi repetida pelo contemporâneo de Möhler, o filósofo de Munique. Franz von Baader, ao constatar ser tão irracional "derivar do auto-conhecimento (da consciência) o conhecimento de Deus e o conhecimento de todas as demais inteligências, como derivar todo amor do auto-amor". Aqui repudia-se energicamente o princípio de Descartes que, baseando a filosofia na consciência (Cogito, ergo sum: penso, logo existo), determinou de maneira decisiva o destino do espírito moderno até às formas da filosofia transcendental. Como o auto-amor não representa a forma primitiva do amor, mas, no máximo, uma forma derivada do mesmo; como só se chega ao que é peculiar no amor, considerando-o como relação, isto é, como vindo de outro, assim o conhecimento humano só é realidade como ser-conhecido, como ser-levado-a-conhecer, portanto, como vindo de outro. O homem real não se revela, se lançarmos a sonda apenas na solidão do "eu" do auto-conhecimento, porque em tal caso se exclui de antemão o ponto de partida da sua possibilidade de vir a si, portanto o que lhe é próprio. Por isso, consciente e com razão, Baader alterou o característico cogito, ergo sum em cogitor, ergo sum: não: "penso, logo existo", mas: "sou pensado, logo existo"; o homem e o seu conhecimento somente podem ser concebidos a partir do seu "ser pensado".

Demos um passo adiante: ser-homem é ser-com, é participar de todas as dimensões, não só de cada presente actual, mas de modo tal que, em cada homem, estão presentes, passado e futuro da humanidade, dessa humanidade que se revela como um único "Adão" – tanto mais, quanto mais ela é considerada. Não podemos desenvolver detalhes desta realidade. Bastem algumas indicações. É suficiente tomar consciência de que nossa vida espiritual depende totalmente do instrumento da língua, acrescentando-se, a seguir, que a língua não é de hoje: vem de longe, a história inteira teceu em torno dela e alcança-nos por seu intermédio, como a inevitável condição do nosso presente, como sua parte integrante. E vice-versa: o homem é a criatura que vive voltada para o futuro, que, na preocupação, incessantemente se projeta para além do seu momento, não sendo capaz de continuar a existir, se repentinamente se encontrar órfão de porvir. Portanto é inevitável negar a existência do simples indivíduo, da mónada humana renascentista, do mero ente cogito-ergo-sum. Ser-homem sucede ao homem somente naquele entrelaçamento de história que, mediante a língua e a comunicação social, alcança a cada um que, por sua vez, realiza a sua existência naquele modelo colectivo onde, preteritamente, já se acha sempre incluído e que forma o espaço da sua auto-realização. Absolutamente não é verdade que cada homem se projecte totalmente de novo, a partir do ponto zero da sua liberdade, como o preconizava o idealismo alemão. O homem não é uma criatura que recomeça sempre no ponto zero; ele só é capaz de desdobrar as suas potencialidades no entrosamento com o conjunto do ser humano que lhe é pré-apresentado, que o caracteriza e forma.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)






06/06/2016

Pequena agenda do cristão


SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Doutrina – 166

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO PRIMEIRO CREIO EM DEUS PAI

O homem


70. Quem dá a alma ao ser humano?


A alma espiritual não vem dos pais, mas é criada directamente por Deus e é imortal. Separando-se do corpo no momento da morte, ela não perece; voltará a unir-se novamente ao corpo, no momento da ressurreição final.

Saber-se nada diante de Deus

Grande coisa é saber-se nada diante de Deus, porque é assim mesmo. (Sulco, 260)

Deixa-me que te recorde, entre outros, alguns sinais evidentes de falta de humildade:

– pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou mais bem dito do que o que os outros fazem ou dizem;

– querer levar sempre a tua avante;

– discutir sem razão ou, quando a tens, insistir com teimosia e de maus modos;

– dar a tua opinião sem ta pedirem ou sem a caridade o exigir;

– desprezar o ponto de vista dos outros;

– não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados;

– não reconhecer que és indigno de toda a honra e estima, inclusive da terra que pisas e das coisas que possuis;

– citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas;

– falar mal de ti mesmo, para fazerem bom juízo de ti ou te contradizerem;

– desculpar-te quando te repreendem;

– ocultar ao Director algumas faltas humilhantes, para que não perca o conceito que faz de ti;

– ouvir com complacência quem te louva, ou alegrar-te por terem falado bem de ti;

– doer-te que outros sejam mais estimados do que tu;

– negar-te a desempenhar ofícios inferiores;

– procurar ou desejar singularizar-te;

– insinuar na conversa palavras de louvor próprio, ou que dão a entender a tua honradez, o teu engenho ou destreza, o teu prestígio profissional...;


– envergonhar-te por careceres de certos bens... (Sulco, 263)

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Mt 5, 1-12

1 Vendo Jesus aquelas multidões, subiu a um monte e, tendo-Se sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. 2 E pôs-Se a falar e ensinava-os, dizendo: 3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário:

No monte Sinai, Moisés ouviu e recebeu os Mandamentos da Lei que Deus Pai quis dar ao Seu povo escolhido para que observando-os, fizessem a Sua Vontade mantendo-se assim na intimidade do Criador.

Na montanha da Judeia Jesus Cristo vem dar a todos os homens a segurança da salvação eterna seja quais forem as circunstâncias particulares de cada um.

De certo modo, as Bem-aventuranças "completam" o Decálogo.

A observância deste é obrigatória e imprescindível para a salvação, a obtenção daquelas é o prémio que Deus concede com enorme generosidade ao que, para o cumprimento da Lei, encontram obstáculos e adversidades sem conta e, praticando as virtudes, conseguem vencê-las.

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12, 2015.06.08)




Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

IV. Caminhos da Cristologia

3. Cristo, "o último Homem”.

Impõe-se reconhecer como importante mérito de Teilhard de Chardin o ter repensado essas interligações do ponto de vista da cosmovisão hodierna e, não obstante certa perigosa tendência para o biológico, tê-las compreendido correctamente, no seu conjunto e, em todo caso, tê-las tornado de novo acessíveis. Ouçamo-la! A mónada humana "somente pode tornar-se ela própria, se cessar de estar sozinha". A ressoar nos bastidores deve, escutar-se a ideia de que no cosmos, ao lado das duas ordens do infinitamente pequeno e do infinitamente grande, existe uma terceira ordem que determina a torrente da evolução: a ordem do infinitamente complexo. Nela está a meta propriamente dita do processo ascendente do devir; ela alcança o seu primeiro ponto culminante no aparecimento da vida, para, a seguir, avançar continuamente até aquelas formas altamente complexas que conferem ao cosmos um novo centro: "Por mínimo e ocasional que seja o lugar ocupado pelos planetas na história dos corpos celestes, eles formam, em última análise, os pontos vitais do universo. Através deles, passa agora o eixo, neles se concentra, daqui por diante, a tendência de uma evolução dirigida sobretudo para a formação de grandes moléculas". Considerar o mundo sob o ponto de vista da escola dinâmica da complexidade denota "uma total inversão dos valores, uma inversão de perspectiva".

Mas tornemos ao homem. Até aqui ele representa o máximo em complexidade. Mas, como pura mónada-homem, ele é incapaz de representar um fim; o seu próprio devir postula um ulterior movimento de complexidade: "Não representa o homem, simultaneamente, um indivíduo (= uma "pessoa") centrado relativamente a si e um elemento relacionado com alguma nova e mais alta síntese?". É o mesmo que dizer: por um lado, o homem já é um fim que não pode mais sofrer recuo, não pode mais ser desfeito, e, contudo, no lado-a-lado com os indivíduos, ele ainda não chegou à meta, mas revela-se como que um elemento a ansiar pela plenitude que o envolva sem destruí-lo. Tomemos mais um texto para ver em que direcção levam tais ideias: "Em antítese com as hipóteses ainda válidas na Física, o estável encontra-se não em baixo – no infra-elementar – mas em cima – no ultra-sintético". Portanto, deve constatar-se "que nada mais confere às coisas firmeza e conexão do que seu entrelaçamento a partir de cima". Creio estar-se aqui frente a um pensamento muito central: a imagem dinâmica do mundo destrói neste ponto o conceito positivista, tão familiar a todos nós, que vê o estável exclusivamente na "massa", na matéria dura. O mundo afinal é construído e conectado "de cima"; isto torna-se visível de uma maneira que se parece tão impressionante, pelo facto de estarmos tão pouco familiarizados com ela.

Daqui, se abre o caminho para outro texto, visando, ao menos, indicar a visão total de Teilhard de Chardin mediante a justaposição de alguns fragmentos. "A energia universal deve ser energia pensante, se na evolução ela não dever ser menor do que as metas que serão animadas pela sua actividade. Portanto... os atributos cósmicos de valor, com que a energia aparece envolvida aos nossos olhos, não suprimem absolutamente a necessidade de reconhecer-lhe uma forma transcendente de personalidade". A partir daí pode compreender-se a meta do movimento total, assim como Teilhard o vê: a torrente cósmica movimenta-se "na direcção de um estado incrível, quase 'monomolecular'... onde cada ego... está destinado a alcançar o seu ponto culminante em algum misterioso super-ego". Enquanto um "eu", o homem, sem dúvida, representa um fim, mas o rumo do movimento do ser e da sua própria existência revela-o, ao mesmo tempo, como um ente que pertence a um "super-ego", que o não apaga, mas o envolve; somente em tal fusão pode revelar-se a forma do homem futuro, quando o "ser-homem" encontrar-se totalmente no ponto final de si mesmo.

Deve reconhecer-se que, sob o enfoque da cosmovisão moderna e envolvido em vocabulário por vezes de forte sabor biológico, Teilhard conseguiu apreender o rumo da cristologia paulina, tornando-a novamente compreensível: a fé vê em Jesus o homem no qual – falando-se do ponto de vista biológico – foi dado como que o próximo salto da evolução; o homem, no qual se realizou a saída da limitada maneira do nosso ser, de uma limitação monádica; o homem no qual personalização e socialização não se excluem mais, mas se confirmam; aquele homem em quem a mais elevada unidade – "Corpo de Cristo", diz Paulo, e mais radicalmente: "todos vós sois um só em Cristo Jesus" (Gál 3,28) – e a mais sublime individualidade são um; aquele homem, no qual a humanidade toca o seu futuro e torna-se, em grau supremo, ela mesma, porque, por ele, toca o próprio Deus, participa dele, alcançando deste modo a sua mais peculiar possibilidade. Partindo daí, da fé em Cristo, verá o raiar de um movimento no qual a humanidade dividida será integrada, mais e mais, no ser de um único Adão, de um único "corpo" – do homem que há-de vir. A fé verá aí o movimento rumo àquele futuro do homem em que, completamente "socializado" e incorporado num único, o indivíduo não será apagado, mas chegará ao seu próprio ápice.

Não seria difícil mostrar que a teologia de João indica o mesmo rumo. Lembremo-nos apenas da palavra: "Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim" (Jo 12,32). A frase procura explicar o sentido da morte na cruz. Ora, a cruz constitui o centro da teologia de João, de modo que a frase indica a direcção para a qual todo o seu Evangelho quer apontar. O acontecimento da crucificação surge aí como um facto de abertura no qual as dispersas mónadas humanas são atraídas ao abraço de Jesus Cristo, para o vasto espaço dos seus braços abertos, para, mediante tal união, alcançar a sua meta, a meta da humanidade. Ora, sendo assim, Cristo, como o homem que há-de vir, não é o homem para si, mas essencialmente homem para os outros, ele é o homem do futuro, exactamente por ser o homem completamente aberto. Então, o homem para si, que só deseja ficar em si, é o homem do passado que devemos deixar para trás a fim de avançar. Por outras palavras: o futuro do homem está em "ser-para". No fundo, confirma-se novamente o que se constatou como sentido das palavras sobre a filiação e, já antes, como sentido da doutrina das três pessoas num Deus – a indicacção para a existência dinâmica, actuante que é essencialmente abertura no movimento entre "de" e "para". E revela-se, de novo, ser Cristo o homem completamente aberto, no qual as paredes da existência ruíram, o homem que é totalmente "passagem" (pascha).

Com isto voltamos a estar repentinamente no mistério da cruz e da páscoa que a Bíblia concebe como mistério de passagem. João, que acima de tudo reflectiu sobre estas ideias, encerra a sua descrição do Jesus terreno, com a imagem da existência cujas paredes foram despedaçadas, que não conhece mais nenhum limite firme, sendo essencialmente abertura. "Um dos soldados perfurou-lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água" (Jo 19,34). Na imagem do peito atravessado culmina, para João, não só a cena da cruz, mas a história inteira de Jesus. Após o golpe da lança, que terminou a vida terrena de Jesus, a sua existência está toda aberta; agora ele é todo "para", agora verdadeiramente não é mais um indivíduo, mas "Adão", de cujo lado foi formada Eva, ou seja, uma nova humanidade. Aquela concepção profunda do Antigo Testamento segundo a qual a mulher foi tirada do lado do varão (Gên 2,21ss), exprimindo-se assim, de modo inimitavelmente grandioso, a sua mútua e perene interdependência e a sua unidade – aquela história, portanto, parece ressoar aqui, ao se retomar a palavra "lado" (pleura, em geral traduzida incorrectamente pelo termo "costela"). O lado aberto do novo Adão repete o mistério criativo do "lado aberto" do varão: é o início de uma nova comunidade definitiva dos homens entre si; como símbolos seus estão aí: água e sangue, com o que João indica os sacramentos básicos, baptismo e eucaristia e, através deles, a Igreja como sinal da nova comunidade dos homens. Com isto o totalmente aberto, que sacrificou o ser como completamente recebido e passado adiante, torna-se visível como o que ele, no mais profundo de si mesmo, sempre foi: como "Filho". Assim Jesus, na cruz, realmente entrou na sua hora, como afirma João. A expressão enigmática deveria encontrar alguma luz sob este enfoque.

Mas tudo isso também mostra que responsabilidade recai sobre as palavras a respeito do homem que há-de vir – quão pouco tem tudo isso de comum com um alegre romantismo progressista. Porquanto ser o homem para os outros, o homem aberto e, com isto, o homem a inaugurar um começo novo denota: ser o homem em oblacção, o homem sacrificado. O futuro do homem está pendente da cruz – a salvação do homem é a cruz. E não há outro caminho para chegar a si, senão deixando forçar as grades da existência, olhando para o homem de coração atravessado (Jo 19,37), seguindo aquele que, como o perfurado, aberto, abriu o caminho para o futuro. Isso significa, finalmente, que o Cristianismo o qual, como fé na criação, acredita no primado do Logos, ou seja, da razão criadora como começo e origem, acredita nele, de modo específico, enquanto fim, o futuro, o que há-de vir. Neste olhar para o futuro está a dinâmica propriamente dita do crístico que, no Antigo e Novo Testamento, realiza a fé como esperança na promessa.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)





Diálogos apostólicos

 Diálogos apostólicos II Parte


10- [1]

Mas, de facto, a liberdade envolve responsabilidade pessoal, ou não?


Respondo:

A liberdade torna o homem responsável pelos seus actos, na medida em que são voluntários, embora a imputabilidade e a responsabilidade de um acto possam ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência suportada, o medo, as afeições desordenadas e os hábitos.



[1] Nota: Normalmente, estes “Diálogos apostólicos”, são publicados sob a forma de resumos e excertos de conversas semanais. Hoje, porém, dado o assunto, pareceu-me de interesse publicar quase na íntegra.

Reflectindo - 187 - Regras morais

Regras morais 

…/5


Mas o que vêm a ser os actos moralmente aceites pela sociedade?

Lembremos do Antigo Testamento o que se passava na cidade de Sodoma.

A ausência de critérios de pureza, respeito pelo corpo - próprio e alheio - eram um hábito adquirido e portanto aqui não cabiam conceitos de prevaricação moral. Mas nem por isso


(ama, Reflexões, Garrão, 2015.09.19)

05/06/2016

Verdades que o egoísmo esconde - 3

Resultado de imagem para egoísmo

É mais saudável ocupar-se dos outros que unicamente de si mesmo.


Fonte: REVISTA SER PERSONA

(Revisão da versão portuguesa por ama)

Pequena agenda do cristão


DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



Doutrina – 165

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO PRIMEIRO CREIO EM DEUS PAI

O homem


69. Como é que, no homem, a alma e o corpo formam uma unidade?


A pessoa humana é um ser ao mesmo tempo corpóreo e espiritual. O espírito e a matéria, no homem, formam uma única natureza. Esta unidade é tão profunda que, graças ao princípio espiritual que é a alma, o corpo, que é material, se torna um corpo humano e vivo e participa na dignidade de imagem de Deus.

Não te apoquentes por verem as tuas faltas

Quanto mais me exaltarem, meu Jesus, humilha-me mais no meu coração, fazendo-me saber o que tenho sido e o que serei, se Tu me deixares. (Caminho, 591)

Não te esqueças de que és... o depósito do lixo. – Por isso, se porventura o Jardineiro – divino lança mão de ti, e te esfrega e te limpa... e te enche de magníficas flores..., nem o aroma nem a cor que embelezam a tua fealdade devem pôr-te orgulhoso.
– Humilha-te; não sabes que és o caixote do lixo? (Caminho, 592)

Quando te vires como és, há-de parecer-te natural que te desprezem. (Caminho, 593)

Não és humilde quando te humilhas, mas quando te humilham e o aceitas por Cristo. (Caminho, 594)

Não te apoquentes por verem as tuas faltas. A ofensa a Deus e a desedificação que podes ocasionar, isso é que te deve doer.


– De resto, que saibam como és e te desprezem. – Não tenhas pena de seres nada, porque assim Jesus tem que pôr tudo em ti. (Caminho, 596)

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Lc 7, 11-17

11 No dia seguinte foi para uma cidade, chamada Naim. Iam com Ele os Seus discípulos e muito povo. 12 Quando chegou perto da porta da cidade, eis que era levado a sepultar um defunto, filho único de uma viúva; e ia com ela muita gente da cidade. 13 Tendo-a visto, o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: «Não chores». 14 Aproximou-Se, tocou no caixão, e os que o levavam pararam. Então disse: «Jovem, Eu te ordeno, levanta-te». 15 E o que tinha estado morto sentou-se, e começou a falar. Depois, Jesus, entregou-o à sua mãe. 16 Todos ficaram possuídos de temor e glorificavam a Deus, dizendo: «Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus visitou o Seu povo». 17 Esta opinião a respeito d'Ele espalhou-se por toda a Judeia e por toda a região circunvizinha.

Comentário:

Também a nós o Senhor nos diz constantemente:

‘Levanta-te; estás aí na vera do caminho à espera que venham ter contigo quando deverias ser tu a procurar os teus irmãos para lhes prestares a assistência que possam precisar´.

Quantas pessoas esperam por nós?

Talvez para algo sem grande importância: uma palavra amiga, um gesto de solidariedade, um sorriso de compreensão.

Como podemos saber – e fazer o que o Senhor espera de nós – se não nos movemos – levantamos – saímos do nosso torpor e comodismo e nos “fazemos ao caminho” da vida como seres humanos solidários e atentos ao nosso próximo?

(ama, comentário sobre Lc 7, 11-17, 2016.04.11)

Leitura espiritual




INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

IV. Caminhos da Cristologia

2. Cristologia e Soteriologia

Do ponto assim alcançado torna-se visível o entrelaçamento de uma antítese criada pela história, antítese aliás bastante aparentada com a que acabamos de analisar. No correr da evolução histórica da fé em Cristo destacou-se sempre mais o que se costumou chamar "cristologia" e "soteriologia". Cristologia seria a doutrina do ser de Jesus, que foi isolada sempre mais como uma excepção teológica, transformando-se em objecto de especulacção sobre algo estranho, incompreensível e limitado exclusivamente a Jesus. Soteriologia seria o estudo da salvação: tendo tratado da charada ontológica, isto é como homem e Deus poderiam ser um só em Jesus, perguntaram-se, completamente separados do problema, o que Jesus fez e de que maneira o efeito de sua acção nos alcança. A separação de ambas as questões, a colocação de pessoa e obra como objeto de considerações e tratados separados, teve como consequência tornarem-se ambos incompreensíveis e irrealizáveis. Basta examinar um pouco os tratados de dogmática para constatar quão complicadas se tornaram as teorias sobre ambos, por ter-se olvidado que só poderiam ser compreendidos quando juntos. Lembro apenas a forma sob a qual a doutrina da salvação geralmente se apresenta na consciência cristã. Baseia-se na chamada teoria da satisfação desenvolvida por Anselmo de Cantuária no limiar da Idade Média, e que determinou com exclusividade crescente a consciência ocidental. Vista na sua forma clássica, não apresenta aspecto unilateral, mas considerada na forma grosseira criada posteriormente pela consciência geral, ela assume feição de um mecanismo cruel que se nos afigura mais e mais irrealizável.
Anselmo de Cantuária (mais ou menos de 1033 a 1109) tinha em mente deduzir a obra de Cristo através de razões necessárias (rationibus necessariis), mostrando de maneira irrefutável que essa obra se devia realizar exactamente como se realizou. O seu pensamento poderia ser reduzido às seguintes grandes linhas: pelo pecado do homem, cometido contra Deus, foi infinitamente ferida a ordem da justiça e Deus ofendido infinitamente. Por detrás disso esconde-se a ideia de que a medida da ofensa deve ser avaliada pelo ofendido; outras são as consequências da ofensa a um mendigo e outras a um chefe de estado. O peso da ofensa varia de acordo com o que foi atingido. Sendo Deus o infinito, também a ofensa a ele infligida pelo pecado tem um peso infinito. O direito assim violado deve ser restaurado, porque Deus é o Deus da ordem e da justiça, é aliás a própria justiça. Ora, de acordo com o tamanho da ofensa, impõe-se uma reparação infinita. Para tanto o homem não é capaz. Tem capacidade de ofender infinitamente (para o que a sua força é bastante), mas não é capaz de oferecer uma reparação infinita: o que ele, o finito, oferecer, será sempre apenas finito. A sua capacidade destruidora ultrapassa o seu poder criativo. Portanto, permanecerá uma distância infinita entre todas as reparações que o homem tentar e a grandeza de sua culpa, distância que ele jamais conseguirá vencer: qualquer gesto de reparação somente lhe revelará a impossibilidade de fechar o abismo que ele mesmo rasgou.

Então, a ordem deverá ficar para sempre destruída, o homem eternamente encerrado no abismo de sua culpa? Neste ponto Anselmo avança para a figura de Cristo. Eis a sua resposta: o próprio Deus apaga a injustiça, não (como ele poderia fazer) por meio de uma simples anistia incapaz de sobrepujar por dentro o crime cometido, mas fazendo com que o infinito se torne homem e, como homem, pertencente à raça dos pecadores e, no entanto, possuidor da infinita capacidade de reparação, que está ausente no simples homem, preste ele a necessária reparação. Assim a redenção dá-se totalmente por graça e, simultaneamente, como restauração do direito. Anselmo acreditava assim ter respondido à difícil questão "cur Deus homo?", questão sobre o "por que" da encarnação e da cruz. O seu ponto de vista imprimiu um cunho decisivo ao segundo milénio da cristandade ocidental a qual se tornou convencida de que Cristo devia morrer na cruz para reparar a infinita ofensa do pecado e restaurar assim a ordem abalada.

Não se deve negar que a teoria anselmiana reúne decisivos pontos de vista bíblicos e humanos; quem a examinar com certa paciência, se convencerá disto mais facilmente. Neste sentido, enquanto tentativa de reunir todos os elementos da revelação bíblica numa grande síntese, profunda e sistemática, continuará merecendo respeito. Será difícil perceber que, apesar de todos os recursos filosóficos e jurídicos postos aqui em acção, permanece como linha mestra aquela verdade expressa na Bíblia pela palavrinha "para", com a qual o livro sagrado manifesta que, como homens, não só vivemos imediatamente de Deus, mas uns dos outros e, finalmente, daquele único que viveu para todos? E quem não veria que, no esquema da teoria da satisfação, continua clara a linha do pensamento bíblico da eleição, para a qual a escolha não representa um privilégio do eleito, mas a vocação para existir para os outros? E o chamamento para aquele "para", ao qual o homem serenamente se deixa levar, cessando de agarrar-se, e ousando o salto para fora de si mesmo, rumo ao infinito, pelo qual, e só por ele, conseguirá encontrar-se. Mas, mesmo concedendo tudo isto, não se poderá negar que o sistema jurídico construído por Anselmo, perfeitamente lógico em seu aspecto divino-humano, distorce as perspectivas e pode mergulhar a imagem de Deus numa luz sinistra, graças à sua lógica de ferro. Ainda teremos de voltar a este ponto, quando tratarmos do sentido da cruz. Por ora, basta lembrar que a situação se apresentará de modo todo diverso, se, em vez da separação na obra e pessoa de Jesus, se tornar visível que em Jesus Cristo não se trata de uma acção separada dele, de um acto que Deus deve exigir por estar pessoalmente comprometido com a ordem; que não se trata – para falar com Gabriel Marcel – do ter da humanidade, mas do seu ser. E como se tornará outro o panorama, se apelarmos para expressão paulina que nos ensina a compreender a Cristo como o "último homem" (eschatos Adam: 1Cor 15,45) – como o homem definitivo a conduzir a humanidade ao seu futuro, que consiste em ser, não homem apenas, mas um com Deus.

3. Cristo, "o último Homem”.

Atingimos aqui o ponto em que podemos tentar uma síntese do que temos em mente com a confissão: "Creio em Jesus Cristo, Filho unigénito de Deus, nosso Senhor". Após tudo o que se disse até aqui, eis o que se poderia dizer em primeiro lugar: Fé cristã crê em Jesus de Nazaré enquanto o homem exemplar – assim poderia reproduzir-se objectivamente a expressão paulina "o último homem" há pouco citada. Mas, justamente como o exemplar, como o protótipo, Cristo ultrapassa o limite do "ser-homem", assim e só deste modo ele realmente é o homem exemplar. Pois o homem está dentro de si tanto menos, quanto mais está no outro. Volta a si somente afastando-se de si. Só pelo outro e pelo existir no outro ele chega a si.

O que vale, finalmente, em último e mais profundo sentido. Se o outro for apenas alguém, pode transformar-se em auto-perdição do homem. Em última análise, o homem está sintonizado para o outro, para o realmente outro, para Deus; está em si tanto mais, quanto mais estiver no completamente outro, em Deus. Portanto, ele é todo ele mesmo, se cessar de estar em si, de fechar-se em si, de afirmar-se a si, se tornar a pura abertura para Deus. Dito ainda de outro modo: o homem chega a si, ultrapassando-se a si. Ora Jesus Cristo é o homem que se ultrapassou a si e que assim chegou completamente a si.

O Rubicão da encarnação é transposto primeiramente pela passagem do animal para o Logos, da mera vida para o espírito. Da "argila" formou-se o homem no momento em que um ser não somente "estava ali", mas estava aberto para o todo, superando a mera presença e a satisfação de suas necessidades. Ora, este passo pelo qual, pela primeira vez, Logos, razão, espírito penetrou neste mundo, somente alcança a sua plena realizacção, quando o próprio Logos, a razão criadora total, e o homem se entrelaçam. A completa hominização do homem supõe a hominização de Deus; somente por meio dela foi transposto definitivamente o Rubicão do "animalesco" para o "lógico", sendo levado à sua máxima possibilidade aquele começo que irrompeu quando, pela primeira vez, um ser de pó e argila, olhando para além de si e do seu mundo ambiente, foi capaz de dizer "tu" a Deus. A abertura para o todo, para o ilimitado, perfaz o homem. O homem é homem pelo facto de chegar infinitamente para além de si, e, por conseguinte, é tanto mais homem quanto menos for fechado, limitado em si. Portanto – repitamo-lo – é homem ao máximo, e mais, o verdadeiro homem, aquele que for o mais "ilimitado", que não somente toque o infinito – o Infinito! – mas que seja um com ele: Jesus Cristo. Nele a meta da hominização foi verdadeiramente alcançada.

Há, porém, ainda um segundo elemento a considerar. Até agora tentamos compreender, a partir da ideia do "homem exemplar", aquela primeira ultrapassagem fundamental do que é próprio, a qual a fé conhece como determinativa para a figura de Jesus, a saber, a que reúne, nele, o ser-homem com o ser-Deus, em uma unidade. Contudo, já aí ressoava uma ulterior ultrapassagem. Sendo Jesus o homem exemplar, no qual se revela plenamente a verdadeira figura do homem, e com ele a ideia de Deus, não pode, em tal caso, estar destinado a figurar como excepção absoluta, como uma curiosidade, em que Deus nos demonstra o que é possível. Em tal caso, a sua existência interessa à humanidade inteira. O Novo Testamento torna-o reconhecível, chamando-o de "Adão"; na Bíblia o termo exprime a unidade da natureza inteira do homem, de forma que se fala do conceito bíblico de uma "personalidade corporativa". Ora, Jesus ser chamado "Adão" denota que está destinado a concentrar em si a natureza inteira de Adão. O que significa: aquela realidade, hoje em grande parte inconcebível para nós, que Paulo denomina de "Corpo de Cristo", representa um postulado interno dessa existência que não pode permanecer como excepção, mas deve atrair e "concentrar em si" a humanidade inteira (cfr. Jo 12,32).

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)





04/06/2016

Verdades que o egoísmo esconde - 2

Resultado de imagem para egoísmo

Qualquer pessoa é mais valiosa que todas as coisas, possessões ou pertences.

Fonte: REVISTA SER PERSONA

(Revisão da versão portuguesa por ama)

Doutrina – 164

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO PRIMEIRO CREIO EM DEUS PAI

O homem

68. Porque é que os homens constituem uma unidade?


Todos os homens formam a unidade do género humano, graças à sua comum origem em Deus. Para além disso, Deus criou «a partir de um só homem todo o género humano» (Act 17,26). Todos têm também um único Salvador e todos são chamados a partilhar a eterna felicidade de Deus.