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07/06/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Mt 5, 13-16

13 «Vós sois o sal da terra. Porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e ser calcado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas no candelabro, a fim de que dê luz a todos os que estão em casa. 16 Assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.

Comentário:

Jesus Cristo declara sem qualquer margem para dúvidas a importância do cristão na sociedade.

Uma importância que lhe vem directamente da sua Categoria de Filho de Deus em Cristo.

Como do sal ou da luz muitos dependerão dele como necessidade concreta para melhor "temperarem" as suas vidas e verem com nitidez o caminho a seguir.

(ama, comentário sobre Mt 5, 13-16 2015.06.09)



Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

IV. Caminhos da Cristologia

3. Cristo, "o último Homem”.

Fé cristã não é apenas olhar retrospectivo para o que aconteceu, ancoragem numa origem cronologicamente para trás de nós. Pensar assim, resultaria afinal em romantismo e mera restauração. Nem é apenas um olhar para o eterno; o que seria igual a platonismo e metafísica. É, sobretudo, um olhar para a frente, um avanço da esperança. Sem dúvida, não apenas isto: a esperança tornar-se-ia utopia, se a sua meta fosse puro auto-produto do homem. Ela é lídima esperança precisamente porque se encontra no sistema de coordenadas das três grandezas: do passado, ou seja, do avanço já realizado – da presença do eterno que conserva como unidade o tempo parcelado – do futuro, no qual Deus e mundo se tocarão mutuamente, tornando-se assim verdadeiramente Deus em mundo, mundo em Deus, como o ómega da história.

Sob o ponto de vista da fé cristã, poder-se-á dizer: para a história, Deus está no fim, e está no início para o ser. Aqui se destaca o vasto horizonte do crístico em que ele sobressai tanto da metafísica pura, como da ideologia marxista do futuro. Desde Abraão até ao retorno do Senhor, a fé marcha ao encontro do que há de vir. Mas em Cristo revela-se-lhe já agora o rosto do futuro: será o homem capaz de envolver a humanidade porque perdeu a si e a ela em Deus. Por isso, o sinal do que há de vir será a cruz, e o seu rosto, nesta época do mundo, será a face cheia de sangue e coberta de feridas: o "último homem", isto é, o homem futuro, propriamente dito, revela-se agora nos últimos homens. Portanto, quem quiser estar ao seu lado, deverá permanecer ao lado deles (Cfr. Mt 25,31-46).

Digressão: Estruturas do Crístico

Antes de continuar na análise dos diversos artigos do Credo que se seguem à confissão de Jesus como o Cristo, será conveniente deter-nos por um momento ainda. Na consideração das questões isoladas facilmente se perde de vista o conjunto; e, exactamente hoje, sobretudo ao tentar dialogar com os descrentes, sentimos quão necessário se nos torna uma tal perspectiva. De permeio, diante da situação da Teologia hodierna, poderia ter-se a impressão de ela estar muito satisfeita com os seus progressos ecuménicos – certamente muito dignos de louvor – a ponto de conseguir afastar veneráveis marcos fronteiriços (naturalmente para, via de regra, replantá-los noutro local), não dando bastante atenção aos problemas imediatos dos homens de hoje, que, muitas vezes, pouco representam de comum com as tradicionais questões disputadas das várias confissões. Quem poderá, por exemplo, explicar a um curioso, com a necessária brevidade e compreensão, o que significa "ser cristão"? Quem está em condições de explicar ao outro, de maneira clara, porque acredita e qual é o rumo de sua fé, qual o âmago da opção feita na fé?

Nos últimos tempos, contudo, com o surgimento de tais perguntas em escala maciça, passa-se não raro a diluir o crístico em altissonantes generalidades, capazes, sem dúvida, de afagar os ouvidos contemporâneos (cfr. 2 Tim 4,3), privando-os, no entanto, do pábulo forte da fé, a que têm direito. A Teologia não cumpre a sua missão, se ela gira, satisfeita, dentro de si e da sua erudição; e equivoca-se mais ainda, ao inventar "doutrinas de acordo com o próprio gosto" (2 Tim 4,3), oferecendo pedras em vez de pão: sua própria loquacidade ao invés da palavra de Deus. E torna-se imensamente grande a tarefa que assim se apresenta – entre Cila e Caríbdis. Tentemos apesar de tudo – ou antes, por causa disto – reflectir a respeito, sintetizando a forma básica do Cristianismo em umas poucas proposições claras. Mesmo que o resultado seja de qualquer modo insuficiente, talvez tenha a vantagem de desafiar outros a prosseguir no mesmo rumo, tornando-se assim um bom subsídio.

1.   O individual e o todo.

O primeiro escândalo fundamental com que os homens de hoje se deparam no Cristianismo está simplesmente na exterioridade em que o elemento religioso parece ter-se concentrado. Escandaliza-nos o facto de Deus dever ser transmitido por aparatos exteriores: Igreja, sacramentos, dogma ou apenas pelo anúncio (kerygma) para o qual de bom grado recuamos com o facto de diminuir o escândalo e que, no entanto, também constitui algo exterior. Face a tudo isto ergue-se a pergunta: Deus mora acaso em instituições, acontecimentos ou em palavras? Deus, sendo o eterno, não alcançaria a cada um de nós a partir do nosso íntimo? Pois bem, a resposta muito singela a tudo isto é: "sim", acrescentando-se: se apenas existisse Deus e uma soma de indivíduos, o Cristianismo não seria necessário. Deus pode e poderia realizar, e de facto realiza sempre de novo a salvação do indivíduo como indivíduo, directa e sem intermediários. Deus dispensa qualquer passagem intermediária para alcançar a alma de cada um, ali onde ele, Deus, se encontra mais no âmago do que o próprio sujeito; nada pode penetrar mais fundo e mais intimamente no homem do que Deus, que toca a criatura no ponto mais íntimo da sua intimidade. Para salvar o mero indivíduo não seria mister nem a Igreja, nem a história da salvação, nem a encarnação e paixão de Deus no mundo. Mas precisamente neste ponto deve inserir-se a declaracção que nos conduz mais além: fé cristã não principia do indivíduo atomizado, mas vem do saber que não existe o mero indivíduo, que o homem, muito mais, é ele próprio apenas quando entrosado no todo: na humanidade, na história, no cosmos, como lhe convém e é essencial à sua qualidade de "espírito em corpo".

O princípio "corpo" e "corporeidade", sob o qual se acha o homem, conota duas coisas: de um lado, o corpo separa os homens entre si, torna-os mutuamente impenetráveis. O corpo, como forma espacial e fechada, torna impossível um estar totalmente no outro; traça uma linha divisória que denota distância e limite, coloca-nos na distância um do outro, sendo portanto um princípio dissociador. Simultaneamente, porém, a existência em corpo necessariamente inclui história e comunidade, porquanto, se o puro espírito pode ser imaginado como existente apenas para si, corporeidade conota descender, originar-se um do outro: os homens vivem uns dos outros num sentido muito mais real e ao mesmo tempo pluri-estratificado. Porque, se a descendência se considera primeiro fisicamente (e já sob este ponto de vista abarca desde a origem até os múltiplos entrelaçamentos do cuidado mútuo pela subsistência), para quem é espírito, somente em corpo e como corpo, ela significa que também o espírito – ou seja simplesmente, o homem integral – está marcado profundamente pela sua pertença ao conjunto da humanidade – do único "Adão".

Deste modo, o homem revela-se como sendo aquele ente que só pode ser enquanto for do outro. Ou digamo-lo com uma palavra do grande teólogo tubinguense Möhler: "O homem, como ente transitoriamente colocado em relação, não vem a si mesmo, por si mesmo, embora também não sem si mesmo". De maneira mais forte a mesma ideia foi repetida pelo contemporâneo de Möhler, o filósofo de Munique. Franz von Baader, ao constatar ser tão irracional "derivar do auto-conhecimento (da consciência) o conhecimento de Deus e o conhecimento de todas as demais inteligências, como derivar todo amor do auto-amor". Aqui repudia-se energicamente o princípio de Descartes que, baseando a filosofia na consciência (Cogito, ergo sum: penso, logo existo), determinou de maneira decisiva o destino do espírito moderno até às formas da filosofia transcendental. Como o auto-amor não representa a forma primitiva do amor, mas, no máximo, uma forma derivada do mesmo; como só se chega ao que é peculiar no amor, considerando-o como relação, isto é, como vindo de outro, assim o conhecimento humano só é realidade como ser-conhecido, como ser-levado-a-conhecer, portanto, como vindo de outro. O homem real não se revela, se lançarmos a sonda apenas na solidão do "eu" do auto-conhecimento, porque em tal caso se exclui de antemão o ponto de partida da sua possibilidade de vir a si, portanto o que lhe é próprio. Por isso, consciente e com razão, Baader alterou o característico cogito, ergo sum em cogitor, ergo sum: não: "penso, logo existo", mas: "sou pensado, logo existo"; o homem e o seu conhecimento somente podem ser concebidos a partir do seu "ser pensado".

Demos um passo adiante: ser-homem é ser-com, é participar de todas as dimensões, não só de cada presente actual, mas de modo tal que, em cada homem, estão presentes, passado e futuro da humanidade, dessa humanidade que se revela como um único "Adão" – tanto mais, quanto mais ela é considerada. Não podemos desenvolver detalhes desta realidade. Bastem algumas indicações. É suficiente tomar consciência de que nossa vida espiritual depende totalmente do instrumento da língua, acrescentando-se, a seguir, que a língua não é de hoje: vem de longe, a história inteira teceu em torno dela e alcança-nos por seu intermédio, como a inevitável condição do nosso presente, como sua parte integrante. E vice-versa: o homem é a criatura que vive voltada para o futuro, que, na preocupação, incessantemente se projeta para além do seu momento, não sendo capaz de continuar a existir, se repentinamente se encontrar órfão de porvir. Portanto é inevitável negar a existência do simples indivíduo, da mónada humana renascentista, do mero ente cogito-ergo-sum. Ser-homem sucede ao homem somente naquele entrelaçamento de história que, mediante a língua e a comunicação social, alcança a cada um que, por sua vez, realiza a sua existência naquele modelo colectivo onde, preteritamente, já se acha sempre incluído e que forma o espaço da sua auto-realização. Absolutamente não é verdade que cada homem se projecte totalmente de novo, a partir do ponto zero da sua liberdade, como o preconizava o idealismo alemão. O homem não é uma criatura que recomeça sempre no ponto zero; ele só é capaz de desdobrar as suas potencialidades no entrosamento com o conjunto do ser humano que lhe é pré-apresentado, que o caracteriza e forma.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)






09/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)




Tempo comum X Semana


Evangelho: Mt 5, 13-16

13 «Vós sois o sal da terra. Porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e ser calcado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas no candelabro, a fim de que dê luz a todos os que estão em casa. 16 Assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.

Comentário:

A importância do sal foi e é enorme, diria mesmo vital para a humidade.

Os povos que vivem a grandes distâncias da orla marítima sabem bem quanto esforço e trabalho lhes é exigido para o obterem e, também o elevado preço que têm de pagar por bem tão precioso como indispensável.

Assim o cristão é, ele próprio e pelo facto de o ser, tão importante que Jesus o compara ao sal: tem de ser o tempero  indispensável na sociedade, o elemento fundamental na vida dos homens seus irmãos.

O cristão, por isso mesmo, não tem preço!

Já pensamos nisto? 

(ama, comentário, MT 5, 13-16 2014.02.09)


Leitura espiritual

  


a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS





viii a luta ascética para a conversão

…/3
         

        3º Crescer em Caridade.

…/2
       
        «Amar a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, são o único mandamento. Ambos vivem do Amor que vem de Deus que nos amou primeiro» [1].

        A caridade é o palpitar do espírito que há-de impregnar todas as acções do cristão.
É, certamente, «vínculo de perfeição» [2], «é a forma das virtudes: articula-as e ordena-as entre si é fonte e termo da sua prática cristã.

A caridade assegura e purifica a nossa faculdade humana de amar.
Eleva-a à perfeição natural do amor divino» [3].

        Nessa perspectiva e sabendo que a caridade é a manifestação viva da fé, o cristão acaba por se dar conta da verdade da afirmação do Apóstolo: «Tudo o que não procede da fé e pecado» [4].


***


        Crescendo na Fé, na Esperança e na Caridade, o cristão, além de manifestar que Cristo já vive nele, torna possível que o enxerto de Cristo no seu espírito se desenvolva sempre mais, viva nele mais profundamente e chegue assim a manifestar nas suas acções, nos seus pensamentos, nos seus desejos, a vida de Cristo.
Cristo converte-se para ele em «Caminho, Verdade e Vida».

        Verdade porque a fé em que Cristo é o Filho de Deus feito homem o leva a aceitar a Verdade de Deus que ilumina todos os caminhos da sua vida, todas as suas acções pessoais, familiares, sociais e que dá sentido a todo o seu viver: às suas penas e às suas alegrias, às suas doenças e dores, aos seus gozos.

        Caminho porque a esperança alimentada na Ressurreição de Cristo, que abre as portas do Céu, da Vida Eterna com e no Pai, o Filho e o Espírito, anima e sustém o seu caminhar entre os montes, vales, planícies, alegria, penas, fracassos e triunfos com que  crente se depara diariamente no seu labor de redenção.
«Tudo suporto por amor aos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, juntamente com a glória eterna» [5].

        E Vida.
Cristo chega a ser a vida do crente - «viremos e faremos nele morada» [6], e, em razão desta vida, o crente realiza todas as suas acções movido pela caridade, pelo amor, como Cristo.
Então, ao ter sido enxertado em Cristo, o cristão chega definitivamente a poder dizer:
«Já não sou eu, é Cristo que vive em mim» [7].


ix as virtudes


        Terminámos a primeira parte destes apontamentos fazendo referência aos frutos do Espírito Santo.
Assinalámos que o seu crescimento na alma era o sinal do desenvolvimento da vida cristã no crente e a manifestação mais preclara da Graça, por a vida de Fé, Esperança e de Caridade tinha chegado a deitar raízes profundas na pessoa baptizada.

        Agora ao chegar aos últimos detalhes da luta ascética cristã, q eu vai tornando possível que a vida da Graça converta em santo o homem já cristão, temos de fazer alusão às Virtudes que também podemos considerar como frutos do desenvolvimento da Fé na inteligência, da Esperança na memória, no sentido histórico que o ser humano tem da sua vida, da Caridade na vontade.

        O que é uma Virtude?

        «A Virtude é uma disposição habitual e firme a fazer o bem.
Permite à pessoa não só realizar actos bons como também dar o melhor de si própria.
Com todas as suas forças sensíveis e espirituais a pessoa virtuosa tende para o bem, procura-o e elege-o através de acções concretas» [8].

        Tender para o bem, fazer o bem quer dizer que a pessoa está movida pela graça de Deus e a finalidade dessa tendência ao bem é desenvolver a acção da Graça em nós e, portanto, «configurar-nos com Cristo, viver com Deus»
«O objectivo de uma vida virtuosa consiste em chegar a ser semelhante a Deus» [9].[10]

        Na vida natural o homem tem tendências, impulsos que o movem a partir de dentro de si mesmo e o sustêm na procura prática do bem, tendências e impulsos que o homem guia e dirige com livre vontade.
De forma semelhante na vida pessoal cristã, enxertados como estamos na natureza divina, o homem é guiado pela Graça, pela acção do Espírito Santo que aceita em liberdade.
Assim, o cristão vai adquirindo uns hábitos em fazer o que o sustêm na procura não só de um certo bem natural como do verdadeiro e último fim da pessoa humana: Deus.

        Podemos perguntar-nos:

Para que tendem as virtudes?
A uma certa melhoria das qualidades do homem, a um certo equilíbrio e a uma excelência simplesmente humana e natural?
Já o assinalámos.
Para entender o verdadeiro sentido das virtudes na vida pessoal cristã, temos de ter presente que a sua finalidade é «configurar-nos com Cristo, fazer o possível que Cristo viva em cada cristão, que cada cristão reflicta na sua vida a vida de Cristo».

        Neste sentido, as virtudes não são simples melhorias na vida cristã do crente que se limitem ao desenvolvimento das suas qualidades humanas sem nenhuma referência à sua vida cristã.
Não.
As virtudes são uma manifestação de que Cristo vive verdadeiramente non crente.

        Rezar, comungar e, depois, não servir no trabalho os outros quer dizer simplesmente que a Graça não deitou raízes profundas no espírito do cristão, que avida de piedade que nunca se deve descuidar não deu todavia os frutos desejados.
E, por outro lado, viver a laboriosidade por si mesma ou para demonstrar a alguém do que se é capaz, não contribui em nada para o verdadeiro ser cristão de uma pessoa.

        Para ter uma perspectiva mais concreta da vida pessoal cristã, não podemos esquecer que as virtudes reflectem a vida cristã de cada um segundo a sua condição humana e sobrenatural e que cada ser humano as reflecte de forma irrepetível.
É certo que há uma série de modelos e de normas de actuação que se podem a plicar a todos os homens, a todos os crentes, mas, ao mesmo tempo, a vivência desses modelos, dessas normas é única e irrepetível em cada ser humano.

        Por exemplo, um sacerdote, um monge, uma mãe de família, um professor nas suas aulas, um profissional no seu trabalho poderão viver as mesmas virtudes, a prudência, a fortaleza, a temperança, a justiça de forma muito diferente em cada caso, sendo em todos as mesmas virtudes, os mesmos hábitos de fazer o bem.

        E, para completar a perspectiva das virtudes, é oportuno não perder de vista que ainda que se insista em que «as virtudes morais se adquirem mediante as forças humanas são o fruto e o gérmen de actos oralmente bons. Dispõem todas as potências do ser humano para se harmonizarem co o amor divino» [11].

Esse esforço do cristão para viver as virtudes está sempre acompanhado por uma certa acção da Graça nele e dá-lhe o que ele, talvez, não é de todo consciente.

        No cristão, insistimos, a «natureza humana» e a «participação na natureza divina» não actuam em paralelo.
Confluem na vontade livre do homem que junta as forças naturais e sobrenaturais, humanas e divinas nas decisões pessoais que toma para desenvolver a sua vida pessoal cristã.

        Ao mesmo tempo, e precisamente tendo em conta essa unidade radical da pessoa humana, não podemos esquecer que, por vezes, homens e mulheres crentes e pouco piedosas actuam aproveitando tendências e impulsos naturais que os levam a fazer o bem, a procurar o bem.
Ou seja, são pessoas das quais se pode dizer, sem dúvida alguma, que actuam de forma moralmente boa ainda que quase em absoluto careçam de vida de piedade.

        Não podemos esquecer o que assinalámos repetidamente ao longo destas páginas, muitos não se relacionam com Deus, são criaturas que não tiveram ensejo de escutar a palavra divina ou que a esqueceram.
Mas as suas disposições são humanamente sinceras, leais, compassivas, honradas.
E não me atrevo a afirmar quem reúne essas condições está a ponto de ser generoso com Deus porque as virtudes humanas compõem o fundamento das sobrenaturais.[12]

        Esta afirmação adquire o seu verdadeiro significado quando, considerando a unidade do ser humano, se aprecia nas acções moralmente boas que realiza a procura do bem último, Deus, que todo o ser pessoal, queira-o ou não, o pense ou não, anseia conhecer e amar.


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] BentoXVI, Deus caritas est, n. 18
[2] Col 3, 14
[3] Catecismo, n. 1827
[4] Rom 14, 23
[5] 2 Tim 2, 10
[6] Jo 14, 23
[7] Ga 2, 20
[8] Catecismo, n. 1803
[9] São Gregóriode Nisa, beat. 1
[10] Catecismo, n. 1803
[11] Catecismo, n. 1804
[12] São Josemaria Escrivá, Amigos nde Deus, n. 74