16/10/2018

Temas para reflectir e meditar


Formação humana e cristã – 81 

Talvez cheguemos à conclusão que poderíamos ter aproveitado aquela ocasião que resolvemos ignorar para fazer algo de bom para essa pessoa e para nós próprios porque o bem ou o mal que fazemos aos outros tem sempre consequências para quem o prática.

Hoje em dia, se alguém que não conhecemos nos cumprimenta, por exemplo dizendo "bom-dia" ficamos admirados, o que não acontecia há anos atrás principalmente na província.

Isto tem importância?

Claro que tem. Revela pelo menos o crescendo da indiferença entre as pessoas.

E esta indiferença está a destruir a sociedade de tal forma que, por exemplo, já não somos considerados "pessoas" mas "indivíduos".

Como é possível que, por exemplo, numa família não sejamos tratados como pessoas pertencendo a um agregado consistente, real, com sentimentos que são comuns como, por exemplo, a defesa do bom-nome, das memórias, da unidade, mas como indivíduos agindo adrede sem qualquer preocupação por mínima que seja a respeito do núcleo familiar?

Ou seja, onde deveria existir amor, sincero, verdadeiro, em que a pessoa é amada por aquilo que é e não pelo que tem, passa a haver indiferença e uma ausência de sentimentos de solidariedade, respeito, amizade, amor.

E, evidentemente, isto reflecte-se inexoravelmente na vida social.

Depois, claro, esse individualismo atinge níveis de autêntico desprezo pela dignidade da pessoa humana e advoga-se, defende-se, propõe-se que a sua utilidade está na relação directa da sua capacidade física de contribuir para o todo e não traga custos nem despesas em que todos, de uma forma ou outra, terão de participar.
Daí a eutanásia, o aborto, o abandono dos mais débeis e incapacitados.
Considera-se que se pode legislar, decidir, se alguém deve morrer ou não, se será conveniente dar vida a uma criança não "programada".

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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Vida de São Francisco de Assis

CAPITULO 2

Conversão definitiva e restauração de três igrejas

1- O próprio Cristo era o único guia de Francisco em todo esse tempo.
Na sua bondade, interveio mais uma vez com a suave influência de sua graça.

Francisco saiu um dia da cidade para meditar.
Ao passar pela igreja de São Damião, que estava prestes a ruir de tão velha, sentiu-se atraído a entrar e rezar.
De joelhos diante do Crucificado, sentiu-se confortado imensamente no seu espírito e os seus olhos encheram-se de lágrimas ao contemplar a cruz.
Subitamente, ouviu uma voz que vinha da cruz e lhe falou por três vezes:
“Francisco, vai e restaura a minha casa. Vês que ela está em ruínas”.
Francisco encontrava-se sozinho na igreja e ficou amedrontado ao ouvir aquela voz, mas a força da sua mensagem penetrou profundamente no seu coração e ele, delirando, caiu em êxtase.
Por fim voltou a si e tratou de pôr em execução a ordem recebida.
Concentrou todas as forças na restauração daquela igreja material. Mas a igreja a que a visão se referia era aquela que “Cristo resgatara com o próprio sangue” (At 20,28).
O Espírito Santo mais tarde lho revelou e ele ensinou-o aos seus irmãos.
Levanta-se então, faz o sinal-da-cruz para ter coragem, pega na loja do pai alguns fardos de tecido, vai a galope até Foligno, vende a sua mercadoria juntamente com o cavalo que lhe servira de montaria. Volta a Assis, entra na igreja que se propusera restaurar. Encontra aí o pobre sacerdote capelão e saúda-o respeitosamente, oferece seu dinheiro para restaurar a igreja e distribuir aos pobres, pede-lhe enfim humildemente a permissão de viver algum tempo ao seu lado.
O capelão concorda em dar-lhe pousada, mas temendo a família recusa aceitar o dinheiro.
Com o seu total desinteresse pelo dinheiro, Francisco atira-o a um canto da janela com tanto desprezo como se fosse poeira.

2. Mas a permanência do servo de Deus junto ao capelão se prolongava-se; o seu pai acabou compreendendo o que estava a acontecer e correu furioso até a igreja.
Ao ouvir as ameaças daqueles que o procuravam e ao perceber que se estavam aproximando, Francisco escondeu-se numa caverna secreta; sendo ainda novo no serviço de Cristo, não quis enfrentar as iras do pai.
Permaneceu no esconderijo durante vários dias, implorando continuamente a Deus com muitas lágrimas que o livrasse das mãos dos seus perseguidores e lhe permitisse, na sua bondade, realizar os desejos que ele mesmo havia inspirado.
Enfim, sentiu-se inundado de alegria, começou a acusar-se de medroso e cobarde, saiu da sua gruta e dirigiu-se corajosamente a Assis.
Os seus concidadãos ao verem o seu rosto macilento e o espírito transformado, disseram que estava louco, perseguiram-no atirando-lhe pedras e lama, cobrindo-o de insultos, como um alienado, um lunático.
Mas o servo de Deus, insensível e inabalável, passava por cima de todas as injúrias como se nada houvesse escutado.
Ao ouvir aquele tumulto, o pai correu imediatamente até ele a fim de oprimi-lo ainda mais, não para protegê-lo.

Sem nenhuma compaixão, arrastou-o para casa, censurou-o o mais que pôde, bateu-lhe e por fim colocou-o na prisão.
Tudo isso, porém, fez com que ele se tornasse mais resoluto e decidido a levar a cabo os seus planos, repetindo a frase do Evangelho: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus(Mt 5,10).

3. Pouco depois, no entanto, aproveitando uma viagem que o pai fizera, a mãe, que não aprovava o procedimento do seu marido e não esperava mais poder dobrar a coragem a toda prova do seu filho, livrou-o da prisão e permitiu que ele se fosse embora; Francisco deu graças a Deus e voltou à solidão.

Mas ao regressar o pai e não o encontrando em casa, destratou a mulher e em seguida foi à procura do filho, cheio de cólera, disposto a traze-lo, se possível, para casa, ou ao menos a expulsá-lo da sua terra.
Francisco, a quem Deus dava toda a coragem, indo ao encontro do pai furioso, disse-lhe com firmeza que lhe eram indiferentes a prisão e as pancadas e acrescentou solenemente que por amor de Cristo estava disposto a enfrentar alegremente todas as provações.
Vendo que não conseguia traze-lo de volta à casa paterna, tentou recuperar o dinheiro.
E quando, enfim, o encontrou atirado num canto da janela da igreja, satisfez a sua cobiça e acalmou-se um pouco.


4. Não contente com ter recuperado o seu dinheiro, tratou de fazer com que Francisco fosse levado até ao bispo da diocese, onde ele deveria renunciar a toda a sua herança e devolver-lhe tudo que tinha.
No seu autêntico amor à pobreza, Francisco nada opunha a essa cerimónia e apresenta-se de boa mente diante do bispo e sem esperar um minuto nem hesitar de qualquer forma, sem aguardar qualquer ordem nem pedir qualquer explicação, tira imediatamente todas as suas vestes e entrega-as ao pai.
Todos viram então que, sob as vestes finas, o homem de Deus levava um cilício.
Despiu mesmo os calções, em seu fervor e entusiasmo, e ficou nu diante de todos.
Então disse ao pai: “Até agora chamei-te meu pai, mas de agora em diante posso dizer sem qualquer reserva: ‘Pai nosso que estais no céu’, pois foi a ele que confiei meu tesouro e nele depositei minha fé”.
O bispo, que era um homem santo e muito digno, chorava de admiração ao ver os excessos a que o levava seu amor a Deus; levantou-se, abraçou-o e envolveu-o no seu manto, ordenando que trouxessem alguma roupa para cobri-lo.
Deram-lhe um pobre manto que pertencia a um dos camponeses a serviço do bispo; Francisco recebeu-o agradecido e, depois, tendo encontrado um pedaço de giz no caminho, traçou uma cruz sobre o manto.
Muito expressiva era semelhante veste neste homem crucificado, neste pobre seminu.
Dessa forma, o servo do Grande Rei foi deixado nu para seguir as pegadas do seu Senhor atado nu à cruz e foi assim também que ele adoptou essa cruz como emblema, a fim de confiar a sua alma ao madeiro que nos salvou e por meio dele escapar são e salvo do naufrágio do mundo.

5. Estando agora livre dos laços que o prendiam aos desejos terrenos, em seu desprezo pelo mundo, Francisco abandonou a cidade natal e procurou fora um lugar onde pudesse ficar a sós, alegre e despreocupado.
Aí na solidão e no silêncio poderia ouvir as revelações secretas de Deus.
Ia dessa forma pela floresta, alegre e cantando em francês os louvores do Senhor, quando dois ladrões surgiram do cerrado e caíram sobre ele. Ameaçaram-no e perguntaram quem ele era, mas ele respondeu corajosamente com as palavras proféticas:
“Sou o arauto do Grande Rei”.
Bateram-lhe e e lançaram-no numa fossa cheia de neve, dizendo-lhe: “Fica por aí, miserável arauto de Deus”.
Francisco esperou que se fossem embora, saiu da fossa, alegre, recomeçando com mais ânimo ainda sua canção em honra do Senhor.

São Boaventura

(cont)


(revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Que a tua vida não seja uma vida estéril


S. Josemaria proclamou que a santidade está ao alcance de todo o cristão. Publicamos alguns textos nos que fala dessa chamada divina à qual ele respondeu.
Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina, com o resplendor da tua fé e do teu amor.
Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. – E incendeia todos os caminhos da Terra com o fogo de Cristo que levas no coração. (Caminho, 1)

Todos os que aqui estamos fazemos parte da família de Cristo, porque Ele mesmo nos escolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante dele, o qual nos predestinou para sermos seus filhos adoptivos por meio de Jesus Cristo para sua glória, por sua livre vontade. Esta escolha gratuita de que Nosso Senhor nos fez objecto, marca-nos um fim bem determinado: a santidade pessoal, como S. Paulo nos repete insistentemente: haec est voluntas Dei: sanctificatio vestra, esta é a vontade de Deus: a vossa santificação. Portanto, não nos esqueçamos: estamos no redil do Mestre, para alcançar esse fim. (Amigos de Deus, 2)

A meta que proponho – ou melhor, a que Deus indica a todos – não é uma miragem ou um ideal inatingível: podia contar-vos tantos exemplos concretos de mulheres e de homens correntes, como vocês e como eu, que encontraram Jesus que passa quasi in occulto pelas encruzilhadas aparentemente mais vulgares e decidiram segui-lo, abraçando com amor a cruz de cada dia. Nesta época de desmoronamento geral, de concessões e de desânimos, ou de libertinagem e de anarquia, parece-me ainda mais actual aquela convicção simples e profunda que, no princípio da minha actividade sacerdotal e sempre, me consumiu em desejos de comunicar à humanidade inteira: estas crises mundiais são crises de santos. (Amigos de Deus, 4)

Estamos decididos a procurar que a nossa vida sirva de modelo e de ensinamento aos nossos irmãos, aos nossos iguais, os homens? Estamos decididos a ser outros Cristos? Não basta dizê-lo com a boca. Tu – pergunto-o a cada um de vós e pergunto-o a mim mesmo – tu, que por seres cristão estás chamado a ser outro Cristo, mereces que se repita de ti que vieste facere et docere, fazer tudo como um filho de Deus, atento à vontade de seu Pai, para que deste modo possas levar todas as almas a participar das coisas boas, nobres, divinas e humanas, da Redenção? Estás a viver a vida de Cristo na tua vida de cada dia no meio do mundo?
Fazer as obras de Deus não é um bonito jogo de palavras, mas um convite a gastar-se por Amor. Temos de morrer para nós mesmos a fim de renascermos para uma vida nova. Porque assim obedeceu Jesus, até à morte de Cruz, mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum. Por isso Deus O exaltou. Se obedecermos à vontade de Deus, a Cruz será também Ressurreição, exaltação. Cumprir-se-á em nós, passo a passo, a vida de Cristo; poder-se-á afirmar que vivemos procurando ser bons filhos de Deus, que passamos fazendo o bem, apesar da nossa fraqueza e dos nossos erros pessoais, por mais numerosos que sejam. (Cristo que passa, 21)

Asseguro-vos, meus filhos, que, quando um cristão realiza com amor a mais intranscendente das acções diárias, ela transborda da transcendência de Deus. Por isso vos tenho repetido, com insistente martelar, que a vocação cristã consiste em fazer poesia heróica da prosa de cada dia. Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não; onde se juntam deveras é nos vossos corações, quando viveis santamente a vida de cada dia... (Temas actuais do cristianismo, 116)

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Lc 11, 37-41

37 Mal Jesus tinha acabado de falar, um fariseu convidou-o para almoçar na sua casa; Ele entrou e pôs-se à mesa. 38 O fariseu admirou-se de que Ele não se tivesse lavado antes da refeição. 39 O Senhor disse-lhe: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade. 40 Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? 41 Antes, dai esmola do que possuís, e para vós tudo ficará limpo

Comentário:

Talvez nunca nos tenhamos dado conta da importância da esmola.

Segundo o Senhor, a esmola purifica!

Quem de nós não precisa de purificação?


(AMA, comentário sobre Lc 11, 37-41, 13.10,2015)



15/10/2018

Temas para reflectir e meditar

Formação humana e cristã – 81

Amor aos outros

No amor aos outros empregamos as nossas capacidades de altruísmo e solidariedade.
Não ficamos indiferentes como se não nos dissesse respeito. 
Claro que, por princípio e respeito não nos imiscuímos na vida privada de cada um nem é disso que se trata, prestamos atenção aos possíveis sinais que essa pessoa pode emitir. 

Sinais que identificamos sem grande dificuldade.

Percebemos, por exemplo, quando alguém se sente só e deseja uma companhia que, a maior parte das vezes será uma simples troca de palavras que pode muito bem continuar numa conversa.

Por norma fugimos destas situações, temos mais que fazer, não conhecemos a pessoa, não queremos incómodos.

E pensando bem é tão simples e fácil.

Examinemos se isto não se passou connosco alguma vez.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR

(Vida de São Francisco de Assis)


CAPITULO l

A sua vida no mundo

1. Vivia na cidade de Assis um homem chamado Francisco, de abençoada memória, a quem Deus na sua bondade e misericórdia antecipara a abundância da sua graça, salvando-o dos perigos da vida presente e derramando sobre ele os dons da sua graça celestial. Na sua juventude, viveu Francisco no meio dos filhos deste mundo e como eles foi educado.
Depois de aprender a ler e a escrever, recebeu um emprego rendoso no comércio. Mas, com o auxílio divino, jamais se deixou levar pelo ardor das paixões que dominavam os jovens da sua companhia. Embora fosse inclinado à vida dissipada, nunca cedeu à tentação.
Vivia num ambiente marcado pela cobiça desenfreada dos comerciantes, mas ele mesmo, embora gostasse de obter os seus lucros, jamais se prendeu desesperadamente ao dinheiro e às riquezas.

O Senhor incutia no seu coração um sentimento de piedade que o tornava generoso com os pobres. Este sentimento foi crescendo no seu coração e impregnou-o de tanta bondade que ele decidiu, como ouvinte atento que era do Evangelho, ser generoso com quem lhe pedisse esmola, sobretudo a quem pedisse por amor de Deus. No entanto, um dia, estando muito ocupado em negócios, despediu de mãos vazias, um pobre que lhe pedia uma esmola por amor de Deus. Caindo em si, correu atrás do homem, deu-lhe uma rica esmola e prometeu ao Senhor nunca mais recusar, sendo-lhe possível, o que quer que lhe pedissem por amor de Deus.
Observou esse propósito até a morte com uma caridade incansável e que lhe granjeou sempre mais a graça e o amor de Deus.
Mais tarde, já como perfeito imitador de Cristo, dizia que durante sua vida mundana ele não podia ouvir estas palavras: “amor de Deus” sem ficar comovido.

Mansidão, gentileza, paciência, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassava os seus recursos eram sinais de sua natureza privilegiada que anunciavam já uma efusão mais abundante ainda da graça divina nele.
De facto um cidadão de Assis, homem simples do povo, que parecia inspirado por Deus, tirou o manto ao encontrar Francisco em Assis e estendeu-o sob os pés do jovem afirmando que um dia ele seria digno do maior respeito, que em breve realizaria grandes feitos e mereceria dessa forma a veneração de todos os fiéis.

2. Por essa época, Francisco ainda ignorava os planos de Deus a seu respeito, pois não havia aprendido a contemplação das coisas do alto, levado que era sempre em direcção às coisas externas por ordem de seu pai, nem havia adquirido ainda o gosto pelas coisas de Deus, atraído para as coisas inferiores pela corrupção que todos nós temos desde o berço.
Mas “o sofrimento permite a uma alma compreender muitas coisas; a mão do Senhor pesou sobre ele, e a direita do Altíssimo o transformou” (Is 28,19; Ez 1,3; Sl 76,11), sujeitando-lhe o corpo a uma longa enfermidade para preparar sua alma a receber o Espírito Santo.
Havendo recuperado as suas energias, já se vestia de novo com elegância.
Certo dia encontrou um cavaleiro, nobre de nascimento mas pobre e mal vestido; ficou com pena daquele homem, desfez-se imediatamente das suas vestes e deu-lhas, poupando assim, num duplo gesto de caridade, ao cavaleiro a vergonha e ao pobre a miséria.

3. Naquela noite, enquanto dormia, Deus na sua bondade mostrou-lhe em visão magnífica um grande palácio de armas que levavam a cruz de Cristo marcada nos brasões.
Mostrava-lhe assim que a gentileza que ele praticara com o pobre cavaleiro por amor ao Grande Rei seria recompensada de modo incomparável. Perguntou Francisco para quem era tudo aquilo. E uma voz do céu respondeu-lhe: “Para ti e os teus soldados”.
Ainda não tinha experiência em interpretar os divinos mistérios e ignorava a arte de ir além das aparências visíveis até as realidades invisíveis. Por isso estava convencido, ao acordar, que essa estranha visão lhe garantia um imenso sucesso para o futuro.
Entregue a essa ilusão, decide alistar-se no exército de um conde, grande senhor da Apúlia, na esperança de conquistar, sob as suas ordens, essa glória militar que lhe prometia aquela visão.
Põe-se a caminho e chega à cidade seguinte.
Durante a noite ouve o Senhor dizer-lhe em tom familiar: “Francisco, quem pode fazer mais por ti: o senhor ou o servo, o rico ou o pobre?” Francisco responde que é o senhor e o rico, evidentemente.

E o Senhor responde-lhe: “Por que então deixas o Senhor para te dedicares ao servo? Por que escolhes um pobre em vez de Deus que é infinitamente rico?”
“Senhor, responde Francisco, que quereis que eu faça?”
E Deus disse-lhe: “Volta para tua terra, pois a visão que tiveste prefigura um acontecimento totalmente espiritual que se realizará não da maneira como o homem propõe, mas assim como Deus dispõe”.
De manhã, Francisco tratou de voltar para Assis.
Estava sobremodo alegre e o futuro não lhe dava preocupação; era já um modelo de obediência e aguardou a vontade de Deus.

4. Desde esse instante afastou-se da vida agitada dos seus negócios e rogou à divina misericórdia que o iluminasse a respeito de sua vocação.
Perseverando na oração, chegou a um desejo do céu tão intenso e a um desprezo tão grande das coisas da terra por amor à pátria celeste, que começou a sentir o valor da descoberta que fizera do tesouro escondido e como um comerciante prudente, pensava em liquidar todos os seus bens para comprar a pedra preciosa.
Como fazer, ele ainda não sabia. Tinha apenas esta certeza, pelas luzes recebidas: que o intercâmbio espiritual começa pelo desprezo do mundo e que para alguém ser soldado de Cristo é preciso já ter conseguido a vitória sobre si mesmo.

5. Certo dia, andando a cavalo na planície que se estende junto de Assis, encontrou um leproso.
Foi um encontro inesperado e Francisco ficou muito horrorizado diante daquele triste quadro. Mas lembrou-se do propósito de perfeição que abraçara e da necessidade de vencer-se a si mesmo primeiro, se quisesse ser cavaleiro de Cristo.

Imediatamente desceu do cavalo e correu a beijar o pobre homem.
O leproso estendeu a mão para receber uma esmola.
Francisco deu-lhe um dinheiro e um beijo. Montou novamente a cavalo, olhou em frente e em toda a volta, e, nada havendo que lhe impedisse a vista, todavia não viu mais o leproso.
Cheio de admiração e alegria, começou a cantar os louvores do Senhor e prometeu fazer coisas melhores ainda no futuro.

A partir desse momento, frequentava os lugares solitários, propícios às lágrimas, aos gemidos inefáveis, de tal forma que suas instantes preces foram ouvidas pelo Senhor.

Um dia, ao rezar assim na solidão e totalmente absorto em Deus, apareceu-lhe Cristo crucificado.
Diante dessa visão, “derreteu-se-lhe a alma” (Ct 5,6) e a recordação da paixão de Cristo gravou-se-lhe tão profundamente no coração, que a partir desse instante dificilmente podia conter o pranto e deixar de suspirar quando pensava no Crucificado.

Ele mesmo confessou esse facto pouco antes de morrer. Logo compreendeu que se dirigiam a ele aquelas palavras do Evangelho: “Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me(Mt 16,24).

6. Imbuiu-se desde então do espírito de pobreza, com um profundo sentimento de humildade e uma atitude de profunda compaixão.
Jamais suportara a vista dos leprosos, mesmo à distância, e sempre evitara encontrar-se com eles, mas agora, desejando alcançar o total desprezo de si mesmo, servia-os com devoção, humildade e benevolência, pois diz o profeta Isaías que Cristo crucificado foi considerado um homem leproso e desprezado. Visitava constantemente as suas casas e distribuía entre eles, esmolas generosas, beijando-lhes as mãos e os lábios com profunda compaixão.

Ao aproximar-se dos pobres, não se contentava em lhes dar o que possuía.
Desejava dar-se a si mesmo e quando já não tinha mais dinheiro, entregava as suas vestes, descosendo-as ou rasgando-as às vezes para as distribuir.
Aos sacerdotes pobres, que ele respeitava e venerava, ajudava-os oferecendo-lhes sobretudo paramentos para o altar: queria assim ter a sua parte no culto divino e aliviar a miséria aos ministros do altar.

Por essa época realizou uma peregrinação ao túmulo de São Pedro.
Ao reparar o grande número de mendigos reunidos em frente da igreja, levado de compaixão e seduzido pelo amor à pobreza, escolheu um dos mais miseráveis, propôs trocar com ele as roupas, vestindo os farrapos do pobre.
Passou todo o dia na companhia dos pobres, cheio de uma alegria que ele ainda não experimentara.
Queria assim desprezar aquelas coisas às quais o mundo empresta tanto valor e chegar progressivamente à perfeição evangélica. Também cuidava de trazer no seu corpo, pela mortificação da carne, a cruz de Cristo que já levava no seu coração.

Tudo isso se deu quando Francisco ainda vivia e se vestia como um leigo no mundo.

São Boaventura

(cont)

(revisão da versão portuguesa por AMA)

Maria, Mestra do sacrifício escondido e silencioso!


Maria, Mestra do sacrifício escondido e silencioso! – Vede-a, quase sempre oculta, colaborando com o Filho: sabe e cala. (Caminho, 509)

A Virgem Dolorosa... Quando a contemplares, repara no seu Coração. É uma mãe com dois filhos, frente a frente; Ele... e tu. (Caminho, 506)

Que humildade, a de minha Mãe Santa Maria! – Não a vereis entre as palmas de Jerusalém, nem – afora as primícias de Caná – na altura dos grandes milagres. – Mas não foge do desprezo do Gólgota; lá está, "iuxta crucem Iesu" – junto da cruz de Jesus, sua Mãe. (Caminho, 507)

Na hora do desprezo da Cruz, a Virgem lá está, perto do seu Filho, decidida a partilhar a sua mesma sorte. Percamos o medo de nos comportarmos como cristãos responsáveis quando isso não é cómodo no ambiente em que nos movemos. Ela nos ajudará. (Sulco, 977)

Evangelho e comentário


Tempo comum

Santa Teresa de Jesus – Doutora da Igreja

Evangelho: Lc 11, 29-32

29 Como as multidões afluíssem em massa, começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas. 30 Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. 31 A rainha do Sul há-de levantar-se, na altura do juízo, contra os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; ora, aqui está quem é maior do que Salomão! 32 Os ninivitas hão-de levantar-se, na altura do juízo, contra esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; ora, aqui está quem é maior do que Jonas.»

Comentário:

Os avisos que Jesus faz aos que O escutam são, na verdade, para os homens de todos os tempos.

Poderiam aqueles ter dúvidas e incertezas sobre a Pessoa de Cristo e a Doutrina que pregava.

Nós… não!

Mais de dois mil anos de ensinamentos da Igreja, do Magistério, de conselhos e indicações e tantos e tantas, os milhares de milhares de páginas escritas dão-nos todos os conhecimentos que precisamos ter para acreditar e, acreditando seguir Jesus.

Ignorar esta verdade é absolutamente desonesto e não se pode aceitar.


(AMA, comentário sobre Lc 11, 29-32, 16.10.2017)


14/10/2018

Temas para reflectir e meditar


Formação humana e cristã – 80

Bom… esgotadas todas as minhas reticências, vencidas as minhas dúvidas, que digo?

Faça-se como Tu queres, o que Tu queres e como queres. Eu, não serei mais que um instrumento nas Tuas mãos sábias e generosas e, se me queres, se de facto me queres como eu tenho a certeza que sim, pois que toque a melodia que compuseste e, mesmo desafinando e soltando notas equívocas ou erradas, Tu estarás sempre, Maestro e Guia exímio para recompor a partitura e equilibrar o ritmo para que a obra saia das Tuas Mãos e não das minhas.

Portanto, Senhor, não me preocupo.

AMA, reflexões.

Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Cristo que passa 186 a 187

186
        
Que há muita gente empenhada em comportar-se com injustiça? Sim, mas o Senhor insiste: pede-me, e eu te darei as nações em herança, e os teus domínios irão até aos confins da Terra.
Tu os governarás com vara de ferro, e quebrá-los-ás qual vaso de oleiro.
São promessas fortes e são de Deus.
Por isso, não podemos dissimulá-las.
Não é em vão que Cristo é o Redentor do mundo, e reina, soberano, à direita do Pai.
É o terrível anúncio daquilo que espera a cada um de nós, quando a vida passar - porque passa - e a todos, quando a história acabar, se o coração se endurece no mal e na desesperança.

Contudo, Deus, que sempre pode vencer, prefere convencer: E agora, ó reis, atendei: instruí-vos, vós que governais a Terra.
Servi ao Senhor com temor, e louvai-o com alegria; com tremor, prestai-lhe vassalagem, para que não Se ire, e não pereçais fora do caminho, quando daqui a pouco se incendiar a sua indignação. Cristo é o Senhor, o Rei.
E nós vos anunciamos que aquela promessa, que foi feita a nossos pais, Deus a cumpriu para nossos filhos, ressuscitando Jesus, como também está escrito no salmo segundo: Tu és meu Filho, eu te gerei hoje...

Seja-vos, pois, notório, homens, irmãos, que por Ele vos é anunciada a remissão dos pecados e de tudo aquilo de que não pudestes ser justificados pela lei de Moisés.
Por Ele é justificado todo aquele que crê. Tomai pois cuidado que não venha sobre vós o que foi fito pelos profetas: Vede, ó despertadores, e admirai-vos e desaparecei, que eu faço uma obra em vossos dias, uma obra que vós não crereis, se alguém vo-la contar.

É a obra da salvação, o reinado de Cristo nas almas, a manifestação da misericórdia de Deus.
Bem-aventurados todos os que confiam n'Ele!
Nós, cristãos, temos direito a enaltecer a realeza de Cristo, porque, ainda que a injustiça abunde, ainda que muitos não desejem este reinado de amor, na própria história humana que é o cenário do mal, vai-se tecendo a obra da salvação eterna.

187
         
Anjos de Deus

Ego cogito cogitationes pacis, et non afilictionis, eu tenho pensamentos de paz e não de tristeza, diz o Senhor.
Sejamos homens de paz, homens de justiça, fazedores do bem, e o Senhor não será para nós juiz, mas amigo, irmão.

Que neste caminhar - alegre! - pela Terra, nos acompanhem os anjos de Deus.
Antes do nascimento do nosso Redentor - escreve São Gregório Magno - tínhamos perdido a amizade dos Anjos.
O pecado original e os nossos pecados quotidianos tinham-se afastado da sua luminosa pureza...
Mas desde o momento que nós reconhecemos o nosso Rei, os anjos reconheceram-nos como concidadãos.

E como o Rei dos Céus quis tornar a nossa carne terrena, os Anjos já não se afastam da nossa miséria.
Não se atrevem a considerar inferior à sua esta natureza que adoram, vendo-a exaltada, acima deles, na pessoa do Rei do Céu; e não sentem já inconveniente em considerar o homem como companheiro.

Maria, a Mãe santa do nosso Rei, a Rainha do nosso coração, cuida de nós como só Ela sabe fazê-lo.
Mãe compassiva, trono da graça, pedimos-te que saibamos compor na nossa vida e na vida dos que nos rodeiam, verso a verso, o poema simples da caridade, quasi fluvium pacis, como um rio de paz.
Porque tu és mar de inesgotável misericórdia: os rios vão dar todos ao mar e o mar não se enche.


FIM





A cruz, a Santa Cruz!, pesa.


Ao celebrar a festa da Exaltação da Santa Cruz, suplicaste a Nosso Senhor, com todas as veras da tua alma, que te concedesse a sua graça para "exaltar" a Cruz Santa nas tuas potências e nos teus sentidos... Uma vida nova! Um novo selo: para dar firmeza à autenticidade da tua embaixada..., todo o teu ser na Cruz! – Veremos, veremos. (Forja, 517)

A Cruz, a Santa Cruz!, pesa.

– Por um lado, os meus pecados. Por outro, a triste realidade dos sofrimentos da nossa Mãe a Igreja; a apatia de tantos católicos que têm um "querer sem querer"; a separação – por diversos motivos – de seres amados; as doenças e tribulações, alheias e próprias...
A cruz, a Santa Cruz!, pesa: "Fiat, adimpleatur...!". Faça-se, cumpra-se, seja louvada e eternamente glorificada a justíssima e amabilíssima Vontade de Deus sobre todas as coisas! Amen. Amen. (Forja, 769)

A Cruz não é a pena, nem o desgosto, nem a amargura... É o madeiro santo onde triunfa Jesus Cristo... e onde triunfamos nós, quando recebemos com alegria e generosamente o que Ele nos envia. (Forja, 788)

Sacrifício, sacrifício!... É verdade que seguir Jesus Cristo (disse-o Ele) é levar a Cruz. Mas não gosto de ouvir as almas, que amam o Senhor, falar tanto de cruzes e de renúncias; porque, quando há Amor, o sacrifício é gostoso – ainda que custe – e a cruz é a Santa Cruz.
A alma que sabe amar e entregar-se assim, enche-se de alegria e de paz. Então, porquê insistir em "sacrifício", como buscando consolações, se a Cruz de Cristo – que é a tua vida – te torna feliz? (Forja, 249)