13/06/2016

Leitura espiritual

Leitura Espiritual


INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO SEGUNDO

Desenvolvimento da Fé em Cristo nos Artigos Cristológicos do Símbolo

3. "Desceu aos infernos"

Talvez nenhum artigo do Credo esteja mais longe de nossa consciência actual do que este. Ao lado dos artigos do nascimento de Jesus da Virgem Maria e da ascensão do Senhor, este artigo é o que mais aguça o apetite para a "desmitificação", que aqui parece poder processar-se sem perigo e sem escândalo. Os poucos textos em que a Escritura parece falar algo a respeito (1Pdr 3,19 s; 4,6; Ef 4,9; Rom 10,7; Mt 12,40, At 2,27. 31) são tão difíceis de compreender, que facilmente se pode interpretá-los em muitos sentidos. Se, de acordo com isto, o artigo for totalmente eliminado, parece ter-se a vantagem de ficar livre de um assunto que dificilmente se enquadra na nossa mentalidade sem que se tenha tornado culpado de alguma infidelidade especial. Mas, haverá realmente algum proveito nisto? Ou apenas se tenta sair do caminho, diante da dificuldade e do mistério da realidade? Pode tentar-se superar problemas ou negando-os sem mais, ou enfrentando-os. O primeiro caminho é mais cómodo, mas somente o segundo conduz para a frente. Portanto, em vez de eliminar o problema, não seria o caso de aprender a compreender que este artigo ao qual se subordina, no correr do ano litúrgico, o Sábado Santo, nos está particularmente próximo, constituindo de maneira toda especial a experiência do nosso século? Na Sexta-Feira da Paixão, de qualquer maneira, o olhar permanece cravado no Crucificado, enquanto o Sábado Santo é o dia da "morte de Deus", o dia que exprime e preconiza a inaudita experiência do nosso tempo: Deus está simplesmente ausente, o túmulo encobre-o, Deus não acorda mais, não fala mais, de modo que não é mais preciso nem mesmo contestá-lo, bastando apenas ignorá-lo. "Deus está morto e nós o matámos": esta frase de Nietzsche pertence verbalmente à tradição da devoção à paixão do Senhor; exprime o conteúdo do Sábado Santo, o "desceu aos infernos".

Em nexo com este artigo acorrem-me duas cenas bíblicas. Primeiro, a cruel história do Antigo Testamento em que Elias desafia os sacerdotes de Baal a impetrar da sua divindade o fogo para o sacrifício. Fazem-no e, logicamente, nada acontece. Elias escarnece deles, exactamente como um espírito iluminado zomba do homem piedoso, julgando-o ridículo, quando nada acontece em resposta à sua prece. Elias anima-os; talvez não tenham rezado bastante alto: "Gritai mais alto; pois sendo um deus, terá preocupações, ou ter-se-á retirado, ou estará viajando; é possível que esteja dormindo e é mister despertá-lo!" (1Rs 18,27). Lendo hoje estes motejos dirigidos aos devotos de Baal, alguém pode sentir-se um tanto inseguro; pode-se ter a sensação de sermos nós os que se acham naquela situação, cabendo-nos a nós os escárneos. Nenhum clamor parece capaz de despertar Deus. O racionalista pode dizer-nos calmamente: Rezai mais alto; talvez então o vosso Deus desperte. "Desceu aos infernos": quão realisticamente se retrata aí a verdade da hora presente, a descida de Deus ao silêncio, ao lúgubre calar-se de quem não mais está presente.

Mas, ao lado da história de Elias e da página análoga no Novo Testamento, na narrativa sobre o Senhor a dormir no meio da borrasca (Mc 4,35-41 e par), também a história dos discípulos de Emaús encontra aqui o seu lugar (Lc 24,13-35). Os discípulos perturbados falam da morte da sua esperança. Para eles sucedeu algo assim como a morte de Deus: extinguiu-se o ponto onde Deus finalmente parecia ter falado. O mensageiro de Deus está morto, o vazio é total. Nada mais responde. Mas, enquanto assim falam da morte da sua esperança, incapazes de ver a Deus, não percebem que no seu meio se encontra precisamente esta esperança. Que "Deus" ou antes aquela imagem que fizeram da sua promessa, devia morrer, para viver tanto maior. Devia ser destruída a imagem que fizeram de Deus, e a cuja camisa de forças teimavam em forçá-lo, para que, quase como por sobre os escombros da casa destruída, pudessem reencontrar o horizonte e a ele mesmo que permanece o infinitamente maior. Eichendorff formulou-o no estilo sentimental e quase ingénuo do seu século:

"Tu és, ó Deus sereno,
Quem, lá do alto trono,
Destrói o que eu ponho,
A fim de que, sem choro,
O céu, mais claro, eu veja".

Portanto, o artigo da descida do Senhor aos infernos lembra-nos que à revelação cristã pertence não somente o falar de Deus, mas também o seu silêncio. Deus não é apenas a palavra compreensível que nos vem ao encontro; ele é igualmente o abismo calado e inacessível, incompreendido e incompreensível, que nos foge. Certamente, no Cristianismo há um primado do Logos, da palavra a anteceder o silêncio: Deus falou. Deus é palavra. Apesar disto, não podemos esquecer o ocultamento de Deus que jamais termina. Somente experimentando-o como silêncio, podemos esperar ouvir também a sua voz que clama no silêncio. Através da cruz a cristologia oferece o momento da palpabilidade do divino amor, até para além das fronteiras da morte, no meio do silêncio e do obscurecimento de Deus. Será de admirar se a Igreja, se a vida de cada um é conduzida continuamente para essa hora de silêncio, para o esquecido e desprezado artigo "desceu aos infernos"?

Ponderando isto, resolve-se automaticamente a questão sobre a "prova escriturística" para ele; pelo menos no grito de morte de Jesus: "Meu Deus, por que me abandonaste?" torna-se visível, qual deslumbrante resplendor de um relâmpago em noite escura, a descida de Jesus aos infernos. Não esqueçamos ser esta palavra do Crucificado o verso inicial de uma oração de Israel (Sl 22 [21],2), que resume tremendamente a miséria e a esperança desse povo eleito e aparentemente tão abandonado por Deus. Esta prece, brotada da miséria mais profunda da treva de Deus, termina com um louvor à divina grandeza. Também este elemento está presente no grito de agonia de Jesus, grito que Ernst Käsemann, há pouco, descreveu como uma súplica a subir do inferno, como a elevação do primeiro mandamento no deserto da aparente ausência de Deus. "O Filho ainda conserva a fé, quando ela parece ter-se tornado sem sentido, revelando a realidade do Deus ausente, do qual não é em vão que falam o mau ladrão e a multidão motejante. O seu clamor não se refere à vida nem ao além-vida, não se refere a ele, mas ao Pai. O seu grito ergue-se contra a realidade do mundo inteiro". Será preciso ainda perguntar pelo sentido da adoração nesta hora de treva? A adoração pode ser outra coisa que não o grito das profundezas, junto com o Senhor que "desceu aos infernos", e que estabeleceu a proximidade de Deus no coração da ausência de Deus?

Tentemos outra consideração para penetrar neste complexo mistério, impossível de ser esclarecido por apenas um lado. Primeiramente voltemos a socorrer-nos de um facto exegético. Afirma-se que a palavra "inferno" não passa de reprodução errónea de scheol (grego: hades), com que os hebreus designam a condição após a morte, representada confusamente como uma espécie de existência sonambúlica, mais não-ser do que ser. De acordo com isto, o artigo denotaria que Jesus entrou no scheol, isto é, morreu. Pode ser. Mas continua a pergunta: com isto simplificou-se o assunto, tornou-se menos misterioso? Creio que, exactamente agora, é que se apresenta o problema da morte. O que vem a ser morte, que acontece quando alguém morre, tombando sob o destino da morte? Todos temos de reconhecer o nosso embaraço diante deste problema. Ninguém sabe a resposta com exactidão, porque todos vivemos aquém da morte, não tendo ainda provado o seu amargor. Talvez, porém, se possa tentar uma aproximação a partir, novamente, do grito de Jesus na cruz, grito no qual identificamos a essência do que vem a ser descida de Jesus, participação no destino da morte dos homens. Porquanto, nesta derradeira prece, do mesmo modo como na cena da agonia no Horto das Oliveiras, revela-se, qual elemento mais profundo da sua paixão, não uma dor física qualquer, mas a solidão radical, o completo abandono. Ora, nisto manifesta-se afinal o abismo da solidão humana em geral, do homem que, em seu âmago, está sozinho. Essa solidão, a maior parte das vezes camuflada, sem deixar de constituir a verdadeira situação do homem, denota simultaneamente o paradoxo mais profundo em relação à natureza do homem, que não pode estar sozinho, mas carece de companhia. Por esta razão a solidão é a causa do medo, fundada na fragilidade do ser, destinado a existir e, não obstante, condenado ao que lhe é impossível.

Tentemos exemplificá-lo ainda. Uma criança obrigada a atravessar sozinha uma floresta numa noite escura tem medo mesmo se lhe provarem de modo convincente que nada existe capaz de provocar o temor. No momento em que se vê no meio da treva, sentindo a solidão de modo radical, eis que surge o medo, o medo essencialmente humano, que não é temor de alguma coisa, mas medo em si. O receio de algo concreto é inócuo em si, podendo ser superado pelo afastamento da sua causa. O medo de um cachorro bravo, por exemplo, elimina-se prendendo o cão. Agora, porém, deparamos com algo muito mais profundo: cercado da solidão última, o homem teme não uma coisa determinada; muito mais, sente receio da solidão, experimenta o horror e a fragilidade do seu próprio ser, impossíveis de serem vencidos racionalmente. Ainda outro exemplo: sozinho, à noite, a fazer guarda a um defunto, o homem sentirá, de algum modo sinistro a sua situação, mesmo estando em condições e esforçando-se em convencer-se racionalmente de que os seus sentimentos carecem de base. Sabe perfeitamente que o morto nada lhe poderá fazer e que a sua situação talvez fosse muito mais perigosa, se ele ainda estivesse vivo. O que desperta aqui é uma uma outra espécie de medo; não medo de alguma coisa, mas da lúgubre solidão em si, da fragilidade da existência, face a face com a solidão da morte.

Mas, sendo totalmente inoperante o argumento da falta de objecto, como poderá ser superado um tal medo? Pois bem, a criança perderá o medo no momento em que sua mão sentir o aconchego de outra mão amiga, em que soar outra voz falando com ela; ou seja, no instante em que experimentar a presença de uma pessoa bondosa. O que se encontra a sós com um defunto, também sentirá desaparecer o receio, se houver alguém na sua companhia, e sentir a proximidade de um "tu". Esta superação do medo revela simultaneamente a sua natureza, a saber, que se trata de medo de estar só, de temor de um ser que somente pode viver com outros. O medo propriamente dito não pode ser vencido pela razão, mas exclusivamente pela presença de um ente amoroso.

Mas, cumpre levar mais longe ainda a nossa pergunta: Na hipótese de existir uma solidão onde palavra alguma de outrem consiga penetrar, transformando-a; na suposição de uma solidão tão profunda que nenhum "tu" a alcance, estaríamos diante da solidão e do horror total, daquilo a que o teólogo denomina "inferno". Desta perspectiva é possível definir exactamente o inferno: ele denota uma solidão onde a palavra do amor não tem mais lugar, conotando com isto a fragilidade essencial da existência. Neste contexto, a quem não acorreria a opinião de poetas e filósofos hodiernos, segundo a qual todos os encontros entre homens se conservam na superfície, não estando aberta a homem nenhum a entrada ao âmago do outro? Portanto, ninguém pode realmente alcançar o íntimo do outro; qualquer encontro, por lindo que seja, serve apenas para narcotizar a incurável ferida da solidão. Deste modo, no mais fundo do nosso ser, habitaria o inferno, o desespero – a solidão tão inevitável quão terrível. Sartre, como se sabe, construiu a sua antropologia a partir desta ideia. Mas também um poeta tão conciliador e otimista como Hermann Hesse deixa transparecer, em última análise, os mesmos pensamentos:
"Estranho, andar na névoa!
Viver é solidão;
Ninguém conhece ninguém,
O só está só..."

De facto, uma coisa é certa: existe uma noite, em cujo ermo voz alguma ecoa; há uma porta pela qual só podemos passar sozinhos: a porta da morte. Todo o medo do mundo finalmente nada mais é do que medo diante desta solidão. Daqui compreende-se porque o Antigo Testamento conhece uma palavra apenas para conotar inferno e morte, a palavra scheol: porque ambas as coisas são idênticas para o Antigo Testamento. A morte é a solidão simplesmente. Mas, a solidão à qual não pode chegar o amor é o inferno.

Voltamos assim ao nosso ponto de partida, ao artigo da descida aos infernos. Ele declara que Cristo atravessou as portas da nossa solidão derradeira; que na sua paixão desceu ao abismo do nosso abandono. Onde voz alguma está em condições de alcançar-nos, ali ele se encontra. Com isto o inferno foi vencido, ou mais exactamente: a morte, que antes era o inferno, não o é mais. Ambas as coisas não são mais o mesmo, porque no seu centro está a vida, porque no seu meio habita o amor. Só o excluir, o fechar-se voluntário é inferno, ou, no dizer da Bíblia, é morte segunda (por exemplo Ap 20,14). Mas a morte não mais é um caminho para o seio desta solidão, as portas do scheol estão abertas. Creio que, neste enfoque, poderão ser bem compreendidas as metáforas patrísticas de sabor tão mitológico, que falam da libertação dos mortos, da abertura das portas. Também tornar-se-á compreensível o texto de Mateus, de aparência tão mítica, sobre os túmulos que se abriram e os corpos dos santos que ressurgiram por ocasião da morte de Jesus (Mt 27,52). As portas da morte estão abertas, desde que na morte reside a vida: reside o amor.


joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)





Pequena agenda do cristão


SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Doutrina – 173

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO PRIMEIRO CREIO EM DEUS PAI

A queda

77. Que outras consequências provoca o pecado original?


Em consequência do pecado original, a natureza humana, sem ser totalmente corrompida, fica ferida nas suas forças naturais, submetida à ignorância, ao sofrimento, ao poder da morte, e inclinada ao pecado. Tal inclinação é chamada concupiscência.

Evangelho e comentário


Tempo Comum
Santo António de Lisboa

Evangelho: Mt 5, 13-19

13 «Vós sois o sal da terra. Porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e ser calcado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas no candelabro, a fim de que dê luz a todos os que estão em casa. 16 Assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus. 17 «Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas sim para cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe uma só letra ou um só traço da Lei, sem que tudo seja cumprido. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos mesmo dos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas o que os guardar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus.

Comentário:

As palavras de Jesus Cristo cumprem-se sempre.

Em mais de dois séculos de história a Igreja que Ele fundou e de que é a Cabeça não alterou, absolutamente, nenhum princípio básico das leis que a regem.

Houve tempos, é verdade, que foi dirigida por homens de pouca virtude ou, até, de muito má conduta e, no entanto, nem estes o fizeram.

Mesmo que alguém o quisesse fazer tal não seria possível porque o Senhor não o consentiria.

Tudo quanto o Magistério faz, comanda, sugere ou impõe fá-lo sob a luz e inspiração do Espírito Santo.

(ama, comentário sobre Mt 5, 13-16 2015.06.13)






Estou com Ele no tempo da adversidade

Ainda que tudo se vá abaixo e se acabe; ainda que os acontecimentos se sucedam ao contrário do previsto, com tremenda adversidade; nada se ganha perturbando-se. Além disso, recorda a oração confiante do profeta: "O Senhor é o nosso Juiz; o Senhor é o nosso Legislador; o Senhor é o nosso Rei; Ele é quem nos há-de salvar". Reza-a devotamente, todos os dias, para acomodar a tua conduta aos desígnios da Providência, que nos governa para nosso bem. (Forja, 855)

E quando a tentação do desânimo, dos contrastes, da luta, da tribulação, de uma nova noite da alma nos ataca – violenta –, o salmista põe-nos nos lábios e na inteligência aquelas palavras: estou com Ele no tempo da adversidade. Jesus, perante a Tua Cruz, que vale a minha; perante as Tuas feridas, os meus arranhões? Perante o Teu Amor imenso, puro e infinito, que vale o minúsculo fardo que Tu colocaste sobre os meus ombros? E os vossos corações e o meu enchem-se de uma santa avidez, confessando-Lhe – com obras – que morremos de Amor.

Nasce uma sede de Deus, uma ânsia de compreender as Suas lágrimas; de ver o Seu sorriso, o Seu rosto... Julgo que o melhor modo de o exprimir é voltar a repetir, com a Escritura: como o veado deseja a fonte das águas, assim a minha alma te anela, ó meu Deus! E a alma avança, metida em Deus, endeusada: o cristão tornou-se um viajante sedento, que abre a boca às águas da fonte.

Com esta entrega, o zelo apostólico ateia-se, aumenta dia-a-dia – pegando esta ânsia aos outros – porque o bem é difusivo. Não é possível que a nossa pobre natureza, tão perto de Deus, não arda em desejos de semear no mundo inteiro a alegria e a paz, de regar tudo com as águas redentoras que brotam do lado aberto de Cristo, de começar e acabar todas as tarefas por Amor.


Falava antes de dores, de sofrimentos, de lágrimas. E não me contradigo se afirmo que, para um discípulo que procura amorosamente o Mestre, é muito diferente o sabor das tristezas, das penas, das aflições: desaparecem imediatamente, quando aceitamos deveras a Vontade de Deus, quando cumprimos com gosto os Seus desígnios, como filhos fiéis, ainda que os nervos pareçam rebentar e o suplício pareça insuportável. (Amigos de Deus, nn. 310–311)

Diálogos apostólicos

 Diálogos apostólicos II Parte
11- [1]

Pondo a questão de outra forma, podemos fazer o bem ou fazer o mal com livre arbítrio pessoal?


Respondo:

É verdade, podemos. Mas o conceito de bem e mal encerra em si mesmo uma questão séria porque, basicamente, depende do conhecimento próprio do que é bem e do que é mal. O que hoje em dia é considerado uma monstruosidade reprovável em todos os sentidos, pode não o ter sido, para alguns, que a praticaram em tempo.
Não darei exemplos porque me parece evidente que o comportamento humano difere na sua, digamos, justificação conforme a época, a circunstância e o motivo.
«Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» Jesus diz isto porque sabe que os Seus verdugos, não conhecem Quem sujeitam à tortura e à crucifixão. São meros executores de ordens, na época, comuns. Não é da sua competência julgar ou não da licitude do que fazem.
Num outro plano podemos considerar que a prática do bem, isto é, fazer coisas naturalmente boas, para o próprio e para os outros, é uma atitude louvável e merecedora de recompensa.
O contrário, o mal praticado com plena consciência, merece reprovação e, eventualmente, castigo.




[1] Nota: Normalmente, estes “Diálogos apostólicos”, são publicados sob a forma de resumos e excertos de conversas semanais. Hoje, porém, dado o assunto, pareceu-me de interesse publicar quase na íntegra.

12/06/2016

Verdades que o egoísmo esconde - 6

Resultado de imagem para egoísmo

Não podemos desejar ter o mesmo sucesso dos outros sem esforço nenhum, porque as conquistas pessoais precisam ser alcançadas mediante um saudável desejo de superação de si mesmo.


Fonte: REVISTA SER PERSONA

(Revisão da versão portuguesa por ama)

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INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO SEGUNDO

Desenvolvimento da Fé em Cristo nos Artigos Cristológicos do Símbolo

2. Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.

a)   Essência do culto cristão.

Concluímos que a essência do culto cristão não se encontra no sacrifício das coisas, nem em alguma substituição qualquer, como se lê repetidamente nas teorias sobre a Missa, a partir do século XVI – segundo as quais, deste modo, seria reconhecido o supremo domínio de Deus sobre tudo. Todas estas considerações são ultrapassadas pelo acontecimento de Cristo e pela sua interpretação bíblica. O culto cristão consiste no absoluto do amor, tal como podia oferecê-lo somente alguém no qual o amor divino se tornou amor humano; consiste na nova forma da representação incluída neste amor, a saber, que ele ocupou o nosso lugar e nós nos deixamos tomar por ele. Portanto, significa que nos cumpre deixar de lado as nossas tentativas de justificação que, no fundo, não passam de desculpas, colocando-nos uns contra os outros – como a tentativa de Adão em desculpar-se foi uma escusa e um atirar a culpa sobre o outro, finalmente uma tentativa de acusar o próprio Deus: "A mulher que pusestes ao meu lado, foi quem me deu daquela árvore, e eu comi" (Gen 3,12). Este culto exige que, ao invés de opor afirmação destrutiva, da auto-justificação, aceitemos a dádiva do amor de Jesus Cristo por nós, que nos deixemos unir nele, tornando-nos adoradores com ele e nele. Agora será possível responder a algumas perguntas que ainda se apresentam.

1. Face à mensagem de amor do Novo Testamento, hoje impõe-se cada vez mais uma tendência de identificar completamente o culto cristão com o amor fraterno, não se querendo admitir mais nenhum amor directo a Deus, nenhuma veneração de Deus: reconhece-se exclusivamente o horizontal, negando-se o vertical ou seja a relação imediata com Deus. Depois do que se disse, não será difícil perceber por que uma tal concepção – à primeira vista – de aparência tão simpática, falha na questão do Cristianismo, e com ela, no problema do autêntico humanismo. Um amor fraterno auto-suficiente descambaria em egoísmo extremado de auto-afirmação. Um tal amor recusa a sua abertura última, a sua tranquilidade, o seu desprendimento, não aceitando a necessidade da salvação deste amor por intermédio do único que realmente amou bastante. Finalmente, um tal amor, apesar de toda a bem-querença, presta injustiça a si mesmo e ao outro, porque o homem não se realiza apenas na simpatia mútua do co-humanismo, mas somente na reciprocidade daquele amor desinteressado que glorifica o próprio Deus. O desinteresse da simples adoração representa a suprema possibilidade do humanismo e <sua verdadeira e definitiva libertação.

2. Sobretudo das devoções tradicionais à paixão nasce, frequentes vezes, a pergunta: de que modo, sacrifício (= adoração) e dor estão interligados? De acordo com as considerações anteriores, o sacrifício cristão nada mais é do que o êxodo do "para", a abandonar-se a si; realizado substancialmente no homem que é totalmente êxodo, auto-superação do amor. Por conseguinte, o princípio constitutivo do culto cristão é este movimento do êxodo, com o seu rumo duplo a Deus e ao próximo. Levando o ser-homem a Deus, Cristo introdu-lo no seio da sua salvação. Por isso, o acontecimento da cruz é pão de vida "para os muitos" (Lc 22,19), porque o crucificado refundiu o corpo da humanidade no "sim" da adoração. Este acontecimento tornou-se, assim, totalmente "antropocêntrico", por ter sido teocentrismo radical, entrega do "eu" e, com ela, da essência do homem a Deus. Esse êxodo do amor é o "êxtase" do homem para fora de si, no qual, colocado infinitamente acima de si, é, como que, despedaçado, muito além das suas aparentes possibilidades de distensão; na mesma medida, adoração (sacrifício) conota simultaneamente cruz, sofrimento em ser esfacelado, morte do grão de trigo, que, somente na morte pode frutificar. Mas assim também se torna claro que é secundário o elemento doloroso que flui de um elemento primeiro, anterior, somente dele recebendo o sentido. O princípio constitutivo do sacrifício não é a destruição, mas o amor. E somente na medida em que o amor rompe, abre, crucifica, rasga, estas actividades integram o sacrifício: como forma do amor num mundo marcado pela morte e pelo egoísmo.

Relativamente a este assunto existe um texto de Jean Daniélou, referente a outro problema, mas que me parece muito apto para aclarar mais o pensamento que aqui nos ocupa: "Entre o mundo pagão e o Deus trino existe uma única ligação, a saber, a cruz de Cristo. Se nos colocamos nesta terra de ninguém tentando reatar os laços entre o mundo pagão e o Deus trino, como ainda nos admiraríamos de somente poder fazê-lo na cruz de Cristo? Devemos tornar-nos semelhantes a essa cruz, levá-la em nós e, como diz S. Paulo a respeito do mensageiro da fé, "levar sempre no corpo os sofrimentos de Jesus" (2Cor 4,10). Essa dilaceração que é para nós a cruz, essa impossibilidade do coração de abrigar ao mesmo tempo o amor à SS. Trindade e o amor a um mundo alienado da trindade, eis em que consiste a agonia do Filho Unigénito, a cuja participação somos convidados. Ele, que carregou em si essa separação com o fim de eliminá-la e que a eliminou exclusivamente por havê-la levado em si anteriormente, ele envolve tudo de um extremo a outro. Sem abandonar o seio da Trindade, Cristo estende-se ao limite extremo da miséria humana, preenchendo todo o espaço. Esse estender-se de Cristo simbolizado pelas quatro direcções da cruz, é a misteriosa expressão da nossa própria dilaceração e torna-nos semelhantes a ele". Em última análise, a dor é resultado e expressão da dilaceração de Jesus Cristo, desde a sua existência em Deus até ao inferno do "Meu Deus, por que me abandonaste?" Quem tiver a existência assim distendida a ponto de encontrar-se simultaneamente mergulhado em Deus e abismado nas profundezas da criatura abandonada por Deus, deve, por assim dizer, esfacelar-se – este estará realmente "crucificado". Ora, esse dilaceração é idêntica ao amor: é sua realização até o fim (Jo 13,1) e expressão concreta da amplidão que o amor cria.

A partir deste ponto de vista poderia tornar-se claro o verdadeiro fundo de uma devoção à paixão, que tenha sentido, e tornar-se evidente como se entrosam devoção à paixão e espiritualidade apostólica. Poderia tornar-se evidente que o fervor apostólico, o serviço em prol do homem e do mundo se interpenetraram com o cerne da mística cristã e da devoção cristã à paixão. As duas coisas não se aniquilam mas uma vive no âmago da outra. Assim também deveria ter-se tornado claro que na cruz não se trata de alguma adição de sofrimentos físicos, como se o seu valor redentor consistisse na maior soma possível de torturas. Como poderia Deus alegrar-se com o sofrimento da sua criatura, ou até do seu Filho, ou mesmo ver ai a moeda com que se devesse comprar dele a reconciliacção? Bíblia e fé cristã estão muito distanciadas de tais ideias. Não é a dor como tal que conta, mas a vastidão do amor, desdobrando a existência de modo tal que une o distante e o próximo, pondo em contato com Deus o homem abandonado por Deus. Só o amor confere rumo e sentido ao sofrimento. Fosse outro o caso, e os algozes do Calvário teriam sido verdadeiros sacerdotes; e os que provocaram a dor teriam oferecido o sacrifício. Mas, como não dependia disto, mas daquele núcleo que o sustenta e realiza, não foram os carrascos e sim Jesus o sacerdote a unir em seu corpo os dois extremos separados do mundo (Ef 2,13 s).

E com isto respondemos substancialmente à pergunta da qual partimos: Não seria um conceito indigno de Deus representá-lo como um Deus a exigir a morte do Filho para aplacar a sua própria ira? A isto apenas se pode responder: De facto, não se pode pensar assim de Deus. Mas, uma tal ideia de Deus nada tem de comum com o conceito de Deus no Novo Testamento. Porquanto este trata exactamente de modo inverso, do Deus que, por si mesmo, queria ser, em Cristo, o ómega a última letra – do alfabecto da criação. Trata do Deus que é amor em acto, o puro "para" e que, por isto, penetra necessariamente no incógnito do último verme (Sl 22, 7). Trata do Deus que se identifica com a sua criatura, pondo no contineri a minimo, no ser apanhado e subjugado e envolvido pelo mínimo, aquela "super-abundância" que lhe confere credenciais de Deus.

A cruz é revelação. Não revela uma coisa qualquer, mas Deus e o homem. Descobre quem é Deus e como é o homem. Na filosofia grega existe um estranho pressentimento disto: a imagem do justo crucificado descrita por Platão. O grande filósofo pergunta qual seria a situação, neste mundo, de um homem totalmente justo. Chega ao resultado de que a justiça de um homem só se torna perfeita e comprovada, caso ele tome sobre si a aparência da injustiça, porque só então aparece que ele não segue a opinião dos homens, mas se coloca unicamente ao lado da justiça por ela própria. Portanto, de acordo com Platão, o justo autêntico há-de ser um incompreendido e perseguido; aliás, Platão não receia escrever: "Então hão-de dizer que o justo, nestas circunstâncias, será flagelado, torturado, amarrado, que os olhos lhe serão vazados a fogo e, finalmente, após todos estes maus tratos, será crucificado...". Este texto, escrito 400 anos antes de Cristo, sempre voltará a comover profundamente o cristão. Na seriedade da reflexão filosófica prevê-se que o justo perfeito no mundo deve ser o justo crucificado; pressentiu-se aí algo daquela revelação do homem que se realiza na cruz.

O justo perfeito, quando apareceu, tornou-se o crucificado, foi entregue à morte pela justiça; e isto diz-nos impiedosamente o que é o homem: És de tal modo, ó homem, que não podes suportar o justo, és de tal modo que o simplesmente amante se torna louco, espancado, rejeitado. Tu, como injusto, sempre precisas da injustiça do outro, para te sentires desculpado, não podendo, portanto, tirar proveito do justo que parece roubar-te essa desculpa. Eis o que és. João resumiu tudo isto no ecce homo! ("eis, isto é o homem!") de Pilatos, cujo sentido fundamental é: esta é a situação do homem. Este é o homem. A verdade do homem é sua ausência de verdade. O verso do salmista "todo homem é um mentiroso" (Sl 116 [115], 11) e vive alhures contra a verdade, já trai o que vem a ser o homem. A verdade do homem consiste em continuamente se chocar contra a verdade; o justo crucificado torna-se assim o espelho onde o homem se vê sem retoque. Mas, a cruz não revela o homem apenas, e sim também a Deus: eis quem é Deus, que se identifica com o homem até este abismo e que julga salvando. No abismo do fracasso humano descobre-se o abismo ainda mais inesgotável do amor divino. E assim a cruz realmente é o centro da revelação, de uma revelação que não comunica qualquer espécie de proposições, até então desconhecidas, mas que nos comunica e descobre a nós, revelando-nos perante Deus e revelando a Deus no nosso meio.

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)






Pequena agenda do cristão


DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



Doutrina – 172

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO PRIMEIRO CREIO EM DEUS PAI

A queda

76. O que é o pecado original?

O pecado original, no qual todos os homens nascem, é o estado de privação da santidade e da justiça originais. É um pecado por nós «contraído» e não «cometido»; é uma condição de nascimento e não um acto pessoal. Por causa da unidade de origem de todos os homens, ele transmite-se aos descendentes de Adão com a natureza humana, «não por imitação mas por propagação». Esta transmissão permanece um mistério que não podemos compreender plenamente.

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Lc 7, 36-50

36 Um dos fariseus pediu-Lhe que fosse comer com ele. Tendo entrado em casa do fariseu, pôs-Se à mesa. 37 Uma mulher, que era pecadora na cidade, quando soube que Ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um frasco de alabastro cheio de perfume. 38 Colocando-se a Seus pés, por detrás d'Ele, começou a banhar-Lhe os pés com as lágrimas, e enxugava-os com os cabelos da sua cabeça, beijava-os, e ungia-os com o perfume. 39 Vendo isto, o fariseu que O tinha convidado, disse consigo: «Se este fosse profeta, com certeza saberia de que espécie é a mulher que O toca: uma pecadora». 40 Jesus então tomou a palavra e disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». Ele disse: «Mestre, fala». 41 «Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários, o outro cinquenta. 42 Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles, pois, o amará mais?». 43 Simão respondeu: «Creio que aquele a quem perdoou mais». Jesus disse-lhe: «Julgaste bem». 44 Em seguida, voltando-Se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; ela com as suas lágrimas banhou os Meus pés, e enxugou-os com os seus cabelos. 45 Não Me deste o ósculo; porém ela, desde que entrou, não cessou de beijar os Meus pés. 46 Não ungiste a Minha cabeça com óleo, porém esta ungiu com perfume os Meus pés. 47 Pelo que te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados porque muito amou. Mas, aquele a quem menos se perdoa, menos ama».48 Depois disse à mulher: «São-te perdoados os pecados». 49 Os convidados começaram a dizer entre si: «Quem é Este que até perdoa pecados?». 50 Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou; vai em paz!».

Comentário:

Quanto possamos fazer para honrar e louvar o Senhor ficará sempre muito aquém do que deveríamos.

Ele que é digno de todo o louvor não fica nunca indiferente às nossas acções concretas e sentidas de filhos gratos e desejosos de agradar ao seu Pai.

(ama, comentário sobre Lc 7, 36-50, Garrão, 2015.09.17)




É tempo de esperança, e eu vivo desse tesouro

‘É tempo de esperança, e eu vivo desse tesouro. Não é uma frase, Padre; é uma realidade’, dizes-me. Então... o mundo inteiro, todos os valores humanos que te atraem com uma força enorme (amizade, arte, ciência, filosofia, teologia, desporto, natureza, cultura, almas...), tudo isso, deposita-o na esperança – na esperança de Cristo. (Sulco, 293)

Onde quer que nos encontremos, esta é a exortação do Senhor: vigiai! Em face deste apelo de Deus, alimentemos nas nossas consciências os desejos esperançosos de santidade, com obras. Dá-me, meu filho, o teu coração, sugere-nos o senhor ao ouvido. Deixa-te de construir castelos com a fantasia, decide-te a abrir a tua alma a Deus, pois exclusivamente no Senhor acharás o fundamento real para a tua esperança e para fazer o bem aos outros. Quando não lutamos connosco mesmos, quando não rechaçamos terminantemente os inimigos que estão dentro da cidadela interior – o orgulho, a inveja, a concupiscência da carne e dos olhos, a auto-suficiência, a tresloucada avidez da libertinagem – quando não existe essa peleja interior, os mais nobres ideais definham como a flor do feno; ao romper o sol ardente, a erva seca, a flor cai e acaba a sua vistosa formosura. Depois, pela menor fenda brotarão o desalento e a tristeza, como plantas daninhas e invasoras.

Jesus não se conforma com um assentimento titubeante. Pretende, tem direito a que caminhemos com inteireza, sem concessões às dificuldades. Exige passos firmes concretos; pois, de ordinário, os propósitos gerais servem para pouco. Os propósitos pouco delineados parecem-me entusiasmos falazes que intentam calar as chamadas divinas percebidas pelo coração; fogos-fátuos, que não queimam nem dão calor e que desaparecem com a mesma fugacidade com que surgiram.


Por isso, convencer-me-ei de que as tuas intenções de alcançar a meta são sinceras, se te vir caminhar com determinação. Faz o bem, revendo as tuas atitudes habituais quanto à ocupação de cada instante; pratica a justiça, precisamente nos ambientes que frequentas, ainda que a fadiga te vença; fomenta a felicidade dos que te rodeiam, servindo os outros com alegria no lugar do teu trabalho, com esforço para o acabar com a maior perfeição possível, com a tua compreensão, com o teu sorriso, com a tua atitude cristã. E tudo por Deus, com o pensamento na sua glória, com o olhar no alto, anelando a Pátria definitiva, pois só esse fim vale a pena. (Amigos de Deus, 211)