14/04/2015

2015.04.14








O que pode ver hoje em NUNC COEPI





Meu Pai do Céu, ajuda-me - São Josemaria – Textos

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão) - A beleza de ser cristão (Ernesto Juliá), AMA - Comentários ao Evangelho Jo 3 7-15, Ernesto Juliá Diaz

Temas para meditar - 418 - Casiano, Collationes (Casiano), Comunhão eucarística

Bento VXI – Pensamentos espirituais 46 - Bento XVI - Pensamentos espirituais

Tratado do verbo encarnado 146 - (São Tomás de Aquino, Suma Teológica - Tratado do Verbo Encarnado - Quest 24 - Art 4


Pequena agenda do cristão - Agenda Terça-Feira

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana II da Páscoa

Evangelho: Jo 3 7-15

7 Não te maravilhes de Eu te dizer: É preciso que nasçais de novo. 8 O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem nem para onde vai; assim é todo aquele que nasceu do Espírito». 9 Nicodemos disse-Lhe: «Como pode ser isto?». 10 Jesus respondeu-lhe: «Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? 11 «Em verdade, em verdade te digo que Nós dizemos o que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12 Se, quando vos falo das coisas terrenas, não Me acreditais, como Me acreditareis, se vos falar das celestes? 13 Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu. 14 E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do Homem, 15 a fim de que todo o que crê n'Ele tenha a vida eterna.

Comentário:

Como se pode nascer de novo?
Esta pergunta de Nicodemos é perfeitamente legítima e é muito natural que nós próprios a façamos também.
Mas a resposta também a devemos saber porque assim nos diz a nossa Santa Religião e nos garante a nossa Fé:

O Baptismo é esse “nascer de novo” porque nos converte de simples criaturas em Filhos de Deus.

(ama, comentário sobre Jo 3, 7b-15, 2015.04.08)

Leitura espiritual

a beleza de ser cristão


Qualquer livro tem uma razão de ser, e qualquer autor um fim ao empreender a tarefa de redigir umas páginas e manter o esforço dia a dia até as levar à sua conclusão.

A razão do livro e o fim do autor coincidem neste caso; e é duplo. A primeira, ajudar quem acredita que Jesus Cristo é verdadeiramente filho de Deus feito homem, a conhecer e a valorizar a grandeza e a beleza da sua condição de criatura, do seu ser filho de Deus em Cristo Jesus, da sua tarefa de ser santo.
A segunda, ajudar o não crente em Jesus Cristo, e quiçá tampouco em Deus, a descobrir o que significa verdadeiramente ser cristão e, na esperança que o vislumbre, provoca-lo ao menos para que se decida a procurar Deus, a descobrir a amizade com Deus e, na amizade com Deus, chegara té ao conhecimento de Cristo, da Verdade. A Verdade que sustenta todas as outras verdades que o homem descobre no seu viver.

O livro, não é, portanto, uma exposição das verdades da Fé cristã em toda a sua amplitude. De certo modo, essas verdades: Deus Uno e Trino; a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo; a acção do Espírito santo; a Igreja; e todas as outras afirmadas no Credo, dão-se como conhecidas. Para quem deseje aprofundar o conteúdo dessas realidades, recomendamos uma leitura pausada e atenta do Catecismo daa Igreja Católica e do Compêndio desse Catecismo, recentemente publicado.

Centraremos, portanto, a nossa atenção em que consiste e como se desenvolve a vida cristã. A vida da «nova criatura» que Nosso Senhor Jesus Cristo nos revelou, e que Ele próprio nos convida a sermos cada um de nós, quando afirma: «Se não vos fizerdes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus». O que entende o Senhor por «crianças»? Talvez queira fazer-nos pensar na grandeza de ser «filhos de Deus»?

No Antigo e no Novo testamento há frases sobre as quais uma grande maioria de nós cristãos, temos passado, talvez longos anos da nossa vida, demasiado depressa, sem parar a prestar-lhes a atenção devida e sem ser conscientes de que nunca conseguiremos desentranhar a riqueza divina que contêm.

No Antigo Testamento encontramos, por exemplo: «Disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança… E Deus criou o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou»[i]. Deus viu tudo quanto tinha feito, e heis que estava muito bem»[ii]. E, pela boca da Sabedoria, afirma que «as minhas delícias estão com os filhos dos homens»[iii].

No Novo Testamento lemos estas frases ditas pelo próprio Cristo, Nosso Senhor: «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância»[iv]; «O que recebe os meus preceitos e os guarda, esse é o que me ama; o que me ama a mim será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele»[v].

E outras escritas pelos evangelistas e por São Paulo: «O justo vive da fé»[vi]; «Ele fixou aas estações e os confins dos povos, para que procurem a Deus, e se mesmo a tentar o encontrem, ainda que não esteja longe de nós, porque nele vivemos, nos movemos e somos, como algum dos vossos poetas disse: “porque somos da sua linhagem”».[vii]

Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que se achavam sob a lei, e para que recebêssemos a filiação adoptiva. A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá, Pai!»[viii]. «Não mintais uns aos outros. Despojai-vos do homem velho com as suas obras, e revesti-vos do homem novo, que se vai renovando até alcançar um conhecimento perfeito, segundo a imagem do seu Criador»[ix].

Todas estas frases descobrem à nossa consideração os planos de Deus na criação do homem, ao levar a cabo a redenção depois do pecado, e fazer do homem uma «nova criatura» em Cristo.

Os crentes que vivem imersos em ambientes familiares, espirituais e culturais nos quais não surge nenhuma dúvida sobre as verdades da fé, e que dão por adquiridos os princípios normais do viver moral cristão, podem chegar a acostumar-se à assombrosa realidade de ser cristãos, de ser filhos de Deus em Cristo Jesus; e a manter uma certa relação com Deus, com um Deus Uno e Trino, que chega a ser mais um «personagem familiar», no sentido mais reduzido da palavra.

Somos família de Deus, e a Igreja recorda-nos, a unidade da Igreja, o viver em comunhão na Igreja com todos os cristãos, e com todos os homens. Existe o perigo, todavia, de que, encaminhada em caminhos de normalidade vital, a relação do homem com Deus se vá re4duzindo paulatinamente o cumprimento de uma série de preceitos para conseguir, de alguma forma, «estar bem», «estar tranquilo» com esse Deus, exigente; ou, talvez, a «ter Deus contente».
Com a finalidade de facilitar a compreensão do horizonte da vida de Deus na vida dos homens, tratarei de desentranhar nestas páginas os projectos de Deus Pai, Filho e Espírito Santo sobre o homem, «única criatura na terra a quem Deus amou por si mesma»[x]. Projectos que se vislumbram nas frases da Escritura recolhidas parágrafos atrás, frases que escondem a riqueza do infinito a amor de Deus pelos homens.

Procurarei levar a cabo esta exposição – insisto em que se trata de uma exposição de verdades já adquiridas no pensamento cristão, ainda que talvez não de todo sublinhadas e na ordem em que as exponho – da forma mais «elementar» e «simples» que me for possível, com o anseio exequível da sua leitura por crentes e não crentes.

«Elementar», na acepção mais completa da palavra, ou seja: «referente aos elementos ou princípios de uma ciência ou arte», e não o significado, também usual, de afirmações óbvias e evidentes, porque as verdades que relacionam o homem com Deus nem são óbvias nem nunca são evidentes. Ainda que estando profundamente arreigadas no espírito humano, não deixam de participar no mistério insondável de Deus.

«Simples», no sentido de «carecer de exornação e artifício, e expressa ingénua e naturalmente os conceitos». Não pretendo um livro cientificamente teológico, nem com o menor aparato crítico. Só pretendo expressar a exposição dos mistérios das relações que nos unem a Deus, com a simplicidade das palavras de Cristo, «Caminho, Verdade, Vida», na esperança de que assim possam estar mais ao alcance de todos sem perder nada da sua riqueza.

«Elementar e simples». Estas palavras não significam que todas as páginas do livro sejam sempre fáceis de ler. O leitor, com compreensão e paciência, há-de pôr um certo esforço, consciente de que tudo quanto aqui se afirma não é mais que uma tentativa de desentranhar o mistério encerrado no Amor de Deus pelos homens; e um caminho para que o homem aprenda a amar de verdade a Deus.
E tenho a esperança de que, no fim da leitura, esteja de acordo comigo de que valeu a pena: ao leitor, ler; e a mim, escrever. E tenha sido uma ajuda para começar a descobrir a beleza de ser cristãos e a vislumbrar que «a beleza salvará o mundo». [xi]

Nesta primeira parte trataremos da Vida que Deus nos dá, e nos comunica em Cristo, de forma que um dia todos os crentes possamos dizer com São Paulo: «Por isso dobro os meus joelhos ante o Pai, de quem toma o nome toda a família no céu e na terra, para que vos conceda, segundo a riqueza da sua glória, que sejais vigorosamente fortalecidos pela acção do Espírito no homem interior, que Cristo habite pela fé nos vossos corações, para que, enraizados e cimentados no amor, possais compreender com todos os santos qual é a largura e a longitude, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o conhecimento, para que vos vades enchendo até à total plenitude de Deus».[xii].

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[i] Gen 1, 26-27
[ii] Gen 1, 31
[iii] Pr 8, 31
[iv] Jo 10, 10
[v] Jo 14, 21
[vi] Rm 1, 17
[vii] Act 17, 26-28
[viii] Ga 4, 4-6
[ix] Col 3, 10
[x] Gaudium et spes, n. 24
[xi] feodor dostoievski, O Idiota, p.  II, cap. V.
[xii] Ef 3, 14-19

Meu Pai do Céu, ajuda-me

A ti, que desmoralizas, repetir-te-ei uma coisa muito consoladora: a quem faz o que pode, Deus não lhe nega a Sua graça. Nosso Senhor é Pai, e se um filho lhe diz na quietude do seu coração: Meu Pai do Céu, aqui estou, ajuda-me... Se recorre à Mãe de Deus, que é Mãe nossa, vai para a frente. Mas Deus é exigente. Pede amor de verdade; não quer traidores. É preciso ser fiel a essa luta sobrenatural, que é ser feliz na terra à força de sacrifício. (Via Sacra, 10ª Estação, n. 3)

Recorrei semanalmente – e sempre que o necessiteis, sem dar lugar aos escrúpulos – ao santo Sacramento da Penitência, ao sacramento do perdão divino. Revestidos da graça, caminharemos por entre os montes e subiremos a encosta do cumprimento do dever cristão, sem nos determos. Utilizando estes recursos com boa vontade e rogando ao Senhor que nos conceda uma esperança cada dia maior, possuiremos a alegria contagiosa dos que se sabem filhos de Deus: Se Deus está connosco, quem nos poderá derrotar? Optimismo, portanto. Incitados pela força da esperança, lutaremos para apagar a mancha viscosa que espalham os semeadores do ódio e redescobriremos o mundo com uma perspectiva jubilosa, porque saiu formoso e limpo das mãos de Deus, e restituir-lho-emos assim belo, se aprendermos a arrepender-nos.
Cresçamos na esperança, que deste modo nos consolidaremos na fé, verdadeiro fundamento das coisas que se esperam e prova das que não se veem . Cresçamos nesta virtude, que é suplicar ao Senhor que aumente a sua caridade em nós, porque só se confia verdadeiramente no que se ama com todas as forças. E vale a pena amar o Senhor. Vós haveis experimentado, como eu, que a pessoa enamorada se entrega confiante, com uma sintonia maravilhosa, em que os corações batem num mesmo querer. E que será o Amor de Deus? Não sabeis que Cristo morreu por cada um de nós? Sim, por este nosso coração pobre, pequeno, se consumou o sacrifício redentor de Jesus.

Frequentemente, o Senhor fala-nos do prémio que nos ganhou com a sua Morte e Ressurreição. Vou preparar um lugar para vós. Depois que eu tiver ido e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais Vós também. O Céu é a meta do nosso caminho terreno. Jesus Cristo precedeu-nos e ali, na companhia da Virgem e de S. José – a quem tanto venero – dos Anjos e dos Santos, aguarda a nossa chegada. (Amigos de Deus, nn. 219–220)

Temas para meditar - 418

Eucaristia


Não é por nos reconhecer-mos pecadores que havemos de nos abster da Comunhão do Senhor, antes devemos aprestar-nos a Ela cada vez com maior desejo. Para remédio da alma e purificação do espírito, mas com tal humildade e tal fé que, julgando-nos indignos de receber tão grande favor vamos antes procurar o remédio para as nossas feridas.

(casianoCollationes, 23,21)

Bento VXI – Pensamentos espirituais 46

Primado da vida espiritual


A resposta a Deus exige aquele caminho interior que leva o crente a encontrar-se com o Senhor. Tal encontro apenas é possível se o homem for capaz de abrir o coração a Deus, que fala nas profundezas da consciência. Para isso é preciso interioridade, silêncio, vigilância.

Discurso aos bispos nomeados durante o ano transacto, (19.Set.05)


(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)

Pequena agenda do cristão

TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Tratado do verbo encarnado 146 – Abr 14

Questão 24: Da predestinação de Cristo

Art. 4 — Se a predestinação de Cristo é a causa da nossa predestinação.

O quarto discute-se assim. — Parece que a predestinação de Cristo não é a causa da nossa predestinação.

1 — Pois, o eterno não tem causa. Ora, a nossa predestinação é eterna. Logo, a predestinação de Cristo não é a causa da nossa predestinação.

2. Demais. — O que depende da simples vontade de Deus não tem outra causa senão essa vontade. Ora, a predestinação depende da simples vontade de Deus, ao dizer do Apóstolo: Sendo predestinados pelo decreto daquele que obra todas as coisas seguido o conselho da sua vontade. Logo, a predestinação de Cristo não é causa da nossa.

3. Demais. — Removida a causa, removido fica o efeito. Ora, removida a predestinação de Cristo, removida não fica a nossa predestinação; porque, mesmo se o Filho de Deus não se tivesse incarnado, haveria algum modo possível de operar a nossa salvação, como diz Agostinho. Logo, a predestinação de Cristo não é a causa da nossa predestinação.

Mas, em contrário, o Apóstolo: O qual nos predestinou para sermos seus filhos adoptivos por Jesus Cristo.

Considerada a predestinação no seu próprio acto, a predestinação de Cristo não é a causa da nossa, pois, por um mesmo acto Deus predestinou Cristo e nós. Se, porém, considerarmos a predestinação, quanto ao seu termo, então a predestinação de Cristo é a causa da nossa; porque Deus preordenou a nossa salvação, predestinando abterno, que seria ela operada por Cristo. Pois, a predestinação eterna não só inclui o que se fará no tempo, mas ainda o modo e a ordem pelos quais nele e se cumprirá.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA E À SEGUNDA OBJECÇÕES. — Essas objecções procedem, quanto ao acto da predestinação.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Se Cristo não devesse incarnar-se, Deus teria preordenado, que os homens se salvassem por outra causa. Mas, como preordenou a Encarnação de Cristo, simultaneamente preordenou que ele fosse a causa da nossa salvação.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


13/04/2015

2015.04.13








O que pode ver hoje em NUNC COEPI





Vivei uma particular Comunhão dos Santos - São Josemaria – Textos

Evangelho, comentário, L. Espiritual (Jesus: Profeta ou revolucionário?) - AMA - Comentários ao Evangelho Jo 20 19-31, Francisco Catão, Jesus profeta ou revolucionário?

Temas para meditar - 416 - Enc. (São João Paulo II), Progresso, São João Paulo II


Pequena agenda do cristão - Agenda Domingo

Diante de Deus tu és uma criança

Diante de Deus, que é Eterno, tu és uma criança mais pequena do que, diante de ti, um miúdo de dois anos. E, além de criança, és filho de Deus. – Não o esqueças. (Caminho, 860)

Se reparardes bem, é muito diferente a queda de uma criança e a queda de uma pessoa crescida. Para as crianças, uma queda, em geral, não tem importância; tropeçam com tanta frequência! E se começam a chorar, o pai lembra-lhes: os homens não choram. Assim se encerra o incidente com o empenho do miúdo por contentar o seu pai.


(…) Se procurarmos portar-nos como eles, os tropeções e os fracassos – aliás inevitáveis – na vida interior, nunca se transformarão em amargura. Reagiremos com dor, mas sem desânimo, e com um sorriso que brota, como a água límpida, da alegria da nossa condição de filhos desse Amor, dessa grandeza, dessa sabedoria infinita, dessa misericórdia, que é o nosso Pai. Aprendi durante os meus anos de serviço ao Senhor a ser filho pequeno de Deus. E isto vos peço: que sejais quasi modo geniti infantes, meninos que desejam a palavra de Deus, o pão de Deus, o alimento de Deus, a fortaleza de Deus para se comportarem de agora em diante, como homens cristãos. (Amigos de Deus, 146)

Evangelho, comentário, L. Espiritual (Jesus: Profeta ou revolucionário?)



Semana II da Páscoa


Evangelho: Jo 3 1-8

1 Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais entre os judeus. 2 Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-Lhe: «Rabi, sabemos que foste enviado por Deus como mestre, porque ninguém pode fazer estes milagres que Tu fazes, se Deus não estiver com ele». 3 Jesus respondeu-lhe: «Em verdade, em verdade te digo que não pode ver o reino de Deus, senão aquele que nascer de novo». 4 Nicodemos disse-Lhe: «Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e renascer?». 5 Jesus respondeu-lhe: «Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.6 Aquilo que nasceu da carne, é carne, aquilo que nasceu do Espírito, é espírito. 7 Não te maravilhes de Eu te dizer: É preciso que nasçais de novo. 8 O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem nem para onde vai; assim é todo aquele que nasceu do Espírito».

Comentário:

Este episódio que São João nos relata garante-nos aquilo que sabemos de Jesus Cristo: não faz acepção de pessoas.

Embora muitos queiram concluir que o Senhor é um Salvador de pobres e desgraçados, doentes e pessoas de escassa cultura baseando-se quase sempre na resistência dos chefes do povo, pessoas letradas e conhecedoras das Escrituras e da sua não aceitação da figura e pessoa do Salvador, «Nicodemos, um dos principais entre os judeus» - como expressamente refere o Evangelista – vem desmentir essa falsa “teoria”.

O que existe – isso sim – é são critério ou total ausência dele, a procura da verdade ou a obstinação pelo que se julga ter como verdadeiro.

(ama, comentário sobre Jo 3, 1-8, 2015.04.06)

Leitura espiritual


Jesus foi um mero profeta ou revolucionário?

…/2

Uma resposta construída ao longo da história

Como responder à questão de saber se Jesus foi mero profeta ou revolucionário?

Devemos ter sempre presente que os discípulos que com Ele se encontraram, O reconheceram como profeta e aceitaram seu convite para ir ver onde morava e com Ele ficaram, transmitindo depois jubilosos, uns aos outros, que haviam encontrado o Messias.[i]
Hoje, porém, parece que procuramos respostas puramente históricas ou científicas, enquanto os discípulos tinham também um desejo espiritual, interior, religioso.
Para melhor compreender essa questão sobre a identidade de Jesus, é preciso refletir sobre como esse questionamento  se colocou através da história do cristianismo.

Em 2013 comemoramos os 1700 anos da conversão de Constantino (†337), a qual teve um impacto decisivo na vida dos cristãos.
A cultura grega dominava no Império.
O cristianismo, tornado religião do imperador e algumas décadas mais tarde, com Teodósio (†395), a religião oficial do Império, precisava formular o reconhecimento de Jesus, como Filho de Deus, numa linguagem compreensível à mentalidade helênica.

Grande desafio: exprimir de maneira “lógica”, coerente com as exigências da razão, a unidade entre a divindade e a humanidade, que os cristãos há três séculos professavam como real, objectiva, histórica e ontológica, realizada no homem Jesus.

As hesitações do ensino oficial estenderam-se por mais de um século.
 Os bispos se confrontaram em diversas ocasiões mais ou menos solenes e importantes, acompanhados de perto e até comandados pelas autoridades imperiais, em virtude dos impactos políticos das diversas correntes em choque.

Sem entrar nos detalhes da história, é importante levar em conta os diversos encaminhamentos, para compreender o alcance dos acordos que se firmaram somente na metade do século V, numa primeira fase, deixando para o final do século VII, a definição que prevalece até hoje.

Muito cedo, a pregação cristã entrou em contacto com a filosofia grega.

Pensadores cristãos como Justino (†165), em Roma, com base, aliás, no prólogo do quarto evangelho (cf. Jo,1-14), identificavam Jesus como a Palavra de Deus (Logos) que, existindo em Deus, se havia manifestado na história, em Jesus.

Em Antioquia da Síria, porém, o discurso sobre Jesus seguia antes o caminho dos primeiros evangelhos e partia da sua vida histórica.
 Colocava-se assim, em torno do Jesus da história, o centro do diálogo do cristianismo com o pensamento reinante na sociedade.

Ao passo que em Alexandria, no Egipto, onde se havia desenvolvido o pensamento judaico desde várias décadas – a própria Bíblia foi aí traduzida em grego – o problema do homem Jesus, Filho de Deus, se colocava a partir da Palavra de Deus, do Logos.
A questão que suscitava era então, antes de tudo de, como entender quem era a Palavra de Deus, Deus, sem ferir as exigências da unidade de Deus, ensinamento central da tradição judaica e base do cristianismo.

Observava-se assim, em Alexandria, no início do século IV um deslocamento do problema da unidade de Jesus, homem e Filho de Deus, para a relação entre Deus, a que Jesus chamava de Pai, e sua Palavra, encarnada em Jesus.

Foi então que o cristianismo, durante alguns séculos, em diversas regiões do mundo habitado, dividiu-se em duas correntes: os seguidores de Ário (†~336), que para salvaguardar a unicidade de Deus, encaravam a Palavra de Deus como uma primeira criatura, e os bispos que se mantinham fieis às expressões da fé herdadas dos apóstolos.
Estes se impuseram no primeiro concílio ecuménico, de Niceia (325), presidido por Constantino, que professou a “consubstancialidade” da Palavra, reconhecendo a transcendência do Filho de Deus, da mesma substância que o Pai.

Nos sessenta anos que se seguiram, até aquele que foi reconhecido como segundo concílio ecuménico, de Constantinopla (381), os cristãos conseguiram formular em termos acessíveis à cultura reinante, a doutrina referente à grande originalidade da fé neotestamentária, confessando a Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, em nome dos quais se baptizava na Igreja, desde os tempos apostólicos, como testemunha, por exemplo, o final do evangelho de Mateus.[ii]
Reabre-se então, num novo patamar, a questão de como exprimir a unidade de Jesus, homem adorado como Filho de Deus.
Os antioquenos, reconhecendo a unidade, falavam, entretanto, de um homem, um profeta, assumido por Deus como Filho, enquanto os alexandrinos, para evitar a incoerência lógica de um  homem que se torna Deus, falavam do Filho de Deus que se torna homem, encarna-se, segundo o vocabulário do quarto evangelho.

Reacenderam-se as disputas.

Reúne-se em Éfeso (430) o terceiro concílio ecuménico, sem que o entendimento se faça.

Foi preciso esperar vinte anos de ajustamentos políticos e religiosos, para se chegar a um entendimento de base, em Calcedónia (451), no quarto concílio ecuménico, que deu oportunidade à primeira grande afirmação da autoridade doutrinária universal do bispo de Roma, Leão Magno (†461).

As definições de Calcedónia reconheciam que, na Pessoa Divina do Verbo, uniam-se as duas naturezas, a divina, existente desde toda a eternidade, e a humana herdada de Adão, sem confusão nem mistura, sem separação, porém, e sem divisão. Filho de Deus, Jesus não tinha pecado, mas filho de Adão, gerado no seio de Maria, experimentava os limites e carências fruto da condição histórica de toda a humanidade.

A doutrina calcedonense encontrou muitas resistências junto às populações marcadas por uma religiosidade mística, tendente a ver, em Jesus, Deus entre nós e a dar pouco peso às suas fraquezas como homem.

A controvérsia durará ainda séculos e, de certo modo, ainda se prolonga nos dias de hoje, em algumas igrejas autocéfalas.

Atualmente, porém, sobretudo no Ocidente secularizado, é mais frequente os autores que tratam de Jesus o encararem antes de tudo como um homem, tal qual os outros, profeta, revolucionário e, mais comummente, comparável aos grandes líderes religiosos, como Buda ou como Gandhi.

A comparação pode ser enriquecedora da concepção meio etérea de Jesus, que alimenta a religião de muitos de nossos contemporâneos.

Mas a grande convicção de fé que devemos colher dessa história é que, com base na Revelação e na Tradição cristãs, o filho de Maria, cujo Natal os cristãos celebram conjuntamente com toda a humanidade, na festa da fraternidade universal, é a Palavra de Deus, gerada em Deus desde toda a eternidade, que veio habitar entre nós, para nos comunicar o seu Espírito e nos tornar verdadeiros filhos de Deus, por adopção.

Podemos dizer hoje, com toda lucidez, na fé, a palavra do centurião, que sempre se repetiu na comunidade cristã através dos séculos:
Esse homem é, verdadeiramente, o Filho de Deus!

francisco catão




[i] Jo 1, 35-42
[ii] Mt 29,28