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05/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 3, 7-15

7 Não te maravilhes de Eu te dizer: É preciso que nasçais de novo. 8 O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem nem para onde vai; assim é todo aquele que nasceu do Espírito». 9 Nicodemos disse-Lhe: «Como pode ser isto?». 10 Jesus respondeu-lhe: «Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? 11 «Em verdade, em verdade te digo que Nós dizemos o que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12 Se, quando vos falo das coisas terrenas, não Me acreditais, como Me acreditareis, se vos falar das celestes? 13 Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu. 14 E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do Homem, 15 a fim de que todo o que crê n'Ele tenha a vida eterna.

Comentário:

Jesus faz uma crítica a Nicodemos e, como sempre, cheio de razão.

Como é que Nicodemos não sabe os fundamentos da religião de que é mestre?

Mas depois também lhe diz porque é que não sabe: porque não acredita nos ensinamentos que Ele próprio tem sobejamente propalado por todo o Israel.

No fim e ao cabo, a sabedoria, só se adquire com o espírito aberto e o coração liberto de amarras a preconceitos e bastará comparar o que se ouve com o que se vê para tirar a ilacção correcta.

(ama, comentário sobre Jo 3, 7b-15, 2015.04.15)

Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO NONO

CAPÍTULO VIII

Mónica

Tu, que fazes morar na mesma casa os que têm coração unânime, trouxeste para junto de nós Evódio, jovem do nosso município que, militando como agente de negócios do imperador, se convertera e recebera o baptismo antes de nós, abandonara a milícia do século, alistando-se na tua.

Estávamos juntos, e juntos pensávamos viver o nosso santo propósito. Buscávamos um lugar onde nos pudéssemos instalar mais comodamente para te servir e juntos rumávamos para a África quando, chegando a Óstia, na foz do Tibre, faleceu a minha mãe.

Passo em silêncio muitas coisas, porque tenho pressa. Recebe as minhas confissões e acções de graças, meu Deus, pelas inúmeras bondades que não menciono aqui. Mas não quero calar o que brota da minha alma a respeito desta tua serva, que me gerou na carne para a luz temporal, e no coração para a luz eterna. Não referirei as suas qualidades, nem que a si mesma se havia educado.

Foste tu quem a educaste, nem seu pai, nem sua mãe sabiam o que viriam a ser aquela a quem geraram. A disciplina do teu Cristo, a doutrina do teu Filho único educaram-na no teu temor numa família fiel, digno membro de tua Igreja.

Nem ela mesma enaltecia o zelo da mãe em educá-la, quanto o de uma velha serva, que carregara o seu pai quando menino, como hoje as meninas maiores costumam carregar as crianças, às costas.

Estas recordações, a sua idade avançada e hábitos exemplares asseguravam-lhe naquela casa cristã o respeito dos seus amos. Ela própria cuidava solicitamente das meninas que lhe haviam sido confiadas, ora repreendendo-as quando fosse o caso, com santa e enérgica severidade, ora instruindo-as com discreta prudência. Afora do horário em que tomavam uma sóbria refeição à mesa dos seus pais, ainda que tivessem muita sede, nem água permitia que elas bebessem, precavendo com isso um mau costume. E acrescentava este sábio aviso: “Agora bebeis água, porque não tendes como beber vinho; mas quando estiverdes casadas, donas da despensa e da adega, deixareis a água, mas continuará o hábito de beber”.

E unindo assim o conselho à autoridade, refreava os apetites daquela tenra idade, e acostumava aquelas jovens à temperança, para que não tivessem desejo do que não lhes convinha.

No entanto – como a tua serva me contou a mim, seu filho – insinuou-se nela certo gosto pelo vinho. Julgando-a menina sóbria, seus pais a escolheram, como era costume, para tirar o vinho do tonel. Mergulhava a caneca pela parte superior do recipiente e, antes de passar o vinho para a garrafa, sorvia com a ponta dos lábios um pouquinho; era-lhe impossível beber mais, porque o vinho lhe repugnava. Não fazia isto movida pela inclinação à embriaguez, mas pela exuberância juvenil, que se manifestava em movimentos, em brincadeiras, e que na meninice costumam ser reprimidos pela autoridade severa dos mais velhos. Mas, acrescentando todos os dias uns goles àqueles goles – pois quem descuida das coisas pequenas pouco a pouco cai nas maiores – acostumou-se a esvaziar avidamente copos quase cheios de vinho puro.

Onde estava então a prudente anciã, e a sua severa proibição? Mas que remédio curaria um mal oculto se a tua medicina, Senhor, não velasse sobre nós? Na ausência do pai, da mãe e das amas, estavas lá tu que nos criaste, que nos chamas, e que por meio dos que nos educam fazes o bem para a salvação das almas. Que fizeste então, meu Deus? Como a socorreste? Como a curaste? Fizeste sair de outra pessoa, segundo as tuas secretas providências, um sarcasmo duro e pungente como ferro medicinal, para curar de um só golpe aquela gangrena.

A criada que costumava acompanhá-la à adega, discutindo com a sua jovem senhora, como às vezes acontece, estando as duas a sós, lançou-lhe em rosto a sua intemperança, chamando-a insultuosamente de bêbada. Ferida por esse sarcasmo, a jovem reconheceu a fealdade daquele hábito, reprovou-o, e no mesmo instante o abandonou.

Assim como muitas vezes as lisonjas dos amigos nos pervertem, assim os insultos dos inimigos nos corrigem. Mas não é o bem que nos fazem por seu intermédio que retribuis, mas a intenção com que o fazem. Aquela criada zangada pretendia ofender a sua jovem senhora, e não corrigi-la; e se o fez às escondidas foi só por força da circunstância do lugar e tempo, ou para que não viesse a sofrer por denunciar tão tarde o costume da sua senhora.

Mas, tu, Senhor, governador do céu e da terra, que desvias para os teus desígnios as águas da torrente e regulas o curso turbulento dos séculos, curaste a loucura de uma alma com a insânia de outra. Por isso ninguém, ao considerar o caso, atribua a seu poder pessoal o mérito de ter corrigido com as suas palavras a alguém cuja emenda deseja conseguir.

CAPÍTULO IX

Esposa e mãe exemplar

Educada assim na modéstia e na temperança, mais sujeita a seus pais pela tua mão que por seus pais a ti, logo que chegou à idade núbil, foi dada em matrimónio a um homem, a quem serviu como senhor. Procurou conquistá-lo para ti, falando-lhe de ti com as suas virtudes, com as quais tu a tornavas bela e reverentemente amável e admirável ante os seus olhos. Suportou as suas infidelidades conjugais com tanta paciência, que jamais teve com ele a menor briga por isso, pois esperava que a tua misericórdia viria sobre ele, e que lhe trouxesse, com a fé, a castidade.

O seu marido, se por um lado era sumamente afectuoso, por outro era extremamente colérico, mas ela tinha o cuidado de não contrariá-lo nem com acções, nem com palavras, se o visse irado.

Logo que o via calmo e sossegado, oportunamente, mostrava-lhe o que havia feito, se por acaso se tivesse irritado desmedidamente.

Muitas senhoras, embora tendo maridos mais calmos, traziam no rosto as marcas das pancadas que as desfiguravam. Conversando entre amigas, lamentavam a conduta dos maridos.

A minha mãe reprovava-lhes a língua e, como por gracejo, lembrava-lhes que, desde a leitura do contrato matrimonial, deviam considerá-lo como documento que as tornava servas, e portanto proibia-lhes serem altivas com os seus senhores. Essas senhoras, que conheciam o mau génio do seu marido, admiravam-se de que jamais ninguém tivesse ouvido ou percebido qualquer indício que Patrício maltratasse a mulher, nem sequer que algum dia tivessem brigado por questões domésticas. E como lhe pedissem confidencialmente a razão disso, minha mãe expunha-lhes o seu agir habitual, como acima mencionei. Algumas, após experimentar, punham-no em prática e davam-lhe graças; as que não a imitavam continuavam a sofrer humilhações e violências.

Sua sogra, a princípio irritara-se contra ela por causa dos mexericos de criadas malévolas.
Mas conseguiu conquistá-la com respeito, contínua tolerância e mansidão, que ela mesma, espontaneamente, denunciou ao filho as línguas intrigantes das criadas, que perturbavam a paz doméstica entre ela e a nora, e pediu que as castigasse. Ele, em obediência à mãe, para manter a disciplina familiar e a harmonia entre os seus, mandou açoitar as acusadas, segundo a vontade da acusante; e esta prometeu-lhes ainda que esse era o prémio que devia esperar quem, querendo agradá-la, lhe dissesse mal da nora. E ninguém mais se atreveu a fazê-lo, e viveram as duas em doce e memorável harmonia.
A esta tua boa serva, em cujo seio me criaste, ó meu deus, minha misericórdia, dotaste de outra grande virtude: a de intervir como pacificadora, sempre que podia, nas discórdias e querelas. Daquilo que ouvia de queixas amargas, vomitadas com animosidade ressentida, quando na presença de uma amiga os ódios mal digeridos se desafogam em amargas confidencias a respeito de uma amiga ausente, ela nada referia uma à outra, senão o que poderia servir para a reconciliação.

Este dom parecer-me-ia de pouca monta se uma triste experiência não me houvesse mostrado grande número de pessoas – por não sei que horrível contagio de pecados, espalhados por toda parte – que não só revelam as palavras pesadas de inimigos irados, mas que ainda acrescentam coisas que não foram ditas. Quem fosse realmente humano, deveria ter em pouca conta ou não excitar nem fomentar as inimizades dos homens, e melhor ainda procurar extingui-las com boas palavras.

Assim era minha mãe, ensinada por ti, mestre interior, na escola do seu coração.
Por fim, conquistou para ti o seu marido, já no fim da vida, não tendo que lamentar no cristão o que havia tolerado no infiel.

Ela era verdadeiramente a serva de teus servos, e todos os que a conheciam te louvavam, honravam, te amavam em sua pessoa, porque percebiam tua presença em seu coração, confirmada pelos frutos de uma vida santa.

Havia sido mulher de um só homem, cumprira sua dívida de gratidão com os pais, governara sua casa piedosamente e dava testemunho com suas boas obras. Educara os filhos, dando-os à luz tantas vezes quantas os via apartarem-se de ti.

E de nós, que nos chamamos teus servos por liberalidade tua, nós que vivemos em comum na graça de teu baptismo, antes de adormecer em tua paz, ela cuidou de nós como se todos fôssemos seus filhos, e de tal modo nos serviu como se fosse filha de cada um de nós.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


14/04/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana II da Páscoa

Evangelho: Jo 3 7-15

7 Não te maravilhes de Eu te dizer: É preciso que nasçais de novo. 8 O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem nem para onde vai; assim é todo aquele que nasceu do Espírito». 9 Nicodemos disse-Lhe: «Como pode ser isto?». 10 Jesus respondeu-lhe: «Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? 11 «Em verdade, em verdade te digo que Nós dizemos o que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12 Se, quando vos falo das coisas terrenas, não Me acreditais, como Me acreditareis, se vos falar das celestes? 13 Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu. 14 E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do Homem, 15 a fim de que todo o que crê n'Ele tenha a vida eterna.

Comentário:

Como se pode nascer de novo?
Esta pergunta de Nicodemos é perfeitamente legítima e é muito natural que nós próprios a façamos também.
Mas a resposta também a devemos saber porque assim nos diz a nossa Santa Religião e nos garante a nossa Fé:

O Baptismo é esse “nascer de novo” porque nos converte de simples criaturas em Filhos de Deus.

(ama, comentário sobre Jo 3, 7b-15, 2015.04.08)

Leitura espiritual

a beleza de ser cristão


Qualquer livro tem uma razão de ser, e qualquer autor um fim ao empreender a tarefa de redigir umas páginas e manter o esforço dia a dia até as levar à sua conclusão.

A razão do livro e o fim do autor coincidem neste caso; e é duplo. A primeira, ajudar quem acredita que Jesus Cristo é verdadeiramente filho de Deus feito homem, a conhecer e a valorizar a grandeza e a beleza da sua condição de criatura, do seu ser filho de Deus em Cristo Jesus, da sua tarefa de ser santo.
A segunda, ajudar o não crente em Jesus Cristo, e quiçá tampouco em Deus, a descobrir o que significa verdadeiramente ser cristão e, na esperança que o vislumbre, provoca-lo ao menos para que se decida a procurar Deus, a descobrir a amizade com Deus e, na amizade com Deus, chegara té ao conhecimento de Cristo, da Verdade. A Verdade que sustenta todas as outras verdades que o homem descobre no seu viver.

O livro, não é, portanto, uma exposição das verdades da Fé cristã em toda a sua amplitude. De certo modo, essas verdades: Deus Uno e Trino; a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo; a acção do Espírito santo; a Igreja; e todas as outras afirmadas no Credo, dão-se como conhecidas. Para quem deseje aprofundar o conteúdo dessas realidades, recomendamos uma leitura pausada e atenta do Catecismo daa Igreja Católica e do Compêndio desse Catecismo, recentemente publicado.

Centraremos, portanto, a nossa atenção em que consiste e como se desenvolve a vida cristã. A vida da «nova criatura» que Nosso Senhor Jesus Cristo nos revelou, e que Ele próprio nos convida a sermos cada um de nós, quando afirma: «Se não vos fizerdes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus». O que entende o Senhor por «crianças»? Talvez queira fazer-nos pensar na grandeza de ser «filhos de Deus»?

No Antigo e no Novo testamento há frases sobre as quais uma grande maioria de nós cristãos, temos passado, talvez longos anos da nossa vida, demasiado depressa, sem parar a prestar-lhes a atenção devida e sem ser conscientes de que nunca conseguiremos desentranhar a riqueza divina que contêm.

No Antigo Testamento encontramos, por exemplo: «Disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança… E Deus criou o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou»[i]. Deus viu tudo quanto tinha feito, e heis que estava muito bem»[ii]. E, pela boca da Sabedoria, afirma que «as minhas delícias estão com os filhos dos homens»[iii].

No Novo Testamento lemos estas frases ditas pelo próprio Cristo, Nosso Senhor: «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância»[iv]; «O que recebe os meus preceitos e os guarda, esse é o que me ama; o que me ama a mim será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele»[v].

E outras escritas pelos evangelistas e por São Paulo: «O justo vive da fé»[vi]; «Ele fixou aas estações e os confins dos povos, para que procurem a Deus, e se mesmo a tentar o encontrem, ainda que não esteja longe de nós, porque nele vivemos, nos movemos e somos, como algum dos vossos poetas disse: “porque somos da sua linhagem”».[vii]

Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que se achavam sob a lei, e para que recebêssemos a filiação adoptiva. A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá, Pai!»[viii]. «Não mintais uns aos outros. Despojai-vos do homem velho com as suas obras, e revesti-vos do homem novo, que se vai renovando até alcançar um conhecimento perfeito, segundo a imagem do seu Criador»[ix].

Todas estas frases descobrem à nossa consideração os planos de Deus na criação do homem, ao levar a cabo a redenção depois do pecado, e fazer do homem uma «nova criatura» em Cristo.

Os crentes que vivem imersos em ambientes familiares, espirituais e culturais nos quais não surge nenhuma dúvida sobre as verdades da fé, e que dão por adquiridos os princípios normais do viver moral cristão, podem chegar a acostumar-se à assombrosa realidade de ser cristãos, de ser filhos de Deus em Cristo Jesus; e a manter uma certa relação com Deus, com um Deus Uno e Trino, que chega a ser mais um «personagem familiar», no sentido mais reduzido da palavra.

Somos família de Deus, e a Igreja recorda-nos, a unidade da Igreja, o viver em comunhão na Igreja com todos os cristãos, e com todos os homens. Existe o perigo, todavia, de que, encaminhada em caminhos de normalidade vital, a relação do homem com Deus se vá re4duzindo paulatinamente o cumprimento de uma série de preceitos para conseguir, de alguma forma, «estar bem», «estar tranquilo» com esse Deus, exigente; ou, talvez, a «ter Deus contente».
Com a finalidade de facilitar a compreensão do horizonte da vida de Deus na vida dos homens, tratarei de desentranhar nestas páginas os projectos de Deus Pai, Filho e Espírito Santo sobre o homem, «única criatura na terra a quem Deus amou por si mesma»[x]. Projectos que se vislumbram nas frases da Escritura recolhidas parágrafos atrás, frases que escondem a riqueza do infinito a amor de Deus pelos homens.

Procurarei levar a cabo esta exposição – insisto em que se trata de uma exposição de verdades já adquiridas no pensamento cristão, ainda que talvez não de todo sublinhadas e na ordem em que as exponho – da forma mais «elementar» e «simples» que me for possível, com o anseio exequível da sua leitura por crentes e não crentes.

«Elementar», na acepção mais completa da palavra, ou seja: «referente aos elementos ou princípios de uma ciência ou arte», e não o significado, também usual, de afirmações óbvias e evidentes, porque as verdades que relacionam o homem com Deus nem são óbvias nem nunca são evidentes. Ainda que estando profundamente arreigadas no espírito humano, não deixam de participar no mistério insondável de Deus.

«Simples», no sentido de «carecer de exornação e artifício, e expressa ingénua e naturalmente os conceitos». Não pretendo um livro cientificamente teológico, nem com o menor aparato crítico. Só pretendo expressar a exposição dos mistérios das relações que nos unem a Deus, com a simplicidade das palavras de Cristo, «Caminho, Verdade, Vida», na esperança de que assim possam estar mais ao alcance de todos sem perder nada da sua riqueza.

«Elementar e simples». Estas palavras não significam que todas as páginas do livro sejam sempre fáceis de ler. O leitor, com compreensão e paciência, há-de pôr um certo esforço, consciente de que tudo quanto aqui se afirma não é mais que uma tentativa de desentranhar o mistério encerrado no Amor de Deus pelos homens; e um caminho para que o homem aprenda a amar de verdade a Deus.
E tenho a esperança de que, no fim da leitura, esteja de acordo comigo de que valeu a pena: ao leitor, ler; e a mim, escrever. E tenha sido uma ajuda para começar a descobrir a beleza de ser cristãos e a vislumbrar que «a beleza salvará o mundo». [xi]

Nesta primeira parte trataremos da Vida que Deus nos dá, e nos comunica em Cristo, de forma que um dia todos os crentes possamos dizer com São Paulo: «Por isso dobro os meus joelhos ante o Pai, de quem toma o nome toda a família no céu e na terra, para que vos conceda, segundo a riqueza da sua glória, que sejais vigorosamente fortalecidos pela acção do Espírito no homem interior, que Cristo habite pela fé nos vossos corações, para que, enraizados e cimentados no amor, possais compreender com todos os santos qual é a largura e a longitude, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o conhecimento, para que vos vades enchendo até à total plenitude de Deus».[xii].

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[i] Gen 1, 26-27
[ii] Gen 1, 31
[iii] Pr 8, 31
[iv] Jo 10, 10
[v] Jo 14, 21
[vi] Rm 1, 17
[vii] Act 17, 26-28
[viii] Ga 4, 4-6
[ix] Col 3, 10
[x] Gaudium et spes, n. 24
[xi] feodor dostoievski, O Idiota, p.  II, cap. V.
[xii] Ef 3, 14-19