27/02/2015

In memoriam

Faz hoje dez anos partiu para o Céu o Manuel Franco Dias - o Senhor Engenheiro - como respeitosamente era chamado.

Tive a honra e o privilégio de cuidar dele nos últimos meses da sua vida, recebendo incontáveis bens e graças.

Tenho saudades dele mas, sei, que não se esquece de mim e continuará repetindo ao Senhor cuja Face contempla, a piedosa mentira que constantemente me dirigia:

 - O António é uma jóia!!!

E, o Senhor, sorridente, me dará, por seu intermédio, as graças que mais necessitar.

Tratado do verbo encarnado 133

Questão 22: Do sacerdócio de Cristo

Em seguida devemos tratar do sacerdócio de Cristo.

E nesta questão discutem-se seis artigos:

Art. 1 — Se a Cristo convém ser sacerdote.
Art. 2 — Se Cristo foi ao mesmo tempo sacerdote e vítima.
Art. 3 — Se o efeito do sacerdócio de Cristo é a expiação dos pecados.
Art. 4 — Se o efeito do sacerdócio de Cristo não só pertencia aos outros, mas também a ele próprio.
Art. 5 — Se o sacerdócio de Cristo permanece eternamente.
Art. 6 — Se o sacerdócio de Cristo era segundo a ordem de Melquisedeque.

Art. 1 — Se a Cristo convém ser sacerdote.

O primeiro discute-se assim. — Parece que não convém a Cristo ser sacerdote.

1 — Pois, o sacerdote é menor que o anjo, e por isso diz a Escritura: O Senhor me mostrou o sumo-sacerdote Jesus, que estava diante do anjo do Senhor. Ora, Cristo é maior que os anjos, segundo o Apóstolo: Feito tanto mais excelente que os anjos, quanto herdou mais excelente nome que eles. Logo, a Cristo não convém ser sacerdote.

2. Demais. — No Antigo Testamento estavam as figuras de Cristo, segundo o Apóstolo: Que são sombra das causas vindouras, mas o corpo é em Cristo. Ora Cristo não era carnalmente descendente dos sacerdotes da lei antiga, assim, diz o Apóstolo: Manifesta coisa é que da linhagem de Judá nasceu Nosso Senhor, tribo sobre a qual nada falou Moisés tocante aos sacerdotes. Logo, a Cristo não convém ser sacerdote.

3. Demais. — Na lei antiga, que é figura de Cristo, não era o mesmo o legislador e o sacerdote, donde o dizer o Senhor a Moisés, legislador: Faze chegar a ti Arão, teu irmão, para que exercite diante de mim as funções do sacerdócio. Ora, Cristo é o legislador da lei nova, segundo a Escritura: Imprimirei a minha lei nas suas entranhas. Logo, a Cristo não convém ser sacerdote.

Mas, em contrário, o Apóstolo: Temos aquele pontífice que penetrou os céus, Jesus, Filho de Deus.

O ofício próprio do sacerdote é ser mediador entre Deus e o povo, porque transmite ao povo os dons divinos, chamando-se sacerdote por ser o responsável das coisas sacras, segundo aquilo da Escritura: Da sua boca, isto é, do sacerdote, os mais buscarão a inteligência da lei. E também por ser quem oferece a Deus as preces do povo, e de certo modo satisfaz a Deus pelos seus pecados. Donde o dizer o Apóstolo: Todo o pontífice assunto dentre os homens é constituído o favor dos homens naquelas causas que tocam a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados. Ora, isto convém sobremaneira a Cristo. Pois por ele, os bens divinos foram conferidos aos homens, segundo a Escritura: Pelo qual, isto é, por Cristo, nos comunicou as mui grandes e preciosas graças, que tinha prometido, para que por elas sejais feitos participantes da natureza divina. E também ele reconciliou o género humano com Deus, segundo o Apostolo: Foi do agrado do Pai que nele, isto é, em Cristo residisse toda a plenitude e o reconciliar por ele a si mesmo todas as coisas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O poder hierárquico convém aos anjos, enquanto medianeiros entre Deus e os homens, como está claro em Dionísio, por isso o sacerdote, enquanto medianeiro entre Deus e o povo, tem o nome de anjo, segundo a Escritura: É o anjo do Senhor dos exércitos. Ora, Cristo foi maior que os anjos, não só pela divindade, mas também pela humanidade, por ter a plenitude da graça e da glória. Donde e de modo mais excelente, teve, acima dos anjos, o poder hierárquico ou sacerdotal, de modo tal que os próprios anjos lhe foram ministros do sacerdócio, como se lê no Evangelho: Chegaram os anjos e o serviam. Mas, pela passibilidade da carne, por um pouco foi feito menor que os anjos, no dizer do Apóstolo. E, assim, foi comparável aos mortais constituídos sacerdotes.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz Damasceno, duas coisas em tudo iguais são idênticas e não, semelhantes. Ora, sendo o sacerdócio da lei antiga a figura do sacerdócio de Cristo, não quis Cristo nascer da estirpe dos sacerdotes, que o figuravam, para mostrar que o seu sacerdócio não era absolutamente idêntico ao deles, mas que diferia como o verdadeiro, do figurado.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como dissemos, os outros homens têm algumas graças particulares, mas Cristo, enquanto cabeça de todos, tem a perfeição de todas as graças. Donde, no atinente aos mais, o legislador difere do sacerdote, que difere do rei, ao passo que Cristo era tudo isso ao mesmo tempo, como a fonte de todas as graças. Donde o dizer a Escritura: O Senhor é o nosso juiz, o Senhor o nosso legislador, o Senhor o nosso rei, ele mesmo nos salvará.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Temas para meditar - 378


Silêncio


O silêncio é o clima que torna possível o pensamento profundo. Quem fala demasiado dissipa o coração e leva-o a perder tudo o que há de valioso no seu interior; é então como um frasco de perfume que, por estar destapado, perde o perfume, ficando apenas água e um ligeiro aroma a recordar vagamente o precioso conteúdo de outrora.


(federico suarezA Virgem Nossa Senhora, Éfeso, 4ª Ed. nr. 185)

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



Jesus Cristo e a Igreja - 57

Celibato eclesiástico: História e fundamentos teológicos [i]

II. CONCEITO E MÉTODO

Significado do conceito do celibato: a continência.

…6/

Raízes do recente debate sobre as origens do celibato
Os postulados do dado teológico
O método apropriado para estudar os fundamentos teológicos da continência do clero deve ter em conta que, além de questões disciplinares e jurídicas, a continência também está ligada, no caso deles, a um carisma intimamente relacionado com a Igreja e com Cristo. O seu conhecimento e análise só podem ser feitos, consequentemente, à luz da revelação e da elaboração teológica.
Como é agora bem conhecido, a Teologia medieval não se preocupou muito com questões jurídicas e disciplinares, nem do modo apropriado, mas se apropriou das discussões e das conclusões da canonística clássica – também chamada de “glosadores” – então muito florescente. Os historiadores da Teologia Medieval constataram isso há bastante tempo, e, um olhar para a obra do príncipe da Escolástica Medieval, confirma-o suficientemente. Esta realidade pode ser considerada também como a principal razão de que a continência do clero não foi tratada suficientemente, quer dizer, conforme a sua metodologia fundada na Revelação e nas suas fontes. Embora esta falta tenha sido já reparada em grande medida, hoje continua sendo necessário um maior aprofundamento nos fundamentos propriamente teológicos do nosso tema. Na última parte deste trabalho, procuraremos atender a essa exigência tão legítima.

(cont)

(revisão da tradução portuguesa por ama)





[i] Card. alfons m. stickler, Cardeal Diácono de São Giorgio in Velabro


26/02/2015

NUNC COEPI 2015.02.26


O que pode ver hoje em NUNC COEPI



Tratado do verbo encarnado 132 -
Suma Teológica - Tratado do Verbo Encarnado - Quest 21 - 

Maria, Rainha da Paz

Maria, Regina pacis, Rainha da Paz, porque tiveste fé e acreditaste que se cumpriria o anúncio do Anjo, ajuda-nos a aumentar a Fé, a sermos firmes na Esperança, a aprofundar o Amor. Porque é isso que quer hoje de nós o teu Filho, ao mostrar-nos o seu Sacratíssimo Coração. (Cristo que passa, 170).

Característica evidente de um homem de Deus, de uma mulher de Deus, é a paz na alma: tem "a paz" e dá "a paz" às pessoas com quem convive. (Forja, 649).


Não é lícito escudar-se em razões aparentemente piedosas para espoliar os outros do que lhes pertence: Se alguém diz: "Eu amo a Deus" mas odeia o seu irmão, é mentiroso. Mas também se engana a si mesmo quem regateia ao Senhor o amor e a reverência – a adoração – que lhe são devidos como Criador e nosso Pai; a quem se nega a obedecer aos seus mandamentos com a falsa desculpa de que algum deles é incompatível com o serviço dos homens claramente adverte S. João que nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: Se amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Porque o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados. (Amigos de Deus, n. 166)

Evangelho, coment. L espirit. (Santíssima Virgem)

Quaresma I Semana

Evangelho: Mt 7 7-12

7 «Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. 8 Porque todo aquele que pede, recebe, e quem busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-á. 9 Qual de vós dará uma pedra a seu filho, quando este lhe pede pão? 10 Ou se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? 11 Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celeste dará coisas boas aos que lhas pedirem. 12 «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a Lei e os Profetas.
Comentário:

Não nos cansemos de pedir tudo o que julguemos necessitar.
Afastemos essa falsa preocupação de não pedir-mos porque, talvez, não seja conveniente o que pedimos. O Senhor saberá, sempre, se o é ou não e, mais, se o for, quando será oportuno concede-lo.

De algo podemos estar certos: Nunca nos deixará sem resposta, mesmo quando parece que não nos atende, se nos detivermos com vagar e são critério, saberemos porque não O faz.

Sempre, absolutamente, porque não é conveniente e, nunca, por falta de merecimento nosso já que, este, nunca o teremos.

(ama, comentário sobre Mt 7, 7-12, 2013.02.21)


Leitura espiritual



Santíssima Virgem

Santo Rosário

Gozosos - Anunciação do Anjo a Nossa Senhora [i]

2
Também para vir a primeira vez à terra, Deus pediu consentimento a Maria, uma de nós.
Maria acreditou: deu a sua adesão total aos planos do Pai.
E que obra deu como fruto a sua fé? Pelo seu "sim" o Verbo fez-Se carne[ii] nela tornou-se possível a salvação da humanidade.[iii]
«Que terão a voz e as palavras de Maria que geram uma felicidade sempre nova? São como uma música divina que penetra até ao mais fundo da alma enchendo-a de paz e de amor. Quantas vezes rezamos o Santo Rosário a chamamos Causa da Nossa Alegria. E é-o porque é portadora de Deus. Filha de Deus Pai, é portadora da ternura infinita de Deus Pai. Mãe de Deus Filho, é portadora do Amor até à morte de Deus Filho. Esposa de Deus Espirito Santo, é portadora do fogo e do gozo do Espirito Santo.
À sua passagem o ambiente transforma-se: a tristeza dissipa-se; as trevas cedem lugar à luz; a esperança e o amor acendem-se...
Não é o mesmo estar com a Virgem que sem Ela!
Não é o mesmo, não, rezar o Rosário que não o rezar...»[iv]
«Promulgou-se um édito de César Augusto que manda recensear todos os habitantes de Israel. Maria e José caminham para Belém... - Nunca pensaste que o Senhor se serviu do acatamento pontual de uma lei para dar cumprimento à Sua profecia?
Ama e respeita as normas de uma convivência honesta, e não duvides que a tua submissão leal ao dever será também veículo para que os outros descubram a honradez cristã, fruto do amor divino, e encontrem a Deus.»[v]

«A purificação da alma pela mortificação interior, não é algo meramente negativo. Não se trata só de evitar o que está na fronteira do pecado; pelo contrário, consiste em saber privar-se, por amor de Deus, do que seria lícito não privar-se.
Esta mortificação, que tende a purificar a mente de tudo o que não é de Deus, dirige-se em primeiro lugar a livrar a memória das recordações que possam ir contra o caminho que nos leva ao Céu. Essas recordações podem assaltar-nos enquanto trabalhamos ou descansamos e, inclusive, enquanto rezamos.
Sem violência, mas prontamente, poremos os meios para afastá-los, sabendo fazer o esforço necessário para que a mente volte a encher-se do amor e desejo divinos que dirige o nosso dia de hoje.
Com a imaginação pode suceder algo parecido: que incomode inventando novelas de tipos muito diversos, urdindo histórias fantásticas que não servem para nada. Também então há que reagir com rapidez e voltar serenamente à nossa tarefa ordinária.
De qualquer modo, a purificação interior não se limita a esvaziar o entendimento de pensamentos inúteis. Vai muito mais além: a mortificação das potências abre-nos caminho á vida contemplativa, nas diversas circunstâncias nas quais Deus nos tenha querido situar.
Com esse silêncio interior para tudo o que é contrário ao querer de Deus, impróprio dos Seus filhos, a alma encontra-se disposta ao diálogo continuo e intimo com Jesus Cristo, no que a imaginação ajuda à contemplação - por exemplo, ao contemplar o Evangelho ou os mistérios do Santo Rosário - e a memória traz recordações das maravilhas que Deus fez connosco e as Suas bondades, que acenderão a gratidão no coração e tornarão mais ardente o amor.» [vi]

«Virgem Maria realiza, do modo mais perfeito, a «obediência da fé». Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazidos pelo anjo Gabriel, acreditando que «a Deus nada é impossível»[vii] - [viii] e dando o seu assentimento:
Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra [ix]
Em hebraico, Jesus quer dizer «Deus Salva». Na Anunciação, o anjo Gabriel dá-lhe o nome próprio de Jesus, o qual exprime, ao mesmo tempo, a sua identidade e a sua missão.[x] - [xi]
A Anunciação a Maria inaugura a «plenitude dos tempos»[xii], isto é, o cumprimento das promessas e dos preparativos. Maria é convidada a conceber Aquele em quem habitará «corporalmente toda a plenitude da Divindade»[xiii]
A resposta divina ao seu «como será isto, se eu não conheço homem?»[xiv] é dada pelo poder do espirito:
«O Espirito santo virá sobre ti».[xv] - [xvi]
Para vir a ser a Mãe do salvador, Maria «foi adornada com dons dignos de uma grande missão» [xvii].
O anjo Gabriel, no momento da Anunciação, saúda-a como «cheia de graça»[xviii].
Efectivamente para poder dar o assentimento livre da sua fé ao anúncio da sua vocação, era necessário que ela fosse totalmente movida pela graça de Deus.[xix]

Ao anúncio que dará à luz «o Filho do Altíssimo» sem conhecer homem, pela virtude do Espirito Santo, Maria respondeu pela «obediência da fé» [xx], certa de que «a Deus nada é impossível»:
«Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra»[xxi].
Assim, dando o seu consentimento à palavra de Deus, Maria tornou-se Mãe de Jesus. E, aceitando de todo o coração, sem que nenhum pecado a retivesse, a vontade divina da salvação, entregou-Se totalmente à pessoa e à obra de seu Filho para servir, na dependência d'Ele e com Ele, pela graça de Deus, o mistério da redenção.[xxii]

Como diz Santo Ireneu, «obedecendo, ela tornou-se causa da salvação, para si e para todo o género humano». Eis porque não poucos Padres afirmam com ele, nas suas pregações, que «o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e, aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, desatou-o a Virgem Maria com a sua fé»; e, por comparação com Eva, chamam Maria a «Mãe dos vivos» e afirmam muitas vezes: «a morte veio por Eva, a vida veio por Maria». [xxiii] - [xxiv]

A oração de Maria é-nos revelada na aurora da plenitude dos tempos. Antes a Encarnação do Filho de Deus e da efusão do Espirito Santo, a sua oração coopera de modo único, no desígnio benevolente do Pai, quando da Anunciação para a concepção de Cristo (...)
Na fé da sua humilde serva, o dom de Deus encontra o acolhimento que Ele esperava desde o princípio dos tempos.
Aquela que o Todo-Poderoso fez «cheia de graça» responde pelo oferecimento de todo o seu ser:
«Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra».[xxv]
A virgindade de Maria manifesta a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação.
Jesus só tem Deus por Pai. «A natureza humana, que Ele tomou, nunca O afastou do Pai (...).
Naturalmente Filho de Seu Pai por Sua divindade, naturalmente Filho de Sua Mãe por Sua humanidade, mas propriamente Filho de Deus nas Suas duas naturezas»[xxvi]. [xxvii]
A Sagrada Escritura do Antigo e Novo Testamento e a venerável Tradição mostram de modo progressivamente mais claro e como que nos põem diante dos olhos o papel da Mãe do salvador na economia da salvação.
Os livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação na qual se vai preparando lentamente a vinda de Cristo ao mundo. Esses antigos documentos, tais como são lidos na Igreja e interpretados à luz da pela revelação ulterior, vão pondo cada vez mais em evidência a figura duma mulher, a Mãe do Redentor.
A esta luz, Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente[xxviii], feita aos primeiros pais caídos no pecado.
Ela é, igualmente, a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emmanuel[xxix]
É a primeira entre os humildes e pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus.
Com ela, enfim, excelsa Filha de Sião, passada a longa espera da promessa, se cumprem os tempos e se inaugura a nova economia da salvação, quando o Filho de Deus dela recebeu a natureza humana, para libertar o homem do pecado com os mistérios da sua vida terrena. [xxx]

O Pai das misericórdias quis que a aceitação da que Ele predestinara para mãe, precedesse a encarnação, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuísse para a vida. É o que se verifica de modo sublime na Mãe de Jesus, dando à luz do mundo a própria Vida, que tudo renova. Deus adornou-a com dons dignos de uma grande missão; e, por isso, não é de admirar que os santos padres chamem com frequência à Mãe de Deus «toda santa» e «imune de toda a mancha de pecado», visto que o próprio Espirito Santo a modelou e dela fez uma nova criatura.[xxxi]
Enriquecida desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores de uma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como «cheia de graça»[xxxii]; e responde ao mensageiro celeste: «eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra»[xxxiii]. Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra do seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção.
Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens. Como diz S. Ireneu, «obedecendo, ela tornou-se causa de salvação, para si e para todo o género humano» [xxxiv] [xxxv]

O Verbo fez-se carne[xxxvi]

Esta subli­me apresentação joanina do mistério de Cristo é confirmada por todo o Novo Testamento.
Assim, S. Paulo afirma que o Filho de Deus nasceu «a descendência de David segundo a carne»,[xxxvii].

Se hoje, com o racionalismo que gras­sa em muitos sectores da cultura contemporâ­nea, é a fé na divindade de Cristo a encontrar mais problemas, também já houve contextos his­tóricos e culturais em que predominou a tendên­cia a reduzir ou diluir o carácter histórico concreto da humanidade de Jesus. Mas, para a fé da Igre­ja, é essencial e irrenunciável afirmar que verda­deiramente o Verbo, se fez carne, e assumiu todas as dimensões do ser humano, excepto o pecado.[xxxviii]
Nesta perspectiva, a encarnação é verdadeira­mente um, despojar-se (kenosis), por parte do Filho de Deus, da glória que Ele possui desde toda a eternidade[xxxix].
Por outro lado, esta humilhação do Filho de Deus não é fim em si mesma, mas visa a plena glorificação de Cristo, inclusivamente na sua humanidade:[xl]

A Virgem Maria realiza, do modo mais perfeito, a «obediência da fé».
Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazidos pelo anjo Gabriel, acredi­tando que «a Deus nada é impossível»[xli] e dando o seu assentimento: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra».[xlii]
Isabel saudou-a: «Feliz aquela que acreditou no cumprimento de quanto lhe foi dito da parte do Senhor»[xliii]. É em virtude desta fé que todas as ger­ações a hão-de proclamar bem-aventurada. [xliv]
Doente, a nossa natureza precisava de ser curada; decaída, precisava de ser elevada; morta, precisava de ser ressuscitada.
Tínhamos perdido a posse do bem; era preciso que nos fosse restituído. 
Encerrados nas trevas, precisávamos de quem nos trouxesse a luz; cativos, esperávamos um sal­vador; prisioneiros, esperávamos um auxílio; escravos, precisávamos dum libertador. [Seriam razões sem importância?] Não seriam suficientes para comover a Deus, a ponto de O fazer descer até à nossa natureza humana para a visitar, pois a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz? [xlv]

O Verbo fez-Se carne, para que assim conhecêssemos o amor de Deus: «Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele»[xlvi]. «Porque Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16). [xlvii]
O Verbo fez-Se carne, para ser o nosso modelo de santidade: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim (...)»[xlviii].

«Eu sou o cami­nho, a verdade e a vida.  Ninguém vai ao Pai senão por Mim»[xlix]. E o Pai, na montanha da Transfiguração, ordena: «Escutai-O»[l]  
De facto, Ele é o modelo das bem-aventuranças e a norma da Lei nova: «Amai­-vos uns aos outros como Eu vos amei»[li]
Este amor implica a oferta efectiva de nós mesmos, no seu seguimento. [lii]
O Verbo fez-Se carne, para nos tornar «participantes da natureza divi­na»[liii]: (Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem, e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina, se tornasse filho de Deus»[liv]. «Porque o Filho de Deus Se fez homem, para nos fazer Deus»[lv]. «Unigenitus Dei Filius, suae divinitatis volens nos esse participes, naturam nostram assumpsit, ut homines deos faceret factus homo»[lvi] (0 Filho Unigénito de Deus, querendo que fôssemos participantes da sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses). [lvii]

Retomando a expressão de S. João («o Verbo fez-Se carne»: Jo 1, 14), a Igreja chama «Encarnação» ao facto de o Filho de Deus ter assumido uma natureza humana, para nela levar a efeito a nossa salvação.  Num hino que nos foi conservado por S. Paulo, a Igreja canta este mistério:
Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de Cruz.»[lviii]. [lix]

A Epístola aos Hebreus fala do mesmo mistério:
É por isso que, ao entrar neste mundo, Cristo diz: «Não quiseste sacri­fícios e oferendas, mas formaste-Me um corpo. Holocaustos e imolações pelo pecado não Te foram agradáveis. Então Eu disse: Eis-Me aqui (... ) para fazer a tua vontade»[lx] [lxi]
A fé na verdadeira Encarnação do Filho de Deus é o sinal distintivo da fé cristã: «Nisto haveis de reconhecer o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa a Jesus Cristo encarnado é de Deus»[lxii]. É esta a alegre con­vicção da Igreja desde o seu princípio, quando canta «o grande mistério da piedade»: «Ele manifestou-Se na carne[lxiii]. [lxiv]
 O acontecimento único e absolutamente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem, nem que seja o resultado da mistura confusa entre o divino e o humano. Ele fez-Se verdadeiro homem, permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Esta verdade da fé, teve a Igreja de a defender e clari­ficar no decurso dos primeiros séculos, perante heresias que a falsificavam. [lxv]
As primeiras heresias negaram menos a divindade de Cristo que a sua verdadeira humanidade (docetismo gnóstico).
Desde os tempos apostólicos que a fé cristã insistiu sobre a verdadeira encarnação do Filho de Deus «vindo na carne». Mas, a partir do século III, a Igreja teve de afirmar, contra Paulo de Samossata, num concílio reunido em Antioquia, que Jesus Cristo é Filho de Deus por natureza e não por adopção. O primeiro Concílio Ecuménico de Niceia, em 325, confessou no seu Credo que o Filho de Deus é «gerado, não criado, consubstancial ('homoúsios') ao Pai; e condenou Ario, o qual afirmava que «o Filho de Deus saiu do nada» (DS 130) e devia ser «duma substância diferente da do Pai» (DS 126). [lxvi]
A heresia nestoriana via em Cristo uma pessoa humana unida à pessoa di­vina do Filho de Deus. Perante esta heresia, S. Cirilo de Alexandria e o terceiro Concílio Ecuménico, reunido em Éfeso em 431, confessaram que «o Verbo, unindo na Sua pessoa uma carne animada por uma alma racional, Se fez homem»[lxvii].

A humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho de Deus, que a assumiu e a fez sua desde que foi concebida. Por isso, o Concílio de Éfeso proclamou, em 431, que Maria se tomou, com toda a verdade, Mãe de Deus, por ter concebido humanamente o Filho de Deus em seu seio:

«Mãe de Deus, não porque o Verbo de Deus dela tenha recebido a natureza divi­na, mas porque dela recebeu o corpo sagrado, dotado duma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne»[lxviii]. [lxix]

Os monofisistas afirmavam que a natureza humana tinha deixado de exis­tir, como tal, em Cristo, sendo assumida pela sua pessoa divina de Filho de Deus. Confrontando-se com esta heresia, o quarto Concílio Ecuménico, em Calcedónia, no ano de 451, confessou:
Na sequência dos santos Padres, ensinamos unanimemente que se confesse um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na humanidade, o mesmo que é verdadeiramente homem, composto duma alma racional e dum corpo, consubstancial ao Pai pela sua divindade, consubstancial a nós pela sua humanidade, «semelhante a nós em tudo, menos no pecado»[lxx]: gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nestes últimos dias, por nós e pela nossa salvação, nascido da Virgem Mãe de Deus segundo a humanidade.
Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho único, que devemos reco­nhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é abolida pela sua união; antes, as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas numa só pes­soa e numa só hipóstase (DS 301-302). [lxxi]

(ama, meditações sobre o Santo Rosário – 1999)




[i] Lc 1, 26-38
[ii] Jo 1, 14
[iii] Ch. Lubich, Palabra que se hace vida, pg 82-83
[iv] A. Orozco, Mirar a Maria, pg 239-240
[v] S. Josemaría Escrivá, Sulco, nr 322
[vi] Frederico Fernandez Carvajal, Hablar con Dios, Vol I, 3ª Sem, 5ª Fª.
[vii] Lc 1, 37
[viii] cfr.. Gn 18, 14
[ix] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nr 148
[x] Cfr. Lc 1, 31
[xi] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nr 430
[xii] Gál r, 4
[xiii] Col 2, 9.
[xiv] Lc 1, 34
[xv] Lc 1, 35
[xvi] Catecismo da Igreja Católica, nr 484
[xvii] LG 56
[xviii] Lc 1, 28
[xix] Catecismo da Igreja Católica, nr 490
[xx] Rm 1, 5
[xxi] Lc 1,37-38
[xxii] Cfr LG 56
[xxiii] LG 56
[xxiv] Catecismo da Igreja Católica, nr 494
[xxv] Cfr Catecismo da Igreja Católica, nr 2617
[xxvi] Con. de Friúl, em 796; DS 619
[xxvii] Catecismo da Igreja Católica, nr 503
[xxviii] Cfr Gen 3,15
[xxix] Cfr Is. 7,14; crf Miq. 5,3; Mt n1, 22-23
[xxx] Conc. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, VIII, Ir 55
[xxxi] Cfr S. Germanob Const. Hom in Annunt. Deiparae: PG 98, 238 A; In Dorm. 2: col. 357 - Anastácio Antioquia, Serm. 2 de Annunt., 2: PG 89, 1377 AB; Serm. 3, 2: cvoil. 1388: C. - S. André Cret., Can. In B. V. Nat. 4:PG 97, 1321 B. In B. V. Nat., 1: col. 812 A Hom. In Dorm. 1: col 1086 C - S. Sofrónio, Or. 2 in Annunt., 18: PG 87 3, 3237 BD.
[xxxii] CfrLc. 1, 28
[xxxiii] Lc , 1 38
[xxxiv] S. Ireneu, Adv.Haer. II, 22, 4: PG 7, 959 A; Harvey, 2 123
[xxxv] Conc. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, VIII, Ir 56
[xxxvi] Jo 1, 14
[xxxvii] Rm 1, 3; cf. 9, 5
[xxxviii] cf.  Hb 4, 15
[xxxix] cf.  Fl 2, 6-8; lPd 3, 18
[xl] Cfr João Paulo II, Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte, 22
[xli] Lc 1, 37
[xlii] U 1, 38
[xliii] Lc 1, 45
[xliv] Catecismo da Igreja Católica, 148
[xlv] S. Gregório de Nissa, Grande Catequese, IS: PG 45, 483
[xlvi] 1 Jo 4, 9
[xlvii] Catecismo da Igreja Católica, 458
[xlviii] Mt 11, 29
[xlix] Jo 14, 6
[l] Mc 9, 7
[li] Jo 15, 12
[lii] Catecismo da Igreja Católica, 459
[liii] 2 Pe 1, 4
[liv] Santo Ireneu, Contra as Heresias 111, 19, 1
[lv] Santo Atanásio, Inc., 54, 3: PG 25, 192B
[lvi] São Tomás de Aquino, opúsculo 57, na festa do Corpo de Deus, 1
[lvii] Catecismo da Igreja Católica, 460
[lviii] Filip 2, 5-8
[lix] Catecismo da Igreja Católica, 461
[lx] He 10, 5-7, citando o SI 40, 7-9, segundo os LXX.
[lxi] Catecismo da Igreja Católica, 462
[lxii] 1 Jo 4, 2
[lxiii] 1 Tm 3, 16
[lxiv] Catecismo da Igreja Católica, 463
[lxv] Catecismo da Igreja Católica, 464
[lxvi] Catecismo da Igreja Católica, 465
[lxvii] DS 250
[lxviii] DS 251
[lxix] Catecismo da Igreja Católica, 466
[lxx] He 4, 15
[lxxi] Catecismo da Igreja Católica, 467