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18/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual



Quaresma
Semana I

Evangelho: Mt 7, 7-12

7 «Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. 8 Porque todo aquele que pede, recebe, e quem busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-á. 9 Qual de vós dará uma pedra a seu filho, quando este lhe pede pão? 10 Ou se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? 11 Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celeste dará coisas boas aos que lhas pedirem. 12 «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a Lei e os Profetas.

Comentário:

A nossa condição de criaturas leva-nos a uma constante dependência do Criador.
Por nós próprios, efectivamente, não podemos nada nem sequer a mais básica das nossas necessidades podemos prover se não tivermos o auxílio divino.
As aptidões, qualidades, conhecimentos, virtudes, capacidades dependem sempre da magnitude e misericórdia do Senhor.
De que nos valerá ser competentes executores se não tivermos oportunidade de fazer alguma coisa?
Portanto temos de pedir absolutamente tudo e sem qualquer receio de que o Senhor nos ache “pedinchões” já que nada Lhe dará maior satisfação que vir em nosso auxílio.

(ama, comentário sobre Mt 7, 7-12, 2014.03.13)


Leitura espiritual



Ioannes Paulus PP. II
Dives in misericordia
sobre a Misericórdia Divina

1980.11.30


/…4

A Mãe da Misericórdia

9. No cântico pascal da Igreja repercutem, com a plenitude do seu conteúdo profético, as palavras que Maria pronunciou durante a visita que fez a Isabel, esposa de Zacarias: «A sua misericórdia estende-se de geração em geração» 101. Tais palavras, já desde o momento da Encarnação, abrem nova perspectiva da história da Salvação. Após a ressurreição de Cristo, esta nova perspectiva passa para o plano histórico e, ao mesmo tempo, reveste-se de sentido escatológico novo. Desde então sucedem-se sempre novas gerações de homens na imensa família humana, em dimensões sempre crescentes; sucedem-se também novas gerações do Povo de Deus, assinaladas pelo sinal da Cruz e da Ressurreição e «seladas» 102 com o sinal do mistério pascal de Cristo, revelação absoluta daquela misericórdia que Maria proclamou à entrada da casa da sua parente: «A sua misericórdia estende-se de geração em geração» 103.

Maria é, pois, aquela que, de modo particular e excepcional — como ninguém mais —, experimentou a misericórdia e, também de modo excepcional, tornou possível com o sacrifício do coração a sua participação na revelação da misericórdia divina. Este seu sacrifício está intimamente ligado à cruz do seu Filho, aos pés da qual ela haveria de encontrar-se no Calvário. Tal sacrifício de Maria é uma singular participação na revelação da misericórdia, isto é, da fidelidade absoluta de Deus ao próprio amor, à Aliança que ele quis desde toda a eternidade e que no tempo realizou com o homem, com o seu Povo e com a humanidade. É a participação na revelação que se realizou definitivamente mediante a Cruz. Ninguém jamais experimentou, como a Mãe do Crucificado, o mistério da Cruz, o impressionante encontro da transcendente justiça divina com o amor, o «ósculo» dado pela misericórdia à justiça 104. Ninguém como Maria acolheu tão profundamente no seu coração tal mistério, no qual se verifica a dimensão verdadeiramente divina da Redenção, que se realizou no Calvário mediante a morte do seu Filho, acompanhada com o sacrifício do seu coração de mãe, com o seu «fiat» definitivo.

Maria, portanto, é aquela que conhece mais profundamente o mistério da misericórdia divina. Conhece o seu preço e sabe quanto é elevado. Neste sentido chamamos-lhe Mãe da misericórdia, Nossa Senhora da Misericórdia, ou Mãe da divina misericórdia. Em cada um destes títulos há um profundo significado teológico, porque exprimem a particular preparação da sua alma e de toda a sua pessoa, para torná-la capaz de descobrir, primeiro, através dos complexos acontecimentos de Israel e, depois, daqueles que dizem respeito a cada um dos homens e à humanidade inteira, a misericórdia da qual todos se tornam participantes, segundo o eterno desígnio da Santíssima Trindade, «de geração em geração» 105.

Estes títulos que atribuímos à Mãe de Deus falam dela sobretudo como Mãe do Crucificado e do Ressuscitado, d'Aquela que, tendo experimentado a misericórdia de um modo excepcional, «merece» igualmente tal misericórdia durante toda a sua vida terrena e, de modo particular, aos pés da cruz do Filho. Tais títulos dizem-nos também que Ela, através da participação escondida e, ao mesmo tempo, incomparável na missão messiânica de seu Filho, foi chamada de modo especial para tornar próximo dos homens o amor que o Filho tinha vindo revelar: amor que encontra a sua mais concreta manifestação para com os que sofrem, os pobres, os que estão privados de liberdade os cegos, os oprimidos e os pecadores, conforme Cristo explicou referindo-se à profecia de Isaías, ao falar na sinagoga de Nazaré 106 e, depois, ao responder à pergunta dos enviados de João Baptista 107.

Precisamente deste amor «misericordioso», que se manifesta sobretudo em contacto com o mal moral e físico, participava de modo singular e excepcional o coração daquela que foi a Mãe do Crucificado e do Ressuscitado. Nela e por meio dela o mesmo amor não cessa de revelar-se na história da Igreja e da humanidade. Esta revelação é particularmente frutuosa, porque se funda, tratando-se da Mãe de Deus, no singular tacto do seu coração materno, na sua sensibilidade particular, na sua especial capacidade para atingir todos aqueles que aceitam mais facilmente o amor misericordioso da parte de uma mãe. É este um dos grandes e vivificantes mistérios do Cristianismo, mistério muito intimamente ligado ao mistério da Encarnação.

«Esta maternidade de Maria na economia da graça — como se exprime o Concílio Vaticano II — perdura sem interrupção, a partir do consentimento que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalável junto à cruz, ate à consumação eterna de todos os eleitos. De facto, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que entre perigos e angústias, caminham ainda na terra até chegarem à Pátria bem-aventurada» 108.

VI. «MISERICÓRDIA... DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO»

Imagem da nossa geração

10. Temos todo o direito de acreditar que também a nossa geração foi abrangida pelas palavras da Mãe de Deus, quando glorificava a misericórdia de que participam, «de geração em geração», aqueles que se deixam guiar pelo temor de Deus. As palavras do Magnificat de Maria têm conteúdo profético, que diz respeito não só ao passado de Israel, mas também a todo o futuro do Povo de Deus sobre a terra. Com efeito, todos nós que vivemos actualmente na terra somos a geração que está consciente da aproximação do terceiro Milénio e que sente profundamente a viragem que hoje se está a verificar na história.

A geração contemporânea tem consciência de ser uma geração privilegiada, porque o progresso lhe proporciona imensas possibilidades, insuspeitadas há apenas alguns decénios. A actividade criadora do homem, a sua inteligência e o seu trabalho provocaram mudanças profundas, quer no campo da ciência e da técnica, quer no plano da vida social e cultural. O homem, de facto, estendeu o seu domínio sobre a natureza e adquiriu conhecimento mais aprofundado das leis do seu próprio comportamento social. Verificou que caíram ou se tornaram menores os obstáculos e as distâncias que separam os homens e as nações: graças ao vivo sentido do que é universal e à consciência mais nítida da unidade do género humano, aceitando a dependência recíproca numa solidariedade autêntica; e em virtude, ainda, do desejo — e também da possibilidade — de entrar em contacto com os seus irmãos e irmãs, ultrapassando as divisões artificialmente criadas pela geografia, ou pelas fronteiras nacionais ou raciais. Os jovens de hoje, sobretudo, sabem que o progresso da ciência e da técnica é capaz de produzir não somente novos bens materiais, mas também participação mais ampla no comum património do saber.

O desenvolvimento da informática, por exemplo, multiplicará as capacidades criadoras do homem e permitir-lhe-á o acesso aos bens de ordem intelectual e cultural dos outros povos. As novas técnicas da comunicação favorecerão maior participação nos acontecimentos e intercâmbio crescente de ideias. As conquistas das ciências biológicas, psicológicas e sociais ajudarão o homem a penetrar na riqueza do seu próprio ser. Se é verdade que tal progresso continua a ser, muitas vezes apanágio dos países industrializados, não se pode negar, contudo que a perspectiva de se conseguir que todos os povos e todas as nações dele usufruam, já não irá permanecer por muito tempo mera utopia, dado que existe real vontade política, a este respeito.

Mas, a par de tudo isso — ou melhor talvez, em tudo isso — existem dificuldades que se vão avolumando. Existem inquietudes e impotências a exigirem que se lhes dê a resposta profunda que o homem sabe que tem de dar. O quadro do mundo contemporâneo apresenta também sombras e desequilíbrios que nem sempre são superficiais. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II não é certamente o único documento que trata da vida da geração contemporânea, mas é um documento de importância singular. Nela se diz: «Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo actual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem. Porque, no íntimo do próprio homem muitos elementos se combatem. Enquanto, por uma parte, ele se experimenta como criatura que é, multiplamente limitado, por outra, sente-se ilimitado nos seus desejos e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, vê-se obrigado a escolher entre elas, e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas vezes aquilo que não quer e não realiza o que deseja fazer. Sofre assim em si mesmo a divisão, da qual tantas e tão grandes discórdias se originam para a sociedade» 109.

Quase ao fim da introdução da mesma Constituição pastoral lemos: «... Perante a actual evolução do mundo, cada dia são mais numerosos aqueles que põem ou sentem com maior acuidade, as questões fundamentais: Que é o homem? Qual é o sentido da dor, do mal e da morte que, apesar do enorme progresso alcançado, continuam a existir? Para que servem essas vitórias ganhas a tão grande preço?» 110.

Decorridos quase quinze anos após o encerramento do Concílio Vaticano II, ter-se-á tornado menos inquietante este quadro de tensões e de ameaças, próprias da nossa época? Parece que não. Ao contrário, as tensões e as ameaças que no Documento conciliar pareciam apenas esboçar-se e não manifestar inteiramente todo o perigo que em si encerravam, no decurso destes anos revelaram-se mais claramente, confirmaram de várias maneiras o perigo e não permitem acalentar as ilusões de outrora.

Fontes de inquietação

11. Aumenta no nosso mundo a sensação de ameaça, aumenta o medo existencial que anda ligado sobretudo — conforme já tive ocasião de insinuar na Encíclica Redemptor Hominis — com a perspectiva de um conflito que, tendo em conta os hodiernos arsenais atómicos, poderia significar a autodestruição parcial da humanidade. A ameaça não diz respeito apenas ao que os homens podem fazer uns aos outros, utilizando os recursos da técnica militar. Ela envolve ainda muito outros perigos que são o produto de uma civilização materialista, que, não obstante declarações «humanistas», aceita o primado das coisas sobre a pessoa. O homem contemporâneo, receia que, com o uso dos meios técnicos inventados por este tipo de civilização, não só cada um dos indivíduos, mas também os ambientes, as comunidades, as sociedades e as nações, possam vir a ser vítimas da violência de outros indivíduos, ambientes e sociedades. Na história do nosso século não faltam exemplos a esse respeito. Apesar de todas as declarações sobre os direitos do homem tomado na sua dimensão integral, isto é, na sua existência corpórea e espiritual, não podemos dizer que tais exemplos pertencem somente ao passado.

O homem tem justamente medo de vir a ser vítima da opressão que o prive da liberdade interior, da possibilidade de manifestar publicamente a verdade de que está convencido, da fé que professa, da faculdade de obedecer à voz da consciência que lhe indica o recto caminho a seguir. Os meios técnicos à disposição da civilização dos nossos dias encerram de facto, não apenas a possibilidade de uma autodestruição por meio de um conflito militar, mas também a possibilidade de uma sujeição «pacífica» dos indivíduos, dos ambientes de vida, de inteiras sociedades e de nações que, seja por que motivo for, se apresentem incómodos para aqueles que dispõem de tais meios e estão prontos para empregá-los sem escrúpulos. Pense-se ainda na tortura que continua a existir no mundo adoptada sistematicamente por Autoridades, como instrumento de dominação ou de opressão política, e posta em prática, impunemente, por subalternos.

Assim, ao lado da consciência da ameaça contra a vida vai crescendo a consciência da ameaça que destrói ainda mais aquilo que é essencial ao homem, ou seja, aquilo que está intimamente relacionado com a sua dignidade de pessoa, com o seu direito à verdade e à liberdade.

Tudo isto se desenrola, tendo como pano de fundo o gigantesco remorso constituído pelo facto de que, ao lado de homens e sociedades abastados e fartos, a viverem na abundância, dominados pelo consumismo e pelo prazer, não faltam na mesma família humana indivíduos e grupos sociais que sofrem a fome. Não faltam crianças que morrem de fome sob o olhar de suas mães. Não faltam, em várias partes do mundo, em vários sistemas socioeconómicos, áreas inteiras de miséria, de carência e de subdesenvolvimento. Este facto é universalmente conhecido. O estado de desigualdade entre os homens e os povos não só perdura, mas até aumenta. Sucede ainda nos nossos dias que ao lado dos que são abastados e vivem na abundância, há outros que vivem na indigência, padecem a miséria e, muitas vezes até morrem de fome, cujo número atinge dezenas e centenas de milhões. É por isso que a inquietação moral está destinada a tornar-se cada vez mais profunda. Evidentemente na base da economia contemporânea e da civilização materialista há uma falha fundamental ou, melhor dito, um conjunto de falhas ou até um mecanismo defeituoso, que não permite à família humana sair de situações tão radicalmente injustas.

Eis a imagem do mundo de hoje, onde existe tanto mal físico e moral, a ponto de o tornar um mundo enredado em tensões e contradições e, ao mesmo tempo, cheio de ameaças contra a liberdade humana, a consciência e a religião. Tal imagem explica a inquietação a que está sujeito o homem contemporâneo inquietação sentida, não só pelos que se acham desfavorecidos ou oprimidos, mas também por aqueles que gozam dos privilégios da riqueza, do progresso e do poder. Embora não faltem aqueles que procuram descobrir as causas de tal inquietação, ou reagir com os meios à disposição que lhes oferecem a técnica, a riqueza ou o poder, todavia, no mais fundo da alma humana, tal inquietação supera todos os paliativos. Como justamente concluiu na sua análise o Concílio Vaticano II, ela diz respeito aos problemas fundamentais de toda a existência humana. Esta inquietação está ligada ao próprio sentido da existência do homem no mundo. É mesmo inquietação quanto ao futuro do homem e de toda a humanidade e exige resoluções decisivas que hoje parecem impor-se ao género humano.

Bastará a justiça?

12. Não é difícil verificar que no mundo actual despertou em grande escala o sentido da justiça, o que indubitavelmente põe mais em relevo tudo o que se opõe à justiça, tanto nas relações entre os homens, grupos sociais ou «classes», como nas relações entre os Povos ou os Estados e até mesmo nas relações entre inteiros sistemas políticos ou os assim chamados «mundos». Esta corrente profunda e multiforme, em cuja base a consciência humana contemporânea situou a justiça, atesta o carácter ético das tensões e das lutas que avassalam o mundo.

A Igreja compartilha com os homens do nosso tempo este profundo e ardente desejo de vida justa sob todos os aspectos. Não deixa de fazer objecto de reflexão os vários aspectos da justiça exigida pela vida dos homens e das sociedades. Bem o comprova o amplo desenvolvimento alcançado no último século pela doutrina social católica. Na linha deste ensino situam-se tanto a educação e a formação das consciências humanas no espírito da justiça, como as iniciativas que, animadas pelo mesmo espírito, se vão desenvolvendo, especialmente no campo do apostolado dos leigos.

Apesar disso, seria difícil não se dar conta que, muitas vezes, os programas que têm como ponto de partida a ideia da justiça e que devem servir para sua realização na convivência dos homens, dos grupos e das sociedades humanas, na prática sofrem deformações. Embora depois continuem a apelar para a mesma ideia de justiça, todavia a experiência mostra que sobre ela predominam certas forças negativas, como o rancor o ódio e até a crueldade. Então, a ânsia de aniquilar o inimigo de limitar a sua liberdade ou mesmo de lhe impor dependência total, torna-se o motivo fundamental da acção. Isto contrasta com a essência da justiça que, por sua natureza, tende a estabelecer a igualdade e o equilíbrio entre as partes em conflito. Esta espécie de abuso da ideia de justiça e a sua alteração prática demonstram quanto a acção humana pode afastar-se da própria justiça, muito embora seja empreendida em seu nome.

Não sem razão Cristo reprovava nos seus ouvintes, fiéis à doutrina do Antigo Testamento, a disposição manifestada nestas palavras: «Olho por olho, dente por dente» 111. Era esta a forma de alterar a justiça naquele tempo; e as formas de hoje continuam a pautar-se pelo mesmo modelo. É óbvio efectivamente, que, em nome de uma pretensa justiça (por exemplo histórica ou de classe), muitas vezes se aniquila o próximo se mata, se priva da liberdade e se despoja dos mais elementares direitos humanos. A experiência do passado e do nosso tempo demonstra que a justiça, por si só, não basta e que pode até levar à negação e ao aniquilamento de si própria, se não se permitir àquela força mais profunda, que é o amor plasmar a vida humana nas suas várias dimensões. Foi precisamente a experiência da realidade histórica que levou à formulação do axioma: summum ius, summa injuria. Tal afirmação não tira o valor à justiça, nem atenua o significado da ordem instaurada sobre ela, indica apenas, sob outro aspecto, a necessidade de recorrer às forças mais profundas do espírito, que condicionam a própria ordem da justiça.

Tendo diante dos olhos a imagem da geração de que fazemos parte, a Igreja compartilha a inquietação de não poucos homens contemporâneos. Além disso, devemos preocupar-nos também com o declínio de muitos valores fundamentais que constituem valor incontestável não só da moral cristã, mas até simplesmente da moral humana, da cultura moral, como sejam o respeito pela vida humana desde o momento da concepção o respeito pelo matrimónio com a sua unidade indissolúvel e o respeito pela estabilidade da família. O permissivismo moral atinge sobretudo este sector mais sensível da vida e da convivência humana. Paralelamente, andam também a crise da verdade nas relações dos homens entre si, a falta de sentido de responsabilidade pela palavra, o utilitarismo nas relações dos homens entre si, a diminuição do sentido do autêntico bem comum e a facilidade com que este é sacrificado. Enfim, é a dessacralização que se transforma muitas vezes em «desumanização»; o homem e a sociedade, para os quais nada é «sagrado», decaem moralmente, apesar de todas as aparências.

 Copyright © Libreria Editrice Vaticana

(Nota: Revisão da tradução para português por ama)

_______________________
Notas:
101 Lc 1,50.
102 Cf. 2 Cor 1,21 s.
103 Lc 1,50.
104 Cf. Sl 85(84),11
105 Lc 1,50.
106 Cf. Lc 4,18.
107 Cf. Lc 7,22.
108 Const. dogm. sobre a Igreja Lumen Gentium, 62: AAS 57 (1965), p. 63.
109 Const. past. sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, 10: AAS 58 (1966), p. 1032.
110 Ibid.
111 Mt 5,38


26/02/2015

Evangelho, coment. L espirit. (Santíssima Virgem)

Quaresma I Semana

Evangelho: Mt 7 7-12

7 «Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. 8 Porque todo aquele que pede, recebe, e quem busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-á. 9 Qual de vós dará uma pedra a seu filho, quando este lhe pede pão? 10 Ou se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? 11 Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celeste dará coisas boas aos que lhas pedirem. 12 «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a Lei e os Profetas.
Comentário:

Não nos cansemos de pedir tudo o que julguemos necessitar.
Afastemos essa falsa preocupação de não pedir-mos porque, talvez, não seja conveniente o que pedimos. O Senhor saberá, sempre, se o é ou não e, mais, se o for, quando será oportuno concede-lo.

De algo podemos estar certos: Nunca nos deixará sem resposta, mesmo quando parece que não nos atende, se nos detivermos com vagar e são critério, saberemos porque não O faz.

Sempre, absolutamente, porque não é conveniente e, nunca, por falta de merecimento nosso já que, este, nunca o teremos.

(ama, comentário sobre Mt 7, 7-12, 2013.02.21)


Leitura espiritual



Santíssima Virgem

Santo Rosário

Gozosos - Anunciação do Anjo a Nossa Senhora [i]

2
Também para vir a primeira vez à terra, Deus pediu consentimento a Maria, uma de nós.
Maria acreditou: deu a sua adesão total aos planos do Pai.
E que obra deu como fruto a sua fé? Pelo seu "sim" o Verbo fez-Se carne[ii] nela tornou-se possível a salvação da humanidade.[iii]
«Que terão a voz e as palavras de Maria que geram uma felicidade sempre nova? São como uma música divina que penetra até ao mais fundo da alma enchendo-a de paz e de amor. Quantas vezes rezamos o Santo Rosário a chamamos Causa da Nossa Alegria. E é-o porque é portadora de Deus. Filha de Deus Pai, é portadora da ternura infinita de Deus Pai. Mãe de Deus Filho, é portadora do Amor até à morte de Deus Filho. Esposa de Deus Espirito Santo, é portadora do fogo e do gozo do Espirito Santo.
À sua passagem o ambiente transforma-se: a tristeza dissipa-se; as trevas cedem lugar à luz; a esperança e o amor acendem-se...
Não é o mesmo estar com a Virgem que sem Ela!
Não é o mesmo, não, rezar o Rosário que não o rezar...»[iv]
«Promulgou-se um édito de César Augusto que manda recensear todos os habitantes de Israel. Maria e José caminham para Belém... - Nunca pensaste que o Senhor se serviu do acatamento pontual de uma lei para dar cumprimento à Sua profecia?
Ama e respeita as normas de uma convivência honesta, e não duvides que a tua submissão leal ao dever será também veículo para que os outros descubram a honradez cristã, fruto do amor divino, e encontrem a Deus.»[v]

«A purificação da alma pela mortificação interior, não é algo meramente negativo. Não se trata só de evitar o que está na fronteira do pecado; pelo contrário, consiste em saber privar-se, por amor de Deus, do que seria lícito não privar-se.
Esta mortificação, que tende a purificar a mente de tudo o que não é de Deus, dirige-se em primeiro lugar a livrar a memória das recordações que possam ir contra o caminho que nos leva ao Céu. Essas recordações podem assaltar-nos enquanto trabalhamos ou descansamos e, inclusive, enquanto rezamos.
Sem violência, mas prontamente, poremos os meios para afastá-los, sabendo fazer o esforço necessário para que a mente volte a encher-se do amor e desejo divinos que dirige o nosso dia de hoje.
Com a imaginação pode suceder algo parecido: que incomode inventando novelas de tipos muito diversos, urdindo histórias fantásticas que não servem para nada. Também então há que reagir com rapidez e voltar serenamente à nossa tarefa ordinária.
De qualquer modo, a purificação interior não se limita a esvaziar o entendimento de pensamentos inúteis. Vai muito mais além: a mortificação das potências abre-nos caminho á vida contemplativa, nas diversas circunstâncias nas quais Deus nos tenha querido situar.
Com esse silêncio interior para tudo o que é contrário ao querer de Deus, impróprio dos Seus filhos, a alma encontra-se disposta ao diálogo continuo e intimo com Jesus Cristo, no que a imaginação ajuda à contemplação - por exemplo, ao contemplar o Evangelho ou os mistérios do Santo Rosário - e a memória traz recordações das maravilhas que Deus fez connosco e as Suas bondades, que acenderão a gratidão no coração e tornarão mais ardente o amor.» [vi]

«Virgem Maria realiza, do modo mais perfeito, a «obediência da fé». Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazidos pelo anjo Gabriel, acreditando que «a Deus nada é impossível»[vii] - [viii] e dando o seu assentimento:
Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra [ix]
Em hebraico, Jesus quer dizer «Deus Salva». Na Anunciação, o anjo Gabriel dá-lhe o nome próprio de Jesus, o qual exprime, ao mesmo tempo, a sua identidade e a sua missão.[x] - [xi]
A Anunciação a Maria inaugura a «plenitude dos tempos»[xii], isto é, o cumprimento das promessas e dos preparativos. Maria é convidada a conceber Aquele em quem habitará «corporalmente toda a plenitude da Divindade»[xiii]
A resposta divina ao seu «como será isto, se eu não conheço homem?»[xiv] é dada pelo poder do espirito:
«O Espirito santo virá sobre ti».[xv] - [xvi]
Para vir a ser a Mãe do salvador, Maria «foi adornada com dons dignos de uma grande missão» [xvii].
O anjo Gabriel, no momento da Anunciação, saúda-a como «cheia de graça»[xviii].
Efectivamente para poder dar o assentimento livre da sua fé ao anúncio da sua vocação, era necessário que ela fosse totalmente movida pela graça de Deus.[xix]

Ao anúncio que dará à luz «o Filho do Altíssimo» sem conhecer homem, pela virtude do Espirito Santo, Maria respondeu pela «obediência da fé» [xx], certa de que «a Deus nada é impossível»:
«Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra»[xxi].
Assim, dando o seu consentimento à palavra de Deus, Maria tornou-se Mãe de Jesus. E, aceitando de todo o coração, sem que nenhum pecado a retivesse, a vontade divina da salvação, entregou-Se totalmente à pessoa e à obra de seu Filho para servir, na dependência d'Ele e com Ele, pela graça de Deus, o mistério da redenção.[xxii]

Como diz Santo Ireneu, «obedecendo, ela tornou-se causa da salvação, para si e para todo o género humano». Eis porque não poucos Padres afirmam com ele, nas suas pregações, que «o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e, aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, desatou-o a Virgem Maria com a sua fé»; e, por comparação com Eva, chamam Maria a «Mãe dos vivos» e afirmam muitas vezes: «a morte veio por Eva, a vida veio por Maria». [xxiii] - [xxiv]

A oração de Maria é-nos revelada na aurora da plenitude dos tempos. Antes a Encarnação do Filho de Deus e da efusão do Espirito Santo, a sua oração coopera de modo único, no desígnio benevolente do Pai, quando da Anunciação para a concepção de Cristo (...)
Na fé da sua humilde serva, o dom de Deus encontra o acolhimento que Ele esperava desde o princípio dos tempos.
Aquela que o Todo-Poderoso fez «cheia de graça» responde pelo oferecimento de todo o seu ser:
«Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra».[xxv]
A virgindade de Maria manifesta a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação.
Jesus só tem Deus por Pai. «A natureza humana, que Ele tomou, nunca O afastou do Pai (...).
Naturalmente Filho de Seu Pai por Sua divindade, naturalmente Filho de Sua Mãe por Sua humanidade, mas propriamente Filho de Deus nas Suas duas naturezas»[xxvi]. [xxvii]
A Sagrada Escritura do Antigo e Novo Testamento e a venerável Tradição mostram de modo progressivamente mais claro e como que nos põem diante dos olhos o papel da Mãe do salvador na economia da salvação.
Os livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação na qual se vai preparando lentamente a vinda de Cristo ao mundo. Esses antigos documentos, tais como são lidos na Igreja e interpretados à luz da pela revelação ulterior, vão pondo cada vez mais em evidência a figura duma mulher, a Mãe do Redentor.
A esta luz, Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente[xxviii], feita aos primeiros pais caídos no pecado.
Ela é, igualmente, a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emmanuel[xxix]
É a primeira entre os humildes e pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus.
Com ela, enfim, excelsa Filha de Sião, passada a longa espera da promessa, se cumprem os tempos e se inaugura a nova economia da salvação, quando o Filho de Deus dela recebeu a natureza humana, para libertar o homem do pecado com os mistérios da sua vida terrena. [xxx]

O Pai das misericórdias quis que a aceitação da que Ele predestinara para mãe, precedesse a encarnação, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuísse para a vida. É o que se verifica de modo sublime na Mãe de Jesus, dando à luz do mundo a própria Vida, que tudo renova. Deus adornou-a com dons dignos de uma grande missão; e, por isso, não é de admirar que os santos padres chamem com frequência à Mãe de Deus «toda santa» e «imune de toda a mancha de pecado», visto que o próprio Espirito Santo a modelou e dela fez uma nova criatura.[xxxi]
Enriquecida desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores de uma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como «cheia de graça»[xxxii]; e responde ao mensageiro celeste: «eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra»[xxxiii]. Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra do seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção.
Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens. Como diz S. Ireneu, «obedecendo, ela tornou-se causa de salvação, para si e para todo o género humano» [xxxiv] [xxxv]

O Verbo fez-se carne[xxxvi]

Esta subli­me apresentação joanina do mistério de Cristo é confirmada por todo o Novo Testamento.
Assim, S. Paulo afirma que o Filho de Deus nasceu «a descendência de David segundo a carne»,[xxxvii].

Se hoje, com o racionalismo que gras­sa em muitos sectores da cultura contemporâ­nea, é a fé na divindade de Cristo a encontrar mais problemas, também já houve contextos his­tóricos e culturais em que predominou a tendên­cia a reduzir ou diluir o carácter histórico concreto da humanidade de Jesus. Mas, para a fé da Igre­ja, é essencial e irrenunciável afirmar que verda­deiramente o Verbo, se fez carne, e assumiu todas as dimensões do ser humano, excepto o pecado.[xxxviii]
Nesta perspectiva, a encarnação é verdadeira­mente um, despojar-se (kenosis), por parte do Filho de Deus, da glória que Ele possui desde toda a eternidade[xxxix].
Por outro lado, esta humilhação do Filho de Deus não é fim em si mesma, mas visa a plena glorificação de Cristo, inclusivamente na sua humanidade:[xl]

A Virgem Maria realiza, do modo mais perfeito, a «obediência da fé».
Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazidos pelo anjo Gabriel, acredi­tando que «a Deus nada é impossível»[xli] e dando o seu assentimento: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra».[xlii]
Isabel saudou-a: «Feliz aquela que acreditou no cumprimento de quanto lhe foi dito da parte do Senhor»[xliii]. É em virtude desta fé que todas as ger­ações a hão-de proclamar bem-aventurada. [xliv]
Doente, a nossa natureza precisava de ser curada; decaída, precisava de ser elevada; morta, precisava de ser ressuscitada.
Tínhamos perdido a posse do bem; era preciso que nos fosse restituído. 
Encerrados nas trevas, precisávamos de quem nos trouxesse a luz; cativos, esperávamos um sal­vador; prisioneiros, esperávamos um auxílio; escravos, precisávamos dum libertador. [Seriam razões sem importância?] Não seriam suficientes para comover a Deus, a ponto de O fazer descer até à nossa natureza humana para a visitar, pois a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz? [xlv]

O Verbo fez-Se carne, para que assim conhecêssemos o amor de Deus: «Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele»[xlvi]. «Porque Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16). [xlvii]
O Verbo fez-Se carne, para ser o nosso modelo de santidade: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim (...)»[xlviii].

«Eu sou o cami­nho, a verdade e a vida.  Ninguém vai ao Pai senão por Mim»[xlix]. E o Pai, na montanha da Transfiguração, ordena: «Escutai-O»[l]  
De facto, Ele é o modelo das bem-aventuranças e a norma da Lei nova: «Amai­-vos uns aos outros como Eu vos amei»[li]
Este amor implica a oferta efectiva de nós mesmos, no seu seguimento. [lii]
O Verbo fez-Se carne, para nos tornar «participantes da natureza divi­na»[liii]: (Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem, e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina, se tornasse filho de Deus»[liv]. «Porque o Filho de Deus Se fez homem, para nos fazer Deus»[lv]. «Unigenitus Dei Filius, suae divinitatis volens nos esse participes, naturam nostram assumpsit, ut homines deos faceret factus homo»[lvi] (0 Filho Unigénito de Deus, querendo que fôssemos participantes da sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses). [lvii]

Retomando a expressão de S. João («o Verbo fez-Se carne»: Jo 1, 14), a Igreja chama «Encarnação» ao facto de o Filho de Deus ter assumido uma natureza humana, para nela levar a efeito a nossa salvação.  Num hino que nos foi conservado por S. Paulo, a Igreja canta este mistério:
Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de Cruz.»[lviii]. [lix]

A Epístola aos Hebreus fala do mesmo mistério:
É por isso que, ao entrar neste mundo, Cristo diz: «Não quiseste sacri­fícios e oferendas, mas formaste-Me um corpo. Holocaustos e imolações pelo pecado não Te foram agradáveis. Então Eu disse: Eis-Me aqui (... ) para fazer a tua vontade»[lx] [lxi]
A fé na verdadeira Encarnação do Filho de Deus é o sinal distintivo da fé cristã: «Nisto haveis de reconhecer o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa a Jesus Cristo encarnado é de Deus»[lxii]. É esta a alegre con­vicção da Igreja desde o seu princípio, quando canta «o grande mistério da piedade»: «Ele manifestou-Se na carne[lxiii]. [lxiv]
 O acontecimento único e absolutamente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem, nem que seja o resultado da mistura confusa entre o divino e o humano. Ele fez-Se verdadeiro homem, permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Esta verdade da fé, teve a Igreja de a defender e clari­ficar no decurso dos primeiros séculos, perante heresias que a falsificavam. [lxv]
As primeiras heresias negaram menos a divindade de Cristo que a sua verdadeira humanidade (docetismo gnóstico).
Desde os tempos apostólicos que a fé cristã insistiu sobre a verdadeira encarnação do Filho de Deus «vindo na carne». Mas, a partir do século III, a Igreja teve de afirmar, contra Paulo de Samossata, num concílio reunido em Antioquia, que Jesus Cristo é Filho de Deus por natureza e não por adopção. O primeiro Concílio Ecuménico de Niceia, em 325, confessou no seu Credo que o Filho de Deus é «gerado, não criado, consubstancial ('homoúsios') ao Pai; e condenou Ario, o qual afirmava que «o Filho de Deus saiu do nada» (DS 130) e devia ser «duma substância diferente da do Pai» (DS 126). [lxvi]
A heresia nestoriana via em Cristo uma pessoa humana unida à pessoa di­vina do Filho de Deus. Perante esta heresia, S. Cirilo de Alexandria e o terceiro Concílio Ecuménico, reunido em Éfeso em 431, confessaram que «o Verbo, unindo na Sua pessoa uma carne animada por uma alma racional, Se fez homem»[lxvii].

A humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho de Deus, que a assumiu e a fez sua desde que foi concebida. Por isso, o Concílio de Éfeso proclamou, em 431, que Maria se tomou, com toda a verdade, Mãe de Deus, por ter concebido humanamente o Filho de Deus em seu seio:

«Mãe de Deus, não porque o Verbo de Deus dela tenha recebido a natureza divi­na, mas porque dela recebeu o corpo sagrado, dotado duma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne»[lxviii]. [lxix]

Os monofisistas afirmavam que a natureza humana tinha deixado de exis­tir, como tal, em Cristo, sendo assumida pela sua pessoa divina de Filho de Deus. Confrontando-se com esta heresia, o quarto Concílio Ecuménico, em Calcedónia, no ano de 451, confessou:
Na sequência dos santos Padres, ensinamos unanimemente que se confesse um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na humanidade, o mesmo que é verdadeiramente homem, composto duma alma racional e dum corpo, consubstancial ao Pai pela sua divindade, consubstancial a nós pela sua humanidade, «semelhante a nós em tudo, menos no pecado»[lxx]: gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nestes últimos dias, por nós e pela nossa salvação, nascido da Virgem Mãe de Deus segundo a humanidade.
Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho único, que devemos reco­nhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é abolida pela sua união; antes, as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas numa só pes­soa e numa só hipóstase (DS 301-302). [lxxi]

(ama, meditações sobre o Santo Rosário – 1999)




[i] Lc 1, 26-38
[ii] Jo 1, 14
[iii] Ch. Lubich, Palabra que se hace vida, pg 82-83
[iv] A. Orozco, Mirar a Maria, pg 239-240
[v] S. Josemaría Escrivá, Sulco, nr 322
[vi] Frederico Fernandez Carvajal, Hablar con Dios, Vol I, 3ª Sem, 5ª Fª.
[vii] Lc 1, 37
[viii] cfr.. Gn 18, 14
[ix] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nr 148
[x] Cfr. Lc 1, 31
[xi] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nr 430
[xii] Gál r, 4
[xiii] Col 2, 9.
[xiv] Lc 1, 34
[xv] Lc 1, 35
[xvi] Catecismo da Igreja Católica, nr 484
[xvii] LG 56
[xviii] Lc 1, 28
[xix] Catecismo da Igreja Católica, nr 490
[xx] Rm 1, 5
[xxi] Lc 1,37-38
[xxii] Cfr LG 56
[xxiii] LG 56
[xxiv] Catecismo da Igreja Católica, nr 494
[xxv] Cfr Catecismo da Igreja Católica, nr 2617
[xxvi] Con. de Friúl, em 796; DS 619
[xxvii] Catecismo da Igreja Católica, nr 503
[xxviii] Cfr Gen 3,15
[xxix] Cfr Is. 7,14; crf Miq. 5,3; Mt n1, 22-23
[xxx] Conc. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, VIII, Ir 55
[xxxi] Cfr S. Germanob Const. Hom in Annunt. Deiparae: PG 98, 238 A; In Dorm. 2: col. 357 - Anastácio Antioquia, Serm. 2 de Annunt., 2: PG 89, 1377 AB; Serm. 3, 2: cvoil. 1388: C. - S. André Cret., Can. In B. V. Nat. 4:PG 97, 1321 B. In B. V. Nat., 1: col. 812 A Hom. In Dorm. 1: col 1086 C - S. Sofrónio, Or. 2 in Annunt., 18: PG 87 3, 3237 BD.
[xxxii] CfrLc. 1, 28
[xxxiii] Lc , 1 38
[xxxiv] S. Ireneu, Adv.Haer. II, 22, 4: PG 7, 959 A; Harvey, 2 123
[xxxv] Conc. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, VIII, Ir 56
[xxxvi] Jo 1, 14
[xxxvii] Rm 1, 3; cf. 9, 5
[xxxviii] cf.  Hb 4, 15
[xxxix] cf.  Fl 2, 6-8; lPd 3, 18
[xl] Cfr João Paulo II, Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte, 22
[xli] Lc 1, 37
[xlii] U 1, 38
[xliii] Lc 1, 45
[xliv] Catecismo da Igreja Católica, 148
[xlv] S. Gregório de Nissa, Grande Catequese, IS: PG 45, 483
[xlvi] 1 Jo 4, 9
[xlvii] Catecismo da Igreja Católica, 458
[xlviii] Mt 11, 29
[xlix] Jo 14, 6
[l] Mc 9, 7
[li] Jo 15, 12
[lii] Catecismo da Igreja Católica, 459
[liii] 2 Pe 1, 4
[liv] Santo Ireneu, Contra as Heresias 111, 19, 1
[lv] Santo Atanásio, Inc., 54, 3: PG 25, 192B
[lvi] São Tomás de Aquino, opúsculo 57, na festa do Corpo de Deus, 1
[lvii] Catecismo da Igreja Católica, 460
[lviii] Filip 2, 5-8
[lix] Catecismo da Igreja Católica, 461
[lx] He 10, 5-7, citando o SI 40, 7-9, segundo os LXX.
[lxi] Catecismo da Igreja Católica, 462
[lxii] 1 Jo 4, 2
[lxiii] 1 Tm 3, 16
[lxiv] Catecismo da Igreja Católica, 463
[lxv] Catecismo da Igreja Católica, 464
[lxvi] Catecismo da Igreja Católica, 465
[lxvii] DS 250
[lxviii] DS 251
[lxix] Catecismo da Igreja Católica, 466
[lxx] He 4, 15
[lxxi] Catecismo da Igreja Católica, 467