Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
02/10/2014
Jesus Cristo e a Igreja - 36
A
figura Jesus de Nazaré foi-se tornando muito controversa com o tempo, conforme
ia sendo conhecida a sua pregação. As autoridades religiosas de Jerusalém
mostravam-se inquietas devido à agitação que o mestre, chegado da Galileia para
a Páscoa, tinha suscitado entre o povo. As elites imperiais também, uma vez que
– numa altura em que periodicamente se renovavam os levantamentos contra a ocupação
romana, encabeçados por líderes locais que apelavam ao carácter próprio dos
judeus – as notícias que lhes chegavam, acerca deste mestre que falava em
preparar-se para a chegada de um «reino de Deus», não eram nada
tranquilizadoras. Uns e outros estavam, pois, prevenidos contra ele, ainda que
por diversos motivos.
Jesus
foi detido e o seu caso foi examinado perante o Sinédrio. Não se tratou de um
processo formal, com os requerimentos que mais tarde se recolheram na Misná (Sanhedrin IV, 1) – e que exigem entre outras coisas que tenha lugar
durante o dia – mas de um interrogatório em domicílios particulares para
verificar as acusações recebidas ou as suspeitas que se tinham acerca dos seus
ensinamentos. Concretamente sobre a sua atitude crítica dirigida ao templo; a auréola
messiânica que rodeava a sua pessoa e que era provocada pelas suas palavras e
atitudes e, sobretudo, acerca da pretensão que lhe era atribuída de possuir uma
dignidade divina. Mais do que as questões doutrinais em si mesmas, talvez o que
realmente preocupasse as autoridades religiosas fosse a perturbação que
poderiam provocar relativamente à situação presente. Poderia dar lugar a uma
agitação popular que os romanos não tolerariam, e da qual poderia derivar uma
situação política pior da que existia nesse momento.
Decidiram
então levar essa causa a Pilatos, e o contencioso legal contra Jesus foi
apresentado perante a autoridade romana. Diante de Pilatos manifestaram os
temores de como aquele que falava de um «reino» poderia ser um perigo para
Roma. O procurador tinha diante de si duas formas possíveis de enfrentar a
situação. Uma delas, a chamada cognitio
extra ordinem («castigo, medida forçosa») que lhe outorgava a capacidade de
aplicar as medidas oportunas para manter a ordem pública. Recorrendo a esta poderia
infligir um castigo exemplar ou inclusivamente condená-lo à morte para que
servisse de exemplo. Ou por outro lado, podia estabelecer uma cognitio («conhecimento»), um processo
formal no qual se formulava uma acusação, havia um interrogatório e se ditava
uma sentença de acordo com a lei.
Pilatos
parece ter sentido momentos de dúvida acerca do procedimento a seguir, embora
tenha acabado por optar por um processo que seguia a fórmula mais habitual nas
províncias romanas, a chamada cognitio
extra ordinem, isto é, um processo em que o próprio pretor determinava o procedimento
e ele mesmo ditava sentença. Assim se deduz de alguns detalhes aparentemente
acidentais que ficaram reflectidos nos relatos: Pilatos recebe as acusações, interroga,
senta-se no tribunal para ditar a sentença (Jo 19, 13; Mt 27, 19), e condena à
morte na cruz por um delito formal. Foi justiçado como «rei dos judeus» segundo
se fez constar no titulus crucis.
A
avaliação histórica relativa à condenação de Jesus à morte deve de ser muito
prudente, para não conduzir a generalizações precipitadas que levem a uma
avaliação injusta. Concretamente, é importante fazer notar – ainda que seja
óbvio – que os judeus não são responsáveis colectivamente pela morte de Jesus.
“Partindo do princípio de que os nossos pecados atingem Cristo em pessoa (cf. Mt
25, 45; Act 9, 4-5), a Igreja não duvida em imputar aos cristãos a mais grave
responsabilidade no suplício de Jesus, responsabilidade que eles muitas vezes
imputaram unicamente aos judeus”
(Catecismo da Igreja Católica n. 598).
(Catecismo da Igreja Católica n. 598).
© www.opusdei.org
- Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade
de Navarra, dirigida por Francisco Varo.
Reflectindo - 40
Não haverá pior defeito.
Na verdade, o indiferente, carece de
virtudes fundamentais num ser humano tais como, entre outras: solidariedade,
preocupação pelos outros, carinho, compaixão, ternura, afectividade,
companheirismo, amizade, dedicação, caridade, espírito de serviço, amor.
O indiferente vai pela vida sozinho,
debruçado sobre si próprio, sem emoções, sem causas a defender nem princípios a
observar.
Não tem interesse especial por nada
nem ninguém. A sua vida é monótona, o percurso errático, o comportamento
abúlico.
O principal efeito da indiferença é a
aridez que gera à sua volta, o isolamento e solidão.
O indiferente é um morto vivo. Não
interessa aos outros homens. Deus não pode comunicar com ele.
E, sem comunicação com Deus não há
vida.
(AMA, reflexão, 2010)
Tratado da Graça 14
Art.
4 — Se a graça está na essência da alma como no sujeito, ou em alguma das duas
potências.
[Sent., dist. XXVI, a. 3, IV, dist,
IV, q. 1, a. 3, qª 3, ad 1, De Verit., q. 27, a. 6].
O quarto discute-se assim. — Parece
que a graça não está na essência da alma, como no sujeito, mas numa das suas
potências.
1. — Pois, diz Agostinho, a graça está
para a vontade, ou para o livre arbítrio, como o cavaleiro para o cavalo. Ora,
à vontade ou livre arbítrio é uma potência, como já dissemos na Primeira Parte
(q. 83, a. 2). Logo, a graça está na potência da alma como no seu sujeito.
2. Demais. — Da graça derivam os
méritos do homem, como diz Agostinho. Ora, o mérito depende do acto procedente
de alguma potência. Logo, a graça é a perfeição de alguma das potências da
alma.
3. Demais. — Se a essência da alma
fosse o sujeito próprio da graça, a alma haveria necessariamente de, na sua
essência, ser capaz da graça. Ora, isto é falso, porque daí resultaria que toda
alma é capaz da graça. Logo, a essência da alma não é o sujeito próprio da
graça.
4. Demais. — A essência da alma é-lhe
anterior às potências. Ora, o anterior é concebível independentemente do
posterior. Donde resulta que podemos conceber a graça, na alma, sem recebermos
nenhuma parte ou potência da alma, e nem à vontade, nem o intelecto, nem
qualquer faculdade. Ora, isto é inadmissível.
Mas, em contrário, regenerados pela
graça, tornamo-nos filhos de Deus. Ora, a geração termina, antes na essência,
que nas potências. Logo, a graça está na essência da alma, antes de lhe estar
nas potências.
Esta questão depende da
precedente. Pois, se a graça é o mesmo que a virtude, há-de necessariamente
estar nas potências da alma como no sujeito, porque elas são o sujeito próprio
da virtude, como já dissemos (q. 56, a. 1). Se, ao contrário, difere da virtude,
não se pode dizer que as potências da alma sejam o sujeito dela, porque toda
perfeição das potências da alma tem natureza de virtude, como já dissemos (q.
55, a. 1, q. 56, a. 1). Donde se conclui, que a graça, assim como tem
prioridade sobre a virtude, tem também um sujeito às potências da alma, a
saber, a essência desta. Ora, pela potência intelectiva e pela virtude da fé, o
homem participa do conhecimento divino, e, pela potência da vontade e pela
virtude da caridade, participa do amor divino. Assim também, pela natureza da
alma participa, por uma certa semelhança, da natureza divina, regenerando-se,
de algum modo, e como criada de novo.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— Assim como da essência da alma decorrem as suas potências, que são os
princípios das obras, assim também, da graça decorrem virtudes para as potências
da alma, que a movem aos seus actos. E sendo assim, a graça está para a vontade
como o motor, para o móvel, ou, o que é o mesmo, como o cavaleiro, para o
cavalo, não, porém, como o acidente, para a substância.
E daqui se deduz também clara a
RESPOSTA À SEGUNDA OBJECÇÃO. — Pois, a graça é, mediante as virtudes, o
princípio das obras meritórias, assim como a essência da alma é, mediante as
potências, o princípio das operações vitais.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Alma é o
sujeito da graça, enquanto pertencente à espécie da natureza intelectual ou
nacional. Ora, a alma não se especifica por meio de alguma potência, pois as
potências são propriedades naturais da alma, resultantes da espécie. E
portanto, a alma, por essência, difere especificamente das almas dos brutos e
das plantas. E por isso, de ser a essência da alma humana sujeito da graça não
se segue possa qualquer alma ser tal sujeito, pois, isso convém à essência da
alma, enquanto pertencente a uma determinada espécie.
RESPOSTA À QUARTA. — Sendo as
potências da alma propriedades naturais, resultantes da espécie, a alma não
pode existir sem elas. Mas, dado que o pudesse, ainda a alma seria chamada,
conforme a sua espécie, intelectual ou racional. Não por ter essas potências, actualmente,
mas por causa da sua essência específica, de que naturalmente decorrem tais
potências.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Evangelho do dia, coment e Leit. esp. (Enc.In multiplicibus curis)
Tempo comum XXVI Semana
Evangelho:
Mt 18, 1-5
1 Naquela mesma ocasião aproximaram-se de Jesus os
discípulos, dizendo: «Quem é o maior no Reino dos Céus?». 2 Jesus,
chamando uma criança, pô-la no meio deles 3 e disse: «Na verdade vos
digo que, se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, não entrareis
no Reino dos Céus. 4 Aquele, pois, que se fizer pequeno como esta
criança, esse será o maior no Reino dos Céus. 5 E quem receber em
Meu nome uma criança como esta, é a Mim que recebe.10 Vede, não desprezeis um só destes pequeninos,
pois vos declaro que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de Meu
Pai que está nos céus. 12 «Que vos parece? Se alguém tiver cem
ovelhas, e uma delas se extraviar, porventura não deixa as outras noventa e
nove no monte, e vai em busca daquela que se extraviou? 13 E, se
acontecer encontrá-la, digo-vos em verdade que se alegra mais por esta, do que
pelas noventa e nove que não se extraviaram. 14 Assim, não é a
vontade de vosso Pai que está nos céus que pereça um só destes pequeninos.
Comentário:
A
realidade da existência dos Anjos da Guarda é para o cristão motivo de enorme
alegria e agradecimento.
Alegria
porque tem a seu lado um interlocutor atento e sempre disponível para
estabelecer as “pontes” que necessita para chegar ao Criador;
Agradecimento
pelo bem inestimável que constitui para nós e que só conheceremos completamente
quando, ao nosso lado, assistir ao nosso derradeiro encontro com Deus.
(ama,
comentário sobre Mt
18, 1-5; 10. 11-14, 2014.05.26)
Leitura espiritual
Documentos do Magistério
CARTA ENCÍCLICA
IN MULTIPLICIBUS CURIS
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
PEDEM-SE NOVAMENTE ORAÇÕES PÚBLICAS PARA A
PACIFICAÇÃO DA PALESTINA
1.
Entre as muitas preocupações que nos afligem neste tempo tão cheio de
consequências decisivas para a vida da grande família humana, e nos fazem
sentir tão pesado o cargo do pontificado supremo, tem lugar destacado aquela
que nos é causada pela guerra na Palestina. Na verdade, veneráveis irmãos,
podemos vos dizer que nenhum acontecimento, nem alegre nem triste, consegue
atenuar a dor que permanece viva em nosso ânimo, ao pensar que na terra onde o
Senhor nosso Jesus Cristo derramou seu sangue para trazer a redenção e a
salvação a toda a humanidade continua a ser derramado o sangue dos homens; que
debaixo daquele céu no qual ecoou, naquela fatídica noite, o anúncio evangélico
de paz, continuam os combates, acresce-se a miséria dos míseros e o terror dos
aterrorizados, e milhares de prófugos, acossados e perdidos, vagueiam longe da
pátria à procura de abrigo e de pão.
2.
Contribuem para nos tornar mais viva essa dor não só as notícias que
continuamente nos chegam de destruição e de danos causados aos edifícios
sagrados e de beneficência que surgiram ao seu redor, mas também o medo que nos
inspiram quanto à sorte destes mesmos lugares, espalhados por toda a Palestina
e, em número maior, em Jerusalém, que foram santificados pelo nascimento, vida
e morte do Salvador. Nem é preciso vos assegurar, veneráveis irmãos, que, no
meio deste espetáculo de tantos males e na previsão de maiores ainda, não nos
fechamos na nossa dor, mas fizemos tudo o que estava em nosso poder para
aliviá-los.
3.
Antes ainda que iniciasse o conflito armado, ao falar a uma delegação de
notáveis árabes que nos veio homenagear, manifestamos a nossa mais viva
solicitude pela paz na Palestina e, condenando todo recurso à violência,
declaramos que ela não podia ser realizada a não ser na verdade e na justiça,
isto é no respeito aos direitos de todos, às tradições, especialmente no campo
religioso, assim como no fiel cumprimento de deveres e obrigações de cada grupo
de moradores. Iniciada a guerra, sem nos afastar da atitude de imparcialidade a
que somos obrigados pelo nosso ministério apostólico que nos põe acima dos
conflitos que agitam a sociedade humana, não deixamos de agir, no que nos era
possível, para o triunfo da justiça e da paz na Palestina e o respeito e a
proteção dos lugares sagrados.
4.
Ao mesmo tempo, solicitados por apelos numerosos e urgentes, que todos os dias
são dirigidos a esta sé apostólica, procuramos, no limite das nossas
possibilidades, socorrer as vítimas infelizes da guerra, enviando para este fim
aos nossos representantes na Palestina, no Líbano e no Egito os meios ao nosso
dispor e estimulando o surgimento e o firmar-se, entre os católicos nos vários
países de iniciativas que tenham a mesma finalidade. Convencidos, porém, da
insuficiência dos meios humanos para uma solução adequada desta questão de que todos
podem ver a complexidade excepcional, recorremos antes de mais nada e
constantemente ao grande meio da oração, e na nossa recente encíclica Auspicia
quaedam vos convidávamos a rezar e a fazer rezar os fiéis confiados aos vossos
cuidados pastorais, para que, sob a proteção da Virgem santíssima,
"conciliadas as coisas na justiça, a concórdia e a paz voltassem
felizmente na Palestina". (1)
5.
Sabemos que o nosso convite não vos foi dirigido em vão. Nem esquecemos que, ao
mesmo tempo que com as nossa súplicas e nossa obra nos esforçávamos juntamente
com o mundo católico para a paz na Palestina, homens de boa vontade
multiplicaram, com a mesma finalidade sem olhar para sacrifícios e perigos,
seus nobres esforços para os quais nos é grato prestar homenagem. Contudo, a
continuação do conflito e o aumento ininterrupto de ruínas materiais e morais
que inexoravelmente os acompanham, nos levam, veneráveis irmãos a renovar com
redobrada insistência o nosso convite, na esperança que seja acolhido não
somente por vós mas também por todo o mundo católico.
6.
Como declaramos no dia 2 de Junho passado aos membros do sagrado colégio dos
cardeais, ao comunicar-lhes a nossa ansiedade quanto à Palestina, julgamos que
o mundo cristão não poderia contemplar indiferente ou com indignação estéril
aquela terra sagrada, à qual todos iam com todo respeito para beijá-la com o
amor mais ardente, pisada por soldados em guerra e atingida por bombardeios
aéreos. Julgamos que não poderia deixar consumar a devastação dos lugares
santos e revolver o sepulcro de Jesus Cristo. Temos a maior confiança de que as
súplicas fervorosas que se levantam ao Deus onipotente e misericordioso por
parte dos cristãos espalhados por todo o mundo, junto com as aspirações de
tantos corações nobres e ardentemente solícitos do bem e da verdade, possam
tornar menos difícil aos que dirigem o destino dos homens a tarefa de fazer com
que a justiça e a paz na Palestina se tornem uma realidade benéfica, e com a
cooperação eficaz de todos os interessados, se crie uma ordem que garanta a
cada parte, agora em conflito, a segurança da existência e, ao mesmo tempo,
condições de vida, físicas e morais, capazes de alicerçar normalmente um estado
de bem-estar espiritual e material.
7.
Temos plena confiança que essas súplicas e essas aspirações, índice do valor
que tão grande parte da família humana atribui a esses lugares sagrados,
fortaleçam nas reuniões dos poderosos nas quais se discutem os problemas da
paz, a convicção de dar a Jerusalém e cercanias, onde se conservam tantas e tão
preciosas lembranças da vida e da morte do Salvador, um caráter internacional
que, nas presentes circunstâncias, parece garantir melhor a tutela dos
santuários. E também será preciso assegurar com garantias internacionais livre
acesso aos lugares santos espalhados na Palestina, assim como a liberdade de
culto e o respeito a usos e tradições religiosos.
8.
E que cedo possa nascer o dia em que os homens tenham de novo a possibilidade
de se dirigir em piedosas peregrinações aos lugares sagrados para encontrar,
finalmente manifesto, naqueles monumentos vivos do Amor que se sublima no
sacrifício da vida pelos irmãos, o grande segredo de pacífica convivência
humana. Com essa confiança, de coração, concedemos a vós, veneráveis irmãos,
aos vossos fiéis e a todos que acolherem com ânimo solícito este nosso apelo,
com os votos dos favores divinos e como penhor de nossa benevolência, a bênção
apostólica.
Dado
em Castel Gandolfo, junto de Roma, no dia 24 de Outubro de 1948, ano X do nosso
pontificado.
PIO
PP. XII
(Revisão da versão portuguesa por ama)
__________________________
Nota:
(1)
AAS 40 (1948), p.171.
01/10/2014
Desculpar a todos
Só
serás bom, se souberes ver as coisas boas e as virtudes dos outros. Por isso,
quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade, no momento oportuno, sem
humilhar... e com intenção de aprender e de melhorar tu próprio, naquilo que
corriges. (Forja, 455)
Uma
das suas primeiras manifestações concretiza-se em iniciar a alma nos caminhos
da humildade. Quando sinceramente nos consideramos nada; quando compreendemos
que, se não tivéssemos o auxílio divino, a mais débil e fraca das criaturas
seria melhor do que nós; quando nos vemos capazes de todos os erros e de todos
os horrores; quando nos reconhecemos pecadores, embora lutemos com empenho por
nos afastarmos de tantas infidelidades, como havemos de pensar mal dos outros?
Como se poderá alimentar no coração o fanatismo, a intolerância, o orgulho?
A
humildade leva-nos pela mão a tratar o próximo da melhor forma: compreender a
todos, conviver com todos, desculpar a todos; não criar divisões nem barreiras;
comportarmo-nos – sempre! – como instrumentos de unidade. Não é em vão que
existe no fundo do homem uma forte aspiração à paz, à união com os seus
semelhantes e ao respeito mútuo pelos direitos da pessoa, de modo que tal aspiração
se transforme em fraternidade. Isto reflecte uma nota característica do que há
de mais valioso na condição humana: se todos somos filhos de Deus, a
fraternidade nem se reduz a uma figura de retórica, nem consiste num ideal
ilusório, pois surge como meta difícil, mas real.
(…)
Na oração, com a ajuda da graça, a soberba pode transformar-se em humildade. E
brota da alma a verdadeira alegria, mesmo quando ainda notamos o barro nas
asas, o lodo da pobre miséria, que vai secando. Depois, com a mortificação, cairá
esse barro e poderemos voar muito alto, porque nos será favorável o vento da
misericórdia de Deus. (Amigos de Deus, nn. 233. 249)
Tratado do verbo encarnado 16
Art.
10 — Se a união da Encarnação se fez pela graça.
O décimo discute se assim. — Parece
que a união da Encarnação não se fez pela graça.
1. — Pois, a graça é um acidente, como
se demonstrou na Segunda Parte. Ora, a união da natureza humana com a divina
não é uma união acidental, como se demonstrou. Logo, parece que a união da
Encarnação não se fez pela graça.
2. Demais. — O sujeito da graça é a
alma. Ora, como diz o Apóstolo, em Cristo habita toda a plenitude da divindade
corporalmente. Logo, parece que essa união não se fez pela graça.
3. Demais. — Todo o santo está unido a
Deus pela graça. Se, pois, a união da Encarnação se fez pela graça, parece que
Cristo não é chamado Deus, diferentemente dos outros varões santos.
Mas, em contrário, diz Agostinho: Todo
o homem se torna Cristão desde o início da sua fé, por aquela graça pela qual
esse homem desde o princípio fez-se Cristo. Ora, este homem se fez Cristo pela
união com a natureza divina. Logo, tal união realizou-se pela graça.
Como dissemos na Segunda
Parte, a graça pode ser considerada a dupla luz: A uma, é a própria vontade de
Deus, que faz um dom gratuito, a outra, é esse dom gratuito próprio de Deus.
Ora, a natureza humana precisa da gratuita vontade de Deus para elevar-se até
ele, pois, tal lhe sobrepuja a faculdade da natureza. Ora, a natureza humana se
eleva a Deus de dois modos: pela operação, pela qual os santos conhecem e amam
a Deus, e pelo ser pessoal, modo que é o singular, de Cristo, em quem a
natureza humana foi assumida para que fosse da pessoa do Filho de Deus. Ora, é
manifesto que para a perfeição de uma operação, é necessário que a potência seja
aperfeiçoada pelo hábito, mas, que a natureza tenha o ser no seu suposto, isso
não se realiza mediante nenhum hábito.
Donde devemos concluir, que se
consideramos como graça a vontade mesma de Deus, que faz um dom gratuito, ou
que tem alguém como grato ou aceite, nesse caso a união da Encarnação se fez
pela graça, assim como a união dos santos com Deus, pelo conhecimento e pelo
amor. Mas, se considerarmos como graça o próprio dom gratuito de Deus, assim, o
mesmo ser a natureza humana unida à pessoa divina pode-se considerar uma determinada
graça, por tal não se ter dado em virtude de nenhuns méritos precedentes, mas
não como existindo alguma graça habitual, mediante a qual tal união se tenha
feito.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— A graça acidental é uma certa semelhança da divindade participada no homem.
Ora, pela Encarnação não se diz que a natureza humana participa de qualquer
semelhança da natureza divina, mas que está unida à própria natureza divina, na
pessoa do Filho. Ora, uma realidade em si mesma é superior à sua semelhança
participada.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A graça habitual
só existe na alma, mas a graça, isto é, o dom gratuito de Deus, que produz a
união com a pessoa divina, pertence a toda a natureza humana, composta de alma
e corpo. E deste modo dizemos que a plenitude da divindade habitou
corporalmente em Cristo, porque a natureza divina se uniu não só à alma mas
também ao corpo. Embora também se possa dizer que quando se afirma que habitou
em Cristo corporalmente, isto é, não como sombra, como habitou nos sacramentos
da lei antiga, dos quais no mesmo lugar acrescenta o Apóstolo, que são como
sombra das coisas vindouras, mas o corpo é Cristo, enquanto o corpo se opõe à
sombra. E também alguns ensinam, que quando se diz ter habitado corporalmente a
divindade em Cristo, isso o foi de três modos, como o corpo tem três dimensões.
Primeiro, pela essência, pela presença e pelo poder, como nas outras criaturas,
segundo, pela graça santificante, como nos santos, terceiro, pela união
pessoal, que é a própria de Cristo.
Donde se deduz clara a RESPOSTA À
TERCEIRA OBJECÇÃO. — Isto é, porque a união da Encarnação não se fez pela só
graça habitual, como nos outros santos que estão unidos a Deus, mas, pela subsistência
ou pessoa.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Tratado da Graça 13
Art.
3 — Se a graça é o mesmo que a virtude.
[II Sent., dist. XXVI, a. 4, De
Verit., q. 27, a. 2].
O terceiro discute-se assim. — Parece
que a graça é o mesmo que a virtude.
1. — Pois, como diz Agostinho, a graça
operante é a fé, que obra por amor. Ora, a fé que obra pelo amor, é uma
virtude. Logo, a graça também o é.
2. Demais. — Ao que convém a definição
convém também o definido. Ora, as definições dadas, da virtude, pelos santos ou
pelos filósofos, convêm à graça, pois também ela torna bom o sujeito e a sua
obra, também ela é uma boa qualidade da mente, pela qual vivemos rectamente,
etc. Logo, a graça é uma virtude.
3. Demais. — A graça é uma qualidade.
Ora, é manifesto que não pertence à quarta espécie da qualidade, que é a forma
e a figura fixa de um objeto, pois, não pertence ao corpo. Nem à terceira,
porque não é paixão ou qualidade possível, que pertence à parte sensitiva da
alma, como prova Aristóteles, pois a graça principalmente está na alma. Nem,
por fim, à segunda espécie, que é a potência ou impotência da natureza, pois, é
superior à natureza e não pode buscar o bem e o mal, como a potência natural.
Logo, há-de pertencer à primeira espécie, que é o hábito ou disposição. Ora, os
hábitos da alma são as virtudes, pois, a própria ciência é, de certo modo, uma
virtude. Logo, a graça é o mesmo que a virtude.
Mas, em contrário. — Se a graça é uma
virtude, há-de ser, por excelência, uma das três virtudes teologais. Ora, não é
a fé, nem a esperança que podem existir sem a graça santificante. Nem a
caridade, porque a graça prepara a caridade, como diz Agostinho. Logo, a graça
não é uma virtude.
Alguns ensinaram que a
graça é a essência idêntica à virtude, diferindo desta apenas racionalmente.
Pois tira essa denominação de tornar o homem agradável a Deus, ou por ser dada
gratuitamente, ao passo que a virtude confere a perfeição para agir bem. E esta
parece ter sido a opinião do Mestre das Sentenças.
Mas, é inadmissível a quem reflectir
atentamente na essência da virtude. Pois, como diz o Filósofo, a virtude é uma
disposição do que é perfeito, chamo perfeito ao que é disposto segundo a
natureza. Donde se vê que a virtude de um ser é assim chamada em relação a
alguma natureza preexistente, isto é, quando está disposto do modo conveniente
à sua natureza. Ora, é manifesto que as virtudes adquiridas pelos actos
humanos, de que já tratamos (q. 55 ss), são disposições pelas quais o homem se
ordena convenientemente à natureza que o torna homem. Ao passo que as virtudes
infusas o dispõem de modo mais alto e para um fim mais elevado. Donde, hão-de
também dispô-lo em ordem a uma natureza mais alta, i. é, à natureza divina
participada, chamada lume da graça, conforme a escritura (2 Pd 1, 4):
Comunicou-nos as mui grandes e preciosas graças que tinha prometido, para que
por elas sejais feitos participantes da natureza divina. E por termos recebido
tal natureza é que nos consideramos regenerados, como filhos de Deus.
Assim, pois, como o lume natural da
razão é algo de superior às virtudes adquiridas, assim denominadas por se lhe
ordenarem para ele, assim, o lume da graça, que é uma participação da natureza
divina, é algo de superior às virtudes infusas, dele derivadas e ao qual se
ordenam. Por isso, o Apóstolo diz (Ef 5, 8): Noutro tempo eram trevas, mas
agora sois luz no Senhor: andai como filhos da luz. Donde, assim como as
virtudes adquiridas aperfeiçoam o homem para proceder segundo a luz natural da
razão, assim as virtudes infusas, para proceder de acordo com a luz da graça.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— A fé, que obra o amor, Agostinho denomina-a graça, porque o acto da fé, que
assim obra, é o primeiro acto pelo qual se manifesta a graça santificante.
RESPOSTA À SEGUNDA. — O bem, que entra
na definição da virtude, é assim chamado relativamente à conveniência com
alguma natureza preexistente, essencial ou participada. Ora, não assim o bem é
atribuído à graça, mas como à raiz da bondade do homem, segundo já se disse.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A graça reduz-se
à primeira espécie de qualidade. Nem é o mesmo que a virtude, mas é um certo
hábito, pressuposto às virtudes infusas, como princípio e raiz delas.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
"Gostos" e "Amens" em imagens e frases nas redes sociais
.
.
Surgem
bastantes vezes nas redes sociais, imagens e frases cristãs, pedindo a
colocação de um “gosto” ou de um “ámen”, àqueles que visitam essas páginas.
Obviamente
que, desde que colocadas com boa intenção, não fazem mal nenhum, nem a
colocação das ditas imagens/frases, nem os “gostos” ou “amens”, mas
verdadeiramente, quanto a mim, não servem para nada, a não ser, muitas vezes,
um desejo de ter muitos “gostos” e “amens”, como num qualquer concurso de uma
possível popularidade.
Reparemos
que não é por eu colocar um “gosto” ou um “amen”, numa essas imagens/frases,
que a minha fé aumenta, ou sequer, que assim eu testemunho a minha fé em Deus.
Podemos
até, com a maior simplicidade, servirmo-nos das palavras em causa para perceber
isso mesmo.
Com
efeito, gostar não é amar, e a Deus ama-se, adora-se, não se gosta, ou seja,
não se fica pelo gostar, porque é pouco, muito pouco, para tudo o que Deus é,
deve ser, para aqueles que n’Ele acreditam.
A
palavra ámen vai ainda mais longe, ou seja, é um “assim seja”, que implica uma
adesão, que implica o assentimento ao que foi dito, mostrado, que implica o
acreditar.
Ora
o acreditar em Deus e em tudo aquilo que O envolve, está “inscrito” no Dom da
Fé, (graça do próprio Deus), e vai para além da simples adesão ou assentimento,
porque se torna, ou deve tornar, vida, modo de vida, naquele que acredita,
naquele que vive a Fé.
Esta
vivência da fé não se “demonstra” com “gostos” ou “amens” colocados nas redes
sociais a propósito da publicação das tais imagens/frases, que podem ser
lindíssimas, cheias de significado, mas que não passam de algo estático, que
pode até roçar a superstição, a superstição do tipo, «se eu não puser lá nada
pode acontecer-me algo de mal!»
Sobretudo
quando essas imagens/frases vêm acompanhadas com “sentenças” do tipo, «se
acreditas coloca “gosto” ou “ámen”», quase como que a dizer que «se não colocas
nada é porque não acreditas.»
E
há ainda que ter o cuidado de perceber que muitas dessas imagens não são
verdadeiramente cristãs e sobretudo genuinamente católicas, porque mostram
conceitos que não são os da Doutrina da Igreja, como as “energias” e as
“luzes”, etc., etc., bem como algumas frases que subtilmente contêm erros de
sentido doutrinal, ou “endeusam” figuras que não devem ser “endeusadas”, até da
própria Virgem Maria, nossa querida Mãe do Céu.
Com
certeza que esmagadora maioria das pessoas que colocam estas imagens/frases o
fazem com a melhor das intenções e sem segundos sentidos, mas são muitas vezes
aqueles que as fazem e as lançam ao público, que se aproveitam da boa vontade
daqueles que as colocam.
Verdadeiramente,
e desculpem a “brutalidade” das palavras, este tipo de publicações leva a que
se viva uma fé “oca”, assente em coisas exteriores, assente nos nossos
interesses e desejos, nos nossos pedidos de ajuda, etc., e não numa verdadeira
entrega a Deus, procurando e vivendo a sua vontade, em oração diária e
comprometida.
Nunca
um “gosto” ou um “ámen” deste tipo pode substituir um Pai Nosso, uma Avé Maria,
um Glória, uma recitação do Rosário, para já não dizer, uma celebração
Eucarística.
E
o problema é que muitas vezes se fica apenas por esses “gostos”, esses “amens”,
julgando assim que se vive uma vida com Deus, para Deus e em Deus.
O
meu intuito não é magoar ninguém, nem criticar ninguém, mas chamar a atenção
para algumas práticas que, não sendo propriamente erros de vivência cristã
católica, também para nada servem, nem constroem as nossas vidas com e para
Deus.
Eu
próprio já coloquei “gostos” e “amens” em algumas coisas desse tipo, mas é
muito raro que não aproveite para reflectir, meditar sobre o que essas
imagens/frases dizem à minha vivência da fé, e dá-lo a conhecer aos outros,
partilhando assim, aquilo que, quero acreditar Deus me vai colocando no
coração.
Vivamos
verdadeiramente a Fé que nos foi dada em união de oração com toda a Igreja,
testemunhando não só com palavras, mas também com gestos e actos, o amor com
que Deus permanente e infinitamente nos ama.
Sempre,
sempre para a maior glória de Deus!
Marinha
Grande, 18 de Agosto de 2014
Joaquim
Mexia Alves
Nota:
E
tenhamos muito cuidado com algum tipo de imagens e frases que envolvem
“energias” e “luzes”, frases do Papa Francisco e de outros que afinal nunca as
disseram, bem como nomes de anjos, lembrando-nos que a Bíblia apenas nos refere
três nomes de anjos: Gabriel, Rafael e Miguel.
.
.
«Mãe, ensina-me a ser nada, para que Cristo seja tudo em mim».
Oração que um dia o Espírito Santo quis colocar no meu coração e me esforço para que seja verdade na minha vida.
Evangelho do dia, coment e Leit. esp. (Enc.Communium interpetres dolorum)
Tempo comum XXVI Semana
Evangelho:
Lc 9, 57-62
57 Indo eles pelo
caminho, veio um homem que Lhe disse: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». 58
Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus
ninhos, porém, o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça». 59
A um outro disse: «Segue-Me». Mas ele disse: «Senhor, permite-me que eu vá
primeiro sepultar meu pai». 60 Mas Jesus replicou: «Deixa que os
mortos sepultem os seus mortos; tu vai anunciar o reino de Deus». 61
Um outro disse-Lhe: «Senhor, seguir-Te-ei, mas permite que vá primeiro dizer
adeus aos de minha casa». 62 Jesus respondeu-lhe: «Ninguém que,
depois de ter metido a mão no arado olha para trás, é apto para o reino de
Deus».
Comentário:
Pode, à primeira vista, parecer um
pouco excessivo, talvez radical deixar para depois despedir-se dos progenitores
dando-lhes sepultura…
De facto, Jesus não diz que tal não se
deve descurar mas que, na vida presente, o homem, tem de ter prioridades em
relação à vida eterna.
Tudo cabe, tudo tem o seu lugar e o
seu tempo, mas, atenção, o minuto que passa não voltará jamais, nem a
oportunidade perdida é, confirmadamente, recuperável.
Convém, portanto, ter as coisas claras
e fazer o que se deve quando se proporciona sem demoras ou justificações por
mais justas ou admissíveis que possam apresentar-se porque, nada há mais importante
e inadiável que a própria salvação e, esta, passará sempre pelo seguimento
pronto e incondicional de Jesus Cristo Nosso Senhor e Salvador.
(ama, comentário sobre Lc 9,
57-62,Cascais, 2012.10.03)
Leitura espiritual
Documentos do Magistério
CARTA ENCÍCLICA
COMMUNIUM INTERPRETES DOLORUM
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
PARA PEDIR ORAÇÕES PÚBLICAS PARA
A PAZ ENTRE OS POVOS
1.
Intérpretes das dores comuns, das quais quase todos os povos há longo tempo
estão amargamente oprimidos, nada entendemos descuidar que objetive manter – ou
de algum modo abrandar –, a imensidão das misérias tendo em vista apressar o
fim do terrível conflito. Mas bem sabemos que as reservas humanas são
insuficientes para remediar essas desventuras; bem sabemos que a sagacidade humana,
especialmente quando cegada pelo ódio e pela revanche, dificilmente atinge a
uma justa e equitativa composição e a uma fraterna concórdia. É necessário,
portanto, elevar frequentes orações ao Pai das luzes e da misericórdia (cf. Tg
1, 17; 2 Cor 1,3). Somente ele pode, em tão grave perturbação e agitação de
espírito, tornar ciente a todos que já são muitas as ruínas e desmedido o
acúmulo de desgraças, excessivas as lágrimas, bem como o sangue derramado. De
modo que as exigências divinas e humanas impõem que cesse o mais rápido
possível esse espantoso flagelo.
2.
Por isso, o avizinhar-se do mês de maio, consagrado de modo particular à virgem
Mãe de Deus, como já ocorreu nos anos passados, assim agora desejamos exortar
todos novamente – especialmente as crianças e os inocentes adolescentes – para
que implorem ao divino Redentor, por intercessão de sua Mãe santíssima, que os
povos que se encontram em discórdia, lutas e toda espécie de desgraça possam
libertar-se do luto e de todas as longas angústias. Por serem os pecados por
nós cometidos diante de Deus (cf. Br 6,1) que nos mantêm distantes dele e nos
jogam miseravelmente na ruína, não basta, como de resto é notório a todos vós,
veneráveis irmãos, elevar ao céu assíduas orações; não basta acorrer em grande
número aos altares da Virgem santíssima para depor ofertas, flores e súplicas;
mas é necessário também renovar os costumes em público e privadamente, de modo
a pôr aquelas sólidas bases sobre as quais se apóia o edifício da vida
doméstica e civil, edifício não em desarmonia e ultrapassado, mas homogêneo e
duradouro. Recordem, portanto, todos e traduzam na vida prática as admoestações
dos profetas: "Retornai a mim, diz o Senhor dos exércitos, e eu retornarei
a vós..." (Zc 1,3); e, ao mesmo tempo, reflitam sobre aquelas palavras do
grande bispo de Hipona: "Mude o coração e será mudada também a ação.
Arranque a cobiça e semeie a caridade". (1)"Desejas a paz? Seja justo
e terás a paz, pois a justiça e a paz se abraçam (Sl 84, 11). Se não amas a
justiça, não terás a paz. Afinal, a justiça e a paz se amam e estão entre elas
de tal modo unidas, que se atuas com justiça, encontrarás a paz que abraça a
justiça... Se, portanto, queres chegar à paz, opera de modo justo; foge do mal
e segue o bem. Isso quer dizer amar a justiça, e quando tiveres deixado o mal e
feito o bem, procura a paz e segue-a". (2)
3.
Se todos os fiéis estiverem animados e dispostos, não há dúvida que suas
orações chegarão ao trono do altíssimo e obterão do Senhor aplacado o conforto
e os dons de que tanto, no presente, temos necessidade.
4.
Bem sabeis de quais dons, ajuda e conforto temos necessidade neste angustioso
momento. Em primeiro lugar, porém, há necessidade de pedir a Deus que as mentes
e os corações dos homens sejam iluminados e renovados pelos ensinamentos da
doutrina cristã, dos quais pode vir a salvação privada e pública, para que essa
devastadora luta de povos e de continentes cesse de encrudelecer-se, e os
cidadãos de todas as classes, re-conjugados pelo vínculo da amizade, saindo do
enorme acúmulo de ruínas se unam para reconstruir, sob a insígnia da justiça e
da caridade, o edifício humano. Deve-se, por outro lado, pedir ao Redentor
divino e a sua santíssima Mãe, em espírito de oração e penitência, que seja
verdadeira e sincera a paz que dará um fim a essa guerra funesta e sangrenta.
5.
Não é, no entanto, fácil, em meio a tanto desarranjo de coisas, enquanto a
disposição de muitos ainda permanece agitada de sentimentos de vingança,
alcançar uma paz que seja igualmente moderada pela equidade e pela justiça, que
satisfaça com fraterna caridade as aspirações de todos os povos e elimine os
germes latentes das discórdias e das rivalidades. Consequentemente de modo
especial são esses que têm necessidade das luzes celestes, cabendo-lhes o gravíssimo
encargo de resolver tal problema, de cujo juízo depende a sorte não apenas de
sua nação, mas também de toda a humanidade e das futuras gerações. Por esse
motivo pedimos que todos dirijam a Deus fervorosas e intensas orações e,
particularmente, as crianças durante o mês de maio implorem da Mãe da divina
Sabedoria a assistência sobrenatural àqueles cuja sentença deverá decidir a
causa de todos os povos. Considerem estes, refletindo atentamente diante de
Deus, que tudo o que ultrapassasse os limites da justiça e da eqüidade, certamente,
cedo ou tarde, voltaria com enorme dano para os vencidos e vencedores, pois aí
estaria escondida a semente de novas guerras.
6.
Desejamos também que todos os que responderem de boa vontade a esta nossa
exortação não esqueçam a triste condição daqueles que, ou fugitivos ou exilados
há muito tempo, aguardam com ânsia reencontrar o aconchego do próprio lar, ou
relegados nos campos de concentração esperam, após a guerra, a justa liberdade,
ou, enfim, jazem enfermos nos hospitais. A esses infelizes e a todos os outros,
para os quais o presente conflito foi causa de angústias e dores, queira
conceder a benigna Virgem Mãe de Deus a celeste consolação, e despertar a força
daquela paciência cristã, através da qual também os sofrimentos mais agudos
tornam-se toleráveis e colaboram para o mérito da felicidade eterna.
Será
zelo vosso, veneráveis irmãos, comunicar essa nossa paternal exortação com o
voto aos féis confiados aos vossos cuidados; aos quais - e principalmente a vós
todos e a cada um - concedemos, sob os auspícios dos dons celestes e penhor de
nossa benevolência, a bênção apostólica.
Dado
em Roma, junto a São Pedro, no dia 15 de Abril, Domingo do Bom Pastor, do ano
de 1945, VII do nosso pontificado.
PIO PP. XII
(Revisão da versão portuguesa por ama)
_____________________________
Notas:
(1)
S. Agostinho, Serm. de Script., 72, 4; PL 38, 468.
(2)
S. Agostinho, In Ps. 84, 12; PL 37,1078. Existe versão em português, publicada
pela Paulus: "Comentário aos Salmos" (vol. II).
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