01/10/2014

Tratado da Graça 13

Questão 110: Da graça de Deus quanto à sua essência.

Art. 3 — Se a graça é o mesmo que a virtude.

[II Sent., dist. XXVI, a. 4, De Verit., q. 27, a. 2].

O terceiro discute-se assim. — Parece que a graça é o mesmo que a virtude.

1. — Pois, como diz Agostinho, a graça operante é a fé, que obra por amor. Ora, a fé que obra pelo amor, é uma virtude. Logo, a graça também o é.

2. Demais. — Ao que convém a definição convém também o definido. Ora, as definições dadas, da virtude, pelos santos ou pelos filósofos, convêm à graça, pois também ela torna bom o sujeito e a sua obra, também ela é uma boa qualidade da mente, pela qual vivemos rectamente, etc. Logo, a graça é uma virtude.

3. Demais. — A graça é uma qualidade. Ora, é manifesto que não pertence à quarta espécie da qualidade, que é a forma e a figura fixa de um objeto, pois, não pertence ao corpo. Nem à terceira, porque não é paixão ou qualidade possível, que pertence à parte sensitiva da alma, como prova Aristóteles, pois a graça principalmente está na alma. Nem, por fim, à segunda espécie, que é a potência ou impotência da natureza, pois, é superior à natureza e não pode buscar o bem e o mal, como a potência natural. Logo, há-de pertencer à primeira espécie, que é o hábito ou disposição. Ora, os hábitos da alma são as virtudes, pois, a própria ciência é, de certo modo, uma virtude. Logo, a graça é o mesmo que a virtude.

Mas, em contrário. — Se a graça é uma virtude, há-de ser, por excelência, uma das três virtudes teologais. Ora, não é a fé, nem a esperança que podem existir sem a graça santificante. Nem a caridade, porque a graça prepara a caridade, como diz Agostinho. Logo, a graça não é uma virtude.

Alguns ensinaram que a graça é a essência idêntica à virtude, diferindo desta apenas racionalmente. Pois tira essa denominação de tornar o homem agradável a Deus, ou por ser dada gratuitamente, ao passo que a virtude confere a perfeição para agir bem. E esta parece ter sido a opinião do Mestre das Sentenças.

Mas, é inadmissível a quem reflectir atentamente na essência da virtude. Pois, como diz o Filósofo, a virtude é uma disposição do que é perfeito, chamo perfeito ao que é disposto segundo a natureza. Donde se vê que a virtude de um ser é assim chamada em relação a alguma natureza preexistente, isto é, quando está disposto do modo conveniente à sua natureza. Ora, é manifesto que as virtudes adquiridas pelos actos humanos, de que já tratamos (q. 55 ss), são disposições pelas quais o homem se ordena convenientemente à natureza que o torna homem. Ao passo que as virtudes infusas o dispõem de modo mais alto e para um fim mais elevado. Donde, hão-de também dispô-lo em ordem a uma natureza mais alta, i. é, à natureza divina participada, chamada lume da graça, conforme a escritura (2 Pd 1, 4): Comunicou-nos as mui grandes e preciosas graças que tinha prometido, para que por elas sejais feitos participantes da natureza divina. E por termos recebido tal natureza é que nos consideramos regenerados, como filhos de Deus.

Assim, pois, como o lume natural da razão é algo de superior às virtudes adquiridas, assim denominadas por se lhe ordenarem para ele, assim, o lume da graça, que é uma participação da natureza divina, é algo de superior às virtudes infusas, dele derivadas e ao qual se ordenam. Por isso, o Apóstolo diz (Ef 5, 8): Noutro tempo eram trevas, mas agora sois luz no Senhor: andai como filhos da luz. Donde, assim como as virtudes adquiridas aperfeiçoam o homem para proceder segundo a luz natural da razão, assim as virtudes infusas, para proceder de acordo com a luz da graça.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A fé, que obra o amor, Agostinho denomina-a graça, porque o acto da fé, que assim obra, é o primeiro acto pelo qual se manifesta a graça santificante.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O bem, que entra na definição da virtude, é assim chamado relativamente à conveniência com alguma natureza preexistente, essencial ou participada. Ora, não assim o bem é atribuído à graça, mas como à raiz da bondade do homem, segundo já se disse.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A graça reduz-se à primeira espécie de qualidade. Nem é o mesmo que a virtude, mas é um certo hábito, pressuposto às virtudes infusas, como princípio e raiz delas.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


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