15/07/2014

Migalhas para o Caminho


Como Tomé!

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Anda, aproxima-te e coloca a tua mão no meu lado e nas minhas mãos. Não sejas incrédulo.

Mas, Senhor, eu não sou incrédulo! Eu acredito!

Ó meu Joaquim, procura lá bem dentro do teu coração, se não tens dúvidas, se por vezes não pensas que tudo isto parece uma “história” impossível?

Ó Senhor, assim não vale! Tu lês o meu coração, Tu conheces os meus pensamentos!

Pois conheço, Joaquim, por isso Eu te questiono, por isso Eu te provoco, por isso Eu te provo, para que cada vez mais Eu seja uma certeza na tua vida.

Eu sei, Senhor, eu sei! Por isso Te amo tanto! Porque não me queres deixar entrar na rotina de uma fé vivida sem amor, sem chama, sem sentido.

Vês, se não te chamasse agora viverias o dia de hoje com apenas uma “recordação” de Mim. Mas chamei-te, e assim pudeste “ver-me”, porque se te abriram os olhos do coração, os olhos do amor, e assim acreditaste sem ver.

Meu Senhor e meu Deus!


Monte Real, 3 de Julho de 2014
Joaquim Mexia Alves
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Bendita és tu, entre todas as mulheres!

Olha para a Virgem Santíssima, e observa como vive a virtude da lealdade: quando Isabel precisa d'Ela, diz o Evangelho que vai "cum festinatione", com pressa, com alegria. Aprende! (Sulco, 371)

Agora, menino amigo, espero que já saibas desembaraçar-te. Acompanha, alegremente, José e Santa Maria... e ficarás a par das tradições da Casa de David.

Ouvirás falar de Isabel e de Zacarias, enternecer-te-ás com o amor puríssimo de José e baterá com mais força o teu coração, cada vez que pronunciarem o nome do Menino que há-de nascer em Belém...

Caminhamos, apressadamente, em direcção às montanhas, até uma aldeia da tribo de Judá (Lc I, 39).

Chegamos. – É a casa onde vai nascer João Baptista. – Isabel aclama, agradecida, a Mãe do Redentor: Bendita és tu, entre todas as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre! – A que devo eu tamanho bem, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc I, 42 e 43).


O Baptista, ainda por nascer, estremece... (Lc I, 41)... A humildade de Maria verte-se no Magnificat... E tu e eu, que somos – que éramos – uns soberbos, prometemos ser humildes. (Santo Rosário, 2º mistério gozoso)

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)





Propósito:
Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Diálogos apostólicos 25 15 Jul


Nota: Normalmente, estes “Diálogos apostólicos”, são publicados sob a forma de resumos e excertos de conversas semanais. Hoje, porém, dado o assunto, pareceu-me de interesse publicar quase na íntegra.




Na sequência da conversa anterior pediste-me que te ensinasse uma oração para apelar à Santíssima Virgem.

‘Não me importo nada’ – respondi – mas seria bom que tu próprio “construísses” essa oração.’

‘Mas… eu não sei bem como fazer!’

‘Pensa assim: quando queres pedir alguma coisa à tua Mãe, como é que fazes? Elaboras um longo discurso repleto de explicações e pormenores ou, ao contrário dizes-lhe simplesmente o que desejas?
Pois tem presente que a Santíssima Virgem é tua Mãe e, mais, o “caminho” privilegiado para chegares ao seu Filho.’


Bento VXI – Pensamentos espirituais 7

 
A escritura e os seus intérpretes


Quando a Sagrada Escritura é separada da viva voz da Igreja, torna-se presa das disputas dos peritos. Certamente, tudo o que estes têm para nos dizer é importante e valioso; o trabalho dos estudiosos constitui para nós um auxiliar notável para a compreensão do processo vivo de crescimento das Escrituras e ajuda-nos assim a compreender a sua riqueza histórica. Mas a ciência não pode, por si só, fornecer-nos uma interpretação definitiva e vinculativa; ela não está em posição de nos dar, pela interpretação, aquela certeza que nos permite viver e pela qual nos dispomos também a morrer.


(BENTO XVI, Homilia em São João de Latrão, 2005.05.07) 

Tratado da lei 54

Questão 100: Dos preceitos morais da lei antiga.

Art. 10 — Se o modo da caridade está na alçada do preceito da lei divina.

(III Sent., dist. :XXXVI, a. 6; De Verit., q. 23, a. 7, ad 8; q. 24, a. 12. ad 16; De Malo, q. 2, a. 5, ad 7).

O décimo discute-se assim. — Parece que o modo da caridade está na alçada do preceito da lei divina.

1. — Pois, diz a Escritura (Mt 19, 17): se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos; donde se vê que a observância dos mandamentos basta para fazer entrar na vida. Ora, para isso não bastam as boas obras, se não forem feitas pela caridade, conforme a Escritura (1 Cor 13, 3): E se eu distribuir todos os meus bens para o sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver caridade, nada disto me aproveita. Logo, o modo da caridade está na alçada do preceito.

2. Demais. — Ao modo da caridade propriamente pertence fazer tudo por Deus. Ora, isto está na alçada do preceito, conforme diz o Apóstolo (1 Cor 10, 31): fazei tudo para a glória de Deus. Logo, o modo da caridade está na alçada do preceito.

3. Demais. — Se o modo da caridade não estivesse na alçada do preceito, poderíamos cumprir os preceitos da lei, sem a caridade. Ora, o que podemos fazer sem a caridade, podemos fazer sem a graça, que sempre a acompanha. Logo, podemos cumprir os preceitos da lei, sem a graça, o que é o erro pelagiano, como está claro em Agostinho. Logo, o modo da caridade está na alçada do preceito.

Mas, em contrário, todo aquele que não observa o preceito, peca mortalmente. Se, pois, o modo da caridade é da alçada do preceito — quem fizer qualquer obra, sem caridade, pecará mortalmente. Ora, quem não tem caridade obra sem ela, e portanto, peca mortalmente em tudo o que fizer, embora o acto seja bom. O que é inadmissível.

No tocante a este assunto emitiram-se duas opiniões. — Uns consideram, absolutamente, o modo da caridade como da alçada do preceito. Mas não é impossível que o preceito observe quem não tem caridade, pois pode dispor-se do modo a Deus lha infundir. E nem peca sempre mortalmente quem, sem a caridade, pratica o bem; porque obrar pela caridade é um preceito afirmativo, que não obriga sempre, senão só no tempo em que a tiver. — Outros porém disseram que, absolutamente, o modo da caridade não está na alçada do preceito.

Ora, ambas, a certo respeito, exprimem a verdade; pois, o acto de caridade pode ser considerado a dupla luz. — Primeiro, enquanto é, em si mesmo, um acto. E deste modo cai sob a alçada da lei, o que é especialmente determinado sobre a caridade, a saber: Amarás ao Senhor teu Deus, e, amarás ao teu próximo. E neste ponto a primeira opinião exprime a verdade. Pois, não é impossível observar o preceito sobre o acto de caridade, porque podemos dispor-nos a tê-la; e, quando a tivermos, podemos usar dela. — Em segundo lugar, o acto de caridade pode ser considerado enquanto modo dos actos das outras virtudes; i. é, enquanto os actos das outras virtudes se ordenam para ela, que é o fim do preceito, como diz a Escritura (1 Tm 1, 5). Pois, como já dissemos (q. 12, a. 4), a intenção do fim é um certo modo formal do acto ordenado para o fim. E sendo assim, é verdadeira a segunda opinião, pela qual o modo da caridade não é da alçada do preceito. Isto é, o preceito — honra o pai — não inclui honrá-lo pela caridade, mas somente, honrá-lo. Donde, quem honra o próprio pai, embora sem caridade, não se torna transgressor desse preceito, embora o seja do que preceitua o acto de caridade, por cuja transgressão merece uma pena.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O Senhor não disse — se tu queres entrar na vida, guarda um mandamento — mas — guarda todos os mandamentos. Entre os quais também está o do amor de Deus e do próximo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — No preceito da caridade está incluído o amar a Deus de todo o coração; e isso implica em referir tudo a Deus. Portanto, o homem não pode cumprir o preceito da caridade, se não referir tudo a Deus. Donde, quem honra aos pais está obrigado a honrá-los pela caridade, não por força do preceito — Honra a teus pais — mas, por força do outro — Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração. E como estes são dois preceitos afirmativos que não obrigam para sempre, podem obrigar em tempos diversos. E assim, pode alguém cumprir o preceito de honrar os pais sem transgredir o outro, sobre a omissão do modo da caridade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O homem não pode observar todos os preceitos da lei, sem cumprir o da caridade; porque isso não o fará sem a graça. Portanto, é impossível o que disse Pelágio, que o homem pode cumprir a lei sem a graça.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho, coment. Leit. espiritual - A paciência 5

Tempo comum XI Semana

Evangelho: Jo 3, 16-18

16 «Porque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu Seu Filho Unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Porque Deus não enviou Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18 Quem n'Ele acredita, não é condenado, mas quem não acredita, já está condenado, porque não acredita no nome do Filho Unigénito de Deus.

Comentário:

Toda a história da redenção humana é uma história de amor.


Deus é Amor e, portanto, tudo quanto sai das Suas mãos ou é engendrado no Seu o pensamento não pode ser outra coisa que a expressão desse amor.


Por isso só se salva quem ama verdadeiramente.
Quem, por desgraça, tem o coração preso às coisas terrenas não tem espaço para outro amor, o principal, o mais importante, o imprescindível: o amor a Deus.

(ama, comentário sobre Jo 3, 16-21, 2013.04.10)

Leitura Espiritual




Temas

A PACIÊNCIA
…/5

EXERCÍCIOS DE PACIÊNCIA

Não, não há “truques” ou “técnicas” que sirvam para viver a paciência, se o egoísmo ainda tem o ninho no nosso coração. Com esse hóspede indesejável, é inútil qualquer tentativa. Mas se há amor, então vão-nos ocorrendo mil maneiras de exercitar a paciência, bem práticas, simples, bonitas... e eficazes.

Quem tem experiência da luta por viver com Deus, sabe que o amor cristão se mexe movido por duas asas: a da oração e a da mortificação. Por isso, todo o exercício da virtude cristã da paciência comportará necessariamente o movimento de uma dessas asas ou, o que será mais frequente, de ambas ao mesmo tempo.

Em primeiro lugar, a oração. O cristão paciente procura falar antes com Deus do que com os homens. Quando se sente à beira de uma crise de impaciência – pois ia retrucar, censurar, queixar-se... –, faz o esforço de se calar. Alguns recomendam contar até vinte, antes de abrir a boca. Melhor será fazer o sacrifício de guardar silêncio, de sair, se for preciso, de perto do foco do atrito (ir para outro cômodo, etc.), e de rezar bem devagar alguma oração, como por exemplo o Pai-Nosso (sublinhando mentalmente as palavras-chave que acordarão a fé e o amor e, portanto, trarão calma e lucidez à alma: Pai, ...seja feita a vossa vontade..., perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...).

Após essa oração, que pode ser também uma sequência de jaculatórias, de invocações breves, pedindo paciência a Deus, e já com a alma mais tranquila, poderemos discernir o que nos convém fazer: se é deixarmos passar, sem mais, aquele dissabor, aquela contrariedade; ou é praticar o que lemos no n. 10 de Caminho: “Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida.

– Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranquilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender [1]; ou, então, se é tomar a iniciativa de ter um gesto simpático – um afago para a esposa ou a filha; uma palavra amável, que quebre o gelo com aquele que nos causou mal-estar.

Não duvidemos de que o esforço de guardar silêncio, unido ao esforço de fazer oração, sempre conduzirá para a paciência, para a paciência real e prática, os que lutam com boa vontade.

Ao lado da oração, mas sem largá-la da mão, o cristão exercita a paciência por meio da prática voluntária, consciente, amorosa, de um sem-fim de pequenos sacrifícios, que são uma gota de paz, de afabilidade, de bondade, sobre as incipientes ebulições da impaciência. Talvez não seja demais lembrar, a título de sugestão para o leitor, algumas dessas mortificações cristãs, que diariamente podemos oferecer a Deus: fazer o esforço de escutar pacientemente a todos (ao menos durante um tempo prudencial), sem deixar que se apague o sorriso dos lábios, nem permitir que os olhos adquiram a inexpressiva fixidez, prelúdio de bocejo, de um peixe;

* não andar comentando a toda a hora e com todos, sem razão plausível nem necessidade, as nossas gripes, as nossas dores de cabeça ou de fígado nem, em geral, qualquer outro tipo de mal estar pessoal: propor-nos firmemente não nos queixarmos da saúde, do calor ou do frio, do abafamento no autocarro lotado, do tempo que levamos sem comer nada... renunciar decididamente a utilizar os verbetes típicos do Dicionário da Impaciência:

* “Você sempre faz isso!”, “De novo, mulher, já é a terceira vez que você passa um cheque sem fundos!”, “Outra vez!”, “Já estou cansado”, etc., etc.;

* evitar cobranças insistentes e antipáticas, e prontificar-nos a ajudar os outros, usando mais vezes do expediente afável de lembrar-lhes as coisas que omitiram ou atrasaram, e de estimulá-los a fazê-las;

* não implicar – não vale a pena! – com pequenos maus hábitos ou cacoetes dos outros, mas deixá-los passar como quem nem repara neles: mania de bater na cadeira ou de tamborilar com os dedos na mesa, tendência para ler por cima do ombro o jornal que nós estamos lendo, de fazer ruído com a boca, de cantarolar horrivelmente enquanto se lê ou se trabalha... Lembro-me bem da “guerra fria” que se travou entre uma filha cinquentona e um pai quase oitentão, e na qual fui chamado a intervir como mediador. Ela sustentava que o pai vivia gemendo, ele retrucava dizendo que “não, senhora, estou é cantarolando”... E, se não tivesse havido a intervenção de uma “potência neutra”, o atrito poderia ter terminado muito mal;

* saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entende e se mostra porfiadamente obtuso; ter a calma de partir do bê-á-bá para esclarecer assuntos técnicos a pessoas que os desconhecem e não têm vocação para lidar com cálculos e máquinas;

* não buzinar quando alguém reduz a marcha do veículo e estaciona inopinadamente; por sinal, se o leitor deseja um bom conselho para o trânsito, ofereço-lhe o seguinte, que já deu muito bons resultados: nunca olhe para a cara do “agressor”, do motorista “barbeiro”. Continue serenamente o seu percurso sem ficar sabendo se era homem ou mulher, jovem ou velho: vai ver que é difícil ficar com raiva de uma sombra indefinida; se, além disso, passada a primeira reação, reza ao Anjo da Guarda por ele/ela, para que se torne mais prudente, mais hábil ou menos prepotente, melhor ainda;

* por último, permito-me repisar a importância da oração para adquirir a paciência, evocando a simpática surpresa de uma mãe impaciente que se tornou “rezadora”. Aquela mulher de nervos frágeis tinha-se proposto rezar a Nossa Senhora a jaculatória: “Mãe de misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse moleque danado)” a cada grito das crianças. Quando começava a ferver uma crise conjugal, tinha igualmente “preparada” uma oração própria que dizia: “Meu Deus, que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da paz, rogai por nós!” E quando ia ficando enervada e ríspida, rezava: “Maria.., vida, doçura e esperança nossa, rogai por mim!” Depois comentava com certo espanto: – “Sabe que dá certo? Fico mais calma!” E ficava mesmo.

Como vemos, nem essa boa mãe, nem as outras pessoas acima evocadas como exemplo, conseguiam viver a paciência à base de truques de “pensamento positivo”, mas de esforços de fé e de amor cristão. De maneira que, sem terem a mínima noção disso, todas elas estavam dando a razão a São Tomás de Aquino que, com o seu habitual laconismo, sintetizou assim a questão:
Manifestum est quod patientia a caritate causatur – “é evidente que a paciência é causada pelo amor”, ou, por outras palavras que traduzem com igual precisão as do santo: “Só o amor é causa da paciência” [2]

HISTÓRIAS DE AMOR PACIENTE

O AMOR QUE SABE SOFRER

Víamos no começo que a paciência é a arte de sofrer. Depois das considerações que acabamos de fazer, pode-se modificar um pouco esse enunciado e dizer que a paciência é o amor que sabe sofrer.

Uma das coisas mais comoventes e edificantes do mundo é ter conhecido uma pessoa que, durante longo tempo, soube sofrer com amor. Nenhuma teoria, nenhuma ciência, nenhum livro nos pode ensinar melhor do que ela o que é a beleza e a grandeza da paciência. É bem certo que poucas realidades mostram tão bem a presença de Deus e a marca da sua graça num ser humano como o faz – quase que por transparência – o bom sofredor, o sofredor amoroso, sereno e esquecido de si mesmo.

Não é por acaso que São Paulo, quando começa a enumerar as qualidades do amor cristão, como quem apresenta as facetas de uma pedra preciosa, menciona em primeiro lugar que a caridade é paciente, e arremata os elogios dizendo que a caridade tudo sofre (cf. 1 Cor 13, 4.7). A vida dos santos, ou simplesmente a vida dos homens e mulheres bons, que optaram por transformar a sua existência numa amorosa tarefa de edificar, confirma o que Deus nos diz por meio de São Paulo.

Por isso, como o exemplo é o melhor livro e o testemunho vivido a mais pedagógica das escolas, vamos adentrar neste novo capítulo em quatro histórias de amor paciente ou, para sermos mais precisos, vamos relatar numas poucas pinceladas alguns episódios significativos de quatro vidas que souberam encarnar o amor paciente.

Dos dois primeiros casos, quem escreve estas páginas foi, em parte, testemunha presencial.

Os outros dois, conhece-os pela tocante narração de um médico.

UM MESTRE DE BOM HUMOR

Durante dois anos, tive o privilégio – seria mais exato dizer a graça – de conviver em Roma com o Fundador do Opus Dei, o Bem-aventurado Josemaría Escrivá.

Muito alegre e desportivamente, uns cento e vinte alunos do Colégio Romano da Santa Cruz nos acomodávamos como podíamos nos escassos e surrealistas espaços de um prédio ainda em construção. Mas, para nós, o sol raiava todos os dias, mesmo quando a Cidade Eterna se cobria de nuvens, porque saboreávamos a experiência de estar convivendo com um santo.

Todos os biógrafos de Mons. Escrivá, hoje já numerosos, coincidem em afirmar que uma das características da sua personalidade era a alegria, patenteada num constante bom humor. Um desses biógrafos dá justamente o título de Mestre de bom humor à obra de recordações pessoais que lhe dedica. [3]

Os que convivemos durante algum tempo com ele somos testemunhas de que esse título é exacto.

Quase diariamente, os alunos do Colégio Romano da Santa Cruz, anexo então à sede central do Opus Dei em Roma, tínhamos a feliz oportunidade de estar e de conversar uns bons momentos com Mons. Escrivá. Eu, que chegara a Roma em outubro de 1953 e só sairia de lá no fim do ano lectivo de 1955, guardo a viva lembrança do Fundador do Opus Dei como um sacerdote inflamado em amor de Deus, amor que fundia maravilhosamente com um enorme carinho humano, sempre sorridente, sempre otimista, sempre vibrante, sempre bem- disposto.

Todos os que o conhecíamos de perto víamos nele a extraordinária harmonia das diversas virtudes cristãs – mesmo das aparentemente contraditórias, como a mais terna compreensão e a firmeza mais exigente –, a erguer-se como picos elevados na cordilheira compacta da sua vida santa. Pois bem, um desses cumes elevados era, sem dúvida alguma, a paciência. Esta virtude manifestava-se, no dia-a-dia, de diversas formas; uma das mais patentes era a equanimidade que se percebia a todas as horas e em todas as circunstâncias. Equanimidade, ou seja, igualdade de ânimo, boa disposição permanente, que atraía com força irradiante e estimulava a imitá-lo.


Não é que tudo fosse um mar calmo à sua volta, nem que ele – homem de temperamento vivo, sensível e ardente – fosse impassível. Mesmo sem conhecermos muitos detalhes, todos nós tínhamos noção das dificuldades grandes que o Padre – assim o chamávamos – tivera e tinha que enfrentar para levar a Obra de Deus para a frente. Sabíamos em parte, ou imaginávamos saber, o calibre das provações e sofrimentos por que Deus permitiu que passasse, forjando-lhe assim a têmpera do santo: incompreensões dolorosas, incríveis calúnias, perseguições, carência absoluta de meios materiais... Contradições brutais, que acabaram por deixar a sua farpada na saúde do Padre.

Desde os anos quarenta, de facto, padecia de uma séria diabete mellitus. Mas, se alguém nos perguntasse: – “Como vai a saúde do Padre?”, teríamos respondido, com a maior naturalidade: – “Ora, graças a Deus, vai muito bem”.

E, com efeito, era assim mesmo que víamos o Fundador: muito bem.
Todos os dias nos deixava a imagem de um homem cheio de Deus e pletórico de humanidade, transbordante de alegria e de dinamismo.
(cont.)







[1] josemaría escrivá, Caminho, 7ª ed., Quadrante, São Paulo, 1989
[2] Suma Teológica, II-II, q. 136, a. 3, c.].
[3] José Luis Soria, Maestro de buen humor, Rialp, Madrid, 1994.

14/07/2014

Fazei o que Ele vos disser

No meio do júbilo da festa, em Caná, só Maria nota a falta de vinho... Até aos mais pequenos pormenores de serviço chega a alma quando vive, como Ela, apaixonadamente atenta ao próximo, por Deus. (Sulco, 631)

Entre tantos convidados de uma ruidosa boda rural a que vêm pessoas de muitos lugares, Maria dá pela falta de vinho. Repara nisso imediatamente – e só Ela. Que familiares se nos apresentam as cenas da vida de Cristo! Porque a grandeza de Deus convive com o humano – com o normal e corrente. Realmente, é próprio de uma mulher, de uma atenta dona de casa, reparar num descuido, estar presente nesses pequenos pormenores que tornam agradável a existência humana; e assim aconteceu com Maria.

– Fazei o que Ele vos disser (Jo 2, 5).

Implete hydrias (Jo 2, 7), – enchei as vasilhas! –, e dá-se o milagre. Assim mesmo, com toda a simplicidade. Tudo normal: eles cumpriam o seu ofício, e a água estava ao seu alcance… E foi esta a primeira manifestação da divindade do Senhor! O que há de mais vulgar converte-se em extraordinário, em sobrenatural, quando temos a boa vontade de fazer o que Deus nos pede.

Quero, Senhor, abandonar todos os meus cuidados nas Tuas mãos generosas. A nossa Mãe – a Tua Mãe! – a estas horas, como em Caná, já fez soar aos Teus ouvidos: não têm!…

Se a nossa fé é débil, recorramos a Maria. Devido ao milagre das bodas de Caná que Cristo realizou a pedido de sua Mãe, acreditaram n´Ele os discípulos (Jo 2, 11). A nossa Mãe intercede sempre diante de seu Filho para que nos atenda e se nos mostre de tal modo que possamos confessar: – Tu és o Filho de Deus.


– Dá-me, ó Jesus, essa fé que de verdade desejo! Minha Mãe e Senhora minha, Maria Santíssima, faz com que eu creia! (Santo Rosário, 2º mistério luminoso).

Pequena agenda do cristão


SeGUNDa-Feira





(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Temas para meditar - 175

Tranquilidade

Quando fores apertado pelo desejo de ser livre de algum mal, ou de conseguir algum bem: antes de tudo põe o teu espírito em paz e tranquilidade; faz serenar o teu juízo e a tua vontade; e depois, mui brandamente, de mansinho, procura a realização do teu desejo, tomando por ordem os meios que forem convenientes; e quando digo com brandura não quero dizer negligentemente, mas sem alvoroço, perturbação ou inquietação, aliás, em vez de ter o efeito do teu desejo, estragarás tudo, e ainda te embaraçará mais.
«A minha alma está sempre em minhas mãos, Oh Senhor!, e eu não esqueci a Vossa lei» dizia David. Examina mais que uma vez por dia, mas pelo menos à noite e de manhã, se tens a tua alma em tuas mãos, ou se não ta arrebatou alguma paixão ou inquietação. Considera se tens o teu coração em tuas mãos ou se, pelo contrário, se to arrebatou alguma afeição desregrada de amor, de ódio, de inveja, de cobiça, de medo, de enfado, de alegria. E se acaso se transviou, procura-o e leva-o de novo, mui de mansinho, à presença de Deus, colocando os teus afectos e desejos sob obediência e governo da Sua Divina Vontade.


(s. francisco de salesIntrodução à Vida Devota, Cap. XV)

Tratado da lei 53

Questão 100: Dos preceitos morais da lei antiga.

Art. 9 — Se o modo da virtude está na alçada do preceito da lei.

(Supra, q. 96, a. 3, ad 2; IIª-IIae, q. 44, a. 4, ad 1; II Sent., dist. XXVIII, a. 3; IV, dist. XV, q. 3. a. 4. qª 1. ad 3).

O nono discute-se assim. — Parece que o modo da virtude está na alçada do preceito da lei.

1. — Pois, o modo da virtude está em praticarmos justamente actos justos; fortemente, actos fortes, e assim com as demais virtudes. Ora, a Escritura ordena (Dt 26, 20): administrarás a justiça com rectidão. Logo, o modo da virtude está na alçada do preceito.

2. Demais. — O que está na intenção do legislador é o que sobretudo está na alçada do preceito. Ora, essa intenção visa principalmente tornar os homens virtuosos, como diz Aristóteles. E sendo próprio do homem virtuoso agir virtuosamente, o modo da virtude há-de estar na alçada do preceito.

3. Demais. — O modo da virtude está propriamente em agirmos voluntária e deleitavelmente. Ora, isto está na alçada do preceito da lei divina. Pois, diz a Escritura (Sl 99, 2): servi ao Senhor em alegria; e (2 Cor 9, 7): não com tristeza, nem como por força, porque Deus ama ao que dá com alegria; ao que a Glosa diz: tudo o que fizeres fa-lo com alegria, e falas bem; se porém o fizeres com tristeza, o jeito vem de ti, mas não o fizeste tu. Logo, o modo da virtude está na alçada do preceito da lei.

Mas, em contrário. — Ninguém pode obrar como o virtuoso, sem ter o hábito da virtude, como está claro no Filósofo. Ora, quem quer que, transgrida o preceito da lei merece pena. Donde se seguiria que todo aquele que não tivesse o hábito da virtude mereceria pena por tudo o que fizesse. Ora, isto é contra a intenção da lei, que visa induzir o homem à virtude, acostumando-o às boas obras. Logo, o modo da virtude não está na alçada do preceito.

Como já dissemos (q. 90, a. 3 ad 2), o preceito de lei tem força coactiva. Donde, aquilo a que a lei obriga entra directamente no seu preceito. Ora, a coacção da lei realiza-se pelo medo da pena, como diz Aristóteles. Pois, está propriamente na alçada do preceito da lei, aquilo pelo que ela inflige uma pena. No instituir porém a pena, a lei divina procede diferentemente da humana. Pois, a pena da lei não é infligida senão relativamente àquilo de que o legislador tem que julgar; porque a lei pune em virtude de um juízo. Ora, os homens autores da lei não devem julgar senão dos actos externos, porque vêm o que está patente, como diz a Escritura (1 Sm 16, 7). E só Deus, autor da lei divina, é que pode julgar dos movimentos interiores das vontades, segundo a Escritura (Sl 7, 10): Deus, que sonda os corações e as entranhas.

Ora, a esta luz, devemos dizer, que o modo da virtude, sob certo aspecto, é levado em consideração pela lei humana e pela divina; sob outro, pela lei divina e, não, pela humana; e, enfim, sob um terceiro, nem pela lei humana, nem pela divina. Pois, esse modo consiste em três coisas, segundo o Filósofo. A primeira em obrarmos cientemente; o que é julgado, tanto pela lei divina, como pela humana. Pois, é acidental o que fazemos por ignorância. E assim, por ignorância, os actos humanos são julgados dignos de pena ou de vénia, tanto pela lei humana, como pela divina. — A segunda consiste em obrarmos voluntariamente, ou por eleição, e eleição de um objecto particular, o que implica um duplo movimento interior — o da vontade e o da intenção, de que já tratamos (q. 8; q. 12), e das quais a lei humana não pode julgar, mas só, a divina. Pois, a lei humana não pode punir quem quer matar, mas não matou. Ao passo que a lei divina o pune, conforme a Escritura (Mt 5, 22): todo o que se ira contra seu irmão será réu no juízo. — A terceira consiste em agirmos e conservarmo-nos firme e imovelmente. E esta firmeza pertence propriamente ao hábito, i. é, está em obrarmos por um hábito arraigado. Ora, neste ponto, o modo da virtude não está na alçada do preceito nem da lei divina, nem da humana. Pois, nem pelos homens, nem por Deus é punido, como transgressor do preceito, quem retribui aos pais a honra devida, embora sem o hábito da piedade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O modo de praticar um acto de justiça, pertencente ao preceito, é praticá-lo segundo a ordem do direito, e não pelo hábito da justiça.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A intenção do legislador visa duas coisas. Uma é a para a qual, pelo preceito da lei, quer levar, e essa é a virtude. Outra é a sobre a qual quer fazer o preceito, e esta é a que leva ou dispõe para a virtude, a saber, o acto de virtude. Pois, o fim do preceito não se confunde com o seu objecto; assim como, no demais, o fim não se identifica com os meios.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Praticar sem tristeza obras de virtude entra no preceito da lei divina, porque quem quer que obre com tristeza não obra voluntariamente. Mas, obrar deleitavelmente, ou com ledice e alegria, está, de certo modo, no preceito, i. é, enquanto a deleitação resulta do amor de Deus e do próximo, incluídos no preceito, por ser o amor a causa da deleitação. Mas, de outro modo, não está, enquanto a deleitação resulta do hábito; porque a deleitação na obra é sinal de um hábito existente, como diz Aristóteles. Pois, um acto pode ser deleitável pelo fim ou pela conveniência com o hábito.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.

Evangelho, comentário e Leit. Espirit. (Enc.Le Pèlerinage de Lourdes)

Tempo comum XV Semana

Evangelho: Mt 10, 34 – 11, 1

34 «Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada.
11 1 Tendo Jesus acabado de dar estas instruções aos Seus doze discípulos, partiu dali para ir ensinar e pregar nas cidades deles.

Comentário:

A paz e a espada! Parece um contrassenso, algo, pelo menos, estranho!
A espada associamo-la à luta, ao combate e, portanto, nada terá a ver com a paz.
Não… não é assim.
A paz no seu conceito mais abrangente, quer a paz pessoal como a paz entre os povos, não se consegue sem luta porque, nós os homens, somos inclinados justamente para o mal e, a paz é a consumação do bem.
Na luta interior que cada um leva a cabo por dominar os seus defeitos e fraquezas, ultrapassar as suas debilidades, travamos de facto uma batalha e, por vezes bem árdua, para conseguir o que desejamos.
Para viver em paz com os outros temos primeiro, que estar em paz connosco próprios porque ninguém pode dar o que não tem.

(ama, comentário sobre Mt 10, 34; 11, 1, 2013.07.15)

Leitura espiritual


Documentos do Magistério

CARTA ENCÍCLICA
LE PÈLERINAGE DE LOURDES
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
SOBRE O CENTENÁRIO
DAS APARIÇÕES DA SS. VIRGEM EM LOURDES

INTRODUÇÃO

1. A peregrinação a Lourdes, que tivemos a alegria de realizar ao irmos presidir, em nome do nosso predecessor Pio XI, as festas eucarísticas e marianas do encerramento do jubileu da redenção, deixou em nossa alma profundas e doces recordações. Por isso, particularmente agradável nos é saber que, por iniciativa do bispo de Tarbes e Lourdes, a cidade marial se apresta para celebrar com brilho o centenário das aparições da Virgem imaculada na gruta de Massabielle, e que um comitê internacional foi, mesmo, constituído para esse fim sob a presidência do eminente cardeal Eugène Tisserant, deão do Sacro Colégio. Convosco, caros filhos e veneráveis irmãos, queremos agradecer a Deus o insigne favor feito à vossa pátria, e tantas graças derramadas desde há um século sobre a multidão dos peregrinos. Queremos igualmente convidar todos os nossos filhos a renovarem, neste ano jubilar, a sua piedade confiante e generosa para com aquela que, segundo a palavra de S. Pio X, se dignou estabelecer em Lourdes "a sede da sua imensa bondade". 1

NOSSA SENHORA NA HISTÓRIA DA FRANÇA

2. Toda terra cristã é uma terra marial, e não há povo redimido pelo sangue de Cristo que não goste de proclamar Maria sua mãe e sua padroeira. Relevo empolgante assume, todavia, esta verdade quando se evoca a história da França. O culto da Mãe de Deus remonta às origens da sua evangelização, e, entre os mais antigos santuários marianos, Chartres ainda atrai os peregrinos em grande número, e milhares de jovens. A Idade Média, que, notadamente com s. Bernardo, cantou a glória de Maria e lhe celebrou os mistérios, viu a admirável eflorescência das vossas catedrais dedicadas a Nossa Senhora: Le Puy, Reims, Amiens, Paris e tantas outras... Essa glória da Imaculada anunciam-na elas de longe pelas suas flechas esbeltas, fazem-na resplandecer na pura luz dos seus vitrais e na harmoniosa beleza das suas estátuas; atestam elas sobretudo a fé de um povo a se alçar acima de si mesmo num surto magnífico, para erguer no céu da França a homenagem permanente da sua piedade mariana.

Os vários títulos de nossa Senhora

3. Nas cidades e nos campos, no topo das colinas ou dominando o mar, os santuários consagrados a Maria humildes capelas ou esplêndidas basílicas cobriram pouco a pouco o país com a sua sombra tutelar. Neles, príncipes, pastores e fiéis inúmeros afluíram, ao longo dos séculos, para a Virgem santa, a quem saudaram com os títulos mais expressivos da sua confiança ou da sua gratidão. Aqui se invoca nossa Senhora da misericórdia, de todo auxílio ou do bom socorro; ali o peregrino refugia-se ao pé de nossa Senhora da guarda, da piedade ou da consolação; alhures, a sua prece sobe para nossa Senhora da luz, da paz, da alegria ou da esperança; ou, ainda, implora ele nossa Senhora das virtudes, dos milagres ou das vitórias. Admirável ladainha de invocações, cuja enumeração jamais acabada narra, de província em província, os benefícios que a Mãe de Deus tem derramado, no correr dos tempos, sobre a terra da França.

Nossa Senhora das Graças e nossa Senhora de Lourdes

4. Devia, no entanto, o século XIX, após a tormenta revolucionária, ser por muitos títulos o século das predileções marianas. Para só citarmos um fato, quem é que não conhece hoje em dia a "medalha milagrosa"? Revelada, no próprio coração da capital francesa, a uma humilde filha de s. Vicente de Paulo que tivemos a alegria de inscrever no catálogo dos santos, essa medalha cunhada com a efígie de "Maria concebida sem pecado" espalhou por todos os lugares os seus prodígios espirituais e materiais. E, alguns anos mais tarde, de 11 de fevereiro a 16 de Julho de 1858, à bem-aventurada virgem Maria aprazia, por um favor novo, manifestar-se na terra dos Pirineus a uma menina piedosa e pura, saída de uma família cristã, trabalhadora na sua pobreza. "Ela vem a Bernardete, dizíamos nós outrora, fá-la a sua confidente, a colaboradora, o instrumento da sua ternura maternal e da misericordiosa onipotência de seu Filho, para restaurar o mundo em Cristo por uma nova e incomparável efusão da redenção". 2

Lourdes

5. Os acontecimentos que então se desenrolaram em Lourdes, e cujas proporções espirituais melhor medimos hoje, são-vos bem conhecidos. Sabeis, caros filhos e veneráveis irmãos, em que condições estupendas, apesar de zombarias, de dúvidas e de oposições, a voz daquela menina, mensageira da Imaculada, se impôs ao mundo. Sabeis a firmeza e a pureza do testemunho, experimentado com sabedoria pela autoridade episcopal e por ela sancionado desde 1862. Já as multidões haviam acorrido e não têm cessado de precipitar-se para a gruta das aparições, para a fonte milagrosa, para o santuário elevado a pedido de Maria. É o comovente cortejo dos humildes, dos doentes e dos aflitos; é a imponente peregrinação de milhares de fiéis de uma diocese ou de uma nação; é a discreta diligência de uma alma inquieta que busca a verdade... Dizíamos nós: "Jamais num lugar da terra se viu semelhante cortejo de sofrimento, jamais semelhante irradiação de paz, de serenidade e de alegria!" 3 E, poderíamos acrescentar, jamais se saberá a soma de benefícios de que o mundo é devedor à Virgem auxiliadora! "Ó gruta feliz, honrada pela presença da Mãe de Deus! Rocha digna de veneração, da qual brotaram abundantes as águas vivificadoras!" 4

Lourdes e a Santa Sé

6. Estes cem anos de culto mariano teceram, ademais, entre a Sé de Pedro e o santuário pirenaico laços estreitos, que nos apraz reconhecer. A própria virgem Maria não desejou essas aproximações? "O que em Roma, pelo seu magistério infalível, o sumo pontífice definia, a Virgem Imaculada Mãe de Deus, a bendita entre as mulheres, quis, ao que parece, confïrmá-lo por sua boca, quando pouco depois se manifestou por uma célebre aparição na gruta de Massabielle". 5 Certamente, a palavra infalível do pontífice romano, intérprete autêntico da verdade revelada, não necessitava de nenhuma confirmação celeste para se impor à fé dos fiéis. Mas com que emoção e com que gratidão o povo cristão e seus pastores não recolheram dos lábios de Bernardete essa resposta vinda do céu: "Eu sou a Imaculada Conceição"!

7. Por isso, não é de admirar que os nossos predecessores se hajam comprazido em multiplicar os seus favores para com esse santuário. Desde 1860, Pio IX, de santa memória, regozijava-se de que os obstáculos suscitados contra Lourdes pela malícia dos homens houvessem permitido "manifestar com mais força e mais evidência a clareza do fato". 6 E, forte dessa segurança, ele cumula de benefícios espirituais a Igreja recém-educada, e faz coroar a estátua de nossa Senhora de Lourdes. Leão XIII, em 1892, concede o oficio próprio e a missa da festa "in apparitione Beatae Mariae Virginis Immaculatae", coisa que o seu sucessor estenderá em breve à Igreja universal; o antigo apelo da Escritura aí achará, de então por diante, aplicação nova: "Levanta minha amada, formosa minha, vem a mim! Pomba minha, que se aninha nos vãos do rochedo, pela fenda dos barrancos!" 7 Pelo fim da sua vida, o grande pontífice fez questão de inaugurar e de benzer pessoalmente a reprodução da gruta de Massabielle edificada nos jardins do Vaticano, e, na mesma época, a sua voz se elevava para a Virgem de Lourdes por uma prece ardente e confiante: "Que, no seu poder, a Virgem Mãe, que outrora cooperou por seu amor no nascimento dos fiéis na Igreja, seja ainda agora o instrumento e a guardiã da nossa salvação; ... restitua a tranquilidade da paz aos espíritos angustiados; apresse enfim, na vida privada como na vida pública, o retorno a Jesus Cristo". 8

8. O cinquentenário da definição dogmática da imaculada conceição da santíssima Virgem ofereceu a s. Pio X o ensejo de atestar num documento solene o liame histórico entre esse ato do magistério e a aparição de Lourdes: "Apenas Pio IX definira de fé católica que desde a origem Maria foi isenta de pecado, a própria Virgem começava a operar maravilhas em Lourdes". 9 Pouco depois, cria ele o título episcopal de Lourdes, ligado ao de Tarbes, e assina a introdução da causa de beatificação de Bernardete. Reservado estava sobretudo a esse grande papa da eucaristia frisar e favorecer a admirável conjunção que existe em Lourdes entre o culto eucarístico e a oração marial. Nota ele: "A piedade para com a Mãe de Deus ali fez florescer uma notável e ardente piedade para com Cristo nosso Senhor". 10 Podia, aliás, ser diversamente? Tudo em Maria nos leva para seu Filho, único salvador, na previsão de cujos méritos ela foi imaculada e cheia de graças; tudo em Maria nos eleva ao louvor da adorável Trindade, e bem-aventurada foi Bernardete desfiando o seu terço diante da gruta, e dos lábios e do olhar da Virgem Santa aprendendo a dar glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo! Por isso somos felizes, neste centenário, de associar-nos a essa homenagem prestada por s. Pio X: "A glória única do santuário de Lourdes reside no fato de nele serem os povos atraídos de toda parte, por Maria, à adoração de Cristo Jesus no augusto sacramento; de sorte que aquele santuário, ao mesmo tempo centro de culto mariano e trono do mistério eucarístico, excede em glória, ao que parece, todos os outros no orbe católico". 11

9. Aquele santuário já cumulado de favores, Bento XV fez questão de enriquecê-lo de novas e preciosas indulgências, e, se as trágicas circunstâncias do seu pontificado não lhe permitiram multiplicar os atos públicos da sua devoção, todavia ele quis honrar a cidade mariana concedendo ao seu bispo o privilégio do pálio no lugar das aparições. Pio XI, que fora pessoalmente peregrino de Lourdes, prosseguiu a obra dele, e teve a alegria de elevar aos altares a privilegiada da Virgem, tornada, sob o véu, Irmã Maria Bernarda, da Congregação da caridade e da instrução cristã. Por assim dizer, não autenticava ele por sua vez a promessa da Imaculada à jovem Bernardete, "de ser feliz não neste mundo, mas no outro"? E de então por diante Nevers, que se honra de guardar a urna preciosa, atrai em grande número os peregrinos de Lourdes, desejosos de aprender junto à santa a acolherem como convém a mensagem de nossa Senhora. Em breve o ilustre pontífice, que a exemplo dos seus predecessores acabava de honrar com uma Legação as festas de aniversário das aparições, decidia encerrar o jubileu da redenção na gruta de Massabielle, lá onde, segundo os seus próprios termos, "a Virgem Maria Imaculada várias vezes se mostrou à bem-aventurada Bernardete Soubirous, onde com bondade exortou todos os homens à penitência, naquele lugar mesmo da estupenda aparição que ela cumulou de graças e prodígios". 12 Em verdade, concluía Pio XI, aquele santuário "passa agora, a justo título, por ser um dos principais santuários marianos do mundo". 13

10. A esse unânime concerto de louvores como não haveríamos nós de unir a nossa voz? Fizemo-lo especialmente na nossa encíclica Fulgens corona, relembrando, em seguimento aos nossos predecessores, que, "ao que parece, a própria bem-aventurada virgem Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o vigário de seu divino Filho na terra acabava de proclamar com os aplausos da Igreja inteira". 14 E, naquela ocasião, lembrávamos como, cônscios da importância daquela peregrinação, os pontífices romanos não haviam cessado de "enriquecê-la de favores espirituais e dos benefícios da sua benevolência". 15 A história destes cem anos, que acabamos de evocar a grandes traços, não é, com efeito, uma constante ilustração dessa benevolência pontifícia, cujo último ato foi o encerramento, em Lourdes, do ano centenário do dogma da imaculada conceição? Mas a vós, caros filhos e veneráveis irmãos, gostamos de lembrar especialmente um documento recente, pelo qual favorecíamos o surto de um apostolado missionário na vossa cara Pátria. Nele quisemos evocar "os méritos singulares que, no correr dos séculos, a França adquiriu para si no progresso da fé católica", e, a este título, "volvíamos a nossa mente e o nosso coração para Lourdes, onde, quatro anos após a definição do dogma, a própria Virgem imaculada confirmou sobrenaturalmente, por aparições, conversas e milagres, a declaração do doutor supremo". 16

11. Ainda hoje nos volvemos para o célebre santuário que se prepara para acolher nas margens do Gave a multidão dos peregrinos do centenário. Se, desde há um século, ardentes súplicas, públicas e privadas, pela intercessão de Maria, ali têm obtido de Deus tantas graças de cura e de conversão, temos a firme confiança de que neste ano jubilar nossa Senhora quererá ainda com largueza corresponder à expectativa de seus filhos; mas temos sobretudo a convicção de que ela nos exorte a recolhermos as lições espirituais das aparições e a enveredarmos pela trilha que ela tão claramente nos traçou.

II. AS LIÇÕES ESPIRITUAIS DAS APARIÇÕES

12. Essas lições, eco fiel da mensagem evangélica, fazem ressaltar de maneira impressionante o contraste que opõe os juízos de Deus à vã sabedoria deste mundo. Numa sociedade que não tem lá muita consciência dos males que a corroem, numa sociedade que vela as suas misérias e as suas injustiças sob aparências prósperas, brilhantes e descuidosas, a Virgem imaculada, por quem o pecado jamais roçara, manifesta-se à uma menina inocente. Com compaixão maternal percorre com o olhar este mundo redimido pelo sangue de seu Filho, onde, infelizmente, o pecado faz cada dia tantas devastações, e por três vezes lança o seu apelo premente: "Penitência, penitência, penitência!" Gestos expressivos são, mesmo, pedidos: "Ide beijar a terra em penitência pelos pecadores". E ao gesto há que juntar a súplica: "Rogareis a Deus pelos pecadores". Tal como no tempo de João Batista, tal como no início do ministério de Jesus, a mesma injunção, forte e rigorosa, dita aos homens a trilha da volta a Deus: "Arrependei-vos" (Mt 3, 2; 4, 17). E quem ousaria dizer que esse apelo à conversão do coração perdeu, nos nossos dias, a sua actualidade?

13. Mas poderia a Mãe de Deus vir a seus filhos senão como mensageira de perdão e de esperança? Já a água lhe jorra aos pés: "Ó vós todos que tendes sede, vinde às águas e recebereis do Senhor a salvação". 17 Àquela fonte onde, dócil, Bernardete foi a primeira a ir beber e lavar-se, afluirão todas as misérias da alma e do corpo. "Lá fui, lavei-me e vi" (Jo 9,11), poderá responder, como o cego do evangelho, o peregrino agradecido. Mas, tal como para as turbas que se comprimiam em volta de Jesus, a cura das chagas físicas ali fica sendo, ao mesmo tempo que um gesto de misericórdia, o sinal do poder que o Filho do Homem tem de perdoar os pecados (cf. Mc 2,10). Junto a gruta bendita, a Virgem nos convida, em nome de seu divino Filho, à conversão do coração e à esperança do perdão. Escutá-la-emos?

Enveredar pela trilha que nossa Senhora nos traçou

14. Nessa humilde resposta do homem que se reconhece pecador reside a verdadeira grandeza deste ano jubilar. Que benefícios não estaríamos no direito de esperar para a Igreja se cada peregrino de Lourdes - e mesmo todo cristão unido de coração às celebrações do centenário - realizasse primeiramente em si mesmo essa obra de santificação, "não em palavras e de língua, mas em atos e em verdade" (1 Jo 3, 18)? Tudo, aliás, a isso ali o convida, pois em parte alguma, talvez, tanto quanto em Lourdes, a gente se sente levado ao mesmo tempo à oração, ao esquecimento de si e à caridade. A vermos a dedicação dos padioleiros e a paz serena dos doentes; a verificarmos a fraternidade que congrega numa mesma invocação fiéis de todas as origens; a observarmos a espontaneidade do auxílio mútuo e o fervor, sem afetação, dos peregrinos ajoelhados diante da gruta, os melhores são empolgados pelo atractivo de uma vida mais totalmente dada ao serviço de Deus e de seus irmãos; os menos fervorosos tomam consciência da sua tibieza e reencontram o caminho da oração; não raras vezes os pecadores mais empedernidos e os próprios incrédulos são tocados pela graça, ou, ao menos, se são leais, não ficam insensíveis ao testemunho daquela "multidão de crentes que têm um só coração e uma só alma" (At 4, 32).

15. Geralmente, entretanto, essa experiência de alguns breves dias de peregrinação não basta, por si só, para gravar em caracteres indeléveis o apelo de Maria a uma autêntica conversão espiritual. Por isso exortamos os pastores das dioceses e todos os sacerdotes a rivalizarem em zelo para que as peregrinações do centenário se beneficiem de uma preparação, de uma realização e sobretudo de amanhãs, tanto quanto possível propícios, a uma ação profunda e duradoura da graça. O retorno a uma prática assídua dos sacramentos, o respeito da moral cristã em toda a vida, o ingresso, enfim, nas fileiras da Ação católica e das diversas obras recomendadas pela Igreja: só nestas condições - não é verdade? - o importante movimento de multidões previsto em Lourdes para o ano de 1958 dará, segundo a própria expectativa da Virgem imaculada, os frutos de salvação tão necessários à humanidade presente.

16. Por mais primordial, porém, que ela seja, a conversão individual do peregrino não poderia, aqui, bastar. Neste ano jubilar, exortamo-vos, caros filhos e veneráveis irmãos, a suscitardes entre os fiéis confiados aos vossos cuidados um esforço coletivo de renovação cristã da sociedade, em resposta ao apelo de Maria: "Que os espíritos obcecados... sejam iluminados pela luz da verdade e da justiça", já pedia Pio XI por ocasião das festas marianas do jubileu da redenção; "que os que se transviam no erro sejam reconduzidos ao reto caminho, que uma justa liberdade seja em toda parte concedida à Igreja, e que uma era de concórdia e de verdadeira prosperidade se levante sobre todos os povos" 18.

17. Ora, o mundo, que tantos e tão justos motivos de ufania e de esperança oferece nos nossos dias, conhece também uma terrível tentação de materialismo, muitas vezes denunciada pelos nossos predecessores e por nós mesmos. Esse materialismo não está somente na filosofia condenada que preside à política e à economia de uma porção da humanidade; manifesta-se também no amor do dinheiro, cujas devastações se amplificam à medida dos empreendimentos modernos, e que, infelizmente, comanda tantas determinações que pesam sobre a vida dos povos; traduz-se pelo culto do corpo, pela procura excessiva do conforto e pela fuga de toda austeridade de vida; induz ao desprezo da vida humana, daquela, mesmo, que é destruída antes de ver a luz; está na demanda desenfreada do prazer, que se ostenta sem pudor e que mesmo, pelas leituras e pelos espetáculos, tenta seduzir almas ainda puras; está na indiferença para com seu irmão, no egoísmo que o esmaga, na injustiça que o priva dos seus direitos, numa palavra, nessa concepção da vida que regula tudo em vista somente da prosperidade material e das satisfações terrenas. "Minha alma, dizia um rico, tens quantidade de bens em reserva por longo tempo; repousa, come, bebe, leva vida regalada. Mas Deus lhe diz: Insensato, esta noite mesmo vão pedir-te a tua alma" (Lc 12, 19-20).

18. A uma sociedade que, na sua vida pública, não raras vezes contesta os direitos supremos de Deus, que quereria ganhar o universo ao preço de sua alma (cf. Mc 8, 36), e que assim correria à sua perdição, a Virgem maternal lançou como que um brado de alarme. Atentos ao seu apelo, ousem os sacerdotes a pregar a todos, sem temor, as grandes verdades da salvação. Com efeito, não há renovação durável senão fundada nos princípios infrangíveis da fé, e pertence aos sacerdotes formar a consciência do povo cristão. Assim como, compassiva para com as nossas misérias, mas clarividente sobre as nossas verdadeiras necessidades, a Imaculada vem aos homens para lhes lembrar as diligências essenciais e austeras da conversão religiosa, devem os ministros de Deus, com sobrenatural segurança, traçar às almas a estrada estreita que conduz à vida (cf. Mt 7, 14). Fá-lo-ão sem esquecer de que espírito de doçura e de paciência necessitam (cf. Lc 9, 55), mas sem nada quererem apelar das exigências evangélicas. Na escola de Maria aprenderão a só viver para dar Cristo ao mundo, mas, se também preciso, aprenderão a esperar com fé a hora de Jesus e a permanecer ao pé da cruz.

18. Em torno aos seus sacerdotes, devem os fiéis colaborar nesse esforço de renovação. Lá onde a Providência o colocou, quem é que não pode fazer algo mais pela causa de Deus? O nosso pensamento volve-se primeiro para a multidão das almas consagradas, que, na Igreja, se dedicam a inúmeras obras de bem. Os seus votos de religião aplicam-nas mais do que outras a lutar vitoriosamente, sob a égide de Maria, contra o desencadear, no mundo, dos apetites imoderados de independência, de riqueza e de gozo; por isso, ante o apelo da Imaculada, ao assalto do mal quererão elas opor-se pelas armas da oração e da penitência e pelas vitórias da caridade. O nosso pensamento volve-se igualmente para as famílias cristãs, para conjurá-las a permanecerem fiéis à sua insubstituível missão na sociedade. Consagrem-se elas, neste ano jubilar, ao coração imaculado de Maria! Este ato de piedade será para os esposos um auxílio espiritual precioso na prática dos deveres da castidade e da fidelidade conjugais; conservará na sua pureza o ambiente do lar, onde crescem os filhos; bem mais, da família vivificada pela sua devoção mariana, fará uma célula viva da regeneração social e da penetração apostólica. E certamente, para além do círculo familiar, as relações profissionais e cívicas oferecem aos cristãos cuidadosos de trabalhar na renovação da sociedade um campo de ação considerável. Congregados aos pés da Virgem, dóceis às suas exortações, eles lançarão primeiro sobre si mesmos um olhar exigente, e quererão extirpar da sua consciência os juízos falsos e as reações egoístas, temendo a mentira de um amor de Deus que não se traduza em amor efetivo de seus irmãos (cf.1 Jo 4, 20). Cristãos de todas as classes e de todas as nações, procurarão encontrar-se na verdade e na caridade, banir as incompreensões e as suspeitas. Sem dúvida, enorme é o peso das estruturas sociais e das pressões econômicas que se faz sentir sobre a boa vontade dos homens e que não raro a paralisa. Mas, se, como nossos predecessores e nós mesmo com insistência o frisamos, é verdade que a questão da paz social e política é, no homem, primeiramente uma questão moral, reforma nenhuma é frutuosa, acordo algum é estável, sem uma mudança e uma purificação dos corações. Lembra-o a todos a Virgem de Lourdes neste ano jubilar!

20. E se, na sua solicitude, Maria se curva com alguma predileção sobre alguns de seus filhos, não é, caros filhos e veneráveis irmãos, sobre os pequenos, sobre os pobres e sobre os doentes, os quais Jesus tanto amou? "Vinde a mim vós todos que estais cansados e onerados, e eu vos aliviarei", parece ela dizer com seu divino Filho (Mt 11, 28). Ide a ela, vós a quem a miséria material esmaga, vós sem defesa ante os rigores da vida e a indiferença dos homens; ide a ela, vós a quem ferem os lutos e as provações morais; ide a ela, caros doentes e enfermos, que em Lourdes sois verdadeiramente recebidos e honrados como membros padecentes de nosso Senhor; ide a ela, e recebei a paz do coração, a força do dever cotidiano, a alegria do sacrifício oferecido. A Virgem imaculada, que conhece os encaminhamentos secretos da graça nas almas e o trabalho silencioso desse fermento sobrenatural do mundo, sabe de que valor são aos olhos de Deus os vossos sofrimentos unidos aos do Salvador. Podem eles grandemente concorrer, disso não duvidamos, para essa renovação cristã da sociedade que de Deus imploramos pela poderosa intercessão de sua Mãe. Que, a rogo dos doentes, dos humildes, de todos os peregrinos de Lourdes, Maria volva igualmente o seu olhar materno para aqueles que ainda permanecem fora do redil único da Igreja, para os congregar na unidade! Lance o seu olhar sobre aqueles que buscam a verdade e dela têm sede, para os conduzir à fonte das águas vivas! Percorra, enfim, com o olhar esses continentes imensos e essas vastas zonas humanas onde, infelizmente, Cristo é tão pouco conhecido, tão pouco amado, e obtenha para a Igreja a liberdade e a alegria de, em todos os lugares, sempre jovem, santa e apostólica, corresponder à expectativa dos homens!

21. Querereis ter a bondade de vir...", dizia a ss. Virgem a Bernardete. Esse convite discreto que não força, que se dirige ao coração e solicita com delicadeza uma resposta livre e generosa, propõe-no de novo a Mãe de Deus aos seus filhos da França e do mundo. Sem se impor, ela os preme a reformar-se a si próprios e a trabalhar com todas as suas forças na salvação do mundo. Não hão de os cristãos ficar surdos a esse apelo; irão a Maria. E é a cada um deles que, no termo desta carta, quiséramos dizer com s. Bernardo: "Nos perigos, nas angústias, nas incertezas, pensa em Maria. ... Seguindo-a não te perderás; rezando para ela não desesperarás; pensando nela não te enganarás. Se ela te segurar não cairás; se ela te proteger não temerás; se ela te guiar, não te cansarás; se ela te conceder os seus favores, chegarás ao teu fim...". 19

22. Temos confiança, caros filhos e veneráveis irmãos, de que Maria atenderá à vossa oração e à nossa. Pedimos-lho nesta festa da Visitação, bem própria para celebrar aquela que, há um século, dignou-se de visitar a terra da França. E, convidando-vos a cantar a Deus, com a Virgem imaculada, o "Magnificat" da vossa gratidão, chamamos sobre vós mesmos e sobre os vossos féis, sobre o santuário de Lourdes e sobre os seus peregrinos, sobre todos aqueles que arcam com a responsabilidade das festas do centenário, a mais larga efusão de graças, em penhor das quais, na nossa constante e paternal benevolência, vos concedemos de todo coração a bênção apostólica.

Dado em Roma, junto a São Pedro, na festa da Visitação da Santíssima Virgem, no dia 2 de Julho do ano de 1957, XIX do nosso pontificado.

PIO PP. XII
_________________________________________
Notas:
1 Carta de 12 de julho de 1914: AAS 6(1914), p. 376.
2 Discurso de 28 de abril de 1935 em Lourdes: Eug. Card. Pacelli, Discursos e Panegíricos, 2° ed., Vaticano,1956, p. 435.
3 Ibidem, p. 437.
4 Ofício da festa das Aparições, Hino das II Vésperas.
5 Decreto De Tuto para a canonização de santa Bernardete, 2 de julho de 1933: AAS 25(1933), p. 377.
6 Carta de 4 de setembro de 1869 a Henri Lasserre: Arquivo secreto vaticana, Ep. lat. an.1869, n. 388, f. 695.
7 Ct 2, 13-14. Gradual da Missa da festa das Aparições.
8 Breve de 8 de setembro de 1901: Acta Leonis XIII, vol. 21, pp.159-160.
9 Carta encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904: Acta Pii X, vol. 1, p.149.
10 Carta de 12 de julho de 1914: AAS 6(1914), p. 377.
11 Breve de 25 de abril de 1911: Arch. Brev. Ap., Pius X, an.1911, Div. Lib. IX, pars I, f. 337.
12 Breve de 11 de janeiro de 1933: Arch. Brev. Ap. Pius XI, Ind. Perpet, f.128.
13 Ibidem.
14 Carta encíclica Fulgens corona, de 8 de setembro de 1953: AAS 45(1953), p. 578.
15 Ibidem.
16 Constituição apost. Omnium Ecclesiarum, de 15 de agosto de 1954: AAS 46,1954, p. 567.
17 Ofício da festa das Aparições. 1° Responso do III Noct.
18 Carta de 10 de janeiro de 1935; AAS 27, p. 7.
19 Hom. II super Missus est: PL 183, 70-71.