Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
15/07/2014
Como Tomé!
.
.
.
Anda, aproxima-te e coloca a tua mão no
meu lado e nas minhas mãos. Não sejas incrédulo.
Mas, Senhor, eu não sou incrédulo! Eu
acredito!
Ó meu Joaquim, procura lá bem dentro do
teu coração, se não tens dúvidas, se por vezes não pensas que tudo isto parece
uma “história” impossível?
Ó Senhor, assim não vale! Tu lês o meu
coração, Tu conheces os meus pensamentos!
Pois conheço, Joaquim, por isso Eu te
questiono, por isso Eu te provoco, por isso Eu te provo, para que cada vez mais
Eu seja uma certeza na tua vida.
Eu sei, Senhor, eu sei! Por isso Te amo
tanto! Porque não me queres deixar entrar na rotina de uma fé vivida sem amor,
sem chama, sem sentido.
Vês, se não te chamasse agora viverias o
dia de hoje com apenas uma “recordação” de Mim. Mas chamei-te, e assim pudeste “ver-me”,
porque se te abriram os olhos do coração, os olhos do amor, e assim acreditaste
sem ver.
Meu Senhor e meu Deus!
Monte Real, 3 de Julho de 2014
Joaquim Mexia Alves
.
.
Labels:
JMA (Como Tomé)
«Mãe, ensina-me a ser nada, para que Cristo seja tudo em mim».
Oração que um dia o Espírito Santo quis colocar no meu coração e me esforço para que seja verdade na minha vida.
Bendita és tu, entre todas as mulheres!
Olha
para a Virgem Santíssima, e observa como vive a virtude da lealdade: quando
Isabel precisa d'Ela, diz o Evangelho que vai "cum festinatione", com
pressa, com alegria. Aprende! (Sulco, 371)
Agora,
menino amigo, espero que já saibas desembaraçar-te. Acompanha, alegremente,
José e Santa Maria... e ficarás a par das tradições da Casa de David.
Ouvirás
falar de Isabel e de Zacarias, enternecer-te-ás com o amor puríssimo de José e
baterá com mais força o teu coração, cada vez que pronunciarem o nome do Menino
que há-de nascer em Belém...
Caminhamos,
apressadamente, em direcção às montanhas, até uma aldeia da tribo de Judá (Lc
I, 39).
Chegamos.
– É a casa onde vai nascer João Baptista. – Isabel aclama, agradecida, a Mãe do
Redentor: Bendita és tu, entre todas as mulheres, e bendito é o fruto do teu
ventre! – A que devo eu tamanho bem, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor?
(Lc I, 42 e 43).
O
Baptista, ainda por nascer, estremece... (Lc I, 41)... A humildade de Maria
verte-se no Magnificat... E tu e eu, que somos – que éramos – uns soberbos,
prometemos ser humildes. (Santo Rosário, 2º mistério gozoso)
Pequena agenda do cristão
TeRÇa-Feira
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Aplicação no trabalho.
Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.
Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.
Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Diálogos apostólicos 25 15 Jul
Na sequência da conversa anterior pediste-me que te
ensinasse uma oração para apelar à Santíssima Virgem.
‘Não me importo nada’ – respondi – mas seria bom que tu
próprio “construísses” essa oração.’
‘Mas… eu não sei bem como fazer!’
‘Pensa assim: quando queres pedir alguma coisa à tua Mãe,
como é que fazes? Elaboras um longo discurso repleto de explicações e
pormenores ou, ao contrário dizes-lhe simplesmente o que desejas?
Pois tem presente que a Santíssima Virgem é tua Mãe e,
mais, o “caminho” privilegiado para chegares ao seu Filho.’
Bento VXI – Pensamentos espirituais 7
Quando a Sagrada Escritura é separada da viva voz da Igreja, torna-se presa das disputas dos peritos. Certamente, tudo o que estes têm para nos dizer é importante e valioso; o trabalho dos estudiosos constitui para nós um auxiliar notável para a compreensão do processo vivo de crescimento das Escrituras e ajuda-nos assim a compreender a sua riqueza histórica. Mas a ciência não pode, por si só, fornecer-nos uma interpretação definitiva e vinculativa; ela não está em posição de nos dar, pela interpretação, aquela certeza que nos permite viver e pela qual nos dispomos também a morrer.
(BENTO XVI, Homilia em São
João de Latrão, 2005.05.07)
Tratado da lei 54
Art.
10 — Se o modo da caridade está na alçada do preceito da lei divina.
(III
Sent., dist. :XXXVI, a. 6; De Verit., q. 23, a. 7, ad 8; q. 24, a. 12. ad 16;
De Malo, q. 2, a. 5, ad 7).
O décimo discute-se assim. — Parece
que o modo da caridade está na alçada do preceito da lei divina.
1. — Pois, diz a Escritura (Mt 19,
17): se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos; donde se vê que a
observância dos mandamentos basta para fazer entrar na vida. Ora, para isso não
bastam as boas obras, se não forem feitas pela caridade, conforme a Escritura
(1 Cor 13, 3): E se eu distribuir todos os meus bens para o sustento dos
pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver
caridade, nada disto me aproveita. Logo, o modo da caridade está na alçada do
preceito.
2. Demais. — Ao modo da caridade
propriamente pertence fazer tudo por Deus. Ora, isto está na alçada do
preceito, conforme diz o Apóstolo (1 Cor 10, 31): fazei tudo para a glória de
Deus. Logo, o modo da caridade está na alçada do preceito.
3. Demais. — Se o modo da caridade não
estivesse na alçada do preceito, poderíamos cumprir os preceitos da lei, sem a
caridade. Ora, o que podemos fazer sem a caridade, podemos fazer sem a graça,
que sempre a acompanha. Logo, podemos cumprir os preceitos da lei, sem a graça,
o que é o erro pelagiano, como está claro em Agostinho. Logo, o modo da
caridade está na alçada do preceito.
Mas, em contrário, todo aquele que não
observa o preceito, peca mortalmente. Se, pois, o modo da caridade é da alçada
do preceito — quem fizer qualquer obra, sem caridade, pecará mortalmente. Ora,
quem não tem caridade obra sem ela, e portanto, peca mortalmente em tudo o que
fizer, embora o acto seja bom. O que é inadmissível.
No tocante a este assunto
emitiram-se duas opiniões. — Uns consideram, absolutamente, o modo da caridade
como da alçada do preceito. Mas não é impossível que o preceito observe quem
não tem caridade, pois pode dispor-se do modo a Deus lha infundir. E nem peca
sempre mortalmente quem, sem a caridade, pratica o bem; porque obrar pela
caridade é um preceito afirmativo, que não obriga sempre, senão só no tempo em
que a tiver. — Outros porém disseram que, absolutamente, o modo da caridade não
está na alçada do preceito.
Ora, ambas, a certo respeito, exprimem
a verdade; pois, o acto de caridade pode ser considerado a dupla luz. —
Primeiro, enquanto é, em si mesmo, um acto. E deste modo cai sob a alçada da
lei, o que é especialmente determinado sobre a caridade, a saber: Amarás ao
Senhor teu Deus, e, amarás ao teu próximo. E neste ponto a primeira opinião
exprime a verdade. Pois, não é impossível observar o preceito sobre o acto de
caridade, porque podemos dispor-nos a tê-la; e, quando a tivermos, podemos usar
dela. — Em segundo lugar, o acto de caridade pode ser considerado enquanto modo
dos actos das outras virtudes; i. é, enquanto os actos das outras virtudes se
ordenam para ela, que é o fim do preceito, como diz a Escritura (1 Tm 1, 5).
Pois, como já dissemos (q. 12, a. 4), a intenção do fim é um certo modo formal
do acto ordenado para o fim. E sendo assim, é verdadeira a segunda opinião,
pela qual o modo da caridade não é da alçada do preceito. Isto é, o preceito —
honra o pai — não inclui honrá-lo pela caridade, mas somente, honrá-lo. Donde,
quem honra o próprio pai, embora sem caridade, não se torna transgressor desse
preceito, embora o seja do que preceitua o acto de caridade, por cuja transgressão
merece uma pena.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— O Senhor não disse — se tu queres entrar na vida, guarda um mandamento — mas
— guarda todos os mandamentos. Entre os quais também está o do amor de Deus e
do próximo.
RESPOSTA À SEGUNDA. — No preceito da
caridade está incluído o amar a Deus de todo o coração; e isso implica em
referir tudo a Deus. Portanto, o homem não pode cumprir o preceito da caridade,
se não referir tudo a Deus. Donde, quem honra aos pais está obrigado a honrá-los
pela caridade, não por força do preceito — Honra a teus pais — mas, por força
do outro — Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração. E como estes são
dois preceitos afirmativos que não obrigam para sempre, podem obrigar em tempos
diversos. E assim, pode alguém cumprir o preceito de honrar os pais sem transgredir
o outro, sobre a omissão do modo da caridade.
RESPOSTA À TERCEIRA. — O homem não
pode observar todos os preceitos da lei, sem cumprir o da caridade; porque isso
não o fará sem a graça. Portanto, é impossível o que disse Pelágio, que o homem
pode cumprir a lei sem a graça.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Evangelho, coment. Leit. espiritual - A paciência 5
Evangelho:
Jo 3, 16-18
16 «Porque Deus amou de
tal modo o mundo, que lhe deu Seu Filho Unigénito, para que todo aquele que crê
n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Porque Deus não enviou Seu Filho
ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18
Quem n'Ele acredita, não é condenado, mas quem não acredita, já está condenado,
porque não acredita no nome do Filho Unigénito de Deus.
Comentário:
Toda a
história da redenção humana é uma
história de amor.
Deus é Amor e, portanto, tudo quanto sai das Suas mãos ou é engendrado no Seu o pensamento não pode ser outra coisa que a expressão desse amor.
Por isso só se salva quem ama verdadeiramente.
Quem, por desgraça, tem o coração preso às coisas terrenas não tem
espaço para outro amor, o principal, o mais importante, o imprescindível: o
amor a Deus.
(ama, comentário sobre Jo 3, 16-21,
2013.04.10)
Leitura Espiritual
Temas
A
PACIÊNCIA
…/5
EXERCÍCIOS
DE PACIÊNCIA
Não,
não há “truques” ou “técnicas” que sirvam para viver a paciência, se o egoísmo
ainda tem o ninho no nosso coração. Com esse hóspede indesejável, é inútil
qualquer tentativa. Mas se há amor, então vão-nos ocorrendo mil maneiras de
exercitar a paciência, bem práticas, simples, bonitas... e eficazes.
Quem
tem experiência da luta por viver com Deus, sabe que o amor cristão se mexe
movido por duas asas: a da oração e a da mortificação. Por isso, todo o
exercício da virtude cristã da paciência comportará necessariamente o movimento
de uma dessas asas ou, o que será mais frequente, de ambas ao mesmo tempo.
Em
primeiro lugar, a oração. O cristão paciente procura falar antes com Deus do
que com os homens. Quando se sente à beira de uma crise de impaciência – pois
ia retrucar, censurar, queixar-se... –, faz o esforço de se calar. Alguns
recomendam contar até vinte, antes de abrir a boca. Melhor será fazer o
sacrifício de guardar silêncio, de sair, se for preciso, de perto do foco do
atrito (ir para outro cômodo, etc.), e de rezar bem devagar alguma oração, como
por exemplo o Pai-Nosso (sublinhando mentalmente as palavras-chave que acordarão
a fé e o amor e, portanto, trarão calma e lucidez à alma: Pai, ...seja feita a
vossa vontade..., perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a
quem nos tem ofendido...).
Após
essa oração, que pode ser também uma sequência de jaculatórias, de invocações breves,
pedindo paciência a Deus, e já com a alma mais tranquila, poderemos discernir o
que nos convém fazer: se é deixarmos passar, sem mais, aquele dissabor, aquela
contrariedade; ou é praticar o que lemos no n. 10 de Caminho: “Não repreendas quando sentes a indignação pela falta
cometida.
–
Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranquilo e com a
intenção purificada, não deixes de repreender [1];
ou, então, se é tomar a iniciativa de ter um gesto simpático – um afago para a esposa
ou a filha; uma palavra amável, que quebre o gelo com aquele que nos causou
mal-estar.
Não
duvidemos de que o esforço de guardar silêncio, unido ao esforço de fazer
oração, sempre conduzirá para a paciência, para a paciência real e prática, os
que lutam com boa vontade.
Ao
lado da oração, mas sem largá-la da mão, o cristão exercita a paciência por
meio da prática voluntária, consciente, amorosa, de um sem-fim de pequenos
sacrifícios, que são uma gota de paz, de afabilidade, de bondade, sobre as
incipientes ebulições da impaciência. Talvez não seja demais lembrar, a título
de sugestão para o leitor, algumas dessas mortificações cristãs, que diariamente
podemos oferecer a Deus: fazer o esforço de escutar pacientemente a todos (ao
menos durante um tempo prudencial), sem deixar que se apague o sorriso dos
lábios, nem permitir que os olhos adquiram a inexpressiva fixidez, prelúdio de
bocejo, de um peixe;
*
não andar comentando a toda a hora e com todos, sem razão plausível nem
necessidade, as nossas gripes, as nossas dores de cabeça ou de fígado nem, em
geral, qualquer outro tipo de mal estar pessoal: propor-nos firmemente não nos
queixarmos da saúde, do calor ou do frio, do abafamento no autocarro lotado, do
tempo que levamos sem comer nada... renunciar decididamente a utilizar os verbetes
típicos do Dicionário da Impaciência:
*
“Você sempre faz isso!”, “De novo, mulher, já é a terceira vez que você passa
um cheque sem fundos!”, “Outra vez!”, “Já estou cansado”, etc., etc.;
*
evitar cobranças insistentes e antipáticas, e prontificar-nos a ajudar os
outros, usando mais vezes do expediente afável de lembrar-lhes as coisas que
omitiram ou atrasaram, e de estimulá-los a fazê-las;
*
não implicar – não vale a pena! – com pequenos maus hábitos ou cacoetes dos
outros, mas deixá-los passar como quem nem repara neles: mania de bater na
cadeira ou de tamborilar com os dedos na mesa, tendência para ler por cima do
ombro o jornal que nós estamos lendo, de fazer ruído com a boca, de cantarolar
horrivelmente enquanto se lê ou se trabalha... Lembro-me bem da “guerra fria”
que se travou entre uma filha cinquentona e um pai quase oitentão, e na qual
fui chamado a intervir como mediador. Ela sustentava que o pai vivia gemendo,
ele retrucava dizendo que “não, senhora, estou é cantarolando”... E, se não
tivesse havido a intervenção de uma “potência neutra”, o atrito poderia ter
terminado muito mal;
*
saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entende e se
mostra porfiadamente obtuso; ter a calma de partir do bê-á-bá para esclarecer
assuntos técnicos a pessoas que os desconhecem e não têm vocação para lidar com
cálculos e máquinas;
*
não buzinar quando alguém reduz a marcha do veículo e estaciona inopinadamente;
por sinal, se o leitor deseja um bom conselho para o trânsito, ofereço-lhe o
seguinte, que já deu muito bons resultados: nunca olhe para a cara do
“agressor”, do motorista “barbeiro”. Continue serenamente o seu percurso sem
ficar sabendo se era homem ou mulher, jovem ou velho: vai ver que é difícil
ficar com raiva de uma sombra indefinida; se, além disso, passada a primeira
reação, reza ao Anjo da Guarda por ele/ela, para que se torne mais prudente,
mais hábil ou menos prepotente, melhor ainda;
*
por último, permito-me repisar a importância da oração para adquirir a
paciência, evocando a simpática surpresa de uma mãe impaciente que se tornou
“rezadora”. Aquela mulher de nervos frágeis tinha-se proposto rezar a Nossa
Senhora a jaculatória: “Mãe de misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse
moleque danado)” a cada grito das crianças. Quando começava a ferver uma crise
conjugal, tinha igualmente “preparada” uma oração própria que dizia: “Meu Deus,
que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da paz,
rogai por nós!” E quando ia ficando enervada e ríspida, rezava: “Maria.., vida,
doçura e esperança nossa, rogai por mim!” Depois comentava com certo espanto: –
“Sabe que dá certo? Fico mais calma!” E ficava mesmo.
Como
vemos, nem essa boa mãe, nem as outras pessoas acima evocadas como exemplo, conseguiam
viver a paciência à base de truques de “pensamento positivo”, mas de esforços
de fé e de amor cristão. De maneira que, sem terem a mínima noção disso, todas
elas estavam dando a razão a São Tomás de Aquino que, com o seu habitual
laconismo, sintetizou assim a questão:
Manifestum
est quod patientia a caritate causatur – “é evidente que a paciência é causada pelo
amor”, ou, por outras palavras que traduzem com igual precisão as do santo: “Só
o amor é causa da paciência” [2]
HISTÓRIAS
DE AMOR PACIENTE
O
AMOR QUE SABE SOFRER
Víamos
no começo que a paciência é a arte de sofrer. Depois das considerações que acabamos
de fazer, pode-se modificar um pouco esse enunciado e dizer que a paciência é o
amor que sabe sofrer.
Uma
das coisas mais comoventes e edificantes do mundo é ter conhecido uma pessoa
que, durante longo tempo, soube sofrer com amor. Nenhuma teoria, nenhuma
ciência, nenhum livro nos pode ensinar melhor do que ela o que é a beleza e a
grandeza da paciência. É bem certo que poucas realidades mostram tão bem a
presença de Deus e a marca da sua graça num ser humano como o faz – quase que
por transparência – o bom sofredor, o sofredor amoroso, sereno e esquecido de
si mesmo.
Não
é por acaso que São Paulo, quando começa a enumerar as qualidades do amor
cristão, como quem apresenta as facetas de uma pedra preciosa, menciona em
primeiro lugar que a caridade é paciente, e arremata os elogios dizendo que a
caridade tudo sofre (cf. 1 Cor 13, 4.7). A vida dos santos, ou simplesmente a
vida dos homens e mulheres bons, que optaram por transformar a sua existência
numa amorosa tarefa de edificar, confirma o que Deus nos diz por meio de São Paulo.
Por
isso, como o exemplo é o melhor livro e o testemunho vivido a mais pedagógica
das escolas, vamos adentrar neste novo capítulo em quatro histórias de amor
paciente ou, para sermos mais precisos, vamos relatar numas poucas pinceladas
alguns episódios significativos de quatro vidas que souberam encarnar o amor
paciente.
Dos
dois primeiros casos, quem escreve estas páginas foi, em parte, testemunha
presencial.
Os
outros dois, conhece-os pela tocante narração de um médico.
UM
MESTRE DE BOM HUMOR
Durante
dois anos, tive o privilégio – seria mais exato dizer a graça – de conviver em
Roma com o Fundador do Opus Dei, o Bem-aventurado Josemaría Escrivá.
Muito
alegre e desportivamente, uns cento e vinte alunos do Colégio Romano da Santa
Cruz nos acomodávamos como podíamos nos escassos e surrealistas espaços de um
prédio ainda em construção. Mas, para nós, o sol raiava todos os dias, mesmo
quando a Cidade Eterna se cobria de nuvens, porque saboreávamos a experiência
de estar convivendo com um santo.
Todos
os biógrafos de Mons. Escrivá, hoje já numerosos, coincidem em afirmar que uma das
características da sua personalidade era a alegria, patenteada num constante
bom humor. Um desses biógrafos dá justamente o título de Mestre de bom humor à
obra de recordações pessoais que lhe dedica. [3]
Os
que convivemos durante algum tempo com ele somos testemunhas de que esse título
é exacto.
Quase
diariamente, os alunos do Colégio Romano da Santa Cruz, anexo então à sede
central do Opus Dei em Roma, tínhamos a feliz oportunidade de estar e de
conversar uns bons momentos com Mons. Escrivá. Eu, que chegara a Roma em
outubro de 1953 e só sairia de lá no fim do ano lectivo de 1955, guardo a viva
lembrança do Fundador do Opus Dei como um sacerdote inflamado em amor de Deus,
amor que fundia maravilhosamente com um enorme carinho humano, sempre sorridente,
sempre otimista, sempre vibrante, sempre bem- disposto.
Todos
os que o conhecíamos de perto víamos nele a extraordinária harmonia das
diversas virtudes cristãs – mesmo das aparentemente contraditórias, como a mais
terna compreensão e a firmeza mais exigente –, a erguer-se como picos elevados
na cordilheira compacta da sua vida santa. Pois bem, um desses cumes elevados
era, sem dúvida alguma, a paciência. Esta virtude manifestava-se, no dia-a-dia,
de diversas formas; uma das mais patentes era a equanimidade que se percebia a
todas as horas e em todas as circunstâncias. Equanimidade, ou seja, igualdade
de ânimo, boa disposição permanente, que atraía com força irradiante e
estimulava a imitá-lo.
Não
é que tudo fosse um mar calmo à sua volta, nem que ele – homem de temperamento vivo,
sensível e ardente – fosse impassível. Mesmo sem conhecermos muitos detalhes,
todos nós tínhamos noção das dificuldades grandes que o Padre – assim o
chamávamos – tivera e tinha que enfrentar para levar a Obra de Deus para a
frente. Sabíamos em parte, ou imaginávamos saber, o calibre das provações e
sofrimentos por que Deus permitiu que passasse, forjando-lhe assim a têmpera do
santo: incompreensões dolorosas, incríveis calúnias, perseguições, carência
absoluta de meios materiais... Contradições brutais, que acabaram por deixar a
sua farpada na saúde do Padre.
Desde
os anos quarenta, de facto, padecia de uma séria diabete mellitus. Mas, se alguém
nos perguntasse: – “Como vai a saúde do Padre?”, teríamos respondido, com a
maior naturalidade: – “Ora, graças a Deus, vai muito bem”.
E,
com efeito, era assim mesmo que víamos o Fundador: muito bem.
Todos
os dias nos deixava a imagem de um homem cheio de Deus e pletórico de
humanidade, transbordante de alegria e de dinamismo.
(cont.)
14/07/2014
Fazei o que Ele vos disser
No
meio do júbilo da festa, em Caná, só Maria nota a falta de vinho... Até aos
mais pequenos pormenores de serviço chega a alma quando vive, como Ela,
apaixonadamente atenta ao próximo, por Deus. (Sulco, 631)
Entre
tantos convidados de uma ruidosa boda rural a que vêm pessoas de muitos
lugares, Maria dá pela falta de vinho. Repara nisso imediatamente – e só Ela.
Que familiares se nos apresentam as cenas da vida de Cristo! Porque a grandeza
de Deus convive com o humano – com o normal e corrente. Realmente, é próprio de
uma mulher, de uma atenta dona de casa, reparar num descuido, estar presente nesses
pequenos pormenores que tornam agradável a existência humana; e assim aconteceu
com Maria.
–
Fazei o que Ele vos disser (Jo 2, 5).
Implete
hydrias (Jo 2, 7), – enchei as vasilhas! –, e dá-se o milagre. Assim mesmo, com
toda a simplicidade. Tudo normal: eles cumpriam o seu ofício, e a água estava
ao seu alcance… E foi esta a primeira manifestação da divindade do Senhor! O
que há de mais vulgar converte-se em extraordinário, em sobrenatural, quando
temos a boa vontade de fazer o que Deus nos pede.
Quero,
Senhor, abandonar todos os meus cuidados nas Tuas mãos generosas. A nossa Mãe –
a Tua Mãe! – a estas horas, como em Caná, já fez soar aos Teus ouvidos: não
têm!…
Se
a nossa fé é débil, recorramos a Maria. Devido ao milagre das bodas de Caná que
Cristo realizou a pedido de sua Mãe, acreditaram n´Ele os discípulos (Jo 2,
11). A nossa Mãe intercede sempre diante de seu Filho para que nos atenda e se
nos mostre de tal modo que possamos confessar: – Tu és o Filho de Deus.
–
Dá-me, ó Jesus, essa fé que de verdade desejo! Minha Mãe e Senhora minha, Maria
Santíssima, faz com que eu creia! (Santo Rosário, 2º
mistério luminoso).
Pequena agenda do cristão
SeGUNDa-Feira
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.
Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.
Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.
Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.
Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.
Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.
Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Temas para meditar - 175
Quando fores apertado pelo desejo de ser livre de algum mal, ou de conseguir algum bem: antes de tudo põe o teu espírito em paz e tranquilidade; faz serenar o teu juízo e a tua vontade; e depois, mui brandamente, de mansinho, procura a realização do teu desejo, tomando por ordem os meios que forem convenientes; e quando digo com brandura não quero dizer negligentemente, mas sem alvoroço, perturbação ou inquietação, aliás, em vez de ter o efeito do teu desejo, estragarás tudo, e ainda te embaraçará mais.
«A minha alma está sempre em minhas mãos, Oh Senhor!, e eu não esqueci a Vossa lei» dizia David. Examina mais que uma vez por dia, mas pelo menos à noite e de manhã, se tens a tua alma em tuas mãos, ou se não ta arrebatou alguma paixão ou inquietação. Considera se tens o teu coração em tuas mãos ou se, pelo contrário, se to arrebatou alguma afeição desregrada de amor, de ódio, de inveja, de cobiça, de medo, de enfado, de alegria. E se acaso se transviou, procura-o e leva-o de novo, mui de mansinho, à presença de Deus, colocando os teus afectos e desejos sob obediência e governo da Sua Divina Vontade.
(s. francisco de sales, Introdução à Vida Devota, Cap. XV)
Tratado da lei 53
Art.
9 — Se o modo da virtude está na alçada do preceito da lei.
(Supra,
q. 96, a. 3, ad 2; IIª-IIae, q. 44, a. 4, ad 1; II Sent., dist. XXVIII, a. 3;
IV, dist. XV, q. 3. a. 4. qª 1. ad 3).
O nono discute-se assim. — Parece que
o modo da virtude está na alçada do preceito da lei.
1. — Pois, o modo da virtude está em
praticarmos justamente actos justos; fortemente, actos fortes, e assim com as
demais virtudes. Ora, a Escritura ordena (Dt 26, 20): administrarás a justiça
com rectidão. Logo, o modo da virtude está na alçada do preceito.
2. Demais. — O que está na intenção do
legislador é o que sobretudo está na alçada do preceito. Ora, essa intenção
visa principalmente tornar os homens virtuosos, como diz Aristóteles. E sendo
próprio do homem virtuoso agir virtuosamente, o modo da virtude há-de estar na
alçada do preceito.
3. Demais. — O modo da virtude está
propriamente em agirmos voluntária e deleitavelmente. Ora, isto está na alçada
do preceito da lei divina. Pois, diz a Escritura (Sl 99, 2): servi ao Senhor em
alegria; e (2 Cor 9, 7): não com tristeza, nem como por força, porque Deus ama
ao que dá com alegria; ao que a Glosa diz: tudo o que fizeres fa-lo com
alegria, e falas bem; se porém o fizeres com tristeza, o jeito vem de ti, mas
não o fizeste tu. Logo, o modo da virtude está na alçada do preceito da lei.
Mas, em contrário. — Ninguém pode
obrar como o virtuoso, sem ter o hábito da virtude, como está claro no Filósofo.
Ora, quem quer que, transgrida o preceito da lei merece pena. Donde se seguiria
que todo aquele que não tivesse o hábito da virtude mereceria pena por tudo o
que fizesse. Ora, isto é contra a intenção da lei, que visa induzir o homem à
virtude, acostumando-o às boas obras. Logo, o modo da virtude não está na
alçada do preceito.
Como já dissemos (q. 90, a.
3 ad 2), o preceito de lei tem força coactiva. Donde, aquilo a que a lei obriga
entra directamente no seu preceito. Ora, a coacção da lei realiza-se pelo medo
da pena, como diz Aristóteles. Pois, está propriamente na alçada do preceito da
lei, aquilo pelo que ela inflige uma pena. No instituir porém a pena, a lei
divina procede diferentemente da humana. Pois, a pena da lei não é infligida
senão relativamente àquilo de que o legislador tem que julgar; porque a lei
pune em virtude de um juízo. Ora, os homens autores da lei não devem julgar
senão dos actos externos, porque vêm o que está patente, como diz a Escritura
(1 Sm 16, 7). E só Deus, autor da lei divina, é que pode julgar dos movimentos
interiores das vontades, segundo a Escritura (Sl 7, 10): Deus, que sonda os
corações e as entranhas.
Ora, a esta luz, devemos dizer, que o
modo da virtude, sob certo aspecto, é levado em consideração pela lei humana e
pela divina; sob outro, pela lei divina e, não, pela humana; e, enfim, sob um
terceiro, nem pela lei humana, nem pela divina. Pois, esse modo consiste em
três coisas, segundo o Filósofo. A primeira em obrarmos cientemente; o que é
julgado, tanto pela lei divina, como pela humana. Pois, é acidental o que
fazemos por ignorância. E assim, por ignorância, os actos humanos são julgados
dignos de pena ou de vénia, tanto pela lei humana, como pela divina. — A
segunda consiste em obrarmos voluntariamente, ou por eleição, e eleição de um
objecto particular, o que implica um duplo movimento interior — o da vontade e
o da intenção, de que já tratamos (q. 8; q. 12), e das quais a lei humana não
pode julgar, mas só, a divina. Pois, a lei humana não pode punir quem quer
matar, mas não matou. Ao passo que a lei divina o pune, conforme a Escritura
(Mt 5, 22): todo o que se ira contra seu irmão será réu no juízo. — A terceira
consiste em agirmos e conservarmo-nos firme e imovelmente. E esta firmeza
pertence propriamente ao hábito, i. é, está em obrarmos por um hábito arraigado.
Ora, neste ponto, o modo da virtude não está na alçada do preceito nem da lei
divina, nem da humana. Pois, nem pelos homens, nem por Deus é punido, como
transgressor do preceito, quem retribui aos pais a honra devida, embora sem o
hábito da piedade.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— O modo de praticar um acto de justiça, pertencente ao preceito, é praticá-lo
segundo a ordem do direito, e não pelo hábito da justiça.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A intenção do
legislador visa duas coisas. Uma é a para a qual, pelo preceito da lei, quer
levar, e essa é a virtude. Outra é a sobre a qual quer fazer o preceito, e esta
é a que leva ou dispõe para a virtude, a saber, o acto de virtude. Pois, o fim
do preceito não se confunde com o seu objecto; assim como, no demais, o fim não
se identifica com os meios.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Praticar sem
tristeza obras de virtude entra no preceito da lei divina, porque quem quer que
obre com tristeza não obra voluntariamente. Mas, obrar deleitavelmente, ou com
ledice e alegria, está, de certo modo, no preceito, i. é, enquanto a deleitação
resulta do amor de Deus e do próximo, incluídos no preceito, por ser o amor a
causa da deleitação. Mas, de outro modo, não está, enquanto a deleitação
resulta do hábito; porque a deleitação na obra é sinal de um hábito existente,
como diz Aristóteles. Pois, um acto pode ser deleitável pelo fim ou pela
conveniência com o hábito.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Evangelho, comentário e Leit. Espirit. (Enc.Le Pèlerinage de Lourdes)
Evangelho: Mt 10, 34 – 11, 1
34 «Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada.
11 1 Tendo Jesus acabado de dar estas
instruções aos Seus doze discípulos, partiu dali para ir ensinar e pregar nas cidades
deles.
Comentário:
A
paz e a espada! Parece um contrassenso, algo, pelo menos, estranho!
A
espada associamo-la à luta, ao combate e, portanto, nada terá a ver com a paz.
Não…
não é assim.
A
paz no seu conceito mais abrangente, quer a paz pessoal como a paz entre os
povos, não se consegue sem luta porque, nós os homens, somos inclinados
justamente para o mal e, a paz é a consumação do bem.
Na
luta interior que cada um leva a cabo por dominar os seus defeitos e fraquezas,
ultrapassar as suas debilidades, travamos de facto uma batalha e, por vezes bem
árdua, para conseguir o que desejamos.
Para
viver em paz com os outros temos primeiro, que estar em paz connosco próprios
porque ninguém pode dar o que não tem.
(ama,
comentário sobre Mt 10, 34; 11, 1, 2013.07.15)
Leitura espiritual
Documentos do Magistério
CARTA ENCÍCLICA
LE PÈLERINAGE DE LOURDES
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
SOBRE O CENTENÁRIO
DAS APARIÇÕES DA SS. VIRGEM EM LOURDES
INTRODUÇÃO
1. A peregrinação a
Lourdes, que tivemos a alegria de realizar ao irmos presidir, em nome do nosso predecessor
Pio XI, as festas eucarísticas e marianas do encerramento do jubileu da
redenção, deixou em nossa alma profundas e doces recordações. Por isso,
particularmente agradável nos é saber que, por iniciativa do bispo de Tarbes e
Lourdes, a cidade marial se apresta para celebrar com brilho o centenário das
aparições da Virgem imaculada na gruta de Massabielle, e que um comitê
internacional foi, mesmo, constituído para esse fim sob a presidência do
eminente cardeal Eugène Tisserant, deão do Sacro Colégio. Convosco, caros
filhos e veneráveis irmãos, queremos agradecer a Deus o insigne favor feito à
vossa pátria, e tantas graças derramadas desde há um século sobre a multidão
dos peregrinos. Queremos igualmente convidar todos os nossos filhos a
renovarem, neste ano jubilar, a sua piedade confiante e generosa para com aquela
que, segundo a palavra de S. Pio X, se dignou estabelecer em Lourdes "a
sede da sua imensa bondade". 1
NOSSA
SENHORA NA HISTÓRIA DA FRANÇA
2. Toda terra cristã é uma
terra marial, e não há povo redimido pelo sangue de Cristo que não goste de
proclamar Maria sua mãe e sua padroeira. Relevo empolgante assume, todavia,
esta verdade quando se evoca a história da França. O culto da Mãe de Deus
remonta às origens da sua evangelização, e, entre os mais antigos santuários
marianos, Chartres ainda atrai os peregrinos em grande número, e milhares de
jovens. A Idade Média, que, notadamente com s. Bernardo, cantou a glória de
Maria e lhe celebrou os mistérios, viu a admirável eflorescência das vossas
catedrais dedicadas a Nossa Senhora: Le Puy, Reims, Amiens, Paris e tantas
outras... Essa glória da Imaculada anunciam-na elas de longe pelas suas flechas
esbeltas, fazem-na resplandecer na pura luz dos seus vitrais e na harmoniosa
beleza das suas estátuas; atestam elas sobretudo a fé de um povo a se alçar
acima de si mesmo num surto magnífico, para erguer no céu da França a homenagem
permanente da sua piedade mariana.
Os vários títulos de nossa
Senhora
3. Nas cidades e nos
campos, no topo das colinas ou dominando o mar, os santuários consagrados a
Maria humildes capelas ou esplêndidas basílicas cobriram pouco a pouco o país
com a sua sombra tutelar. Neles, príncipes, pastores e fiéis inúmeros afluíram,
ao longo dos séculos, para a Virgem santa, a quem saudaram com os títulos mais
expressivos da sua confiança ou da sua gratidão. Aqui se invoca nossa Senhora
da misericórdia, de todo auxílio ou do bom socorro; ali o peregrino refugia-se
ao pé de nossa Senhora da guarda, da piedade ou da consolação; alhures, a sua
prece sobe para nossa Senhora da luz, da paz, da alegria ou da esperança; ou,
ainda, implora ele nossa Senhora das virtudes, dos milagres ou das vitórias.
Admirável ladainha de invocações, cuja enumeração jamais acabada narra, de província
em província, os benefícios que a Mãe de Deus tem derramado, no correr dos
tempos, sobre a terra da França.
Nossa
Senhora das Graças e nossa Senhora de Lourdes
4. Devia, no entanto, o
século XIX, após a tormenta revolucionária, ser por muitos títulos o século das
predileções marianas. Para só citarmos um fato, quem é que não conhece hoje em
dia a "medalha milagrosa"? Revelada, no próprio coração da capital
francesa, a uma humilde filha de s. Vicente de Paulo que tivemos a alegria de
inscrever no catálogo dos santos, essa medalha cunhada com a efígie de
"Maria concebida sem pecado" espalhou por todos os lugares os seus
prodígios espirituais e materiais. E, alguns anos mais tarde, de 11 de
fevereiro a 16 de Julho de 1858, à bem-aventurada virgem Maria aprazia, por um
favor novo, manifestar-se na terra dos Pirineus a uma menina piedosa e pura,
saída de uma família cristã, trabalhadora na sua pobreza. "Ela vem a
Bernardete, dizíamos nós outrora, fá-la a sua confidente, a colaboradora, o
instrumento da sua ternura maternal e da misericordiosa onipotência de seu
Filho, para restaurar o mundo em Cristo por uma nova e incomparável efusão da
redenção". 2
Lourdes
5. Os acontecimentos que
então se desenrolaram em Lourdes, e cujas proporções espirituais melhor medimos
hoje, são-vos bem conhecidos. Sabeis, caros filhos e veneráveis irmãos, em que
condições estupendas, apesar de zombarias, de dúvidas e de oposições, a voz
daquela menina, mensageira da Imaculada, se impôs ao mundo. Sabeis a firmeza e
a pureza do testemunho, experimentado com sabedoria pela autoridade episcopal e
por ela sancionado desde 1862. Já as multidões haviam acorrido e não têm
cessado de precipitar-se para a gruta das aparições, para a fonte milagrosa,
para o santuário elevado a pedido de Maria. É o comovente cortejo dos humildes,
dos doentes e dos aflitos; é a imponente peregrinação de milhares de fiéis de
uma diocese ou de uma nação; é a discreta diligência de uma alma inquieta que
busca a verdade... Dizíamos nós: "Jamais num lugar da terra se viu semelhante
cortejo de sofrimento, jamais semelhante irradiação de paz, de serenidade e de
alegria!" 3 E, poderíamos acrescentar, jamais se saberá a soma
de benefícios de que o mundo é devedor à Virgem auxiliadora! "Ó gruta
feliz, honrada pela presença da Mãe de Deus! Rocha digna de veneração, da qual
brotaram abundantes as águas vivificadoras!" 4
Lourdes e a Santa Sé
6. Estes cem anos de culto
mariano teceram, ademais, entre a Sé de Pedro e o santuário pirenaico laços
estreitos, que nos apraz reconhecer. A própria virgem Maria não desejou essas
aproximações? "O que em Roma, pelo seu magistério infalível, o sumo
pontífice definia, a Virgem Imaculada Mãe de Deus, a bendita entre as mulheres,
quis, ao que parece, confïrmá-lo por sua boca, quando pouco depois se manifestou
por uma célebre aparição na gruta de Massabielle". 5 Certamente,
a palavra infalível do pontífice romano, intérprete autêntico da verdade
revelada, não necessitava de nenhuma confirmação celeste para se impor à fé dos
fiéis. Mas com que emoção e com que gratidão o povo cristão e seus pastores não
recolheram dos lábios de Bernardete essa resposta vinda do céu: "Eu sou a
Imaculada Conceição"!
7. Por isso, não é de
admirar que os nossos predecessores se hajam comprazido em multiplicar os seus
favores para com esse santuário. Desde 1860, Pio IX, de santa memória,
regozijava-se de que os obstáculos suscitados contra Lourdes pela malícia dos
homens houvessem permitido "manifestar com mais força e mais evidência a
clareza do fato". 6 E, forte dessa segurança, ele cumula de
benefícios espirituais a Igreja recém-educada, e faz coroar a estátua de nossa
Senhora de Lourdes. Leão XIII, em 1892, concede o oficio próprio e a missa da
festa "in apparitione Beatae Mariae Virginis Immaculatae", coisa que
o seu sucessor estenderá em breve à Igreja universal; o antigo apelo da
Escritura aí achará, de então por diante, aplicação nova: "Levanta minha
amada, formosa minha, vem a mim! Pomba minha, que se aninha nos vãos do
rochedo, pela fenda dos barrancos!" 7 Pelo fim da sua vida, o
grande pontífice fez questão de inaugurar e de benzer pessoalmente a reprodução
da gruta de Massabielle edificada nos jardins do Vaticano, e, na mesma época, a
sua voz se elevava para a Virgem de Lourdes por uma prece ardente e confiante:
"Que, no seu poder, a Virgem Mãe, que outrora cooperou por seu amor no
nascimento dos fiéis na Igreja, seja ainda agora o instrumento e a guardiã da
nossa salvação; ... restitua a tranquilidade da paz aos espíritos angustiados;
apresse enfim, na vida privada como na vida pública, o retorno a Jesus
Cristo". 8
8. O cinquentenário da
definição dogmática da imaculada conceição da santíssima Virgem ofereceu a s.
Pio X o ensejo de atestar num documento solene o liame histórico entre esse ato
do magistério e a aparição de Lourdes: "Apenas Pio IX definira de fé
católica que desde a origem Maria foi isenta de pecado, a própria Virgem
começava a operar maravilhas em Lourdes". 9 Pouco depois, cria
ele o título episcopal de Lourdes, ligado ao de Tarbes, e assina a introdução
da causa de beatificação de Bernardete. Reservado estava sobretudo a esse
grande papa da eucaristia frisar e favorecer a admirável conjunção que existe
em Lourdes entre o culto eucarístico e a oração marial. Nota ele: "A
piedade para com a Mãe de Deus ali fez florescer uma notável e ardente piedade
para com Cristo nosso Senhor". 10 Podia, aliás, ser
diversamente? Tudo em Maria nos leva para seu Filho, único salvador, na
previsão de cujos méritos ela foi imaculada e cheia de graças; tudo em Maria
nos eleva ao louvor da adorável Trindade, e bem-aventurada foi Bernardete
desfiando o seu terço diante da gruta, e dos lábios e do olhar da Virgem Santa
aprendendo a dar glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo! Por isso somos
felizes, neste centenário, de associar-nos a essa homenagem prestada por s. Pio
X: "A glória única do santuário de Lourdes reside no fato de nele serem os
povos atraídos de toda parte, por Maria, à adoração de Cristo Jesus no augusto
sacramento; de sorte que aquele santuário, ao mesmo tempo centro de culto
mariano e trono do mistério eucarístico, excede em glória, ao que parece, todos
os outros no orbe católico". 11
9. Aquele santuário já
cumulado de favores, Bento XV fez questão de enriquecê-lo de novas e preciosas
indulgências, e, se as trágicas circunstâncias do seu pontificado não lhe
permitiram multiplicar os atos públicos da sua devoção, todavia ele quis honrar
a cidade mariana concedendo ao seu bispo o privilégio do pálio no lugar das
aparições. Pio XI, que fora pessoalmente peregrino de Lourdes, prosseguiu a
obra dele, e teve a alegria de elevar aos altares a privilegiada da Virgem,
tornada, sob o véu, Irmã Maria Bernarda, da Congregação da caridade e da
instrução cristã. Por assim dizer, não autenticava ele por sua vez a promessa
da Imaculada à jovem Bernardete, "de ser feliz não neste mundo, mas no
outro"? E de então por diante Nevers, que se honra de guardar a urna
preciosa, atrai em grande número os peregrinos de Lourdes, desejosos de
aprender junto à santa a acolherem como convém a mensagem de nossa Senhora. Em
breve o ilustre pontífice, que a exemplo dos seus predecessores acabava de
honrar com uma Legação as festas de aniversário das aparições, decidia encerrar
o jubileu da redenção na gruta de Massabielle, lá onde, segundo os seus
próprios termos, "a Virgem Maria Imaculada várias vezes se mostrou à
bem-aventurada Bernardete Soubirous, onde com bondade exortou todos os homens à
penitência, naquele lugar mesmo da estupenda aparição que ela cumulou de graças
e prodígios". 12 Em verdade, concluía Pio XI, aquele santuário
"passa agora, a justo título, por ser um dos principais santuários
marianos do mundo". 13
10. A esse unânime
concerto de louvores como não haveríamos nós de unir a nossa voz? Fizemo-lo
especialmente na nossa encíclica Fulgens corona, relembrando, em seguimento aos
nossos predecessores, que, "ao que parece, a própria bem-aventurada virgem
Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o vigário de seu divino
Filho na terra acabava de proclamar com os aplausos da Igreja inteira". 14
E, naquela ocasião, lembrávamos como, cônscios da importância daquela
peregrinação, os pontífices romanos não haviam cessado de "enriquecê-la de
favores espirituais e dos benefícios da sua benevolência". 15 A
história destes cem anos, que acabamos de evocar a grandes traços, não é, com
efeito, uma constante ilustração dessa benevolência pontifícia, cujo último ato
foi o encerramento, em Lourdes, do ano centenário do dogma da imaculada
conceição? Mas a vós, caros filhos e veneráveis irmãos, gostamos de lembrar
especialmente um documento recente, pelo qual favorecíamos o surto de um apostolado
missionário na vossa cara Pátria. Nele quisemos evocar "os méritos
singulares que, no correr dos séculos, a França adquiriu para si no progresso
da fé católica", e, a este título, "volvíamos a nossa mente e o nosso
coração para Lourdes, onde, quatro anos após a definição do dogma, a própria
Virgem imaculada confirmou sobrenaturalmente, por aparições, conversas e
milagres, a declaração do doutor supremo". 16
11. Ainda hoje nos
volvemos para o célebre santuário que se prepara para acolher nas margens do
Gave a multidão dos peregrinos do centenário. Se, desde há um século, ardentes
súplicas, públicas e privadas, pela intercessão de Maria, ali têm obtido de
Deus tantas graças de cura e de conversão, temos a firme confiança de que neste
ano jubilar nossa Senhora quererá ainda com largueza corresponder à expectativa
de seus filhos; mas temos sobretudo a convicção de que ela nos exorte a
recolhermos as lições espirituais das aparições e a enveredarmos pela trilha
que ela tão claramente nos traçou.
II. AS LIÇÕES ESPIRITUAIS DAS APARIÇÕES
12. Essas lições, eco fiel
da mensagem evangélica, fazem ressaltar de maneira impressionante o contraste
que opõe os juízos de Deus à vã sabedoria deste mundo. Numa sociedade que não
tem lá muita consciência dos males que a corroem, numa sociedade que vela as
suas misérias e as suas injustiças sob aparências prósperas, brilhantes e
descuidosas, a Virgem imaculada, por quem o pecado jamais roçara, manifesta-se
à uma menina inocente. Com compaixão maternal percorre com o olhar este mundo
redimido pelo sangue de seu Filho, onde, infelizmente, o pecado faz cada dia
tantas devastações, e por três vezes lança o seu apelo premente:
"Penitência, penitência, penitência!" Gestos expressivos são, mesmo,
pedidos: "Ide beijar a terra em penitência pelos pecadores". E ao
gesto há que juntar a súplica: "Rogareis a Deus pelos pecadores". Tal
como no tempo de João Batista, tal como no início do ministério de Jesus, a
mesma injunção, forte e rigorosa, dita aos homens a trilha da volta a Deus:
"Arrependei-vos" (Mt 3, 2; 4, 17). E quem ousaria dizer que esse
apelo à conversão do coração perdeu, nos nossos dias, a sua actualidade?
13. Mas poderia a Mãe de
Deus vir a seus filhos senão como mensageira de perdão e de esperança? Já a
água lhe jorra aos pés: "Ó vós todos que tendes sede, vinde às águas e
recebereis do Senhor a salvação". 17 Àquela fonte onde, dócil,
Bernardete foi a primeira a ir beber e lavar-se, afluirão todas as misérias da
alma e do corpo. "Lá fui, lavei-me e vi" (Jo 9,11), poderá responder,
como o cego do evangelho, o peregrino agradecido. Mas, tal como para as turbas
que se comprimiam em volta de Jesus, a cura das chagas físicas ali fica sendo,
ao mesmo tempo que um gesto de misericórdia, o sinal do poder que o Filho do
Homem tem de perdoar os pecados (cf. Mc 2,10). Junto a gruta bendita, a Virgem
nos convida, em nome de seu divino Filho, à conversão do coração e à esperança
do perdão. Escutá-la-emos?
Enveredar pela trilha que
nossa Senhora nos traçou
14. Nessa humilde resposta
do homem que se reconhece pecador reside a verdadeira grandeza deste ano
jubilar. Que benefícios não estaríamos no direito de esperar para a Igreja se
cada peregrino de Lourdes - e mesmo todo cristão unido de coração às
celebrações do centenário - realizasse primeiramente em si mesmo essa obra de
santificação, "não em palavras e de língua, mas em atos e em verdade"
(1 Jo 3, 18)? Tudo, aliás, a isso ali o convida, pois em parte alguma, talvez,
tanto quanto em Lourdes, a gente se sente levado ao mesmo tempo à oração, ao
esquecimento de si e à caridade. A vermos a dedicação dos padioleiros e a paz
serena dos doentes; a verificarmos a fraternidade que congrega numa mesma
invocação fiéis de todas as origens; a observarmos a espontaneidade do auxílio
mútuo e o fervor, sem afetação, dos peregrinos ajoelhados diante da gruta, os
melhores são empolgados pelo atractivo de uma vida mais totalmente dada ao
serviço de Deus e de seus irmãos; os menos fervorosos tomam consciência da sua
tibieza e reencontram o caminho da oração; não raras vezes os pecadores mais
empedernidos e os próprios incrédulos são tocados pela graça, ou, ao menos, se
são leais, não ficam insensíveis ao testemunho daquela "multidão de
crentes que têm um só coração e uma só alma" (At 4, 32).
15. Geralmente,
entretanto, essa experiência de alguns breves dias de peregrinação não basta,
por si só, para gravar em caracteres indeléveis o apelo de Maria a uma
autêntica conversão espiritual. Por isso exortamos os pastores das dioceses e
todos os sacerdotes a rivalizarem em zelo para que as peregrinações do
centenário se beneficiem de uma preparação, de uma realização e sobretudo de
amanhãs, tanto quanto possível propícios, a uma ação profunda e duradoura da
graça. O retorno a uma prática assídua dos sacramentos, o respeito da moral
cristã em toda a vida, o ingresso, enfim, nas fileiras da Ação católica e das
diversas obras recomendadas pela Igreja: só nestas condições - não é verdade? -
o importante movimento de multidões previsto em Lourdes para o ano de 1958
dará, segundo a própria expectativa da Virgem imaculada, os frutos de salvação
tão necessários à humanidade presente.
16. Por mais primordial,
porém, que ela seja, a conversão individual do peregrino não poderia, aqui,
bastar. Neste ano jubilar, exortamo-vos, caros filhos e veneráveis irmãos, a
suscitardes entre os fiéis confiados aos vossos cuidados um esforço coletivo de
renovação cristã da sociedade, em resposta ao apelo de Maria: "Que os
espíritos obcecados... sejam iluminados pela luz da verdade e da justiça",
já pedia Pio XI por ocasião das festas marianas do jubileu da redenção;
"que os que se transviam no erro sejam reconduzidos ao reto caminho, que
uma justa liberdade seja em toda parte concedida à Igreja, e que uma era de
concórdia e de verdadeira prosperidade se levante sobre todos os povos" 18.
17. Ora, o mundo, que
tantos e tão justos motivos de ufania e de esperança oferece nos nossos dias,
conhece também uma terrível tentação de materialismo, muitas vezes denunciada
pelos nossos predecessores e por nós mesmos. Esse materialismo não está somente
na filosofia condenada que preside à política e à economia de uma porção da
humanidade; manifesta-se também no amor do dinheiro, cujas devastações se
amplificam à medida dos empreendimentos modernos, e que, infelizmente, comanda
tantas determinações que pesam sobre a vida dos povos; traduz-se pelo culto do
corpo, pela procura excessiva do conforto e pela fuga de toda austeridade de
vida; induz ao desprezo da vida humana, daquela, mesmo, que é destruída antes
de ver a luz; está na demanda desenfreada do prazer, que se ostenta sem pudor e
que mesmo, pelas leituras e pelos espetáculos, tenta seduzir almas ainda puras;
está na indiferença para com seu irmão, no egoísmo que o esmaga, na injustiça
que o priva dos seus direitos, numa palavra, nessa concepção da vida que regula
tudo em vista somente da prosperidade material e das satisfações terrenas.
"Minha alma, dizia um rico, tens quantidade de bens em reserva por longo
tempo; repousa, come, bebe, leva vida regalada. Mas Deus lhe diz: Insensato, esta
noite mesmo vão pedir-te a tua alma" (Lc 12, 19-20).
18. A uma sociedade que,
na sua vida pública, não raras vezes contesta os direitos supremos de Deus, que
quereria ganhar o universo ao preço de sua alma (cf. Mc 8, 36), e que assim
correria à sua perdição, a Virgem maternal lançou como que um brado de alarme.
Atentos ao seu apelo, ousem os sacerdotes a pregar a todos, sem temor, as
grandes verdades da salvação. Com efeito, não há renovação durável senão
fundada nos princípios infrangíveis da fé, e pertence aos sacerdotes formar a
consciência do povo cristão. Assim como, compassiva para com as nossas
misérias, mas clarividente sobre as nossas verdadeiras necessidades, a
Imaculada vem aos homens para lhes lembrar as diligências essenciais e austeras
da conversão religiosa, devem os ministros de Deus, com sobrenatural segurança,
traçar às almas a estrada estreita que conduz à vida (cf. Mt 7, 14). Fá-lo-ão
sem esquecer de que espírito de doçura e de paciência necessitam (cf. Lc 9,
55), mas sem nada quererem apelar das exigências evangélicas. Na escola de
Maria aprenderão a só viver para dar Cristo ao mundo, mas, se também preciso,
aprenderão a esperar com fé a hora de Jesus e a permanecer ao pé da cruz.
18. Em torno aos seus
sacerdotes, devem os fiéis colaborar nesse esforço de renovação. Lá onde a
Providência o colocou, quem é que não pode fazer algo mais pela causa de Deus?
O nosso pensamento volve-se primeiro para a multidão das almas consagradas,
que, na Igreja, se dedicam a inúmeras obras de bem. Os seus votos de religião
aplicam-nas mais do que outras a lutar vitoriosamente, sob a égide de Maria,
contra o desencadear, no mundo, dos apetites imoderados de independência, de
riqueza e de gozo; por isso, ante o apelo da Imaculada, ao assalto do mal
quererão elas opor-se pelas armas da oração e da penitência e pelas vitórias da
caridade. O nosso pensamento volve-se igualmente para as famílias cristãs, para
conjurá-las a permanecerem fiéis à sua insubstituível missão na sociedade.
Consagrem-se elas, neste ano jubilar, ao coração imaculado de Maria! Este ato
de piedade será para os esposos um auxílio espiritual precioso na prática dos
deveres da castidade e da fidelidade conjugais; conservará na sua pureza o
ambiente do lar, onde crescem os filhos; bem mais, da família vivificada pela
sua devoção mariana, fará uma célula viva da regeneração social e da penetração
apostólica. E certamente, para além do círculo familiar, as relações
profissionais e cívicas oferecem aos cristãos cuidadosos de trabalhar na renovação
da sociedade um campo de ação considerável. Congregados aos pés da Virgem,
dóceis às suas exortações, eles lançarão primeiro sobre si mesmos um olhar
exigente, e quererão extirpar da sua consciência os juízos falsos e as reações
egoístas, temendo a mentira de um amor de Deus que não se traduza em amor
efetivo de seus irmãos (cf.1 Jo 4, 20). Cristãos de todas as classes e de todas
as nações, procurarão encontrar-se na verdade e na caridade, banir as
incompreensões e as suspeitas. Sem dúvida, enorme é o peso das estruturas
sociais e das pressões econômicas que se faz sentir sobre a boa vontade dos
homens e que não raro a paralisa. Mas, se, como nossos predecessores e nós
mesmo com insistência o frisamos, é verdade que a questão da paz social e
política é, no homem, primeiramente uma questão moral, reforma nenhuma é
frutuosa, acordo algum é estável, sem uma mudança e uma purificação dos
corações. Lembra-o a todos a Virgem de Lourdes neste ano jubilar!
20. E se, na sua
solicitude, Maria se curva com alguma predileção sobre alguns de seus filhos,
não é, caros filhos e veneráveis irmãos, sobre os pequenos, sobre os pobres e
sobre os doentes, os quais Jesus tanto amou? "Vinde a mim vós todos que
estais cansados e onerados, e eu vos aliviarei", parece ela dizer com seu
divino Filho (Mt 11, 28). Ide a ela, vós a quem a miséria material esmaga, vós
sem defesa ante os rigores da vida e a indiferença dos homens; ide a ela, vós a
quem ferem os lutos e as provações morais; ide a ela, caros doentes e enfermos,
que em Lourdes sois verdadeiramente recebidos e honrados como membros
padecentes de nosso Senhor; ide a ela, e recebei a paz do coração, a força do
dever cotidiano, a alegria do sacrifício oferecido. A Virgem imaculada, que
conhece os encaminhamentos secretos da graça nas almas e o trabalho silencioso
desse fermento sobrenatural do mundo, sabe de que valor são aos olhos de Deus
os vossos sofrimentos unidos aos do Salvador. Podem eles grandemente concorrer,
disso não duvidamos, para essa renovação cristã da sociedade que de Deus
imploramos pela poderosa intercessão de sua Mãe. Que, a rogo dos doentes, dos
humildes, de todos os peregrinos de Lourdes, Maria volva igualmente o seu olhar
materno para aqueles que ainda permanecem fora do redil único da Igreja, para
os congregar na unidade! Lance o seu olhar sobre aqueles que buscam a verdade e
dela têm sede, para os conduzir à fonte das águas vivas! Percorra, enfim, com o
olhar esses continentes imensos e essas vastas zonas humanas onde,
infelizmente, Cristo é tão pouco conhecido, tão pouco amado, e obtenha para a
Igreja a liberdade e a alegria de, em todos os lugares, sempre jovem, santa e
apostólica, corresponder à expectativa dos homens!
21. Querereis ter a
bondade de vir...", dizia a ss. Virgem a Bernardete. Esse convite discreto
que não força, que se dirige ao coração e solicita com delicadeza uma resposta
livre e generosa, propõe-no de novo a Mãe de Deus aos seus filhos da França e
do mundo. Sem se impor, ela os preme a reformar-se a si próprios e a trabalhar
com todas as suas forças na salvação do mundo. Não hão de os cristãos ficar
surdos a esse apelo; irão a Maria. E é a cada um deles que, no termo desta
carta, quiséramos dizer com s. Bernardo: "Nos perigos, nas angústias, nas
incertezas, pensa em Maria. ... Seguindo-a não te perderás; rezando para ela
não desesperarás; pensando nela não te enganarás. Se ela te segurar não cairás;
se ela te proteger não temerás; se ela te guiar, não te cansarás; se ela te
conceder os seus favores, chegarás ao teu fim...". 19
22. Temos confiança, caros
filhos e veneráveis irmãos, de que Maria atenderá à vossa oração e à nossa.
Pedimos-lho nesta festa da Visitação, bem própria para celebrar aquela que, há
um século, dignou-se de visitar a terra da França. E, convidando-vos a cantar a
Deus, com a Virgem imaculada, o "Magnificat" da vossa gratidão, chamamos
sobre vós mesmos e sobre os vossos féis, sobre o santuário de Lourdes e sobre
os seus peregrinos, sobre todos aqueles que arcam com a responsabilidade das
festas do centenário, a mais larga efusão de graças, em penhor das quais, na
nossa constante e paternal benevolência, vos concedemos de todo coração a
bênção apostólica.
Dado
em Roma, junto a São Pedro, na festa da Visitação da Santíssima Virgem, no dia
2 de Julho do ano de 1957, XIX do nosso pontificado.
PIO
PP. XII
_________________________________________
Notas:
1 Carta de 12 de julho de 1914: AAS
6(1914), p. 376.
2 Discurso de 28 de abril de 1935 em
Lourdes: Eug. Card. Pacelli, Discursos e Panegíricos, 2° ed., Vaticano,1956, p.
435.
3 Ibidem, p. 437.
4 Ofício da festa das Aparições, Hino
das II Vésperas.
5 Decreto De Tuto para a canonização
de santa Bernardete, 2 de julho de 1933: AAS 25(1933), p. 377.
6 Carta de 4 de setembro de 1869 a
Henri Lasserre: Arquivo secreto vaticana, Ep. lat. an.1869, n. 388, f. 695.
7 Ct 2, 13-14. Gradual da Missa da
festa das Aparições.
8 Breve de 8 de setembro de 1901: Acta
Leonis XIII, vol. 21, pp.159-160.
9 Carta encíclica Ad diem illum, de 2
de fevereiro de 1904: Acta Pii X, vol. 1, p.149.
10 Carta de 12 de julho de 1914: AAS
6(1914), p. 377.
11 Breve de 25 de abril de 1911: Arch.
Brev. Ap., Pius X, an.1911, Div. Lib. IX, pars I, f. 337.
12 Breve de 11 de janeiro de 1933:
Arch. Brev. Ap. Pius XI, Ind. Perpet, f.128.
13 Ibidem.
14 Carta encíclica Fulgens corona, de
8 de setembro de 1953: AAS 45(1953), p. 578.
15 Ibidem.
16 Constituição apost. Omnium
Ecclesiarum, de 15 de agosto de 1954: AAS 46,1954, p. 567.
17 Ofício da festa das Aparições. 1°
Responso do III Noct.
18 Carta de 10 de janeiro de 1935; AAS
27, p. 7.
19 Hom. II super Missus est: PL 183,
70-71.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






