23/01/2018

Dois mil anos de espera do Senhor

Jesus ficou na Hóstia Santa por nós! Para permanecer ao nosso lado, para nos sustentar, para nos guiar. – E amor só se paga com amor. Como poderemos deixar de ir ao Sacrário, todos os dias, ainda que por uns minutos apenas, para Lhe levar a nossa saudação e o nosso amor de filhos e de irmãos? (Sulco, 686)


O nosso Deus decidiu ficar no Sacrário para nos alimentar, para nos fortalecer, para nos divinizar, para dar eficácia ao nosso trabalho e ao nosso esforço. Jesus é simultaneamente o semeador, a semente e o fruto da sementeira: o Pão da vida eterna.

(...) Assim espera o nosso amor, desde há quase dois mil anos. É muito tempo e não é muito tempo; porque, quando há amor, os dias voam.


Vem-me à memória uma encantadora poesia galega, uma das cantigas de Afonso X, o Sábio. É a lenda de um monge que, na sua simplicidade, suplicou a Santa Maria que o deixasse contemplar o céu, ainda que fosse só por um instante. A Virgem acolheu o seu desejo, e o bom monge foi levado ao Paraíso. Quando regressou, não reconhecia nenhum dos moradores do mosteiro: a sua oração, que lhe tinha parecido brevíssima, tinha durado três séculos. Três séculos não são nada, para um coração que ama. Assim compreendo eu esses dois mil anos de espera do Senhor na Eucaristia. É a espera de Deus, que ama os homens, que nos procura, que nos quer tal como somos – limitados, egoístas, inconstantes – mas com capacidade para descobrirmos o seu carinho infinito e para nos entregarmos inteiramente a Ele. (Cristo que passa, 151)

Temas para reflectir e meditar

Soberba


O homem dominado pela soberba é um ladrão pior que os outros, porque rouba não bens terrenos, mas a glória de Deus (...).

Com efeito, segundo o Apóstolo, "por nós mesmos não podemos fazer obra boa, nem sequer ter um bom pensamento" (cf. 2 Cor 3, 5) (...). E já que isto é assim, quando fizermos algum bem, digamos ao Senhor:

Devolvemos-te, Senhor, o que da Tua mão recebemos (1 Cron. 29, 14).


(SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Selva de matérias predicables, 2 6, trad AMA)



Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 3, 31-35

31 Nisto chegam sua mãe e seus irmãos que, ficando do lado de fora, o mandam chamar. 32 A multidão estava sentada em volta dele, quando lhe disseram: «Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram.» 33 Ele respondeu: «Quem são minha mãe e meus irmãos?» 34 E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse: «Aí estão minha mãe e meus irmãos. 35 Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»

Comentário:

Talvez que nem sempre nos demos conta da extraordinária importância – poderia dizer nobreza – da nossa condição humana:
Termos Jesus Cristo como amigo íntimo porque assim nos quer em máximo grau: deu a vida por todos e cada um de nós; mas, mais que isso, que já é muito, sermos da Sua Família como Sua Santíssima Mãe.
Ela gerou-O no seu seio virginal e, a nós, no seu incomensurável amor.

(ama, comentário sobre Mc 3, 31-35, Malta, 28.01.2015)








Leitura espiritual

CAPÍTULO IV

«ELE É O VERDADEIRO DEUS
                          E A VIDA ETERNA»            

Divindade de Cristo e anúncio da eternidade

3. Passar do dogma para a vida

4. Eternidade, eternidade!

…/2

Secularismo significa esquecer, ou pôr entre parêntesis, o desejo eterno do homem, agarrando-se exclusivamente ao ”saeculum”, isto é, ao tempo presente e a este mundo.
É considerado a heresia mais difundida e insidiosa da era moderna e, infelizmente, de um modo ou de outro, todos somos ameaçados por ele.
Também nós que, em teoria, lutamos contra o secularismo somos frequentemente seus cúmplices ou vítimas.
Somos “mundanizados”; perdemos o sentido, o gosto e a familiaridade daquilo que é eterno.
Sobre a palavra “eternidade”, ou “o além” (que é o seu equivalente em termos espaciais”, desabou primeiramente a conjectura marxista, segundo a qual desvia do compromisso histórico para transformara o mundo e melhorar as condições da vida presente e é, por isso, uma espécie de alibi e de evasão.
Pouco a pouco, com a desconfiança, caiu sobre ela o esquecimento e o silêncio.
O materialismo e o consumismo fizeram o resto na sociedade opulenta, fazendo até parecer estranho ou quase inconveniente que se fale ainda de eternidade entre pessoas cultas e que acompanham a evolução dos tempos.
Que é que hoje ousa ainda falar dos “Novíssimos”, isto é, das últimas coisas – Morte, Juízo, Inferno, Paraízo – que são, respectivamente, o começo e as formas da eternidade?
Quando foi que nós ouvimos a última pregação sobre avida eterna?
E, no entanto, pode dizer-se que Jesus, no Evangelho, não fala de outra coisa.

Qual é a consequência prática deste eclipse a ideia de eternidade?
S. Paulo refere a intenção daqueles que não creem na ressurreição da morte:
«Comamos, bebamos, que amanhã morreremos» [i].
O desejo natural de viver “sempre”, deformado, torna-se desejo, ou frenesim, de viver “bem”, isto é, agradavelmente.
A qualidade resolve-se na quantidade.
Acaba por faltar uma das motivações mais eficazes da vida moral.

Este enfraquecimento da ideia de eternidade não se processa, por ventura, do mesmo modo, em todos os crentes e não leva a uma conclusão tão grosseira como a que é referida pelo Apóstolo; mas opera também neles, diminuindo-lhes sobretudo a capacidade para enfrentar o sofrimento com coragem.
Imaginemos um homem com uma balança na mão: uma daquelas balanças que se seguram com uma só mão e têm num lado um prato em que se colocam os objectos e, no outro, uma barra a qual regista o peso ou a medida,
Se cair por terra ou se se perder a medida, tudo aquilo que se coloca no prato faz levantar a barra e fazer pender a balança.
A mais ínfima coisa adquire supremacia, até mesmo um punhado de penas [ii].

Pois bem, assim somos nós, pois que a isso estamos limitados.
Perdemos o peso, a medida de tudo o que é a eternidade e, assim, as coisas e os sofrimentos deste mundo deitam facilmente por terra a nossa alma.
Tuod nos parece demasiado pequeno e excessivo.
Jesus dizia:
«Se a tua mão te escandaliza, corta-a; se o teu olho te escandaliza, arranca-o, é melhor para ti entrar na vida com uma só mão ou um só olho, do que, tendo as duas mãos ou os dois olhos, seres lançado no fogo eterno [iii]»
Vê-se aqui como actua a medida da eternidade quando ela está presente e operante, e o que ela é capaz de estimular.
Nós, porém, tendo perdido de vista a eternidade, achamos até excessivo que nos seja pedido para fecharmos os olhos perante um espectáculo inconveniente.

Ao contrário, quando estiveres prostrado, ao ponto de te sentires esmagado pelas tribulações, lança com a fé, para o outro lado da balança, o peso desmesurado que é o pensamento da eternidade; verás, então, que o peso das agruras se tornará mais leve e suportável.
Digamos a nós mesmos:
“Que é isto comparado com a eternidade? Mil anos são como um só dia” [iv].
São “como o dia de ontem que passou, como um turno da vigília da noite” [v].
Mas porque digo eu “um só dia”?
São um instante, ainda menos que um sopro.

A propósito de pesos e de medidas, recordemos o que diz S. Paulo a quem coube a sorte de ter de sofrer uma medida invulgarmente abundante.
“Porque o que presentemente é para nós tribulação momentânea e ligeira, produz em nós um peso eterno de uma extraordinária e incomparável glória, não atendendo nós às coisas que se vêm, mas sim às que se não vêm; porque as coisas que se vêm são passageiras e as que se não vêm são eternas” [vi].
O peso da tribulação é “ligeiro” precisamente porque é momentâneo, e o peso da glória é “extraordinário” porque é “eterno”.
Por isso o próprio Apóstolo pôde dizer:
«Eu tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória vindoura, que se manifestará em nós»[vii].


(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] 1Cor 15,32
[ii] Cfr. S. Kierkegaard, O Evangelho do sofrimento,  6
[iii] Cfr. Mt 18,8-9
[iv] 2 Pd 3,8
[v] Sl, 90,4
[vi] 2Cor 4,17-18
[vii] Rm 8,18

Doutrina – 395

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

A Igreja é una, santa, católica e apostólica

173. Como é que a Igreja é missionária?



Guiada pelo Espírito Santo, a Igreja continua no curso da história a missão do próprio Cristo. Os cristãos, portanto, devem anunciar a todos a Boa Nova trazida por Cristo, seguindo o seu caminho, dispostos também ao sacrifício de si mesmos até ao martírio.

Hoy el reto del amor es que tú también seas luz.

LA LUZ PASCUAL  

Una de las ocupaciones de las sacristanas al acabar cada celebración es "arreglar las velas". Es muy importante: aparte de prolongar su duración, también mantienen su calidad y dignidad.

Cuando las velas del altar terminan su función, por todo el tiempo que han estado prendidas, la mecha de cada vela se hace grande, consumiendo cada vez más cera, y produciendo humo, que afecta a las gargantas.

El remedio lleva unos minutos, pero es muy sencillo. Las sacristanas soplamos con cuidado la vela y, acto seguido, se recorta un poquito la mecha, se añade algo de cera... ¡y listo!

Sin embargo, ahora que estamos en Pascua, nuestra misión se amplía de forma especial: arreglar el Cirio Pascual.

Se trata de un "ritual" constante que deseo aprovechar: cojo el Cirio y lo saco de la capilla a la sacristía, para poder trabajar mejor.

Cuando, después de Laudes, llevo el Cirio a la sacristía, apenas llegan los primeros rayos del nuevo amanecer. El Cirio va iluminando el pasillo con su luz cálida, vibrante, alegre.

Cada paseo con él en las manos siento que es acercamiento a Cristo Resucitado. Al llevarlo con reverencia y cariño, voy reviviendo la obra que hace el Señor con nosotros.

Él, la columna de fuego sólida y firme, está ofreciéndonos la Vida, iluminando y calentando nuestro corazón, cantando en cada Aleluya que nos ama. Podemos ver que todo es oscuridad a nuestro alrededor, pero Cristo es el Fuego vivo que nunca se apaga. Por muy densas que sean las tinieblas, Él siempre nos ilumina el siguiente paso. Yendo de su mano, ¡siempre estamos rodeados de luz!

Por eso, hoy el reto del amor es que tú también seas luz. Te invito a que pares unos minutos con Cristo antes de empezar tu Jornada. Pídele poder sentir su Presencia a tu lado todo el día... ¡y trasmite su luz! De la mano del Señor, hoy sonríe a tres personas. ¡Puede ser el rayo de luz que ilumine su día!


VIVE DE CRISTO

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





22/01/2018

Um novo ano: recomeçar

“A vida cristã é um constante começar e recomeçar, uma renovação em cada dia.” (Cristo que passa, 114).


Desde a nossa primeira decisão consciente de viver integralmente a doutrina de Cristo, é certo que avançámos muito pelo caminho da fidelidade à sua Palavra. Mas não é verdade que restam ainda tantas coisas por fazer? Não é verdade que resta, sobretudo, tanta soberba? É precisa, sem dúvida, uma outra mudança, uma lealdade maior, uma humildade mais profunda, de modo, que, diminuindo o nosso egoísmo, cresça em nós Cristo, pois illum oportet crescere, me autem minui, é preciso que Ele cresça e que eu diminua. (...)

A conversão é coisa de um instante; a santificação é tarefa para toda a vida. A semente divina da caridade, que Deus pôs nas nossas almas, aspira a crescer, a manifestar-se em obras, a dar frutos que correspondam em cada momento ao que é agradável ao Senhor. Por isso, é indispensável estarmos dispostos a recomeçar, a reencontrar – nas novas situações da nossa vida – a luz, o impulso da primeira conversão. E essa é a razão pela qual havemos de nos preparar com um exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor para podermos conhecê-Lo melhor e conhecer-nos melhor a nós mesmos. Não há outro caminho para nos convertermos de novo. (Cristo que passa, 58)


Ao falar diante do presépio sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira, envolto em paninhos sobre a palha da manjedoura, e, enquanto ainda menino e não diz nada, vê-Lo já como doutor, como mestre. Preciso de considerá-Lo assim, porque tenho de aprender d’Ele. E para aprender d’Ele é necessário conhecer a sua vida: ler o Santo Evangelho, meditar no sentido divino do caminho terreno de Jesus.

Na verdade, temos de reproduzir na nossa, a vida de Cristo, conhecendo Cristo à força de ler a Sagrada Escritura e de a meditar, à força de fazer oração, como agora estamos fazendo diante do presépio. É preciso entender as lições que Jesus nos dá já desde menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens.

Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida corrente e ordinária, tem um sentido divino. Por muito que tenhamos pensado nestas verdades, devemos encher-nos sempre de admiração ao pensar nos trinta anos de obscuridade que constituem a maior parte da passagem de Jesus entre os seus irmãos, os homens. Anos de sombra, mas, para nós, claros como a luz do Sol. Mais: resplendor que ilumina os nossos dias e lhes dá uma autêntica projecção, pois somos cristãos correntes, com uma vida vulgar, igual à de tantos milhões de pessoas nos mais diversos lugares do Mundo. (Cristo que passa, 14)


Vocês sabem por experiência pessoal – e têm-me ouvido repetir com frequência, para evitar desânimos – que a vida interior consiste em começar e recomeçar todos os dias; e notam no vosso coração, como eu noto no meu, que precisamos de lutar continuamente. Terão observado no vosso exame – a mim acontece-me o mesmo: desculpem que faça referências a mim próprio, mas enquanto falo convosco vou pensando com Nosso Senhor nas necessidades da minha alma – que sofrem repetidamente pequenos reveses, que às vezes parecem descomunais, porque revelam uma evidente falta de amor, de entrega, de espírito de sacrifício, de delicadeza. Fomentem as ânsias de reparação, com uma contrição sincera, mas não percam a paz. (Amigos de Deus, 13)


Para a frente, aconteça o que acontecer! Bem agarrado ao braço do Senhor, considera que Deus não perde batalhas. Se, por qualquer motivo, te afastas d'Ele, reage com a humildade de começar e de recomeçar; de fazer de filho pródigo todos os dias, inclusive repetidamente nas vinte e quatro horas do dia; de reconciliar o teu coração contrito na Confissão, verdadeiro milagre do Amor de Deus. Neste Sacramento maravilhoso, o Senhor limpa a tua alma e inunda-te de alegria e de força para não desanimares na tua luta e para voltares de novo sem cansaço a Deus, mesmo quando tudo te pareça obscuro. Além disso, a Mãe de Deus, que é também nossa Mãe, protege-te com a sua solicitude maternal e dá-te confiança no teu caminhar. (Amigos de Deus, 214)



Temas para reflectir e meditar

Obediência


A obediência implica sempre o sacrifício da nossa vontade, e isso explica suficientemente porque o homem tem repugnância em obedecer.

Obedecer é sempre ceder.


(GEORGES GHEVROT, Jesus e a Samaritana, Éfeso 1956 pg 176)




Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 3, 22-30

22 E os doutores da Lei, que tinham descido de Jerusalém, afirmavam: «Ele tem Belzebu!» E ainda: «É pelo chefe dos demónios que expulsa os demónios.» 23 Então, Jesus chamou-os e disse-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? 24 Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode perdurar; 25 e se uma família se dividir contra si mesma, essa família não pode subsistir. 26 Se, portanto, Satanás se levanta contra si próprio, está dividido e não poderá subsistir; é o seu fim. 27 Ninguém consegue entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens sem primeiro o amarrar; só depois poderá saquear-lhe a casa. 28 Em verdade vos digo: todos os pecados e todas as blasfémias que proferirem os filhos dos homens, tudo lhes será perdoado; 29 mas, quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca mais terá perdão: é réu de pecado eterno.» 30 Disse-lhes isto porque eles afirmavam: «Tem um espírito maligno.»

Comentário:

Este trecho de São Marcos demonstra bem até onde pode chegar o espírito retorcido e malévolo, a ausência critério e, até o simples senso comum.

Na ânsia de criticar, descobrir algo passível de reprovação chega-se ao extremo de apresentar argumentos sem nexo nem lógica.

Não interessa, o que não se quer entender e muito menos aceitar: tem de ser denegrido qualquer forma.

Também, hoje em dia não faltam estes "iluminados" por umas teorias e ideologias que pretendem ser a "nova ordem" pela qual o mundo se tem de reger.

Atenção às palavras de Cristo: tais pecados que revelam total ausência respeito devido a Deus e mantêm o homem voluntariamente afastado dele, não terão perdão!


(AMA, comentário sobre Mc 3, 22-30, Carvide, 27,01.2017)







Leitura espiritual

CAPÍTULO IV

«ELE É O VERDADEIRO DEUS
                          E A VIDA ETERNA»            

Divindade de Cristo e anúncio da eternidade

3. Passar do dogma para a vida

Como continua actual e preciosa esta “joia” da cristologia bíblica que está desabrochando, sob os nossos olhos, no tronco do dogma tradicional!
De repente, o dogma entra no âmbito da vida de cada homem.
Todavia, nem todos são ainda capazes nem estão preparados para notar a importância de se tornarem «participantes da natureza divina» [i].
Quem é que hoje em dia se exalta ainda, como acontecia no tempo de S. Gregório Nazianzeno, ao pensar que se tornará «por assim dizer, Deus?» [ii]

Porém, logo que reflectem nisso, todos sentem o dramatismo do tempo que passa e a precaridade da vida humana.
E observam como são verdadeiras para todos, indistintamente, as palavras com que um poeta descrevia a situação e o estado de espírito dos soldados entrincheirados, na frente, na primeira guerra mundial:

Estamos aqui
Como as folhas
Nas árvores no Outono.
                                     (G. Ungaretti)

Portanto, se hoje em dia nem todos estão sensibilizados para a perspectiva de se tornarem «participantes da natureza divina», pelo contrário, estão sensibilizados para a perspectiva de se tornarem (assim parafraseava S. Máximo, Confessor, a expressão de 2Pd1,4) «participantes da eternidade divina» [iii]

A um amigo que lhe censurava o seu ardente anseio pela eternidade, como se isso fosse uma forma de orgulho e de presunção, M.de Unamuno respondeu certa vez:
«Não digo que nós merecemos um além, nem que a lógica no-lo demonstra; digo só que temos necessidade dele, quer o mereçamos ou não, e isso basta. Digo que aquilo que passa não me satisfaz, que tenho sede de eternidade, e que, sem ela, tudo me é indiferente. Tenho sede, muita sede de eternidade! Sem ela não tenho alegria de viver, nada mais tem interesse. É muito fácil afirmar: ‘O que é preciso é viver, temos que nos contentar com a vida’. E aqueles que não estão contentes com ela?» [iv]
Não é quem deseja a eternidade que denota desprezar o mundo e a vida terrena, mas sim quem não a deseja:
«Gosto tanto de viver – escreveu o mesmo autor – que perder a vida me parece o pior dos males. Aqueles que gozam a vida, dia a dia, sem se importarem com o facto de terem que a perder um dia, não gostam verdadeiramente dela» [v]

«Para que serve – dizia também Stº Agostinho – viver bem se não é possível viver sempre?»
Mas como passar, então, do dogma para a vida, do amor “por si” ao “amor por mim” de Cristo?
Como fazer brotar o grito e a promessa: «Eternidade, eternidade!» daquilo que já meditámos sobre Cristo?
Trata-se de aplicar ao conceito de eternidade aquilo que os Padres afirmavam de divindade de Cristo, com a doutrina da “permuta”.
Eles gostavam de repetir frequentemente: «Deus fez-Se homem para que o homem se tornasse Deus» [vi].

Nós podemos dizer: a eternidade entrou no tempo para que o tempo pudesse obter a eternidade, não só para no-la mostrar em Si; tal como veio para nos dar a vida divina e não só para no-la mostrar em Si.
O salto da eternidade para o tempo torna possível o salto do tempo para a eternidade.
A esperança da nossa eternidade, é, por isso, parte integrante do dogma cristológico, e brota dele como sua finalidade e seu fruto.
A esperança da eternidade é o triunfo da fé na encarnação.

O Iluminismo tinha posto a célebre questão de como seria possível alcançar a eternidade, quando se está no tempo, e como seria possível dar um ponto de partida histórico para uma consciência eterna [vii].
Noutras palavras: como seria possível justificar a posição da fé cristã que promete uma vida eterna e ameaça com uma pena também eterna, por actos praticados no tempo.
A única resposta válida para este problema, chamado “nó górdio da fé cristã”, é a que se fundamenta na fé na encarnação de Deus.
Em Cristo, o eterno apareceu no tempo; Ele mereceu para o homem uma salvação eterna.
Perante Ele, portanto,  mas somente perante Ele – é possível colocar um acto que, embora praticado no tempo, determina a eternidade [viii].

Tal acto consiste, na prática, em crer na divindade de Cristo:
«Estas coisas que vos escrevo dizia o evangelista João – para que saibais que tendes a vida eterna, vós que credes no nome do Filho de Deus» [ix]; e ainda:
«Todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente» [x].
A fé na divindade de Cristo abre a porta da vida eterna, permite dar o salto infinito.
Perante Jesus Cristo, precisamente porque Ele é homem e Deus ao mesmo tempo, é possível tomar uma decisão que tem repercussões eternas.

4. Eternidade, eternidade!

Eis-nos chegados, agora ao momento em que é preciso colher finalmente o fruto de todo o caminho percorrido: a eternidade.
Vamos deter aqui a nossa reflexão. Iremos acercar-nos desta palavra, até a fazermos reviver. Iremos aquecê-la, por assim dizer, com o nosso hálito, a fim de que ela seja reanimada.
Porque eternidade é uma palavra morta; deixámo-la morrer, como se deixa morrer uma criança abandonada e que já não é amamentada.
Do mesmo modo que na caravela em busca de novos mundos, quando já não havia esperança alguma de chegar a uma meta, ressoou, de improviso, o brado do vigia: “Terra, terra!”, e assim é preciso que na Igreja ressoe também o brado: “Eternidade, eternidade!”.

Que terá sucedido a esta palavra que era antigamente o motor secreto, ou a vela que fazia mover a Igreja no tempo, que era o pólo de atracção do pensamento dos crentes, a “massa” que fazia erguer os corações, como a lua cheia faz levantar as águas na maré alta?
A lâmpada foi silenciosamente colocada sob o alqueire, e a bandeira dobrada, como num exército em retirada.
«O além tornou-se um gracejo, uma exigência tão incerta que não só já ninguém a respeita, como até já ninguém a põe em perspectiva, ao ponto que até nos diverte pensar que houve uma época em que esta ideia transformava toda a existência» [xi].

Este fenómeno tem um nome bem preciso. Definido em relação ao tempo, chama-se secularismo ou temporalismo; definido em relação ao espaço, chama-se imanentismo.
Este é, hoje, o momento em que a fé, depois de ter recebido uma cultura peculiar, deve mostrar também saber contestá-la desde o seu íntimo, levando-a a superar as suas barreiras arbitrárias e as suas incoerências.

(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] 2Pd 1,4
[ii] Cfr. S Gregório Nazianzeno, Oratio, 1,5 (Pg 35,398); 7,23 (PG 15,485 B), S. Basilio, De Spir, S., 9,23 (PG 90, 109 C).
[iii] S. Máximo, Confessor, Capita, I, 42 (PG 90, 1193).
[iv] M. Unamuno, «Cartas a J. Bundain».
[v] Ibidem, p. 150
[vi] Cfr. Stº Ireneu, Adv. Aher., III, 19,1, V, praef.; S.Máximo, Confessor. , Cap. Theol., 2,25 (PG90), 1136 B)
[vii] G. E. Lessing, Uber den Beweis des geistes und der kraft, ed. Lachmann, X, p. 36
[viii] Cfr. C. Fabro, Introd. Às obras de Kierkegard, op. Cit. P. XLVI.
[ix] 1Jo 5,13
[x] Jo 11,26
[xi] S. Kierkegaard, «Postilla conclusiva», 4, in Obras, op. cit., p.458

Diálogos apostólicos

O DIVÓRCIO – 6 

A. O PROBLEMA DO DIVÓRCIO


Pergunto:

Mas, se não há divórcio, não poderá manter relações sexuais.


Respondo:

Esta dificuldade não se costuma colocar no momento do divórcio. Todos sabem que é fácil encontrar relações sexuais e a pouca felicidade que essas relações proporcionam.



Devoción a la Virgen



El Papa pide a la Virgen de Guadalupe «defender nuestros pueblos de la colonización ideológica»